quarta-feira, 2 de abril de 2008

Sexo e liberdade de consciência: um diálogo

Esse post é uma extensão de um diálogo estabelecido com meu amigo Ricardo Wesley Borges - desde terras uruguaias - nos comentários de dois posts anteriores. É, portanto, uma tréplica de suas relevantes indagações e considerações. Quem quiser, leia-as nos comentários ao post anterior. Agradeço a ele por oportunizar isso.

De fato, Ricardo, por ter sido formatado em termos de conversa (informal, aberta, a partir de uma situação específica) antes de ser publicado aqui, esse texto deixa algumas margens que, confesso, são mesmo arriscadas, como essa questão da certeza de ferir ou não ferir a partir de um critério de julgamento pessoal. Concordo contigo, a comunidade deve ser tomada como critério hermenêutico, isto é, ponto a partir do qual nossas interpretações da Palavra são geradas. Mas ainda penso que a responsabilidade final recai sobre o indivíduo, porque a decisão, no âmbito da sexualidade, é pessoal. E isso não exclui o âmbito comunitário, pelo contrário, deve aproximar, pois a meu ver a liberdade de consciência paulina tem um duplo movimento: da consciência pessoal à consciência alheia, e da consciência alheia remetendo outra vez à consciência pessoal (veja o texto de 1Co 10.23-33 - que, diga-se de passagem, fala de comida e não de sexualidade).

A consciência está em permanente relação com o Espírito de Deus e a liberdade, no que discerne as coisas boas das que são más: "todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm" (v. 23). Assim como as obras têm por objeto os homens, a consciência não é outra coisa senão a “integridade interior do coração”, como diria Calvino. A consciência, nesse sentido, é quem revela ao sujeito se esse é livre naquilo que pensa e faz, ou se está cativo de alguma espécie de ciclo condicionante, engendrado, via de regra, pelo próprio pecado - e aqui está implicada a prática do sexo ou qualquer outra. Como diz um antigo provérbio: “A consciência é como mil testemunhas”. Antes que hajam testemunhas externas, a consciência já é uma testemunha. Uma coisa não exclui a outra. Creio que isso não tenha ficado explícito naquilo que pontuei.

Paulo, escrevendo a Tito, exorta a que este repreendesse os fiéis quanto a falsos mestres e a falsas doutrinas, “para que sejam sadios na fé e não se ocupem com fábulas judaicas, nem com mandamentos de homens desviados da verdade”. Em seguida, ele fecha com uma cara convicção no que diz respeito à liberdade de consciência: “Todas as cousas são puras para os puros; todavia, para os impuros e descrentes, nada é puro. Porque tanto a mente como a consciência deles estão corrompidas” (Tt 1:14-15).
Penso que o sexo foi criado por Deus para ser benção. E ser benção implica ser concebido num contexto de amor e responsabilidade, afinal de contas "tornar-se uma só carne" não é algo banal, embora em nosso mundo tenha se tornado. O que me encabula demais é que a igreja transformou a sexualidade em sua pedra de toque; ela tem as interpretações corretas e as vias certas a se seguir. Nada pode sair desse eixo, muito menos cabe questionamento. E assim, vamos transformando em maldição aquilo que Deus declarou como sendo benção. Cortamos as verdades de Deus do tamanho de nossa mente teológica auto-suficiente e assim perdemos a dimensão de honestidade intelectual, que deveria ser tão cara a qualquer cristão. Tão focados nos costumes e nos dogmas, nos omitimos de nos acercar da realidade e respondê-la com relevância.

Concordo com Paulo; o problema não está nas coisas, que são puras em si, está nas pessoas, que, tendo corrompidas suas consciências e corações, transformam em impuro o puro. Logo, o problema não é o sexo (antes, durante, depois, etc.), é quem o faz, com quem o faz, como o faz e com que motivação o faz. E se não há amor e responsabilidade, haverá pecado, seja dentro ou fora do "casamento". Em síntese é o que penso. O debate continua aberto, meu amigo Ricardo.
Saudades e saudações brasileñas.

Jonathan

2 comentários:

Ricardo Wesley M. Borges disse...

Beleza, mano, está sendo uma boa conversa.
Queria comentar um pouco do que você afirmou: "ainda penso que a responsabilidade final recai sobre o indivíduo, porque a decisão, no âmbito da sexualidade, é pessoal", para ver se eu entendi bem o seu ponto.
Percebo que você reage a interpretações e acercamentos "pastorais" no mínimo complicados que muitas igrejas fazem supostamente em nome de Deus e de suas Escrituras. Creio que está bem fazer isso, desde que obviamente todos nos incluamos nessa auto-crítica. Mas além de ser profeta (no sentido de denúncia) para "dentro de casa", seria bom que fôssemos mais firmes ao ser profetas para "fora de casa". Tentarei me explicar.
Ora, a mentalidade forte e que cresce e se cristaliza no mundo de hoje é a de que há temas que são absolutamente privados onde não devemos enfiar o nariz. Esse é o caso da sexualidade, quando crescentemente se afirma que "o que dois adultos fazem dentro de quatro paredes é assunto de ordem absolutamente privada, de decisão puramente pessoal". Afirma-se isso, com variantes, em variados temas da sexualidade, homossexualidade, transexualidade, orientação sexual, identidade de gênero, etc.
Veja uma variante na afirmação do interessante texto de Sam Harris que você postou: "Pelo visto, a sua principal preocupação é que o criador do universo ficará ofendido com algo que as pessoas fazem quando estão nuas."
O interessante é que quando você escreve posts sobre o tema, ou quando eu os comento, ou quando o Robinson escreve um livro, ou quando o Sam ou qualquer outro fala publicamente sobre como deve ser, estamos de certa forma "legislando" e influenciando (ou pelo menos buscando) a norma e o comportamento das pessoas nessa área "privada, pessoal".
Creio que devemos denunciar essa "mentalidade mundana" (obs: a mentalidade mundana pode estar no mundo ou dentro da igreja, mas isso você sabe melhor do que eu) que afirma que devemos manter uma redoma de vidro em volta de certos assuntos, não debatê-los ou buscar influenciar a formação das pessoas nessa área, por supostamente ser algo de caráter pessoal.
Para finalizar o longo (deculpe-me por isso) comentário: se as nossas experiências em comunidade são frustantes, legalistas, manipuladoras e opressivas, isso tudo que causa muito sofrimento não deve fazer com que fujamos da tão necessária tarefa de construir comunidades saudáveis, terapêuticas, abençoadoras, formadoras e restauradoras. Cada assunto no âmbito e espaço que mais convir. A sexualidade, creio eu, debatida e conversada em um espaço menor, de amigos da alma, grupos pequenos, com liberdade para me abrir e ser acolhido, afirmado ou corrigido se necessário (dentro da perspectiva do tal círculo hermenêutico comunitário), mas nunca quero ficar só, apenas com minha consciência e a de minha esposa. Ainda que difícil, creio que Deus nos chamou para essa experiência comunitária de vida, em tudo o que sou e faço.
Eu diria para o Sam que isso é para aliviar o sofrimento e experimentar vida melhor, e não o contrário.
Forte abraço, mano!

Jonathan Menezes disse...

Acho que estamos nos entendendo melhor nesse ponto, Ricardo. Creio que tenho sido muito mais profeta pra "dentro" que "pra fora", isso é verdade. Assumo sua crítica, que creio ter sido a todos nós. Preciso avançar nesse aspecto. Concordo contigo sobre a questão de legislar sobre a vida das pessoas - fazemos isso o tempo todo, seja para o bem o para o mal - e sobre a questão do público/privado. Me parece que há uma ausência de coragem e abertura pra tratar dessas questões comunitáriamente, como você defende e eu também. Logo, o que sobra muitas vezes é a margem, a clandestinidade. Precisamos romper urgentemente com isso, criando espaços, como esse, de abertura para o diálogo e discussões saudáveis que visem a edificação e crescimento mútuos. Enquanto o que existir estiver fora disso ou nem passar perto, creio que a mentalidade "mundana" da qual você fala continuará se propagando, seja dentro ou fora da igreja. Quanto ao Sam, creio que ele precisa conhecer um outro lado do cristianismo, menos moralista e opressor, pois me aperece que sua crítica se dirige muito mais à cultura farisaica e fundamentalista que predomina entre nós. Predomina, mas não é a única, graças a Deus. Obrigado, mais uma vez, mano, por sua importante colaboração.
Grande abraço!