sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Algumas máximas do Natal

Onde está a verdadeira magia do natal? Que história nós contaremos aos nossos filhos? No que devemos crer? O que devemos proclamar, e com que “espírito”?
1.
Natal é Deus intervindo na história de nossas vidas para transformar impossibilidade em possibilidade – SALVAÇÃO.
2.
Natal é tempo de “ações de graças”, mas precisamos lembrar que TUDO o que poderíamos receber por essas ações, já foi dado por Cristo – GRAÇA.
3.
Natal é tempo de voltar à manjedoura e relembrar em que condição o Senhor nos resgatou, e na qual Ele deseja que permaneçamos – HUMILDADE.
4.
A boa nova do natal é que Deus está criando e confirmando vida em contextos de impossibilidade, e atentando para o que ninguém atenta – MISERICÓRDIA.
5.
A boa nova do Natal é o extraordinário de Deus alcançando aquilo que é mais ordinário; é a encarnação do menino Deus segundo a humana condição – COMPAIXÃO.
6.
A nova vida que Deus cria em você e em mim, só pode ser plantada pelo Espírito. A boa nova do natal é que Somente o Espírito pode nos engravidar de Jesus, de sua salvação e liberdade – NOVO NASCIMENTO.

Acertadamente Eugene Peterson disse que “a salvação significa Deus fazendo por nós o que não podemos fazer por nós mesmos”. O que podemos fazer é apenas adorar. É o que Maria fez em seu cântico: não deu explicações lógicas e sistemáticas sobre a salvação em Deus, e sim testemunho de Deus, que em sua misericórdia alcançou sua serva, e adoração a Ele, pois Ele é a razão de ser do NATAL, e nada mais...

Nesse natal, peça para o Espírito renovar em seu coração esse reconhecimento; é tempo de celebrar o nome do Senhor pela sua fidelidade, pois Ele nunca nos deixa sozinhos na caminhada... Ele é o Emanuel, Deus de perto, Deus conosco!

Feliz natal!

Jonathan

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Quando a vida vira pura vaidade

Uma das questões do livro de Eclesiastes é: quando não estimamos a vida de modo devido, ela vira pura vaidade! “A criação”, disse Paulo, “está sujeita à vaidade” (Rm 8.20). “Estar sujeito” é igual a estar cativo, submisso, obediente a uma lei contra a qual não se pode lutar (no sentido de extinguir). Como diria o ditado, tirado de Eclesiastes: “Pau que nasce torto nunca se endireita” (Ec 1.15). Isto é, não há quem, bom ou mau, justo ou injusto, em maior ou menor escala, não esteja sujeito à vaidade.

Debruçamo-nos em experimentar a vida. Salomão se debruçou na experiência tanto de saber, quanto de sentir. Foi o maioral em Jerusalém em sabedoria, riqueza e experiências (Ec 1.18; 2.9; 1Rs 10.23); desejou a sabedoria desde o princípio (1Rs 3.9); aplicou-se em conhecer e saber, e uma das conclusões a que chegou foi: “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade” e é “correr atrás do vento”. A expressão “tudo é vaidade” aqui pode significar algumas coisas: o que é efêmero, transitório, fútil, enigmático, sem sentido.

E uma razão para esse “desespero”, mesmo em relação à sabedoria, foi dada: quem pensa sofre! “Pois quanto maior a sabedoria, maior o sofrimento; e quanto maior o conhecimento, maior o desgosto” (Ec 1.18). O filósofo Miguel de Unamuno parece se alinhar com essa perspectiva, ao afirmar: “A consciência é uma doença”. A benção da consciência é poder saber em que solo está pisando; a maldição é a incapacidade de mudar de solo apenas pelo “poder de saber”. Eis o paradoxo da sabedoria: o saber é superior à ignorância; mas quem sabe, além de sofrer mais, ainda é nivelado por baixo, pelas contingências da vida, com quem não está nem aí para o saber.

Então ele resolve mergulhar na futilidade: “Vamos lá, experimentar o prazer que a vida tem oferecer (Ec 2.1). Se a sabedoria não me possibilita estar no controle, me deixo ser levado. Ed René Kivitz lembrou bem da música do Cazuza, em seu O livro mais mal-humorado da Bíblia: “Vida louca vida, vida breve, já que eu não posso te levar quero que você me leve”. Assim ele se entrega a si mesmo: “Nunca disse não a mim mesmo; não me privei de nenhum impulso; disse sim ao prazer desenfreado” (2.10).

Um projeto egoísta e auto-suficiente se evidencia nas expressões “resolvi”, “decidi”, “juntei”, “lancei-me”, “comprei”, “engrandeci-me”, ao longo do relato do pregador. Ou seja, lançou-se no projeto da serpente... Até se deparar com o paradoxo do hedonismo: quanto maior a entrega ao prazer puro e simples, instantâneo, menos satisfação real e menor sentido há de se ter.

E diante dos dois paradoxos, ele dirá: eu “aborreço”, “desprezo”, “odeio” a vida (2.17). E quem não diria, diante da percepção de que ela não entrega exatamente aquilo que promete? Como o cristão pode viver no labirinto? Como pode enfrentar os paradoxos e a vaidade da vida? Primeiro, aprendendo a aceitar a nossa falta de controle sobre a vida. É mais honesto dizer “Eu não sei”. Segundo, aprendendo a valorizar o momento. Cada momento da vida pode ser único, cada experiência, singular. Terceiro, aprendendo que o prazer é bom, mas não ilimitado. Se passar do ponto, deixa de ser prazer e passa a ser dor, vaidade. Quarto, aprendendo que a felicidade não existe fora de Deus. “Porque Dele, por Ele e para Ele são todas as coisas”.

Essas contribuições, todas, estão em Eclesiastes. E soa tão inacabadas, quanto esse mesmo livro. E aí está a graça, daí o seu fascínio tremendo: deixar com que as perguntas falem tão alto que as respostas não possam ser simplistas, ou simplesmente não apareçam de cara, pois assim é a nossa vida debaixo do sol, não?

Jonathan

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Neste natal você precisa engravidar!

Maria... achou-se grávida pelo Espírito Santo” (Mateus 1.18).

Do ponto de vista secular, natal é uma festa religiosa como qualquer outra, onde se comemora o advento, a vinda do “menino Deus”. Mas por que celebrar a vinda de Deus se, durante todo o ano, tocamos nossas vidas como se ele não existisse? O que, de fato, as pessoas estão celebrando? Celebração por celebração existem tantas outras – aniversário, dia das mães, dos pais, das crianças, das mulheres, etc. Assim, o que faz – ou deveria fazer – do natal uma celebração tão especial?
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Para mim, o natal traz uma notícia especial: a de que, queiramos ou não, acreditemos ou não, não estamos sozinhos nesse mundo. Foi-nos enviado o Emanuel, que significa “Deus conosco”. O barco da história não está à deriva. Deus está nele com a gente. A salvação está hoje-já-aqui-presente. Deus, como diz uma canção, “não vive longe lá no céu sem se importar comigo”. Ele se encarnou para viver em e com a humanidade.
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Foi Jesus mesmo quem disse: “O reino está entre vocês”. Não de maneira estrondosa, como os grandes e pomposos reinados humanos, mas silenciosa e revolucionária. As visibilidades e sinais do reino são pessoas que levam a sério o chamado de Jesus e encharcam suas vidas e a de outras pessoas com amor, paz, justiça, solidariedade, equidade, liberdade, compaixão, enfim, a lista é grande. Então, por que ainda persiste esse sentimento todo fim de ano de que a mensagem do natal “cai no vazio”? Vazio que tem sua maior expressão quem sabe no consumismo, um dos deuses deste século. Porque, em muitas pessoas, mesmo as mais religiosas, Jesus ainda não nasceu. Pode ter nascido na história, mas ainda não no ser das pessoas. E o que é preciso acontecer antes do nascimento? Todos sabem que é a gravidez.
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Maria foi engravidada pelo Espírito de Deus. Tem gente que ainda conta a história da cegonha para seus filhos, e acho que, para muita gente de religião, “Jesus” veio pela cegonha, ou seja, não nasceu de fato, foi encomendado, é um “Cristo genérico”, parafraseando Eugene Peterson, ou um Jesus “Genésio”. Para que Jesus nasça em nós e para que o natal tenha sentido, precisamos nos deixar ser engravidados pelo Espírito. Somente ele pode nos engravidar de Jesus, do Deus conosco operando em nós aqui e agora. O sacerdote (padre, pastor, xamã, guru, pai de santo, etc.) não é capaz, nem a religião, nem as boas obras, nenhuma criatura, nenhum rito, culto, sacrifício, nada. A nova vida que Deus cria em você e em mim, só pode ser plantada pelo Espírito. A boa nova do natal é que Somente o Espírito pode nos engravidar de Jesus, de sua salvação e liberdade.
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Por isso, deixe o Espírito te engravidar da vida plena: de liberdade, de sonhos, de projetos de vida que sejam um convite para que o “Deus conosco” esteja em todos eles, no próximo ano e para o resto de sua vida. Pense nisso, e abra de uma vez por todas sua vida para que o espírito de Deus te engravide de Jesus!

Grande beijo e um feliz natal!

Jonathan

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Ecumenismo, diálogo e celebração das diferenças

É certo, para fins cognitivos e práticos, que encontro e diálogo não existem para negociar questões fundamentais de fé, mas serve para potencializá-las. Aquele que tem segurança a respeito de sua própria identidade não tem de ter medo do diálogo. Dessa forma, o ecumenismo – do grego oikomene, toda terra habitada – brota da consciência de que todos os cristãos possuem uma militância em comum: o reino de Deus.

O reino é a causa que reúne os diferentes; quem vive nele e por ele, tem a percepção de que a oikos (casa) do outro é também a sua, e pode se tornar um melhor lugar para todos se aprendermos na prática o simples (e complexo ao mesmo tempo) ensinamento de Jesus: ame seu próximo como a si mesmo.

O fim maior do ecumenismo consiste em edificar e validar o testemunho cristão no mundo. Como observou certa vez um teólogo luterano, se atentássemos à unidade nas coisas essenciais, à liberdade nas não-essenciais, e o amor em todas as coisas, nossas relações talvez não estivessem na melhor situação possível, mas com certeza estariam numa melhor situação. E, acrescento: a igreja não cairia no descrédito em que, infelizmente, tem caído nos últimos tempos perante a sociedade civil.

Uma das barreiras ao ecumenismo é esse nosso apego descabido às coisas e às instituições, deixando as pessoas em segundo plano. Na bíblia vemos um Deus irado contra as instituições (cujos propósitos são deslocados) e que ama sobremaneira o ser humano. Por outro lado, temos invertido esse princípio: amamos as instituições e odiamos os homens. A instituição deve existir em função do humano e não o contrário.

Ser ecumênico é ser totalmente apaixonado por tudo o que toca o humano, à medida que se é tomado por uma paixão pelo Senhor. Quem conhece a Deus precisa, necessariamente, reconhecê-Lo no outro. Não há dissociação: nossas relações humanas são um reflexo mais que real de nosso relacionamento com Deus. Quem diz que ama a Deus e não ama a igreja e as pessoas, automaticamente anula essa suposta declaração de amor.

Este é um dos princípios do ecumenismo, do diálogo, e da celebração das diferenças: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro. Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. Ora temos, da parte dele, este mandamento: que aquele que ama a Deus, ame também a seu irmão” (1Jo 4.19-21).

Jonathan

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Dúvida - por Henri Nouwen

Antes de bebermos do cálice, devemos segurá-lo [...]

Segurar o cálice da vida significa olhar, de modo crítico, a vida que estamos vivendo. Isso exige grande coragem. Quando olhamos para nós mesmos, podemos nos sentir atemorizados com o que vemos. Podem surgir perguntas para as quais não temos respostas. Podem aparecer dúvidas sobre o que estávamos certos de conhecer. Pode brotar o medo de lugares inesperados.

Somos tentados a dizer: “Importa simplesmente viver. Todas as explicações só tornam as coisas mais difíceis”. Todavia, por intuição, sabemos que, se não olharmos a vida de modo crítico, perderemos nossa visão e nossa direção. Quando bebermos do cálice sem primeiro segurá-lo, podemos simplesmente nos embriagar e ser levados a vagar por aí sem rumo.

Segurar o cálice da vida é uma difícil disciplina. Somos pessoas sedentas que desejam começar a beber imediatamente. Contudo, precisamos conter nosso impulso, tomar o cálice com as duas mãos e perguntar para nós mesmos: “O que me á dado para beber? Qual é o meu cálice? É prudente bebê-lo? É realmente este o meu quinhão? Isso me trará saúde”.

Sempre acreditei que um dos principais objetivos do ministério consiste em colocar ao alcance dos outros as nossas lutas de fé, tornar compreensível para os outros as nossas dúvidas, e confessar, com sinceridade, “eu também não sei as respostas. Sou um simples catalisador; sou apenas alguém que quer expressar o que você já sabe, mas que poderá aprender melhor se for traduzido por palavras”.

Henri Nouwen
(Extraído de: BITUN, Ricardo. Henri Nouwen de A a Z. São Paulo: Vida Acadêmica, p. 174).

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Conversa sobre a salvação

Certa vez, um menino chegou a seu pai puxando a seguinte conversa:

“Pai, meus coleguinhas da igreja e eu estamos muito preocupados”. “Por que, filho?”, perguntou o pai. “Ah pai, é que a professora da escola dominical passou um filme pra nós, que falava do fim do mundo, da volta de Jesus, e de todo mundo que não vai pro céu por ter sido ruim aqui na terra e não ter feito o que Deus manda. Me diz, pai: o que eu devo fazer pra conseguir essa tal de salvação?”.

O pai, impressionado, mas com paciência, respondeu: “Nada filho”. “Como assim nada, pai?”, indagou o filho curioso. “Isso mesmo filho, aquilo que você e eu poderíamos fazer, Jesus já fez por nós, e disse ‘pronto, está acabado”. No que o filho rebateu: “E pra gente não restou nada?”. “Restou sim”, disse o pai: “Nossa parte é a de nos arrepender de nossos pecados e crer que o que Jesus fez é suficiente como remédio pra curar a gente”.

“Hummmm... Mas e como posso ter certeza de que sou salvo?”, foi mais além o menino. “Bem filho, a bíblia ensina que essa certeza também provém da fé. Você até não sabe de todos os detalhes, mas crê, e o Espírito Santo confirma no seu coração essa certeza”.

Houve silêncio por alguns instantes, até que o filho falou baixinho: “Paiê...”. E o pai respondeu já com certo incômodo: “Fala filho!”. “Não é por nada não, mas sendo assim, acho Jesus meio egoísta”. E o pai, espantado, perguntou: “Por que egoísta filho?”. “Ah, porque ele fez a parte dele, a de Deus e a nossa, e de quebra ainda não deixa nada pra gente poder fazer... que chato!”.

Essa conversa me faz pensar que, para alguns, a graça é um tédio mesmo. Porque ela tira de nós todo o controle. A Deus pertence não somente o querer, como também o realizar. E aquilo que a gente realiza, realiza por gratidão, amor e obediência a Ele. Não podemos mais inverter os termos: nossas “boas ações” existem por causa da nossa comunhão com Deus, e não a comunhão com Deus existe por causa das nossas “boas ações”. Acertadamente Eugene Peterson disse que “a salvação significa Deus fazendo por nós o que não podemos fazer por nós mesmos”. É Deus intervindo na história de nossas vidas, transformando impossibilidade em possibilidade; é o extraordinário Divino alcançando o mais ordinário; é o Eterno criando e confirmando vida onde já não mais existia. O que podemos fazer é servir e adorar gratuitamente. "Minha alma engrandece ao Senhor, meu espírito se alegra em Deus, meu salvador". A Ele a Glória pra sempre!

Jonathan

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A Fábrica de Queijo (II)

Pense outra vez na fábrica de queijo. Imagine que aquele homem que se levantou solicitando mudanças, agora, depois de execrado da fábrica, vê-se na iminência de construir uma lista de normas em torno das quais aqueles que se juntaram a ele devem seguir, como contraposição à ordem anterior. Mas ele não se preocupa tanto em fundar uma tradição.

Quem toma a peito isso são seus seguidores que, além de montar outra fábrica de queijo (mantendo muitos dos moldes da anterior, afinal eles só conheciam aquela forma), onde agora fabricam “queijo light” e outros derivados mais “puros”, eles ainda estabelecem a chamada “confissão do Queijo”, que sistematizava um consenso sobre os valores ensinados por seu precursor, indo, porém, um pouco além do que ele havia proposto.

“E aqueles que permaneceram na fábrica?” – perguntaria um leitor mais curioso. Bem, esses agora se vêm na iminência de retomar uma caminhada, a fim de não perder mais gente para as “novas ondas do queijo”.

A estratégia utilizada pelo “senhor do queijo” e seus subalternos ilustres foi a de reforço das trincheiras da mussarela. Se a queixa original dos rebelados era contra a tradição que se formou, a tática de reação foi, portanto, a de reafirmação e reforço daqueles mesmos princípios anteriormente defendidos.

Se alguém disser que o seu queijo está muito consistente, taque então mais consistência no queijo, porque é melhor pecar por muita consistência do que perdê-la completamente...

Para quem não entendeu muito nem a história, muito menos o sentido nela proposto, não faz mal. só deixo uma dica final: dê uma olhada na história da igreja pós-reforma, e quem sabe alguma coisa desse conto nonsense possa fazer algum senso estrito.

Jonathan

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A Fábrica de Queijo (I)

Imaginem uma vila, que sobrevive e gira em torno de uma grande fábrica de queijo. Os habitantes dessa vila se alimentam e se sustentam pelo trabalho e a produção do queijo. Originalmente não havia uma hierarquia formal nessa fábrica; a hierarquia existente, mal podia ser assim chamada, pois o controle, afinal, estava nas mãos de todos, e todos ajudavam todos. Todos tinham direitos iguais no “negócio do queijo”.

O tempo foi passando, e esses direitos foram sendo cerceados em função dos interesses e do controle daqueles que se valeram da hierarquia. Logo, todos, os que produziam e estavam envolvidos no negócio, só poderiam consumir e pegar queijo passando pelas ordens do Senhor do queijo.

Tudo era por ele, para ele, e fora dele nada poderia acontecer. Ele tinha seus subordinados, é claro, que lhe serviam e eram mediadores nas relações com o restante do povo.

Até que um dia, um dos moradores da vila que trabalhava na fabrica se levantou e começou a questionar aquilo, dizer que a fabrica era para todos, logo a produção e seus resultados era direito de todos, sem ter a necessidade de passar pelo “senhor do queijo”, a quem eles deviam respeito, mas um respeito limitado. O foco estava na comunidade.

O problema é que esse homem é execrado por suas idéias de reformar a fábrica, e leva consigo um bocado de seguidores. Muitos desses se vêem descontentes, a partir de certo instante, com as mudanças propostas pelo tal homem. Eles queriam mais. Além de direitos de participação na “ordem do queijo”, tendo livre acesso ao negócio, eles queriam também direitos iguais no aspecto de distribuição desse queijo.

Outros, foram mais além, pois acharam que a “purificação” proposta pelo homem, pode ter sido suficientes para uma reforma normativo-organizacional. Na prática, porém, sua acusação era de que tudo permanecia na mesma, houve apenas uma “transferência de senhores”. O que eles propõem é uma reforma também nos costumes, buscando como modelo aquilo que faziam seus ancestrais, que lhes ensinaram o fundamental sobre como lidar com o “negócio do queijo”.

Para esses descontentes, tanto o homem, “reformador” inicial, e seus correligionários, bem como o “senhor do queijo” e todo o sistema por ele controlado, perderam a essência do legado de seus ancestrais. Necessitava-se de um retorno ao primitivo. Para isso, contudo, era preciso um afastamento obrigatório. Essa vila estava por demais corrompida em relação a seu projeto original.

A solução foi montar uma “nova Jerusalém” do queijo, onde todos viveriam conforme os ensinamentos dos seus ancestrais, e seriam purificados por uma nova maneira de iniciação, que passa por uma reforma nos costumes, bem como por novas maneiras de comer o queijo, por exemplo.

Muitas divisões aconteceram após esses ocorridos. A fábrica estava definitivamente em colapso. Os “radicais”, como assim foram chamados, começaram a ser fortemente perseguidos, sua comunidade ideal foi desfeita. Como castigo aos prisioneiros, muitos tiveram de ingerir quilos e mais quilos de queijo e, ironicamente, à nova maneira inventada por eles. Mas ainda não era o fim, muitos deles se dispersaram por outros lugares, e a causa dos radicais assim se perpetuou.

(Continua...)

Jonathan

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Teologia, o gracioso "Sim"

A teologia é a matéria-prima dos inconformados! Dos que não aceitam pacotes, nem tampouco produzem pacotes. E por essa vocação, creio que quando temos uma teologia presa e gerida apenas pelos dogmas, e doutrinas não temos teologia, temos arbitrariedade. Arbitrariedade acerca do que é, de verdades imutáveis, indeléveis, de absolutos que nada têm a ver com Deus e que muitas vezes negam o valor da vida, que Deus tanto preza, e também do que jamais pode ser, dentro do que estão incluídas a subversão, a heresia e a transgressão, assim categorizadas, muitas vezes, pelo simples fato de questionarem a ordem estabelecida. Teólogos, na melhor acepção da palavra, não se rendem a tais categorizações, tantas vezes simplistas e unilaterais.

Por não se render a arbitrariedades e por não negligenciar o seu papel, que é falar de Deus, ela não julgará esse papel (falar de Deus) como um papel estritamente dela (como se pelo simples manuseio de métodos científicos ela pudesse chegar a ele), mas de todo ser humano. Nesse sentido, todo ser humano pode ser um teólogo, à medida que pensa, pulsa, sente e crê em Deus na criação e na existência. Dessa forma, teologia não é o estudo de Deus. Isso, pois Deus, como um ser eterno, não pode ser estudado. "O Deus do evangelho", diria Karl Barth, "não é, portanto, nem coisa, objeto, nem idéia, princípio, verdade ou soma de verdades, nem expoente pessoal de tal soma" (Introdução à teologia evangélica, p. 12).

Podemos, sim, falar de nossa experiência de Deus, isto é, de Deus como um ser pessoal e relacional. E, exatamente por desejar o relacionamento, escolheu se revelar. Assim, diriam alguns teólogos, teologia é o estudo de Deus em sua revelação. Revelação que desce, palavra de se diviniza, divino que se verbaliza e verbo que se humaniza. Deus se fez ser humano! Essa é uma das grandes afirmações de fé das quais a teologia pode se valer. E esse Deus, assim, age na história. De tal modo que o "objeto" da teologia, por assim dizer, está em movimento, e ela também precisa estar. O assunto da teologia evangélica, citando outra vez Barth, é Deus – Deus na história de suas ações. Não por aquilo que somos, façamos ou nossas capacidades, mas por aquilo que ele é e nos concedeu. Assim, a teologia é uma resposta inteligente e reverente ao gracioso “sim” de Deus, isto é, à sua “auto-revelação benigna e amiga para com o ser humano” (Introdução à teologia evangélica, p. 13).

Jonathan

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Não é proibido pensar (Final)

(Rótulo 3) “O mundo pós-moderno é o das sensações em detrimento das percepções, do espiritualismo, e é a era da desrazão”.

Revanche do sagrado – é assim que muitos caracterizam uma faceta do momento “pós-moderno” – contradizendo profecias do séc. XX que declaravam o “fim da religião”. Essa percepção é reforçada se considerarmos o crescente interesse em espiritualidade (religião banhada em sentimento), aliado a um desinteresse por estruturas mais racionalistas e hierárquicas. Mas não é tudo o que se pode dizer sobre esse momento, e chamá-lo de era da desrazão pode não passar de caricatura, em se desconsiderar outras possibilidades...

Há outra perspectiva sobre isso que diz que a mudança não está em rejeitar a ciência ou abandonar a razão, mas visualizá-las sob outro ponto de vista. Nesse sentido, como já disse outrora, o pós-moderno faz uso da razão, constrói juízos e até admite algumas certezas, porém, reconhecendo os limites de sua razão, a provisoriedade de seus juízos e as dúvidas presentes mesmo em suas certezas.

Outra questão está na supressão das emoções no passado, que no presente redunda numa avalanche de emoções, de carência, e de necessidade de relacionamento. Conversar com quem quer prova racional, lógica e exata de tudo é muito chato, e vejo que há um reconhecimento crescente disso – que pode se expressar em desilusão e resignação, ou em busca por algo novo.

A diferença entre a apologética de hoje e a de ontem é que não temos mais de colocar um valor excessivo nas evidências lógicas como prova racional de nossa fé, mas damos também valor às ações, histórias vividas e contadas, aos relacionamentos. O relacionamento passa a ser o lugar onde podemos com a vida compartilhar a nossa fé, não ignorando argumentos racionais, mas passando a dar mais valor a perguntas honestas e a respostas honestas.

E a fé, segundo Brian McLaren, “é o contexto no qual é possível explorar os mistérios que fundamentam essas perguntas”, e, acrescento, sem ter de recorrer a respostas fáceis e evasivas... Durante anos a fé tem sido atacada de várias formas. Às vezes justamente, em outras injustamente. Exercemos nossa fé em meio a bons e maus exemplos. E as pessoas se apegam muito aos maus exemplos (talvez porque eles sejam mais visíveis) e estão cansadas desse tipo de religião – de dogmas, escravidão, guerra, opressão e morte. Mas ela não tem a última palavra...

McLaren apresenta a visão de uma religião na qual podemos nos alistar na luta contra o mal:
"A religião que enxerga o orgulho dos fariseus ‘aqui dentro’ e a devoção das prostitutas ‘lá fora’, a religião que ouve satanás sussurrando aos ouvidos do discípulo mais importante e que enxerga o amor exemplificado no viajante samaritano – essa religião irá inspirar a sua lealdade. A religião que reconhece sua inutilidade quando é só discurso sem ação... essa religião as tirará da cama no domingo de manhã. A religião que enxerga a verdadeira fé onde quer que ela se encontre – incluindo um ‘forasteiro’ de um contexto ‘errado’, tal como o centurião romano ou a mulher sírio-fenícia (Lucas 7.1-10 e Marcos 7.24-30) – e não somente vê, mas também a confirma, aceita, recomenda, celebra – essa religião as conquistará para a vida inteira. Mas espere! Não estamos falando sobre o reino de Deus, proclamado e demonstrado por Jesus Cristo?” (Brian McLaren. A igreja do outro lado, p. 125).
Que continue havendo sempre um grupo honesto e fiel de cristãos que não sacrificam seu amor e fidelidade ao reino no altar do fanatismo e das balburdias balaônicas de nosso tempo.

Jonathan

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Não é proibido pensar (II)

(Rótulo 2) “Ciência e fé não se misturam, pois são incompatíveis”.

Isso é outro rótulo que, por vezes, aparece e reaparece na história, e que foi potencializado pela modernidade em seu endeusamento da razão humana e da ciência. C. S. Lewis em “A Abolição do homem”, afirma que muitos “cientistas” aceitaram a oferta do bruxo: “Entregue sua alma e em troca ganhe poder”.

O cientista crê na ciência porque ela lhe oferece provas do que ele afirma. A contradição, portanto, é que essa ciência exige certa dose de “fé”. O cristão crê sem a necessidade de provas objetivas; tem certeza em meio a incertezas, e isso faz sentido, não é irracional.

No final do mencionado livro, Lewis diz: “Se você enxergar o que está por trás de todas as coisas sem exceção, então tudo se tornará transparente para você. Mas um mundo completamente transparente é um mundo invisível. Ver o que está por trás de todas as coisas é o mesmo que ver nada” (C. S. Lewis. A abolição do homem, p. 77).

Uma perspectiva racional de fé no mundo pós-moderno é aquela que reconhece que a realidade não é transparente. Em 1Co 13.12 se diz: “Apenas conhecemos uma porção da verdade, e o que dizemos sobre Deus é sempre incompleto. Mas quando o Completo chegar, nossas incompletudes serão canceladas”.

A incompatibilidade entre fé e razão existe quando: (a) se abandona uma resposta que integra e faz interagir diferentes perspectivas da vida, e (b) perdemos de vista que a supremacia vislumbrada pela fé não é a da evidência lógica, mas é a da evidência da graça.

Jonathan

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Não é proibido pensar (I)

A questão de John Stott em seu livro “Crer também é pensar” continua sendo relevante: Qual é o lugar da mente na vida do cristão iluminado pelo Espírito Santo? Mas peço licença a ele (Stott) para reformular um pouco a questão: Como posso situar a razão e as emoções em relação à fé no contexto pós-moderno?

Algumas contribuições à questão serão dadas nos próximos três posts, a partir de alguns "rótulos" comuns dentro e fora do âmbito cristão.

(Rótulo 1) “O místico não pensa, só sente, flui e transcende

Sim, o místico cristão sente, transcende, mas também tem que pensar. Antes de tudo, porque o cristianismo é uma religião de revelação – “Logos”. Do contrário, como os autores bíblicos teriam transmitido a mensagem do logos sem antes colocá-la na moldura do pensamento, da linguagem ou da cultura?

E é tarefa nossa hoje, interpretar, refletir e ensinar essa palavra. Como posso fazer isso sem pensar?

C. S. Lewis disse: “A fé... é a arte de se aferrar, apesar das mudanças de humor, àquilo que a razão já aceitou”. Como diz outro pensador, Hans Küng: “O sim a Deus, portanto, é uma questão de confiança, se bem que confiança é em si mesma perfeitamente racional. Para esse ato de confiança não existe nenhuma prova racional, mas existem certamente muitas razões sensatas”.

Posso até crer porque é absurdo, como afirmou Tertuliano, mas se trata de um absurdo que faz algum sentido (racional) para a vida.

Jonathan

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A vontade de Deus

Paulo disse que é santa, perfeita e é agradável... Bem, não necessariamente aos nossos olhos, e este é um ponto controverso dessa vontade. Queremos que ela seja de fato agradável, mas isso em nossa vã compreensão significa, na maioria das vezes, ser agradável conforme nosso ego e sua pluriversidade perversa de desejos. Ela é agradável, sim, mas no sentido do Bem conforme Deus, que realmente vê e quer o melhor para nós. E nós, queremos o melhor de Deus, ou o nosso melhor “de Deus”? Difícil aporia. Muitas vezes, na prática, eu fico com a segunda sentença.
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Conhecer a vontade de Deus implica em ser íntimo Dele, para ser íntimo dela. E ser íntimo (amigo) Dele, é preciso conhecê-lo em Sua Palavra. E mais do que isso: é preciso fazer o que nela Ele manda, como disse Jesus: “Vocês serão meus amigos, se fizerem o que eu lhes ordeno” (Jo 15.14). Enquanto isso, por outro lado, fazemos da vontade de Deus o centro de nossas neuroses religiosas, na ânsia de querer viver “no centro da sua vontade”, quando esse tal centro (que não sabemos bem qual é), na verdade, passa ao largo, visto que ao largo passamos de sua Palavra.
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O grande “mistério” é que nem tudo sobre a vontade divina é mistério. Boa parte dela foi revelada. Assim, embebidos de sua Palavra, estaremos embebidos de sua vontade, ainda que sempre de modo incompleto, até que vejamos como somos visto, e a incompletude seja anulada.
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Mas a questão também vai além do saber, o que me remete de novo a Jesus, em sua oração no Getsêmani: “Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres”. Ele só pôde pensar em rejeitar o cálice de Deus por conhecer o que beber dele implica. Assim, o enigma de Jesus, para além do conhecimento que se possui da vontade do Pai, pode se resumir na pergunta: o que nos capacita a cumprir essa vontade? De onde virá a afirmação: todavia, não como eu quero, mas como tu queres?
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Não penso que seja de um lugar de coragem, pensamento positivo, força de vontade ou heroísmo, do tipo “Chuck Norris Gospel”. Mas de um lugar de vulnerabilidade, dependência e intimidade com o “Abba”, que nos consola e nos dá força e graça para não sermos guiados apenas pelos sentimentos (“o seguirei até a morte” ou “afasta-o de mim”), mas pela convicção espiritual do caminho certo. Assim, que possamos entrar numa comunhão tão profunda na qual não exista outro caminho senão o da honestidade, e que possamos, como Jesus, num misto de coragem e vulnerabilidade, orar ao Pai: contudo, não a minha, mas a sua vontade seja feita!

Jonathan

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Pós-modernidade (3): O erro da suficiência e a suficiência do erro

Um dos erros da vida acadêmica hoje é o de continuarmos sendo modernos no sentido de buscar a suficiência e evitar o erro a todo custo, como se ele fosse o câncer da ciência. Pelo contrário, o câncer da ciência se chama sufi-ciência! É quando o cientista ou intelectual pensa que a ciência tem todas as respostas e é capaz de tudo e mais um pouco. Essa falsa assunção é (foi) sua ruína. Pois o erro não é defeito, mas é a condição de continuidade e processualidade da ciência, pois “ciência sem erro é dogma”, afirma Pedro Demo, e mais: “A renovação do conhecimento é diretamente proporcional a presença do erro”.[1]

Por isso é que eu digo que esse negócio de não querer ter mais razão, juízo, certeza ou religião não é tudo o que se pode dizer sobre a pós-modernidade. A diferença não está exatamente no conteúdo, mas na forma. O pós-moderno faz uso da razão, constrói juízos e até admite algumas certezas, porém, reconhecendo os limites de sua razão, a provisoriedade de seus juízos e as dúvidas presentes mesmo em suas certezas.

Além disso, é também uma caricatura dizer que o pós-moderno “de carteirinha”, como diz McLaren, não crê na verdade absoluta. Ele não duvida da existência de uma verdade absoluta lá fora, mas de nossa capacidade de apreendê-la, codificar numa linguagem e transmitir a outras pessoas e fazê-las compreender de uma maneira “absolutamente exata”. O problema deles não é a verdade absoluta, mas o conhecimento absoluto[2].

Para finalizar, duas contribuições de Paulo me chamam a atenção. A primeira está em 1Co 13.12:

“Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido”. Em outra tradução (The Message) se diz: “Apenas conhecemos uma porção da verdade, e o que dizemos sobre Deus é sempre incompleto. Mas quando o Completo chegar, nossas incompletudes serão canceladas”. Faz sentido isso para você? Pois para mim faz muito sentido...

A outra contribuição paulina está em Fp 3.12: “Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado”. Essa é uma afirmação tremendamente Cristã, de humildade, honestidade e inquietação: Eu ainda não terminei, ainda não estou acabado, não cheguei à reta final. E porque eu não me considero um expert nesse negócio, olho para frente e sigo adiante, procurando aquilo que ainda me aguarda.

Esses exemplos me ajudam a entender um pouco mais a pós-modernidade (ou pelo menos uma faceta dela), que me recorda de uma grande lição: que a incompletude não é a minha tragédia (ainda que possa parecer), mas o caminho para a liberdade e dependência de Deus, atributo indispensável da vida, mais ainda da vida cristã.
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Jonathan

Notas
[1] DEMO, Pedro. Metodologia científica em ciências sociais. São Paulo: Atlas, 1995, p. 53.
[2] MCLAREN, Brian. A igreja do outro lado. Brasília: Palavra, 2008, p. 234.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Pós-modernidade (2): A que podemos comparar?

Brian McLaren[1] faz uma comparação interessante: o mundo de Jurassic park é o mundo moderno. “Um sonho de controle. Tecnologia por diversão e lucro. Mas trata-se de um sonho torto. A natureza, por sua vez, tem uma corrente de caos passando através dela”. É um mundo que desejava controle, mas que perdeu o controle. E o olhar crítico a esse mundo vê que ele “desencadeou os velociraptors da degradação ambiental, os tiranossauros rexes da opressão ética, os componentes computadorizados da lascívia e da cobiça”.[2]

Por isso, o olhar pós-moderno é de desencanto para com as teorias modernas (são apenas teorias), para com o sujeito moderno (capaz, autônomo) e sua habilidade de conhecer (na verdade, conhecemos só em parte).

A modernidade, segundo Bauman, refere-se essencialmente à “solução de conflito”, a não admissão do erro, da contradição e negação do conflito, pois sempre há uma “solução”.

Se pudéssemos usar outra comparação (tomando de empréstimo de Bauman), o símbolo da modernidade seria o sólido (certezas, precisão, convicções inabaláveis) e o da pós-modernidade seria o líquido (incertezas, dispersão, convicções fluentes).

Ao mesmo tempo, não entendo que o “pós” esteja se referindo a algo “cronológico”, nem ao abandono total de princípios, como verdade, fé, ou conceitos morais anteriormente estabelecidos, mas da “rejeição de maneiras tipicamente modernas de tratar seus problemas morais”[3], de modo absoluto e coercitivo.

Em contrapartida, a pós-modernidade pode ser representada em dois conceitos, utilizados por Bauman, que endereçam sua aceitação do conflito e da pluralidade:

(1) Ambivalência. Compreende o estado em que não sabemos exatamente como agir nem prever o que vai acontecer. Ambivalente é a situação ou pessoa que admite a falta de ajuste entre a capacidade e o desejo, assume o limite dos seus meios frente à sua infinitude de desejos.

(2) Aporia. Indica uma dificuldade ou dúvida racional diante da impossibilidade objetiva de uma resposta ou conclusão definitiva a respeito de algo. Representa, portanto, um estado desejável pelos pós-modernos, de incerteza, apologia do erro, e assunção da natureza inacabada de seu conhecimento a respeito da realidade.

E se é com isso que os teólogos (e outros estudiosos) mais se debatem quando se fala em pós-modernidade, eu vejo aqui uma contribuição interessante: precisamos reconhecer que se a verdade é o absoluto ou eterno, ela é, e ponto final. Nossa linguagem e razão podem até margeá-la, mas nunca detê-la.

Jonathan

Notas

[1] MCLAREN, Brian. A igreja do outro lado. Brasília: Palavra, 2008, p. 228.
[2] Ibid., p. 229.
[3] BAUMAN, Zygmunt. Ética pós-moderna. São Paulo: Paulus, 1997, p. 8.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Pós-modernidade (1): Defina e pereça

O conceito de pós-modernidade não é dos mais fáceis de definir. Porque se trata de um objeto que se insere na perspectiva do múltiplo: múltiplas abordagens, perspectivas e nomenclaturas. Fora isso, ainda há a questão de que se trata de um fenômeno de protesto, que tem muito mais desconstrução do que construção em vista. Definição é coisa moderna. A cultura moderna é que fez com que nos habituássemos a “pôr fim em”, fechar questão, conceituar.

Nós fizemos um pacto com os conceitos. Eles nasceram para dar conta do mundo, para ser uma designação fiel das coisas às quais eles remetem. Se digo, por exemplo, “Deus”, o dizer em si já remete à entidade a qual desejo designar. Parte-se do pressuposto da correspondência entre a palavra e a coisa em si; o conceito é igualado à realidade que ele tenta descrever.

Rob Bell[1] disse o seguinte: “Nossas palavras não são absolutas. Apenas Deus é absoluto, e Deus não tem a intenção de partilhar seu absolutismo com ninguém, especialmente palavras que as pessoas usam para falar sobre Ele. E isso é uma das coisas com a qual pessoas têm se debatido desde o princípio: Deus é maior que nossas palavras, cérebros, cosmovisões e nossas imaginações”.
Bem, tudo isso para dizer que eu não tenho uma de-finição. Mas, vamos chegar lá (ou não)...

Quem fala em “pós” está querendo dividir algo. Se uma coisa é X, e outra que vem depois de X mais ainda não tem por certo o que é, então ela é designada provisoriamente como pós-X. Então o prefixo da palavra pós-modernidade, indica que estamos falando de um fenômeno que desponta como transbordamento de algo; vai além, no caso, da modernidade.

Segundo François Lyotard[2], simplificando ao extremo, o pós-moderno se define pela “incredulidade em relação aos metarrelatos” – grandes relatos que buscam uma explicação universal (única) e correspondente à realidade. Exemplo de metanarrativa: "minha linguagem (conceito) dá conta da realidade que pretendo descrever"; ou, "há coincidência entre a capacidade (o que eu posso chegar a fazer) e o desejo (o que eu quero que seja feito)".

O moderno pode ser descrito por aquele que crês nessas correspondências e o pós-moderno como aquele que desconfia, abandona ou descrê na possibilidade de coerência plena entre elas. Uma sociedade é moderna, segundo Zygmunt Bauman[3], “na medida em que tenta, sem cessar mas em vão, ‘abarcar o inabarcável’, substituir diversidade por uniformidade, por ordem coerente e transparente”.

Hoje, minha aproximação com a pós-modernidade, ainda que em construção e provisória, é menos preconceituosa e mais generosa – no sentido de tentar ouvir mais atentamente o que está em questão, já que ela não possui uma só voz, mas várias. Continuemos interpretando os "sinais"...

Jonathan

Notas

[1] BELL, Rob. Velvet Elvis. Repainting the Christian Faith. Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 2005, p. 23.
[2] LYOTARD, Jean-François. O pós-moderno. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993, p. xvi.
[3] BAUMAN, Zygmunt. Ética pós-moderna. São Paulo: Paulus, 1997, p. 10.

sábado, 17 de outubro de 2009

A Racionalidade Y

Comecemos partindo do pressuposto de que toda conceituação não é uma ampliação – como queria o cientificismo moderno – mas uma redução das coisas. Diria o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que todo conceito nasce por igualação do não igual. A igualação não é, portanto, a apreensão da coisa em si, mas o desaparecimento dessa coisa. O real escapa ao conhecimento. Logo, conceituar uma coisa é o mesmo que fazê-la desaparecer, não como realidade objetiva, mas como realidade não objetivável nos termos de sua complexidade no discurso em questão, seja de que natureza for.

Isso pode parecer complexo demais para um início de conversa. Parece, mas não é. Senão, pense comigo por um instante. Durante muito tempo, desde seu nascimento, crescimento, até a educação formal no primeiro e segundo graus (hoje ensino fundamental e médio), você certamente foi instruído(a) dentro de um tipo não muito aberto de conhecimento, que chamarei aqui de racionalidade X. Para tal racionalidade, seria inconcebível que uma coisa pudesse ter mais que uma expressão, noção explicativa, pois a racionalidade X é aquela que não abre margens para interpretação, somente para verdades. E onde não se tem interpretação, tem-se, portanto “verdade” – como sistema único de pensamento e explicação da realidade.

Logo, X só pode ser igual a X, B igual a B, e assim por diante.

Hoje (quero dizer, há certo tempo), porém, emerge um tipo de racionalidade mais dilatada (aberta), que chamarei de racionalidade Y. Ela é dilatada no sentido de que admite que X pode tanto ser X, como Y ou Z, depende do ponto de vista, isto é, da forma como se aborda X, da linguagem ou dialeto utilizado para enunciar X; trata-se de uma racionalidade mais interpretativa, que não abandona completamente a verdade (no sentido de aceitar que ela existe, lá fora, em algum lugar), com uma ligeira diferença: ela assume a inadequação dos conceitos que elabora à verdade pretendida, quer dizer, não tem pretensões à totalidades, grandes narrativas ou explicações do tipo “Saci-Pererê” (que têm uma perna só, usando o termo cunhado por Luiz Sayão).

Além disso, ela convive melhor com a multiplicidade que é inerente ao seu modo de produzir conhecimento, em conexão respeitosa e crítica com outros modos, que podem ser tão eficazes ou ineficazes quanto o seu. Aliás, o modo eficaz, segundo a racionalidade Y, é aquele modo que admite sua ineficácia, que convive bem com ela, e, mais do que isso, que a celebra.

Por isso, cabe afirmar: os textos desse blog não pretendem ser palavra determinante a respeito de nada, mas apresentar um ponto de vista possível às questões abordadas, admitindo tanto a ineficácia quanto a incompletude de seus postulados. E nas lacunas que porventura ficarem, orarei para que o Espírito continue me ilumiando na estrada da liberdade, por onde quero continuar trilhando, aprendendo e rumando.

Jonathan

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Amizade

“A alma de Jônatas ligou-se a de Davi, porque o amava como a sua própria alma... como a sua própria vida (1Sm 18.1,3).

Num mundo cujos prazeres e amores são cada vez mais efêmeros e utilitários, tenho me sentido impelido a fazer um voto de protesto e a afirmar o lugar das relações onde há compromissos duradouros, alianças e compromissos. Uma delas com certeza é a amizade. Amizade que geralmente é tratada como o mais “light” dos amores, ou que pouco teria a ver com espiritualidade. Quero encará-la, porém, como uma dádiva espiritual, em meio a um ambiente onde estamos sujeitos a hostilidades e utilitarismos, ao mesmo tempo em que os alimentamos. Um universo “plástico”, onde as relações são tão descartáveis como “garrafas pet”.

Quando, no entanto, penso em meus amigos (que em geral são poucos), penso em dádivas que Deus colocou em minha vida, com os quais posso fazer aliança, estabelecer uma relação mais leve, mas não menos compromissada, e crescer espiritualmente – o que significa evoluir como pessoa em todos os sentidos, já que a espiritualidade cristã não se plasma apenas em ritos ou disciplinas, mas é expressão de uma vida vivida conforme a graça e sob a direção do Espírito – é integral!

Isso implica em aprender a valorizar os relacionamentos – já que o “ser espiritual” é, antes de tudo, ser relacional – aprendendo a tratar nossos sentimentos e os dos outros com integridade.

Relacionamentos são complicados, é verdade, porque se dão entre seres humanos tremendamente complexos e diferentes. Mas aí é que está a “graça” da questão, vocês não acham? Deus seja louvado pela diversidade e pela complexidade da existência. Se tudo fosse fácil e uniforme, que crescimento isso me traria? Quão melhor eu poderia me tornar não fosse a indigesta “ajuda” de meu lado pior? Como progredir sem conflito, e como amar sem sofrer?

Não tem como. Amar é também sofrer – talvez por isso muita gente hoje não troque felicidade por amor, quando esse amor entra em conflito com sua concepção de felicidade, mais parecida com um “mar de rosas”. Amor e felicidade são parceiros de jornada, desde que a felicidade em questão não se pareça com a negação do infortúnio. Relacionar-se é entrar num mundo de conflitos, comprometer-se é pagar o preço da decisão, é alimentar a relação e lembrar-se sempre do outro, talvez mais do que de si mesmo.

Ao mesmo tempo, tem o lado bom (que relação sobreviveria sem ele?), de ter com quem contar e para quem contar nossas histórias, com quem se alegrar e chorar, dividir e partilhar experiências. Não é bom, nem nunca foi, que estejamos sós, porque afinal ninguém consegue viver assim. Isso me lembra da poesia de Vinicius de Morais: “Pense muito, que é melhor se sofrer junto, que viver feliz sozinho”. Ou de Salomão: “Em todo tempo ama o amigo, que na angústia se faz irmão”.

Assim, que o Senhor me (e te) conduza sempre por águas mais profundas, mais alegres e tranquilas, ainda que às vezes sombrias, e me faça ser amigo e me ajude a encontrar amigos, ou nutrir a relação com quem já “me encontrei”, e a aprender a valorizar o que há de mais profundo nos outros, não me rendendo, desse modo, a um mundo de aparências belas, mas de corações e almas vazios.
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Jonathan

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Por uma fé saudável e sem fronteiras

Um amigão meu, Daniel Xavier, enviou-me um artigo escrito por Rafael Madeira (acesse aqui), sob o título: "Introdução à fé: a última fronteira", dando sentido de que a fé seria a última fronteira a ser ultrapassada pelo ser humano já que, segundo ele, ela é "um lance muito errado". Bem, ataques desse tipo não são novos, são? Já vi muitos deles, e muitos desses eu consigo tratar com respeito, vislumbrar um sentido e fundamento na crítica, como nos casos de "ateus" famosos que costumo referendar nesse blog, como Nietzsche, e mais recentemente Sam Harris e Richard Dawkins (obviamente há muitos outros, isso é só um exemplo).

Mas desse texto, sinceramente, não consegui extrair muita coisa. Meu amigo perguntou o que eu acho, e escrevi-lhe dizendo que o que eu penso é o seguinte:

O autor acha que está atacando a fé, mas a pergunta deve ser: a fé de quem? A minha com certeza não é, pois não creio nesse Deus que ele tanto crucifica, muito menos no Deus manifesto nas formas que ele usa para reforçar seu "riquíssimo" argumento. Acho que existe gente hoje pensando de forma mais inteligente em por que a fé ainda pode ser relevante ou até mesmo gente argumentando o contrário de modo mais inteligente

Frases como: "quanto mais absurda for uma idéia, de mais fé você precisa pra acreditar nela, e quanto mais fé você tiver, mais foda você é, aos olhos de Deus", mostram exatamente isso... Lembro-me da frase de Tertuliano: "Creio porque é absurdo". O absurdo aqui aludido é aquilo que não se enquadra em regras ou condiçoes estabelecidas, enquanto o "absurdo" atacado por Madeira pode ser descrito como o destituído de sentido, tolo, ingênuo, pois só uma fé ingênua e imatura pode se resumir em sentenças como a supramencionada.

Julgar a fé e o próprio Deus, bem como a todos aqueles que neles crêem dessa forma, valendo-se de exemplos tristes, mas isolados e que não representam todas as pessoas, é um recurso infantil de alguém inconfessamente desesperado, mas que não consegue achar modelos saudáveis em que se apegar (o que não significa que eles não existam); então, sai atirando pra todo lado como se todo mundo fosse "farinha do mesmo saco" e como se Deus fosse realmente aquela pessoa como elas descrevem.

Deus é suficientemente mais do que isso para que eu continue acreditando, e muito mais do que minhas palavras podem conter, para que eu continue falando dele, sim, mas reconhecendo os limites desse falar. A língua é meu cativeiro, mas o Espírito me liberta para falar do cativeiro.

A fé é certeza, mas em meio a muitas incertezas... E é uma benção que continue sendo assim, pois se na vida tudo fosse um bando de certezas, de que adianta dizer que tenho fé? E se tenho fé, fé de verdade, essa que não é fruto de atos esquizofrênicos em nome de Deus e da religião, mas é uma dádiva de Deus aos simples, pecadores, mas puros de coração e desejosos em viver plenamente a vida e testemunhar o reino de Deus, meu rumo é a maturidade e não essa insuportável infantilidade a que muitas pessoas estão entregues, em meio a homens de má vontade, ou a críticas rasas que não têm uma visão de conjunto.

Discernir é preciso!

Jonathan

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

IV. Liberdade

Assim como a fraqueza, em um sentido, a liberdade também é expressão de nossa condição em Cristo – no sentido de que “para liberdade foi que Cristo nos libertou” (Gl 5.1) – bem como insígnia de uma caminhada, já que a liberdade é também vocação – “vós fostes chamados à liberdade” (Gl 5.13) – de modo que ela é uma tarefa ainda inacabada que orienta nossa vida e nossas ações no caminhar.

Particularmente a vida intelectual, para ser criativa, viva, produtiva, precisa de liberdade, que nos põe em movimento, não deixando que a estagnação tome conta. Estagnação e pensamento não são sinônimos ou companheiros de jornada. O pensamento estagnado implica em morte intelectual, não em vida. E há uma grande chance disso ocorrer quando nos acomodamos com meras repetições, reproduções do que os outros fizeram, pensaram ou disseram, e assim deixamos de pensar por nós mesmos, fazer nossas próprias sínteses, opções e trilhas. Isso é muito comum na igreja, e cada vez mais comum numa geração de jovens hiperconectada virtualmente, mas desconectada em matéria de pensar.

A liberdade é a carta de alforria do pensamento, que permite novos vôos, riscos e, por sua vez, novos olhares. Intimamente conectado com o que eu vinha dizendo sobre a fraqueza, o erro é também um campo fértil para a liberdade. Como diria Keith Jenkins, “a liberdade mora na casa do erro”. Quem dera pudéssemos errar sem medo, nem culpa, sendo livres na tentativa perene de acertar, sendo o acerto objeto de nossa perseguição, mas impossível sem a graça.

Por outro lado, sendo condição para o bem pensar, a liberdade não existe fora da disciplina, nem é parceira da perda total de controle. Nas palavras de Renato Russo, “disciplina é liberdade”. Ela não tem um fim em si mesma. Ela germina nas relações, lócus principal de seu exercício. Nesse lugar ela contra propósito, finalidade e aperfeiçoamento.

Primeiro porque Deus é o autor da liberdade, sendo a sua glória a finalidade máxima de sermos livres. Segundo, porque temos uma consciência própria, que precisa de liberdade para discernir bem a realidade, mas que, em terceiro lugar, se conduz e é moderada também pela consciência alheia, a qual nos põe na dimensão onde ser livre é ser respeitoso para com as limitações e interditos do outro, usando-as como termômetro do exercício dessa liberdade, que, embora more na casa do erro, simplesmente não sobrevive sem o amor.

Quarto: isso se dá dessa forma, pois, como diz Paulo, embora tudo me seja lícito, nem tudo me convém e nem tudo edifica ou constrói, e a liberdade visa a edificação. Assim, a largueza da licitude que margeia o âmbito da consciência própria deve ser relativizada à luz das limitações que margeiam a consciência do outro. O “bom” intelectual nasce do exercício de seu ofício em liberdade, mas sempre levando em consideração uma consciência e compromisso maior com o todo em relação ao qual ele se posiciona e se situa.

Jonathan

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

III. Fraqueza

É preciso ser muito “forte”, num sentido não muito convencional de força, para embarcar no mundo de fracos e fraquezas. Isso, pois nosso mundo é feito e disposto aos fortes, ou pelo menos os que “aparentam” ser. E onde a suposta força é celebrada e a fraqueza é rejeitada, não há lugar para os fracos e suas intragáveis demonstrações de pequenez e falta de virtude, aos olhos humanos.

Nessas horas aparece o conflito entre a humildade e a vanglória, a deficiência e a suficiência... Quero falar desse conflito aqui.

Em 2Coríntios 12, Paulo conta a história de um homem que há catorze anos foi arrebatado ao paraíso – se no corpo ou fora do corpo ele não sabia dizer – e que lá ele ouviu coisas indizíveis, que ao ser humano não é licito referir. Em certo momento, ele denuncia ser ele mesmo esse homem (v. 5-6), dizendo não se gloriar de tal feito, embora pudesse fazê-lo, já que se trata de algo verdadeiro. Mas que não o fez por uma razão simples: para se proteger contra os falatórios das pessoas... Imagine o que elas diriam, ou como reagiriam!

É nesse contexto então que ele diz o que mais quero chamar a atenção aqui: contra sua possível soberba, foi lhe dado um “espinho na carne”. Na tradução The Message, usa-se a expressão: “Dom ou dádiva de uma deficiência”. E a razão parece ser evidente: isso é para que você fique em permanente contato com as suas limitações!

Fico imaginando (já que é o que posso fazer): esse espinho pode ser a representação de qualquer coisa – a) uma deficiência física ou mental; b) uma carência emocional; c) uma limitação externa ou desarranjo provocado por alguém ou por uma situação adversa, etc. Para mim, o espinho é um antídoto às avessas, é o que me livra de ser dominado pela vontade de poder, de ser massacrado pelo meu ego.

Dificilmente de cara vejo essa deficiência como uma dádiva, não é mesmo? É, na verdade, um incômodo, um embaraço, que desejo arrancar a todo custo, como Paulo (v. 8). E nessas horas nós procuramos o cirurgião, queremos a cirurgia! Mas o cirurgião diz: não vou te operar, porque eu já estou operando em você, de um modo diferente... Deus opera com a Graça! E por isso ele diz: a minha graça é suficiente para você. E essa é uma palavra apropriada: “deficiência”, pois é o oposto de “suficiência”. É por isso que lutamos tanto contra ela, não é? Porque almejamos a suficiência quase em tudo, ou em tudo o que podemos.

Um dos erros da vida intelectual hoje é o de continuarmos sendo modernos no sentido de buscar a suficiência e evitar o erro a todo custo, como se ele fosse o câncer da ciência. Pelo contrário, o câncer da ciência se chama sufi-ciência! É quando o cientista ou intelectual pensa que a ciência tem todas as respostas e é capaz de tudo e mais um pouco. Essa falsa assunção é (foi) sua ruína. Pois o erro não é defeito, mas é a condição de continuidade e processualidade da ciência, pois “ciência sem erro é dogma”, afirma Pedro Demo, e mais: “A renovação do conhecimento é diretamente proporcional a presença do erro”.[1]

Assim, a fraqueza – seja ela em que dimensão se apresentar – é condição de nossa continuidade na graça, de nossa dependência de Cristo, do aperfeiçoamento de seu poder em nós, como intelectuais a serviço do Reino! Que você e eu aprendamos a celebrar e a ser agradecidos por aquilo que somos, com nossas virtudes e defeitos. Que o Senhor da graça nos ajude a exercitar nossa humildade em nossa aceitação de que não podemos tudo, nem temos controle sobre tudo e resposta para todas as coisas.

Jonathan

Nota
[1] DEMO, Pedro. Metodologia científica em ciências sociais. São Paulo: Atlas, 1995, p. 53.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

II. Incompletude

Essa é a parte em que reconhecemos nossas imperfeições, limitações, que ainda há um longo caminho a percorrer; não somos inventores de nossa vida e não temos tudo sob controle, ainda que, muitas vezes, nossa existência nesse mundo possa se resumir em um grande esforço e sofrimento em função do desejo de controlar tudo, até o futuro.

Isso é muito difícil para o intelectual, que lida o tempo todo com a busca pelo conhecimento que, num certo sentido, pode ser vista como busca pela “completude”. Por isso, é sempre bom recordar a máxima de Sócrates: “Só sei que nada sei”. Quanto mais eu sei, mas reconheço que, na verdade, não sei. Contudo, por saber que nada sei, maior ainda será meu esmero em prosseguir instintivamente no caminho do saber, constante, provisório, inacabado...

E para o conhecimento teológico isso é ainda mais válido. A incompletude é o ponto de partida do fazer teológico. A única coisa que sabemos é que estamos a caminho e o que vale é o caminhar e nada mais. Ainda não chegamos, há uma longa jornada pela frente. Pensar que estou lidando com o conhecimento de Deus me inspira mais ainda a vislumbrar esse caminho e a condição inacabada de nossa tarefa: “conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor” (Os 6.3).

Outras duas contribuições de Paulo me chamam a atenção. A primeira está também em 1Coríntios 13, verso 12: “Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido”. Em outra tradução (The Message) se diz: “Apenas conhecemos uma porção da verdade, e o que dizemos sobre Deus é sempre incompleto. Mas quando o Completo chegar, nossas incompletudes serão canceladas”. Faz sentido isso para você? Pois para mim faz muito sentido...

A outra contribuição paulina está em Filipenses 3.12: “Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado”. Essa é uma afirmação tremendamente Cristã, de humildade, honestidade e inquietação: Eu ainda não terminei, ainda não estou acabado, não cheguei à reta final. E porque eu não me considero um expert nesse negócio, olho para frente e sigo adiante, procurando aquilo que ainda me aguarda.

Esses exemplos me ajudam a entender um pouco mais que a incompletude não é a minha tragédia (ainda que possa parecer), mas o caminho para a liberdade e dependência de Deus, atributo indispensável da vida, mais ainda da vida intelectual.

Jonathan

domingo, 13 de setembro de 2009

I. Amor

Não há muita coisa para ser dita sobre uma vida vivida no amor de Deus que Jesus Cristo já não tenha demonstrado ou que as Escrituras já não tenham resumido em sentenças, tais como “Deus é amor”, “Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, e assim por diante.

Mas há um texto belo e poético que sintetiza muito bem e poeticamente o ágape (do grego “caridade”, que se refere ao amor divino): 1 Coríntios 13.

A vida intelectual é cheia de armadilhas. Uma delas é a de nos jactarmos do conhecimento, nos orgulhar de quão virtuosos somos por cultivar tanto conhecimento, habilidade, títulos, premiações, eloqüência e proficiência. Vaidade de vaidades, esse mundo acadêmico também é cheio delas, nele há fogueiras delas.
Tudo isso é válido, tem a sua função, cumpre seu papel, mas é inútil se não for precedido pelo amor. A primeira parte do capítulo segue essa tônica: não importa o que digamos, acreditemos, ou façamos, estaremos falidos se nisso não tiver amor, se não for por amor.

Quando aquilo que somos e sabemos, nossas conquistas pessoais, bens, habilidades, recursos e inteligência são exercidos sem amor, isto é, sem o propósito de ter o outro em consideração antes de si mesmo, de não se ensoberbecer, sentir ou provocar ciúmes, não forçar nem abusar dos outros, muito menos se aproveitar das circunstâncias em favor próprio, e não confiar em Deus sempre, elas perdem seu sentido de ser. Isso, pois todas essas coisas têm pouca durabilidade, consumir-se-ão com o tempo e com o fim dele, enquanto o amor, esse nunca morre...

Como diria Paulo em outra oportunidade, “o conhecimento ensoberbece, mas o amor edifica”. O apóstolo não está aqui menosprezando o conhecimento em si, mas indicando a sua provável finalidade (a soberba) sem a presença do amor. O amor dá vida aquele que conhece, e, por conseguinte, ao conhecimento, que por sua vez gerará vida a quem dele na mutualidade partilhar.

O conhecimento um dia conhecerá seu limite. Mas ele pode servir a propósitos imprevisíveis, eternos e belos, se for hóspede freqüente da casa do amor...

Jonathan

Série: Atributos indispensáveis à vida intelectual

Diante do desafio de falar para meus alunos(as) moçambicanos(as) sobre metodologia científica em teologia, pus-me a pensar sobre alguns elementos que seriam indispensáveis nessa caminhada acadêmica. Há muitos desafios, desde os mais teóricos, técnicos, até os que procuram delinear um perfil de bom pesquisador, acadêmico, cientista, teólogo.
Todavia, nossas devocionais nas manhãs antes de cada aula, me conduziram noutra direção, que tem a ver não precisamente com os conteúdos ou q qualidade técnica do intelectual, mas tem a ver com sua espiritualidade. E quando falo isso, não é para criar mais dicotomias – como se a atividade técnica, científica ou profissional não fossem parte da vida espiritual – mas destacar certos atributos e posturas que nascem do interior e se manifestam nas atitudes para com a vida, em geral, e também a vida intelectual.
Pensamos, então, à luz das Escrituras e das tendências hodiernas, em quatro atributos (não exaustivos) que mais moveram nossas mentes e corações naquela semana, ocupando parte de nossa agenda. São eles: amor, incompletude, fraqueza e liberdade. A idéia aqui, portanto, é refletir detidamente sobre cada um deles, pensando em sua função e implicações mais específicas para a vida intelectual.
Boa leitura!
Jonathan
(Foto: Com a turma do Mestrado em Teologia de Maputo, Moçambique/ Setembro-2009)

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

¡Gracias!

O amor, a gratidão e a generosidade, bem como o sofrimento e a contingência têm múltiplas faces. E se Deus se faz presente na realidade, na história das pessoas a quem Ele ama, então posso ver Deus através das múltiplas faces de meus irmãos e irmãs humanos, parceiros de caminhada neste mundo.

Lembremos das palavras de Jesus: “Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me... Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25.35,40). Isso não é instigante?

Sinto uma grande alegria e profunda gratidão a Deus por ter me oportunizado passar esse tempo curto, mas tão agradável em Maputo. Ouvi tantas histórias diferentes da minha, contadas e expressas nos olhos de meus agora amigos moçambicanos.

Grandes coisas pude aprender com eles e creio que eles comigo. Fico feliz em ter podido experimentar a hospitalidade moçambicana, e receber um pouco do amor e cuidado de Deus por meio desses amados Dele, que vivem geograficamente tão distantes do lugar onde eu vivo. Uma vez mais o Senhor me mostrou que ele se revela no outro, e através do outro me convida para um relacionamento vivo e dinâmico, dentro de uma trajetória cheia de surpresas e experiências enriquecedoras.

Durante a viagem, comecei a ler o livro “Gracias: a Latin American journal”, de Henri Nouwen, onde ele relata sua experiência de seis meses na América Latina. A questão principal em torno da qual gravitam tais relatos é vocacional: “Deus tem me chamado para viver e trabalhar na América Latina nos anos seguintes?”. Chama-me a atenção essa busca sincera do autor por entender sua vocação e a vontade de Deus naquele exato momento, deixando fluir suas dúvidas e convicções, misturadas com a confiança de que o Senhor o guiaria no instante exato, como o fez.

É precisamente essa convicção que tem me movido nesses dias a entregar meus caminhos e algumas idéias incertas que tenho a respeito dele a Deus, e permitir que Ele guie meus passos, instigando-me a pensar, investigar, decidir e, ao mesmo tempo, reconhecer meus limites e, assim, estar aberto às possibilidades que me esperam à porta adiante. Essa é a maravilhosa e assustadora fascinação de viver na dependência de Deus, aprendendo a apreciar, como diz meu amigo Marcos Monteiro, caminhos belos e imprevisíveis...

Gracias Senõr!

Jonathan

terça-feira, 25 de agosto de 2009

A minha Graça te basta...

“... porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza” (1Co 12.9).

Sempre fui ensinado a não duvidar nem pôr em cheque o valor da Palavra de Deus. Isso, pois tenho boas razões para crer que, se assim o fizer, não sairei decepcionado, afinal ela provém de Deus. Todavia, a cada dia que passa me convenço de que a não decepção é uma das presunções mais tolas que alguém pode nutrir, porque elas acontecem o tempo todo, não é mesmo?

Por razões obvias ou tácitas, grandes ou pequenas, importantes ou banais, o fato é que estamos fartos delas. E isso ocorre não porque haja algum indício verdadeiro na existência ou na Bíblia que me prometa aquilo que não pode cumprir, tal como muitos políticos os fazem. Mas há um forte indício de que eu tendo a criar uma expectativa grande demais ou ilusória a respeito de mim mesmo, dessa existência, de Deus, dos outros, e essa é uma das fontes de minhas decepções.

Em certa época de minha infância eu nutri a expectativa de ganhar uma bicicleta. Meus pais não prometeram, aliás, eles até adiantaram algumas vezes que isso jamais aconteceria. Porém, natal após natal, aniversário após aniversário, a expectativa permanecia, e com ela, sua não realização, e a grande decepção... Tive que aprender a duras penas que nem sempre meus ensejos interiores corresponderiam à realidade, às condições externas e ou à vontade de Deus pra mim. Depois de um tempo eu até tive uma bicicleta, mas esse não é o ponto, é? Porque outros anseios tomam lugar, eles são de uma fonte inesgotável, de modo que permanece a sensação de que nada é suficiente o bastante para aquietar meu eu que sempre quer mais, e mais...

Esse é um de meus espinhos na carne, que me dá “bom dia” quando acordo e “boa noite” quando me deito. É como um parasita que não sai, porque veio talvez para ficar de vez. Identifico-me com o pedido de Paulo: “Três vezes pedi que o arrancasse”. É insuportável conviver com isso, então arranca-o de mim, afasta de mim esse cálice! E mesmo quando, como Paulo, reconheço uma razão plausível para sua permanência, ainda assim prefiro não ter de conviver com o espinho.

E a resposta de Deus vem demolir minhas falsas pretensões e expectativas de que as coisas poderiam ser facilitadas para o meu lado: “A minha graça é suficiente pra você”. Daí, entendo que o papel de Deus não é o de dar um jeitinho nas coisas como num passe de mágica, mas o de Ser-presente sempre a meu lado, usando situações, favoráveis ou desfavoráveis a meus olhos, para meu crescimento, e aperfeiçoando seu poder por meio de minhas fraquezas.

Paradoxal, não? Estamos acostumados a ouvir que poder é sinônimo de força. Mas isso NÃO vale para uma vida na e pela graça, pois tal vida só “é” na graça, e ponto; não há nada a mais, ela basta, ela é melhor que a própria vida, pois sem a graça não há vida. De tal maneira que todos os dias em que tenho de ter face a face com o espinho, peço a Deus forças para me convencer, um pouco mais, outra vez, que a sua graça me basta, é suficiente para mim.

Isso me conduz a uma vida de honestidade, que passa pela aceitação e celebração de quem eu sou e da vida que me foi dada, com suas rosas e... Espinhos! Era pra ser assim; o espinho, seja lá ele de que natureza for, talvez tenha mesmo de permanecer para me esbofetear e lembrar-me sempre que dependo do Senhor. Nessas horas, posso lembrar dos versos da canção de Stenio Marcius, que interpreta poeticamente o texto de Paulo:

Às vezes parece que estou só e vencido, mas ao olhar vejo o meu Senhor, olhando para mim e dizendo, dizendo assim: a minha graça, a minha graça te basta, te basta, te basta; Porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. A minha graça te basta, te basta, te basta, porque quando sou fraco é que sou forte, que sou forte, que sou forte”.

Jonathan

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Teologia no limear entre Seminário e Igreja (II)

1.
Falamos em reforma de nossas percepções, programas e estratégias. Contudo, volto à questão de Edgar Morin e pergunto: como reformar nossa maneira de fazer e pensar teologia sem reivindicar para a igreja semelhante reforma? E como reivindicar isso sem confrontação direta e indireta de sua história e práticas?
2.
“Bater em igreja”, como se fez e de certo modo ainda se tem feito está longe de ser uma solução coerente e plausível. Na verdade, se tornou um recurso desmantelado e muito infeliz, quando foge em muito da perspectiva de edificação. Desta feita, haveria uma postura mediana, que conjugue confrontação com cooperação? Eu creio que sim. Podemos continuar confrontando a igreja, quando ela sai dos trilhos, mas não porque a detestamos e sim porque a amamos. Podemos continuar confrontando na perspectiva de sermos não demolidores (pois essa é a posição mais fácil) e sim cooperadores construtivos, pois, parafraseando Jürgen Moltmann, aprende-se teologia no diálogo, na confrontação e na cooperação.
3.
Por fim, diminuir as distâncias – tarefa que se constitui num desafio e, porque não, numa arte – implica em mudar nossa visão conceitual e prática da teologia para que a igreja, aos poucos, possa também mudar a sua. Teologia não é assunto e nem matéria apenas para profissionais. Teologia é uma tarefa de todo o povo de Deus, ao passo que, com diria Gustavo Gutiérrez, em todo crente há um esboço de teologia, quando cada um dá significado à sua fé e vida pessoal e comunitária com Deus.
4.
Assim, nosso esforço como instituição teológica deve estar em mostrar à igreja que teologia é uma tarefa também dela. Trata-se da recuperação da visão de uma teologia laica, que se dirige aos leigos e também parte deles, quando esses são motivados a verem a si mesmo como teólogos, pois só assim, por meio de um renovado valor ao fazer teológico disciplinado, eles poderão ser mais fiéis a Deus por meio de sua Palavra. Como reitera Moltmann, “todos os cristãos, quer jovens ou velhos, quer mulheres ou homens, que crêem e fazem alguma reflexão sobre isso, são teólogos” ("Experiências de reflexão teológica", p. 23).
Jonathan

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Teologia no limear entre Seminário e Igreja (I)

Fui convidado a me juntar a um processo coletivo de reflexão sobre como diminuir uma suposta distância existente entre Seminário (ou Faculdades de Teologia) e Igreja. Minha preocupação sobre a referida distância se dá a partir da teologia, isto é, em pensar a teologia como um elemento (não ocasional) que se faz, bem ou mal, presente entre essas duas instâncias e sobre cujo papel e relevância precisamos repensar. A breve reflexão que segue é a parte final do texto que apresentei na Reunião Pedagógica da Faculdade Teológica Sul Americana.

A mesma relação de aproximação-distanciamento que pensamos aqui entre seminário e igreja, Edgar Morin pensa em termos de escola e sociedade. Para ele, essa relação remonta a uma recorrência: “a sociedade produz a escola, que produz a sociedade”. E assim ele conclui: “Qualquer intervenção que modifique um de seus termos tende a provocar uma modificação na outra”. Poderíamos, ao modo desse autor, também afirmar que, até certo ponto, a igreja produz o seminário, que, por sua vez, produz a igreja? ("A cabeça bem feita", p. 101).

Se sim, podemos pensar essa tórrida relação de amizade e às vezes de estranhamento entre o seminário e a Igreja como um processo de troca. No meio está a teologia, como um produto inerente dessa troca. Ela não é fruto nem do isolamento, nem da fusão, mas da permanente tensão entre aquilo que se faz na igreja e o que se faz no seminário. Não haveria assunto para professores, teólogos e estudantes nos diferentes fóruns da academia, não fosse a presença viva e, bem ou mal, atuante da igreja em suas múltiplas facetas.

A insipidez das reflexões teológicas por um lado, e a aparente aversão da igreja pelas modalidades do pensar teológico, por outro, têm feito a igreja aos poucos passar do status de entidade filo-teológica (amiga da teologia) para anti-teológica (inimiga da teologia). Diminuir essa distância que paulatinamente se foi criando, implica em enxergar essa “crise” quem sabe como uma via de mão dupla, com ambos, seminário e igreja, assumindo o devido ônus e responsabilidades específicas por se chegar a esse ponto.

Mas como requerer isso da igreja (nossa desejável parceira e “cliente”) sem pensar seriamente na questão que ela tem nos feito: por que e em que nós precisamos de vocês? Nesse momento pelo menos, as modificações na mentalidade e prática da igreja são quem têm nos levado a modificar a nossa, e bem pouco o contrário. Mas talvez seja esse um movimento necessário para que o contrário também volte a acontecer, ou não?

A questão é que, por mais adaptados que estejamos a ela e suas demandas, os estudantes que ingressam num ambiente acadêmico sério como pretendemos que seja o nosso, ingressam para, inevitavelmente ou como fruto natural do processo, sofrer modificações que sob ou fora de nosso controle podem ser para o bem ou para o mal dessa tentativa sublime de reaproximação. Nesse sentido, ainda que não queiramos conflito com a igreja, acabamos arranjando problemas à medida que modificamos algumas cosmovisões dos estudantes; queremos que eles sejam “homens e mulheres” da igreja, mas sendo antes de tudo do e para o reino. E quem garante que as igrejas hoje querem servir ao reino? Queremos que elas sirvam, e por isso muitas vezes as confrontamos.

(Continua...)

Jonathan

sábado, 1 de agosto de 2009

Aprendendo de modelos

Há um ditado que afirma que ninguém nasce feito, nem para a vida, nem para a carreira (vocação), ou qualquer outra instância. Também quanto à fé, ninguém nasce feito. A partir do momento em que a recebemos, quando mudamos de rumo, somos caminhantes, aprendizes, sempre inacabados, sempre trilhando sendas diferentes, dispostos às transformações que se encontram na porta adiante.

A vida na fé é cheia de riscos; sem riscos, não há fé em livre exercício. E fé não exercitada é fé morta. Nosso exercício de fé é sempre baseado no exercício de fé de outras pessoas. Nossa fé, assim, é individual, mas é sempre fé em relação com outros. Logo, não é somente a minha fé, mas a fé de Jesus, de Paulo, de João, Pedro, Maria, Madalena, Carlos, Marcos, Antonio, Valéria, e tantos outros nomes cujas “fés” se juntam à minha nessa caminhada no reino do amor de Deus.

Aprender na fé é aprender de modelos. Nas cartas de Paulo, por exemplo, há seis diferentes passagens em que a palavra “imitadores” (no grego, mimetes) aparece, via de regra, expressando o fato de que não estamos sós nesse caminho. Ele diz: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1Co 11.1). Em outro momento ele afirma o mesmo e completa: “observai os que andam segundo o modelo que tendes em nós” (Fp 3.17).

Numa primeira instância, portanto, todos somos imitadores de Cristo. Tentamos andar como ele andou, nos relacionar com as pessoas conforme o modelo que nele vimos, responder ao clamores do mundo ao nosso redor de acordo como ele respondeu ao seu. O nazareno, que andou pela Galiléia, que era filho e aprendiz de carpinteiro, mas também era Filho de Deus e aquele que deu a sua vida por seus amigos – ele é nosso modelo maior. Imitamo-lo por sua graça, pela força que ele supre.

Numa segunda instância, porém, somos imitadores da fé que os outros têm em Cristo. O conhecimento cognitivo de quem foi Cristo e do que ele fazia não explica, ao todo, a existência de tantas pessoas que continuam crendo conforme a fé do crucificado e ressuscitado. A minha fé engendra-se a partir da fé do meu irmão, de como ele a exerce no dia a dia, como lida com a vida, como ama, e o tipo de ser humano que ele é.

Aprendemos de modelos e aprendemos de Jesus, modelos que nele se espelham, neste que continua vivo, caminhante, entre nós, por meio de mim, de você e de nosso próximo... O exercício de uma fé pessoal saudável é insustentável sem a presença do outro, e sem a vida em comunidade.

Jonathan