quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Conversa sobre a salvação

Certa vez, um menino chegou a seu pai puxando a seguinte conversa:

“Pai, meus coleguinhas da igreja e eu estamos muito preocupados”. “Por que, filho?”, perguntou o pai. “Ah pai, é que a professora da escola dominical passou um filme pra nós, que falava do fim do mundo, da volta de Jesus, e de todo mundo que não vai pro céu por ter sido ruim aqui na terra e não ter feito o que Deus manda. Me diz, pai: o que eu devo fazer pra conseguir essa tal de salvação?”.

O pai, impressionado, mas com paciência, respondeu: “Nada filho”. “Como assim nada, pai?”, indagou o filho curioso. “Isso mesmo filho, aquilo que você e eu poderíamos fazer, Jesus já fez por nós, e disse ‘pronto, está acabado”. No que o filho rebateu: “E pra gente não restou nada?”. “Restou sim”, disse o pai: “Nossa parte é a de nos arrepender de nossos pecados e crer que o que Jesus fez é suficiente como remédio pra curar a gente”.

“Hummmm... Mas e como posso ter certeza de que sou salvo?”, foi mais além o menino. “Bem filho, a bíblia ensina que essa certeza também provém da fé. Você até não sabe de todos os detalhes, mas crê, e o Espírito Santo confirma no seu coração essa certeza”.

Houve silêncio por alguns instantes, até que o filho falou baixinho: “Paiê...”. E o pai respondeu já com certo incômodo: “Fala filho!”. “Não é por nada não, mas sendo assim, acho Jesus meio egoísta”. E o pai, espantado, perguntou: “Por que egoísta filho?”. “Ah, porque ele fez a parte dele, a de Deus e a nossa, e de quebra ainda não deixa nada pra gente poder fazer... que chato!”.

Essa conversa me faz pensar que, para alguns, a graça é um tédio mesmo. Porque ela tira de nós todo o controle. A Deus pertence não somente o querer, como também o realizar. E aquilo que a gente realiza, realiza por gratidão, amor e obediência a Ele. Não podemos mais inverter os termos: nossas “boas ações” existem por causa da nossa comunhão com Deus, e não a comunhão com Deus existe por causa das nossas “boas ações”. Acertadamente Eugene Peterson disse que “a salvação significa Deus fazendo por nós o que não podemos fazer por nós mesmos”. É Deus intervindo na história de nossas vidas, transformando impossibilidade em possibilidade; é o extraordinário Divino alcançando o mais ordinário; é o Eterno criando e confirmando vida onde já não mais existia. O que podemos fazer é servir e adorar gratuitamente. "Minha alma engrandece ao Senhor, meu espírito se alegra em Deus, meu salvador". A Ele a Glória pra sempre!

Jonathan

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A Fábrica de Queijo (II)

Pense outra vez na fábrica de queijo. Imagine que aquele homem que se levantou solicitando mudanças, agora, depois de execrado da fábrica, vê-se na iminência de construir uma lista de normas em torno das quais aqueles que se juntaram a ele devem seguir, como contraposição à ordem anterior. Mas ele não se preocupa tanto em fundar uma tradição.

Quem toma a peito isso são seus seguidores que, além de montar outra fábrica de queijo (mantendo muitos dos moldes da anterior, afinal eles só conheciam aquela forma), onde agora fabricam “queijo light” e outros derivados mais “puros”, eles ainda estabelecem a chamada “confissão do Queijo”, que sistematizava um consenso sobre os valores ensinados por seu precursor, indo, porém, um pouco além do que ele havia proposto.

“E aqueles que permaneceram na fábrica?” – perguntaria um leitor mais curioso. Bem, esses agora se vêm na iminência de retomar uma caminhada, a fim de não perder mais gente para as “novas ondas do queijo”.

A estratégia utilizada pelo “senhor do queijo” e seus subalternos ilustres foi a de reforço das trincheiras da mussarela. Se a queixa original dos rebelados era contra a tradição que se formou, a tática de reação foi, portanto, a de reafirmação e reforço daqueles mesmos princípios anteriormente defendidos.

Se alguém disser que o seu queijo está muito consistente, taque então mais consistência no queijo, porque é melhor pecar por muita consistência do que perdê-la completamente...

Para quem não entendeu muito nem a história, muito menos o sentido nela proposto, não faz mal. só deixo uma dica final: dê uma olhada na história da igreja pós-reforma, e quem sabe alguma coisa desse conto nonsense possa fazer algum senso estrito.

Jonathan

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A Fábrica de Queijo (I)

Imaginem uma vila, que sobrevive e gira em torno de uma grande fábrica de queijo. Os habitantes dessa vila se alimentam e se sustentam pelo trabalho e a produção do queijo. Originalmente não havia uma hierarquia formal nessa fábrica; a hierarquia existente, mal podia ser assim chamada, pois o controle, afinal, estava nas mãos de todos, e todos ajudavam todos. Todos tinham direitos iguais no “negócio do queijo”.

O tempo foi passando, e esses direitos foram sendo cerceados em função dos interesses e do controle daqueles que se valeram da hierarquia. Logo, todos, os que produziam e estavam envolvidos no negócio, só poderiam consumir e pegar queijo passando pelas ordens do Senhor do queijo.

Tudo era por ele, para ele, e fora dele nada poderia acontecer. Ele tinha seus subordinados, é claro, que lhe serviam e eram mediadores nas relações com o restante do povo.

Até que um dia, um dos moradores da vila que trabalhava na fabrica se levantou e começou a questionar aquilo, dizer que a fabrica era para todos, logo a produção e seus resultados era direito de todos, sem ter a necessidade de passar pelo “senhor do queijo”, a quem eles deviam respeito, mas um respeito limitado. O foco estava na comunidade.

O problema é que esse homem é execrado por suas idéias de reformar a fábrica, e leva consigo um bocado de seguidores. Muitos desses se vêem descontentes, a partir de certo instante, com as mudanças propostas pelo tal homem. Eles queriam mais. Além de direitos de participação na “ordem do queijo”, tendo livre acesso ao negócio, eles queriam também direitos iguais no aspecto de distribuição desse queijo.

Outros, foram mais além, pois acharam que a “purificação” proposta pelo homem, pode ter sido suficientes para uma reforma normativo-organizacional. Na prática, porém, sua acusação era de que tudo permanecia na mesma, houve apenas uma “transferência de senhores”. O que eles propõem é uma reforma também nos costumes, buscando como modelo aquilo que faziam seus ancestrais, que lhes ensinaram o fundamental sobre como lidar com o “negócio do queijo”.

Para esses descontentes, tanto o homem, “reformador” inicial, e seus correligionários, bem como o “senhor do queijo” e todo o sistema por ele controlado, perderam a essência do legado de seus ancestrais. Necessitava-se de um retorno ao primitivo. Para isso, contudo, era preciso um afastamento obrigatório. Essa vila estava por demais corrompida em relação a seu projeto original.

A solução foi montar uma “nova Jerusalém” do queijo, onde todos viveriam conforme os ensinamentos dos seus ancestrais, e seriam purificados por uma nova maneira de iniciação, que passa por uma reforma nos costumes, bem como por novas maneiras de comer o queijo, por exemplo.

Muitas divisões aconteceram após esses ocorridos. A fábrica estava definitivamente em colapso. Os “radicais”, como assim foram chamados, começaram a ser fortemente perseguidos, sua comunidade ideal foi desfeita. Como castigo aos prisioneiros, muitos tiveram de ingerir quilos e mais quilos de queijo e, ironicamente, à nova maneira inventada por eles. Mas ainda não era o fim, muitos deles se dispersaram por outros lugares, e a causa dos radicais assim se perpetuou.

(Continua...)

Jonathan

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Teologia, o gracioso "Sim"

A teologia é a matéria-prima dos inconformados! Dos que não aceitam pacotes, nem tampouco produzem pacotes. E por essa vocação, creio que quando temos uma teologia presa e gerida apenas pelos dogmas, e doutrinas não temos teologia, temos arbitrariedade. Arbitrariedade acerca do que é, de verdades imutáveis, indeléveis, de absolutos que nada têm a ver com Deus e que muitas vezes negam o valor da vida, que Deus tanto preza, e também do que jamais pode ser, dentro do que estão incluídas a subversão, a heresia e a transgressão, assim categorizadas, muitas vezes, pelo simples fato de questionarem a ordem estabelecida. Teólogos, na melhor acepção da palavra, não se rendem a tais categorizações, tantas vezes simplistas e unilaterais.

Por não se render a arbitrariedades e por não negligenciar o seu papel, que é falar de Deus, ela não julgará esse papel (falar de Deus) como um papel estritamente dela (como se pelo simples manuseio de métodos científicos ela pudesse chegar a ele), mas de todo ser humano. Nesse sentido, todo ser humano pode ser um teólogo, à medida que pensa, pulsa, sente e crê em Deus na criação e na existência. Dessa forma, teologia não é o estudo de Deus. Isso, pois Deus, como um ser eterno, não pode ser estudado. "O Deus do evangelho", diria Karl Barth, "não é, portanto, nem coisa, objeto, nem idéia, princípio, verdade ou soma de verdades, nem expoente pessoal de tal soma" (Introdução à teologia evangélica, p. 12).

Podemos, sim, falar de nossa experiência de Deus, isto é, de Deus como um ser pessoal e relacional. E, exatamente por desejar o relacionamento, escolheu se revelar. Assim, diriam alguns teólogos, teologia é o estudo de Deus em sua revelação. Revelação que desce, palavra de se diviniza, divino que se verbaliza e verbo que se humaniza. Deus se fez ser humano! Essa é uma das grandes afirmações de fé das quais a teologia pode se valer. E esse Deus, assim, age na história. De tal modo que o "objeto" da teologia, por assim dizer, está em movimento, e ela também precisa estar. O assunto da teologia evangélica, citando outra vez Barth, é Deus – Deus na história de suas ações. Não por aquilo que somos, façamos ou nossas capacidades, mas por aquilo que ele é e nos concedeu. Assim, a teologia é uma resposta inteligente e reverente ao gracioso “sim” de Deus, isto é, à sua “auto-revelação benigna e amiga para com o ser humano” (Introdução à teologia evangélica, p. 13).

Jonathan

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Não é proibido pensar (Final)

(Rótulo 3) “O mundo pós-moderno é o das sensações em detrimento das percepções, do espiritualismo, e é a era da desrazão”.

Revanche do sagrado – é assim que muitos caracterizam uma faceta do momento “pós-moderno” – contradizendo profecias do séc. XX que declaravam o “fim da religião”. Essa percepção é reforçada se considerarmos o crescente interesse em espiritualidade (religião banhada em sentimento), aliado a um desinteresse por estruturas mais racionalistas e hierárquicas. Mas não é tudo o que se pode dizer sobre esse momento, e chamá-lo de era da desrazão pode não passar de caricatura, em se desconsiderar outras possibilidades...

Há outra perspectiva sobre isso que diz que a mudança não está em rejeitar a ciência ou abandonar a razão, mas visualizá-las sob outro ponto de vista. Nesse sentido, como já disse outrora, o pós-moderno faz uso da razão, constrói juízos e até admite algumas certezas, porém, reconhecendo os limites de sua razão, a provisoriedade de seus juízos e as dúvidas presentes mesmo em suas certezas.

Outra questão está na supressão das emoções no passado, que no presente redunda numa avalanche de emoções, de carência, e de necessidade de relacionamento. Conversar com quem quer prova racional, lógica e exata de tudo é muito chato, e vejo que há um reconhecimento crescente disso – que pode se expressar em desilusão e resignação, ou em busca por algo novo.

A diferença entre a apologética de hoje e a de ontem é que não temos mais de colocar um valor excessivo nas evidências lógicas como prova racional de nossa fé, mas damos também valor às ações, histórias vividas e contadas, aos relacionamentos. O relacionamento passa a ser o lugar onde podemos com a vida compartilhar a nossa fé, não ignorando argumentos racionais, mas passando a dar mais valor a perguntas honestas e a respostas honestas.

E a fé, segundo Brian McLaren, “é o contexto no qual é possível explorar os mistérios que fundamentam essas perguntas”, e, acrescento, sem ter de recorrer a respostas fáceis e evasivas... Durante anos a fé tem sido atacada de várias formas. Às vezes justamente, em outras injustamente. Exercemos nossa fé em meio a bons e maus exemplos. E as pessoas se apegam muito aos maus exemplos (talvez porque eles sejam mais visíveis) e estão cansadas desse tipo de religião – de dogmas, escravidão, guerra, opressão e morte. Mas ela não tem a última palavra...

McLaren apresenta a visão de uma religião na qual podemos nos alistar na luta contra o mal:
"A religião que enxerga o orgulho dos fariseus ‘aqui dentro’ e a devoção das prostitutas ‘lá fora’, a religião que ouve satanás sussurrando aos ouvidos do discípulo mais importante e que enxerga o amor exemplificado no viajante samaritano – essa religião irá inspirar a sua lealdade. A religião que reconhece sua inutilidade quando é só discurso sem ação... essa religião as tirará da cama no domingo de manhã. A religião que enxerga a verdadeira fé onde quer que ela se encontre – incluindo um ‘forasteiro’ de um contexto ‘errado’, tal como o centurião romano ou a mulher sírio-fenícia (Lucas 7.1-10 e Marcos 7.24-30) – e não somente vê, mas também a confirma, aceita, recomenda, celebra – essa religião as conquistará para a vida inteira. Mas espere! Não estamos falando sobre o reino de Deus, proclamado e demonstrado por Jesus Cristo?” (Brian McLaren. A igreja do outro lado, p. 125).
Que continue havendo sempre um grupo honesto e fiel de cristãos que não sacrificam seu amor e fidelidade ao reino no altar do fanatismo e das balburdias balaônicas de nosso tempo.

Jonathan

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Não é proibido pensar (II)

(Rótulo 2) “Ciência e fé não se misturam, pois são incompatíveis”.

Isso é outro rótulo que, por vezes, aparece e reaparece na história, e que foi potencializado pela modernidade em seu endeusamento da razão humana e da ciência. C. S. Lewis em “A Abolição do homem”, afirma que muitos “cientistas” aceitaram a oferta do bruxo: “Entregue sua alma e em troca ganhe poder”.

O cientista crê na ciência porque ela lhe oferece provas do que ele afirma. A contradição, portanto, é que essa ciência exige certa dose de “fé”. O cristão crê sem a necessidade de provas objetivas; tem certeza em meio a incertezas, e isso faz sentido, não é irracional.

No final do mencionado livro, Lewis diz: “Se você enxergar o que está por trás de todas as coisas sem exceção, então tudo se tornará transparente para você. Mas um mundo completamente transparente é um mundo invisível. Ver o que está por trás de todas as coisas é o mesmo que ver nada” (C. S. Lewis. A abolição do homem, p. 77).

Uma perspectiva racional de fé no mundo pós-moderno é aquela que reconhece que a realidade não é transparente. Em 1Co 13.12 se diz: “Apenas conhecemos uma porção da verdade, e o que dizemos sobre Deus é sempre incompleto. Mas quando o Completo chegar, nossas incompletudes serão canceladas”.

A incompatibilidade entre fé e razão existe quando: (a) se abandona uma resposta que integra e faz interagir diferentes perspectivas da vida, e (b) perdemos de vista que a supremacia vislumbrada pela fé não é a da evidência lógica, mas é a da evidência da graça.

Jonathan

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Não é proibido pensar (I)

A questão de John Stott em seu livro “Crer também é pensar” continua sendo relevante: Qual é o lugar da mente na vida do cristão iluminado pelo Espírito Santo? Mas peço licença a ele (Stott) para reformular um pouco a questão: Como posso situar a razão e as emoções em relação à fé no contexto pós-moderno?

Algumas contribuições à questão serão dadas nos próximos três posts, a partir de alguns "rótulos" comuns dentro e fora do âmbito cristão.

(Rótulo 1) “O místico não pensa, só sente, flui e transcende

Sim, o místico cristão sente, transcende, mas também tem que pensar. Antes de tudo, porque o cristianismo é uma religião de revelação – “Logos”. Do contrário, como os autores bíblicos teriam transmitido a mensagem do logos sem antes colocá-la na moldura do pensamento, da linguagem ou da cultura?

E é tarefa nossa hoje, interpretar, refletir e ensinar essa palavra. Como posso fazer isso sem pensar?

C. S. Lewis disse: “A fé... é a arte de se aferrar, apesar das mudanças de humor, àquilo que a razão já aceitou”. Como diz outro pensador, Hans Küng: “O sim a Deus, portanto, é uma questão de confiança, se bem que confiança é em si mesma perfeitamente racional. Para esse ato de confiança não existe nenhuma prova racional, mas existem certamente muitas razões sensatas”.

Posso até crer porque é absurdo, como afirmou Tertuliano, mas se trata de um absurdo que faz algum sentido (racional) para a vida.

Jonathan

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A vontade de Deus

Paulo disse que é santa, perfeita e é agradável... Bem, não necessariamente aos nossos olhos, e este é um ponto controverso dessa vontade. Queremos que ela seja de fato agradável, mas isso em nossa vã compreensão significa, na maioria das vezes, ser agradável conforme nosso ego e sua pluriversidade perversa de desejos. Ela é agradável, sim, mas no sentido do Bem conforme Deus, que realmente vê e quer o melhor para nós. E nós, queremos o melhor de Deus, ou o nosso melhor “de Deus”? Difícil aporia. Muitas vezes, na prática, eu fico com a segunda sentença.
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Conhecer a vontade de Deus implica em ser íntimo Dele, para ser íntimo dela. E ser íntimo (amigo) Dele, é preciso conhecê-lo em Sua Palavra. E mais do que isso: é preciso fazer o que nela Ele manda, como disse Jesus: “Vocês serão meus amigos, se fizerem o que eu lhes ordeno” (Jo 15.14). Enquanto isso, por outro lado, fazemos da vontade de Deus o centro de nossas neuroses religiosas, na ânsia de querer viver “no centro da sua vontade”, quando esse tal centro (que não sabemos bem qual é), na verdade, passa ao largo, visto que ao largo passamos de sua Palavra.
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O grande “mistério” é que nem tudo sobre a vontade divina é mistério. Boa parte dela foi revelada. Assim, embebidos de sua Palavra, estaremos embebidos de sua vontade, ainda que sempre de modo incompleto, até que vejamos como somos visto, e a incompletude seja anulada.
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Mas a questão também vai além do saber, o que me remete de novo a Jesus, em sua oração no Getsêmani: “Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres”. Ele só pôde pensar em rejeitar o cálice de Deus por conhecer o que beber dele implica. Assim, o enigma de Jesus, para além do conhecimento que se possui da vontade do Pai, pode se resumir na pergunta: o que nos capacita a cumprir essa vontade? De onde virá a afirmação: todavia, não como eu quero, mas como tu queres?
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Não penso que seja de um lugar de coragem, pensamento positivo, força de vontade ou heroísmo, do tipo “Chuck Norris Gospel”. Mas de um lugar de vulnerabilidade, dependência e intimidade com o “Abba”, que nos consola e nos dá força e graça para não sermos guiados apenas pelos sentimentos (“o seguirei até a morte” ou “afasta-o de mim”), mas pela convicção espiritual do caminho certo. Assim, que possamos entrar numa comunhão tão profunda na qual não exista outro caminho senão o da honestidade, e que possamos, como Jesus, num misto de coragem e vulnerabilidade, orar ao Pai: contudo, não a minha, mas a sua vontade seja feita!

Jonathan

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Pós-modernidade (3): O erro da suficiência e a suficiência do erro

Um dos erros da vida acadêmica hoje é o de continuarmos sendo modernos no sentido de buscar a suficiência e evitar o erro a todo custo, como se ele fosse o câncer da ciência. Pelo contrário, o câncer da ciência se chama sufi-ciência! É quando o cientista ou intelectual pensa que a ciência tem todas as respostas e é capaz de tudo e mais um pouco. Essa falsa assunção é (foi) sua ruína. Pois o erro não é defeito, mas é a condição de continuidade e processualidade da ciência, pois “ciência sem erro é dogma”, afirma Pedro Demo, e mais: “A renovação do conhecimento é diretamente proporcional a presença do erro”.[1]

Por isso é que eu digo que esse negócio de não querer ter mais razão, juízo, certeza ou religião não é tudo o que se pode dizer sobre a pós-modernidade. A diferença não está exatamente no conteúdo, mas na forma. O pós-moderno faz uso da razão, constrói juízos e até admite algumas certezas, porém, reconhecendo os limites de sua razão, a provisoriedade de seus juízos e as dúvidas presentes mesmo em suas certezas.

Além disso, é também uma caricatura dizer que o pós-moderno “de carteirinha”, como diz McLaren, não crê na verdade absoluta. Ele não duvida da existência de uma verdade absoluta lá fora, mas de nossa capacidade de apreendê-la, codificar numa linguagem e transmitir a outras pessoas e fazê-las compreender de uma maneira “absolutamente exata”. O problema deles não é a verdade absoluta, mas o conhecimento absoluto[2].

Para finalizar, duas contribuições de Paulo me chamam a atenção. A primeira está em 1Co 13.12:

“Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido”. Em outra tradução (The Message) se diz: “Apenas conhecemos uma porção da verdade, e o que dizemos sobre Deus é sempre incompleto. Mas quando o Completo chegar, nossas incompletudes serão canceladas”. Faz sentido isso para você? Pois para mim faz muito sentido...

A outra contribuição paulina está em Fp 3.12: “Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado”. Essa é uma afirmação tremendamente Cristã, de humildade, honestidade e inquietação: Eu ainda não terminei, ainda não estou acabado, não cheguei à reta final. E porque eu não me considero um expert nesse negócio, olho para frente e sigo adiante, procurando aquilo que ainda me aguarda.

Esses exemplos me ajudam a entender um pouco mais a pós-modernidade (ou pelo menos uma faceta dela), que me recorda de uma grande lição: que a incompletude não é a minha tragédia (ainda que possa parecer), mas o caminho para a liberdade e dependência de Deus, atributo indispensável da vida, mais ainda da vida cristã.
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Jonathan

Notas
[1] DEMO, Pedro. Metodologia científica em ciências sociais. São Paulo: Atlas, 1995, p. 53.
[2] MCLAREN, Brian. A igreja do outro lado. Brasília: Palavra, 2008, p. 234.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Pós-modernidade (2): A que podemos comparar?

Brian McLaren[1] faz uma comparação interessante: o mundo de Jurassic park é o mundo moderno. “Um sonho de controle. Tecnologia por diversão e lucro. Mas trata-se de um sonho torto. A natureza, por sua vez, tem uma corrente de caos passando através dela”. É um mundo que desejava controle, mas que perdeu o controle. E o olhar crítico a esse mundo vê que ele “desencadeou os velociraptors da degradação ambiental, os tiranossauros rexes da opressão ética, os componentes computadorizados da lascívia e da cobiça”.[2]

Por isso, o olhar pós-moderno é de desencanto para com as teorias modernas (são apenas teorias), para com o sujeito moderno (capaz, autônomo) e sua habilidade de conhecer (na verdade, conhecemos só em parte).

A modernidade, segundo Bauman, refere-se essencialmente à “solução de conflito”, a não admissão do erro, da contradição e negação do conflito, pois sempre há uma “solução”.

Se pudéssemos usar outra comparação (tomando de empréstimo de Bauman), o símbolo da modernidade seria o sólido (certezas, precisão, convicções inabaláveis) e o da pós-modernidade seria o líquido (incertezas, dispersão, convicções fluentes).

Ao mesmo tempo, não entendo que o “pós” esteja se referindo a algo “cronológico”, nem ao abandono total de princípios, como verdade, fé, ou conceitos morais anteriormente estabelecidos, mas da “rejeição de maneiras tipicamente modernas de tratar seus problemas morais”[3], de modo absoluto e coercitivo.

Em contrapartida, a pós-modernidade pode ser representada em dois conceitos, utilizados por Bauman, que endereçam sua aceitação do conflito e da pluralidade:

(1) Ambivalência. Compreende o estado em que não sabemos exatamente como agir nem prever o que vai acontecer. Ambivalente é a situação ou pessoa que admite a falta de ajuste entre a capacidade e o desejo, assume o limite dos seus meios frente à sua infinitude de desejos.

(2) Aporia. Indica uma dificuldade ou dúvida racional diante da impossibilidade objetiva de uma resposta ou conclusão definitiva a respeito de algo. Representa, portanto, um estado desejável pelos pós-modernos, de incerteza, apologia do erro, e assunção da natureza inacabada de seu conhecimento a respeito da realidade.

E se é com isso que os teólogos (e outros estudiosos) mais se debatem quando se fala em pós-modernidade, eu vejo aqui uma contribuição interessante: precisamos reconhecer que se a verdade é o absoluto ou eterno, ela é, e ponto final. Nossa linguagem e razão podem até margeá-la, mas nunca detê-la.

Jonathan

Notas

[1] MCLAREN, Brian. A igreja do outro lado. Brasília: Palavra, 2008, p. 228.
[2] Ibid., p. 229.
[3] BAUMAN, Zygmunt. Ética pós-moderna. São Paulo: Paulus, 1997, p. 8.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Pós-modernidade (1): Defina e pereça

O conceito de pós-modernidade não é dos mais fáceis de definir. Porque se trata de um objeto que se insere na perspectiva do múltiplo: múltiplas abordagens, perspectivas e nomenclaturas. Fora isso, ainda há a questão de que se trata de um fenômeno de protesto, que tem muito mais desconstrução do que construção em vista. Definição é coisa moderna. A cultura moderna é que fez com que nos habituássemos a “pôr fim em”, fechar questão, conceituar.

Nós fizemos um pacto com os conceitos. Eles nasceram para dar conta do mundo, para ser uma designação fiel das coisas às quais eles remetem. Se digo, por exemplo, “Deus”, o dizer em si já remete à entidade a qual desejo designar. Parte-se do pressuposto da correspondência entre a palavra e a coisa em si; o conceito é igualado à realidade que ele tenta descrever.

Rob Bell[1] disse o seguinte: “Nossas palavras não são absolutas. Apenas Deus é absoluto, e Deus não tem a intenção de partilhar seu absolutismo com ninguém, especialmente palavras que as pessoas usam para falar sobre Ele. E isso é uma das coisas com a qual pessoas têm se debatido desde o princípio: Deus é maior que nossas palavras, cérebros, cosmovisões e nossas imaginações”.
Bem, tudo isso para dizer que eu não tenho uma de-finição. Mas, vamos chegar lá (ou não)...

Quem fala em “pós” está querendo dividir algo. Se uma coisa é X, e outra que vem depois de X mais ainda não tem por certo o que é, então ela é designada provisoriamente como pós-X. Então o prefixo da palavra pós-modernidade, indica que estamos falando de um fenômeno que desponta como transbordamento de algo; vai além, no caso, da modernidade.

Segundo François Lyotard[2], simplificando ao extremo, o pós-moderno se define pela “incredulidade em relação aos metarrelatos” – grandes relatos que buscam uma explicação universal (única) e correspondente à realidade. Exemplo de metanarrativa: "minha linguagem (conceito) dá conta da realidade que pretendo descrever"; ou, "há coincidência entre a capacidade (o que eu posso chegar a fazer) e o desejo (o que eu quero que seja feito)".

O moderno pode ser descrito por aquele que crês nessas correspondências e o pós-moderno como aquele que desconfia, abandona ou descrê na possibilidade de coerência plena entre elas. Uma sociedade é moderna, segundo Zygmunt Bauman[3], “na medida em que tenta, sem cessar mas em vão, ‘abarcar o inabarcável’, substituir diversidade por uniformidade, por ordem coerente e transparente”.

Hoje, minha aproximação com a pós-modernidade, ainda que em construção e provisória, é menos preconceituosa e mais generosa – no sentido de tentar ouvir mais atentamente o que está em questão, já que ela não possui uma só voz, mas várias. Continuemos interpretando os "sinais"...

Jonathan

Notas

[1] BELL, Rob. Velvet Elvis. Repainting the Christian Faith. Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 2005, p. 23.
[2] LYOTARD, Jean-François. O pós-moderno. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993, p. xvi.
[3] BAUMAN, Zygmunt. Ética pós-moderna. São Paulo: Paulus, 1997, p. 10.

sábado, 17 de outubro de 2009

A Racionalidade Y

Comecemos partindo do pressuposto de que toda conceituação não é uma ampliação – como queria o cientificismo moderno – mas uma redução das coisas. Diria o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que todo conceito nasce por igualação do não igual. A igualação não é, portanto, a apreensão da coisa em si, mas o desaparecimento dessa coisa. O real escapa ao conhecimento. Logo, conceituar uma coisa é o mesmo que fazê-la desaparecer, não como realidade objetiva, mas como realidade não objetivável nos termos de sua complexidade no discurso em questão, seja de que natureza for.

Isso pode parecer complexo demais para um início de conversa. Parece, mas não é. Senão, pense comigo por um instante. Durante muito tempo, desde seu nascimento, crescimento, até a educação formal no primeiro e segundo graus (hoje ensino fundamental e médio), você certamente foi instruído(a) dentro de um tipo não muito aberto de conhecimento, que chamarei aqui de racionalidade X. Para tal racionalidade, seria inconcebível que uma coisa pudesse ter mais que uma expressão, noção explicativa, pois a racionalidade X é aquela que não abre margens para interpretação, somente para verdades. E onde não se tem interpretação, tem-se, portanto “verdade” – como sistema único de pensamento e explicação da realidade.

Logo, X só pode ser igual a X, B igual a B, e assim por diante.

Hoje (quero dizer, há certo tempo), porém, emerge um tipo de racionalidade mais dilatada (aberta), que chamarei de racionalidade Y. Ela é dilatada no sentido de que admite que X pode tanto ser X, como Y ou Z, depende do ponto de vista, isto é, da forma como se aborda X, da linguagem ou dialeto utilizado para enunciar X; trata-se de uma racionalidade mais interpretativa, que não abandona completamente a verdade (no sentido de aceitar que ela existe, lá fora, em algum lugar), com uma ligeira diferença: ela assume a inadequação dos conceitos que elabora à verdade pretendida, quer dizer, não tem pretensões à totalidades, grandes narrativas ou explicações do tipo “Saci-Pererê” (que têm uma perna só, usando o termo cunhado por Luiz Sayão).

Além disso, ela convive melhor com a multiplicidade que é inerente ao seu modo de produzir conhecimento, em conexão respeitosa e crítica com outros modos, que podem ser tão eficazes ou ineficazes quanto o seu. Aliás, o modo eficaz, segundo a racionalidade Y, é aquele modo que admite sua ineficácia, que convive bem com ela, e, mais do que isso, que a celebra.

Por isso, cabe afirmar: os textos desse blog não pretendem ser palavra determinante a respeito de nada, mas apresentar um ponto de vista possível às questões abordadas, admitindo tanto a ineficácia quanto a incompletude de seus postulados. E nas lacunas que porventura ficarem, orarei para que o Espírito continue me ilumiando na estrada da liberdade, por onde quero continuar trilhando, aprendendo e rumando.

Jonathan

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Amizade

“A alma de Jônatas ligou-se a de Davi, porque o amava como a sua própria alma... como a sua própria vida (1Sm 18.1,3).

Num mundo cujos prazeres e amores são cada vez mais efêmeros e utilitários, tenho me sentido impelido a fazer um voto de protesto e a afirmar o lugar das relações onde há compromissos duradouros, alianças e compromissos. Uma delas com certeza é a amizade. Amizade que geralmente é tratada como o mais “light” dos amores, ou que pouco teria a ver com espiritualidade. Quero encará-la, porém, como uma dádiva espiritual, em meio a um ambiente onde estamos sujeitos a hostilidades e utilitarismos, ao mesmo tempo em que os alimentamos. Um universo “plástico”, onde as relações são tão descartáveis como “garrafas pet”.

Quando, no entanto, penso em meus amigos (que em geral são poucos), penso em dádivas que Deus colocou em minha vida, com os quais posso fazer aliança, estabelecer uma relação mais leve, mas não menos compromissada, e crescer espiritualmente – o que significa evoluir como pessoa em todos os sentidos, já que a espiritualidade cristã não se plasma apenas em ritos ou disciplinas, mas é expressão de uma vida vivida conforme a graça e sob a direção do Espírito – é integral!

Isso implica em aprender a valorizar os relacionamentos – já que o “ser espiritual” é, antes de tudo, ser relacional – aprendendo a tratar nossos sentimentos e os dos outros com integridade.

Relacionamentos são complicados, é verdade, porque se dão entre seres humanos tremendamente complexos e diferentes. Mas aí é que está a “graça” da questão, vocês não acham? Deus seja louvado pela diversidade e pela complexidade da existência. Se tudo fosse fácil e uniforme, que crescimento isso me traria? Quão melhor eu poderia me tornar não fosse a indigesta “ajuda” de meu lado pior? Como progredir sem conflito, e como amar sem sofrer?

Não tem como. Amar é também sofrer – talvez por isso muita gente hoje não troque felicidade por amor, quando esse amor entra em conflito com sua concepção de felicidade, mais parecida com um “mar de rosas”. Amor e felicidade são parceiros de jornada, desde que a felicidade em questão não se pareça com a negação do infortúnio. Relacionar-se é entrar num mundo de conflitos, comprometer-se é pagar o preço da decisão, é alimentar a relação e lembrar-se sempre do outro, talvez mais do que de si mesmo.

Ao mesmo tempo, tem o lado bom (que relação sobreviveria sem ele?), de ter com quem contar e para quem contar nossas histórias, com quem se alegrar e chorar, dividir e partilhar experiências. Não é bom, nem nunca foi, que estejamos sós, porque afinal ninguém consegue viver assim. Isso me lembra da poesia de Vinicius de Morais: “Pense muito, que é melhor se sofrer junto, que viver feliz sozinho”. Ou de Salomão: “Em todo tempo ama o amigo, que na angústia se faz irmão”.

Assim, que o Senhor me (e te) conduza sempre por águas mais profundas, mais alegres e tranquilas, ainda que às vezes sombrias, e me faça ser amigo e me ajude a encontrar amigos, ou nutrir a relação com quem já “me encontrei”, e a aprender a valorizar o que há de mais profundo nos outros, não me rendendo, desse modo, a um mundo de aparências belas, mas de corações e almas vazios.
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Jonathan

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Por uma fé saudável e sem fronteiras

Um amigão meu, Daniel Xavier, enviou-me um artigo escrito por Rafael Madeira (acesse aqui), sob o título: "Introdução à fé: a última fronteira", dando sentido de que a fé seria a última fronteira a ser ultrapassada pelo ser humano já que, segundo ele, ela é "um lance muito errado". Bem, ataques desse tipo não são novos, são? Já vi muitos deles, e muitos desses eu consigo tratar com respeito, vislumbrar um sentido e fundamento na crítica, como nos casos de "ateus" famosos que costumo referendar nesse blog, como Nietzsche, e mais recentemente Sam Harris e Richard Dawkins (obviamente há muitos outros, isso é só um exemplo).

Mas desse texto, sinceramente, não consegui extrair muita coisa. Meu amigo perguntou o que eu acho, e escrevi-lhe dizendo que o que eu penso é o seguinte:

O autor acha que está atacando a fé, mas a pergunta deve ser: a fé de quem? A minha com certeza não é, pois não creio nesse Deus que ele tanto crucifica, muito menos no Deus manifesto nas formas que ele usa para reforçar seu "riquíssimo" argumento. Acho que existe gente hoje pensando de forma mais inteligente em por que a fé ainda pode ser relevante ou até mesmo gente argumentando o contrário de modo mais inteligente

Frases como: "quanto mais absurda for uma idéia, de mais fé você precisa pra acreditar nela, e quanto mais fé você tiver, mais foda você é, aos olhos de Deus", mostram exatamente isso... Lembro-me da frase de Tertuliano: "Creio porque é absurdo". O absurdo aqui aludido é aquilo que não se enquadra em regras ou condiçoes estabelecidas, enquanto o "absurdo" atacado por Madeira pode ser descrito como o destituído de sentido, tolo, ingênuo, pois só uma fé ingênua e imatura pode se resumir em sentenças como a supramencionada.

Julgar a fé e o próprio Deus, bem como a todos aqueles que neles crêem dessa forma, valendo-se de exemplos tristes, mas isolados e que não representam todas as pessoas, é um recurso infantil de alguém inconfessamente desesperado, mas que não consegue achar modelos saudáveis em que se apegar (o que não significa que eles não existam); então, sai atirando pra todo lado como se todo mundo fosse "farinha do mesmo saco" e como se Deus fosse realmente aquela pessoa como elas descrevem.

Deus é suficientemente mais do que isso para que eu continue acreditando, e muito mais do que minhas palavras podem conter, para que eu continue falando dele, sim, mas reconhecendo os limites desse falar. A língua é meu cativeiro, mas o Espírito me liberta para falar do cativeiro.

A fé é certeza, mas em meio a muitas incertezas... E é uma benção que continue sendo assim, pois se na vida tudo fosse um bando de certezas, de que adianta dizer que tenho fé? E se tenho fé, fé de verdade, essa que não é fruto de atos esquizofrênicos em nome de Deus e da religião, mas é uma dádiva de Deus aos simples, pecadores, mas puros de coração e desejosos em viver plenamente a vida e testemunhar o reino de Deus, meu rumo é a maturidade e não essa insuportável infantilidade a que muitas pessoas estão entregues, em meio a homens de má vontade, ou a críticas rasas que não têm uma visão de conjunto.

Discernir é preciso!

Jonathan