segunda-feira, 10 de abril de 2017

A coragem de saber "apenas" em parte


Agora conheço em parte, mas depois conhecerei plenamente, assim como também sou plenamente conhecido” (1Co 13.12b).

Em 1952, Paul Tillich publicou A coragem de ser, que ainda hoje é considerada por muitos (e por mim mesmo) sua obra-prima. Como outras de suas obras, esse livro foi oriundo de conferências que o autor deu na Universidade de Yale dois anos antes. Seu objetivo na obra foi o de analisar a fé a partir da coragem – no sentido ontológico, como uma qualidade do “ser” de alguém. Embutida na reflexão sobre o ser, está a questão do “não-ser”: aquilo que eu sou e aquilo que eu não-sou são duas realidades que formam a minha existência. 

Nisso consiste a principal fonte de sua ansiedade: a experiência de ser tendo a “consciência existencial do não ser”. Em outras palavras, trata-se da consciência de que meu ser tem limites, começando por limites internos (físicos, psíquicos, emocionais, etc.), passando pelos limites externos (os de “seu mundo”, de sua situação social, de sua cultura), até chegar aos limites existenciais (a finitude como o seu limite-mor). 

A ansiedade básica do ser humano nasce então da constatação sobre aquilo que ele não é: não-tão-lindo, não-tão-santo, não-tão-inteligente, não-tão-perfeito. Quando essa constatação se confirma como certeza, a ansiedade pode se transformar em desespero (“sem esperança”, a falta de sentido se torna então vitoriosa). É compreensível, então, que “toda a vida humana possa ser interpretada como uma tentativa contínua de evitar o desespero”. E, na maior parte do tempo, o ser humano consegue. A questão é: como? 

A resposta de Tillich é: evitando o ser! Ou seja: evitando encarar a si mesmo como “si-mesmo”, projetando um alter-ego. O antídoto para o desespero passa a ser, assim, a auto-ilusão, em que, nos termos de Arthur Danto, “não ocupamos nosso interior, mas vivemos ingenuamente no mundo”. Em termos práticos, ornamentamos nossa aparência com maquiagem, photoshop ou botox; acumulamos títulos, posses e posições para forjar nosso “ser social” (o que somos para os outros); criamos mecanismos psicológicos e neurolinguísticos para afirmar uma persona que só existe em nosso mundo de desejos e projeções. Tudo para que os outros gostem mais da gente e nos aceitem, e nós também.

E, vejam, isso nada tem a ver com o desejo de e o impulso para ser melhor em todos os sentidos. Pois, para isso, é necessário sim uma dose de autoafirmação, de luta consigo mesmo, de inquietude e busca de superação. Isso é saudável e faz parte de nossa “evolução” (essa palavra é ruim, mas não achei outra) como pessoas. Esse impulso e desejo se tornam destrutivos, como salienta Tillich, caso se queira evitar a todo custo o risco de insegurança, imperfeição ou parcialidade e incerteza que rondam nossa condição, além da própria realidade de quem somos e de quem não-somos.  

Dessa forma, Tillich afirma que a “boa vida”, a vida sã e humanizada, é a vida corajosa, isto é, a vida que pode ser afirmada em sua integridade, a despeito de suas ambiguidades, imperfeições e da própria morte que a cerca. Nietzsche, como sabemos, chamou isso de amor fati (amor ao destino ou a vida a despeito de quaisquer condicionalidades). Elevou isso, porém, à “vontade de potência”, paradoxalmente projetando um homem superior (um “super-homem”) e, como tal, incapaz de reconhecer suas fraquezas e de aceitar as dos outros. 

O que Tillich chamou de “a coragem de ser”, porém, nos conduz a esse lugar de aceitação e autoafirmação do ser “a despeito de” não-ser. Reúne ao mesmo tempo uma atitude passiva, de aceitação do ser imperfeito ou do “ser como uma parte”, e uma atitude ativa de afirmação do ser como “si próprio”, e não como outro qualquer. O equilíbrio entre as atitudes passiva e ativa são fundamentais para a integridade e sanidade desse ser. Uma sem a outra conduzem a extremos: aceitação sem afirmação gera resignação (ou pior, auto-comiseração); afirmação sem aceitação promove a auto-ilusão. E os extremos, como já disse certo sábio, são inimigos da vida.

A coragem de ser de Tillich tem inúmeras outras implicações para a fé, como, por exemplo, a coragem de “aceitar-se como sendo aceito, a despeito de ser inaceitável”; o que teologicamente pode ser descrito como graça. A eficácia da graça de Deus na vida humana depende da aceitação de nossa ineficácia e de nossa insuficiência. Minha preocupação aqui reside, porém, em que implicações essa coragem de ser traz para a reflexão sobre os caminhos e descaminhos do saber. E, nesse sentido, as palavras de Paulo na epígrafe são indicativas de um caminho: o caminho da coragem do ser que se reconhece como uma parte, e que, ademais, sabe que o seu conhecimento é apenas parcial.

Isso soa como uma afirmação óbvia, e isso se trata de uma afirmação óbvia, mas que muitos de nós têm obviamente a ignorado. Na prática funciona assim: sabemos que nosso saber é em parte, mas agimos com o outro como se apenas o dele ou dela fossem. Na teologia, por exemplo, sabemos, por total inferência e afirmação de fé, que “Deus é grande”, que “Deus é eterno”, mas agirmos muitas vezes como se “o que pensamos” sobre Ele também fosse (incluindo tais afirmações). A assunção da parcialidade e do estado inacabado desse conhecimento, porém, deve sempre nos lembrar de que ele nunca é grande coisa. O silogismo “falo sobre Deus, logo sou grande coisa, e esse saber também é” é um dos mais fatais para a teologia e para a espiritualidade cristãs. Faz do lugar teológico um lugar de usurpação e, como tal, um lugar idolátrico, pecaminoso. 

Como já vimos anteriormente nessa série, a comunidade de Corinto também vivia essa tentação por ser formada também por uma elite intelectual, muito ciosa de seu conhecimento. A poesia de 1Coríntios 13 vem para quebrar qualquer auto-ilusão a respeito desse lugar. Primeiro, porque afirma que o amor prevalece sobre o saber. Alguém pode saber falar a língua dos homens e dos anjos e entender todos os segredos do universo, mas sem amor tudo isso é reduzido a zero (v. 1-2). Segundo, porque enfatiza que o saber é sempre em parte (v. 8) – mesmo quando temperado com amor, como já enfatizei anteriormente nessa série. Terceiro, porque nos recorda sobre a finitude do saber: um dia, como tudo, ele também será aniquilado (v. 9). 

Ou seja, nada desse conhecimento que hoje acumulamos e ostentamos com orgulho irá permanecer. Nada! Profecias? Desaparecerão. Línguas? Cessarão. Ciência? Passará. Teologias? Igualmente. 

Essa mensagem pode aumentar o desespero de quem vive tomado pela angústia de não-ser, tentando a todo custo superar essa condição, sem primeiro passar pelo lugar humanizador da aceitação. Mas ela é, sobretudo, uma mensagem de esperança e libertação. É um grande conforto poder deitar a cabeça no travesseiro ao final de um longo dia sem esse peso tenebroso da autoafirmação (do que eu posso ser-saber) destituída de aceitação (dos limites desse ser-saber). 

O saber é uma benção enorme, mas o não-saber, nesse contexto, é uma benção ainda maior, verdadeiramente libertadora! Porque não apenas damos espaço para o outro, que também é e também sabe parcialmente, como finalmente deixamos que Deus desempenhe o papel de Deus, nos relegando o maravilhoso lugar de “apenas humanos”. Então, a coragem de ser quem se é e como “uma parte”, de Tillich, une-se com a liberdade e “a alegria de não ser Deus”, de Tomás Halík no livro A noite do confessor. É um alívio, diz ele, não ter de substituir Deus como amador, ou (diria eu) como um teólogo aspirante a Deus. Assim, (finalizo com suas palavras):
'Quando temos a coragem de largar as rédeas que, de qualquer modo, não controlam nada, mas que, não obstante, nos arrastam continuamente – através de nossas ansiedades e arrogância, através de nossa grandiosidade, loucura e vaidade, ridículas, embora perigosas –, quando desistimos de nosso posto fictício de comandante do universo, sentimos um alívio enorme. A humildade e a verdade curam e libertam'. 
Jonathan

terça-feira, 28 de março de 2017

Transformando inteligências e não inflando 'egos'


“Não imitem o comportamento e os costumes deste mundo, mas deixem que Deus os transforme por meio de uma mudança em seu modo de pensar” (Rm 12:2a, NVT).

Talvez não haja sentimento humano pior que o de estar dividido: entre mundos, desejos, valores, amores, escolhas e estilos de vida opostos ou conflitantes. A sensação é a de violação interior: somos violados internamente todas as vezes em que não conseguimos ser quem somos e, simultaneamente, agradar a todas essas forças que o tempo todo parecem guerrear dentro de nós, ora nos empurrando para um lado, ora puxando para outro. É uma espécie de escravidão, porque são essas forças e não nós mesmos (muito menos Deus) que temos o controle sobre nossas vidas. 

O exemplo neotestamentário clássico é o de Paulo, em Romanos 7, quando apóstolo narrou seu drama interior entre desejar fazer um tipo de coisa – por entender, pela lei de Deus, que era bom e correto – e ver-se seguindo a via completamente oposta, pela força da “lei do pecado” que habita em seus membros. “Quero fazer o bem, mas não o faço. Não quero fazer o que é errado, mas, ainda assim, o faço” (Rm 7:9, NVT). E, como ele deixa bem claro naquele texto, a força para vencer (ainda que não de uma vez por todas) esse conflito não reside nele mesmo, mas na graça de Jesus Cristo.

Ou seja, ao mesmo tempo em que aprendemos que estar dividido faz parte da experiência humana – pois é fruto da angústia de querer e não poder, ou de não querer, e ainda sim fazer –, também sabemos que isso é tremendamente destrutivo, pois nos faz escravos do pecado e de nosso ego (o que dá no mesmo). O ser dividido é um ser adoecido, carente de seu brilho humano original. 

No próprio texto de Romanos 7 Paulo relembra o nome desse mal: “cobiça”. A cobiça é o que me faz desejar algo que está além de minhas possibilidades; e, quando ela toma conta dos meus membros, é também o que interdita o bem que eu quero fazer, mas não consigo. Ela normalmente começa com um pensamento (falo como mestre da cobiça!), um simples e aparentemente inócuo pensamento. Na medida que vai tomando forma, esse pensamento vai chamando outros pensamentos e corporificando um desejo, que logo toma conta do coração (o centro da volição, segundo o AT), e quando ocupa o coração se enraíza e faz morada ali, se espalhando para os membros do corpo e demandando atitudes concretas de satisfação. Nesse âmbito, a lei de Deus já não tem poder algum a não ser o de aguçar a concupiscência (o desejo pecaminoso).  

A cobiça é, portanto, a mãe e a mestra da alma dividida!

Em Romanos 12, Paulo deixa claro que a transformação passa pela entrega de nosso ser inteiro a Deus como “sacrifício vivo e santo, do tipo que Deus considera agradável” (Rm 12:1). Que tipo de sacrifício é esse? Não se trata de uma oferta tipicamente religiosa, porque o sacrifício vicário, último e suficiente (de Jesus na cruz) pôs fim à necessidade de ofertas dessa natureza. O que “está consumado” não pode ser revogado, tampouco barateado no altar das “oferendas espirituais”. Trata-se precisamente do nosso coração. Ou seja, até para que a cobiça não mais tome conta do coração e faça dele um escravo, é necessário oferecê-lo inteiramente a Deus. Somente assim o coração – e tudo o mais no ser humano – poderá ser livre ou rumar para a liberdade.

O passo conseguinte dessa liberdade está em não mais ter de mimetizar os modos de ser e pensar de nossa cultura, especialmente aqueles que nos conduzem ao velho problema da cobiça e, portanto, são conflitantes com a vida de e em Deus. E aqui entra em questão o que mais quero chamar atenção nesse caso: a transformação pela qual alegamos ter passado, no momento de nossa conversão (ou da entrega de nosso coração a Deus), implica em um modo novo e diferente de pensar: do pensar que se conforma ao pensar inconformado

O primeiro é o que segue as tendências, modismos e flutuações de seu tempo e cultura; é o pensamento que se adapta de acordo com os ditames de seu entorno, que “se mundaniza” ao se curvar ao modus operandi e às urgências de seu tempo. Em contrapartida, o segundo é o que quero chamar aqui de "pensamento mutante". É mutante porque está mudando constantemente não apenas por não aceitar os moldes impostos por seu entorno (e aqui me refiro tanto a conteúdos quanto a formas), quanto e principalmente porque procura seguir o sopro do Espírito de Deus – o mais selvagem sopro do universo! E na medida em que o Espírito de Deus, como sabemos, nunca para de soprar – a despeito de nossa incapacidade de escutar o que Ele sopra – o pensamento de quem procura segui-lo nunca para de mudar, de amadurecer, de se trans-formar. 

Por isso esse pensamento é, no geral, in-con-formado; suas formas são assumidamente provisórias; sua teologia é feita a partir do caminhar e da jornada e, por isso, resiste a moldes ou formatações permanentes. É construída a partir de constantes esboços de saber e agir à luz da Palavra, e como resposta crítica às necessidades de seu contexto. E assim, pela graça, vai “experimentando” aqui e acolá relances da “boa, agradável e perfeita vontade de Deus para vocês” (Rm 12:2b). E aqui está um claro contraste entre apenas conhecer e experimentar: há muitos que conhecem cognitivamente a vontade de Deus (como o Paulo de Rm 7 dizia conhecer bem “a lei de Deus”), mas somente aqueles que permitem ser transformados por Deus e sua graça é que a experimentam de fato. Mas o que isso significa concretamente?

Bem, há vários sinais dessa transformação que Paulo nos vai apontando ao longo do capítulo 12, sendo o mais marcante deles, a meu ver, a capacidade de se humilhar. Começando por ser “honestos em nossa autoavaliação” (12:3), andando de acordo com o que Deus nos deu e não se julgando maior nem melhor do que ninguém. Por outro lado, o comportamento cobiçoso é irmão do comportamento orgulhoso: na medida em que almejamos ser mais do que nos cabe, isso vem acompanhado de querer ser mais que os outros – e logo achar que sabe mais, que é mais inteligente, e que a luz de seu pensamento reluz tanto que torna o do outro uma mera sombra. 

Não se trata aqui de negar quem somos e o que sabemos, tampouco de esconder isso, mas de saber que no Reino de Deus não há espaço para “egos inflados”. O dom de Deus foi feito, sim, para ser externado e partilhado, e realizado com excelência: que o profeta profetize na medida do dom de Deus; que o mestre ensine bem; que o servo que sirva com dedicação; já o que lidera, que o faça de modo responsável (cf. 12:6-8). No ato de partilhar, porém, precisamos aprender não usurpar o lugar uns dos outros, porque, como lembra Paulo: “Somos membros diferentes do mesmo corpo, e todos pertencemos uns aos outros”. E, como diz a poesia de Beto Guedes na canção “O Sal da Terra”: 
Vamos precisar de todo mundo, um mais um é sempre mais que dois | Pra melhor juntar as nossas forças é só repartir melhor o pão | Recriar o paraíso agora para merecer quem vem depois.
A inteligência transformada é fruto de um coração transformado; fruto da cabeça que incha no mesmo compasso em que incha o coração. Que sabe que no reino de Deus maior é o que serve, que honra o caminhar de quem veio antes e pavimenta o caminho para quem vem depois, porque reconhece que todo mundo precisa de todo mundo

Jonathan

segunda-feira, 13 de março de 2017

O péssimo hábito da literalidade e do pré-juízo


Um dos grandes descaminhos do saber se encontra no que chamo aqui de “péssimo hábito da literalidade e do pré-juízo”. Pois, como já insisti em posts anteriores, tomar as coisas como dadas, tal como emergem na superfície, pode comprometer o juízo e a interpretação que oferecemos sobre as situações, os objetos de estudo, e as pessoas. O desafio aqui é desconfiar do dito e de meus pressupostos inicias sobre ele; é indagar sobre os possíveis “não-ditos” ou “mal-ditos” subjacentes nos ditos. Em suma, nem tudo é sempre tão óbvio quanto pode parecer. Ilustro com uma história.

Recentemente meu amigo Kleber Lucas cantou “Epitáfio”, dos Titãs, junto com sua banda em um dos cultos da “Soul Igreja Batista” no Rio de Janeiro, onde ele atua como pastor. Em seguida, publicou um vídeo em sua conta no Instagram, e (como já era de se esperar) foi execrado por uma massa de “irmãos” (digo com certa relutância) na fé, não só por cantar uma música “secular” num culto cristão, mas por ser esta uma canção cujo refrão diz: “O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído”. Duas questões me preocupam nesse caso, sobre as quais quero comentar aqui. 

A primeira questão nasce do mui antigo dualismo sagrado versus secular

O pressuposto, nesse caso, é: existe música “do mundo” e existe “música de Deus”. Na igreja a gente só pode ouvir e cantar música de Deus (isto é, gospel), nunca do mundo. Escuto essa baboseira sectária desde que me conheço como cristão, mas para mim ela nunca fez sentido. Porque tem música que se diz ser “pra Deus”, mas que simplesmente não consigo cantar (ou sequer suporto ouvir), porque fere meus ouvidos de tão ruim no conjunto letra, teologia e a melodia. Pode até comover, mas não muda um centímetro da vida; fala de Deus, mas só pra massagear o ego. 

Além disso, não me fazem pensar, não mexem com minhas entranhas, não me instam a olhar para o próximo, ao micro e macro ambientes que me cercam, a relacionar a Palavra com as questões do cotidiano, a adorar a Deus e celebrar a vida em comum-unidade, até porque centram-se quase inteiramente no indivíduo e seus problemas particulares. Como diz João Alexandre, são variações do mesmo tema, “meras repetições” – e me pergunto até quando insistiremos em repetir e variar, em segregar e não pensar, em vociferar e não dialogar? Certas coisas parecem ser insuperáveis.

Em contrapartida, tem tanta música feita por gente “do mundo” que consegue fazer o que falta a muitas canções cristãs: cantar as belezas divinas, sem necessariamente falar o nome de Deus, e retratar os dramas da vida humana e os gemidos da criação. Para citar só um exemplo dentre tantos: “Sol de primavera”, de Beto Guedes, é uma canção “do mundo” que pode ser entoada como hino a Deus, pois fala de dor, fraternidade e esperança, sobre semear a boa nova, sobre andar a segunda milha com quem chora, sobre aprender a viver e ser melhor. [É óbvio que tem muita música cristã que também faz isso com competência, mas esse texto não é sobre elas].

Ora, eu sou de Deus e eu faço parte do mundo; o mundo é de Deus (embora boa parte dele seja tomado pelo maligno), e todas as coisas boas nele existentes são fruto de Sua Graça; atributos invisíveis, como disse Paulo; imagem e semelhança do Criador. Se eu respiro, ando, vivo, canto, choro, sofro e me alegro dando ações de graças “em tudo”, não tenho razão alguma para perder tempo com dualismos religiosos infantis. Logo, não existe música de Deus versus música do mundo; existe música boa versus música ruim, e para todos os gostos. Portanto, discernir é preciso; segregar não é preciso. Agora, se não gosta ou não aprova; se para você esse tipo de fazer não convém a sua forma de fé, ao menos não julgue nem discrimine quem vivencia sua fé com liberdade e gratidão. Somente Deus conhece e examina o coração, lugar por excelência do louvor.

A segunda (e central) questão diz respeito ao péssimo hábito da literalidade e do pré-juízo

A música “Epitáfio”, dos Titãs (2001), parece-me ser apropriada para uma reflexão sobre essa vida que vivemos. “Epitáfio” nada mais é que aquela inscrição da lapide do túmulo no cemitério. Geralmente ali se escreve aquilo que a pessoa foi, uma qualidade dela. Exemplo: “Aline, esposa fiel, mãe dedicada, mulher irrepreensível”. A música, porém, inverte isso e apresenta uma lista de coisas que a pessoa queria ter feito, mas não fez. Em suma, é como se ela dissesse: “Eu queria e devia ter vivido melhor, curtido intensamente os momentos singulares da vida, mas não consegui”. 

É uma linda canção, que fala de ideais de vida possíveis, mas de um lugar de impossibilidade: o instante da morte. Embora tratemos a morte com extrema recusa, estranhamento e medo muitas vezes, ela tem uma função pedagógica: lembrar-nos sobre como temos vivido e que valor damos à vida e às pessoas a quem mais amamos. A poesia dos Titãs, porém, chama atenção a dois problemas pelo menos (um prático e outro teórico) - que, por sua vez, não anulam a meu ver sua beleza poética e sua utilidade para a reflexão, nem a torna “proibida” de se cantar na igreja (desculpe, mas me sinto ridículo nesse comentário). Primeiro, mostra que, nos últimos instantes de vida, quando não há mais nada a ser feito, alguém lamenta o que poderia ter sido feito, mas não foi ou não fez. Segundo, afirma que “o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído”. 

Aqui chegamos ao coração da questão: o acaso – que diz respeito a coisas que acontecem sem aparente (e previsível) causa ou razão – ao que me parece, não escolhe a quem vai atingir, nem tampouco tem “protegidos”. Se tudo depender do acaso, então minha vida está nas mãos daquilo que há de mais incerto e implacável. O que pouca gente sabe, porém, é que o acaso é considerado biblicamente como parte integrante da existência, e não um mal a ser extinto (nem poderia). Senão, examinemos brevemente o famoso versículo do livro de Eclesiastes em que a palavra aparece:
Percebi ainda outra coisa debaixo do sol: Os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes nem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio; pois o tempo e o acaso afetam a todos. (Ec 9:11, NVI)
O autor aqui desvela uma verdade inconveniente: nem sempre o que era para acontecer, segundo uma ordem esperada de coisas, acontece. O honesto nem sempre “vence na vida”; atos de bondade nem sempre são recompensados do mesmo modo; ou ainda, como se diz em outra tradução, “as pessoas mais capazes nem sempre alcançam altas posições. Tudo depende da sorte e da ocasião” (NTLH), ou do tempo e do acaso. A palavra em inglês para acaso é chance, e diz respeito a ausência de controle e presciência sobre tudo o que de bom ou de ruim acontece debaixo do sol. “Cedo ou tarde”, afirma-se na tradução A Mensagem, “a má sorte atinge a todos”. Isso mesmo: todos! Mesmo os que creem na proteção divina, não estão blindados contra ele. O acaso, portanto, pode não ter protegidos, como sugere o autor da canção, mas ninguém passa por esta vida sem ser afetado/a por ele.

O péssimo habito da literalidade não nos permite questionar, não nos capacita a lidar com os paradoxos, a ponderar o imponderável, porque não admite “contradições” de toda sorte – embora as Escrituras mesmas coloquem essas contradições  bem diante dos nossos olhos, só não vê quem não quer. Então, julgamos quem canta a música dos Titãs como “traição à fé” (resta saber qual), sem saber o que cada um carrega no coração quando canta, e como se apropria da canção. Os detratores do pastor e sua comunidade não estiveram na "Soul" naquele dia, e não poderiam ter a dimensão do significado que aquela canção teve para aquelas pessoas ali reunidas. Não obstante, como é usual no meio evangélico, deixaram-se levar pelas aparências, optaram pelo caminho da segregação, do ódio e do julgamento típicos de uma certa religião. Afinal, sempre é mais fácil julgar do que compreender, condenar do que discernir, empregar fórmulas mágicas do que enfrentar a complexidade da vida de peito aberto e com a franqueza de às vezes poder dizer “eu não sei”. 

Eu, porém, ainda fico com o bom senso advindo da Palavra de Deus, que me instrui aqui e acolá a evitar a frivolidade dos caminhos fáceis e a leviandade das respostas prontas, cujo convite é o do discernimento, da coragem e do enfrentamento da vida e suas intempéries, com confiança e esperança no Deus de amor, sabedores de que Ele caminha com a gente, desde as montanhas mais altas aos vales mais escuros; das avenidas iluminadas aos becos da existência, sem que saibamos exatamente o “como” nem o “porquê”. Que o péssimo hábito religioso da literalidade e do pré-juízo, bem como o seu famigerado gosto por repetições, não mais nos impeçam de encontrar Deus no lugar improvável, no aparentemente escuso e no inesperado. Pois teologia e fé que não se deixam surpreender por Deus são coisas tremendamente enfadonhas e pouco frutíferas; de novo, meras repetições. 

Jonathan

terça-feira, 7 de março de 2017

Livrai-nos dos consoladores molestos!


Vocês falam como especialistas. Até parece que, quando morrerem não sobrará ninguém para ensinar outros a viver. (Jó 12:1, A Mensagem)

Em meu tópico anterior falei sobre “o fazer que há no saber”. Neste falarei sobre os limites que a complexidade da vida impõe ao saber, e o transpassar desses limites por quem acha que o saber (teológico) tem resposta para tudo, pode sistematizar tudo, e até mesmo possui presciência sobre a vida, sobretudo a dos outros. Meu estudo de caso aqui será sobre Jó e seus “amigos”, aos quais chamarei aqui de “doutores destino” – em clara alusão ao personagem “Doutor Destino” das histórias em quadrinho da Marvel, cuja característica principal é o orgulho exacerbado. Não fica difícil, portanto, identificar o alvo principal de minhas preocupações aqui: o chamado “orgulho intelectual”. 

O livro de Jó é como uma grande peça teatral, com personagens marcantes assumindo falas em diferentes atos. Não se trata de um livro doutrinário ou sistemático, mas de uma poderosa e inquietante parábola sobre a vida e o sofrimento humanos. O enredo conhecemos bem: Jó, um homem íntegro e fiel a Deus, tinha uma vida próspera e era um dos homens mais importantes de todo o Oriente. Indo prestar contas ao Eterno, Satanás coloca a integridade e fidelidade de Jó em cheque, dizendo que ele se portava assim porque tudo ia bem com ele. “Retire tudo o que ele tem, e veremos onde vai parar essa fidelidade!”. O Eterno, então, permitiu que tudo lhe fosse retirado, porém, sem nenhuma consequência fatal. 

E assim se fez, tudo na vida de Jó entrou em colapso como num efeito cascata: primeiro foram os bens materiais, depois a família e, por fim, a saúde de Jó. E nada de Jó pecar. Vieram seus amigos (Elifaz, Bildade e Zofar), que permaneceram a seu lado em silêncio, velando-lhe o profundo sofrimento durante setes dias e sete noites. Ao final daquele tempo, Jó, não suportando mais a dor e miséria absurdas em que caíra, quebrou o silêncio e começou a amaldiçoar o dia de seu nascimento, questionar a razão de ser de sua existência e a despejar toda a sua revolta em Deus, colocando em pauta a questão do “sofrimento do justo”, tema recorrente nos livros de sabedoria do AT.

Sua indagação central foi: por que Deus permitiu que eu, um homem reto e bom, viesse a sofrer tamanho revés, tamanha miséria e a experimentar tão grande amargura na vida, a ponto de desejar a própria morte? Onde foi que eu errei para que a morte invadisse minha vida dessa maneira? Como o infortúnio lhe atingiu de modo certeiro e avassalador, Jó não tinha em quem descontar, de modo que o alvo mais natural nesse caso era o Eterno, a quem ele servia e era fiel. “Por que, Deus!? Por que eu? Por que dessa forma tão cruel?”. Quando o infortúnio e as más notícias batem à porta, as respostas tendem a sair logo correndo pela janela. A sensação de solidão e abandono é recorrente. E quem mais poderia suportar-nos nessa hora senão o Eterno?

Os “amigos”, porém, não entenderam assim, e logo também saíram das sombras e do silêncio, bancando os paladinos de Deus, mas de fato desempenhando o papel de “advogados do Diabo”. Sabe aquele grupo que liga as antenas logo que vê alguém falando de Deus e não perde a oportunidade de pular no pescoço de quem quer que possa estar dizendo algo que venha “machucar Deus” (ou o Deus de sua ortodoxia ou de sua teologia)? Os amigos de Jó foram capazes de ficar em silêncio compreensivo só enquanto o amigo igualmente permanecera em silêncio, como se sua dor fosse menos “doída” e (para eles) menos escandalosa porque silente. Mas quando ele passou a gritar e a lamentar, eles saíram da condição de amigos para a de juízes e “doutores destino”, sabedores do que Deus pensa e porque as coisas acontecem como acontecem, implementando uma lógica própria: a de causa e efeito. A teologia dos amigos de Jó, como bem notou Caio Fábio em seu livro O enigma da graça, é a “teologia moral de causa e efeito”. 

Para eles, a vida de pessoas inocentes e íntegras de fato não pode acabar em desgraça, porque elas não semeiam isso; quem semeia bondade só colherá bondade. Para eles, somente “aqueles que cultivam o mal e semeiam a desgraça colhem exatamente isso”, como disse Elifaz (Jó 4:8). Segue-se que o problema de Jó e a situação em que se encontrava tinha uma causa ou razão certa: é porque ele estava em pecado, e é porque não era justo nem íntegro como reivindicava ser. De fato, a sabedoria bíblica atesta que “não há uma única pessoa perfeita no mundo; nenhuma que seja pura e sem pecado” (Ec 7:20). A retidão de Jó indicava um caminho de obediência, mas não uma vida sem pecado. Inteiramente diferente é, porém, dizer que ele caiu nessa situação porque era pecador; se assim fosse, como explicar a situação de tantas pessoas que vivem em pecado, mas não sofrem o mesmo tipo de consequência? O problema do sofrimento do justo é, portanto, consentâneo ao problema da prosperidade do ímpio. 

De mais a mais, com um raciocínio tão simplista baseado na lei do “toma lá, dá cá” (alguém só recebe aquilo que realmente merece), os conselhos não poderiam ser menos molestos do que os que foram por eles apresentados, como os de Zofar a Jó: é o seguinte, você pecou, fez besteira e isso é um fato, do contrário não poderia estar na situação em que está. Então, abra o coração para Deus e peça ajuda; se você abandonar o mal, limpar das mãos o pecado, “você poderá encarar o mundo sem sentir vergonha e andar seguro sem medo nem culpa. Você esquecerá das suas angústias: elas não passarão de cagas lembranças”. E mais: “o sol vai raiar e brilhar para você, e toda sombra será dispersa ao romper da manhã” (Jó 11:13-16). Simples assim. Praticamente uma formula mágica! Ora, a resposta de Jó não poderia ser outra e provavelmente ocorreria a qualquer ser humano sensível, e se revela no sentimento de traição e desamparo: “Alguém desesperado pelos amigos deveria ser amparado, mesmo que desistisse de confiar no Todo-poderoso (...). Vocês apontam o que há de errado em minha vida, mas respondem à minha angústia com conversa fiada (Jó 6:14, 26).

As respostas honestas de Jó me lembra das considerações de C. S. Lewis em seu livro A anatomia de uma dor, escrito por ele em seu período de luto pela morte de sua esposa. Ali Lewis revela que em sua busca por Deus em meio a luto, tudo o que conseguiu encontrar foi “uma porta fechada na sua cara, ao som do ferrolho sendo passado duas vezes do lado de dentro. Depois disso, silêncio”. Também assevera que a dor não diminui nem o tormento vai embora com consolos e conselhos molestos, por mais bem-intencionados que sejam, nem com “evasivas”, discursos com ornamentação rebuscada ou explanações teológicas de toda sorte. Em sua experiência, o luto não foi menor porque alguém disse que sua esposa estava melhor porque estava com Deus. E conclui acertadamente que, “quando você está lidando com Deus, é possível cometer toda sorte de equívocos”. Jó podia (e tinha, de certo modo, permissão para) estar equivocado porque ele falava de um lugar equívoco, o lugar da dor excruciante. Como cobrar bom senso e doutrina reta de alguém nessa situação? Mas o equívoco dos “amigos” foi maior, pois falavam de Deus priorizando a retidão da letra e não a singeleza do coração. Se o coração for duro, insensível e indolente, a letra, mesmo quando reta, será letra morta.

Não é à toa que Jesus não veio chamar gente (que se acha) justa e reta, mas pecadores ao arrependimento. Usando a metáfora de Brennan Manning, ele não veio para a elite espiritual e teológica, o pessoal da “auréola apertada”, mas para os maltrapilhos, isto é, a turma da “auréola torta”. Só quem passa pela grande miséria – ou que ao menos reconhece sua miséria – pode também passar pelo grande arrependimento. Portanto, minha oração final é simples: que Deus me ensine a fazer teologia a partir do lugar da incompletude, da falta e, por isso, do arrependimento. Que Ele me livre dos consoladores molestos, sim! Mas que me livre, sobretudo, de me tornar um; que afaste de mim o orgulho intelectual. Pois não há risco humano mais óbvio que o de nos tornamos apenas mais uma variação ou versão sofisticada daquilo que mais abominamos. 

Jonathan

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O 'fazer' que há no 'pensar'


Não apaguem o Espírito. Não desprezem as profecias. Examinem todas as coisas. Fiquem com o que é bom. Afastem-se de toda forma de mal. (1Ts 5:19-22)

Em tópicos abordados anteriormente aqui no blog, escolhi falar sobre a simplicidade da vida, de nossas escolhas, do modo como lidamos com o conhecimento que temos, da ideia de temperá-lo com amor, das pressões externas por produtividade, do anseio interno por ser mais. Entretanto, é preciso que se diga em alto e bom som: simplicidade não é simplismo, muito menos burrice. Explico: a moderação, como diz Eclesiastes, em tudo é boa. Isso significa, em nosso caso, que conhecimento sem simplicidade (e tudo o que ela agrega) vira cinismo, e o cinismo é autodestrutivo: só enxerga mazela em tudo e todos; não leva a nada. Mas simplicidade sem conhecimento vira pura ingenuidade, e logo somos enganados, levados de um lado para o outro como boiada. Portanto, nem o desprezo injuriado a tudo e a todos, nem a aceitação passiva e não questionada, parecem ser caminhos de sabedoria. Melhor é examinar tudo com cuidado. 

É sobre isso que Paulo está falando no texto citado na epígrafe acima. Trata-se de um chamado ao discernimento. Um chamado comunitário para examinar as profecias (não confunda com predições futuras, pois se trata da pregação evangélica), interrogar e denunciar o mal onde quer que ele exista, não perder o ânimo diante das pressões externas, manter-se identificado com o Espírito a fim de reter apenas o que é bom, e não se deixar coagir por outros “espíritos” (Roma, ditames da sociedade, perseguição religiosa, etc.) e ser levado a pensar como eles. Quem pratica o discernimento tende a pensar com e não como o outro. Voltarei a esse ponto adiante.

É uma tentação num mundo convulsionado pela informação rápida e disponível num piscar de tela do smartphone, contentar-se com o mero dado, aceitar como veio sem querer saber mais, ater-se às manchetes do dia, ouvir e acolher apenas o que lhe agrada sem se importar muito com significado e com reflexão. Aliás, se você não sabe, o Facebook já tem feito isso com maestria por você: seleciona, sobretudo, as notícias e postagens que te interessam, que concordam com seu pensamento, que se conformam com seus desejos e “ideais”. Com isso, ele nos diz todos os dias: você não precisa aceitar o diferente, você não tem de lidar com o incômodo, não precisa se escandalizar com o pensamento contrário, com o abjeto e indesejável colega de “direita” ou de “esquerda”, pois vamos fazer de tudo para criar um pequeno universo virtual de coisas e pessoas parecidas com você, prontinho para você só curtir ou compartilhar. E olha só: se alguém ficar espezinhando você, basta acionar o dispositivo de “block” e a paz reinará de novo. 

Contudo, nem toda paz é boa para se conservar, como bem nos alertou O Rappa. O conforto tem um preço e ele se chama “alienação”, que é a ação de transformar-se em alguém alienado, alheio, separado, distinto, distante; um quase alienígena em seu próprio contexto. A alienação pode até trazer comodidade, aliviar perturbações, evitar problemas; seu produto final, porém, é o emburrecimento e o embrutecimento. E assim, emburrecidos e embrutecidos, quando colocados em coletivos ou em redes sociais, tendemos a tratar os outros (em especial, os mais diferentes de nós), quase naturalmente e sem peso na consciência, com burrice, rudeza e brutalidade; em alguns casos, como um peso morto e, em outros, como um mal a ser extinto. Outro efeito da alienação em nosso tempo é que ela tem institucionalizado o ódio. E feito com que, em nome do combate ao “politicamente correto”, joguemos no lixo valores importantes como a compaixão, a generosidade, a bondade, a tolerância, o bem comum. 

Para nós, teólogos/as, eu arrisco dizer que esse é o lugar e o momento certo. Essa é a hora de fazer teologia, porque a melhor maneira de aprender teologia, para além dos livros e leituras (embora amando-os e apreciando-os), é quando estamos de ouvidos abertos e atentos ao mundo, e ao que o Espírito está fazendo no mundo, mesmo quando ele está partido e convulsionado como o nosso. A isso John Stott chamou de “ouvir duas vezes” (ao Espírito e ao mundo). Se não aprendermos a fazer teologia com os ouvidos, jamais aprenderemos a fazê-la bem com as palavras, e a convertê-la com eficácia em vida. Por isso gostaria de tomar as recomendações de Paulo à comunidade de Tessalônica há mais de dois mil anos, para pensar no “fazer” que há no “pensar” teologicamente. 

Primeira recomendação: examinar tudo. A palavra grega no original é dokimázō, isto é, examine, julgue, prove, investigue. Não tome as coisas como óbvias, nem tire conclusões precipitadas, mas prove e discirna. Se colocarmos uma comida na boca de um bebê pela primeira vez ele fará uma expressão estranha, e aquela expressão significa que ele está provando. Não dá para saber se é bom ou ruim se não testar, se não examinar. O coração do sábio, diz Salomão (em Pv 18:15) está ávido por conhecer e, por isso, está sempre aprendendo. Então, a recomendação é clara: não acredite em tudo o que vê, nem rejeite só porque o outro disse que não presta, mas prove; não apenas o modo alheio (de agir ou pensar), mas pondo o seu próprio à prova. Pedro Demo disse que “quem não sabe pensar, acredita no que pensa. Quem sabe pensar questiona o que pensa”. O pensador será um transgressor por natureza quando aprender a transgredir mais o que ele propriamente ou impropriamente pensa que ao pensamento alheio. 

Segunda recomendação: não desprezar. Exoutheneo é o termo grego aqui utilizado, que insta a não tratar com desdém, com desprezo, nem ridicularizar ou rejeitar desqualificando. No texto ele se refere à profecia ou à pregação (5:20). Considere que cada recomendação está ligada à anterior: não desprezar é o ato conseguinte de examinar. Quantas vezes não desprezamos sem provar? Quantas vezes não provamos e, logo em seguida, desprezamos? Mas Paulo diz: prove e não despreze. É possível julgar, fazer a crítica devida, apropriar-se do que for possível, sem desprezo nem desconsideração ao outro. O Espírito pode estar realizando seu trabalho naquela pessoa, mesmo que eu não concorde com nada do que ela diz, ou com sua forma. Muita gente desempenha seu papel de modo sincero e bem-intencionado. E Deus continua utilizando quem ele quer e como quer. Então, não pense que você é a nata de Deus. Porque Deus escolhe os que não são, e fala pelos meios menos convencionais.

Terceira recomendação: preservar o bom. O “bom” aqui é kalos, ou o que é próprio, bonito, valioso. O que vale a pena ser preservado? Segundo que critério? Paulo não responde a essas perguntas. Considerando, porém, a quarta recomendação (que veremos a seguir), o bom aqui é resultado de uma decisão, baseada no discernimento, no bom senso, no ouvido atento ao Espírito, na sensibilidade à luz da Palavra. Paulo está sendo, portanto, prudente: antes ele disse “não despreze”, e agora está dizendo, grosso modo, para que não aceitemos tudo sem critérios, desleixadamente. A aceitação acrítica é também uma forma sutil de desprezo, como quando alguém te diz algo importante e você responde com um desdenhoso “tá bom” – que, no fundo, quer dizer “não estou nem aí para isso”! O teólogo que escuta mais do que fala será capaz de ser rigoroso e terno, sensível e criterioso, tudo ao mesmo tempo numa atitude própria de quem não separa o coração do ato de pensar.

Quarta recomendação: não apague o Espírito. Apagar aqui é sbennumi, que também significa “extinguir” ou “suprimir”. Como alguém pode extinguir o Espírito de Deus? Não podemos extingui-lo da vida. Mas podemos extingui-lo de nós mesmos, calando-lhe a voz, ignorando a direção (ou caminhando na contramão) do vento. Já disse que toda boa teologia começa antes com o ouvir que com o falar, e na prática de ouvir a oração é indispensável. Karl Barth disse que a oração é “o primeiro e fundamental ato do trabalho teológico”. Não se trata apenas de dobrar os joelhos (embora Barth também diga que quem não dobra os joelhos, não pode se levantar), mas de deixar com que Deus dobre nosso espírito, envergue nossa vida, realize seu trabalho em nós, subtraindo-nos de nós mesmos, e fazendo sua luz brilhar ali no espaço em que só resta Ele, falando, agindo, nos interpelando. 

Espera-se que essa abertura ao Espírito se converta numa abertura ao outro, ao diferente e ao novo. De acordo com João Batista Libânio, normalmente nossa rejeição ao novo tem a ver com uma insegurança e um medo inconscientes. Onde atua o Espírito, porém, ali há liberdade (2Co 3:17) e, como expressa Libânio, “a abertura para o novo só é possível na liberdade”. Ele também defende a ideia de que essa abertura ou fechamento ao diferente também se configura como abertura ou fechamento diante de Deus, “que se manifesta ao ser humano como diferente, como o outro, como totalmente outro”. Em resumo: toda “boa” teologia começa com uma escuta atenta, em atitude de oração; mas também tem a ver com uma abertura, prontidão e suscetibilidade crítica para receber o diferente.

Jean-François Lyotard em The inhuman, diz que “estar preparado para receber aquilo que a mente não está preparada para pensar é o que merece ser chamado de pensamento”. E também afirma que todo pensamento (do impensável) envolve dor. Explicando: estamos acostumados com o “já-pensado” e é mais habitual e confortável lidar com esse conjunto de saberes e práticas que estão conformados ao “já-pensado”. No entanto, não há nenhum desafio em pensar o que já foi pensado – na verdade, é até um contrassenso ao discernimento, sobre o qual venho falando. O desafio é receber e lidar com o não-pensado. E o não-pensado dói, porque muitas vezes entra em choque com o que já havíamos pensado antes – ou alguém em nosso lugar. Por isso, retornando a um argumento anterior, pensar o já-pensado é pensar como – conforme sempre pensamos, aprendemos e aceitamos; já pensar o não-pensado é pensar com, isto é, pensar junto, ao mesmo tempo, não apenas aceitando, mas também ajudando a construir esse novo jeito de pensar. 

A última recomendação não é menos importante: abster-se do mal. De “toda forma” de mal (ponēros, i.e., o ato mal, a malevolência, a maldade pura e simples). Jogar fora tudo o que tenha essa feição malevolente. É discernir o mal e afastar-se dele. Pois o pensamento que se reveste do mal é o pensamento que fere todas as recomendações anteriores. E a melhor forma de abstenção do mal, como Jesus no ensinou, é usar e oferecer o bem como moeda de troca. E não apenas pregar o bem, mas personifica-lo. Nisso consiste a vocação da teologia: que ela seja um pensar no qual também se imponha um fazer. E que esse fazer gere frutos dignos de arrependimento.

Jonathan

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Quando saber não é o bastante

O saber ou conhecimento ensoberbece (dá lugar à arrogância), mas o amor edifica.
Conhecemos bem esse texto paulino (1Co 8:1). Quantas vezes não o utilizamos para o despropósito de dizer que o conhecimento não vale de nada; que a razão atrapalha a fé; ou, pensando particularmente no caso de quem se dedica ao conhecimento teológico, que o sujeito se torna descrente se estuda demais. Mas será que é isso que Paulo está dizendo?
Se olharmos atentamente a toda a passagem (8:1-13), veremos que o conhecimento é um elemento importante aqui, mas não é o centro da questão (embora meu foco aqui seja falar sobre ele). O centro tem a ver com uma disputa entre facções dentro da comunidade cristã sobre a licitude ou não licitude de comer um certo tipo de comida (aquela que era sacrificada aos ídolos). A existência de facções não é uma grande surpresa se considerarmos que isso aconteceu na cidade de Corinto.
Corinto era uma cidade multicultural. Nela conviviam judeus, cidadãos romanos, gregos, imigrantes (sírios e egípcios); era uma verdadeira Babel sociocultural. Era também uma cidade plurirreligiosa. A adoração monoteísta caminhava lado a lado com a politeísta (deuses greco-romanos, deuses estrangeiros, sem falar no próprio Imperador). A igreja, por sua vez, não estava alheia a essa diversidade. Era étnica (judeus e “pagãos”) e socialmente diversa – do tesoureiro da cidade ao escravo; de camponeses à gente da elite.
Corinto não era Atenas, mas a classe alta nutria pretensões filosóficas e se orgulhava de seu conhecimento e sabedoria. A questão do texto está diretamente associada a isso. Por um lado, judeus e cristãos agradecem a Deus pela comida; por outro, os pagãos honram aos deuses nos atos de celebração envolvendo refeição.
A comunidade cristã em Corinto estava dividida entre, pelo menos, duas facções: (a) Os “fortes”, eram aqueles que diziam, acertadamente, que ídolos e deuses não eram nada, pois no fundo só há um Deus. Eram “fortes” porque privilegiados por esse “conhecimento” e pela “liberdade” que gozavam na participação social; (b) os “fracos”, em geral, eram provavelmente pagãos recém-convertidos; em sua vida anterior, estavam acostumados com o sacrifício aos ídolos, por isso, ao ver irmãos e irmãs participando dessas refeições, sua consciência era maculada, escandalizada.
Tudo isso chegou a Paulo, algum tempo após sua partida, em forma de “bomba atômica”. Sua preocupação pastoral e recomendações nos traz, ainda hoje, luz sobre o que fazer, como cristãos maduros e sóbrios (10:15), diante de disputas facciosas. Para meus propósitos aqui, relativos à busca de um saber edificante, ficam três aprendizados:
Primeiro: Aprender a temperar nosso conhecimento com amor.
Como fala a pessoas maduras, Paulo começa com um paradoxo: (a) todos temos algum conhecimento (v. 1); (b) mas quem acha que sabe, ainda não aprendeu como saber/pensar. É preciso desconfiar do que já sabemos e de como fazemos uso do que sabemos, porque o conhecimento infla (ensoberbece, nos faz orgulhosos), e se torna instrumento de destruição (ser mais que os outros). E isso é muito importante: uma pessoa pode até desempenhar uma função ou realizar uma performance melhor que outra pessoa, mas isso não faz dela uma pessoa melhor.
A questão não é abandonar o conhecimento, mas temperar o saber com o amor. É perguntar se o conhecimento nos faz pessoas melhores (e não apenas mais sabidas). Além disso, reconhecer que a gente só sabe em parte (1Co 13:9) é um modo cristão autêntico de habitar harmoniosamente na casa do conhecimento e na casa do amor, até que os dois formem uma só casa.
Segundo: Aprender que, mais que o saber, o que importa são as pessoas.
Paulo diz: eu sei, vocês sabem – o ídolo não é nada! Deus é tudo, há somente um Deus! Essa comida é igual a qualquer outra. Mas não é todo mundo que sabe disso. Portanto, saber não basta, não pode preencher tudo. “O conhecimento verdadeiro não é insensível”. Não é insensível ao outro, à pessoa, que está além do saber, o irmão e a irmã de caminhada, a quem prezamos.
Na década de 70, em O sofrimento que cura, Nouwen dizia lamentar ver sua igreja dividida em questões (gênero, homossexualidade). Então dizia que uma igreja dividida em questões, tende a se esquecer das pessoas. Hoje somos um país também dividido por questões (políticas, ideológicas, religiosas, sociais, etc.). Por causa dessas coisas nos tornamos inimigos de quem pensa e se posiciona de modo diferente, ao ponto de demonizar e excluir tal pessoa de nosso rol de relacionamentos. Muitos (ditos) não-cristãos fazem isso; e muitos (ditos) cristãos também.
Jesus, o fundador e cabeça da Igreja, porém, sempre acreditou que entre nós podia e devia ser diferente: que o primeiro é o que serve; que mulheres e homens têm igual importância; que os últimos serão os primeiros; que pequeninos, pecadores, publicanos e prostitutas nos precederiam no reino dos céus; que pessoas importam mais que coisas ou questões.
Terceiro: Aprender que com grandes saberes vêm grandes responsabilidades (essa eu parodiei, mas penso que vale muito aqui).
A começar pela responsabilidade de não colocar “em prática” tudo o que sabe; a abrir mão do “meu direito”, da “minha liberdade”. É obvio que, numa sociedade capitalista, liberal, narcisista e individualista isso soa como uma tremenda heresia!
Mas Paulo era universalista. Ele era bobinho o bastante para acreditar que, às vezes, o particular precisa ser sacrificado em favor do todo – muito antes disso ser tão polêmico como é hoje. E mais: ele usou seu próprio exemplo como alguém que, “mesmo livre das exigências e expectativas de todos”, tornou-se “voluntário para com todos a fim de ganhar todo tipo de gente” (1Co 9.19). Ele não queria só falar, mas também encarnar a mensagem.
Então, já que o ídolo não é nada; já que comer ou deixar de comer não nos faz mais próximos de Deus, nem melhores que ninguém, é o seguinte: abram mão! Não sacrifiquem as pessoas mais fracas por causa do seu conhecimento e da sua liberdade, não! Porque se vocês macularem isso, se vocês ferirem essas pessoas, ao próprio Cristo estarão fazendo.
Então, podemos perguntar: como é a que a gente pode fazer isso, Paulo? É simples, ele disse, vocês têm que agir de modo semelhante a Jesus (Cf. Fp. 2.5-11). Em outras palavras, na contramão de um mundo inflado e tão cheio de si; na contramão de religiosos que só querem se encher do sobrenatural de Deus; na contramão de suas teologias, ideologias, e causas partidárias: ESVAZIEM-SE!
Num mundo dividido em facções, que a gente não se esqueça de Jesus; nem de que naquela cruz, todo direito e toda liberdade foram redimidos, mas também esvaziados. Que o saber, ainda mais o teológico, deve existir para ajuntar e edificar, e não para dividir. Se vier a dividir, como ocorreu com Jesus, que não seja pela nossa soberba, mas pelo incômodo gerado por nosso testemunho e nossa obediência a Jesus.
Jonathan

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O risco de se perder e a graça de ser achado

“Ele estava bem longe, na estrada, quando o pai o avistou...” (Lc 15.20)
Certa vez, um grupo de religiosos – ou de gente que se considerava bastante justa – viu um de seus mestres acompanhado de uma turma que eles consideravam ter uma “reputação duvidosa”. É que gente religiosa costuma se preocupar mais com reputação que com integridade. Então, começaram a fofocar entre eles sobre o absurdo daquela situação.
Ouvindo atento àquela conversa, mas sem responder às acusações ou se preocupar com os rótulos que recebera só de aparência, aquele homem, um perito em contar histórias, resolveu emendar umas duas ou três parábolas, que falavam de “perdição” – assunto, aliás, que não saía da agenda daquele grupo, afinal gente que se acha justa demais se preocupa tanto em arbitrar sobre o fato de uma pessoa ser perdida, que se esquece de espalhar a boa-nova de ser achado – mas também, voltando às histórias, falavam de reencontro, perdão e celebração. Uma me chama a atenção em especial, que gostaria de retratar aqui.
A história recontada[*]
É a história de um pai que tinha dois filhos.
O mais velho era um daqueles tipos dedicados, trabalhador responsável, fazia tudo direitinho e gostava de ver tudo nos conformes. Perfeccionista que era, quase nunca faltava na escola e era o primeiro de sua turma. Cedo mostrou interesse em ajudar o pai a tocar os negócios da fazenda, mas fez questão de trabalhar duro para mostrar serviço e comprometimento.
O mais novo era o oposto de seu irmão, o típico “ovelha negra” da família. Irreverente, extrovertido, criativo – se focava mais em pessoas que em tarefas – encantado pela música, tinha um “fraco” evidente por mulheres, nunca fez questão de ser o melhor nos estudos, mas sempre dava um jeito de tirar a nota necessária para “passar raspando”. Ao contrário de seu irmão, nunca demonstrou grande interesse pelos negócios da família. Seu irmão e empregados mais chegados o viam como um bon vivant (alguém que vive a vida para valer), “cabeça de vento”; por vezes era possível ver o mais velho indignado quando pegava o caçula saindo mais cedo do batente só para contemplar o cair da tarde da varanda ao som de boa música, poesia, vinho e diversão com os amigos até altas horas. Embora reprovasse veementemente o comportamento desregrado do irmão, em seu íntimo, silenciosamente, nutria certa inveja da vida que ele levava...
O pai procurava entender e lidar com o jeitão e as aptidões de ambos, cuidando meio que à distância, tentando possibilitar a vocação de seus filhos, sem frustrar-lhes a liberdade, mas obviamente preocupado com o futuro dos dois, especialmente com o do caçula, que era quem menos dava margem para a intervenção do pai.
Certo dia ele lhe deu um susto. Primeiro, quando fez um inusitado pedido: queria antecipadamente a parte que lhe cabia na herança que um dia receberia. O pai, tentando ser generoso e justo ao mesmo tempo, embora desolado e aflito, o atendeu. Dividiu a herança em partes iguais entre os dois filhos. Dias depois vieram o susto e a desolação maiores: repentinamente o filho mais novo surgiu com a ideia de deixar a casa do pai.
O que efetivamente aconteceu e ele partiu para um país distante. Enquanto em casa, vivia com a sensação de que estava desperdiçando a vida, de que havia muito pra ver; quando partiu, foi com um único desejo em mente: aproveitar a vida!
E ele aproveitou “até às tampas”, ao exagero, à fadiga total do corpo e de alma: consumiu, aproveitou, curtiu a vida “adoidado”, experimentou os extremos, e, sem se dar conta, torrou toda a grana que tinha. O seu muito virou bem pouco diante da imensidão de possibilidades e das escolhas que fez.
Logo veio uma fome que atingiu toda a região onde ele se encontrava. E ele não havia se preparado para aquilo. Sem dinheiro, sem teto, sem abastecimento e sem emprego, ele teve que trabalhar pesado – coisa que até então não conhecia, pois nunca tinha feito na casa do pai – tomando conta de porcos. De repente se viu tão esfomeado que já estava até desejando saborear a iguaria comida pelos porcos. Mas nem aquilo podia ter. finalmente ele chagou no fundo do poço.
Foi quando se deu conta do absurdo daquela situação. Então se lembrou do pai. Resolveu voltar, pedir perdão ao pai, assumir sua transgressão e esperar pela misericórdia de, pelo menos, poder ser achado como mais um entre nos empregados da fazenda do pai, uma vez que um dia ele sacrificou e maculou o lugar sagrado que graciosamente tinha ao lado do pai. É, meus irmãos, o amor é como um solo sagrado: não pisamos no de muitas pessoas, nem são tantas pessoas que pisam no nosso; mas quando esse solo é corrompido, a dor que fica é humanamente irreparável. E o filho pródigo sabia disso, compreendia que nada do que ele fizesse poderia reparar o mal causado no passado.
Alguns dias depois, estava o pai sentado na fazenda de sua casa, exatamente pensando em seu filho, sangrando a dor da distância, corroído pela saudade, aturdido por imaginar que o filho estava perdido, ou quem sabe morto. Fechou os olhos por um momento o cochilou. Acordou com uma revoada de pássaros e a ventania e, na estrada, para além do portão da fazenda, ainda distante, avistou o maltrapilho filho caminhando, ou melhor, cambaleando, de volta para casa. O coração do velho disparou. Ele não quis esperar, já tinha esperado demais, e saiu correndo ao encontro do filho e, chegando, o abraçou e o beijou. O filho, sem entender muito bem o calor daquela recepção, tentou começar o discurso de retratação que havia preparado. O pai cobrindo-o de beijos e ele, por sua vez, tentando das explicações! Mas o amor do pai não pedia explicações, pedia o abraço reconciliador, cedia o perdão gratuito, e transbordava a graça que festeja o retorno, a volta do perdido que foi achado.
Sem ouvir o que o filho dizia, ainda coberto de euforia, o pai gritou aos seus empregados e ordenou: – “Venham, tragam roupas e o vistam. Coloquem o anel da família no seu dedo e calçado em seus pés. Apanhem o melhor e mais gordo carneiro e o assem. Nós teremos festa! É tempo de celebrar! Meu filho está aqui – dado como morto, agora vive! Dado como perdido, agora foi encontrado!”. E foi a maior festança, como nenhuma festa antes vista.
O pai é assim, se regozija em cada reencontro, e faz de cada reencontro um evento singular, nunca visto, jamais repetido. O amor personifica, gentifica!
Mas não nos esqueçamos que havia outro filho, que havia ficado em casa. Ele voltava do campo naquele dia, cansado do trabalho. Se aproximando da casa, percebeu um movimento incomum na parte dos fundos, música, gente falando e rindo alto. Logo foi informado que o pai oferecia uma festa em comemoração ao retorno de seu irmão pródigo, a quem dava por totalmente perdido. Quando se deu conta, já estava revoltado e, é claro, recusou participar da festa.
O pai, atento a tudo, sentindo a ausência do outro filho, foi atrás dele e tentou conversar. Mas seu primogênito não o ouvia. Só conseguia sentir mais raiva, até que disse: – “Olha pai, por quantos anos eu permaneci aqui te servindo, nunca te dando uma dor de cabeça sequer, e você jamais ofereceu uma festa dessas para mim e meus amigos?!”. O pai ficou em silêncio por alguns segundos, demonstrando tristeza com aquelas palavras. Mas logo, com misericórdia e paciência, típicas de pai, ele olhou para o filho e disse:
– “Filhinho, você não entende! Você está comigo esse tempo todo e tudo o que é meu é seu também. Mas esse é um momento único, maravilhoso, e temos que festejar! Porque seu irmão estava morto, mas reviveu! Estava perdido, mas foi achado!”. Duvido que ambos tenham voltado para a festa naquele dia... Pois o mesmo pai que festeja é o pai que também sangra quando vê um filho/a perdido por alguma razão...
Imagens e percepções finais...
Essa história é uma das mais impactantes e que melhor resumem o espírito do Evangelho, e o espírito de Jesus Cristo: é a história do amor do Pai nos encontrando onde quer que seja em qual seja a condição em que nos achemos. E nos abraça com um amor que não se pode medir, substituir ou comparar!
E a grande moral da história não está em saber quem são, apontar ou identificar os perdidos da história. A questão é saber quem não é, ou quem nunca foi perdido? Os dois filhos da parábola estavam perdidos; a diferença é que um estava perdido fora de casa, e o outro dentro. Porque não é preciso sair de casa para viver perdido; basta se desconectar das pessoas que amamos e de Deus.
Então, antes de tudo, percebe-se que esta é uma história para ninguém em específico e para todo mundo em geral; pois, em alguma dimensão da vida, todo mundo é pródigo (parafraseando Gerson Borges). E é aos pródigos, aos maltrapilhos, aos pobres de espírito, aos pequeninos que o Senhor, paradoxalmente, escolheu convidar para o banquete do reino. Em outras palavras, o que Jesus estava fazendo enquanto andava com aquelas pessoas não é em nada incoerente com o que ele anunciou a vida toda.
Essa história, contudo, mostra que é possível permanecer perdido, mesmo sem nunca se deixar perder, sem nunca ter partido, como é o caso do filho mais velho.
Esse é um dos paradoxos da parábola: quando dizemos que já fomos achados, que nada mais resta para ser redimido, aí é que perdidos estamos e de modo permanente, invisível. Quando, porém, reconhecemos que perdidos estamos, mesmo que por pouco, significa que há esperança de ser encontrado ou reencontrado...
Sendo honesto, então, preciso admitir isso: sou um eterno reincidente! Não há um dia sequer de minha vida em que, por muito ou por pouco, eu não caia. Essa é uma verdade inconveniente sobre mim: eu vivo caindo! Nem todos sabem; poucos gostam de admitir, mas Deus o sabe...
A inconveniência dessa verdade está não somente no fato de que ela me expõe como pessoa, mas também de que ela mostra que o cair não precisa ser inimigo do estar de pé, de levantar, de poder se reerguer. Na verdade, como diz o ditado, “para cair, basta estar de pé”.
Ou, melhor ainda, como disse Paulo, “quem pensa estar de pé, cuide para que não caia”. Cuide, e não negue; cuide, e não reprima; cuide, o que significa, lide com a possibilidade sempre iminente da queda...
Por isso, é importantíssima no filho mais jovem a atitude de reconhecimento, também crucial a todos nós, em que se admite: “Estou perdido”! Sem isso, não há encontro possível. Quem nunca se sentiu perdido na vida não pode reconhecer a alegria e a satisfação de ser encontrado... É preciso honestidade para se identificar com o filho mais novo, como fez Henri Nouwen quando declarou: “Sou o filho pródigo toda vez que busco amor incondicional onde não pode ser encontrado”.
O que mais tem me chamado a atenção, ao reler esta parábola ultimamente, é que não somente os dois filhos são as figuras vulneráveis e perdidas da história. O pai também é. Não da maneira dos filhos, é claro; o pai é “perdido de amor”.
É essa imagem de Deus que a parábola me revela: a imagem de um Deus de amor, que também se encontra “perdido” em busca de seus filhos perdidos e não descansa até que, finalmente, os encontre. Um Deus que nos ama com um amor incondicional, incansável, imponderável, às vezes tolo, insano e nada justo aos nossos olhos.
Aposto que todos nós aqui já tivemos o sentimento de irmão mais velho, dizendo: – “Eu estou esse tempo todo aqui, ralando, me esforçando para não pisar na bola, e nunca recebi nada ‘extra’ por isso, enquanto esse meu irmão ferra com tudo, enfia o pé na jaca feio, e ainda é recebido com festa! Simplesmente não é justo!”. Agora eu pergunto: quem disse que o amor é justo? Se o amor fosse justo, como imaginamos que deva ser, o que seria de nós? Como qualquer um de nós poderia receber e dar amor?
É para esse tipo de loucura que Deus está nos chamando, para amar conforme um tipo de amor que o mundo desconhece, que é motivo de espanto, escândalo, e até mesmo frustração. É um amor que não força, não se apossa, agarra ou empurra; é um amor que liberta da obrigação do amor, para a possibilidade do amor...
No fim das contas, se nossa consciência nos acusa, se nosso coração nos condena, como o do pródigo, lembremos: Deus, o Pai de amor, é maior que nosso coração, e sabe o que é melhor para seus filhos/as. Pode reprovar com veemência quando maculamos o solo sagrado que há entre nós e Ele; mas, enquanto houver arrependimento, haverá perdão, e o convite para uma nova festa, e um novo reencontro.
Jonathan

[*] A história aqui reimaginada e recontada é uma narrativa baseada no texto de Lucas 15.11-32, conforme as traduções Nova Versão Internacional e The Message, de Eugene Peterson.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Morte e vida, gêmeas siamesas


É necessário muito tempo para a gente aprender a viver. Porque somos lentos, frágeis e teimosos demais.

Ou simplesmente porque, repetindo o jargão, viver não é fácil – especialmente para gente tão complicada quanto eu.
Mas nem sempre temos esse tempo todo para aprender. 
Pois é necessário apenas um instante para que a vida seja ceifada, e com ela, os anseios de um hoje não vivido e de um amanhã melhor. 
É, o amanhã não existe mesmo. Tecnicamente, talvez, mas na prática nunca se sabe. Por isso eu nunca aposto no amanhã; aposto no hoje.
Pois, mesmo com o desejo de ter vivido mais, e mesmo sendo cedo demais para alguns, é possível partir com a certeza de que a vida que vivemos valeu à pena.
E, assim, a saudade pela partida, para quem fica, se torna menos carregada e a dor pode andar de mãos dadas com a gratidão – ao menos eu acho...
Você pode querer sublimar, fazer de conta, buscar consolos fáceis ou ilusões úteis que te façam esquecer da realidade e te projetar para outra, menos “real”, menos cruel...
Mas a realidade é uma só: a morte é um fato inescapável, e ela não tem preferidos.
Cedo ou tarde, ela virá. E “tudo o que era sólido se desmancha no ar” (Marx), ou melhor, na terra ou debaixo dela.
Só que Bauman nos disse que hoje, já, agora, o sólido tem virado líquido. Bem, mas não apenas de hoje...
Há milhares de anos, Eclesiastes já tinha dito que tudo é fumaça, que nada faz sentido. E eu acrescento: nada permanece!
Nada mesmo?
A única certeza que tenho é a do instante, e preciso fazer dele o melhor possível enquanto tenho oportunidades. Mas só o agora oferece oportunidades.
Posso morrer sem ter mudado muitas coisas na minha vida e no mundo a meu redor; mas quero morrer bem ciente de que tentei ao máximo. De que fiz o que pude. De que que arrisquei. De que me tornei disponível aos outros.
E, mais importante, de que amei. Do começo ao fim – permitam-me contradição – só o amor permanece.

Jonathan

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Gente grande


Boas notícias muitas vezes podem vir acompanhadas por más notícias; muitas vezes no mesmo dia ou até simultaneamente.
Diante disso, gente mimada tende a espernear e "ficar de mal" com a vida e com outras pessoas - e, convenhamos, alguns e algumas de nós ficamos "de mal" mesmo por pequenos infortúnios.
O problema é que, não sendo mais crianças, isso fica bem estranho, para não dizer ridículo.
Gente grande, porém, sabe que a vida é cheia dessas contradições e paradoxos; na verdade, gente assim já espera por isso, e tem coragem o bastante para lidar tanto com os benefícios quanto com os malefícios de existir e de "estar vivo".
E mais: gente grande sabe que, muitas vezes, ser grande significa saber "ser pequeno", passar por humilhações, enfrentar lutas, perder, frustar-se, cair, mas levantar e começar tudo de novo.
Ser gente (grande) é não temer começar de novo, quantas vezes for preciso; pois às vezes é tão mais confortável seguir do mesmo jeito, não é mesmo?
Porque em todo caminhar adiante há uma incerteza; em toda incerteza, uma oportunidade; e na oportunidade, o risco de acertar é proporcional ao de errar; em cada "mancada", no entanto, há uma chance de crescimento; e todo crescimento traz no bojo uma pitada de desconforto.
Ah, mas às vezes é tão mais simples seguir do mesmo jeito... ser infante pra sempre, quem dera... pudera!
Crescer dá trabalho, crescer traz responsabilidades irremediáveis. Mas também traz o benefício da sabedoria, o privilégio de poder viver e ver a vida com outros olhos, e quem sabe dar os ombros para que outros possam subir também.
O mundo precisa mais de gente grande, do tipo que não tem vergonha de ser apenas e tão somente "humana"...

Jonathan

terça-feira, 21 de junho de 2016

Ser menos


Das grandes artes da vida que ainda quero aprender, uma tem ocupado especial lugar ultimamente: a arte de "ser menos".
As grandes aspirações e o desejo de "ser mais" a mim têm parecido tanto mais superficiais, quanto inúteis. Tudo é fumaça, diz o pregador!
Quanto mais controle sobre a vida quero, menos vida tenho.
Quanto mais saber e poder almejo, menos humanidade e amor dou e obtenho.
O saber pretensioso estultifica. Faz do inteligente o pior dos tolos.
Não sei bem a razão, mas acho que nunca quis ser tanto gente comum quanto hoje.
Talvez porque nosso mundo esteja tão rodeado e preocupado com questões, e bem pouco preocupado com pessoas, com gente.
Hoje vale mais ganhar um debate, provar uma tese, do que fazer um amigo.
Cansei de tentar vencer; meu negócio agora é tentar amar.
Pois somente o amor "gentifica", constrói e liberta.
O problema é que o desejo de amar deve ser proporcional à disposição para perder.
Somente quem ama sabe mesmo o que é sofrer.
Somente quem conhece a dor do choro, é também capaz de consolar quem chora.
Somente quem passa pela tristeza profunda, reconhece o que é alegria.
Quando decidi “ser menos”, aprendi o quanto a grande maioria de minhas ambições foram e são vazias.
Com elas, gostaria de sepultar também sonhos de sucesso, desejos doentios de aprovação, e o anseio fútil por alguns minutos de fama, a serem derretidos no vórtice do próximo instante.
Tentarei não mais alimentar a necessidade quase antropofágica dos outros de consumir meus talentos, pois essa é só mais uma maneira disfarçada de enterrá-los, ou de jogá-los fora.
Estou interessado em provar minhas escolhas, e a descobrir e perseguir quantas delas me conduzem à integridade, sem ter de falsear a realidade de quem sou.
Finalmente, quero aprender andar com Deus sem desaprender a andar com os outros.
Não há nada mais inútil que gritar “hosana nas alturas” sem estender as mãos a quem precisa aqui, nesse chão da história.
Quero a espiritualidade trans-imanente de Jesus de Nazaré, que me ensinou chamar a Deus de “paizinho” e ao estranho de “meu irmão”.
Quem sabe eu já esteja pedindo muito; quem sabe eu já tenha escrito demais.
Quem sabe o desejo de ser menos não passe do velho anseio de querer ser mais.
Quem sabe? Eu não sei.
Mas de uma coisa sei: não é possível ser menos sem a maior de todas as transgressões, a transgressão de si.

Jonathan
Londrina, inverno de 2016

terça-feira, 24 de maio de 2016

A apologética cristã e sua obsessão com a verdade: notas do submundo pós-moderno


Que a apologética está de novo em alta já não é nenhuma novidade. A questão que me ocupa aqui é: em que ela se sustenta e o que propõe? Com essa pergunta, fica claro que meu interesse nesse ensaio não é nem polemizar com algumas de suas notórias expressões contemporâneas, no Brasil e fora dele, mas entender algumas das bases nas quais se ampara sua metodologia. Para me ajudar a responder essa pergunta, elegi o norte-americano Carl F. H. Henry, teólogo e editor fundador da Christianity Today, e um dos grandes arautos, no século XX, da perspectiva de uma “apologética sólida” (isto é, de uma argumentação lógica e dedutiva em defesa dos conteúdos da fé). Algumas de suas perspectivas sobre a veracidade da fé cristã foram endereçadas em seu livro Toward a recovery of Christian belief (1990), que reúne ensaios de palestras oferecidas por Henry na Escócia em 1989. 

Em um dos ensaios em que mais enfatiza um dos temas mais caros aos apologetas, a questão da verdade, sua afirmação central é a de que a consistência racional é um “teste para a verdade”, e um meio para que a teologia não se transforme em mero fideísmo. Como quase toda apologética, por sua natureza defensiva, possui seus adversários, os escolhidos de Henry neste ensaio são os empiristas, os neokantianos e os existencialistas. Os dois primeiros pelo apelo à objetividade, e o último pelo apelo à subjetividade na busca pelo conhecimento. 

No campo teológico, ele rejeita tanto a visão liberal, de negociar os absolutos da fé bíblica a fim de adequar seu discurso às expectativas do ser humano moderno, quanto a de Kierkegaard e de certos neo-ortodoxos, como Karl Barth (pelo menos em parte de sua obra), por defenderem, segundo ele, que a verdade na religião reside mais no campo da fé (como salto) do que depende de raciocínios ou evidencias lógicas e testes racionais. Para Henry, tais visões não podem ser confundidas com a ortodoxia evangelical, para a qual, em sua visão, “é inaceitável a afirmação irracionalista de que o absurdo intelectual é o que torna dignas as crenças religiosas ou que a obediência espiritual depende de um ‘salto de fé’ indiferente a considerações racionais” (Henry, 1990, p. 39). 

Sua premissa básica, assim, é a da legitimidade de uma teologia dedutiva – fundada em argumentação racional, sistemática e lógica sobre a fé – e a invalidade da alternativa evidencialista, isto é, a que necessita da evidência empírica como prova para argumentos racionais (Henry, 1990, p. 40). Um tanto acertadamente, Henry afirma que mesmo sistemas científicos consagrados, como a teoria da evolução de Darwin ou a teoria da relatividade de Einstein, em certo nível, necessitam de fé, ou seja, da aposta de que as coisas são como efetivamente se argumenta que sejam. “Em suma”, diz ele, “sem a fé, nem a ciência, nem a filosofia, nem a teologia podem fazer progressos” (Henry, 1990, p. 44). 

A teologia dedutiva, embora se ancore na verdade da fé, defende que o teste para esta verdade é sua consistência lógica, a partir da inteligível auto-revelação de Deus; acredita na força do argumento, na defesa proposicional da fé e verificável por meio da Bíblia como meio eficaz de se falar “autoritativamente” sobre Deus. Em tese, não vejo Henry caindo na armadilha infantil de crer na correspondência da verdade com os discursos (teológicos) sobre ela. Ainda assim, ele insiste na ênfase unilateral de que o Espírito usa a verdade, atestada pelas Escrituras e testada pela consistência lógica do discurso, como um instrumento de persuasão e testemunho (Henry, 1990, p. 59). 

A questão crucial aqui, para mim, está em indagar se esse tipo de apelo autoritativo e persuasivo no testemunho seria algo urgente e, discutivelmente, a melhor maneira de se tratar da verdade contemporaneamente e se a principal questão de nossa parte com a verdade hoje é a de sua “defesa”. Se a verdade é, para fins práticos, uma pessoa (Jesus), como e qual é a função e o lugar para o falar dela autoritativa, persuasiva e propositivamente? Minha insistência nessa discussão se dá precisamente por entender que ainda há uma forte corrente no meio evangélico de insistência nessa proposta, que não imputo como sendo errada, talvez só um tanto antiquada para meu gosto – e o de tantas pessoas que, como eu, não conseguem ver sua fé ajustada a apelos absolutistas.

Crê-se, em certos círculos apologéticos, conforme disse Henry (1990, p. 71), que “a expressividade proposicional é, obviamente, uma pré-condição para a avaliação de qualquer sistema. Um sistema que não pode ser expresso propositivamente envolve uma ambição à verdade não compartilhável e que de nenhuma forma pode ser testado”. Ser proposicional não é um problema em si. Nesse momento, ao reabrir essa discussão, estou lançando mão de argumentos, de perspectivas e, espero eu, de razoáveis proposições. Ou seja, não sou adepto do irracionalismo ou do “vale tudo”. 

O que me parece um tanto ultrapassada é a pretensão à verdade (a com “V” maiúsculo) a partir das proposições; é todo o peso que se dá a elas, como se um pequeno sinal de incoerência em minha fala (o que sempre é uma possibilidade), menos até do que em minha vida, fosse prova da invalidade de meu discurso, pois este não corresponderia à verdade (resta saber: qual corresponde?). Em suma, é a pretensão a ser a única “voz da verdade” em um mundo plural. É claro que em uma discussão nos avaliamos mutuamente com base na assertividade e coerência de nossas proposições, o que não significa que: (a) elas sejam infalíveis; nem que (b) a sua consistência lógica invalida, automaticamente, o discurso supostamente menos consistente de outrem, bem como elimina sua possível aceitação como “verdade particular” em certo contexto. 

Ou seja, o que me parece estar em foco aqui é um debate como disputa, não como diálogo, quando tratamos nossas convicções nesses termos. Isso fica mais claro ainda quando Henry diz que, “se as afirmações revelacionais cristãs são verdadeiras, nenhum outro sistema poderá ser mais compreensivamente consistente” (Henry, 1990, p. 82, grifo meu). A aposta está, portanto, não tanto na verdade em si, que se basta, mas na superioridade, em termos de consistência e coerência lógica, do “sistema cristão” em relação aos demais em sua acessibilidade à verdade. 

Para Henry, em suma, embora não se possa provar (como queriam os empiristas) que o que se afirma no sistema cristão corresponde à verdade reivindicada, sua relevância filosófica depende da afirmação de que a verdade cristã tem validade universal, com alguma garantia para isso sendo apresentada (ver: Henry, 1990, p. 88). 

Uma resposta coerente a estas afirmações de Henry pode ser encontrada na seguinte afirmação de George Lindbeck (1984, p. 69, grifo meu):
Assim como a gramática por si mesma não pode afirmar nada que seja verdadeiro ou falso a respeito do mundo em que a linguagem é usada, mas apenas sobre a própria linguagem, também a teologia e a doutrina, na medida em que são atividades de segunda ordem, nada podem afirmar de verdadeiro ou falso sobre Deus e sua relação com as criaturas, mas apenas falar a respeito de tais afirmações. 
A visão de Lindbeck parece coincidir com a ideia de que a teologia não produz teorias de correspondência com a verdade, uma vez que ela seria uma espécie de “fala sobre a fala” (aboutness, na linguagem de Rorty), isto é, não o próprio espelho da linguagem divina, mas uma fala acerca tanto da fala de Deus (isto é, das Escrituras, que contêm sua Palavra) quanto das demais falas sobre Deus.

Então, penso que uma coisa é a afirmação (racional, propositiva e coerente) de suas convicções em diálogo, escuta e respeito com as demais; outra, bem diferente, é a afirmação da sua em detrimento e exclusão das demais convicções (como que dizendo: se a minha convicção nasce e é expressão da verdade, a do outro não pode ser, afinal, a verdade “é uma só”: ou é verdade, ou é mentira, não tem “meio termo”). Ademais, diria que se alguma evidência (ou prova) pode ser reivindicada pelos que se consideram discípulos da verdade (Cristo), esta seria, nos termos de André Comte-Sponville (2008, p. 58), uma “evidência muda”, isto é, que se basta em si mesma, no ser mesmo, na vivência mesma, sem necessitar, forçosamente de defesa, argumentação, prova ou discurso para que “seja a verdade”.

O que preocupa aos cristãos em geral é uma coisa chamada “critério de decisão”. Qual é o critério que devemos adotar para decidir sobre questões de cunho moral, por exemplo? Richard Rorty tem muito a ensinar aos pensadores cristãos nesse sentido. O problema, para ele, não é a busca por critérios em si, mas a busca deles no mundo (ou em Deus) na expectativa de que ele “fale”, ou melhor, dite o que é ou tem de ser. Essa tentação de buscar critérios no mundo é devida a tendência de pensar no mundo, ou no próprio ser humano, como possuidor de uma “natureza intrínseca”, uma “essência”. Como não alcançamos essa essência (apenas pretendemos), o resultado é a “tentação de privilegiar uma dentre as muitas linguagens com que habitualmente descrevemos o mundo ou nós mesmos”, e a consequente criação de “vocabulários-como-totalidades” (Rorty, 2007, p. 31), ou, diria eu, de vocabulários-deuses

Evitar essa tentação é minha proposta nessa breve discussão. Para isso é necessário um sacrifício: não o sacrifício da verdade, mas o sacrifício pela verdade – se é que ainda nos importamos com ela, e não apenas estamos interessados no poder ou status que a pretensão de possuí-la, ou que sua posse efetiva como efeito do “abuso espiritual” ou religioso, nos confere. O sacrifício da verdade acontece sempre que alguém alega tê-la encontrado, em seu estado absoluto, e a codificado em uma linguagem; já o sacrifício pela verdade é um sacrifício de si mesmo e da visão de que minha linguagem e teologia correspondem ao modo como as coisas (Deus, sua Palavra) realmente são. O sacrifício pela verdade é uma imitação do sacrifício de Jesus – o caminho, a verdade e a vida –, que como Ser-Verdade se sacrificou por amor, ao contrário de muitos dos que dizem seus seguidores, que continuam, em nome de uma versão tremendamente distorcida dele, sacrificando o amor ao próximo em nome da apologia da verdade: que mata, trucida e exclui. 
Em contrapartida, afirmar que só sabemos em parte é um modo cristão autêntico de viver na casa do conhecimento sem abandonar a casa do amor. 
O saber, assim como a sombra, é uma espécie de bloqueio. Já nasce limitado. A luz, porém, continua brilhando lá fora... Não temos, portanto, o papel de fazê-la brilhar mais (pois seu brilho é suficiente, e porque é ela que ilumina nossas trevas, não o contrário); nem de tentar brilhar mais que ela (num surto narcísico); mas de, num “manquejar vitorioso” (Manning, 2005, pp. 179-194), caminhar nela. E, assim, poder orar como o salmista: “Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho” (Sl 119:105).

Jonathan

Referências bibliográficas

COMTE-SPONVILLE, André. Valor e verdade. São Paulo: Martins Fontes, 2008. 
HENRY, Carl F. H. Toward a recovery of Christian belief. Wheaton, Illinois, EUA: Crossway Books, 1990.
LINDBECK, George A. The nature of doctrine. Religion and theology in a postliberal age. Philadelphia, Pennsylvania: Westminster Press, 1984. 
MANNING, Brennan. O evangelho maltrapilho. São Paulo: Mundo Cristão, 2005.
RORTY, Richard. Contingência, ironia e solidariedade. São Paulo: Martins Fontes, 2007.