quinta-feira, 1 de março de 2012

Uma rápida sobre “Oração”

new-old-life 2

Orar é mais do que um gesto, que um rito, que um jeito de “convencer” a Deus sobre nossos “puros” desejos e sinceras intenções; antes, trata-se de uma via sempre aberta de relacionamento em que, para meu benefício e das pessoas em favor de quem oro, expresso diante do Pai, por palavras, sem palavras, através de ações ou do silêncio quieto de um quarto, o que sinto, penso e acredito, bem como minhas (nossas) dores, alegrias, queixas e gratidão.

Nesse sentido, a oração não é algo que nos retira do contato com as coisas comuns (ou mesmo as incomuns e trágicas) da vida cotidiana, nem nos eleva para um plano além do mundo e da condição humana, mas, ao contrário, é o que nos ajuda a estar mais atentos a esta vida, que a cada momento pulsa e gira ao nosso redor, e à presença constante e, na maioria das vezes suave e silenciosa, de Deus... No choro de uma mãe, na alegria e sorriso de um casal, na convulsão tortuosa do trânsito das grandes cidades, na brisa leve e fresca das manhãs no campo, no pranto e no riso, no luto e na alegria, e assim por diante.

Jonathan

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A miséria da busca pela felicidade (final)

rainy day

Na vida cristã, felicidade não é objeto, nem fim e nem pretexto, mas fruto (não casual e não artificial) do encontro com Deus (consigo e com o outro) no caminho das desventuras bem-aventuradas da vida. Dessa forma, hoje posso dizer que não sou e nem me sinto tentado a ser discípulo do Cristo pela proposta fisiologista – e propagandística (desculpem o pleonasmo) – para “ser feliz com Jesus”. Primeiro, porque esta “promessa” inexiste no Evangelho. Segundo, porque nem sempre sou, estou ou me sinto alegre ou feliz, e isto não é nem de perto sinal de que deixei de estar com Cristo – está na hora de parar com essa balela doentia! Terceiro, porque você não encontra uma palavra sequer nos discursos de Jesus, ou dos apóstolos, mesmo os de ânimo, que tente mostrar uma realidade diferente do que ela é. O que vejo é um realismo esperançoso e uma esperança realista. Por fim, ainda tem o nó, que prefiro não desatar, de pessoas que conheço que garantem ter uma vida saudável e feliz sem nunca ter passado pelo apelo ou dito “eu aceito”. Há mistérios que nem a mais pretensiosa ou competente das teologias pode desvendar. E é muito bom que assim seja, do contrário não seria mais teo-logia e sim diabo-logia.

Tornei-me seguidor de Cristo pela misteriosa e graciosa atração por seu amor, demonstrado na cruz do calvário, e pela consciência que passei a ter, pelo Espírito, do consequente compromisso com o caminho da cruz. Se encontrei a felicidade nesse caminho é pela simples alegria de a ele pertencer, de poder ser chamado de e amado como filho, e pela imensa gratidão e contentamento que de mim brotam – não sem lutas, revoltas ou sofrimentos, afinal sou humano – em meio às mais variadas circunstâncias.

Para Paul Tillich, o que cria a alegria em alguém é a afirmação do “ser essencial” desse alguém a despeito de desejos e ansiedades.[1] Não estou seguro se concordo que a alegria é “criada”, pois isto pode dar certo tom de artificialidade ao processo; prefiro uma palavra que Tillich mesmo usa depois: aprendizado. Lembrando do que disse Paulo aos Filipenses: “Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade” (Fp 4.12b – NVI). Isso mesmo, alegria é aprendizado. Dito isto, podemos retornar a Tillich:

Lucílio é exortado por Sêneca a fazer sua ocupação, o “aprender como sentir alegria”. Não é à alegria de desejos satisfeitos que ele se refere, porque a alegria real é “assunto sério”: é a felicidade de uma alma que é “elevada acima de todas as circunstâncias”. A alegria acompanha a auto-afirmação de nosso ser essencial, a despeito das inibições provocadas em nós pelos elementos acidentais. Alegria é a expressão emocional do corajoso Sim ao verdadeiro ser próprio de uma pessoa.[2]

Esta alegria se expressa no pranto tanto quanto no riso; e nos mais recônditos de nossa alma, ainda que muitas vezes ferida, triste, sem horizontes, existe uma alegria escondida, a alegria de que ser é o suficiente, pois felizes podem ser aqueles que aprendem que na vida não precisamos ter ou fazer tantas coisas. O mais importante é caminhar, e de modo mais despretensioso possível, para que os sonhos e as pretensões de Deus encharquem nossos corações, mobilizando-nos para uma jornada mais compassiva, sensível e agradecida.

A alegria de simplesmente ser-em-Deus nos ajuda a experimentar do gozo do trabalho e da vida material com mais naturalidade e menos apego, ilusão e dependência. Vale recordar aqui algumas das constatações do autor de Eclesiastes, de que “não há nada melhor para o homem do que desfrutar do seu trabalho, porque esta é a sua recompensa (3.22), e que “poder comer, beber e ser recompensado pelo seu trabalho é um presente de Deus” (3.13). Auxilia-nos, ainda, a aprender a como lidar melhor (e até debochar, sem grandes culpas ou neuroses) das eventuais convulsões do ego, vaidades e mesquinharias como sendo parte indissociável dessa arte (torta) de ser humano – levar a sério o pecado não implica em se levar a sério demais o tempo todo, o que pode ser tão doentio quanto o descaso para consigo e suas responsabilidades. Descobrir esta alegria é aprender a viver sabendo que basta a cada dia o seu próprio mal, e também o seu próprio bem, e a desfrutar dos pequenos, simples e belos momentos do cotidiano como sendo especiais e repletos de singularidade.

A esperança cristã, contudo, também é paradoxal; nela não se separam o gosto de viver a vida que se tem (aceitação) do anseio pela ressurreição e a vida eterna (inquietude). A ética da aceitação jubilosa, presente na visão trágica de Rosset, por exemplo, se dissocia da visão cristã quando se resigna ao provisório, quase como que dizendo que essa vida aí, da forma como é, está boa, e não se deve querer nada diferente disso. Segundo Rosset, a alegria é a “força maior” precisamente porque dispensa a esperança – entendida por ele apenas como atração pelo gozo de uma “outra vida” e, por isso, “força mais do que duvidosa”.[3] Entretanto, perguntaria a Rosset como a aceitação jubilosa pode resistir sem a esperança? É ela quem a alimenta; a aceitação só pode ser, por assim dizer, “jubilosa”, contente, porque não apenas aceita a provisoriedade em si, mas a provisoriedade do que é provisório. Em outras palavras, quero dizer que a esperança cristã aceita e convive com o provisório, mas não relega a ele a última palavra. Duvido que Rosset fique jubiloso com minha apropriação de sua aceitação jubilosa.

Por outro lado, a felicidade no encontro com Cristo, como temos visto, também incorpora a dimensão trágica na medida em que não a nega, mas propõe o enfrentamento e a convivência. É parceira das tristezas, injúrias e dores e, às vezes no “olho do furacão”, de modo incompreensível, ressurge como fênix, como “socorro bem presente”. Aqui talvez seja válida a recorrência (ainda que deliberada) a Rosset, quando ele afirma que esse “socorro da alegria” permanece, para nosso bem, misterioso, “impenetrável aos próprios olhos daquele que sente seu efeito benéfico”.[4] Segundo ele:

O homem verdadeiramente alegre pode ser reconhecido, paradoxalmente, por sua incapacidade de precisar com o que fica alegre e de fornecer o motivo próprio de sua satisfação.[5]

A felicidade, nesse sentido, faz (e se desfaz) em um misto de satisfação e alegria com e, aparentemente, sem motivo. Podemos estar obviamente alegres por uma linda razão, mas também “rindo à toa”.

Jonathan

Notas


[1] TILLICH, Paul. A coragem de ser. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972, p. 11. Grifo meu.
[2] Ibid, p. 11. Grifo do autor.
[3] ROSSET, Op. Cit., p. 28, 29.
[4] Ibid., p. 27.
[5] Ibid., p. 08.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A miséria da busca pela felicidade (4)

felicidade

A felicidade no encontro com Cristo

Abordar a questão da felicidade de Cristo é fascinante e, ao mesmo tempo, muito difícil. Isto, porque entendo que a felicidade em perspectiva cristica é um paradoxo. Nesse sentido, é insuficiente (e até desonesto) sair por aí dizendo coisas como “só em Jesus encontramos felicidade” ou “vem ser feliz com Jesus”. Afinal, no “frigir dos ovos”, como dizem por aí, o que isto significa? Que espécie de felicidade é essa?

Bem, Jesus afirma (não como promessa, mas como um tipo de conforto realista aos discípulos) que eles seriam felizes – abençoados ou bem-aventurados – enquanto vivenciassem uma série de situações nada confortáveis e que, até por isso, estão e sempre estarão em franco contraste com o entendimento mais ou menos comum que as pessoas têm de felicidade. Vejamos alguns trechos deste discurso – conhecido como “As bem-aventuranças” – na tradução “The Message”, de Eugene Peterson.

Segundo Jesus, felizes são:

...aqueles que se encontram no fim da linha. Com menos de si mesmo, sobra lugar para mais de Deus e de sua lei.

...aqueles que sentem terem perdido o que há de mais precioso para eles. Só assim poderão ser abraçados por Aquele para o qual são o que há de mais precioso.

...aqueles que desenvolveram um bom apetite por Deus. Sua comida e bebida serão a melhor refeição que já tiveram.

...aqueles cujo comprometimento com Deus provoca perseguição. Esta os conduzirá mais profundamente ao Reino de Deus.[1]

A felicidade aqui tem a ver, antes de tudo, com um modo de ser, no qual está embutida uma aceitação (jubilosa) da irremediável condição em que os discípulos se encontrariam à medida que tentassem ser fiéis aos valores e modo de vida radical que Jesus depois apresenta ao longo do Sermão do Monte. Pensando na felicidade no encontro com Cristo, gostaria de destacar algumas coisas que me chama atenção somente nos trechos acima elencados.

Primeiro: que ser feliz não tem (diretamente) nada a ver com satisfação (pelo menos não ao modo imediatista, que quer tudo de bom aqui e agora) ou com bem-estar, mas se parece mais com um “contentamento descontente” (lembrando aqui da poesia de Camões).

Segundo: que o que está em jogo não chega nem perto de uma busca pela felicidade, uma vez que não são a pretensão ou a ambição que dão o tom, mas o abandono e a despretensiosidade dos despossuídos.

Terceiro: que, entre perdedores e ganhadores, aqueles que perdem serão consolados com a esperança de encontrar alguma vantagem na desvantagem.

Quarto: que a realização dos felizes não se encontra tanto na conquista da autonomia quanto na graça da dependência. Como disse C. S. Lewis, “o próprio Deus é o combustível que nosso espírito deve queimar, ou o alimento do qual deve se alimentar”, e ainda que “Deus não pode dar uma paz e uma felicidade distintas dele mesmo, porque fora dele elas não se encontram”.[2]

Finalmente, o centro da existência dos felizes ou bem-aventurados não está neles, ou em qualquer “vitória” que possam conseguir aqui e agora, mas em Deus e na construção de seu reino, não somente nesta história, mas também dentro dela. Se a felicidade pousa em seus ombros não é pela e nem na busca, mas em meio ao gradativo desprendimento da vida simples e a liberdade interior de quem se deixa ser guiado mais pelo sopro do Espírito da vida que pelos ecos e ventanias do espírito do tempo.

Jonathan

Notas


[1] Mateus 5, versos 3, 4, 6, 10. PETERSON, Eugene. The Message: The Bible in contemporary language. Colorado: NavPress, 2005. Tradução minha.
[2] LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 66.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A miséria da busca pela felicidade (3)

The otherness

A felicidade no encontro com o outro

Quem é o outro? Objeto, meio ou parte integrante de nossa busca pela felicidade?

Bem, este não é um ensaio sobre alteridade, e sim sobre felicidade. Não pretendo aqui explorar múltiplas compreensões e significados do outro – como Levinas e Buber, por exemplo, já o fizeram e muito bem – mas apenas situá-lo em relação à busca em questão. Então, no tocante a tal busca, diria, em primeiro lugar, que o outro é tanto aquele que possibilita como o que interdita o “meu” caminho rumo à felicidade. Quero dizer com isso que não há felicidade possível sem a presença (complementar) do outro, tanto no sentido egoísta e privatista – do outro como aquele que promove, aplaude ou inveja a “minha felicidade” – seja no aspecto altruísta da solidariedade e do companheirismo, do outro que compartilha da vida comigo e só assim ela tem sentido, tanto na alegria, como na dor, como se diz na poesia “Tomara”, de Vinícius de Moraes: “E pense muito que é melhor se sofrer junto que viver feliz sozinho”.

Mas o outro (que pode ser uma mesma pessoa) cumpre essa função dúbia e paradoxal da possibilidade e da interdição. Ser o outro de alguém ou ter alguém como o seu outro implica, dessa forma, em aceitar e aprender a lidar com as frustrações, decepções e infelicidades provocadas invariavelmente na relação. Nessas horas, na mesma medida em que outrora sentimos necessidade da presença do outro, também sentimos – meses, dias, horas depois (e até simultaneamente) – repulsa e desejo de que ele ou ela vá embora pelas portas do fundo para que, quem sabe, a felicidade retorne pelas portas da frente.

O problema é que, seguindo esse raciocínio, ela não retorna sem o outro – provocador e interruptor da felicidade. Nesse interregno, há uma grande chance de que desejemos pagar um preço cada vez menor nessa relação com o outro. Se ser feliz é o que há de mais importante na vida, então o outro não passaria de uma peça na engrenagem, que serve unicamente a este propósito. E se não servir, vamos atrás de outro que sirva e satisfaça, mesmo que com prazo de validade – muitos dos casamentos atuais que o digam. Como diz a canção de John Mayer (“I’m gonna find another you”): “Eu vou agora fazer algumas coisas que você não me deixaria fazer, eu vou achar um outro de você”. No mundo em que temos vivido é assim: na mesma proporção em que se descarta um amor, por exemplo, se consegue outro – só não consigo entender como ainda se pode falar em “amor” nestes termos.

Na perspectiva da fé cristã, o outro é também chamado de “próximo”. Mas o que significa ser próximo de alguém?

Lucas conta uma história emblemática a este respeito. Certa vez, um legista ou perito na lei se aproxima de Jesus e, desejando testá-lo, pergunta acerca do caminho para a vida eterna. Jesus, por sua vez (e como de costume), responde com outra pergunta: “O que diz a lei?”. Então o legista cita o mandamento do amor (cf. Levítico 19.18), que termina com um “ame teu próximo como a ti mesmo”. Quando Jesus confirma ser este o caminho, dizendo “vá, faça isso e encontrarás vida”, vem a pergunta: “Quem é o meu próximo”?

Com a nova pergunta em mente, Jesus conta então a parábola do samaritano (ver Lucas 10.29-37). Todos já conhecemos o enredo da parábola; o que me interessa destacar aqui é a pergunta final de Jesus diante da história e a resposta do legista. Jesus pergunta qual dos três caminhantes (se o sacerdote, o escriba ou o samaritano) foi o próximo do homem quase morto à beira do caminho. A resposta do legista (embora lacônica no que diz respeito à pessoa do samaritano) vai direto ao ponto: “Foi aquele que deu prova de bondade para com ele”.

Como comenta Segundo Galilea, o samaritano foi irmão do ferido. E assim foi não por sua religião (o levita e o sacerdote eram religiosos, o samaritano era considerado herético), nem por sua raça (tida como impura e inferior por parte dos judeus), mas por sua bondade e dedicação aquele homem. Assim, nas palavras de Galilea: “O meu próximo não é aquele que compartilha minha religião, minha pátria, minha família ou minhas ideias. O meu próximo é aquele com o qual eu me comprometo”.[1]

A felicidade, na perspectiva cristã, é incompatível com os caminhos do privatismo pós-moderno; de igual modo, não se equipara à hipocrisia e alienação de representações religiosas como as da parábola. Afirma, sem ser piegas, a necessidade do outro, assumindo e reconhecendo sua condição (demasiado humana) de provocador e interruptor da felicidade. Mas, mais do que requerer o outro para mim, sinto-me estimulado por esta perspectiva a ser o outro, o próximo, de alguém. Só que, quando isso acontece, a felicidade deixa de ser um fim, como veremos adiante, no próximo post.

Jonathan

Notas


[1] GALILEA, Segundo. Seguir a Cristo. 2ª ed. São Paulo: Paulinas, 1979, p. 47, grifo meu.
*Imagem: Alan Rayner. Extraída de: http://www.bestthinking.com/

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A miséria da busca pela felicidade (2)

Felicitá

A felicidade no encontro com a realidade 

De que maneiras a felicidade está relacionada com a realidade? O que é o real? Ele se dá a conhecer?

Para começo de conversa, não há definição (e compreensão) possível da realidade que não passe pelo jogo do espelho. Quando nos olhamos nos espelho, o que vemos: a apresentação de quem realmente somos ou uma projeção distorcida? Alguns hoje dizem que a televisão mostra as pessoas de modo enganoso, assim como as revistas de moda, fitness, fofoca e pornografia – tudo por causa dos efeitos da produção e do photoshop: uma corzinha de mais, uma ruguinha e estriazinha de menos, e por aí vai.

Por sua vez, o espelho também produz algo ilusório. Basta pensar nas muita versões que temos de nós mesmos diante do espelho, a depender do ângulo pelo qual nos fitamos. Assim também é com a realidade. Segundo Paulo, não vemos as coisas claramente, mas “como em espelho” (1Co 13.12). Então, a realidade – “esse conjunto dos acontecimentos designados para a existência”[1] – é aquilo que existe e acontece não somente como nossos olhos e mente captam, mas muito além deles. A realidade, tal como é, me escapa; ao mesmo tempo, é indelével, porque chamada a se produzir a despeito de todos os esforços feitos para impedi-la, negá-la ou evitá-la.

Ou seja, a realidade é apresentada como aquilo que “é” independente de qualquer conceito, queixa ou rejeição. Da relação que estabeleço com este real depende minha felicidade; à medida que a realidade situa o ser que a (felicidade) deseja. A vida real, portanto, me remete ao inevitável confronto entre a felicidade desejada ou prometida e a felicidade possível.

Se, porém, Bauman estiver certo em sua tese de que a felicidade nunca deixa de ser um alvo desejável aos artistas da vida enquanto estes perseveram na estrada que supostamente conduz até ela, então nem o real, por mais trágico que seja, seria capaz de destruir seu “sonho de felicidade”; no máximo, o que ele pode fazer é adiar o sonho. Neste caso, para os paladinos pós-modernos da felicidade, a esperança (individualista) é a última que morre.

Em todo caso, ainda que não se possa acabar com o sentimento trágico da existência, é possível oferecer o narcótico adequado para suportá-lo ou sublimá-lo.

Clément Rosset, em sua reflexão filosófica sobre o tema da alegria – que subjaz e pode ser associada ao tema em questão – propõe, em contrapartida, a afirmação da alegria (que ele chama de “força maior”) enquanto um abraço jubiloso na existência (no real), não importa em que qualidade. A isto ele chama de paradoxo central da alegria: “A alegria é um regozijo incondicional na existência e a propósito da existência”.[2] Para Rosset, a alegria, nesse sentido, ou é paradoxal ou não é alegria, uma vez que está em contradição com a realidade e consigo mesma, muitas vezes. É um inexplicável e misterioso regozijo que se experimenta, mesmo em meio ao sofrimento, de tal modo que se torna “impenetrável aos olhos daquele que sente seu efeito benéfico”.[3]

Já a atitude dos corredores que estão em busca da felicidade, tal como Bauman apontou, Rosset rotula como sendo uma “negação neurótica”, pois consiste não em se acomodar, mas em negar a realidade, considerando a infelicidade não como inelutável, mas como “provisória e sujeita à eliminação progressiva”.[4] Assim, a alegria proposta por Rosset se situa além do lugar comum da felicidade líquido-moderna, analisada por Bauman; ou poderíamos concluir que tal alegria é uma antítese (uma “força maior”) que a felicidade nesses moldes.

Jonathan

Notas


[1] ROSSET, Clément. O real e seu duplo. Ensaios sobre a ilusão. 2ª ed. revista. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008, p. 29.
[2] Id. Alegria: a força maior. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000, p. 22. [3] Ibid., p. 27.
[4] Ibid., p. 27.

(Imagem: extraída do blog http://roupasuja.blog.com)

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A miséria da busca pela felicidade (1)

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A chave para a felicidade e o antídoto da miséria é manter viva a esperança de ficar feliz.

(Zygmunt Bauman)

Dentre todas as buscas e ambições humanas, a que tem a felicidade como alvo é talvez a mais comum; e é também um dos mais remotos anseios. Os antigos (filósofos, poetas e oráculos) se ocuparam em responder questões como “O que é a felicidade”, ou “O que é preciso para ser feliz”? Uma diferença básica é que, nos dias atuais, o conceito ou a definição de felicidade parece menos importante que o “ser feliz” em si ou o anelo, a busca e “a esperança de ficar feliz”, como diz Bauman na epígrafe acima.

Neste ponto, aliás, parece se encontrar a tese e principal descoberta deste sociólogo em seu livro A arte da vida. Em suas palavras:

Não sendo possível atingir um estado seguro de felicidade, só a busca desse alvo teimosamente esquivo é que pode manter felizes (ainda que moderadamente) os corredores. Nas pista que leva à felicidade, não existe linha de chegada.[1]

Para Bauman, portanto, na era pós-moderna (ou, como ele prefere, líquido-moderna) o “estado” de felicidade foi substituído pela “busca” (sem fim) pela felicidade. O permanente anseio e a expectativa de vir-a-ser é que consola (ou distrai) o desespero de ainda não ter alcançado, ou quem sabe ter experimentado somente de relance, por um momento fugidio, essa tal de felicidade.

Na busca, porém, impõe-se um “ideal de felicidade” – que varia de pessoa, caso e circunstância – de onde provém parte da substância dos conceitos. E é impressionante o quanto nossos ideais humanos de felicidade são:

  1. Efêmeros: fundam-se nas vaidades relacionadas ao prazer e ao bem-estar – saúde, bens, status, poder, fama, glória. Tem uma estrutura frágil, portanto, porque sempre de passagem.
  2. Sensualistas: são baseados nas sensações, nos desejos e nas condições que nos permitem experimentar somente o prazer na vida. Felicidade, aqui, é igual a prazer e alegria sempre e dor nunca.
  3. Individualistas: concentram-se no suprimento do “eu” e no suposto “direito” que cada indivíduo tem de ser feliz. O mundo e os outros são meios, muitas vezes descartáveis: servem-me desde que (e enquanto) me façam feliz.

Ao me deparar com estes (intercambiáveis) ideais e tentando relacioná-los com uma ética cristã, pergunto se o cristianismo é um caminho para a felicidade ou uma antítese da felicidade nestes moldes? Com qual felicidade é possível identificá-lo (se é possível)?

Para responder a tais indagações, gostaria de propor, nos próximos posts, três associações (cristãs) básicas da felicidade: com a realidade, com o outro e com Cristo.

Jonathan

Notas


[1] BAUMAN, Zygmunt. A arte da vida. Rio de Janeiro: Zahar, 2009, p. 17. Grifo do autor.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Sobre a religião e seus derivados (II)

hipocrisia-religião

Quando profetas como Amós, por exemplo, criticam os cultos, encontros religiosos, ritos e formas de se “achegar a Deus”, o que afinal ele está criticando? Ele está denunciando a forma de religião predominante em Israel, sem entrar no mérito de dizer “toda religião”, ou “a religião”. Talvez uma coisa que esteja faltando às nossas genéricas classificações é “dar nome aos bois”. E isto Amós faz. Observem o seguinte trecho (na tradução “A Mensagem”, de Eugene Peterson):

Não suporto os encontros religiosos de vocês. Estou cheio dos seus congressos e convenções. Não me interessam seus projetos religiosos, seus lemas e alvos presunçosos. Estou enojado das suas estratégias para levantar fundos, das suas táticas de relações públicas e criação da própria imagem. Não suporto mais sua barulhenta música de culto ao ego. Quando foi a última vez que vocês cantaram para mim? Alguém aí sabe o que eu quero? Eu quero justiça – um mar de justiça. Eu quero integridade – rios de integridade. É isso que eu quero. Isso é tudo que eu quero (Am 5.21-24 – Grifos meus).

A religião criticada por Amós é covarde e superficial, porque marginaliza o que realmente importa e põe no centro o trivial e menos relevante. Confunde retidão com justiça própria e santidade com abstinência; faz dos sacrifícios e rituais o último bastião da espiritualidade, dissociando-a completamente da vida, da misericórdia e da sede por justiça. Afirma uma sede incontrolável por Deus e seus mandamentos, mas é incapaz de reconhecê-lo no próximo, no diferente, no samaritano à beira do caminho.

Daí, muitos desses encontros, congressos, convenções e projetos religiosos aos quais se refere o profeta, terem se tornado, para Deus, um negócio insuportável e indigno de atenção. Mais “culto ao ego” que outra coisa. Daí a pergunta: “Quando foi a última vez que vocês cantaram para mim?”. E o que é viver e cantar “para Deus”?

É anelar por Deus com todo o nosso ser; é deixar ser movido e tocado pelas coisas que mobilizam o coração de Deus (o que sabemos por meio da Palavra); é desejar ardentemente que sua vontade seja feita tanto aqui na terra, como no céu; é lutar para que a justiça corra como rio que não seca; é buscar viver em integridade e afastar ao máximo do nosso caminho a hipocrisia. Mas, como? E seria isto outra forma de religião? Não sei, talvez, quem sabe. Linguagem, tudo passa por ela.

Não é novidade para ninguém que muitos sistemas religiosos se alimentam da hipocrisia e não subsistem sem ela. Muitas igrejas têm sido – até que provem a si mesmas e ao mundo o contrário – ao invés de centros de misericórdia e compaixão e comunidades de reino, covis de hipocrisia, onde o livre pensar é reprimido (sobretudo em assuntos como sexualidade, por exemplo), e o discordar (mais ainda da liderança e da orientação doutrinária) é tratado como pecado. Exceções à regra (os remanescentes) existem, é claro, mas com a sina de ter que “nadar contra a maré”, caso não (ou até que) se deixem corromper pelo “se não pode vencê-los, junte-se a eles”.

A hipocrisia vai, dessa forma, recebendo outros nomes, e vai sendo ornamentada com vestes outras, mais sofisticadas quem sabe (embora não menos vorazes) e se torna peça indispensável ao bom funcionamento da engrenagem, mascarada pelo discurso de que assim estaremos “no centro da vontade de Deus”. Como corolário disso e de outras tendências já bastante enraizadas, como a privatização da espiritualidade e a religião de consumo, as pessoas vão à igreja apenas para nutrir o lado “lúdico” da fé, que congrega e agrega a massa dos que querem distância do conflito e que relega aos ditos apóstatas, hereges e perdidos o lado trágico (e sombrio) da existência.

A hipocrisia tenta eliminar o sofrimento a todo custo e promover uma espécie de narcótico gospel como sustentáculo para uma fé “que funciona”. Uma fé que desconhece a compaixão, porque só age para aliviar a dor; que tem desconfiança em relação ao mistério, ao desconhecido e às incertezas; que pensa que testemunhar é igual a fazer propaganda de sua fé, e se distancia da prática da justiça por estar tão ofuscada com as celebrações e homenagens, públicas e privadas, ao “seu Deus” – o “meu Deus isso”, o “meu Deus aquilo”.

Essa fé é substrato da hipocrisia. Irracional e inconscientemente, muitas vezes, ela canta: “Hipocrisia, eu quero (eu preciso de) uma pra viver!”. Nos lugares onde ela é vivida, as palavras de Jesus – “Acautelai-vos do fermento dos fariseus!” – ecoam como gritos em uma terra de surdos.

Porque acautelar-se, talvez, implique em passar pela via da admissão honesta de que, no fundo, todos (digo, os que nos servimos do sistema religiosos, ou os que se encontram, como eu, em processo de libertação de suas entranhas) somos um pouco como os fariseus ou hipócritas – o que seria um total absurdo e falta de espiritualidade, para muitos. Se toda mulher é meio Leila Diniz, como diz a canção “Todas as mulheres” de Rita Lee, então (digo isso contra meu melhor senso) todo crente é meio hipócrita e, por natureza, religioso (no sentido que Amós abomina), até que prove o contrário lutando contra tal orientação.

Jonathan

(Imagem extraída de: http://uma-verdade-inconveniente.tumblr.com/)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Sobre a religião e seus derivados (I)

Religião que seguem
No atual momento, vemos tomar corpo um movimento de pessoas que se dizem apaixonadas por Jesus, mas que não gostam mais da igreja, detestam as instituições em geral, e desenvolveram uma ojeriza pelo que chamam de “religião” – a meu ver, a religião institucionalizada. Estes estariam dentro dos 7,9% da pesquisa acima exposta. O mote de sua trajetória está no slogan: “Mais Jesus e menos religião”. O problema é que, nesse meio termo, apareceram outros apresentando outra visão de religião, mais positiva talvez, alegando que a religião faz parte da história humana desde sempre e tem oferecido contribuições importantes a ela. Em outras palavras, por mais que critiquemos a religião, não vivemos sem ela. Nesta discussão pouco criteriosa, termos como religião, religiosidade e espiritualidade acabam sendo utilizados de modo intercambiável, como se um fosse ou pudesse ser sinônimo para outro. E a confusão se vê armada. Podemos desatar este nó?

Em primeiro lugar, a discussão sobre as terminologias (religião, religiosidade, espiritualidade, etc.) é in-termi-nável. Todas são palavras polissêmicas, se considerarmos o diálogo interdisciplinar, ou mesmo o senso comum. Em segundo lugar, esse movimento (por um cristianismo não-religioso) não é novo. Já vimos isso no século XX, através de Karl Barth, e mais fortemente na teologia de Dietrich Bonhoeffer, na teologia secular (Cox) e da morte de Deus (Robinson e Cia), dentre outros.

A diferença para o que tenho visto atualmente é que esses últimos me parecem ter sido mais intencionais, proposicionais e consistentes (quer se concorde com eles ou não) no sentido de formular respostas relevantes aos problemas e movimentos de seu tempo, e não um flash mob de descontentes, como parece se apresentar grande parte do movimento atual. É preciso conferir mais coerência e conteúdo aos nossos descontentamentos.

No que diz respeito às terminologias, Tillich, por exemplo, falando sobre a clássica diferenciação entre religião e revelação em sua Teologia Sistemática, afirma que toda revelação pressupõe um receptor. E, considerando não haver receptor “puro” (isto é, livre da influência de sua cultura e da ideologia), e consequentemente nenhuma forma de fé, interpretação ou verdade universalmente válida, a recepção em si já é uma religião. Assim, o que Tillich chama de “religião” seria o processo de recepção e, por conseguinte, de significação da revelação. Nesta acepção, não há revelação sem religião e todos os que vivem conforme a revelação de Deus poderiam ser considerados religiosos.

Então, para começo de conversa, precisamos tentar entender qual religião esse movimento atual quer de menos, e qual Jesus ele quer de mais, para poder avançar no debate, não acham? Arriscar-me-ei, então, no próximo post a expor algumas impressões mais particulares sobre o tema. 

Jonathan

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A inquietude nossa de cada dia, dá-me hoje

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“Por que estás abatida, ó minha alma? E por que te agitas dentro de mim?”.

Existe conversa mais crucial que aquela travada com a própria alma? Pois é o que o salmista faz no repetido verso da canção de profunda angústia e inquietação por ele entoada no Salmo 42, na qual convida sua alma para um bate-papo querendo entender a razão de tanto abatimento. Uma das coisas mais sadias e razoáveis que alguém pode fazer quando não dá conta de algo é ser honesto, consigo mesmo, com os outros e com Deus. No caso do salmista, essa honestidade se apresenta em forma de perguntas: Por que me sinto tão abatido? Até quando essa situação vai perdurar? Onde está o meu Deus? Por que permanece calado por tanto tempo?

Perguntas como essas evidenciam dúvidas e temores que assolam até o mais seguro de si – embora gente muito segura de si tenda a não abrir mão de sua fachada de austeridade – e cujas respostas não são simples nem exatas. Aliás, em se tratando da vida e do sofrimento humano nada pode ser simples ou exato. Por isso a linguagem dos trovadores e profetas é recheada de honestidade, paradoxos e de bela, ilógica e não equacionável poesia. A inquietude, quando não abafada com consolos artificiais, atrai e torna-se parceira dos paradoxos. O paradoxo pode até existir fora da mente, mas não pode ser reconhecido sem que (na mente) se dê lugar à inquietude, a qual provoca o pensamento que nos desperta quando algo não vai bem e nem, necessariamente, irá ficar bem – ao menos não do jeito desejado, tampouco com falsas garantias, do tipo: “Basta acreditar, que tudo vai dar certo!”.

O enfrentamento do paradoxo, por sua vez, promove, na linguagem do poeta, o que chamo aqui de aceitação inquieta – a aceitação que não se confunde com mera rendição. Ou seja, aceitar uma determinada condição não implica em se render ou se resignar a ela. Por exemplo: reconhecer e aceitar que a política no Brasil é permeada por corrupção não implica em se render à falácia de que todo mundo que nela se envolve é ou fatalmente será um corrupto, ou que nada pode ser feito a respeito da corrupção. Ademais, a realidade não se reduz ao que vemos. O que se vê é apenas uma parte do real, tanto quanto o olhar em si é parcial. Como bem disse Paulo, “agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho...” (1Co 13.12).

Assim, aceitação inquieta é aquela que indica a presença de uma fé que não banaliza nem suprime a realidade tal como a vemos ao mesmo tempo em que afirma (mesmo que relutando) a possibilidade e a imperiosidade de sua transformação. Por esta razão, a linguagem dos salmos – tão recheada de seus “por que” e “até quando” – também vem temperada com seus “contudo”, “apesar de” e “ainda que”, denotando fé na presença, persistência e fidelidade divinas em meio às mais variadas circunstâncias.

O silêncio (e aparente ausência) de Deus não é sinal de indolência ou paralisia da parte Dele, assim como minhas eventuais dúvidas, reclames e inquietações também não são sinais da falta ou morte da fé em mim. Pelo contrário, a inquietude não apenas provoca na mente o encontro com os paradoxos, como já dito, como retira a fé dos escombros da passividade e da falsa retidão, tornando-a um organismo vivo, atuante e em constante transformação.

A maturidade, desta forma, está mais para um tesouro a ser perseguido pelos cantos da existência e ao longo da vida na fé, que para um porto seguro onde se pode atracar de uma vez por todas. A soberba (ou o chamado “orgulho espiritual”) é que precisa de portos seguros de tal natureza. A “paz que excede todo entendimento”, não excede, mas existe paradoxalmente no meio de todo sofrimento, dúvida e inquietude que possamos ter. A fé bíblica se alimenta, então, de uma espera inquieta e de uma inquietude expectante, em que uma mesma pessoa pode (em tom realista) indagar: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim?”. E ainda assim (em tom esperançoso) declarar: “Espera em Deus, pois ainda o louvarei” (Sl 42.11).

Jonathan

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Com a palavra do Perdão

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Perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores
(Mateus 6.12).

Quando falamos em perdão, falamos de um ato comum, sobretudo, àqueles que vivem e estão na fé, mas incomum à natureza humana. Isto, pois “perdão”, na definição de Miroslav Volf, significa dar aos transgressores a dádiva de não usar sua transgressão contra eles.

Assim, na relação entre natureza e graça, perdão é graça, que visa redimir a natureza de si mesma. Na natureza, por sua vez, fala mais alto a justiça própria, merecida e paga.

Por que é tão difícil perdoar? Pode haver muitas respostas, de acordo com inúmeras maneiras e experiências. A raiz, para mim, está no fato de que perdoar implica, na maioria das vezes, em ferir o orgulho. O inimigo mortal do perdão, portanto, não é o não-perdão, mas o orgulho. Feri-lo é ferir a si mesmo. Não há como perdoar sem aprender a conviver com a ferida da ofensa não paga, da não restituição – palavra em moda, especialmente nos círculos da prosperidade. E o orgulho interfere não somente no ato de perdoar, mas também de receber perdão. O orgulho nos faz preferir conviver com a agrura do gelo e do castigo que com o constrangimento gerado pelo perdão.

Então é isso: perdão não tem nada a ver com merecimento ou com justiça, mas com gratidão. É a gratidão que nos conduz ao “assim como” do perdão de Jesus no Sermão do Monte. Trata-se de uma realidade inseparável do perdão: ser alcançado pelo perdão divino nos conduz a disponibilidade para perdoar. E todos têm débitos, não é mesmo?

Cristo não está, dessa forma, condicionando o perdão de Deus ao nosso perdão – isso não faz o menor sentido! Ele está aprofundando a discussão: para que você entenda, absorva e cresça no perdão divino, é preciso aceitar-se como aceito e também aprender a aceitar o outro. Deus perdoa gratuitamente aquele que reconhece que precisa do, e recebe o, perdão tanto quanto vive como perdoado-perdoador.

Voltaire, por exemplo, define “tolerância” como “o apanágio da humanidade”, isto é, a sua característica própria, afinal todos cometem delitos e deveriam, partindo desta premissa, perdoar e tolerar o outro em relação aos seus. O perdão também advém daí: do reconhecimento de si mesmo como tão transgressor quanto o outro (logo, sua transgressão não me pode ser estranha), e de que fomos alcançados pela graça do perdão.

O “assim como”, portanto, não é tanto um imperativo ético, do ponto de vista do dever, quanto o é da gratidão. E a graça do perdão não é imperativa, nem justa. Como diz Volf, “o perdão corta a corda de equivalência entre a ofensa e a maneira como tratamos o ofensor”. O perdão é, assim, uma vívida expressão da loucura divina. É coisa para gente louca e não para gente conseqüente.

Jonathan

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Sobre usos e costumes

Alguns pediram, então aí vai o que basicamente entendo por "usos e costumes".

Trata-se de uma doutrina, que tomou lugar sobretudo nas igrejas pentecostais mais tradicionais (Assembléia de Deus, Congregação Cristã, dentre outras), embora não se restrinja somente a elas, em que textos bíblicos são lidos e aplicados em seu sentido literal para justificar certos "usos e costumes", tais como não cortar o cabelo, não se maquiar e usar saia (no caso das mulheres), ou não deixar o cabelo crescer e só usar calça, para homens. Isto, é claro, tem também sua versão mais moderna na questão de bonés, piercings, brincos, tatuagens e afins, e numa série de regras proibitivas que acabam tomando lugar aqui e acolá nas igrejas evangélicas.

Devido a grande diversidade de igrejas, denominações e, consequentemente, de visões doutrinárias, é possível encontrar muitas variações disso, não só aquelas mais explícitas, como as já mencionadas, mas outras mais sutis, isto é, coisas que começamos a fazer pelo hábito do grupo ou do rebanho, sem se perguntar por que.

Uso e costume, de modo mais amplo, poderia ser também entendido como todo tipo de "cultura" imprimida pela igreja com vistas a mudar a vida dos crentes no aspecto exterior e, porque não dizer, superficial. Usos e costumes são o "crachá" do crente. Poucas vezes têm algo a ver com fé. É mais produto da religião (e da crença) do que da fé (ou mesmo da religiosidade, como expressão espontânea de temor e tremor diante do sobrenatural). E seu maior problema, a meu ver, é esse: reduz a ética cristã a um nível meramente superficial e de obediência a regras, e a fé àquilo que nos leva a cumprir a lei somente.

Jonathan

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Coisas que aprendi com Henri Nouwen (Parte 3)

4. Alegria e tristeza

Na vida e pensamento de Nouwen, como já disse antes, pode-se notar um rompimento com dualismos perniciosos. Dentre eles o dualismo que opõe alegria e tristeza. Em nosso mundo, costuma-se pensar que a alegria não pode conviver na mesma casa em que a tristeza está. Assim, a alegria significaria ausência de tristeza e a tristeza, ausência de alegria. Quando, porém, olhamos para a vida em sua complexidade, vemos que muitas vezes elas andam juntas e estão até misturadas. E diria mais: a alegria que se vive se torna mais profunda quando se conhece o que é tristeza. O próprio Jesus, como Nouwen diz, “foi o homem das dores, mas também o homem da total alegria”. Aprendi com ele, portanto, que “o cálice da vida é o cálice da alegria tanto quanto é o da tristeza. É o cálice no qual tristezas e alegrias, dor e felicidade, luto e dança nunca se separam. Se as alegrias não pudessem estar onde as tristezas estão, o cálice da vida jamais poderia ser bebido”.

5. Comunidade

Vida cristã é vida em comunhão. Comunhão que cria a comunidade – a partir do desejo que Deus cria em nós: “O Deus que vive em nós faz com que reconheçamos o Deus em nossos semelhantes” – e que se manifesta em formas concretas: no perdão, na reconciliação, no gesto de amor, compaixão, preocupação com o outro, na repreensão e no conflito, na intimidade, na amizade, no partir do pão. Com Nouwen, aprendi que a eucaristia é muito mais que mero ritual, é um “gesto humano” que relembra uma presença, a do Cristo com quem me comprometo, e a do irmão e da irmã com os quais me envolvo por causa de Cristo. Segundo Nouwen, mais do que a eucaristia, a “vida eucarística” é que faz a diferença no dia a dia, a cada gole, a cada gesto, como uma celebração constante no seio da graça e na casa de Deus, que existe onde quer que dois ou três estejam reunidos em seu nome. Essa compreensão permitiu com que Nouwen respirasse e vivenciasse a experiência de ser igreja até mesmo em reuniões íntimas com familiares e amigos. Ele disse: “Todos os dias celebro a eucaristia. Às vezes na igreja de minha paróquia, com centenas de pessoas presentes, às vezes na capela de Daybreak, em Toronto, Canadá, com minha comunidade, às vezes em um quarto de hotel, com alguns amigos, e às vezes na sala de estar de meu pai, apenas ele e eu”.

A mensagem de Nouwen sobre a comunidade dá o tom de sua espiritualidade: não há um só ser humano que não receba o convite permanente para participar do banquete de celebração do amor do Pai. Sua paixão por Jesus e pelas pessoas se expressou em um enorme apreço e fidelidade à Igreja, como pouco se vê em nossos dias. Embora fosse um contemplativo crítico da realidade, era raro ver Nouwen fazendo críticas muito duras ou usando de acidez e sarcasmo para falar da Igreja. Mesmo em sua verve profética era possível perceber uma ternura sábia e um olhar esperançoso. As maiores transgressões de Nouwen eram transgressões de si mesmo, sempre que falava abertamente de seus pecados, idiossincrasias e temores. Essa foi também a sua maior arte, seu jeito de ser discípulo e ser humano, e sua forma de tomar a cruz.

Jonathan

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Coisas que aprendi com Henri Nouwen (Parte 2)

O que aprendi com Nouwen?

Dividirei esta breve incursão naquilo que aprendi com Nouwen em 5 temas.

1. Vocação

Aprendi que, embora seja Deus quem chame, confirme e capacite – o que dá um peso enorme à questão – o processo de despertar para e prosseguir em uma vocação não é estático, mas dinâmico. A certeza do caminho vem enquanto caminhamos. Não somos chamados primordialmente para um lugar ou uma função, mas para andar com Jesus em serviço ao seu reino. Isto significa que a pergunta pela vocação nunca será respondida inteiramente; na caminhada estaremos sempre tentando discernir os caminhos. É o que Nouwen fez sua vida toda, como em sua passagem pela América Latina, ou em sua trajetória de uma carreira acadêmica prestigiada em Harvard para uma vida fora dos holofotes entre os deficientes da Arca, em Toronto. Assim ele resumiu: “Tentei discernir a voz de Deus; e, no meio de uma grande variedade de minhas respostas interiores, tentei encontrar o caminho para ser obediente àquela voz”.

2. Sofrimento e fragilidade.

A vida do ser humano (e do cristão) pode não ser (e como poderia ser?) só sofrer, mas indubitavelmente envolve sofrer. Aprendi com Nouwen que privar-se ou tentar se proteger do sofrimento é como que privar-se da própria vida – e de tudo o que podemos aprender com ela. Entendi que o sofrimento pode nos fazer mais humildes enquanto gente – ou uma gente da mais amarga espécie, dependendo de como o encaramos. O sofrimento me aproxima da, e me ensina a aceitar a, fragilidade de minha condição. Também me aproxima de Deus e me faz vê-lo como um Todo-Poderoso vulnerável, que nem sempre vai me livrar das dores da vida e do mundo, mas que sofrerá comigo sempre que tiver de enfrentá-las, oferecendo inexplicável conforto. Aprendi também que mesmo um ser ferido pode se tornar fonte de cura para as pessoas. E que, como ministro da cura, preciso desfazer-me da ilusão de que serei capaz de explicar o mistério da dor do outro ou de aboli-la; ou de que poderei conduzir alguém para fora do deserto sem tê-lo experimentado em minha própria pele. O sofrimento, assim, pode ser um convite “a depositar nossas feridas e mãos maiores”, e para ver “Deus sofrendo por nós” e nos chamando a compartilhar este sofrer de seu amor por um mundo ferido.

3. Integridade

Aprendi com Nouwen que ser cristão tem a ver com desenvolver-se como um ser humano inteiro, aceitando-se a si mesmo como amado de Deus, da maneira como se é e com a vida que lhe foi dada. Isto não significa que tenho que me resignar a um modo de ser torto. Pelo contrário, implica que toda a minha vida pode ser abraçada como um processo em que, pela graça, estou a caminho de me tornar a pessoa que Deus projetou; nada vem fácil ou é instantâneo e nem se confunde com o meramente superficial. Parte-se, portanto, da compreensão de que o ser como um todo, bem como “tudo na vida, por mais insignificante ou difícil que possa parecer, abre-nos para a obra de Deus em nós”.

(Continua...)
Jonathan

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Coisas que aprendi com Henri Nouwen (Parte 1)

Escrevi um artigo há certo tempo, falando de modo resumido sobre Henri Nouwen como um modelo de vida e espiritualidade radicais, tratando um pouco de sua vida, formação, fatos marcantes de sua trajetória e pensamento (ler aqui). Não menos resumidamente, quero partilhar algo mais sobre Nouwen só que de um jeito mais pessoal – forma predominante em seus escritos. Como eu o enxergo? Por que me tornei tão fascinado por sua vida e escritos? Que coisas tenho aprendido com ele?

Quem foi Nouwen?

Usando uma expressão de Zygmunt Bauman, para mim Nouwen foi um “artista da vida”. Primeiramente porque ele foi alguém profundamente fascinado pela vida e pelas pessoas, pela conexão e pelos relacionamentos. Parte de sua veia artística está em ter conseguido pintar de modo tão brilhante, sensível e inspirador sua teia particular de relações com a vida e com Deus. Um resumo das coisas que Nouwen mais amava fazer pode ser encontrado, a meu ver, em suas próprias palavras no Diário de seu último ano sabático: “Escrever livros, fazer amigos, criar comunidade, partilhar histórias”.

Nouwen foi um santo-homem. Sua santidade estava não em feitos sobrenaturais, mas na forma íntegra com que efetuou as coisas mais naturais da vida – como amar, orar, sofrer, se alegrar, celebrar, morrer. Ele foi um pastor sensível e compassivo, atento a cada encontro e a singularidade de cada pessoa. Mas também foi um ministro vulnerável, ao ponto de escancarar sua vida, suas feridas e limitações de um modo às vezes até constrangedor pra quem o lê.

Foi um discípulo radical e apaixonado de/por Jesus. Extremamente consciente de sua dependência de Deus e da comunidade e também de seu inacabamento, nunca deixou de estar em busca, a caminho, ansioso por entender o que Deus queria para ele e para onde desejava conduzi-lo. A ele cabem as sábias palavras do frei Carlos Mesters: “A luz só se faz é na travessia e na escuridão”. O mais admirável é que tanto a luz quanto a escuridão de Nouwen serviram como canais de benção e de cura para muitas pessoas.

Por que Nouwen?

Em Nouwen descobri um modelo de espiritualidade não focado em performances para Deus, mas em vida, abertura e entrega. Uma vida baseada na honestidade, uma abertura besuntada de autenticidade, e uma entrega movida pelo amor e pela paixão de Cristo. Ele foi e continua sendo um modelo atual, pois conseguiu reunir em sua pessoa uma intelectualidade frutífera com o sentimento sincero, de quem vive intensamente tanto “por fora” quanto “por dentro”, e a experiência da orientação sábia junto com uma postura de constante quebrantamento diante de Deus e da vida. Sua existência foi um protesto contra o superficialismo e um rompimento com os dualismos perniciosos que se propagaram no cristianismo. Nele vejo o paradoxo belo de uma coerência desarmônica, de uma resiliência frágil e de uma melancolia esperançosa.

Jonathan