segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Carta a Rubem Alves

Rubem Alves 2

"As certezas andam sempre de mãos dadas com as fogueiras...” [Rubem Alves].

Ah, querido Rubem, se você ainda estivesse entre nós, certamente notaria como essa sua assertiva, escrita há algumas décadas, continua sendo tão atual, infelizmente. Lembrando nosso amigo Voltaire, parece que continuamos nos dilacerando "por causa de alguns parágrafos", sendo piores que os tigres, que dilaceram senão para comer. Mas, sabe: o problema, talvez e muito ‘talvezmente’, não seja nutrir determinadas certezas, se me permite uma leve variação de ponto de vista, pois existem convicções (ideológicas, de fé e vida) que, para nós, são tão caras que arriscamos tomá-las como "certezas". Então, não sei, caro mestre, se "todas" as espécies de certezas conduzem a fogueiras - talvez a maioria delas, sim. É que teimosa e relutantemente ainda acredito na profundidade de certos valores (não consigo transvalorá-los todos, como pretendeu nosso outro bom amigo, Nietzsche), como o amor, por exemplo. Mas será que o amor pode ser chamado de certeza, ou mesmo de "valor"? Acho que aqui poderíamos concordar que o amor, se certeza for, é a mais incerta que existe, pois não oferece controle nem garantia de nada. Pela fé, por exemplo, sinto-me convicto sobre o amor de Deus pelo mundo; mas não há, nem nunca houve, garantias de que o mundo abraçará ou compreenderá o amor de Deus, às vezes sinto o contrário: que o mundo, ou seja, nós-mundo nos tornamos antítese desse amor, especialmente quando fazemos coisas horríveis, como sacrificar pessoas, "pelo amor de Deus", ou por amor à sua "verdade". Ironia das ironias: o Senhor amou o mundo, mas o mundo escolheu pregá-lo numa cruz! E ainda prosseguimos numa crucificação sem fim...

É, caro Rubem, as coisas aqui andam muito estranhas, especialmente nesse lugar mais deslocalizado possível chamado Facebook, onde algumas linhas ou imagens podem gerar uma tempestuosa indisposição entre pessoas, às vezes entre amigos, ou até mesmo entre irmãos. Seria por efeito das “certezas”, sobre as quais você falou, ou pela teimosia orgulhosa em não admitir nossas fraquezas, pontos falhos ou cegos? E como poderíamos falar de certezas senão por determinados pontos de vista? E como separá-las das fogueiras, se não mais toleramos os pontos de vista uns dos outros? Que faremos, pois: abolimos as certezas? E como fazer isso sem, de novo, aniquilar as pessoas? O relativismo, no fim das contas, parece mesmo ser um absolutismo invertido. Talvez se nos esvaziássemos, pelo menos, da pretensão de enxergar sempre melhor e mais acuradamente que os outros, da pretensão de preencher todos os espaços vazios, da pretensão ao conhecimento absoluto, a coisa já melhoraria muito, e as “certezas” já não seriam mais tanto um problema.

Quero então tentar uma nota diferente. As certezas que nutro, pela relatividade de meus pontos de vista, do lugar a partir do qual vejo e falo, são e serão decididamente incertas. E não existirão mais para achatar pontos de vista de outrem, pois, se não são capazes de conversar civilizada e respeitosamente, mesmo que em tom declaradamente dissonante, é melhor que permaneçam caladas. Desisto de tentar vencer sempre, pois um mundo onde todos querem a vitória (de seu partido, ideologia, visão doutrinária, religião ou nação), só pode ser um mundo em guerra e, por conseguinte, fadado à destruição. Quero viver uma vida em que as perdas sejam jubilosamente acolhidas como oportunidades, e as vitórias eventuais sejam celebradas humilde e humanamente com poesia e canto, e não com marchas triunfais. Que eu aprenda a abdicar de uma das mais tentadoras para mim: a marcha triunfal do pensamento. Pois ela é tanto triunfal, quanto inquisitória; tanto triunfal, quanto excludente.

Nunca me esquecerei de algo que você disse sobre os teólogos no prefácio ao seu livro “Por uma teologia da libertação”. Você disse que alguns deles se parecem com o galo: “Acham que se não cantarem direito, o sol não nasce: como se Deus fosse afetado por suas palavras. E até estabelecem inquisições para perseguir galos de canto diferente, e condenam outros a fechar o bico, sob pena de excomunhões”. Isso, porque “todos estão de acordo em que existe uma partitura original, revelada, autoritativa, e que a tarefa da teologia é tocar sem desafinar... Qualquer que seja a aposição, todos afirmam que existe um único jeito de tocar a música”. Você sabia o que estava dizendo, Rubem, pois enfrentou essa fúria galinácea na pele, não foi? E, como dizia Voltaire, por seus próprios “irmãos”! Não deve ser nem um pouco fácil ser apunhalado por gente da própria família, que pela frente diz “meu amado”, e pelas costas te condena como liberal, herege ou coisa que o valha, e não me admira que tenhas evitado para si o rótulo de “teólogo” depois disso (eu até acho que teria feito o mesmo). Por essa razão, me junto, sem querer me comparar, a você em prosseguir tentando “inventar outros cantos, sabendo que o sol não vai se zangar e vai nascer sempre, no mesmo lugar”. Gostei também da expressão que você usou para traduzir isso: “Graça”. Permita-me então encerrar transformando suas palavras em uma oração, dirigida agora especialmente a nossos camaradas teólogos/as:

Que produzamos novos cantos teológicos, com coragem e responsabilidade, com inventividade e fidelidade, mas sem medo de desafinar, conscientes de que “a bondade de Deus continua a mesma, sempre, independente de nossas afinações ou desafinações. Ele [o sol] nem nasce melhor quando estamos afinados, e nem nasce pior quando estamos desafinados... Temos, portanto, a liberdade de fazer o que quiser... Eu não suportaria pensar que meu pensamento é tão poderoso que, caso eu pense errado, Deus vai ficar torto”.

Jonathan

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O pós-moderno, a igreja e a verdade absoluta

postmodern age

Um dos temas prediletos dos tribunais teológicos nos últimos tempos se chama “pós-modernidade”. Para muitos ela inspira ou representa quase sempre algo ruim, um tremendo desafio ao testemunho cristão, a besta do Apocalipse. No livro A Igreja do outro lado (Palavra, 2008), Brian D. McLaren​ critica algumas das críticas cristãs, para ele, distorcidas à pós-modernidade – que são papagaiadas exatamente por quem provavelmente nunca leu um livro sequer de um pós-moderno (que não proponha vale-tudismos), ou leu “alguma coisa” e pensa que, por ela, leu o todo, mais ou menos como quem acha que sabe tudo sobre a Teologia da Libertação tendo lido apenas “o livrinho introdutório dos irmãos Boff”, como vi um teólogo dizer recentemente. Entre as críticas mais requentadas, sobre a qual gostaria de falar nesse texto, está a de que “cristianismo e pós-modernidade são incompatíveis porque os pós-modernos não creem na verdade absoluta”. A resposta de McLaren, com a qual concordo inteiramente, é a seguinte:

Bem, é claro que há uma verdade absoluta lá fora. Não duvido disso. Apenas duvido de sua habilidade, ou na minha própria, de apreender essa verdade e de compreendê-la, lembrá-la, codificá-la numa determinada linguagem e comunicá-la a outros e fazê-la compreendida de uma maneira absolutamente exata. (...) aquilo que as pessoas pós-modernas tendem a rejeitar não é a verdade absoluta, mas o conhecimento absoluto (p. 234).

Ora, isso é quase um truísmo (uma obviedade), poderia dizer alguém, pois quem seria obtuso o bastante para ainda crer e dizer que pode codificar a verdade ou compreendê-la de maneira “absolutamente exata”? Também não entendo que haja um grande número de pessoas que faça isso assim, tão explicitamente. Mas no campo das ciências humanas e no da religião, por exemplo, ainda temos muitos/as "Dom Quixotes" da verdade que resistem em admitir os limites do saber e, mais ainda, da expressão desse saber. Então, prosseguem, usando aqui outra expressão de McLaren, “batendo o tambor da verdade absoluta” por aí, por mais ridículo e desesperado que isso pareça, quem sabe esperando que a chuva caia do céu e esses pós-modernos irresponsáveis finalmente se convençam de que não podemos jogar todos os valores (sobretudo os morais) na lata do lixo. Mas quem disse que o pós-moderno se caracteriza pela completa destruição de todos os valores?

Talvez estejamos lidando aqui com mais um preconceito. Lembrando a famosa definição de François Lyotard, o pós-moderno se caracteriza (num plano geral) pela “desconfiança em relação às meta-narrativas”, isto é, as grandes narrativas, aquelas que se colocam em letras maiúsculas, que pretendem oferecer explicações últimas ou definitivas para uma determinada realidade nos termos de uma determinada forma de pensamento ou linguagem. A teologia, por exemplo, torna-se uma meta-narrativa quando – num ímpeto semelhante ao dos “amigos de Jó” – abandona sua vocação metafórica, e passa a querer explicar e abarcar aquilo que não pode ser contido em vasos, odres ou caixas. Que podemos falar sobre o “radicalmente outro”? Ora, só uma teologia que, por natureza, também só pode ser “radicalmente outra” em relação a Deus, é capaz de dizer algo dentro de suas limitadas possibilidades, reconhecendo que só se pode conhecer em parte, como o próprio Paulo o fez (cf. 1Co 13.12).

E isso não tem nada a ver com “acabar com o absoluto”, porque essa é uma impossibilidade. O absoluto é o que está alheio a tudo: é o Totalmente Outro, o Eterno, o Incondicional. Não há razão para se precaver tanto contra a relativização em questão, pois ela não tem em vista o absoluto em si, uma vez que esse não é passível de ser relativizado, tampouco de ser supra-absolutizado – ficar repetido, em alto e bom som, a Deus que Ele é absoluto (ou todo-poderoso) é tão inútil quanto tentar explicar a um peixe que este sabe nadar. Somente o relativo pode (e deve) ser relativizado, sobretudo quando nutre pretensões ao status de absoluto, ou de ilusões de equivalência. No fim das contas, a supra-absolutização do absoluto ou a tentativa de guarda-lo “a sete chaves” é apenas mais um dos efeitos do desejo por poder que ocupa o interior da religião (e da teologia) há bastante tempo.

Nomear ou conceituar um aspecto do Reino de Deus, por exemplo, e então dizer “isso É o Reino”, é o mesmo que pretensamente conferir (a tal conceito) a mesma natureza (absoluta) do reino. Por isso, a “teologia” de Jesus era metafórica, pois, ao se referir ao reino nas parábolas de Mateus, capítulo 13, por exemplo, ele nunca disse o que o reino é, e sim com o que se assemelha: “O reino de Deus é semelhante a ...” um homem que semeou a boa semente no campo (v. 24); um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou em seu campo (v. 31); um fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha (v. 33); um tesouro escondido no campo (v. 44); um que negocia e procura boas pérolas (v. 45); uma rede, que lançada no mar colhe peixes de toda espécie (v. 47).

Diante das acusações de que gente pós-moderna não se importa com a verdade, McLaren então parte da ideia – talvez um pouco romântica, e quem sabe se referindo a uma parcela dos pós-modernos (são tantos, então penso que sim) – de que “as pessoas pós-modernas se importam tanto com a verdade que não querem fingir que uma opinião subjetiva ou ‘vista de um ponto’ seja mais do que ela realmente é. E se importam tanto com a verdade que questionam a habilidade da linguagem de comunicá-la suficientemente” (p. 235).

Mas isso ainda pode nos colocar diante de um impasse ético, do tipo: bem, se a verdade não nos é acessível, como distingui-la da mentira? Como justificar, do ponto de vista hermenêutico, o sincero escândalo que nos provocam tantos políticos e outras pessoas que mentem? Ou seja, ao se dizer adeus à verdade (como conhecimento absoluto sobre algo), como reconhecer e denunciar a mentira nociva ao bem individual ou comum? Coadunar-se-á com a descarada mentira? Ou, indo adiante, sem o parâmetro da verdade, como é possível se definir e diferenciar coisas tais como “mentira” e “bem comum”, como certo ou errado? Se a verdade absoluta é “mais um perigo que um valor”, como declarou Gianni Vattimo, que valores ainda podem ser nutridos sem que resultem no mesmo perigo ora rechaçado: o de absolutizar aquilo que é apenas particular?

A proposta que Vattimo oferece em seu livro Adios a la Verdad (Gedisa, 2010), parece ser uma solução aberta e provisória ao problema: se é passível que tal conflito não possa ser vencido pela pretensão de se chegar à verdade das coisas, uma vez que o produto sempre será diferente da verdade mesma, resulta que não mais se busque a verdade universal, mas a verdade comunitariamente válida ao grupo numa situação histórica dada. No “adeus à verdade” suspende-se a pretensão a uma validade universal de pressupostos, e se dá boas-vindas a “verdades particulares” com validade relativa e temporária. Assim, não se trata de um total abandono da tarefa de distinguir práticas ou discursos que sejam verdadeiros ou falsos, mas de reconhecer que “a diferença entre verdadeiro e falso é sempre uma diferença que surge de interpretações mais ou menos aceitáveis e compartilhadas”, como produto não do autoritarismo da visão de uns sobre outros, mas de consensos solidariamente possíveis. Não que o papel do diálogo seja, necessariamente, o de produzir consenso, nem que o do intelectual não possa ser o de persuadir seus pares de sua posição. A diferença, para Vattimo, está na palavra interpretação, de modo que: “A filosofia não é expressão da época, é uma interpretação que com certeza se esforça por ser persuasiva, mas que reconhece sua própria contingência, liberdade e riscos” (p. 61).

A filosofia (e/ou a teologia) que emerge, então, dessa abertura para a pluralidade de visões e interpretações diferentes, é carente de princípios últimos ou, por assim dizer, pós-fundacionalista. Mas, se ela é débil de fundamentos e de uma origem, como pode falar racionalmente e/ou não descambar para um irracionalismo puro e simples do tipo vale-tudo? Na perspectiva desse autor, ela o faz a partir de “eleições responsáveis” ou pontos de partida explícitos (não neutros, nem universalizantes), que surgem de necessidades plantadas não pelo olho de Deus subjacente a toda moral, mas pelo contexto e suas situações específicas. Vattimo parece propor, assim, a troca de uma ética universal (com imperativos categóricos) por uma ética situacional (com imperativos contextuais, forjados a partir de uma pertença comunitária e, assim, relativos a um lugar). A isto ele chama de ética da finitude: “aquela que tenta se manter fiel ao descobrimento da situação, sempre insuperavelmente finita, da própria procedência, sem esquecer-se das implicações pluralistas de tal descobrimento” (p. 110).

Isso se estende também ao que chamamos de “verdades” ou da “ética” do cristianismo. O cristão pode se manter fiel aos princípios nos quais acredita sem ter a pretensão de que eles sejam adotados irrestritamente por todas as pessoas, especialmente no âmbito público e civil. A ideia de que “precisamos implantar os valores cristãos na sociedade” tende a perder sua preeminência, não para que o relativismo – como parece ser o temor de tantos – tome seu lugar e se instaure o regime da desordem (uma espécie de anarquismo ético), e sim para que esses “consensos solidários”, sobre os quais Vattimo fala, sejam possíveis (ou pelo menos pensáveis por um grupo mais significativo de pessoas), levando em conta os direitos humanos básicos – que os cristãos deveriam ser os primeiros a abraçar, se é que são tão “éticos” quanto pensam e se é que sua ética transpassa o âmbito dos “princípios morais individuais” (do “eu” não faço isso ou aquilo) – e não o que “a igreja”, ou “um governo cristão”, ou uma “bancada evangélica” quer determinar como regra para todo mundo.

Se os cristãos não colocam como uma voz no coro de múltiplas vozes que se fazem ouvir na sociedade, talvez seja melhor que se calem; se não se podem contentar no papel de cooperadores (e não paladinos ou detentores) com o evangelho, talvez seja melhor não atrapalhar o processo; caso prossigam sendo teimosos em não se abrir para o diálogo (mais por medo que por convicção), provavelmente prosseguirão falando apenas de si para si mesmos numa congratulação universal dos que se colocam como os fiéis defensores da verdade. Os “demais cristãos”, marginais por natureza, que não pensam assim, devem ser exilados sob a pecha de “liberais”, “hereges” ou “apostatas”, quando não “anticristos”, porque tanto sua forma de pensar quanto de ser não estão de acordo com o que “a Bíblia diz”. “Compare com o que a Bíblia diz”, afirmam alguns desses fiéis (mais retos que a lei), “e verás que estás fora da verdade!”. Para esses, a equação é muito simples: “a Bíblia diz” é igual a “Deus diz”. Se eu repito, fielmente (ou seja, de modo literal), o que a escritura está dizendo, então a minha palavra corresponde à Palavra de Deus. Logo, se alguém contradiz a minha palavra, contradiz a Palavra de Deus e, portanto, é um herege. Isso é um exemplo tosco de como se pode perder de vista a lição de Jesus nas parábolas do Reino: só podemos comparar linguagem com linguagem e não linguagem com “o fato”, “a realidade”, “o ser”, “a essência”, “a verdade”, e assim por diante.

O que preocupa aos cristãos em geral é uma coisa chamada “critério de decisão”. Qual é o critério que devemos adotar para decidir sobre questões de cunho moral (já que entramos no assunto)? Richard Rorty, em Contingência, ironia e solidariedade (Martins Fontes, 2007), tem muito a ensinar aos cristãos nesse sentido. O problema, para ele, não é a busca por critérios em si, mas a busca deles no mundo (ou em Deus) na expectativa de que ele “fale”, ou melhor, dite o que é ou tem de ser. Essa tentação de buscar critérios no mundo é devida a tendência de pensar no mundo, ou no próprio ser humano, como possuidor de uma “natureza intrínseca”, uma “essência”. Como não alcançamos essa essência (apenas pretendemos), o resultado é a “tentação de privilegiar uma dentre as muitas linguagens com que habitualmente descrevemos o mundo ou nós mesmos”, e a consequente criação de “vocabulários-como-totalidades” (p. 31), ou, diria eu, de vocabulários-deuses.

Evitar essa tentação é minha proposta aqui, destinada particularmente aos próximos da fé, e é também a proposta de pós-modernos como Rorty e Vattimo. Para isso é necessário um sacrifício: não o sacrifício da verdade, mas o sacrifício pela verdade – se é que ainda nos importamos com ela, e não apenas estamos interessados no poder ou status que a pretensão de possuí-la, ou que sua posse efetiva como efeito do “abuso espiritual” ou religioso, nos confere. O sacrifício “da verdade” acontece sempre que alguém alega tê-la encontrado, em seu estado absoluto, e a codificado em uma linguagem; já o sacrifício “pela verdade” é um sacrifício de si mesmo e da visão de que minha linguagem e teologia correspondem ao modo como as coisas (Deus, sua Palavra) realmente são. O sacrifício pela verdade é uma imitação do sacrifício de Jesus – o caminho, a verdade e a vida –, que como Ser-Verdade se sacrificou por amor, ao contrário de muitos dos que dizem seus seguidores, que continuam, em nome de uma versão tremendamente distorcida dele, sacrificando o amor ao próximo em nome da apologia da verdade: que mata, trucida e exclui.

Por fim, como destaca Rorty, “dizer que devemos abandonar a ideia da verdade como algo que está aí, à espera de ser descoberto, não é dizer que descobrimos que não existe verdade alguma” (p. 33). Igualmente, dizer que não podemos mais aceitar critérios absolutos, porque supostamente atribuídos pela “natureza intrínseca” de algo, não é dizer que a partir de agora vivemos a partir de critério algum ou do “critério de me der na telha”. Apenas admitimos que são nossos critérios, que podem e devem ser colocados no mesmo patamar e em diálogo com outros critérios, em busca não de que um se estabeleça ou prevaleça sobre outro, mas de que encontremos aqueles “consensos solidários possíveis”, para construção de uma sociedade democrática e de direitos, na qual os marginalizados pelo sistema também tenham voz, e não de uma sociedade regida por parâmetros da minha religião.

“Mas eles precisam saber que Cristo é a Verdade!”, pode bradar alguém. Concordo, mas pergunto: como é que alguém “sabe” que Cristo é “a verdade”? Será por meio do convencimento proveniente de uma lógica teológica ou apologética qualquer? Será por ter sido testemunha ocular do poder de Deus? Vamos supor que um descrente X chegue a ser convencido, pelos crentes A e B, de que “Cristo é a Verdade”. Convenceram-no de que a verdade do cristianismo é plausível, e de que é absoluta, ou seja, de que está acima e, portanto, torna mentirosa qualquer outra forma de saber, religioso ou não, que reivindique ser verdade. Seria possível inferir pela situação descrita que: já que X foi convencido por A e B de que Cristo é a verdade, logo X é cristão? Mais do que isso: imaginemos que X tenha também presenciado um milagre, como a cura de um paralítico, que A e B obviamente atribuíram a Deus. Isso deve, necessariamente, levar-nos a crer que X agora se tornou uma pessoa de fé? Pode ser que sim, pode ser que não; mas não há garantias cósmicas, nem provas cabais de que seja (ou tenha de ser) assim.

Afinal de contas, a vida humana, seus encontros e desencontros com Deus e consigo mesma, tem uma dimensão de mistério, de inexplicável; Deus, por sua vez, tem seus próprios meios de se fazer conhecido, com ou sem nossa “santa ajuda”, e não é absolutizando nossos meios (nossa linguagem) que garantiremos que alguém venha a conhecer ou aceitar Deus. Estou convencido de que meu papel, ou melhor, meu modo de ser é ser testemunha, por palavras e ações (e, no contexto em que estou inserido, mais por ações que palavras) do Cristo que, pela graça, me fez e me faz ser quem sou, ou seja, do Deus que “É”, apesar de eu não ser, e que, parafraseando Tillich, me dá a “coragem de ser” apesar de não ser. O “convencimento” é papel de Deus; a salvação também. Nesse sentido, finalizo com as palavras de Michel Quoist em Construir o homem e o mundo (Duas Cidades, 1878):

Qualquer pessoa pode mudar de opinião, e algumas vezes bastante rapidamente. Mas, raramente acontece que alguém mude de opinião pelos argumentos de um outro que decidiu convencê-lo. Assim, se, por uma verdadeira preocupação de difundir a verdade você resolveu fazer alguém evoluir, não diga: vou demonstrar-lhe que está errado, mas, vou ajudá-lo a descobrir a verdade por si mesmo. Muitas vezes o outro estaria pronto para aceitar “a” verdade e não a “sua” verdade. Por que você monopoliza a verdade? Ela existe independentemente de você. Em noventa por cento dos casos, quando você a açambarca, você a turva. Se você quiser ser bem sucedido em suas discussões, esqueça-se e respeite o outro. Não seja o rico que dá uma esmola ao pobre, mas o amigo que corre em direção ao amigo para se unir a ele, e com ele descobrir a verdade. Trata-se de uma verdade religiosa? Então nunca se esqueça que o cristianismo não se demonstra por meio de raciocínios ou de ideias [sic.], pois antes de ser uma doutrina, o cristianismo é uma pessoa. A verdade é Cristo. E não se discute Cristo, acolhe-se Cristo. “Discutir religião” é, antes de tudo, dar testemunho e ajudar o outro a encontrar Cristo (p. 163).

Jonathan

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Verdade como 'evidência muda’: um devaneio

Seeking thruths

Assim como a questão da sexualidade, a questão da verdade ainda é “pedra de toque” da igreja cristã, e eu arrisco dizer: mais das igrejas protestantes que de quaisquer outras. Isso porque quando assumiram, após a Reforma Protestante, que o absoluto não pode ser relativizado e que, por isso, a Palavra de Deus está acima das palavras dos homens, fizeram um duplo movimento a meu ver: (a) entenderam que era preciso defender essa condição absoluta da Palavra de Deus a todo custo, e então recorreram à velha fórmula de determinar quais são os dogmas e doutrinas que melhor servem à conservação da “verdade da Palavra de Deus” – olvidando que a Bíblia é, também, palavra humana; e (b) esqueceram-se de que esses mesmos dogmas e doutrinas são linguagens e não o próprio absoluto; podem ser utilizadas por Deus como instrumento e benção, mas também podem ser anátemas (maldições), sobretudo quando se omitem do fato de que são vasos, meios, e não o próprio fim ou o coração da Verdade.

Esse é o problema do conservadorismo, parafraseando John Caputo: o conservadorismo não conserva, mas mata; pode ser apologético (inicialmente com boas intenções) ao querer defender Deus e seus “fundamentos” (aliás, daí vem a palavra Fundamentalismo), mas é tanto inútil, porque quer defender o indefensável (Deus não precisa de guarda-costas), quanto idólatra, porque transforma os instrumentos de sua defesa (sua teologia, seu discurso) em algo equivalente ao absoluto. Dessa forma, ele não defende Deus, mas mata. Nietzsche estava certo se pensarmos por esse ângulo: se Deus está morto, nós fomos os seus assassinos - e continuamos sendo!

A questão então passa ser: o que fazemos com isso, ou seja, o que fazemos com “a verdade”? Jogamos fora, desistimos, relativizamos? Antes de tudo, se a verdade é mesmo “A Verdade”, então não há sentido para qualquer intento de relativizá-la. Porque “A verdade”, segundo o evangelho, é Cristo – “Eu SOU a verdade”, disse ele em João. E Cristo é Deus, e não um ídolo ou um demônio; Cristo é o verbo (ou a verdade) encarnado, feito gente e, portanto, é também um “ser humano”, e não (pode ser reduzido a) um saber. Há claramente aqui uma diferença entre “ser” e “saber”. Só que não é uma diferenciação simples, é dinâmica e paradoxal. Jesus disse a Pilatos que aqueles que “são” da verdade, o ouvem e sabem do que ele está falando – e, nesse aspecto, “conhecem” a verdade. Aqueles que “são”, “sabem”. Entretanto, pode-se depreender disso também que aqueles que “pensam que sabem” – e pensam que podem expressar isso que sabem numa linguagem pretensamente absoluta – deixam de ser. Então, os que são, sabem; mas o que acham que sabem, não mais são. Há muita gente que é, mas não sabe; e a muita gente que pensa que "é", mas não é, tampouco sabe, só pensa que sabe. Há também muitas espécies de verdade; há muitas maneiras de tentar apreende-las e dominá-las. Mas Jesus, segundo ele mesmo reivindica em João, não é “uma espécie” de verdade, “Ele é a Verdade”: ele, e não nós; ele, e não quem fala em nome dele; ele, e não uma teologia qualquer a seu respeito.

Aqui está a diferença fundamental, que os cristãos custam a compreender: do ponto de vista da fé, a verdade existe e ela tem nome (ainda que o nome em si não a compreenda ao todo): é Jesus. Tudo o que temos, porém, são relances, aproximações, gestos graciosos e amorosos da própria verdade em nossa direção que asseguram, ao nosso ser todo, que estamos nela e dela somos. A verdade, nesse sentido estrito, “dá testemunho de si mesma”, como disse Michel Henry. Posso falar dela – afinal, “a linguagem ainda é seu meio de comunicação por excelência” (emprestando de novo palavras de Henry), desde que for, ou se for, necessário comunicar. Mas a questão é: o que alguém, de fato, comunica quando pretende anunciar a verdade: ela mesma ou uma versão possível, mas sempre diferente, parcial, dela? E essa verdade comunicada nas palavras, pode até convencer, mas de que forma ela liberta (como também diz João): pelo poder das palavras, ou pelo misterioso poder do Cristo, que está além delas? No fim das contas, a verdade só “é” para quem se vê capturado por ela, uma vez que a verdade, em si, não pode ser capturada por ninguém. Ser cristão significa viver no limear entre o anseio pela dádiva de ser cada vez mais possuído e capturado pela verdade na vida, e a boa-nova libertadora de não poder apreendê-la ou possuí-la no discurso, mas de vivê-la como “evidência muda” (André Comte-Sponville). Entretanto, que toda fala, todo discurso, toda comunicação, argumentação, raciocínio, narrativa ou teo-logização sejam benditos e bem-vindos, desde que se assumam jubilosamente como meios, e não como fins, como contingentes, e não absolutos. E não um contingente-orgulhoso, pretensioso, paladino, mas um contingente-modesto, despretensioso, assumidamente fraco.

Jonathan

terça-feira, 28 de julho de 2015

Sobre a Amizade

Friendship 2Mil e tantos, é a marca dos amigos a que cheguei no Facebook recentemente. Não é uma marca a se gabar, e nem poderia; conheço pessoas que têm mais de quatro mil na sua rede; fora as figuras públicas, que podem chegar a milhares. E a “amizade” ali, muitas vezes (mas não sempre), se torna uma forma de escambo, de troca, quase uma versão daquela música do MC Leozinho, “se ela dança eu danço”; no caso, ali seria: “se ela curte, eu curto”. Por isso, muitos de meus “amigos” do Facebook veem e vão ao sabor do vento, ou melhor, do quão atrativo pareço a eles, e eles a mim; aliás, o Facebook é um excelente espaço para distinguir amigos de conhecidos, de admiradores, de aduladores, e de consumidores – sim, pois esses mil e tantos “amigos” que hoje tenho são os mesmos que consomem as coisas que compartilho, para o bem e para o mal. Então, quando o que só importa é o numero (de amigos, de curtidas, de compartilhamentos), significa que pouca coisa importa. Tenho amigos no Facebook, sim, mas as reais amizades acontecem fora dali.

Sempre fui muito reservado com amizades. Isso porque amizade, para mim, é como um solo sagrado: não piso no de muitas pessoas, nem são muitas as pessoas que pisam no meu. Compartilho esse espaço apenas com quem sei que provavelmente não vai profanar facilmente o solo – ainda que, é preciso estar ciente, como todo relacionamento humano, a amizade é passível de rachadura ou até mesmo de rompimento. Por isso, não é nada sábio achar que tudo está sempre garantido nas relações. A gente pode se surpreender conosco mesmos e com os outros.

Quero falar de amizade aqui a partir do diálogo: passeando pelo cotidiano, pela filosofia e pela Bíblia, para responder três questõezinhas básicas: O que é a amizade? O que significa ser amigo/a de alguém? E o que Deus tem a ver com isso?

A palavra “amor” aparece no grego sob três formas ou manifestações mais conhecidas: Eros (expressão que os gregos inventaram para designar o amor-paixão, e em seu sentido mais profundo, significa “cair fulminado de amor”); Ágape (palavra que os cristãos inventaram para designar o amor de Deus, o amor sem limites, também traduzida como “caridade”, ou “o amor liberado do ego”). O amor sobre o qual estamos refletindo não é nem tão complicado quanto Eros, nem tão raro quanto Ágape. Designa-se por outra palavra inventada pelos gregos, chamada Philia (amizade) e philos (amigo). André Comte-Sponville diz que Philia tem um sentido mais amplo, que é a “alegria de amar”.

A Philia, ou “a alegria de amar”, portanto, seria um estado de regozijo ou alegria, que não é tanto pelo que o outro faz, e sim pelo que ele/a é. Ou seja, é o regozijo, a satisfação pela simples existência do outro, do/a amigo/a. “Que bom que essa pessoa existe!”. A coisa legal da amizade é que ela tem exatamente essa leveza e esse frescor; nada pode ser forçado. Por isso, C. S. Lewis disse que era o menos complicado ou mais simples dos amores. Mas as escrituras nos ajudam a aprofundar o sentido desse “regozijo” da amizade. Quero destacar apenas o verso que provavelmente mais conhecemos: “O amigo ama em todos os momentos; é um irmão na adversidade” (Pv 17.17, NVI).

O melhor sentido para a palavra amigo (no original reah) é companheiro, aquele/a que faz companhia ou anda junto. O texto diz que ele “ama” (acompanha) em “todos os momentos” (tempos, circunstâncias). E o autor acrescenta na segunda frase que: na “adversidade” (tsarah: sofrimento, tempos difíceis), esse companheiro se torna irmão (ach: [tão próximo quanto] alguém que tem o mesmo pai e/ou mãe). No capitulo 18, v. 24, essa última ideia de algum modo se complementa quando ele diz que: “Quem tem muitos amigos pode chegar à ruína, mas existe amigo mais apegado que um irmão”. Na tradução “A Mensagem”, fica ainda mais claro: “Amigos vêm e vão, mas o verdadeiro amigo é mais próximo que um irmão”. O texto, portanto, nos ajuda a separar “amigos” (como os do Facebook) de “verdadeiros amigos”. Ele diz: o verdadeiro amigo é mais próximo que um irmão. O amigo-irmão, para Salomão, é aquela pessoa que faz um esforço para estar por perto e que a gente quer ter por perto, mesmo ou especialmente quando as coisas não vão muito bem. Às vezes o contrário acontece: o sofrimento afasta amigos, ao invés de aproximá-los. Mas, se afasta, ainda assim poderíamos chamá-los de amigos? Ainda assim seria uma manifestação do amor?

Recentemente eu li uma história, contada por Ique Carvalho em um de seus muitos textos sobre amor, que ilustra bem isso. Ali ele narra assim:

(...) Em junho de 2013, poucos dias antes do dia dos namorados, minha namorada terminou comigo. Eu fiquei sem entender. Voltei pra casa e durante todo o caminho me perguntava: “Por quê?”. A única coisa que vinha na minha cabeça era a voz dela dizendo: “Eu amo você”. Eu passei um mês sofrendo procurando respostas para o que estava acontecendo. Um dia, entrei no quarto do meu pai chorando e perguntei: “Pai, ela dizia que me amava. Então, por que ela terminou comigo?”. Ele respondeu: “Meu filho, quando alguém entra na sua vida e depois de algum tempo vai embora, pode ser qualquer coisa menos amor”. Eu disse: “Não dá para entender. Um dia, existe amor e no outro tudo acabou”. Ele respondeu: “Você nunca vai superar seus traumas se continuar procurando no amor uma lógica. Construa uma nova história”. Eu perguntei: “E de onde vem essa força pra começar algo novo?”. Ele respondeu: “Não se preocupe com isso. Todo começo vem de um final”. Uma semana depois, meu pai foi diagnosticado com uma doença rara e degenerativa que iria matá-lo em alguns dias. Minha mãe não o abandonou. Ela ficou. Meu pai saia toda sexta para comer pizza com dois irmãos. Quando ele parou de andar, meus tios começaram a trazer a pizza aqui em casa. Eles diziam: “Sem o seu pai, não tem graça”. E ficavam a noite inteira dando gargalhadas. Hoje, meu pai não consegue mais comer. Mesmo assim, toda sexta meus tios passam aqui em casa. Meu pai estudou em Ouro Preto-MG. Na formatura ele combinou com três amigos de se encontrarem de cinco em cinco anos. Este ano, meu pai não pôde ir porque ele não anda mais. Os amigos dele saíram do interior de Minas e vieram até aqui em casa. Todo formando tem uma foto pregada na parede na república que estudou. Os amigos do meu pai trouxeram a foto dos quatro. Pregaram a foto de cada um na parede do quarto e disseram: “Agora, a nossa república é a sua casa”. E combinaram que daqui cinco anos estariam de volta. Meu pai chorou. Meus pais completaram 47 anos de casados dia 2 de junho. Eles sempre dançaram nesse dia. Meu pai não consegue mais se levantar. Minha mãe entrou no quarto e colocou a música que eles dançavam. Ela disse: “Meu filho, traz a cadeira de rodas”. Eu perguntei: “O que você vai fazer?”. Ela respondeu: “Vou fazer o que seu pai faria por mim”. Eu busquei a cadeira de rodas. Minha mãe colocou meu pai na cadeira. Ela ajoelhou ao lado dele e disse: “Vamos dançar?”. Abraçou meu pai e fez a cadeira girar. Ela ficou ajoelhada a música toda. Meu pai chorava e ria ao mesmo tempo. Eles ficaram ali dançando e se divertindo. Eu voltei pro meu quarto chorando (...). [Ver texto completo AQUI].

Na amizade é assim: nem tudo tem a mesma “graça” se aquela pessoa não estiver por perto. E é importante que a gente diga e faça coisas para que nossos amigos saibam disso, por mais “estranhas” que sejam, enquanto é tempo. E quem sabe quanta oportunidade ainda terá? Dia desses tive um rompante e escrevi mensagens individuais para alguns caros amigos falando sobre como esta pessoa é importante em minha vida e quão grande é minha philia por ela. Uma amiga, sem entender muito bem a razão da declaração repentina, perguntou: “Você está passando bem?”. Outro, aproveitando para fazer graça, indagou: “Você já tomou o seu Gardenal hoje?”. Por mais hilárias que sejam, essas reações são sintomáticas de nossa falta de jeito nessas situações. Alguns de nós lidam melhor com atitudes que com palavras, elogios, ou afirmações de afeto; mas, às vezes, as palavras também são importantes, pois inseminam vida, reforçam nossas identidades.

Para resumir e finalizar, a história de Ique Carvalho me ajuda a unir os sentidos grego e hebraico, filosófico e bíblico, de amizade: Amizade ou Philia, como diz Comte-Sponville, é um regozijar-se mútuo por nossa mútua existência. “Obrigado porque você existe!”, diz o amigo; “bem vindo à minha existência” replica a amiga. Mas, onde existe amizade, há também o convite à partilha não somente dos momentos bons, lúdicos ou de prazer da vida; é um convite a partilhar também a dor, o luto, as incertezas e inseguranças que nos assaltam vez por outra. Em outras palavras, a gente precisa do amigo pra rir com a gente, feito bobo, de besteiras e coisas das quais achamos graça (rir “da gente” também faz parte); mas a gente também precisa do amigo ou da amiga que segure nossa mão e nos abrace quando o momento for de choro.

Tudo isso só é possível, sobretudo, porque a amizade, como todos os amores, é derivada do amor de Deus. Regozijar-se e lamentar pela existência do/a amigo/a, é se regozijar e lamentar em Deus, que o/a fez. Somos capazes de amor e amamos, como disse João, porque “Ele nos amou primeiro”. Isso me lembra da frase que li no livro O Amor, de André Comte-Sponville (Martins Fontes, 2013), que não é um cristão, mas certamente disse isso seguindo o espírito joanino:

A graça de ser amado precede a graça de amar, e a torna possível”.

Oxalá o amor de Deus, e nossa amizade com Ele, continue possibilitando que sejamos amigos e tenhamos amigos em nossas vidas.

Jonathan

terça-feira, 9 de junho de 2015

Os assasinos do Deus tolo da cruz

Homofobia cruzHoje acordei perplexo, e não é pela transexual crucificada (na Parada Gay 2015, em São Paulo), mas pelo esquecimento de que a cruz não é um símbolo sagrado, mas de escárnio, dor e abandono; não é objeto de veneração, mas mensagem a ser encarnada. A cruz, na visão cristã, "está vazia", mas não pode ser esvaziada de seu significado em nome de uma visão triunfalista e sectária da fé. Cristo continua sendo o Cristo da cruz, e se vê representado em todos/as os/as crucificados/as pela hostilidade e opressão humanas ainda hoje, o que certamente inclui os GLBT.

Para o Cristo não existem estas classificações e rótulos éticos, étnicos, tribais e etimológicos que tanto nos dividem; para ele, existem tão somente pessoas. Não se trata de saber com quem elas dormem, mas quem elas são e o anseio que mora em seus corações. Enquanto nós as enxergamos através de rótulos e aparência, Ele está interessado no ser; enquanto buscamos punição, ele oferece perdão; enquanto as mandamos para a cruz - e perversamente reclamamos quando uma delas resolve, de fato e simbolicamente, "ir para a cruz" -, Ele oferece graça, amor, redenção. Enquanto alguns de seus notórios e pretensamente fiéis representantes vão coar camelos nas redes sociais e na mídia em geral gritando "Escândalo, seja anátema!", ao lado dos oprimidos e das minorias, ainda posso ouvi-lo gritando da cruz: "Pai, perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem".

O paradoxo e o escândalo da cruz, contudo, é que tanto para os "santos perversos" da religião, quanto para os transviados da vida, existe a possibilidade da ressurreição - mas temo que apenas os transviados estejam abertos para ela. Precisamos parar de falar do amor de Deus, para aprender com ele e pô-lo em prática; pois, enquanto o "nosso amor" rechaça tolices e é cheio de ponderações, não sendo propriamente amor, mas indulgência condicional, 'o amor de Deus é tolo', como declarou Brennan Manning: tolo e imponderado.

É, amigos/as desta blogosfera, talvez não haja oração mais urgente que essa, ao menos para mim: "Senhor, eu também quero ser tolo; faz de mim repositório de suas tolices divinas".

Jonathan

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Tempus Fugit: Tudo é fumaça!

SmokeHoje... O “hoje” foge, escapa na esteira do imediato. Esse hoje me remete a tantas coisas que foram e ainda são, que deveriam ser, mas não são, que persistem enquanto deveriam estar mortas a essa altura. Alguns exemplos óbvios: hoje não estamos interessados mais em debate, mas em mandar recado; não desejamos mais nos aprofundar nos pensamentos, mas em consumi-los quase que antropofagicamente; não mais apreciamos criticamente o olhar do outro, mas o reduzimos a um "gostei" ou "não gostei"; não produzimos textos, mas opiniões do tipo "love it" ou "hate it" - e o "lover" de hoje pode muito bem se transformar no "hater" de daqui a pouco, afinal, não é tanto uma questão de conteúdo, mas de semântica, não tanto de caráter, mas de aparência. Chegamos ao ponto de jogar fora o carinho e respeito pela pessoa em função de sua forma de pensar.

Não falamos francamente, mandamos uns "torpedos"; emulamos amizades com milhares pelas redes, enquanto nas teias de nosso inominável “ser interior” permanecemos profundamente sozinhos; hesitamos em deixar as claras as regras do jogo nas relações pessoais e institucionais, preferimos comentar nos bastidores (falar “por trás” mesmo) como fulano "é errado", como "está fora do prumo", como está longe da "nossa visão". É, minha gente, se pensarmos bem, mas bem mesmo, nos acharemos no mesmo poço escuro e fundo que o sábio de Eclesiastes se viu há milhares de anos e, com ele, honestamente e tragicamente poderemos concluir: "vaidade de vaidades, tudo é vaidade e correr atrás do vento". O ato mais heroico e mais humano que alguém pode fazer por si mesmo hoje é lutar para manter sua integridade enquanto os “demônios do hoje” lutam, nos muitos balcões da vida, para vender a sua alma – com ou sem a sua anuência. Tempus fugit... viver (e deixar viver) é preciso!

Jonathan

sábado, 9 de maio de 2015

Homossexualidade: saindo de meu armário teológico

homossexualidade-religião

Homossexuais. Que seres tão incompreendidos, não é mesmo? E por isso, mal julgados, maltratados, malvistos... Infelizmente, a cada dia comprovo que nossa sociedade, de modo geral, o que inclui os cristãos, não está preparada para lidar com essas pessoas e, portanto, não as trata como pessoas, mas como doentes, depravadas, indignas. E a homossexualidade não é uma doença (por isso o termo “homossexualismo" deve ser evitado), mas uma condição: não almejada nem desejada por ninguém que realmente seja um homossexual, assim penso, afinal, primordialmente, não se trata de uma escolha. E muitos sofrem por serem assim, exatamente pela rejeição e o julgamento que têm e terão de lidar hoje e para o resto de suas vidas. Sim, porque, se consentimos que não é "doença", logo é absurdo buscar uma "cura".

Henri Nouwen, meu grande herói na literatura, era padre e era homossexual, viveu assim e morreu assim – mesmo tendo optado por não se realizar sexualmente, por força de sua vocação sacerdotal – e efetivamente, nada do que penso e sinto sobre ele mudaria se o contrário fosse verdade. Mas ele sofreu as consequências dessa escolha, e como sofreu. Quem não sofreria? Você não sofreria, supondo que seja hétero, se alguém chegasse hoje e dissesse que o universo e a história toda estavam errados? Que a ordem da criação (ou da evolução) da sexualidade humana é uma mentira, e que a verdadeira ordem natural (divinamente aprovada inclusive), é a homossexual? Então você teria de suprimir seu desejo por homens (ou mulheres), e eu, de suprimir o meu por mulheres. Parece absurdo, mas é uma forma bem tosca, mas enérgica, de se imaginar no lugar dessas pessoas. Que coisa mais destrutiva de fé, de corpo e de alma esse negócio chamado de "cura gay"! Quantas pessoas não se alijaram da fé por conta dessa falsa crença – não falsa crença no poder de Deus em si, mas em que são doentes e que só Cristo pode curar. Mas e quando não “cura”, como em muitos casos que conheço de pessoas que oraram por longo tempo, buscaram ajuda, participaram de campanhas, foram a psicólogos, fizeram tratamento médico e até tomaram remédios? E quando supostamente a pessoa se cura, e  passa a ter relações heterossexuais ou então se tornar celibatária, mas o desejo homossexual permanece lá, vivo e caliente? Se a homossexualidade é uma condição, como os muitos estudos existentes e uma observação atenta da realidade me fazem acreditar, então não faz sentido nenhum falar em "cura gay". 

Então, você pode estar pensando: "O que nos resta, como cristãos", caso queiramos sair de nossos armários teológicos e doutrinários previamente estabelecidos sobre o assunto? Em primeiro lugar, e o passo mais óbvio, é o de que precisamos amar, sem perguntar nem quem, nem onde, nem por que, nem quando, nem de que jeito. É isso que Jesus me ensina a fazer, como alguém que amava sem condição e abraçava sem perguntar nada. Deixe as perguntas e as tentativas de respostas para depois. Em segundo lugar (pensando aqui que você vive em um ambiente conservador, onde não se discute, apenas se determina qual é a “visão correta”), quando esse momento chegar, procure um pequeno grupo de orientação e reflexão (se ele não existir, crie) onde o assunto possa ser discutido com liberdade de mente e coração, com abertura, sem julgamentos, utilizando as mais diferentes ferramentas de leitura existentes, o que inclui uma leitura e exegese séria dos textos bíblicos que tratam do assunto. Para mim, é relativamente claro que estes textos (como em Levítico, Romanos, 1Coríntios, etc.) literalmente proíbem práticas homossexuais em tais e/ou quais circunstâncias historicamente dadas dentro de contextos culturais específicos. No entanto, me parece temerário defender que estes mesmos textos deem base para: (1) tratar a pessoa homossexual hoje como doente ou depravada – até porque, via de regra, nestas passagens são homens e mulheres heterossexuais deitando-se com outros (e outras) pessoas heterossexuais e, na maioria das vezes, em práticas de culto orgiástico, que, na tradição veterotestamentária, feriam o princípio do culto ao único Deus, Javé ou, como no caso de Sodoma e Gomorra, desobedeciam à lei de hospitalidade a estrangeiros; (2) nem falar em "cura gay", como já enfatizei; ou (3) condenar a condição natural de ser homossexual – mesmo porque provavelmente na antiguidade existiam muitos homossexuais (tanto quanto hoje), mas pouco se sabia sobre a homossexualidade enquanto condição, até porque o conceito de homossexualidade sequer existia. Por que será que Jesus não dirige uma palavra sequer sobre essas pessoas nos evangelhos? E por que Paulo se preocupou, mais que Jesus, com essas práticas orgiásticas de homens com homens, mulheres com mulheres? São perguntas que precisamos fazer, dentre outras, ao abordar o tema biblicamente – e aqui não me estenderei mais a respeito, pois não é o propósito desse breve desabafo. Ademais, precisamos lançar mão do que têm asseverado os psicólogos e cientistas que têm se dedicado a estudar o assunto, uma vez que há tantas pesquisas a respeito, e tão poucas conclusões definitivas sobre isso. Realmente, este assunto ainda dará muito pano para a manga; basta que estejamos interessados em saber mais, saindo de nosso pequeno armário preconceituoso, despótico, autoritário e superficial de julgamento, sobretudo no campo da religião e, mais ainda, do cristianismo. 

Minha posição atualmente é a seguinte: quanto à questão teológica, posso dizer que, até agora, não vejo razões na bíblia que claramente me dão base para justificar e embasar a prática homossexual em si – e sinceramente, não é preciso, pelo menos não para mim. A questão não é essa. Não existe a homossexualidade, ou a prática homossexual, fora da pessoa. Então a questão é: biblicamente falando, posso deixar de amar um/a homossexual ou qualquer pessoa que seja? E não um amor cheio de imposições e “senãos”, como muitos oferecem, dizendo coisas do tipo: "ah, amo você, mas não o seu 'pecado" (dá pra separar?); "você é bem-vinda em nossa igreja, pode frequentar, mas não pode batizar e nem se tornar membro" (que oferta irrecusável, não? Jesus deve se orgulhar muito dessa). Não, queridos/as irmãos e irmãs. Amar é abraçar; é dizer "você é bem-vindo/a aqui", é dizer "você é um/a filho/a amado/a do Pai, e por isso é minha irmã, meu irmão”; você, que ama ao Senhor, é parte desse corpo e, portanto, seus dons e talentos são bem-vindos aqui. Como costuma dizer um amigo, “quem chama a Deus de Pai não pode escolher irmãos”. Afinal, o que é mais importante, acolher a pessoa em serviço e amor sincero, ou arbitrar sobre com quem ela dorme ou deixa de dormir? E quem é que pode garantir que os "santificados" heterossexuais da igreja dormem com pessoas a quem amam, por quem prezam, e das quais cuidam, como dizem que fazem? O que torna essa pessoa "autorizada pra entrar aqui", e a outra, homossexual, que tem um/a parceiro/a a quem ama, preza e cuida e é fiel, inapta para o reino de Deus? Aliás, quem é o/a “apto/a” para isso? O reino de Jesus, tal como o evangelho me mostra, existe exatamente para pessoas não aptas, desajustadas, pecadoras; ou, parafraseando Brennan Manning, para a “turma da auréola torta”, e não para a turminha angelical da “auréola apertada” (os fariseus e saduceus que o digam). Sério mesmo que vamos continuar achando que estas pessoas são pecaminosas e ignominiosas, condenáveis por assim dizer, enquanto o presbítero, casado e hetero, ministra a ceia na igreja, mas não deixa de olhar para a calcinha da irmã aparecendo na saia curta, e depois se masturba ou transa com a sua mulher pensando nela? E não venha me dizer que isso não acontece!

Eu, porém, não ouso dizer nada mais além de: "tem misericórdia de mim, Senhor, porque sou falho, não merecedor e não apto". Sendo pecador, ainda que não viva no nem para o, mas eventualmente caia em, pecado, como posso julgar ou condenar meus irmãos e irmãs humanos/as? A mim mesmo me condeno se o fizer, como disse Jesus no Sermão do Monte. Sei que provavelmente muito do que tenho dito aqui você preferia não ouvir assim, não concorda, queria mais “embasamento” ou talvez não pediu para que dissesse. Honestamente, não me importa, isto é um desabafo. E hoje falo assim, não porque acredite que a igreja ou a sociedade estão preparadas para isso, nem abertas para o diálogo e a escuta – na verdade, penso que elas nunca estarão de fato, ou isso está deveras longe de acontecer. Posiciono-me assim, por convicção de fé e humanidade, e pela certeza de que há muita gente sofrendo e até morrendo por essa causa, pelo preconceito, a rejeição, a discriminação e a violência bárbara, física ou verbal, material ou simbólica.

No frigir dos ovos, é nessas pessoas que penso, e não nos crentes fundamentalistas; são essas pessoas que importam, e não seus detratores e abusadores. E estas pessoas não podem esperar mais para serem ouvidas, amadas, abraçadas; não podem mais ter seus direitos humanos negados; não podem mais orar e esperar pela mudança de visão e coração dos cristãos, dos políticos, da sociedade, enquanto nada muda. Estas pessoas clamam pelo direito de ser gente e de ser quem são. E como cristão, minha missão não é outra senão a de lutar para que sejam, para que possam, para que alcancem esse direito – independente das querelas teológicas improdutivas que gravitam ao meu redor sobre o assunto, às quais não dou mais a mínima. A questão homossexual só deixará de ser uma questão e deixará de ser urgente, quando o amor, a justiça, a igualdade, os direitos e a liberdade se fizerem realidade concreta em nossas vidas. Enquanto isso não acontecer, decidi que não posso e que não vou mais me calar a respeito: decido sair do armário de minhas “médias ponderadas evangélicas”, de minhas posições razoavelmente confortáveis, a fim de clamar pelo direito de gente oprimida, gente pela qual Jesus entregou sua vida.

Jonathan

segunda-feira, 23 de março de 2015

Por uma fé que pode fraquejar

Week heart

Quando o meu coração estava amargurado e no íntimo eu sentia inveja, agi como insensato e ignorante; minha atitude para contigo era a de um animal irracional. Contudo, sempre estou contigo; tomas a minha mão direita e me susténs. Tu me diriges com o teu conselho, e depois me receberás com honras. A quem tenho nos céus senão a ti? E na terra, nada mais desejo além de estar junto a ti. O meu corpo e o meu coração poderão fraquejar, mas Deus é a força do meu coração e a minha herança para sempre (Sl 73.21-26).

Uma das coisas que mais me preocupa quando o assunto é “fé” é o pouco espaço que nossas definições e percepções mais ou menos comuns deixam para o lado incerto e fraco da fé. Sobretudo porque, ainda que o conceito de fé tenha um aspecto doutrinário ou quase definitivo – e se não respeitar aquilo, não será considerado fé – o fato fundamental é que a fé não existe fora da pessoa. E como pessoas, adotamos, criamos, defendemos e obedecemos convicções, mas também somos abalados em relação a elas, o que denota uma dupla condição de fragilidade: (a) primeiro a condição da vida humana; (b) a condição de nossas certezas, que muitas vezes se abalam na medida em que invariavelmente nosso mundo se abala. A questão no caso é se saberemos ou não a lidar com a ambiguidade óbvia que nos contitui como humanos e, como tal, também atinge nossa própria fé?

Os salmos são cheios dessas ambiguidades, como este que lemos acima. O salmista demonstra ser alguém que andava com Deus, buscando e apreciando seus conselhos; mas no meio dessa trajetória comete alguns deslizes próprios de quem, mesmo sendo de fé, é gente, é humano; e o que aproximava este homem de Deus não era apenas o fato de que ele foi um “escolhido” de Deus, mas de que também, a despeito de suas dúvidas, inquietações, medos e outros sentimentos demasiadamente humanos, ele prosseguia escolhendo Deus. E escolher Deus implica em admitir sua dependência, é ser honesto com Ele, é saber que Ele “é” e continua “sendo”, a despeito de nós não sermos, e que ele permanece, apesar de nossos desvios e fraquezas.

É disso que trata este texto. Nele, o autor admite ter sido tomado pela inveja e amargura em seu coração em relação aos arrogantes e ímpios, mas prósperos; pessoas passam por cima das outras e só pensam em si mesmas, mas, a despeito disso, parecem ser bem-sucedidas em tudo: não adoecem, estão sempre fortes, oprimem os outros, agem como quem pode se apossar da terra, como se esta fosse só delas; além disso, ainda zombam de Deus, não se preocupam com nada e só vão aumentando sua riqueza. O salmista então é tomado pela insensatez e conclui que toda a sua busca por se manter reto e puro, em agir corretamente e temer a Deus, provava-se inútil, pois o fez penar ainda mais enquanto esses pérfidos aí gozam de todas as benesses que ele, pelo bem realizado, deveria estar gozando. E quem não se sentiria injustiçado? Quem não se veria tentado e duvidar do caminho da retidão, isto é, dos caminhos de Deus? Quem numa situação dessas não passaria pelo vale da insensatez e da amargura como passou o salmista por um momento, que não sabemos quanto tempo durou? É isto que chamo de “mundo abalado”; perdemos nosso chão, e vemos como nossas convicções podem ser solapadas e se perder nestas horas.

Mas o salmista não era insensato ao todo; simplesmente porque, diante de Deus, ele admitiu fraquejar, reconheceu seus minutos de bobeira e insensatez; mas mesmo neles, percebeu que não saiu do lado de Deus. Para onde poderia correr? Qual seria, afinal, o sentido de tudo isso? Ele decidiu que melhor é continuar andando com Deus. O sentido de sua fé era maior que a própria fé, pelos modos pelos quais ela se constrói, pelos invólucros frágeis nos quais ela, muitas vezes, se sustenta. Permanecer na fé, contra todos os questionamentos que eventualmente fazemos aos seus conteúdos, como diz Tillich, é um ato de coragem, e mostra que a fé é bem maior que os invólucros que inventamos para contê-la; em suma, é ser possuído por “aquilo que nos toca incondicionalmente”. Envolve a pessoa inteira. Não somente a razão, tampouco só as emoções. Não apenas convive com a dúvida existencial, mas se alimenta dela. Sua única certeza é a do incondicional. Seu principal mote é o impulso de viver, a despeito da própria morte e da incerteza.

No fim das contas, o coração humano é ou pode ser enganoso, como defendeu Jeremias; traiçoeiro em seus direcionamentos, compulsivo em seus desejos. Por ele passam torrentes de pensamento, impulso e volição que podem nos afastar tanto do centro de quem somos, como de nossa própria fé. Por isso, como diz o salmista, ele pode, sim, fraquejar. Mas eu acrescento: é bom que ele fraqueje, pois, fraquejando, melhor reconhece suas lacunas, vulnerabilidades, defeitos; mais bem sabe de sua insuficiência. E quando sabemos disso, fica talvez mais fácil entender que somos apenas gente, parte de um todo, e que a força do nosso coração vem não dele mesmo, mas de quem o fez e faz pulsar: Deus, o único que possui a chave dos corações humanos e que, mesmo em meio a toda corrupção que lhes é própria, escolhe deliberadamente por amá-los.

Jonathan

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Sobre a fé e sua ausência hoje: uma confissão pessoal

Faithless

“Sem fé é a pessoa que diz adeus quando a estrada escurece” [J.R.R. Tolkien].

Alguns ateus costumam alegar que não aderem a fé, nem a Deus, porque são caminhos fáceis, que nos infantilizam, nos livram da dor de viver, de encarar (e abraçar) a vida como ela é, e nos transportam para outra vida, uma vida idílica, sem problemas, incertezas ou dor e, como consequência, promovem uma espiritualidade do sobrenatural, do metafísico, do etéreo. Particularmente penso que eles estão certos nestas alegações, pois sinto exatamente a mesma coisa quando olho para a espiritualidade cristã por muitos praticada, embora estas não sejam razões suficientes para que eu abandone a fé, ou para que ela seja de mim extirpada. Entretanto, não é nenhum absurdo pensar o contrário, ou seja, que a descrença seja um caminho fácil – no fundo, consinto que nenhum dos dois caminhos deveria ser enquadrado como “fácil”. Mas se eu tivesse que indicar um, escolheria a descrença, que é relativamente mais cheia de recursos de todo tipo (materiais, empíricos, lógicos, racionais) que o da crença, ou melhor, da fé – isto para quem, como eu, rejeito a apologética moderna. Isto, pois entendo – e não somente entendo, experimento na pele – que crer é particularmente difícil. Requer de mim o esforço de persistir, de aceitar, de descansar, em meios às minhas inúmeras inquietações, dúvidas e a própria “falta de fé” em certos momentos, cruciais eu diria.

De fato, não é necessário crer quando sua única fidelidade e confiança estão naquilo que vê, no mundo material, nas leis do universo, na vida que pulsa naturalmente, a única que realmente temos. A fé, por sua vez, torna-se imperativa no ser quando sensivelmente constata que nada disso é o bastante, quando a vida vira vaidade ou quando nada faz sentido, como se constata em Eclesiastes. Então, por que é que alguma coisa precisa existir (por trás e movendo os relances de eternidade que meu coração abriga) ao invés de nada? Aí é que está, não precisa existir; posso até concordar racionalmente que há grandes probabilidades de que tudo seja um nada, e de que este “nada”, misterioso e inescrutável, seja “tudo”. Mas meu espírito diz outra coisa; minha angústia também. Conduzem-me de novo a Deus, por mais resistente que eu seja a este nome ou ao que nossas ideias fizeram dele. Aqui reside o crer: crer a despeito da própria descrença, esperar contra a esperança. Esperar e agir, sem deixar de sonhar o real, vivendo-o.

Tenho sido assaltado por questões cruciais sobre a fé em Deus, e tenho questionado quase tudo, tanto que às vezes parece que não restará pedra sobre pedra ou chão para se pisar. E confesso: o ateísmo de certo tipo tem sido uma iminente tentação; não o ateísmo militante e pseudocientífico, mas aquele lúcido, de espírito irênico, que respeita a crença alheia sem deixar de se posicionar, e se posiciona de modo coerente, honesto, visceral também, embora sem abandonar a via racionalista ou existencialista, e por isso incomoda espíritos pensantes que são honestos para com suas dúvidas – já que nem todo pensante é honesto, embora quase todo honesto seja, por assim dizer, um pensante, uma vez que a honestidade parte do reconhecimento – e rejeitam simplismos e silogismos, ateístas ou teístas.

Por isso, a fé, para mim, é um desafio. Como permanecer crendo quando ‘Deus’ – ou seja, a ideia, seus sistemas ou as grandes narrativas de referência – está morto e a sua religião em ruínas? É preciso muito mais que o anseio por consolo e alento para manter a fé de espíritos honestos viva; antes – e este é meu caso –, é preciso a coragem de assumir-se como um não-ser sem fé, um não-ser sem Cristo. E que não quer a fé como refúgio do mundo, mas como modo de ser-ver-viver-agir no mundo. Quer, portanto, uma fé humana, uma fé mundana. Mais que o “salto no escuro” de Kierkegaard, crer é querer crer, como o homem que a Jesus disse: “creio, mas ajuda-me na minha falta de fé”; crer é crer que se crê (Vattimo) ou acreditar em acreditar, e é ter razões mais profundas que as que, pelas limitações próprias de nossa finitude, cabem na razão, razões da sensibilidade última de cada ser, razões nem sempre explicáveis ou demonstráveis.

A fé é aquilo que se mantém quando todos os seus adornos perdem sua razão de ser, e quando só sobra o seu alfa e seu ômega, que não se retém em linguagem ou conceito algum, mas que, na falta de um nome melhor e condizente, e conquanto dele é preciso falar, prossigo chamando de ‘O eterno’, ou simplesmente ‘Deus’.

Jonathan