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segunda-feira, 13 de março de 2017

O péssimo hábito da literalidade e do pré-juízo


Um dos grandes descaminhos do saber se encontra no que chamo aqui de “péssimo hábito da literalidade e do pré-juízo”. Pois, como já insisti em posts anteriores, tomar as coisas como dadas, tal como emergem na superfície, pode comprometer o juízo e a interpretação que oferecemos sobre as situações, os objetos de estudo, e as pessoas. O desafio aqui é desconfiar do dito e de meus pressupostos inicias sobre ele; é indagar sobre os possíveis “não-ditos” ou “mal-ditos” subjacentes nos ditos. Em suma, nem tudo é sempre tão óbvio quanto pode parecer. Ilustro com uma história.

Recentemente meu amigo Kleber Lucas cantou “Epitáfio”, dos Titãs, junto com sua banda em um dos cultos da “Soul Igreja Batista” no Rio de Janeiro, onde ele atua como pastor. Em seguida, publicou um vídeo em sua conta no Instagram, e (como já era de se esperar) foi execrado por uma massa de “irmãos” (digo com certa relutância) na fé, não só por cantar uma música “secular” num culto cristão, mas por ser esta uma canção cujo refrão diz: “O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído”. Duas questões me preocupam nesse caso, sobre as quais quero comentar aqui. 

A primeira questão nasce do mui antigo dualismo sagrado versus secular

O pressuposto, nesse caso, é: existe música “do mundo” e existe “música de Deus”. Na igreja a gente só pode ouvir e cantar música de Deus (isto é, gospel), nunca do mundo. Escuto essa baboseira sectária desde que me conheço como cristão, mas para mim ela nunca fez sentido. Porque tem música que se diz ser “pra Deus”, mas que simplesmente não consigo cantar (ou sequer suporto ouvir), porque fere meus ouvidos de tão ruim no conjunto letra, teologia e a melodia. Pode até comover, mas não muda um centímetro da vida; fala de Deus, mas só pra massagear o ego. 

Além disso, não me fazem pensar, não mexem com minhas entranhas, não me instam a olhar para o próximo, ao micro e macro ambientes que me cercam, a relacionar a Palavra com as questões do cotidiano, a adorar a Deus e celebrar a vida em comum-unidade, até porque centram-se quase inteiramente no indivíduo e seus problemas particulares. Como diz João Alexandre, são variações do mesmo tema, “meras repetições” – e me pergunto até quando insistiremos em repetir e variar, em segregar e não pensar, em vociferar e não dialogar? Certas coisas parecem ser insuperáveis.

Em contrapartida, tem tanta música feita por gente “do mundo” que consegue fazer o que falta a muitas canções cristãs: cantar as belezas divinas, sem necessariamente falar o nome de Deus, e retratar os dramas da vida humana e os gemidos da criação. Para citar só um exemplo dentre tantos: “Sol de primavera”, de Beto Guedes, é uma canção “do mundo” que pode ser entoada como hino a Deus, pois fala de dor, fraternidade e esperança, sobre semear a boa nova, sobre andar a segunda milha com quem chora, sobre aprender a viver e ser melhor. [É óbvio que tem muita música cristã que também faz isso com competência, mas esse texto não é sobre elas].

Ora, eu sou de Deus e eu faço parte do mundo; o mundo é de Deus (embora boa parte dele seja tomado pelo maligno), e todas as coisas boas nele existentes são fruto de Sua Graça; atributos invisíveis, como disse Paulo; imagem e semelhança do Criador. Se eu respiro, ando, vivo, canto, choro, sofro e me alegro dando ações de graças “em tudo”, não tenho razão alguma para perder tempo com dualismos religiosos infantis. Logo, não existe música de Deus versus música do mundo; existe música boa versus música ruim, e para todos os gostos. Portanto, discernir é preciso; segregar não é preciso. Agora, se não gosta ou não aprova; se para você esse tipo de fazer não convém a sua forma de fé, ao menos não julgue nem discrimine quem vivencia sua fé com liberdade e gratidão. Somente Deus conhece e examina o coração, lugar por excelência do louvor.

A segunda (e central) questão diz respeito ao péssimo hábito da literalidade e do pré-juízo

A música “Epitáfio”, dos Titãs (2001), parece-me ser apropriada para uma reflexão sobre essa vida que vivemos. “Epitáfio” nada mais é que aquela inscrição da lapide do túmulo no cemitério. Geralmente ali se escreve aquilo que a pessoa foi, uma qualidade dela. Exemplo: “Aline, esposa fiel, mãe dedicada, mulher irrepreensível”. A música, porém, inverte isso e apresenta uma lista de coisas que a pessoa queria ter feito, mas não fez. Em suma, é como se ela dissesse: “Eu queria e devia ter vivido melhor, curtido intensamente os momentos singulares da vida, mas não consegui”. 

É uma linda canção, que fala de ideais de vida possíveis, mas de um lugar de impossibilidade: o instante da morte. Embora tratemos a morte com extrema recusa, estranhamento e medo muitas vezes, ela tem uma função pedagógica: lembrar-nos sobre como temos vivido e que valor damos à vida e às pessoas a quem mais amamos. A poesia dos Titãs, porém, chama atenção a dois problemas pelo menos (um prático e outro teórico) - que, por sua vez, não anulam a meu ver sua beleza poética e sua utilidade para a reflexão, nem a torna “proibida” de se cantar na igreja (desculpe, mas me sinto ridículo nesse comentário). Primeiro, mostra que, nos últimos instantes de vida, quando não há mais nada a ser feito, alguém lamenta o que poderia ter sido feito, mas não foi ou não fez. Segundo, afirma que “o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído”. 

Aqui chegamos ao coração da questão: o acaso – que diz respeito a coisas que acontecem sem aparente (e previsível) causa ou razão – ao que me parece, não escolhe a quem vai atingir, nem tampouco tem “protegidos”. Se tudo depender do acaso, então minha vida está nas mãos daquilo que há de mais incerto e implacável. O que pouca gente sabe, porém, é que o acaso é considerado biblicamente como parte integrante da existência, e não um mal a ser extinto (nem poderia). Senão, examinemos brevemente o famoso versículo do livro de Eclesiastes em que a palavra aparece:
Percebi ainda outra coisa debaixo do sol: Os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes nem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio; pois o tempo e o acaso afetam a todos. (Ec 9:11, NVI)
O autor aqui desvela uma verdade inconveniente: nem sempre o que era para acontecer, segundo uma ordem esperada de coisas, acontece. O honesto nem sempre “vence na vida”; atos de bondade nem sempre são recompensados do mesmo modo; ou ainda, como se diz em outra tradução, “as pessoas mais capazes nem sempre alcançam altas posições. Tudo depende da sorte e da ocasião” (NTLH), ou do tempo e do acaso. A palavra em inglês para acaso é chance, e diz respeito a ausência de controle e presciência sobre tudo o que de bom ou de ruim acontece debaixo do sol. “Cedo ou tarde”, afirma-se na tradução A Mensagem, “a má sorte atinge a todos”. Isso mesmo: todos! Mesmo os que creem na proteção divina, não estão blindados contra ele. O acaso, portanto, pode não ter protegidos, como sugere o autor da canção, mas ninguém passa por esta vida sem ser afetado/a por ele.

O péssimo habito da literalidade não nos permite questionar, não nos capacita a lidar com os paradoxos, a ponderar o imponderável, porque não admite “contradições” de toda sorte – embora as Escrituras mesmas coloquem essas contradições  bem diante dos nossos olhos, só não vê quem não quer. Então, julgamos quem canta a música dos Titãs como “traição à fé” (resta saber qual), sem saber o que cada um carrega no coração quando canta, e como se apropria da canção. Os detratores do pastor e sua comunidade não estiveram na "Soul" naquele dia, e não poderiam ter a dimensão do significado que aquela canção teve para aquelas pessoas ali reunidas. Não obstante, como é usual no meio evangélico, deixaram-se levar pelas aparências, optaram pelo caminho da segregação, do ódio e do julgamento típicos de uma certa religião. Afinal, sempre é mais fácil julgar do que compreender, condenar do que discernir, empregar fórmulas mágicas do que enfrentar a complexidade da vida de peito aberto e com a franqueza de às vezes poder dizer “eu não sei”. 

Eu, porém, ainda fico com o bom senso advindo da Palavra de Deus, que me instrui aqui e acolá a evitar a frivolidade dos caminhos fáceis e a leviandade das respostas prontas, cujo convite é o do discernimento, da coragem e do enfrentamento da vida e suas intempéries, com confiança e esperança no Deus de amor, sabedores de que Ele caminha com a gente, desde as montanhas mais altas aos vales mais escuros; das avenidas iluminadas aos becos da existência, sem que saibamos exatamente o “como” nem o “porquê”. Que o péssimo hábito religioso da literalidade e do pré-juízo, bem como o seu famigerado gosto por repetições, não mais nos impeçam de encontrar Deus no lugar improvável, no aparentemente escuso e no inesperado. Pois teologia e fé que não se deixam surpreender por Deus são coisas tremendamente enfadonhas e pouco frutíferas; de novo, meras repetições. 

Jonathan

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O pós-moderno, a igreja e a verdade absoluta

postmodern age

Um dos temas prediletos dos tribunais teológicos nos últimos tempos se chama “pós-modernidade”. Para muitos ela inspira ou representa quase sempre algo ruim, um tremendo desafio ao testemunho cristão, a besta do Apocalipse. No livro A Igreja do outro lado (Palavra, 2008), Brian D. McLaren​ critica algumas das críticas cristãs, para ele, distorcidas à pós-modernidade – que são papagaiadas exatamente por quem provavelmente nunca leu um livro sequer de um pós-moderno (que não proponha vale-tudismos), ou leu “alguma coisa” e pensa que, por ela, leu o todo, mais ou menos como quem acha que sabe tudo sobre a Teologia da Libertação tendo lido apenas “o livrinho introdutório dos irmãos Boff”, como vi um teólogo dizer recentemente. Entre as críticas mais requentadas, sobre a qual gostaria de falar nesse texto, está a de que “cristianismo e pós-modernidade são incompatíveis porque os pós-modernos não creem na verdade absoluta”. A resposta de McLaren, com a qual concordo inteiramente, é a seguinte:

Bem, é claro que há uma verdade absoluta lá fora. Não duvido disso. Apenas duvido de sua habilidade, ou na minha própria, de apreender essa verdade e de compreendê-la, lembrá-la, codificá-la numa determinada linguagem e comunicá-la a outros e fazê-la compreendida de uma maneira absolutamente exata. (...) aquilo que as pessoas pós-modernas tendem a rejeitar não é a verdade absoluta, mas o conhecimento absoluto (p. 234).

Ora, isso é quase um truísmo (uma obviedade), poderia dizer alguém, pois quem seria obtuso o bastante para ainda crer e dizer que pode codificar a verdade ou compreendê-la de maneira “absolutamente exata”? Também não entendo que haja um grande número de pessoas que faça isso assim, tão explicitamente. Mas no campo das ciências humanas e no da religião, por exemplo, ainda temos muitos/as "Dom Quixotes" da verdade que resistem em admitir os limites do saber e, mais ainda, da expressão desse saber. Então, prosseguem, usando aqui outra expressão de McLaren, “batendo o tambor da verdade absoluta” por aí, por mais ridículo e desesperado que isso pareça, quem sabe esperando que a chuva caia do céu e esses pós-modernos irresponsáveis finalmente se convençam de que não podemos jogar todos os valores (sobretudo os morais) na lata do lixo. Mas quem disse que o pós-moderno se caracteriza pela completa destruição de todos os valores?

Talvez estejamos lidando aqui com mais um preconceito. Lembrando a famosa definição de François Lyotard, o pós-moderno se caracteriza (num plano geral) pela “desconfiança em relação às meta-narrativas”, isto é, as grandes narrativas, aquelas que se colocam em letras maiúsculas, que pretendem oferecer explicações últimas ou definitivas para uma determinada realidade nos termos de uma determinada forma de pensamento ou linguagem. A teologia, por exemplo, torna-se uma meta-narrativa quando – num ímpeto semelhante ao dos “amigos de Jó” – abandona sua vocação metafórica, e passa a querer explicar e abarcar aquilo que não pode ser contido em vasos, odres ou caixas. Que podemos falar sobre o “radicalmente outro”? Ora, só uma teologia que, por natureza, também só pode ser “radicalmente outra” em relação a Deus, é capaz de dizer algo dentro de suas limitadas possibilidades, reconhecendo que só se pode conhecer em parte, como o próprio Paulo o fez (cf. 1Co 13.12).

E isso não tem nada a ver com “acabar com o absoluto”, porque essa é uma impossibilidade. O absoluto é o que está alheio a tudo: é o Totalmente Outro, o Eterno, o Incondicional. Não há razão para se precaver tanto contra a relativização em questão, pois ela não tem em vista o absoluto em si, uma vez que esse não é passível de ser relativizado, tampouco de ser supra-absolutizado – ficar repetido, em alto e bom som, a Deus que Ele é absoluto (ou todo-poderoso) é tão inútil quanto tentar explicar a um peixe que este sabe nadar. Somente o relativo pode (e deve) ser relativizado, sobretudo quando nutre pretensões ao status de absoluto, ou de ilusões de equivalência. No fim das contas, a supra-absolutização do absoluto ou a tentativa de guarda-lo “a sete chaves” é apenas mais um dos efeitos do desejo por poder que ocupa o interior da religião (e da teologia) há bastante tempo.

Nomear ou conceituar um aspecto do Reino de Deus, por exemplo, e então dizer “isso É o Reino”, é o mesmo que pretensamente conferir (a tal conceito) a mesma natureza (absoluta) do reino. Por isso, a “teologia” de Jesus era metafórica, pois, ao se referir ao reino nas parábolas de Mateus, capítulo 13, por exemplo, ele nunca disse o que o reino é, e sim com o que se assemelha: “O reino de Deus é semelhante a ...” um homem que semeou a boa semente no campo (v. 24); um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou em seu campo (v. 31); um fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha (v. 33); um tesouro escondido no campo (v. 44); um que negocia e procura boas pérolas (v. 45); uma rede, que lançada no mar colhe peixes de toda espécie (v. 47).

Diante das acusações de que gente pós-moderna não se importa com a verdade, McLaren então parte da ideia – talvez um pouco romântica, e quem sabe se referindo a uma parcela dos pós-modernos (são tantos, então penso que sim) – de que “as pessoas pós-modernas se importam tanto com a verdade que não querem fingir que uma opinião subjetiva ou ‘vista de um ponto’ seja mais do que ela realmente é. E se importam tanto com a verdade que questionam a habilidade da linguagem de comunicá-la suficientemente” (p. 235).

Mas isso ainda pode nos colocar diante de um impasse ético, do tipo: bem, se a verdade não nos é acessível, como distingui-la da mentira? Como justificar, do ponto de vista hermenêutico, o sincero escândalo que nos provocam tantos políticos e outras pessoas que mentem? Ou seja, ao se dizer adeus à verdade (como conhecimento absoluto sobre algo), como reconhecer e denunciar a mentira nociva ao bem individual ou comum? Coadunar-se-á com a descarada mentira? Ou, indo adiante, sem o parâmetro da verdade, como é possível se definir e diferenciar coisas tais como “mentira” e “bem comum”, como certo ou errado? Se a verdade absoluta é “mais um perigo que um valor”, como declarou Gianni Vattimo, que valores ainda podem ser nutridos sem que resultem no mesmo perigo ora rechaçado: o de absolutizar aquilo que é apenas particular?

A proposta que Vattimo oferece em seu livro Adios a la Verdad (Gedisa, 2010), parece ser uma solução aberta e provisória ao problema: se é passível que tal conflito não possa ser vencido pela pretensão de se chegar à verdade das coisas, uma vez que o produto sempre será diferente da verdade mesma, resulta que não mais se busque a verdade universal, mas a verdade comunitariamente válida ao grupo numa situação histórica dada. No “adeus à verdade” suspende-se a pretensão a uma validade universal de pressupostos, e se dá boas-vindas a “verdades particulares” com validade relativa e temporária. Assim, não se trata de um total abandono da tarefa de distinguir práticas ou discursos que sejam verdadeiros ou falsos, mas de reconhecer que “a diferença entre verdadeiro e falso é sempre uma diferença que surge de interpretações mais ou menos aceitáveis e compartilhadas”, como produto não do autoritarismo da visão de uns sobre outros, mas de consensos solidariamente possíveis. Não que o papel do diálogo seja, necessariamente, o de produzir consenso, nem que o do intelectual não possa ser o de persuadir seus pares de sua posição. A diferença, para Vattimo, está na palavra interpretação, de modo que: “A filosofia não é expressão da época, é uma interpretação que com certeza se esforça por ser persuasiva, mas que reconhece sua própria contingência, liberdade e riscos” (p. 61).

A filosofia (e/ou a teologia) que emerge, então, dessa abertura para a pluralidade de visões e interpretações diferentes, é carente de princípios últimos ou, por assim dizer, pós-fundacionalista. Mas, se ela é débil de fundamentos e de uma origem, como pode falar racionalmente e/ou não descambar para um irracionalismo puro e simples do tipo vale-tudo? Na perspectiva desse autor, ela o faz a partir de “eleições responsáveis” ou pontos de partida explícitos (não neutros, nem universalizantes), que surgem de necessidades plantadas não pelo olho de Deus subjacente a toda moral, mas pelo contexto e suas situações específicas. Vattimo parece propor, assim, a troca de uma ética universal (com imperativos categóricos) por uma ética situacional (com imperativos contextuais, forjados a partir de uma pertença comunitária e, assim, relativos a um lugar). A isto ele chama de ética da finitude: “aquela que tenta se manter fiel ao descobrimento da situação, sempre insuperavelmente finita, da própria procedência, sem esquecer-se das implicações pluralistas de tal descobrimento” (p. 110).

Isso se estende também ao que chamamos de “verdades” ou da “ética” do cristianismo. O cristão pode se manter fiel aos princípios nos quais acredita sem ter a pretensão de que eles sejam adotados irrestritamente por todas as pessoas, especialmente no âmbito público e civil. A ideia de que “precisamos implantar os valores cristãos na sociedade” tende a perder sua preeminência, não para que o relativismo – como parece ser o temor de tantos – tome seu lugar e se instaure o regime da desordem (uma espécie de anarquismo ético), e sim para que esses “consensos solidários”, sobre os quais Vattimo fala, sejam possíveis (ou pelo menos pensáveis por um grupo mais significativo de pessoas), levando em conta os direitos humanos básicos – que os cristãos deveriam ser os primeiros a abraçar, se é que são tão “éticos” quanto pensam e se é que sua ética transpassa o âmbito dos “princípios morais individuais” (do “eu” não faço isso ou aquilo) – e não o que “a igreja”, ou “um governo cristão”, ou uma “bancada evangélica” quer determinar como regra para todo mundo.

Se os cristãos não colocam como uma voz no coro de múltiplas vozes que se fazem ouvir na sociedade, talvez seja melhor que se calem; se não se podem contentar no papel de cooperadores (e não paladinos ou detentores) com o evangelho, talvez seja melhor não atrapalhar o processo; caso prossigam sendo teimosos em não se abrir para o diálogo (mais por medo que por convicção), provavelmente prosseguirão falando apenas de si para si mesmos numa congratulação universal dos que se colocam como os fiéis defensores da verdade. Os “demais cristãos”, marginais por natureza, que não pensam assim, devem ser exilados sob a pecha de “liberais”, “hereges” ou “apostatas”, quando não “anticristos”, porque tanto sua forma de pensar quanto de ser não estão de acordo com o que “a Bíblia diz”. “Compare com o que a Bíblia diz”, afirmam alguns desses fiéis (mais retos que a lei), “e verás que estás fora da verdade!”. Para esses, a equação é muito simples: “a Bíblia diz” é igual a “Deus diz”. Se eu repito, fielmente (ou seja, de modo literal), o que a escritura está dizendo, então a minha palavra corresponde à Palavra de Deus. Logo, se alguém contradiz a minha palavra, contradiz a Palavra de Deus e, portanto, é um herege. Isso é um exemplo tosco de como se pode perder de vista a lição de Jesus nas parábolas do Reino: só podemos comparar linguagem com linguagem e não linguagem com “o fato”, “a realidade”, “o ser”, “a essência”, “a verdade”, e assim por diante.

O que preocupa aos cristãos em geral é uma coisa chamada “critério de decisão”. Qual é o critério que devemos adotar para decidir sobre questões de cunho moral (já que entramos no assunto)? Richard Rorty, em Contingência, ironia e solidariedade (Martins Fontes, 2007), tem muito a ensinar aos cristãos nesse sentido. O problema, para ele, não é a busca por critérios em si, mas a busca deles no mundo (ou em Deus) na expectativa de que ele “fale”, ou melhor, dite o que é ou tem de ser. Essa tentação de buscar critérios no mundo é devida a tendência de pensar no mundo, ou no próprio ser humano, como possuidor de uma “natureza intrínseca”, uma “essência”. Como não alcançamos essa essência (apenas pretendemos), o resultado é a “tentação de privilegiar uma dentre as muitas linguagens com que habitualmente descrevemos o mundo ou nós mesmos”, e a consequente criação de “vocabulários-como-totalidades” (p. 31), ou, diria eu, de vocabulários-deuses.

Evitar essa tentação é minha proposta aqui, destinada particularmente aos próximos da fé, e é também a proposta de pós-modernos como Rorty e Vattimo. Para isso é necessário um sacrifício: não o sacrifício da verdade, mas o sacrifício pela verdade – se é que ainda nos importamos com ela, e não apenas estamos interessados no poder ou status que a pretensão de possuí-la, ou que sua posse efetiva como efeito do “abuso espiritual” ou religioso, nos confere. O sacrifício “da verdade” acontece sempre que alguém alega tê-la encontrado, em seu estado absoluto, e a codificado em uma linguagem; já o sacrifício “pela verdade” é um sacrifício de si mesmo e da visão de que minha linguagem e teologia correspondem ao modo como as coisas (Deus, sua Palavra) realmente são. O sacrifício pela verdade é uma imitação do sacrifício de Jesus – o caminho, a verdade e a vida –, que como Ser-Verdade se sacrificou por amor, ao contrário de muitos dos que dizem seus seguidores, que continuam, em nome de uma versão tremendamente distorcida dele, sacrificando o amor ao próximo em nome da apologia da verdade: que mata, trucida e exclui.

Por fim, como destaca Rorty, “dizer que devemos abandonar a ideia da verdade como algo que está aí, à espera de ser descoberto, não é dizer que descobrimos que não existe verdade alguma” (p. 33). Igualmente, dizer que não podemos mais aceitar critérios absolutos, porque supostamente atribuídos pela “natureza intrínseca” de algo, não é dizer que a partir de agora vivemos a partir de critério algum ou do “critério de me der na telha”. Apenas admitimos que são nossos critérios, que podem e devem ser colocados no mesmo patamar e em diálogo com outros critérios, em busca não de que um se estabeleça ou prevaleça sobre outro, mas de que encontremos aqueles “consensos solidários possíveis”, para construção de uma sociedade democrática e de direitos, na qual os marginalizados pelo sistema também tenham voz, e não de uma sociedade regida por parâmetros da minha religião.

“Mas eles precisam saber que Cristo é a Verdade!”, pode bradar alguém. Concordo, mas pergunto: como é que alguém “sabe” que Cristo é “a verdade”? Será por meio do convencimento proveniente de uma lógica teológica ou apologética qualquer? Será por ter sido testemunha ocular do poder de Deus? Vamos supor que um descrente X chegue a ser convencido, pelos crentes A e B, de que “Cristo é a Verdade”. Convenceram-no de que a verdade do cristianismo é plausível, e de que é absoluta, ou seja, de que está acima e, portanto, torna mentirosa qualquer outra forma de saber, religioso ou não, que reivindique ser verdade. Seria possível inferir pela situação descrita que: já que X foi convencido por A e B de que Cristo é a verdade, logo X é cristão? Mais do que isso: imaginemos que X tenha também presenciado um milagre, como a cura de um paralítico, que A e B obviamente atribuíram a Deus. Isso deve, necessariamente, levar-nos a crer que X agora se tornou uma pessoa de fé? Pode ser que sim, pode ser que não; mas não há garantias cósmicas, nem provas cabais de que seja (ou tenha de ser) assim.

Afinal de contas, a vida humana, seus encontros e desencontros com Deus e consigo mesma, tem uma dimensão de mistério, de inexplicável; Deus, por sua vez, tem seus próprios meios de se fazer conhecido, com ou sem nossa “santa ajuda”, e não é absolutizando nossos meios (nossa linguagem) que garantiremos que alguém venha a conhecer ou aceitar Deus. Estou convencido de que meu papel, ou melhor, meu modo de ser é ser testemunha, por palavras e ações (e, no contexto em que estou inserido, mais por ações que palavras) do Cristo que, pela graça, me fez e me faz ser quem sou, ou seja, do Deus que “É”, apesar de eu não ser, e que, parafraseando Tillich, me dá a “coragem de ser” apesar de não ser. O “convencimento” é papel de Deus; a salvação também. Nesse sentido, finalizo com as palavras de Michel Quoist em Construir o homem e o mundo (Duas Cidades, 1878):

Qualquer pessoa pode mudar de opinião, e algumas vezes bastante rapidamente. Mas, raramente acontece que alguém mude de opinião pelos argumentos de um outro que decidiu convencê-lo. Assim, se, por uma verdadeira preocupação de difundir a verdade você resolveu fazer alguém evoluir, não diga: vou demonstrar-lhe que está errado, mas, vou ajudá-lo a descobrir a verdade por si mesmo. Muitas vezes o outro estaria pronto para aceitar “a” verdade e não a “sua” verdade. Por que você monopoliza a verdade? Ela existe independentemente de você. Em noventa por cento dos casos, quando você a açambarca, você a turva. Se você quiser ser bem sucedido em suas discussões, esqueça-se e respeite o outro. Não seja o rico que dá uma esmola ao pobre, mas o amigo que corre em direção ao amigo para se unir a ele, e com ele descobrir a verdade. Trata-se de uma verdade religiosa? Então nunca se esqueça que o cristianismo não se demonstra por meio de raciocínios ou de ideias [sic.], pois antes de ser uma doutrina, o cristianismo é uma pessoa. A verdade é Cristo. E não se discute Cristo, acolhe-se Cristo. “Discutir religião” é, antes de tudo, dar testemunho e ajudar o outro a encontrar Cristo (p. 163).

Jonathan

sábado, 9 de maio de 2015

Homossexualidade: saindo de meu armário teológico


Homossexuais. Que seres tão incompreendidos, não é mesmo? E por isso, mal julgados, maltratados, malvistos... Infelizmente, a cada dia comprovo que nossa sociedade, de modo geral, o que inclui os cristãos, não está preparada para lidar com essas pessoas e, portanto, não as trata como pessoas, mas como doentes, depravadas, indignas. E a homossexualidade não é uma doença (por isso o termo “homossexualismo" deve ser evitado), mas uma condição: não almejada nem desejada por ninguém que realmente seja um homossexual, assim penso, afinal, primordialmente, não se trata de uma escolha. E muitos sofrem por serem assim, exatamente pela rejeição e o julgamento que têm e terão de lidar hoje e para o resto de suas vidas. Sim, porque, se consentimos que não é "doença", logo é absurdo buscar uma "cura".

Henri Nouwen, meu grande herói na literatura, era padre e era homossexual, viveu assim e morreu assim – mesmo tendo optado por não se realizar sexualmente, por força de sua vocação sacerdotal – e efetivamente, nada do que penso e sinto sobre ele mudaria se o contrário fosse verdade. Mas ele sofreu as consequências dessa escolha, e como sofreu. Quem não sofreria? Você não sofreria, supondo que seja hétero, se alguém chegasse hoje e dissesse que o universo e a história toda estavam errados? Que a ordem da criação (ou da evolução) da sexualidade humana é uma mentira, e que a verdadeira ordem natural (divinamente aprovada inclusive), é a homossexual? Então você teria de suprimir seu desejo por homens (ou mulheres), e eu, de suprimir o meu por mulheres. Parece absurdo, mas é uma forma bem tosca, mas enérgica, de se imaginar no lugar dessas pessoas. Que coisa mais destrutiva de fé, de corpo e de alma esse negócio chamado de "cura gay"! Quantas pessoas não se alijaram da fé por conta dessa falsa crença – não falsa crença no poder de Deus em si, mas em que são doentes e que só Cristo pode curar. Mas e quando não “cura”, como em muitos casos que conheço de pessoas que oraram por longo tempo, buscaram ajuda, participaram de campanhas, foram a psicólogos, fizeram tratamento médico e até tomaram remédios? E quando supostamente a pessoa se cura, e  passa a ter relações heterossexuais ou então se tornar celibatária, mas o desejo homossexual permanece lá, vivo e caliente? Se a homossexualidade é uma condição, como os muitos estudos existentes e uma observação atenta da realidade me fazem acreditar, então não faz sentido nenhum falar em "cura gay".

Então, você pode estar pensando: "O que nos resta, como cristãos", caso queiramos sair de nossos armários teológicos e doutrinários previamente estabelecidos sobre o assunto? Em primeiro lugar, e o passo mais óbvio, é o de que precisamos amar, sem perguntar nem quem, nem onde, nem por que, nem quando, nem de que jeito. É isso que Jesus me ensina a fazer, como alguém que amava sem condição e abraçava sem perguntar nada. Deixe as perguntas e as tentativas de respostas para depois. Em segundo lugar (pensando aqui que você vive em um ambiente conservador, onde não se discute, apenas se determina qual é a “visão correta”), quando esse momento chegar, procure um pequeno grupo de orientação e reflexão (se ele não existir, crie) onde o assunto possa ser discutido com liberdade de mente e coração, com abertura, sem julgamentos, utilizando as mais diferentes ferramentas de leitura existentes, o que inclui uma leitura e exegese séria dos textos bíblicos que tratam do assunto. Para mim, é relativamente claro que estes textos (como em Levítico, Romanos, 1Coríntios, etc.) literalmente proíbem práticas homossexuais em tais e/ou quais circunstâncias historicamente dadas dentro de contextos culturais específicos. No entanto, me parece temerário defender que estes mesmos textos deem base para: (1) tratar a pessoa homossexual hoje como doente ou depravada – até porque, via de regra, nestas passagens são homens e mulheres heterossexuais deitando-se com outros (e outras) pessoas heterossexuais e, na maioria das vezes, em práticas de culto orgiástico, que, na tradição veterotestamentária, feriam o princípio do culto ao único Deus, Javé ou, como no caso de Sodoma e Gomorra, desobedeciam à lei de hospitalidade a estrangeiros; (2) nem falar em "cura gay", como já enfatizei; ou (3) condenar a condição natural de ser homossexual – mesmo porque provavelmente na antiguidade existiam muitos homossexuais (tanto quanto hoje), mas pouco se sabia sobre a homossexualidade enquanto condição, até porque o conceito de homossexualidade sequer existia. Por que será que Jesus não dirige uma palavra sequer sobre essas pessoas nos evangelhos? E por que Paulo se preocupou, mais que Jesus, com essas práticas orgiásticas de homens com homens, mulheres com mulheres? São perguntas que precisamos fazer, dentre outras, ao abordar o tema biblicamente – e aqui não me estenderei mais a respeito, pois não é o propósito desse breve desabafo. Ademais, precisamos lançar mão do que têm asseverado os psicólogos e cientistas que têm se dedicado a estudar o assunto, uma vez que há tantas pesquisas a respeito, e tão poucas conclusões definitivas sobre isso. Realmente, este assunto ainda dará muito pano para a manga; basta que estejamos interessados em saber mais, saindo de nosso pequeno armário preconceituoso, despótico, autoritário e superficial de julgamento, sobretudo no campo da religião e, mais ainda, do cristianismo.

Minha posição atualmente é a seguinte: quanto à questão teológica, posso dizer que, até agora, não vejo razões na bíblia que claramente me dão base para justificar e embasar a prática homossexual em si – e sinceramente, não é preciso, pelo menos não para mim. A questão não é essa. Não existe a homossexualidade, ou a prática homossexual, fora da pessoa. Então a questão é: biblicamente falando, posso deixar de amar um/a homossexual ou qualquer pessoa que seja? E não um amor cheio de imposições e “senãos”, como muitos oferecem, dizendo coisas do tipo: "ah, amo você, mas não o seu 'pecado" (dá pra separar?); "você é bem-vinda em nossa igreja, pode frequentar, mas não pode batizar e nem se tornar membro" (que oferta irrecusável, não? Jesus deve se orgulhar muito dessa). Não, queridos/as irmãos e irmãs. Amar é abraçar; é dizer "você é bem-vindo/a aqui", é dizer "você é um/a filho/a amado/a do Pai, e por isso é minha irmã, meu irmão”; você, que ama ao Senhor, é parte desse corpo e, portanto, seus dons e talentos são bem-vindos aqui. Como costuma dizer um amigo, “quem chama a Deus de Pai não pode escolher irmãos”. Afinal, o que é mais importante, acolher a pessoa em serviço e amor sincero, ou arbitrar sobre com quem ela dorme ou deixa de dormir? E quem é que pode garantir que os "santificados" heterossexuais da igreja dormem com pessoas a quem amam, por quem prezam, e das quais cuidam, como dizem que fazem? O que torna essa pessoa "autorizada pra entrar aqui", e a outra, homossexual, que tem um/a parceiro/a a quem ama, preza e cuida e é fiel, inapta para o reino de Deus? Aliás, quem é o/a “apto/a” para isso? O reino de Jesus, tal como o evangelho me mostra, existe exatamente para pessoas não aptas, desajustadas, pecadoras; ou, parafraseando Brennan Manning, para a “turma da auréola torta”, e não para a turminha angelical da “auréola apertada” (os fariseus e saduceus que o digam). Sério mesmo que vamos continuar achando que estas pessoas são pecaminosas e ignominiosas, condenáveis por assim dizer, enquanto o presbítero, casado e hetero, ministra a ceia na igreja, mas não deixa de olhar para a calcinha da irmã aparecendo na saia curta, e depois se masturba ou transa com a sua mulher pensando nela? E não venha me dizer que isso não acontece!

Eu, porém, não ouso dizer nada mais além de: "tem misericórdia de mim, Senhor, porque sou falho, não merecedor e não apto". Sendo pecador, ainda que não viva no nem para o, mas eventualmente caia em, pecado, como posso julgar ou condenar meus irmãos e irmãs humanos/as? A mim mesmo me condeno se o fizer, como disse Jesus no Sermão do Monte. Sei que provavelmente muito do que tenho dito aqui você preferia não ouvir assim, não concorda, queria mais “embasamento” ou talvez não pediu para que dissesse. Honestamente, não me importa, isto é um desabafo. E hoje falo assim, não porque acredite que a igreja ou a sociedade estão preparadas para isso, nem abertas para o diálogo e a escuta – na verdade, penso que elas nunca estarão de fato, ou isso está deveras longe de acontecer. Posiciono-me assim, por convicção de fé e humanidade, e pela certeza de que há muita gente sofrendo e até morrendo por essa causa, pelo preconceito, a rejeição, a discriminação e a violência bárbara, física ou verbal, material ou simbólica.

No fundo, é nessas pessoas que penso, e não nos crentes fundamentalistas; são essas pessoas que importam, e não seus detratores e abusadores. E estas pessoas não podem esperar mais para serem ouvidas, amadas, abraçadas; não podem mais ter seus direitos humanos negados; não podem mais orar e esperar pela mudança de visão e coração dos cristãos, dos políticos, da sociedade, enquanto nada muda. Estas pessoas clamam pelo direito de ser gente e de ser quem são. E como cristão, minha missão não é outra senão a de lutar para que sejam, para que possam, para que alcancem esse direito – independente das querelas teológicas improdutivas que gravitam ao meu redor sobre o assunto, às quais não dou mais a mínima. A questão homossexual só deixará de ser uma questão e deixará de ser urgente, quando o amor, a justiça, a igualdade, os direitos e a liberdade se fizerem realidade concreta em nossas vidas. Enquanto isso não acontecer, decidi que não posso e que não vou mais me calar a respeito: decido sair do armário de minhas “médias ponderadas evangélicas”, de minhas posições razoavelmente confortáveis, a fim de clamar pelo direito de gente oprimida, gente pela qual Jesus entregou sua vida.
Jonathan

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Por uma igreja frágil e irrelevante

Fragilidade

Nosso mundo é um mundo cada vez mais competitivo, composto de pessoas competitivas. Nem todos são vencedores, nem todos os vencedores alcançam o pódio e o poder por mérito próprio, mas quase todos, regidos pela lei do mercado, competem entre si para ver quem conquista o direito de “chegar lá”. Maquiavel ficaria feliz em se dar conta de que sua teoria, originalmente aplicada à política de sua época (no clássico O Príncipe), funciona bem em outros ambientes, como o mercado de trabalho ou a religião, por exemplo; universos nos quais nem sempre importam tanto os meios, se estes estiverem a serviço de almejáveis fins. Sucesso, pujança e relevância são palavras indispensáveis a qualquer um que deseje ter uma sobrevida neste tipo de sociedade.

Você, leitor/a, deve estar se perguntando, “e a igreja nisso?”, já que meu título remete a ela. Bem, a igreja vive na tensão entre ser uma expressão desta e (relevante) para esta época, e sua razão de ser, que é encarnar diante do mundo a boa nova do reino revelada em Jesus. Ou seja, o que move a igreja não são os ditames do que impera na sociedade em que ela coexiste, mas o exemplo de seu Senhor.

E o exemplo de Jesus, suas prioridades, sua missão se desenham desde seus primeiros passos no ministério. Segundo a narrativa de Lucas no texto indicado acima, Jesus não inicia seu ministério em ação, mas em silêncio, oração e na total dependência do Espírito no deserto. Lucas diz que ele voltou do Jordão (lugar de seu batismo) “cheio do Espírito” e que ele “foi guiado pelo mesmo Espírito no deserto” (Lc 4.1). Depois de quarenta dias, ele passou a ser tentado pelo diabo no instante mesmo de sua maior vulnerabilidade e em seus aspectos geradores: (a) suas necessidades básicas (transforma pedras em pão), (b) sua identidade (se és o filho de Deus, atira-te daqui e convoque os anjos pra te livrarem), (c) sua vinculação divino-humana com o poder (a ti darei todos estes reinos se prostrado me adorares). Em nenhuma delas, porém, Jesus foi imprudente, não se submetendo ao uso leviano da Palavra pelo diabo. Pelo contrário, ele rejeita o caminho do poder e abraça, a partir dali, uma vocação despossuída de pretensões grandiosas neste mundo e desejosa apenas de fazer a vontade do Pai.

O caráter dessa vocação se confirma no momento seguinte da narrativa. Num sábado, Jesus adentra a sinagoga (respeitando o costume e a tradição) e lhe é dado o livro do profeta Isaías, no qual se lê: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e  recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos, e proclamar o ano da graça do Senhor” (Lc 4.18-19, NVI). E, logo em seguida, disse aos presentes que aquela palavra acabara de se cumprir nele mesmo. Desde então, fica claro que ele encarna a figura indigesta do profeta.

Quase todo líder cristão em nossos dias, naturalmente, imagina poder iniciar seu ministério bem, realizando boas e grandes coisas para se estabelecer, sendo notado e respeitado a fim de conquistar seu espaço. O mestre, porém, tem um início subversivo até nisso, pois esse primeiro ato ministerial, segundo esse relato, foi um fracasso total: todos na sinagoga ficaram enraivecidos com seu discurso, o expulsaram da cidade e tentaram jogá-lo do precipício, o que só não aconteceu porque ainda não era o momento. Mas era o indício de um caminho, caminho de cruz.

O que a igreja contemporânea tem a aprender com isso? Dentre tantas lições que daqui poderíamos extrair, eu diria que igreja e seus líderes precisam aprender com Jesus a não temer a rejeição, o escárnio e o insucesso (aos olhos do mercado) no instante em que ela decide viver com integridade sua vocação para ser um frágil instrumento da missão do reino neste mundo. Henri Nouwen vai além, e afirma algo arrojado em relação aos líderes cristãos (que aqui reaplico a igreja): “O líder cristão do futuro será aquele que ousa afirmar sua irrelevância no mundo contemporâneo como uma vocação divina. Ela permite que ele esteja em profunda solidariedade com a angústia atrás de todo aquele esplendor do sucesso. E leve a luz de Jesus para brilhar ali”.

“Frágil e irrelevante”, digo, não porque encarna o espírito de vítima ou de derrotada, tampouco porque não faça e não vá fazer diferença, mas porque é irreverente aos caminhos de sucesso mundanos, e porque encarna o espírito de sua fragilidade humana na dependência do Espírito, como Jesus no deserto, e admite não precisar nem desejar viver sob a égide e em busca de outro poder que não esse; e mais, assume que todo exercício legítimo de poder na igreja passa pela fragilização de quem o exerce, no momento em que se coloca tanto na dependência do mesmo Espírito no serviço, como na mútua e fraterna dependência da própria comunidade. Em suma: olhar para Jesus torna mais claro o tipo de opção que a igreja de Cristo precisa fazer ao lidar com poder e instituições neste mundo, qual seja, não a de rejeitá-los como quem os demoniza, mas de abandonar o modo como se valoriza poder e instituição por aí, tantas vezes colocando-os acima das pessoas às quais deveríamos amar e servir.

A igreja que se diz de Jesus não pode inverter a lógica: ela ama mais as pessoas que as instituições e não o contrário. Aliás, instituições são instrumentos úteis, não objetos de amor e/ou veneração!

Ademais, a vocação primária da igreja faz com que ela não esteja neste mundo para estabelecer coisas – como que monumentos só dela, porém supostamente erigidos “para a glória de Deus” (resta saber qual) –, mas para peregrinar na liberdade, e seguindo os rastros, do Espírito e obedecendo unicamente a um Senhor. Por fim, o papel da comunidade do povo de Deus em um tempo tão plural como o nosso não reside em normatizar o falar de Deus, nem tampouco na pretensão de falar por Deus, como se a ela tivessem sido conferidas tanto uma revelação especial quanto um modo especial (ou exclusivo) de apresentar a revelação. Em tempos de fragilização, como o pensamento fraco de Gianni Vattimo nos faz atentar, a igreja não passa de um débil e, como tal, não exclusivo instrumento da Missio Dei, que, para ser efetiva como instrumento, precisa se aceitar como insuficiente, frágil, como um vaso de barro nas mãos do Oleiro, a fim de que nela, através dela e para além dela, isto é, no mundo, avulte o poder do Espírito Santo, a única testemunha absoluta da verdade, a nós não acessível senão por meio de fragmentos de linguagem e fragmentos de experiência.

Jonathan

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Feridos pela igreja, sarados na igreja

church-after-christendom

Por Henri J. M. Nouwen

A Igreja com frequência nos fere profundamente. Pessoas com autoridade religiosa normalmente nos ferem através de suas palavras, atitudes e exigências. Precisamente porque nossa religião nos coloca em contato com questões de vida e morte, nossa sensibilidade religiosa pode ser facilmente ferida. Ministros e pastores raramente se dão conta de como um comentário crítico, um gesto de rejeição, ou um ato de impaciência pode ser relembrado durante uma vida inteira por aqueles a quem eles foram direcionados.

Existe uma fome tão grande por significado na vida, por conforto e consolação, por perdão e reconciliação, por restauração e cura, que qualquer pessoa com alguma autoridade na Igreja deveria constantemente ser lembrada que a melhor palavra para caracterizar a autoridade religiosa é compaixão. Continuemos a olhar para Jesus, cuja autoridade foi expressa em compaixão.

[…] Quando somos feridos pela Igreja, nossa tentação é rejeitá-la. mas quando rejeitamos a Igreja, torna-se muito difícil permanecer em contato com o Cristo vivo. Quando dizemos: “Eu amo a Jesus, mas odeio a Igreja”, acabamos não apenas perdendo a Igreja, mas também a Jesus. O desafio é o de perdoar a Igreja. Este desafio é especialmente grande porque a Igreja frequentemente nos pede perdão, ainda que extra-oficialmente. Mas a Igreja, como uma organização humana e falível, precisa de nosso perdão na mesma medida em que a Igreja, na forma do Cristo vivo entre nós, continua a nos oferecer perdão.

É importante pensar na Igreja não como algo que se encontra “lá fora”, mas como uma comunidade de pessoas fracas, cheias de conflitos, da qual somos parte e na qual nos encontramos mutuamente com nosso Senhor e Redentor.

[Tradução: Jonathan Menezes. Trechos de: NOUWEN, Henri J. M. Bread for the journey. São Francisco: Harper Collins, 1997].

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Sobre a religião e seus derivados (I)

Religião que seguem
No atual momento, vemos tomar corpo um movimento de pessoas que se dizem apaixonadas por Jesus, mas que não gostam mais da igreja, detestam as instituições em geral, e desenvolveram uma ojeriza pelo que chamam de “religião” – a meu ver, a religião institucionalizada. Estes estariam dentro dos 7,9% da pesquisa acima exposta. O mote de sua trajetória está no slogan: “Mais Jesus e menos religião”. O problema é que, nesse meio termo, apareceram outros apresentando outra visão de religião, mais positiva talvez, alegando que a religião faz parte da história humana desde sempre e tem oferecido contribuições importantes a ela. Em outras palavras, por mais que critiquemos a religião, não vivemos sem ela. Nesta discussão pouco criteriosa, termos como religião, religiosidade e espiritualidade acabam sendo utilizados de modo intercambiável, como se um fosse ou pudesse ser sinônimo para outro. E a confusão se vê armada. Podemos desatar este nó?

Em primeiro lugar, a discussão sobre as terminologias (religião, religiosidade, espiritualidade, etc.) é in-termi-nável. Todas são palavras polissêmicas, se considerarmos o diálogo interdisciplinar, ou mesmo o senso comum. Em segundo lugar, esse movimento (por um cristianismo não-religioso) não é novo. Já vimos isso no século XX, através de Karl Barth, e mais fortemente na teologia de Dietrich Bonhoeffer, na teologia secular (Cox) e da morte de Deus (Robinson e Cia), dentre outros.

A diferença para o que tenho visto atualmente é que esses últimos me parecem ter sido mais intencionais, proposicionais e consistentes (quer se concorde com eles ou não) no sentido de formular respostas relevantes aos problemas e movimentos de seu tempo, e não um flash mob de descontentes, como parece se apresentar grande parte do movimento atual. É preciso conferir mais coerência e conteúdo aos nossos descontentamentos.

No que diz respeito às terminologias, Tillich, por exemplo, falando sobre a clássica diferenciação entre religião e revelação em sua Teologia Sistemática, afirma que toda revelação pressupõe um receptor. E, considerando não haver receptor “puro” (isto é, livre da influência de sua cultura e da ideologia), e consequentemente nenhuma forma de fé, interpretação ou verdade universalmente válida, a recepção em si já é uma religião. Assim, o que Tillich chama de “religião” seria o processo de recepção e, por conseguinte, de significação da revelação. Nesta acepção, não há revelação sem religião e todos os que vivem conforme a revelação de Deus poderiam ser considerados religiosos.

Então, para começo de conversa, precisamos tentar entender qual religião esse movimento atual quer de menos, e qual Jesus ele quer de mais, para poder avançar no debate, não acham? Arriscar-me-ei, então, no próximo post a expor algumas impressões mais particulares sobre o tema. 

Jonathan

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Hipocrisia, eu quero uma pra viver!

Hipocrisia: a arte de viver convincentemente uma mentira, sabendo que é uma mentira, mas fazendo os outros crerem que é uma verdade para você/eu, impostor, e para eles; só que enquanto a mentira se aplica frouxamente a você, os outros a carregam como um fardo pesado e, caso não despertem do sono escravizador, logo se acostumarão à mentira e perceberão que ela pode ser uma mentira-verdade, à medida que houver gente (e sempre haverá) que nela acredite e dela faça sua razão de viver.

A hipocrisia existe desde que o ser humano existe; se a associarmos, por exemplo, com seu irmão gêmeo, o cinismo, está aí desde quando Adão resolveu dizer pra Deus que a culpa de ter comido do fruto foi “da mulher que me deste”, ou quando a mulher replicou dizendo que culpada foi “a serpente que me seduziu”. A hipocrisia, assim, é um subterfúgio para lá de eficaz, pois o problema sempre é do outro, nunca é meu. “Eu estava no caminho certo e dele nunca saí, até que apareceu você”; ou “Estava tão bem lá em tal lugar, até que fulano me tirou de lá e agora está me usando e minha vida está arruinada”, são frases comuns, para um problema comum e mal tratado. Sobrinha do orgulho, a hipocrisia precisa do outro para existir, pois usa a comparação como defesa: “Não sou tão santo quanto é o João Beato, mas quase um anjo em relação à Maria da Perdição”.

A hipocrisia é covarde e superficial, porque marginaliza o que realmente importa e põe no centro o trivial e menos relevante. Confunde retidão com justiça própria e santidade com abstinência; faz dos sacrifícios e rituais o último bastião da espiritualidade, dissociando-a completamente da vida, da misericórdia e da sede por justiça. Afirma uma sede incontrolável por Deus e seus mandamentos, mas é incapaz de reconhecê-lo no próximo, no diferente, no samaritano à beira do caminho...

Não é novidade para ninguém que sistemas religiosos se alimentam da hipocrisia e não subsistem sem ela. Muitas igrejas têm sido – até que provem a si mesmas e ao mundo o contrário – ao invés de centros de misericórdia e compaixão e comunidades de reino, covis de hipocrisia, onde o livre pensar é reprimido (sobretudo em assuntos como sexualidade, por exemplo), e o discordar (mais ainda da liderança e da orientação doutrinária) é tratado como pecado. Exceções à regra (os remanescentes) existem, é claro, mas com a sina de ter que “nadar contra a maré”, caso não (ou até que) se deixem corromper pelo “se não pode vencê-los, junte-se a eles”.

A hipocrisia vai, dessa forma, recebendo outros nomes, e vai sendo ornamentada com vestes outras, mais sofisticadas quem sabe (embora não menos vorazes) e se torna peça indispensável ao bom funcionamento da engrenagem, mascarada pelo discurso de que assim estaremos “no centro da vontade de Deus”. Como corolário disso e de outras tendências já bastante enraizadas, como a privatização da espiritualidade e a religião de consumo, as pessoas vão à igreja apenas para nutrir o lado “lúdico” da fé, que congrega e agrega a massa dos que querem distância do conflito e que relega aos ditos apóstatas, hereges e perdidos o lado trágico (e sombrio) da existência.

A hipocrisia tenta eliminar o sofrimento a todo custo e promover uma espécie de narcótico gospel como sustentáculo para uma fé “que funciona”. Uma fé que desconhece a compaixão, porque só age para aliviar a dor; que tem desconfiança em relação ao mistério, ao desconhecido e às incertezas; que pensa que testemunhar é igual a fazer propaganda de sua fé, e se distancia da prática da justiça por estar tão ofuscada com as celebrações e homenagens, públicas e privadas, ao “seu Deus” – o “meu Deus isso”, o “meu Deus aquilo”. Essa fé é substrato da hipocrisia. Irracional e inconscientemente, muitas vezes, ela canta: “Hipocrisia, eu quero (eu preciso de) uma pra viver!”. Nos lugares onde ela é vivida, as palavras de Jesus – “Acautelai-vos do fermento dos fariseus!” – ecoam como gritos em uma terra de surdos. Porque acautelar-se, talvez, implique em passar pela via da admissão honesta de que, no fundo, todos (digo, os que nos servimos do sistema religiosos, ou os que se encontram, como eu, em processo de libertação de suas entranhas para reencontrar Jesus de um modo renovado) somos um pouco como os fariseus ou hipócritas – o que seria um total absurdo e falta de espiritualidade, para muitos. Se toda mulher é meio Leila Diniz, como diz a canção “Todas as mulheres” de Rita Lee, então (digo isso contra meu melhor senso) todo crente é meio hipócrita, até que prove o contrário lutando contra tal orientação.

E o que Deus pensa disso tudo? Nada temos acerca disso senão indícios ou ecos (pela Palavra) de um constante manifesto de repúdio divino contra a escolha de tantos em fazer do farisaísmo e da hipocrisia sua morada permanente. Nas palavras do profeta Amós, com as quais quero encerrar, essa repulsa fica mais do que escancarada.
Não suporto os encontros religiosos de vocês. Estou cheio dos seus congressos e convenções. Não me interessam seus projetos religiosos, seus lemas e alvos presunçosos. Estou enojado das suas estratégias para levantar fundos, das suas táticas de relações públicas e criação da própria imagem. Não suporto mais sua barulhenta música de culto ao ego. Quando foi a última vez que vocês cantaram para mim? Alguém aí sabe o que eu quero? Eu quero justiça – um mar de justiça. Eu quero integridade – rios de integridade. É isso que eu quero. Isso é tudo que eu quero. (Amós 5.21-24 – Da Bíblia “A Mensagem”, de Eugene Peterson)
A questão é: quem será o primeiro a ter coragem de vestir a carapuça? Quem ousará romper com as correntes (frouxas ou apertadas) da hipocrisia? Quem será capaz de avançar uma milha mais rumo a uma entrada (definitiva?) em um cristianismo não-religioso? Sei lá... Eu decidi tentar.
Jonathan

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Comunidade: lugar por excelência para a espiritualidade (2)


Segunda pergunta: quando e como passa a existir a comunidade?
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Existe comunidade quando sou convidado a partilhar a minha vida com outras pessoas, a partir do evento do Cristo Ressurreto. Eugene Peterson afirma que a ressurreição é ponto de partida da comunidade do Espírito Santo. A ressurreição e ascensão de Cristo ao Pai conduziram aquele grupo de discípulos à reunião em Jerusalém; e Lucas vai dizer que eles perseverarem unânimes em oração, com as mulheres e com os irmãos de Jesus (At 1.13-14).
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Após a descida do Espírito Santo, o discurso de Pedro e a conversão e batismo de milhares de pessoas, nós vemos agora uma comunidade do Espírito, também perseverando em oração, no ensino dos apóstolos e no partir do pão. A oração simboliza essa incessante busca comunitária pela vontade e presença de Deus; o ensino apostólico, representa o compromisso com a Palavra e com o crescimento na fé; e o partir do pão aponta para a comunhão com Cristo em comunidade. Logo, o relato de Atos prossegue dizendo que “todos os creram estavam juntos e tinham tudo em comum”; partilhavam seus bens e acolhiam aos necessitados; louvavam a Deus e contavam com a simpatia do povo. E, enquanto tudo isso ocorria, o Senhor acrescentava, dia a dia, os que iam sendo salvos (At 2.42-47, 4.32).
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Então, Peterson está certo. Todos estavam juntos porque algo os juntou, e este algo foi a ação do Espírito movida pela ressurreição do Senhor. Sem a ressurreição não há vida e nem esperança; pela ressurreição o Espírito passa atuar entre os discípulos, e cria a comunidade cristã. A comunhão, portanto, não é algo que se promove artificialmente, mas é fruto da ação do Espírito. E o louvor a Deus brota da mutualidade, o “nós” é mais importante que o “eu”, porque o “eu” não existe sem o “nós”. É um (lamentável) sinal dos tempos que hoje nos foquemos tanto no “eu” (individual) e menos no “nós” (coletivo); a igreja deixa de ser comunidade do espírito quando ela passa a existir para satisfazer uma “ditadura do eu”: eu sou abençoado, eu sou amado, eu sou próspero, eu fui chamado, o Senhor guia o meu ministério, Deus me cura, me salva, me liberta, me, me, me... Tá cansado? Então imagina Deus...
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A comunidade do Espírito e seus líderes em Atos não estão preocupados criando estratégias para fazer a igreja crescer. Mas ela crescia como nunca, em meio à completa ausência de qualquer plano pretensioso de crescimento. O crescimento se dá em um processo integral natural (usando aqui as categorias de Orlando Costas): quanto mais a comunidade perseverava e crescia na comunhão e no ensino (crescimento conceitual e orgânico), mais isto a impelia a se acercar e a acolher às necessidades do entorno (crescimento diaconal), e a contar com a simpatia do povo. E “enquanto tudo isso ocorria”, o Senhor acrescentava dia a dia mais pessoas à comunidade dos salvos (crescimento numérico).
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Então, quando vemos a explosão de crescimento na igreja evangélica hoje, devemos nos perguntar não tanto sobre métodos, estratégias ou números, mas no quê e no como está crescendo (qualidade). De nada adianta uma igreja grande no tamanho, mas pequena na maturidade cristã.
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Jonathan