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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Morte e vida, gêmeas siamesas


É necessário muito tempo para a gente aprender a viver. Porque somos lentos, frágeis e teimosos demais.

Ou simplesmente porque, repetindo o jargão, viver não é fácil – especialmente para gente tão complicada quanto eu.
Mas nem sempre temos esse tempo todo para aprender. 
Pois é necessário apenas um instante para que a vida seja ceifada, e com ela, os anseios de um hoje não vivido e de um amanhã melhor. 
É, o amanhã não existe mesmo. Tecnicamente, talvez, mas na prática nunca se sabe. Por isso eu nunca aposto no amanhã; aposto no hoje.
Pois, mesmo com o desejo de ter vivido mais, e mesmo sendo cedo demais para alguns, é possível partir com a certeza de que a vida que vivemos valeu à pena.
E, assim, a saudade pela partida, para quem fica, se torna menos carregada e a dor pode andar de mãos dadas com a gratidão – ao menos eu acho...
Você pode querer sublimar, fazer de conta, buscar consolos fáceis ou ilusões úteis que te façam esquecer da realidade e te projetar para outra, menos “real”, menos cruel...
Mas a realidade é uma só: a morte é um fato inescapável, e ela não tem preferidos.
Cedo ou tarde, ela virá. E “tudo o que era sólido se desmancha no ar” (Marx), ou melhor, na terra ou debaixo dela.
Só que Bauman nos disse que hoje, já, agora, o sólido tem virado líquido. Bem, mas não apenas de hoje...
Há milhares de anos, Eclesiastes já tinha dito que tudo é fumaça, que nada faz sentido. E eu acrescento: nada permanece!
Nada mesmo?
A única certeza que tenho é a do instante, e preciso fazer dele o melhor possível enquanto tenho oportunidades. Mas só o agora oferece oportunidades.
Posso morrer sem ter mudado muitas coisas na minha vida e no mundo a meu redor; mas quero morrer bem ciente de que tentei ao máximo. De que fiz o que pude. De que que arrisquei. De que me tornei disponível aos outros.
E, mais importante, de que amei. Do começo ao fim – permitam-me contradição – só o amor permanece.

Jonathan

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Fogueira das vaidades: um escrito impertinente

tudo-e-vaidade

Andam dizendo, e não é de hoje, que as redes sociais em geral, e especialmente o Facebook, são como “fogueiras de vaidades”. Não preciso discutir muito isso, pois é óbvio a qualquer observador/a um pouco mais atento/a. No entanto, na mesma medida em que precisamos ser recordados de certas obviedades, também precisamos aprender a desconfiar delas. A crítica é válida, mas deixa muitas perguntas honestas tais como: tem saída? É possível entrar nessa fogueira sem sair chamuscado? Quem é capaz de afirmar que sua auto-exposição nas redes, por mais contida que seja, não é fruto de vaidade? É menos vaidosa a pessoa que decide ficar de fora das redes apenas para dizer que não se rende “a esse tipo de modernidade” ou ao “universo virtual”, pois prefere as “relações reais”? Dizemos que “fulana é vaidosa”, “beltrano é narcisista”, “ciclana vive de ‘selfie’ em ‘selfie”, mas não percebemos nossa própria vaidade velada por trás até mesmo desse tipo de crítica.

Dias atrás fui “pego” (busted!) por um amigo enquanto criticava um religioso da cidade por aceitar o título de “cidadão honorário” da Câmara de Vereadores, dizendo a mim mesmo que profeta com honra não é uma coisa boa. Então esse amigo rebateu indagando: tudo bem, isso é um desses contrassensos cristãos que a gente vê todos os dias – esse camarada não é o primeiro, nem será o último –, mas será menos vaidoso/a aquele/a que porventura rejeita tal honraria, para depois contar às pessoas a respeito, que, por sua vez, dirão que ele é um autêntico crente e o aplaudirão por tal feito? Percebem a encruzilhada em que o “ser gente” e participar das coisas de gente nos coloca? De novo, há saída? Se há, certamente ela não é barata e nem fácil.

E mais, somos vaidosos até da manifestação da consciência de nossa própria vaidade e da de outras pessoas, pois, por temos a consciência ao nosso lado, fatalmente nos julgamos “mais nobres” que os outros, “espíritos livres”, como diria Nietzsche (também possuído por uma grande dose de vaidade). Como alguém, como ele, que julga ser um “espírito livre” pode ser livre? Livre de quê? Das obrigações sociais, talvez; da cobrança dos relacionamentos complicados, dos holofotes exigentes das corporações e instituições e das conhecidas opressões do “olho de Deus” expressas na religião, quem sabe. Mas de uma coisa, um simples fato da existência, esta pessoa não é livre: de si mesma. Ninguém é livre de si, e quanto mais arroga para si o fato de ser livre do devir e do dever de ser, mais escrava de si mesma ela se torna. Nunca houve expressão mais arguta e penetrante que do pregador de Eclesiastes: “Tudo é vaidade e correr atrás do vento”.

Sejamos honestos, todos gostamos e procuramos um público que nos adule, nos aplauda, reconheça e nos coloque para cima. Aturamos pouco as críticas duras, sinceras e verdadeiras. Não queremos conviver com quem é capaz de, num simples olhar, nos desmascarar. Precisamos de outra coisa, clamamos por apreciação, aceitação, controle. Nos derretemos facilmente com as curtidas, compartilhamentos e comentários que aqui e acolá pipocam em nossas “timelines”. Quem nunca escreveu nada pensando nisso? Quem nunca procurou algo polêmico, algo interessante, algo da moda, algo impactante e sensacional para compartilhar à espera de uma boa curtida? Será que somos tão bons, tão cândidos e tão originais para admitir que nada fazemos em prol de algo sem esperar nada em troca? E isso não é nenhuma demonização, é apenas uma “verdade sangrenta”.

No fim das contas, quem não se sabe ou não se vê assim, que atire a primeira pedra, pois minha vaidade está aqui, pronta pra “matar no peito” e sair jogando. Decidi cuidar de minha integridade, mesmo que isso me custe a tão valorizada reputação; não quero mais falar dos outros como se, na verdade, não estivesse olhando para o próprio espelho. Quanto mais reconheço que “nada do que é humano me é estranho”, que não há profanidade maior que a pachorra de a tudo declarar profano, mais próximo me vejo de Deus, da graça e de tudo o que é mais sagrado na vida.

Jonathan

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Perguntinhas despretensiosas…

Perguntinhas
Você já pensou o quanto de tempo gastamos buscando e esperando a aprovação alheia? Quantos de nossos esforços, alegrias, decepções, risos e lágrimas resultam das expectativas que colocamos sobre "o sim" ou "o não" alheio?

O quanto lutamos para sermos aceitos e, depois que somos, o que nos dispomos a fazer para manter viva a aceitação? Como sofremos quando alguém nos critica, difama ou deprecia, ou seja, como nos angustia essa tal de opinião que os outros têm da gente?

Quando foi que perdemos a "coragem de ser", sobre a qual falou Paul Tillich: de ser quem se é e de ser “como uma parte”, e de aceitar-se como se é mesmo sabendo da possibilidade de não ser aceito dessa forma? Será porque deixamos de ouvir a voz que nos chama de "filhos amados", ou porque sequer um dia a ouvimos e assim nos reconhecemos?

O que nos falta para que encontremos aquela liberdade interna, que nos liberta desse "eu" carente de aprovação externa, e que nos convida a manter acesa em nós a chama da integridade e o caminho para a autenticidade?

Como indaga o Teatro Mágico, pra onde foi a coragem do nosso coração? E como problematiza Jesus, de que vale ganhar o mundo inteiro e perder a própria alma? Ou (uma afirmação para variar) como diz Carlos Drummond, o mundo não vale o mundo, meu bem... ou será que vale?

Jonathan

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O mistério revelado da vontade divina

Wind-God-Tree

Ensina-me a fazer a tua vontade, pois tu és o meu Deus; que o teu bondoso Espírito me conduza por terreno plano (Salmos 143:10).

O que é a vontade de Deus? Como conhecê-la? O que fazer para cumpri-la? Esse é um mistério que tem permeado a vida de pessoas ao longo de milênios. O jeito com que se trata esse assunto é o que gostaria de refletir aqui.

Não há dúvida de que, ao lermos as Escrituras, encontramos o princípio de que viver bem, com temor e dignamente significa dispor a vida para andar conforme a vontade do Senhor. Converter-se a Cristo, em parte, também é isto: permitir que nossa vontade saia cada vez mais de cena, a fim de dar lugar a uma vontade maior e soberana: a de Deus. O ponto para mim, porém, é: se temos consciência, quando buscamos a vontade de Deus, do que envolve esse “andar conforme”.

O salmo (143) de Davi, humano, honesto e orgânico, servirá como ponto de partida aqui.

Antes de tudo, trata-se de uma oração, de uma súplica. Normalmente, nós suplicamos com mais força quando sofremos. E é o que está acontecendo com Davi. Diante dos muitos conflitos que enfrenta, apela para a justiça e fidelidade divinas [v. 3]. Mostra-se muito angustiado e com o coração aflito, “em pânico” [v. 4].

Costumo dizer que a angústia não pode ser desprezada, pois é uma das avenidas que nos conduzem aos braços de amor de Deus. Mas nem sempre conseguimos lidar com ela. Sentimos como se a angústia fosse um peso, uma ferida aberta, uma faca cravada no peito da gente. E muitas vezes ela tem a ver com frustração, com medo, com sentimento de rejeição e abandono, e com as incertezas.

Então, apressados pra sair dessa logo, suplicamos pra que Deus se apresse a nos responder, a dar um rumo definitivo. Mas descobrimos que na vida não há rumos definitivos – nem a morte, biblicamente falando, é um rumo definitivo.

E o mais duro golpe aos apressados é ter que lidar com as indefinições, incertezas e dúvidas que fazem parte da vida de qualquer pessoa comum. Dessa forma, a “vontade de Deus” vai se tornando a fórmula religiosa para expiar tudo o que é indesejável, como também para alimentar o que se deseja. Daí brota as distorções, tais como:

Prega-se que precisamos estar no “centro da vontade de Deus”...

Que cada detalhe da vida não pode fugir do plano de Deus para nós...

Que a vontade de Deus é isso, e não pode ser aquilo; se desastres acontecem, foi “da vontade de Deus”; se o avião não saiu do aeroporto, era propósito de Deus, porque certamente ele cairia; se perdi um emprego, foi Deus quem quis, pois estava preparando um ainda melhor pra mim, e por aí vai... Vontade privatizada!

A moça ora para que Deus envie o homem segundo a Sua vontade para ela casar – no mundo todo existe só um. Estatisticamente, ela terá que orar muito, mas muito!

Jovens aderem a movimentos de santidade que afirmam que “esperar” (pelo amor, pelo casamento, etc.) é “a vontade de Deus” pra vida deles...

Será que a gente não para pra pensar no Deus monstrengo e esquizofrênico que vamos desenhando com todo esse besteirol teológico? Nos efeitos disso aos “pequeninos”?

Então, só pra contrariar, eu resolvi criar outro movimento: o “Eu escolhi ir à luta”. É um movimento de gente crente e temente, sim, mas que tem consciência que “não adianta olhar para o céu com muita fé e pouca luta” (Gabriel O Pensador). Que quer estimular uma liberdade responsável, o risco da decisão, a busca da vontade divina pelo discernimento.

Essa é, para mim, a chave do Salmo 143: quando, do desespero, Davi pede que o Senhor o ajude quando tiver que escolher o caminho a se andar [v. 8]; quando roga para que o “ensine a fazer sua vontade” [v. 10]. A vontade é de Deus, mas a escolha é nossa. E Deus só pode ensinar sua vontade a quem quer aprender, quem se lança na aventura de aprender, pois é vivendo [errando e acertando, sofrendo e mudando] que se aprende...

Por isso discernir é preciso! O salmista [119:27] também ora: “Faze-me discernir o propósito dos teus preceitos, então meditarei nas tuas maravilhas”. Na tradução A mensagem: “Ajuda-me a entender estas coisas de dentro pra fora”. A Palavra Divina!

Portanto, posso concluir que a vontade de Deus não se mostra instantaneamente; a vontade de Deus se experimenta e se pondera, pela renovação da mente [Rm 12.2]. Como eu entendo a vontade de Deus? Como um mistério revelado que só se entende e se experimenta na medida em que se caminha e em que se vai à luta.

O que eu quero dizer se traduz perfeitamente na música do Teatro Mágico, que diz:

Milagres acontecem quando a gente vai à luta!

Minha proposta aqui é muito simples: vamos à luta sem medo do que vamos encontrar, se derrota ou vitória, se sucesso ou fracasso. Pois Deus tem cuidado e cuidará de nós por onde formos; se nos desviarmos e, de coração, quisermos mudar a rota, Ele mesmo nos ajudará a colocar de novo nosso vagão nos trilhos de sua vontade. Que haja esperança!

Jonathan

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Seres do desconhecimento

All the same
O tempo e as variadas situações vão revelando o ser e a disposição de cada pessoa, escondidos muitas vezes por trás de uma redoma muito frágil de proteção. Não me esqueço da pergunta central do filme "Crash, no limite": Você acha que se conhece? No que a dor, o apuro, a pressão, a doença, a perda, o poder, o sexo, o dinheiro, o moralismo, a violência, a raiva, o descontrole, e as paixões como um todo podem nos transformar? A calmaria, o grito de paz (onde não há paz), a prosperidade e a felicidade não duram para sempre. E quando elas passam o que é que sobra da gente? Para onde vão nossa coragem e nossa integridade?

Não parece ser à toa que a máxima de Friedrich Nietzsche no prefácio à Genealogia da Moral continua sendo útil. Dizia ele que "nós, homens do conhecimento, não nos conhecemos; de nós mesmos somos desconhecidos. Nunca nos procuramos: como poderia acontecer que um dia nos encontrássemos?".

Inocente, ignorante ou mal-intencionada (ao menos momentaneamente) é a pessoa que se lança precipitadamente na tentativa de se definir como isto ou aquilo; como "bom", "mal", "gentil", "covarde", "gênio", "incompetente", "boa esposa", "bom pai", "filho irrepreensível", "imprestável", "generoso", "político honesto", "cristão exemplar". Bem diz a sabedoria de Eclesiastes: "Todavia, não há um só justo na terra, ninguém que pratique o bem e nunca peque" (Ec 7.20). Quão tola não é a pretensão à indefectibilidade? Quão destrutiva não é a autocomiseração ou o sentimento de que ninguém te ama, de que você não presta para nada, de que tudo o que faz não serve, não dá certo; ou pior, de que sua índole é essencialmente má e nada pode ser feito sobre isso?

Como seres tão complexos como somos podemos nos deixar reduzir a tão pouco, e por tão pouco? Como podemos passar tanto tempo na casa da mentira e da ilusão, respirando o ar carregado da falsidade? Como podemos vender tão facilmente nossa integridade por causa de um nome, de uma posição, de uma ostentação, de uma reputação? Não é à toa que rimos alto e nos divertimos ao som de uma boa música, regada de companhias furtivas e muito álcool, num momento, e noutro, quase que paralelo, precisamos nos entupir de Lexotan e Rivotril pra sobreviver àquele dia e no dia seguinte começar tudo outra vez. De fato, mergulhamos nesse mar sem fim do desconhecimento, com grande risco de jamais nos encontrarmos.

Ser feliz, ter sucesso, prazer, bem-estar e qualidade de vida em tudo é bom demais, é o que todo mundo quer e isto não é mal em si. A questão está no preço que pagamos para entrar nesse universo. Quanto vale a felicidade? Qual é o preço do bem-estar? Se o alto custo for negar a própria vida, suas idiossincrasias e paradoxos; abandonar-se no desconhecimento, ignorando a aventura que é o aprender a viver pra saber viver bem e o autoconhecimento; se para isso o outro, o próximo tiver de se tornar, para mim, não mais que instrumento útil ou pedra de tropeço, preferirei e escolherei, conscientemente, não querer ser feliz – pelo menos não nesses moldes.

A consciência pode ser uma doença, como diz Miguel de Unamuno; mas entre a consciência que me aprofunda na realidade, e a feliz e consentida ignorância, que me aliena dela, ainda fico com a primeira. E me recuso a reduzir a mim e aos outros a rótulos fáceis, baratos e que desmancham no ar. Afinal, quem sabe o dia de amanhã? Quem conhece a própria reação ao próximo ato, à circunstância seguinte? Quem pode prefigurar o rosto que terá de enfrentar na próxima vez em que se vir diante de um espelho?

Jonathan

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Deus continua fora do acampamento

Caos Urbano - por Glauber Shimabukuro

“Assim, Jesus sofreu fora das portas da cidade, para santificar o povo por meio do seu sangue” [Hebreus 13.12].

Ainda me lembro daquele slogan de campanha publicitária, que dizia "A vida é lá fora" [Life is out there]. Quando o vi pela primeira vez, confesso que fiquei pensando sobre o quão parcial essa declaração é. Quero dizer, a vida não é apenas pública – o que acontece lá fora – mas ela é muito privada – o que se passa dentro dos recintos, dos abrigos, das casas, dos acampamentos. Assim, uma vida que fosse apenas lá fora, talvez fosse muito para nós, afinal, a gente tem que viver lá fora, mas com a certeza de que temos um refúgio seguro e aconchegante no fim de cada santo dia.

Por outro lado, a ideia de que "a vida é lá fora" é um imperativo, um convite, para dizer que há muito mais para se ver, viver e experimentar além de nosso mundinho particular e privado. Assim é a vida para muita gente, uma dinâmica entre a reserva e a exploração, entre a reclusão e a dispersão.

Quando olho para Jesus, porém, lembro-me que sua vida, mesmo a privada, se deu fora dos portões. Ele não tinha morada própria, nem onde reclinar a cabeça. Ele vivia e peregrinava, de cidade em cidade, ao relento. Dependia, assim, da graça do Pai e dos favores das pessoas de bem. Sua vida sempre foi entrega, mais que recebimento; sua missão vinha dos céus, do Pai, mas seu palco era o mundo. Da Galiléia a Jerusalém, de Jerusalém a Samaria, até os confins da terra. Portanto, para Jesus, a vida era (e continua sendo) lá fora, no espaço em que se plasmam os dramas individuais com os coletivos, sem que, por isso, se perca de vista o particular, o caso a caso, a singularidade das pessoas e dos acontecimentos. A vida se dá lá fora, mas se dá de um jeito muito pobre se o olhar for duro e técnico, e não sensível e humano, como o de Jesus.

O que significa dizer que Jesus “sofreu fora da porta”? Em Hebreus, isso implica em pensar que esse mundo que se vive e que se vê “de dentro” (da sinagoga, do tabernáculo, do templo ou do acampamento) não era primordialmente o mundo de Jesus, nem é o de Deus. Jesus viveu fora da porta, ofereceu boas notícias (evangelho) ao mundo, e, exatamente pela natureza pública de seus atos, particulares ou coletivos, é que ele foi perseguido, torturado e morto fora dos portões, num ato coletivo e público de escárnio. A cruz é o símbolo desse abuso do mundo em relação a Jesus. A morte foi uma cerimônia pública; a ressurreição, por sua vez, não. Ela não foi para causar estrondo, nem provocar histeria ou catarse coletivas; ela se manifestou no secreto apenas àqueles/as que, pela fé e pelo testemunho prático, deveriam anunciar ao mundo que Ele ressurgiu, que a vida vence a morte, e que aqui não é o fim do “Fim”.

Por isso a igreja, que se chama de Jesus Cristo, deve viver também nessa dinâmica da dispersão e da inserção no mundo, de modo que, mesmo quando experimenta a reclusão, esta precisa ser uma reclusão aberta, convidativa, solidária, amorosa, calorosa, demasiadamente humana. Essa é a igreja que vive a anunciar a presença de Deus na vida humana e terrena, fora dos acampamentos, habitando em meio do caos do mundo, não para dissolvê-lo, mas para conferir um sentido à existência que há nele; não para julgá-lo, mas para reconciliar-se com ele. O convite é, portanto, para que saiamos do acampamento, onde a ação e Verbo de Deus estão, sem reivindicar privilégios, mas partilhando do insulto, do ultraje e do abuso de Jesus (Hb 12.13), tendo o mundo como arena, mas não como cidade permanente. E, enquanto buscamos a que há de vir, abraçamos a vida na que aqui vivemos na esperança de que aquela eterna cidade, possa ser vista cada vez mais no meio desta, onde a vida acontece, onde somos vocacionados a ser gente.

Jonathan

[Ilustração: “Caos urbano”, por Glauber Shimabukuro].

domingo, 13 de outubro de 2013

Sexualidade e espiritualidade: uma fusão libertadora (Parte I)

Erotismo-arte

Antes de tudo, começo dizendo que espiritualidade, para mim, tem a ver com um modo de ser, pensar e agir daquele ser que nasceu de novo, nasceu do Espírito, e agora é “espírito” (ser novo vivente). Isto não significa que se desencarnou ou desumanizou. Pelo contrário, ele/a se re-humanizou no Espírito, nasceu de novo, é novo humano. Jesus, em seu diálogo com o fariseu Nicodemos no Evangelho de João, disse que: “A não ser que alguém se submeta a essa criação original, a criação na qual ‘o vento pairava por sobre as águas’, o invisível movendo o visível, um batismo para a nova vida, não lhe será possível entrar no reino de Deus”, e que “a pessoa que tem um nascimento interior é formada por algo que você não pode ver nem tocar – o Espírito – e se torna espírito vivo” (Jo 3.5, 6 – Tradução A Mensagem).

No começo de toda vida espiritual, portanto, está a experiência de criação de um novo ser pelo Espírito, ser este que não mais se rende à sua própria vontade, mas à vontade do Pai, revelada em sua Palavra e encarnada na Pessoa de Jesus Cristo.

Na prática, porém, “espiritualidade” é um tema muito mal-elaborado e também muito mal-compreendido. Nossa forma de compreender e elaborar nossas “espiritualidades” é marcadamente cultural. E nossa matriz cultural de concepção da espiritualidade ainda, salvo exceções, é platônica e dualista. O platonismo (ou o neoplatonismo) fez um grande estrago na visão (teológica) cristã (o que inclui a espiritualidade); isto, pois negou a corporalidade (como dimensão essencial humana), a materialidade, nos afastando desse mundo para um plano ideal, transcendente ou futuro. A inevitável associação da palavra com um mundo à parte, para o qual migramos, de tempos em tempos, em busca de enlevo e paz na alma, fez com que essa espiritualidade perdesse qualquer contato mais significativo com a situação vivida. Daí provém muitas das críticas a alguns modelos de espiritualidade como sendo “alienantes”, “desencarnados”, sem repercussão na vida e sem conexão com a missão. Daí a necessidade de superar nossos dualismos e esquizofrenias platonizantes.

Essa superação, porém, segundo certa interpretação, seria algo improvável, pois o próprio Paulo havia gerado um dualismo permanente à fé. Há uma confusão, nesse caso, entre dualidade e dualismo. Dualidade é a convivência inevitável entre dois elementos distintos, dois modos de existência ou orientação da vida – como o de Carne e de Espírito. O dualismo, aqui entendido, indica uma polarização entre dois elementos – bem e mal, matéria e alma, o que gera uma esquizofrenia, pois a pessoa vive no corpo, mas é ensinada que mais importante é a alma; seu ser é corporal, mas o espiritual pertence à dimensão do transcendente, onde somente o espírito ou a alma são elevados. Ao corpo é relegado o status de habitat do pecado – especialmente os ligados à luxúria.

O equívoco desta percepção está não apenas de subtrair a materialidade da espiritualidade, mas em atribuir responsabilidade pelo pecado – ou a lei que habita em nossos membros, como diria Paulo (Rm 7) – somente à corporalidade. É um equívoco pois o entendimento paulino de carne provavelmente advém da compreensão do AT, que engloba o ser humano como um todo-indivisível. Segundo José Comblin, em Paulo “carne” não significa apenas o corpo como que distinto da alma, mas “o homem todo na sua fraqueza, mortalidade, tentação de pecado. Assim, a carne está mais no intelecto e na vontade que na matéria”.[1] Ser “carne” e ser “espírito”, nesse aspecto, são modos coexistentes, embora distintos, de vida. O primeiro é o modo de quem busca suficiência em si, e o segundo que encontra a suficiência em Cristo.

Como esclarece Gottfried Brakemeier,

Se o ser humano, à parte da fé, é integralmente carnal, com inclusão de seu espírito, o corpo já não mais pode ser o exclusivo culpado do pecado. Não se pode incriminá-lo de segurar a pessoa nas esferas inferiores do pecado e de impedir a ascensão a Deus. O pecado é ‘ato coletivo’ de todas as faculdades humanas, com destaque à vontade, ao coração, ao espírito.[2]

Jeremias (capítulo 17) foi quem disse que o pecado de Judá estava gravado no coração com ponta de diamante. A palavra aqui usada diz respeito a uma ofensa, não verbal, mas “gravada” no coração (centro da vontade e decisão do ser). Tem uma dimensão espiritual, mas aqui é identificado com coisas muito concretas no povo de Israel (idolatria, injustiça, impiedade). Como se Deus estivesse dizendo: “Para onde você vai, olha ou toca, fica ali um rastro do teu pecado. Se as tuas ações não o refletem, seu coração já o faz”. Então isso afeta a integralidade de nosso ser; não somente uma parte ou área da vida, como os dualistas insistem em querer nos fazer crer. Como ressalta Comblin, “no evangelho cristão tudo no homem é corporal, tudo é espiritual, tudo é alma. Não há nada fora do corpo. Pois o espírito está também no corpo, ele é o corpo humano como orientado sob a moção de Deus”.[3]

Ouvimos de alguns que não se pode nem “humanizar”, nem “espiritualizar” as coisas – cacoetes do discurso evangélico que denotam nossa compreensão média de espiritualidade, ainda dualista, pois separa o humano do espiritual e o espiritual do humano – o mesmo se poderia dizer da santidade. Mas quem é o santo? Não é um anjo ou ser espiritual ou elevado que se desumanizou. Antes, é um ser humano que encarnou a vida de Deus, e que tornou concreta a obediência ao Deus da vida. Então, sem novidades nisso, nossa espiritualidade continua desprezando a imanência e estigmatizando o corpo – embora toda a eletricidade, as fortes emoções, as fruições e pirações espirituais ela sinta no corpo. Os desejos, os ímpetos e as paixões, porém, prosseguem debaixo de muita desconfiança.

(Continua…)

Jonathan

Referências bibliográficas


[1] COMBLIN, José. Antropologia cristã. 2ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1990, p. 77.
[2] BRAKEMEIER, Gottfried. O ser humano em busca de identidade. Contribuições para uma antropologia teológica. São Leopoldo: Sinodal; São Paulo: Paulus, 2002, p. 118.
[3] COMBLIN, OP. Cit., p. 77.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

As palavras e o silêncio

Emudecer-se, calar-se... deixar que as vozes de dentro não se misturem e não se confundam às demais vozes e aos muitos ruídos do cotidiano. Até porque, quando elas se misturam demais (e esse é o risco o tempo todo), podem não passar de meros... ruídos!

Zacarias, marido de Isabel e pai de João Batista, ficou forçosamente mudo por certo tempo. Seu ceticismo o incapacitou de enxergar a boa nova saltitante ao seu redor como gazela no cio; as vozes de sua descrença e de seu materialismo, por um momento, falaram mais alto que as da esperança, e precisaram ser caladas para que, quem sabe, esta última pudesse, de novo, ter alguma voz e no ser fazer morada.

Eis a magia de seu período de silêncio: quando enfim ele voltou a falar, com o nascimento de seu filho João, seus lábios proferiram beleza, exultação no espírito, louvor, sabedoria... Palavras cheias da graça e do poder de Deus. Palavras que acertaram o alvo, o mote, a base de tudo: a vida!

Tenho a impressão de que quanto mais nossas palavras nascem da agitação, mais elas tendem a falhar na pontaria, a se perder no meio de outras, e não produzir nada além de ruídos, barulho que ensurdece os ouvidos e não toca o coração, a não ser para machucar. Quando, porém, se fazem filhas do silêncio, da escuta atenta, da revisão, da reflexão e da oração (mesmo sem discurso), as palavras não são simplesmente jogadas ao vento, mas são simbióticas, misturam-se com a vida, produzem vida.

Honestamente, amigos e amigas, sinto que preciso também, como Zacarias, me calar por um tempo, ou antes que o tempo não me silencie de vez e nada mais possa ser dito, para o bem ou para o mal. Sim, pois a palavra humana é encharcada da ambiguidade e do paradoxo próprios de ser humano, que todos reconhecemos de pronto quando olhamos direta e crucialmente para dentro. Por essa razão, seu encontro com a Palavra de Deus é um milagre, quando há lastro a ser preenchido pelo Espírito, razão pela qual precisamos do silêncio como lugar de visitação perene, pois, no silêncio nossa palavras podem engravidar do Espírito e, pelo Espírito, ser gerada com, e para gerar, vida.

Espero, assim, no silêncio reencontrar sentido e razão próprios ao meu falar, já gasto e enfraquecido, em parte pela agitação e em arte pela descrença, para não residir permanentemente na casa do descrédito. Pois tenho aprendido que o falar, por si só, é um ato vazio; que quem muito fala, como diria minha avó, corre o risco de “falar pelos cotovelos”, ou seja, de falar e não dizer coisa alguma. A palavra certa no tempo certo, contudo, “é como a jóia feita por encomenda” (Pv 25.11): pode ser recebida como dádiva, e repartida com gratidão.

(Imagem: "The sounds of silence", by Skierscott)

Jonathan

quinta-feira, 21 de março de 2013

Religião: integridade ou hipocrisia? (Parte 2)

Livro_de_Eli

A religião e a falta de compromisso com a vida

Essa é uma das obras-primas da religião: podemos passar anos na “casa de Deus” (o templo confundido com “a Igreja”), servindo, trazendo dízimos, ofertando sacrifícios e, ainda assim, nunca ter tido fome e sede de Deus, como diz o Salmista: “Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te busco intensamente; a minha alma tem sede de ti! Todo o meu ser anseia por ti, numa terra seca, exausta e sem água” (Sl 63.1). Tenho a impressão de que talvez a religião produza mais ateístas, na prática, que o próprio ateísmo.

Nesta forma de religião não há compromisso real com a vida, nem no sentido de vivência do que se prega, nem no sentido de amor à vida. Isto, pois o viver (a vida) está associado com o buscar a Deus: “Busquem-me e vivam”, afirma ele, separando isto da religião por eles praticada: “Não façam a tolice de perder seu tempo viajando para Gilgal nem se empenhem em descer até Berseba. Gilgal está aqui hoje, mas amanhã não existirá. E Betel é só teatro, não tem substância” (5.4-5 – TAM).

O amor ao princípio, muitas vezes, nos faz perder de vista a vivência do próprio princípio. A verdade que interessa é somente a verdade agradável, e não a verdade “nua e crua”, como diz Amós (5.10-12).

Há um tempo assisti ao filme O Livro de Eli. Achei interessante a sua crítica, sobretudo aquela dirigida a alguns fundamentalismos religiosos de nosso tempo. Uma das frases marcantes do filme é quando Eli, personagem do protagonista Denzel Washington, afirma: “Todos esses anos que eu o levava e o lia, diariamente, na minha obsessão por mantê-lo a salvo, deixei de viver segundo o que aprendi nele”.

É impressionante como essa frase representa bem o que se tem vivido em termos de história das religiões, dentre elas o cristianismo, até os dias de hoje. Ou seja, quando nos tornamos paladinos cegos de um livro sagrado (no caso do filme, a Bíblia), incorporamos a posição dos fundamentalistas radicais e tendemos a perder de vista a integridade que o próprio livro nos ensina – no caso de Eli, o ensino fundamental esquecido foi: considerar o próximo antes e acima de si mesmo. Isso no conduz ao ponto de partida (não da religião), mas da relação com Deus (que Israel havia perdido de vista): considerar antes e em primeiro lugar o outro (próximo), e só assim estarei mais perto do Outro (Deus).

(Continua…)

Jonathan