Mostrando postagens com marcador Sexualidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sexualidade. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Sexualidade e espiritualidade: uma fusão libertadora (Parte Final)

sex-spirituality 3

As considerações até aqui feitas são óbvias, básicas e elementares ao pensamento cristão sobre o tema. Mas o óbvio e o básico há muito têm sido negados na prática histórica das igrejas. Penso que o sexo foi criado por Deus para ser benção. E ser benção implica ser concebido num contexto de amor e responsabilidade, afinal de contas “tornar-se uma só carne” não é algo banal, embora em nosso mundo tenha se tornado. O que me encabula demais é que a igreja transformou a sexualidade em sua “pedra de toque”; ela tem as interpretações corretas e as vias certas a se seguir. Nada pode sair desse eixo, muito menos cabe questionamento. E assim, vamos transformando em maldição aquilo que Deus declarou como sendo benção. Cortamos as verdades de Deus do tamanho de nossa mente teológica auto-suficiente e assim perdemos a dimensão de honestidade intelectual, que deveria ser tão cara a qualquer cristão. Tão focados nos costumes e nos dogmas, nos omitimos de nos acercar da realidade e respondê-la com relevância.

Não deveríamos, por exemplo, ser cínicos ao ponto de ficar dizendo “sexo é bom”, do nosso confortável mundo matrimonial, e olhar para os jovens e dizer “mas você não pode, viu”. É como colocar um pote de sorvete, com tudo o que se tem direito, em frente a uma criança, dizer “hum, está muito gostoso”, para em seguida afirmar: “Ah, mas você não pode, porque ainda não tem idade pra comer essas coisas”. É torturante, desonesto e uma negação da vida. Diálogos honestos e conscientes, tanto da realidade, quanto da complexidade que envolve o tema, são necessários. Falar do tema de uma maneira verdadeiramente humana, como diz Kierkegaard, é necessário.

Mas, para falar de maneira humana, é preciso amar e aceitar a humana condição – onde vige tanto a luz quanto as trevas, tanto a porção simbólica quanto a porção diabólica. Pois, como lembra Galilea, o que não pode ser assumido não pode ser redimido. Cristo assumiu nossa condição para, só então, poder redimi-la. E é precisamente aqui que, de acordo com Galilea, reside a originalidade e autenticidade da espiritualidade cristã:

Em que seguimos um Deus um Deus que assumiu a condição humana, que teve uma história como a nossa, que viveu nossas experiências, que fez opções, que se entregou a uma causa, pela qual sofreu, experimentou êxitos, alegrias e fracassos, pela qual entregou sua vida, esse homem, Jesus de Nazaré, igual a nós menos no pecado, no qual habitava a plenitude de Deus, é o modelo de nosso seguimento.[1]

Abraçar nossa condição é uma forma de humanização da espiritualidade cristã, pois nela somos convocados a assumir jubilosamente quem somos, como e para quê fomos criados, reconhecendo também o desvio em que vige a fraqueza e a deficiência que nos são inerentes. Uma humanidade mais divina (espiritual) e mais humana ao mesmo tempo é aquela que não teme suas obvias deficiências, mas as reconhece; é aquela em que a vacância ou o esvaziamento de poder (humano) é um convite ao poder divino e a um divino caminhar, em que não apenas trilhamos por caminhos, mas criamos caminhos onde já não há mais caminho. E esta é uma atitude tremendamente libertadora, pois abandonamos o controle, a ânsia por poder e por dominação, para encontrar o livre caminho do amor. Outra vez cito Galilea: “Nós nos humanizamos na medida em que deixamos que Deus seja Deus, amor gratuito, não passível de manipulação e, por isso mesmo, capaz de deixar o homem ser plenamente homem, também livre e não passível de manipulação”.[2]

Finalmente, andar com Deus é o modo mais eficaz e sublime de se humanizar e de se obter dignidade humana. Pois não são nossos recursos, trabalho e inteligência, ou nossas identidades periféricas e de gueto (ser evangélico, ser negro, ser gay, etc.) que nos “dignificam”, mas é a graça que nos dignifica e que dá sentido à vida. De igual modo, o espírito de gratidão e de gratuidade nos dignifica, à medida que representam a admissão de que fora de Deus não temos mais que uma mera ilusão de realização, enquanto em Deus nos realizamos em simplesmente sermos aceitos como seus filhos e filhas. É na obtenção dessa dignidade em especial que nos capacita para, e legitima a, luta pela dignidade de nossos irmãos e irmãs de caminhada na vida, como um processo recebido, gestado e orientado em e para Deus e sua justiça, vontade e glória.

Jonathan

Referências bibliográficas


[1] GALILEA, Segundo. Seguir a Cristo. 2ª ed. São Paulo: Paulinas, 1979, p. 23.
[2] GALILEA, Segundo. O caminho da espiritualidade. São Paulo: Paulinas, 1983, p. 195.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Sexualidade e espiritualidade: uma fusão libertadora (Parte II)

sex-spirituality 2

Resulta da desconfiança mencionada ao final do primeiro post, que a sensualidade só é licita no universo das sensações espirituais, mas não no da sexualidade. Neste ínterim, a espiritualidade não pode se desenvolver na mesma casa em que dormita a sexualidade, por isso ou transportamos a espiritualidade para outro lugar – se no corpo ou fora do corpo, Deus o sabe – ou fazemos de tudo para manter adormecidos os estímulos à sexualidade, tentando anulá-la no ser. Temos, assim, de um lado, uma sexualidade desespiritualizada (neologismo) e uma espiritualidade assexuada e, como tal, desencarnada. O problema disso tudo é, de novo, que continuamos criando gente mais esquizofrênica, doente e mal resolvida, com rostos envernizados num ambiente altamente hipócrita de negação, culpa, sublimação e vigilância. E as pessoas vão fingindo que são felizes com seus casamentos sexualmente mornos, com seus namoros monitorados (até certo ponto), com suas escapadas culposas, e com a sua escolha por “esperar” o momento certo e o príncipe ou princesa encantados que Deus reservou, dentre tantos/as pretendentes no mundo, exclusivamente para elas.

Uma espiritualidade sadia, porém, começa com o entendimento de que o maior pecado talvez seja o de desnaturalizar, segmentar, segregar ou esquartejar aquilo que o Criador fez para que se mantivesse unido e declarou como sendo bom e natural. Nossa mentalidade religiosa ou teológica é tão viciada nos preconceitos culturais que somos capazes de aconselhar a pessoa (ou digamos, um casal) para que ore à beira da cama antes do coito nupcial, mas torcemos o nariz e somos moralmente judiciosos quando alguém narra a história de outro alguém que se sentiu excitado (com “tesão”) na igreja durante o louvor ou a pregação, por uma palavra um um apelo mais sensual. Isso é esquizofrenia hipócrita e desumanizante, caros/as companheiros/as!

No livro Deus e sexo (2011), Rob Bell propõe uma síntese interessante sobre a interação entre espiritualidade e sexualidade. Quando levamos em consideração a indivisibilidade prática – e menos a divisibilidade teológico-doutrinaria – do ser humano, torna-se natural e obvia esta conexão, pois elas estão juntas, queiramos ou não. Então, pensar teologicamente, agir pastoralmente e viver integramente a partir de tal junção torna-se um meio de corrigir rotas esquizofrênicas.

Primeiro, porque as histórias da Bíblia convergem para a “conexão”, de um Deus que a todo o momento deseja relacionar-se com seu povo e sua criação, mas cuja intenção nem sempre é genuinamente correspondida. Isso, devido aos muitos obstáculos criados pelo ser humano, que o conduziram ora a um relacionamento superficial com Deus, de barganha, legalismo e expectativas, ora a uma rejeição prática, à medida que se assentiu ao convite tentador da serpente para ser “como Deus”, declarando, assim, sua (nossa) independência.

Segundo, porque as pessoas de nosso tempo estão cada vez mais “antenadas” a tudo que acontece ao seu redor, e cada vez menos capazes de contrair experiências duradouras e profundas, vivendo, portanto, uma história sem raízes, relacionamentos descartáveis, vidas que não se conectam a outras vidas, e cujo sentido é, na realidade, um não-sentido, uma vez que tudo passa a girar em torno do “sentir”. Fez sentido?

A posição de Bell, todavia, é suficientemente clara: você pode, de diferentes maneiras (e o sexo é uma delas), “estar” com um número variado de pessoas e não permanecer conectado a nenhuma; de igual modo, pode-se ter uma gama apreciável de performances rituais e “espirituais” para Deus ou até gabaritar na prova de conhecimentos bíblicos, sabendo a Bíblia “de cabo à rabo”, e não saber absolutamente nada sobre Deus, visto que Deus é amor, e está muito mais interessado na intensidade de nosso amor que na quantidade de nosso conhecimento, sendo o verdadeiro saber – dádiva Divina – qualidade inerente daquele que ama, conforme Deus ama (ágape).

E o amor pressupõe conexão e profundidade. E o sexo com amor é o prazer que conecta, liberta e completa os amantes para serem um do outro e um para o outro. Não foi assim que Deus designou no princípio? Da costela do homem, Deus havia criado a mulher. Eles não apenas tinham a mesma natureza (húmus – pó – humano), mas haviam sido criados para viver em permanente conexão entre si, e com seu Criador. “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne” (Gn 2.24). Uma só carne, ser, família, corpo, alma e espírito, indivisíveis!

O sexo é uma dessas bonitas e benditas expressões da sexualidade. Duas pessoas diferentes e especiais se unem; seus corpos se tocam, se interpenetram; de duas carnes, uma só se faz. E a conexão não está apenas nos corpos que se juntam, mas nas almas que se encontram (onde está o corpo está a alma). Assim, pode-se dizer como a mulher no Cântico dos Cânticos: “Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu”. E assim se completa o desejo do Senhor: pela realização do ser humano, como mais fina expressão de seu amor e presença Nele e com Ele. Logo, esse amor não pode ser algo abstrato ou virtual, como um beijo que se manda pelo Skype, ou uma mensagem pelo Facebook. Mas é a presença de Deus reverberando em nós, através de relacionamentos vivos e reais entre pessoas de carne e osso; é o Deus-concoso-aqui-já-sempre.

O pecado, portanto, não habita na sexualidade ou no sexo em si, nem em nada que lhe diga respeito. Ele habita, sim, no ser indivisível. Enquanto o ser estiver corrompido, todas as suas relações também estarão. O amor, por sua vez, é o “vínculo da perfeição”, como diria João. Onde houver amor, haverá o sólido convite e possibilidade para que vivamos a plenitude de Deus com alegria, gozo e liberdade, como expressa a célebre frase de Agostinho: “Ame e faze o que quiseres”. Sem amor nada somos e tudo o que fazemos torna-se sem sentido, parte de uma precária provisoriedade.

(Continua…)

Jonathan

domingo, 13 de outubro de 2013

Sexualidade e espiritualidade: uma fusão libertadora (Parte I)

Erotismo-arte

Antes de tudo, começo dizendo que espiritualidade, para mim, tem a ver com um modo de ser, pensar e agir daquele ser que nasceu de novo, nasceu do Espírito, e agora é “espírito” (ser novo vivente). Isto não significa que se desencarnou ou desumanizou. Pelo contrário, ele/a se re-humanizou no Espírito, nasceu de novo, é novo humano. Jesus, em seu diálogo com o fariseu Nicodemos no Evangelho de João, disse que: “A não ser que alguém se submeta a essa criação original, a criação na qual ‘o vento pairava por sobre as águas’, o invisível movendo o visível, um batismo para a nova vida, não lhe será possível entrar no reino de Deus”, e que “a pessoa que tem um nascimento interior é formada por algo que você não pode ver nem tocar – o Espírito – e se torna espírito vivo” (Jo 3.5, 6 – Tradução A Mensagem).

No começo de toda vida espiritual, portanto, está a experiência de criação de um novo ser pelo Espírito, ser este que não mais se rende à sua própria vontade, mas à vontade do Pai, revelada em sua Palavra e encarnada na Pessoa de Jesus Cristo.

Na prática, porém, “espiritualidade” é um tema muito mal-elaborado e também muito mal-compreendido. Nossa forma de compreender e elaborar nossas “espiritualidades” é marcadamente cultural. E nossa matriz cultural de concepção da espiritualidade ainda, salvo exceções, é platônica e dualista. O platonismo (ou o neoplatonismo) fez um grande estrago na visão (teológica) cristã (o que inclui a espiritualidade); isto, pois negou a corporalidade (como dimensão essencial humana), a materialidade, nos afastando desse mundo para um plano ideal, transcendente ou futuro. A inevitável associação da palavra com um mundo à parte, para o qual migramos, de tempos em tempos, em busca de enlevo e paz na alma, fez com que essa espiritualidade perdesse qualquer contato mais significativo com a situação vivida. Daí provém muitas das críticas a alguns modelos de espiritualidade como sendo “alienantes”, “desencarnados”, sem repercussão na vida e sem conexão com a missão. Daí a necessidade de superar nossos dualismos e esquizofrenias platonizantes.

Essa superação, porém, segundo certa interpretação, seria algo improvável, pois o próprio Paulo havia gerado um dualismo permanente à fé. Há uma confusão, nesse caso, entre dualidade e dualismo. Dualidade é a convivência inevitável entre dois elementos distintos, dois modos de existência ou orientação da vida – como o de Carne e de Espírito. O dualismo, aqui entendido, indica uma polarização entre dois elementos – bem e mal, matéria e alma, o que gera uma esquizofrenia, pois a pessoa vive no corpo, mas é ensinada que mais importante é a alma; seu ser é corporal, mas o espiritual pertence à dimensão do transcendente, onde somente o espírito ou a alma são elevados. Ao corpo é relegado o status de habitat do pecado – especialmente os ligados à luxúria.

O equívoco desta percepção está não apenas de subtrair a materialidade da espiritualidade, mas em atribuir responsabilidade pelo pecado – ou a lei que habita em nossos membros, como diria Paulo (Rm 7) – somente à corporalidade. É um equívoco pois o entendimento paulino de carne provavelmente advém da compreensão do AT, que engloba o ser humano como um todo-indivisível. Segundo José Comblin, em Paulo “carne” não significa apenas o corpo como que distinto da alma, mas “o homem todo na sua fraqueza, mortalidade, tentação de pecado. Assim, a carne está mais no intelecto e na vontade que na matéria”.[1] Ser “carne” e ser “espírito”, nesse aspecto, são modos coexistentes, embora distintos, de vida. O primeiro é o modo de quem busca suficiência em si, e o segundo que encontra a suficiência em Cristo.

Como esclarece Gottfried Brakemeier,

Se o ser humano, à parte da fé, é integralmente carnal, com inclusão de seu espírito, o corpo já não mais pode ser o exclusivo culpado do pecado. Não se pode incriminá-lo de segurar a pessoa nas esferas inferiores do pecado e de impedir a ascensão a Deus. O pecado é ‘ato coletivo’ de todas as faculdades humanas, com destaque à vontade, ao coração, ao espírito.[2]

Jeremias (capítulo 17) foi quem disse que o pecado de Judá estava gravado no coração com ponta de diamante. A palavra aqui usada diz respeito a uma ofensa, não verbal, mas “gravada” no coração (centro da vontade e decisão do ser). Tem uma dimensão espiritual, mas aqui é identificado com coisas muito concretas no povo de Israel (idolatria, injustiça, impiedade). Como se Deus estivesse dizendo: “Para onde você vai, olha ou toca, fica ali um rastro do teu pecado. Se as tuas ações não o refletem, seu coração já o faz”. Então isso afeta a integralidade de nosso ser; não somente uma parte ou área da vida, como os dualistas insistem em querer nos fazer crer. Como ressalta Comblin, “no evangelho cristão tudo no homem é corporal, tudo é espiritual, tudo é alma. Não há nada fora do corpo. Pois o espírito está também no corpo, ele é o corpo humano como orientado sob a moção de Deus”.[3]

Ouvimos de alguns que não se pode nem “humanizar”, nem “espiritualizar” as coisas – cacoetes do discurso evangélico que denotam nossa compreensão média de espiritualidade, ainda dualista, pois separa o humano do espiritual e o espiritual do humano – o mesmo se poderia dizer da santidade. Mas quem é o santo? Não é um anjo ou ser espiritual ou elevado que se desumanizou. Antes, é um ser humano que encarnou a vida de Deus, e que tornou concreta a obediência ao Deus da vida. Então, sem novidades nisso, nossa espiritualidade continua desprezando a imanência e estigmatizando o corpo – embora toda a eletricidade, as fortes emoções, as fruições e pirações espirituais ela sinta no corpo. Os desejos, os ímpetos e as paixões, porém, prosseguem debaixo de muita desconfiança.

(Continua…)

Jonathan

Referências bibliográficas


[1] COMBLIN, José. Antropologia cristã. 2ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1990, p. 77.
[2] BRAKEMEIER, Gottfried. O ser humano em busca de identidade. Contribuições para uma antropologia teológica. São Leopoldo: Sinodal; São Paulo: Paulus, 2002, p. 118.
[3] COMBLIN, OP. Cit., p. 77.

domingo, 11 de agosto de 2013

Carta a um jovem casal sexualmente ativo


Nosso mundo (sobretudo o cristão) ainda está permeado pela pretensiosa assunção de que casais de namorados cristãos das igrejas (ou sem-igreja), necessariamente, não são sexualmente ativos. Sim, a castidade continua sendo o ideal quando se fala de namoro cristão ainda em nossos dias. Nenhum problema com tal opção legítima, diga-se de passagem; o problema é reivindicá-la não como opção, facultativa a consciência e variável nível de maturidade de cada pessoa e de cada casal, mas como uma regra universal, um imperativo categórico (usando aqui o termo de Kant), como se pureza e a santidade de um namoro pudessem apenas ser avaliadas (embora eu pense que isso não se avalia) pela ausência da dimensão erótica. Tem-se preferido, assim, ignorar que boa parte dos casais de namorados hoje não vive de acordo com tal imperativo, consciente e saudavelmente, ou clandestina e culposamente.

As exigências da igreja com relação à sexualidade há um bom tempo têm sido hipócritas, presunçosas e legalistas, tudo em nome de uma idolatria biblicista travestida de fidelidade à Bíblia. Ignora-se, como lembra Robinson Cavalcanti, que “a Bíblia não é uma enciclopédia de prescrições para cada detalhe da vida do homem”.[1] O que ela nos oferece, em muitos casos, como o do sexo pré-matrimonial, por exemplo, ou são orientações para casos muito específicos e histórica e culturalmente situados ou princípios relacionais mais gerais fundamentados no amor a Deus, à própria vida e ao próximo.

O pior de tudo é que esse imperativo, como vocês já devem ter notado, é excludente, ou seja, ninguém, sendo cristã(o), em hipótese alguma poderia viver um tipo de namoro em que o sexo esteja presente, com sanidade e santidade. E não tem havido suficiente abertura para quem quer discutir ou para quem pensa diferente. E qual a razão para isso? A razão é a de sempre: porque o sexo, fora do casamento, é pecado e isto está “muito claro” na bíblia. Assim como eu, talvez vocês já tenham parado intrigados diante de tamanha certeza, e pensado: ou eu li a bíblia muito pouco ou li muito mal, pois onde é que nela se fala com tanta clareza assim sobre esse assunto e de modo tão categórico para que muitos cristãos – sobretudo os evangelicais – tenham propagado por tanto tempo isso como sendo verdade absoluta para todas as pessoas a despeito de qual seja o caso? Ora, que “chavão textual” meus possíveis críticos estarão pensando trazer à baila neste momento? A questão da fornicação? Que nosso corpo é templo do Espírito? O relato do casamento (“tornar-se uma só carne”) segundo Gênesis? A questão da santidade e da pureza? Textos sobre luxúria, lascívia, os desejos impuros, a prostituição? Bem, a lista pode ser grande e nem me preocuparei aqui em ser exaustivo quanto às referências, acho que vocês entenderam meu ponto, por isso vou direto a ele.

Não estou dizendo que estes preceitos não existem nem que não sejam válidos, mas sim que faltam discernimento e honestidade intelectual no momento em que os aplicamos, muitas vezes (senão na maioria delas) fora seu devido contexto. Parece que o bom senso e a criatividade são elementos cada vez mais deixados de fora de nossa leitura bíblica. No fim das contas, fica a impressão de que aquilo que os evangelicais sempre disseram ser o seu “lado forte”, isto é, seu zelo em relação às Escrituras, pode ser também seu lado fraco. Sobretudo, quando não percebem que a forma mais infantil de idolatria é aquela em que nos aferramos demais a uma coisa e perdemos nosso senso de independência e criticidade em nossa relação com ela. E é assim que muitos dos que com certa jactância se proclamam crentes bíblicos tratam a Bíblia: como um objeto de veneração, que acaba anulando a reverência à Palavra Divina, empobrecendo e enclausurando-a em seus preceitos humanos (demasiadamente humanos?).

Citarei o caso mais comum, apenas como ilustração, de uma das práticas não recomendadas na Bíblia chamada fornicação. Quando se pensa em “sexo fora do casamento”, por exemplo, é o primeiro princípio que aparece em muita das formas de argumentação contrária à “prática” – como se sua aplicabilidade fosse universal neste caso. O sentido bíblico da palavra “fornicação”, segundo Robinson Cavalcanti, é “relacionamento fortuito, descomprometido, sem envolvimento afetivo”.[2] É o típico sexo pelo sexo, casual, sem conexão, sem grande consideração pela pessoa com quem se faz sexo. Não quer dizer que todo sexo feito fora do contexto do matrimônio seja fornicação, e nem que todos aqueles que o praticam se encaixam na categoria de “fornicadores”. Mas acabam entrando na vala comum porque é mais fácil pensar a Bíblia como um manual de boa conduta, com regras específicas para tudo o que consideramos como má conduta, que como a Palavra de Deus que, em si, é um convite a uma obediência com discernimento e boa consciência diante de cada situação vivida.

Uma das interpretações mais honestas que já li a respeito do relacionamento sexual num contexto de namoro, envolvimento e comprometimento, vinda de um cristão, foi escrita por Robinson Cavalcanti, se não me engano em 1985. Segundo ele, nessas condições:

Supõe-se que a intimidade cresça à medida que crescem: a) os sentimentos; b) o conhecimento mútuo; c) o compromisso; d) a aproximação do vínculo matrimonial, formal ou informal. Sendo o bom relacionamento sexual uma das condições para o sucesso conjugal, algum indicador deve ser inferido ainda nesse período preparatório. Se a virgindade de ambos os sexos é um alvo ético cristão, a socialização dos custos sexuais (todo o mundo assumindo o ônus) é um mal menor do que a dicotomia virgindade de algumas vs. prostituição de outras, com umas “pagando a conta” das outras. (...) O que não se pode exigir das pessoas realmente comprometidas e que se amam, sob constrangedora tensão sexual, é que simplesmente “deixem para depois”, quando uma vez formados e com um bom emprego, montarem um belo apartamento, comprarem um carro etc. Enquanto isso...[3].

Meu objetivo particular com esta carta, porém, não é nem o de esvaziar o sentido e poder do pecado no ser – coisa impossível – nem banalizar o ato sexual, que é um dom divino, mas que pensemos juntos nas implicações de uma vida sexual ativa entre namorados, pressupondo que essa ou já é a realidade de vocês ou quem sabe esteja em iminência de ser. Parto aqui do pressuposto de que podemos falar, sim, em um namoro ou noivado com sexo que não seja meramente fornicatório, mas em que haja amor, compromisso e envolvimento afetivo cada vez mais cheio de sentido e em processo de amadurecimento para uma vida conjugal duradoura, isto é, um casamento. Corro aqui o risco de levar muitas pedradas, mas é o preço da honestidade e de não mais estar disposto a esse jogo de faz de contas que há muito grassa em nosso meio, ou seja, faz de conta que eu não sei que vocês transam e vocês fazem de conta que seguem a lei da abstinência pré-matrimonial. É preciso dar um basta nessa hipocrisia, mesmo que como gritos que serão ouvidos por poucos e execrados por muitos (estou me sentindo a própria bruxa de Salém agora).

Pois bem, nos foquemos menos no mundo externo, e mais no mundo interno de vocês. Quando decidiram dar esse passo importante no relacionamento – se é que isso partiu de uma decisão pensada e não apenas apaixonada (sem julgamentos aqui) – devem ter pensado na grandeza, beleza e também responsabilidade desse ato, imagino eu. Senão, creio que vale a pena pensar. Quer dizer, embora sejamos feitos de carne, ossos, nosso corpo tenha uma forma, tenhamos impulsos, desejo, e atração sexual, não estamos falando de pedaços de carne em atrito e fricção em busca de prazer pura e simplesmente, mas nos referimos a duas pessoas, que têm sentimentos, que sofrem, que choram, se emocionam, se fragilizam quando se decepcionam, quando amam, quando se machucam. Sim, uma relação em que o que rola vai muito além de sexo, tudo isso está envolvido. Vocês já pensaram que numa relação sexual podem não ser apenas os corpos que se tocam, mas nosso ser por inteiro? E, por mais que achemos que pelo desempenho, pela plasticidade do ato e a capacidade de dar e receber prazer, estamos no controle da situação, isso é ledo engano. Porque, como já disse, queiramos ou não, há sempre mais elementos envolvidos, ninguém manda completamente em si, controla seus sentimentos por inteiro, tampouco os do outro. É por isso que, mesmo os casos em que ambos têm um acordo de apenas se usar e se curtir mutuamente, não há garantias de que, no final, ninguém sairá machucado. Afinal, posso ter tratado minha parceira como mero “pedaço de carne” alguma vez na vida, mas quando sou tratado assim o sentido é outro, e mesmo o combinado pode sair caro nessas horas. 

Mas, imagino também que tenham decidido ter relações sexuais porque se amam, porque o sexo é um complemento essencial do amor de vocês, e porque queriam ser “plenos” um no outro – estou sendo assertivo ou muito idealista? De qualquer modo, quando a gente quer algo assim, deve ser porque queremos (mesmo que inconscientemente) algo que dure a vida toda, ainda que isso seja relativamente muito tempo, dê muito trabalho, e esteja fora do alcance de nossos olhos e mente. O futuro, como se diz, a Deus pertence. A questão é que podemos decidir o que fazer com nosso presente, que pode ser um presente ou um tormento, depende de nós na maioria das vezes. Creio que Deus nos dá o poder de escolher com quem e de que jeito vamos nos relacionar, e assim abençoa nossas escolhas, se elas honram e dignificam a Deus, ao amante, à vida. A felicidade, se ela existe mesmo, é um bem que só se goza com intensidade quando partilhada.

Não pensem, portanto, que estou lhes escrevendo apenas para dizer que está tudo certo. Escrevo para dizer que está nas mãos de vocês o querer fazer certo, fazer bem, fazer com amor, fazer durar o relacionamento enquanto se é vivo, e isso também é dádiva divina. Porque o sexo pode ser muito prazeroso quando é só sexo, mas é muito melhor quando existe cumplicidade, quando o que existe é para durar, é para fazer sentido, é para gerar e inspirar vida. Espero que vocês entendam bem a profundidade disso, que o sexo pode ser instrumento de amor e vida, como de poder, competitividade e mera vaidade. É assim que acontece com todo grande poder.

Para nos ajudar, Jesus fez uma comparação interessante acerca disso em uma de suas parábolas: “A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido” (Lc 12.47b, NVI). Em outra tradução (A Mensagem) se diz: “Grandes dádivas implicam em grandes responsabilidades; quanto maior a dádiva, maiores serão as responsabilidades”. E não é essa a frase que o tio Ben do Peter Parker disse para ele no primeiro filme do Homem-Aranha? “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”... O que isso implica? Implica que Deus nos chama por amor, por amor nos sustenta, e o maior poder de todos que nos oferece é o amor, sem o qual os demais “poderes”, incluso o sexo, podem gerar destruição e não vida. Isto, pois em essência o amor é um poder subversivo, uma vez que nos tira do controle, nos deixa vulneráveis e deixa o outro livre – não usa, não abusa, não explora.

A beleza da criação divina é que o Criador nos dá a chance de escolher o que vai ser, de como faremos uso das coisas que Ele mesmo nos presenteou na vida, de gerar algo bom ou ruim daí, ainda que em nós o bom se misture com o pior muito facilmente. Mas Ele já disse que espera que optemos pela vida. E pergunto, no atual nível de relacionamento, envolvimento e mútua responsabilidade em que se encontram, o que significa entre vocês optar pela vida? O que vocês querem e esperam dessa relação? O quanto têm lutado para ter, por muito tempo, uma vida em comum? Porque é isso, a visceralidade da aliança entre vocês dois, que torna o sexo divinamente abençoado e humanamente significativo. Não só fonte de prazer, mas de vida abundante...

Jonathan

Notas

[1] CAVALCANTI, Robinson. Uma benção chamada sexo. 9ª ed. São Paulo: ABU Editora, 2005, p. 103.
[2] Ibid, p. 55.
[3] CAVALCANTI, Robinson. Libertação e sexualidade: instinto, cultura e revelação. 3ª ed. Campinas, SP: CEBEP; São Paulo: Temática Publicações, 2004, p. 60, 63.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Carta a um jovem masturbador


Caro poeta com as mãos,

Longe de mim está a pretensão de precisão e beleza de um Rilke, ao escrever-te esta carta. Para muitos, isso aqui será um ato meramente cômico; para outros, de transgressão. Mas, na multidão dos leitores interessados neste tema – sem revelar que o são, afinal, ele não traz nenhuma boa reputação – talvez encontremos um sujeito, espero, sobretudo, que sejas tu, para quem essas palavras façam alguma diferença.

Sim, camarada, nosso mundo é repleto de hipocrisia. A mais sórdida delas, se é que se pode estabelecer uma gradação neste caso, é aquela em que se aconselha ou repreende a alguém por ter feito algo que essa outra pessoa também já fez, às vezes com muito mais intensidade, mas fingindo nem sequer conhecer o que é na prática, tampouco admitir suas reais dificuldades nesta área. Sinto que você tem padecido basicamente de uma culpa que não é exclusivamente sua, um duplo fardo que está carregando pela excessiva falta de franqueza e solidariedade humanas por parte daqueles que o sobrecarregam com seus incautos preceitos.

Decidi escrever-te, enfim, meu conterrâneo dos impulsos, para ver se consigo te ajudar a desmistificar essas sombras moralizantes que têm assaltado sua consciência, também porque pouca gente até hoje teve coragem de te mandar um papo reto com honestidade. Mas não ligue pra eles, nem os condene; no fundo os algozes morais da religião e da sociedade também são de alguma forma vítimas devedoras de suas próprias condenações – afinal, não há quem julgue que não seja também julgado – foram ou são, portanto, apenas punheiteiros reprimidos.

Deixe-me te dizer uma coisa, que não sei se servirá de alento ou de ainda mais desespero: você não é o primeiro nem o último a sofrer esse tipo de “abuso” – que, obviamente, sempre virá travestido de “bom conselho”. Durante boa parte de minha adolescência ouvi inúmeras coisas sobre sexualidade em geral, e masturbação em particular, e preciso te dizer, a maioria delas foi inútil, fora da realidade e apenas gerou mais culpa. O pior de tudo era quando vinham recheadas de subterfúgios bíblicos, como a história de um camarada chamado Onã (Gn 38.8-10), que fora intimado por seu pai, Judá, a se deitar com sua cunhada Tamar, naquele momento viúva de seu irmão, o primogênito Er, para que o nome dele (do irmão) se perpetuasse na descendência. O problema é que o subversivo Onã arranjou um jeito de aproveitar do sexo com a cunhada sem gerar filho algum; falando o português popular, ele “tirou antes de gozar”. Pobre Onã, foi condenado só porque não quis fazer às vezes do irmão (imagine só, você fazendo um filho para perpetuar o nome de outro – coisas estranhas da cultura) e ainda teve que levar a fama de “inventor da masturbação”! Não preciso dizer que isso não passa de uma associação barata, mais uma forma tosca de encontrar “base bíblica” pra tudo. Enfim, quando vierem com esse papo de onanismo, você já conhece a história.

Mas não para por aí. Dizem também que masturbação é pecado porque, para conseguir o desempenho e o prazer desejados, precisamos imaginar o sexo com alguém. Veja só, meu caro, até nossos pensamentos querem vigiar, esses “big brothers” de hoje! E como queriam que você fizesse? Que pensasse nas Cataratas do Iguaçu enquanto se masturba? Ah, quem dera fosse possível expor os pensamentos e desejos mais profundos desses que tentam te oprimir, bem no instante em que o fazem! Não restaria palavra por palavra e o muro de Berlim de seu falso moralismo cairia sem precisar de muitas marretadas. Quem é capaz de suprimir ou controlar por completo seu mundo de desejos ou por onde sua mente vagueia que atire a primeira pedra! Ademais, os sonhos aí estão – e cada um sabe bem o que sonha, embora nem sempre o porquê – para mostrar o quão inútil é essa tentativa. Senão, pense comigo: você já deve ter escutado dos moralistas sexuais que a válvula de escape natural que Deus deu para que você se alivie sem precisar da “horrorosa punheta” é a chamada polução noturna, certo? O problema é que, via de regra, esse mecanismo natural precisa de um estímulo, que acontece enquanto dormimos e geralmente vem do próprio sonho. Então que nos digam os carapálidas politicamente corretos: que tipo de sonho seria esse? Sonho com uma borboleta pousando numa flor em um jardim? E que controle tem essa pessoa sobre esse sonho? Certamente haverá alguém para defender que somos inocentes enquanto dormimos. Isso porque são santas demais para ler a opinião de um profano chamado Freud, que afirmou, dentre outras tantas coisas, que sonhos são liberações fantasiosas de desejos reprimidos.

Dessa maneira, assim como eu, você também deve ter percebido o quanto de esquizofrenia e doença há nessa moral religiosa. Mas não se espante tanto, coisa muito pior tem por debaixo desses densos lençóis cobertos de brancura. Talvez seja porque certo dia a humanidade lhes foi roubada e, desde então, quem sabe em busca da sobrevivência em função da humanidade perdida, tais pessoas tornaram-se práticos ladrões de humanidade. Contudo, uma palavra de esperança a você, caro amigo, ainda é possível. E ela é: você pode resistir a este nefasto assalto a sua humanidade, e essa capacidade é dom oferecido pelo Deus de vida e liberdade, e não de morte!

Se ainda posso lhe dar uma dica simples (porque lição, só Deus e a vida é quem dão), aí vai: desencane! Não vale à pena entrar nessa “pilha” que os apologistas do politicamente correto no campo da sexualidade têm tentado colocar sobre você. Até porque, no fundo, nem eles sabem o que dizem e a extensão do mal que causam em pessoas antes saudáveis. Quer saber o que eu penso? Se Deus nos fez sexuados para que, na prática, fugíssemos de nossa sexualidade como o Diabo da cruz, esse Deus só pode ser sádico ou um louco. Então, não tenha vergonha de sentir o que sente, porque é natural e o Criador disse que era bom no começo. Tenho a impressão de que quanto mais tranquilos tentamos ser em relação a nossos ímpetos, quanto mais tirarmos o ar de “proibido” da libido, menos fissurados e tiranizados seremos pelos nossos desejos, até porque somos animais, mas não necessariamente irracionais.

Antes de tudo, dê um voto de confiança a si mesmo, pois é isso que estou tentando fazer agora, ou seja, falando de uma liberdade rumando à maturidade. Assim, tente desenvolver hábitos de vida física, mental e espiritual, no sentido mais abrangente e integral, que te permitam curtir a vida, a si mesmo e seus relacionamentos sem neuroses, nem ter que abusar nem extrapolar os seus limites e os do outro, porque o gozo e o prazer ilimitados também são uma forma doentia e autodestrutiva de se relacionar com a vida. E evite essas competições pessoais masturbatórias (por mais curiosas e às vezes divertidas que possam parecer), pois o prazer é bom, mas sete vezes ao dia não tem nada de perfeito. Torna-se desgosto, desgaste, enfado, e não foi pra isso que Deus criou nossa sexualidade. Imagine você almoçando e, ao se deleitar tanto nesse almoço, resolve então repetir mais umas seis vezes, o que acontecerá? Agora, quer pagar pra ver? O corpo, a consciência e a vida são seus, meu camarada, só fique atento para o que eles te dizem, o que nem sempre é: “Vamos lá, mais uminha hoje”.

Jonathan

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Da manipulação à falta de discernimento

Photomanipulation-Self-Portrait-08A essa altura do campeonato muita gente já deve ter assistido e já deve estar familiarizada com o vídeo-denúncia em que a advogada-pastora, Damares Alves (sobre quem eu nunca havia ouvido falar antes), trata sobre supostos “escândalos sexuais” (que estariam acontecendo e por se agravar, envolvendo sobretudo pedofilia e homossexualismo) de aliciamento infantil nas escolas públicas, por meio de materiais (cartilhas, livros, etc.), de suposta iniciativa e autoria do governo federal. Recentemente, também saiu uma analise detalhada do conteúdo do vídeo, escrita por Magali Cunha (ambas, a fala de Alves e a resposta de Cunha, podem ser vistas aqui).

Após ter visto e lido ambas, resolvi compartilhar (o link acima, do site Genizah) em minha ‘timeline’ do Facebook, com a seguinte descrição: Cansado dessas teoriazinhas de conspiração evangélica de plantão. Bora enfrentar a realidade com coragem e discernimento, minha gente! Como, todos sabemos, esta é uma questão candente e como muitos já haviam de antemão endossado quase que 100% da fala e do tom da advogada-pastora, recebi algumas boas reações. Boas, digo, porque, em se tratando do clima de hostilidade que cerca a questão no Brasil poderia ser ruim. Assim, resolvi compilar aqui, tanto algumas das reações (devido ao espaço), como minhas respostas a elas.

Janderson Resende: Com todo respeito, meu professor. Acho mesmo que os evangélicos sempre se acham como vitima. Mas tem muita "merda" com os póliticos brasileiros que só querem ferrar com os evangéicos.

Resposta: Caro Janderson, de fato, tem muita "merda" de todos os lados, isso é inegável, pois não existe "pureza" na política, nem em Brasília, nos movimentos em prol disso ou daquilo, ou nas cúpulas eclesiásticas. Por isso discernir é preciso, como entendo que muitos não o fizeram diante desse vídeo e de outras coisas que orbitam pela web sobre esse mesmo assunto. Reconhecer a farsa dos políticos ou da mídia em relação aos evangélicos, outros grupos religiosos e outras partes da população é uma coisa; transformar isso em uma onda gigante de conspiração contra a família e os "bons princípios" é outra bem diferente. Há muitos exageros de todos os lados. E a prudência e o bom senso sempre devem nos levar a desconfiar de exageros, mesmo que neles haja algum fundo de realidade.

Diogo Magalhães: Se é pra exercitar o discernimento, lá vai então. Pergunto: qual é a vinculação política da Dra. Magali do Nascimento Cunha? E da Revista Genizah? Ambos são adeptos da neutralidade epistemológica, ideológica e religiosa? Cremos na objetividade ou na objetivação? Se a Dra. Damares acreditou na ingenuidade do povo evangélico brasileiro, parece-me que estes também são partidários dessa mesma crença! Ou então, todos são manipuladores! A palavra da "doutora" aqui também é apresentada com ares de "verdade"! Se é pra sermos críticos, que sejamos com tudo e com todos! Exercitemos a "dúvida metódica" e que nos "provem" a verdade! Chega de manipulação e de sofismas vindos da direita, da esquerda, "de baixo, de cima, de fora e de dentro"!

Resposta: Caro Diogo, concordo com você que o Genizah apresentou o discurso da Magali com "ares de verdade", e verdade quase absoluta eu diria. Como para mim é ponto pacífico que não existe "Verdade", senão "verdades" no nível proposicional de nossas falas, científicas ou não, não compartilho com essa tendência reacionária do Genizah de trazer a coisa para o nível da "refutação". Prefiro o diálogo. Minha intenção foi apenas compartilhar o texto da Magali que, a meu ver, tem a pretensão de mostrar a ausência clara de fundamentação presente no discurso de Damaris, e a manipulação ideológica que isto pode ocultar. A mim soou mesmo como teoriazinha (e muito barata) de conspiração, e ainda fico pasmo (embora não deveria) como nós somos crédulos diante das primeiras informações com tom sensacionalista que se nos apresentam. E veja: a própria Damaris disse, com todas as palavras que, por falta de melhor recurso, ela estava trazendo tudo aquilo com o propósito de chocar mesmo, a fim de que nós, "evangélicos", acordemos e façamos alguma coisa. O problema, assim, para mim é duplo: a leviandade da advogada-pastora, em montar um dossiê furado em termos de informações para defender a tese de que o governo está tentando implantar a devassidão e imoralidade à todo custo em nossas crianças (evangélicas, é claro!); e, mais que isso, me incomoda que, outra vez, a razão de tanta indignação venha da área da sexualidade, e endossando outra vez um moralismo despolitizado, desinformado e ultrapassado. Tenho a impressão de que nos cercamos de todas as razões (e ai de mim se disser que não!) para nos preocupar com a situação moral de nosso país. Mas se alguém vem e começa a falar de luta contra injustiça, corrupção, falsidade ideológica, abuso de poder (inclusive eclesiástico), necessidade de melhores políticas públicas para toda a população, contra os usos e abusos da propriedade privada, pela reforma agrária, em favor do meio ambiente, etc., o interesse já não é o mesmo, e essa pessoa ainda pode ser chamada de "de esquerda", socialista ou comunista. Sinceramente, essa luta monolítica é cansativa, pelo menos para mim. Agora, quanto a ideologia dos manifestantes - Genizah, Magali, etc. - não sei exatamente qual é, mas sem dúvida são falas ideológicas. Aliás, não há fala, por mais "objetiva" que pretenda ser, que seja livre de ideologias. Viver, como diria Robinson Cavalcanti, é tomar partido. E que, de novo, tenhamos coragem e discernimento no momento de tomarmos os nossos.

Diogo Magalhães: O que me deixou irritado no discurso da interlocutora foi o tom tão ideológico e dissimuladamente político apresentado, escondido por detrás de um discurso "científico", já que a Genizah fez questão de apresentar o currículo acadêmico da doutora e esconder o currículo ideológico da mesma e seus possíveis vínculos políticos. Se a assessora parlamentar foi tendenciosa em sua apresentação, a doutora foi tanto quanto ela, enfocando apenas alguns elementos do discurso, mas tentando desconstruir a totalidade do mesmo.

José Idamar Evangelista: Mas a coisa junto as massas só funciona assim, na base do panico... Só sei que a tempos eu nao via alguem defender aquilo que crê com tanta coragem e determinação, diferente do muito que a gente tem visto nos ultimos dias... Se existe oportunismo ou interesses secundários, nao sei... Mas de vez em quando é bom ver alguem derrubando as mesas e espantando os vendilhões...

Resposta: O que me encabula não é tanto a perspectiva ideológica ou interesses secundários - sobre isso, por enquanto podemos fazer apostas apenas, de ambos os lados. O problema é que a assessora parlamentar faz muita generalização, atira pra todo lado, e compromete muito a credibilidade de seu discurso. Precisamos aprender a dar o peso devido às coisas e esse vídeo não contribui pra isso a meu ver; serve mais pra alarmar, criar terror e menos pra fazer refletir ou esclarecer. Isso sem falar na homofobia evidente em suas declarações, que pode combinar com parte dos evangélicos, mas não com o evangelho de Jesus. Coragem e determinação sem o tempero da sabedoria e do discernimento não produz muita coisa além de barulho, confusão e rebeldia sem causa. O que afinal esse vídeo vai ajudar a mobilizar? Religiosos enfurecidos para que o estado proteja seus filhos e não os exponham à devassa moral da sociedade? Ótimo, contribuem muito para a cidadania com isso! Por que não aproveitam e exigem logo que a educação volte a ser confessional ou que implante cartilhas de escola dominical ou catequese? Só não poderá ser sobre sexualidade, pois nas igrejas não se fala nisso a não ser judiciosamente, isto é, em termos proibitivos e condenatórios. Mas muitos se esquecem de que seus filhos não precisam sair do conforto e da suposta fortaleza de seus lares para terem acesso a tudo isso e muito mais, ou que nem os pais, nem os líderes das comunidades que eles frequentam, têm se disposto a discutir os assuntos ora condenados com abertura, inteligência e embasamento. Não me espantaria se esses mesmos manifestantes em favor "da família" e dos "bons costumes" se juntassem à luta pela diminuição da maioridade penal - em nome de um "deus justo" -, mas nem de perto se preocupassem com uma educação de qualidade ou aumento salarial dos professores - a classe trabalhadora a quem eles terceirizam a educação dos filhos deles - ou com denunciar os abusos de poder (incluindo assédio moral) nas instituições, incluso as eclesiásticas, que eles aplaudem com tanto entusiasmo, etc. Enfim, assim prosseguimos com nossa ética seletiva, coando mosquitos, engolindo camelos e infantilizando mais ainda nosso povo. A pergunta é: até quando?

Jonathan