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segunda-feira, 19 de maio de 2014

Deus continua fora do acampamento

Caos Urbano - por Glauber Shimabukuro

“Assim, Jesus sofreu fora das portas da cidade, para santificar o povo por meio do seu sangue” [Hebreus 13.12].

Ainda me lembro daquele slogan de campanha publicitária, que dizia "A vida é lá fora" [Life is out there]. Quando o vi pela primeira vez, confesso que fiquei pensando sobre o quão parcial essa declaração é. Quero dizer, a vida não é apenas pública – o que acontece lá fora – mas ela é muito privada – o que se passa dentro dos recintos, dos abrigos, das casas, dos acampamentos. Assim, uma vida que fosse apenas lá fora, talvez fosse muito para nós, afinal, a gente tem que viver lá fora, mas com a certeza de que temos um refúgio seguro e aconchegante no fim de cada santo dia.

Por outro lado, a ideia de que "a vida é lá fora" é um imperativo, um convite, para dizer que há muito mais para se ver, viver e experimentar além de nosso mundinho particular e privado. Assim é a vida para muita gente, uma dinâmica entre a reserva e a exploração, entre a reclusão e a dispersão.

Quando olho para Jesus, porém, lembro-me que sua vida, mesmo a privada, se deu fora dos portões. Ele não tinha morada própria, nem onde reclinar a cabeça. Ele vivia e peregrinava, de cidade em cidade, ao relento. Dependia, assim, da graça do Pai e dos favores das pessoas de bem. Sua vida sempre foi entrega, mais que recebimento; sua missão vinha dos céus, do Pai, mas seu palco era o mundo. Da Galiléia a Jerusalém, de Jerusalém a Samaria, até os confins da terra. Portanto, para Jesus, a vida era (e continua sendo) lá fora, no espaço em que se plasmam os dramas individuais com os coletivos, sem que, por isso, se perca de vista o particular, o caso a caso, a singularidade das pessoas e dos acontecimentos. A vida se dá lá fora, mas se dá de um jeito muito pobre se o olhar for duro e técnico, e não sensível e humano, como o de Jesus.

O que significa dizer que Jesus “sofreu fora da porta”? Em Hebreus, isso implica em pensar que esse mundo que se vive e que se vê “de dentro” (da sinagoga, do tabernáculo, do templo ou do acampamento) não era primordialmente o mundo de Jesus, nem é o de Deus. Jesus viveu fora da porta, ofereceu boas notícias (evangelho) ao mundo, e, exatamente pela natureza pública de seus atos, particulares ou coletivos, é que ele foi perseguido, torturado e morto fora dos portões, num ato coletivo e público de escárnio. A cruz é o símbolo desse abuso do mundo em relação a Jesus. A morte foi uma cerimônia pública; a ressurreição, por sua vez, não. Ela não foi para causar estrondo, nem provocar histeria ou catarse coletivas; ela se manifestou no secreto apenas àqueles/as que, pela fé e pelo testemunho prático, deveriam anunciar ao mundo que Ele ressurgiu, que a vida vence a morte, e que aqui não é o fim do “Fim”.

Por isso a igreja, que se chama de Jesus Cristo, deve viver também nessa dinâmica da dispersão e da inserção no mundo, de modo que, mesmo quando experimenta a reclusão, esta precisa ser uma reclusão aberta, convidativa, solidária, amorosa, calorosa, demasiadamente humana. Essa é a igreja que vive a anunciar a presença de Deus na vida humana e terrena, fora dos acampamentos, habitando em meio do caos do mundo, não para dissolvê-lo, mas para conferir um sentido à existência que há nele; não para julgá-lo, mas para reconciliar-se com ele. O convite é, portanto, para que saiamos do acampamento, onde a ação e Verbo de Deus estão, sem reivindicar privilégios, mas partilhando do insulto, do ultraje e do abuso de Jesus (Hb 12.13), tendo o mundo como arena, mas não como cidade permanente. E, enquanto buscamos a que há de vir, abraçamos a vida na que aqui vivemos na esperança de que aquela eterna cidade, possa ser vista cada vez mais no meio desta, onde a vida acontece, onde somos vocacionados a ser gente.

Jonathan

[Ilustração: “Caos urbano”, por Glauber Shimabukuro].

terça-feira, 19 de junho de 2012

Não tenho vergonha de Jesus



E por que teria? Talvez porque o simples pronunciar desse nome já cause diferentes reações sociais, especialmente na cidade secularizada, onde o nome dele é tão usado, e às vezes com tanta banalidade, que já ficou desgastado. É como se cada vez que se pronunciasse “Jesus”, uma ideia esquisofrênica não diretamente associada ao Jesus dos evangelhos, mas ao Cristo vulgarizado do dia a dia, nos viesse à mente causando ligeiro desconforto. Será que as pessoas estão pensando que o Jesus sobre o qual falo é esse “Jesus genérico”? O que os diferencia?

Então percebo que meu incômodo é por causa do genérico, não do Cristo vivo. Mas será que tanta gente está tão envergonhada do genérico quanto eu me sinto? Quer dizer, o genérico é mais barato, manipulavel, fácil de comprar e propagar. Já o Jesus de Nazaré foi pregado numa cruz e o pessoal de hoje parece não querer se identificar com uma cruz, a não ser como credo e meio de salvação, e não como um caminho a se seguir. Apesar de tudo, o genérico sempre parece ser mais atraente...

Não tenho vergonha de Jesus... Vergonha tenho de seus detratores e caricaturistas. Tenho especial vergonha de mim mesmo, quando o Cristo que em mim transparece não passa de caricatura daquele que Paulo diz ser o “primogênito de toda criação” (Cl 1.15). Tenho vergonha de quando quando percebo que Jesus é mais objeto de minha fala do que visto em minha vida.

Não tenho vergonha de Jesus, mas tenho vergonha do que fizeram com o cristianismo. Transformaram-no em uma prateleira de ofertas das mais variadas possíveis, onde Jesus não passa apenas mais um artigo de decoração, que todo mundo quer ter em casa porque “é legal e faz bem”... Não me envergonho do Evangelho, como disse Paulo, porque é o poder de Deus alcançando não só o judeus, mas também gregos, mas me envergonho daquele “outro evangelho” e da “outra graça”, que são produto da adoração oferecida em altares de barganha religiosa. 

Não tenho vergonha de Jesus, especialmente porque ele é a expressão viva do amor de Deus pela humanidade, tendo ele mesmo encarnado, assumido forma e condição humanas e abraçado a vida na terra com tudo o que isso implica. Contudo, eu me envergonho do que fizeram com o Cristo ressurreto; tiraram dele a cruz e a coroa de espinhos, rejeitando todo o fracasso, dor e fragilidade por ele assumidos, e lhe deram uma coroa de rosas sem espinhos, celebrando uma vitória sem lutas, um sucesso sem falhas, e uma vida que tem ojeriza ao sofrimento . Esqueceram o sentido do que ele mesmo disse a Nicodemos em João 3: Quem nasce uma vez, morre duas, quem nasce duas, morre uma (releitura usada pela Aliança Bíblica do Brasil há certo tempo). Para não se envergonhar de e nem envergonhar a Jesus é preciso nascer de novo. 

Não tenho vergonha de Jesus, sobretudo, porque Ele escolheu dar o primeiro passo, me amando primeiro, não se envergonhando de mim. Mas como ele mesmo disse, se a gente se envergonhar dele ele também se envergonhará da gente diante do Pai; mas se o confessarmos diante dos homens, Ele também nos confessará perante seu Pai. Me envergonho, porém, da disfarçatez de um Pedro, que garatiu que o seguiria até o fim, mas no raiar do sol do medo, perigo e ultraje, negou-o não apenas uma, mas três vezes. Ruborizo diante da religiosa hipocrisia de quem grita, chora, se derrama com o nome de Jesus nos lábios em momentos de êxtase, mas que, no calor dos acontecimentos que requerem de nós posição, decisão e coragem, preferem o escombro sórdido do silêncio, da omissão e da covardia.  Por isso tenho insistido que precisamos urgentemente de uma teologia do saco roxo, que não se omita nem se envergonhe diante de sua inglória tarefa profética, e cuja preocupação principal não seja a de servir primáriamente a nenhum outro ser, senão a Deus. E suponho que Deus não se agrada de teólogo covarde e meia-boca, dividido entre a busca pela integridade e o desejo por adulação e popularidade.

Enfim (mas não finalmente), não me envergonho de Jesus, porque o Jesus a quem sirvo e por quem vivo não dá a mínima para o negócio da religião, ou para os louros da fama e da boa reputação. Ele não trocaria jamais a graça de ser chamado de “meu filho amado em quem tenho prazer” pela honra de ser profeta ou apóstolo das multidões. Ele não rechaçou as multidões, teve compaixão delas; mas rechaçou o cheiro de glória falsa que emana de sua empolgada aclamação e de seus elogios. Pois, profeta que é profeta, não pode se balizar pela boa, nem pela má fama, tampouco pode viver de amor ao próprio pescoço...  Quem, hoje, tem abraçado e abraçará o fardo desta vocação?

Jonathan