quinta-feira, 3 de abril de 2008

Sexo e moral cristã

Um dos efeitos mais perniciosos da religião é que ela tende a divorciar a moral da realidade do sofrimento dos seres humanos e dos animais. (...) Isso explica por que cristãos como você gastam mais energia “moral” fazendo oposição ao aborto do que lutando contra o genocídio. Explica por que você está mais preocupado com os embriões humanos do que com a possibilidade de salvar vidas, oferecida pelas pesquisas com células-tronco. E explica por que você é capaz de pregar contra o uso da camisinha na África subsaariana, enquanto milhões de pessoas morrem de AIDS nessa região a cada ano.

Você acredita que as suas preocupações religiosas a respeito do sexo, tão imensas e tão cansativas, têm algo a ver com moralidade. E, contudo, seus esforços para reprimir o comportamento sexual de adultos que agem por livre e espontânea vontade – e até para desencorajar seus próprios filhos e filhas a não fazerem sexo antes do casamento – quase nunca se destinam ao alívio do sofrimento humano. Ao que parecem aliviar o sofrimento está bem lá embaixo em sua lista de prioridades. Pelo visto, a sua principal preocupação é que o criador do universo ficará ofendido com algo que as pessoas fazem quando estão nuas. E essa mentalidade pudica contribui, diariamente, pare o excesso de infelicidade humana.
(...) Não há nada de errado em incentivar os adolescentes a se abster de sexo. Mas nós já sabemos, fora de qualquer dúvida, que apenas ensinar a abstinência não é uma boa maneira de reduzir a gravidez na adolescência nem a disseminação de doenças sexualmente transmissíveis. Na verdade, os adolescentes quem só recebem lições de abstinência têm menos probabilidades de usar métodos anticoncepcionais quando fazem sexo – como muitos deles vão fazer, inevitavelmente.
(...) O problema é que cristãos como você não estão preocupados com a gravidez adolescente e a disseminação de doenças. Isto é, você não está preocupado com o sofrimento causado pelo sexo; você está preocupado com o sexo. E, como se este fato precisasse ainda mais de comprovação, o evangélico Reginald Finger, membro do Comitê Consultor de Práticas de Imunização do CDC, anunciou recentemente que pensa em se opor a uma vacina contra o HIV – condenando, assim, milhões de homens e mulheres a morrerem de AIDS a cada ano, desnecessariamente – já que tal vacina incentivaria o sexo antes do casamento, por torná-lo menos arriscado. Este é um dos muitos aspectos em que suas crenças religiosas se tornam genuinamente letais.

Sam Harris (na foto)
Trechos do livro: Carta a uma nação cristã (Cia das Letras, 2007).

2 comentários:

André Boccato disse...

OI, ACHEI INTERESSANTE SEU ARTIGO. BEM PERTINENTE. DEVERIA TRATAR DA SEXUALIDADE HUMANA COM MAIS ABRANGÊNCIA. NÃO SÓ TRATÁ-LA COMO ALGO PREOCUPANTE NA RELIGIÃO, MAS QUE SAÍDAS TAMBÉM AS RELIGIÕES DÃO A EXCESSIVA BANALIZAÇÃO E FRAGMENTAÇÃO DA VIDA HUMANA. AS RELIGIÕES (CRISTÃ) NÃO TEM NADA A CONTRIBUIR PARA UMA ÉTICA SEXUAL? PORQUE SÓ COLOCAR A VISÃO TRADICIONAL JÁ SUPERADA? ESPERO SUA RESPOSTA

Jonathan Menezes disse...

Prezado André,
creio também que o tema da sexualidade é abrangente e não concerne apenas à moral cristã. Mas infelizmente ou felizmente cheguei a esse tema pela via da religião, por situações que não dependeram só de mim. Creio que, sim, a religião tem muito a contribuir para uma ética da sexualidade, e alguns poucos cristãos serviram de instrumento para isso, cito três: Sören Kierkegaard (em seu "Conceito da Angustia"), G.K. Chesterton, na preocupação demonstrada em várias de suas obras sobre entender a vida humana e tudo que a diz respeito na perspectiva de que Deus as fez e disse que era bom; e mais recentemente, mas nõa tão recente assim, Robinson Cavalcanti, no livro "Libertação e sexualidade". Sempre fui fã dos escritos de Robinson, por sua ousadia e inteligência. Esse livro analisa a questão da sexualidade de modo mais abrangente e aberto. Você pode encontra-lo na internet, se é que já não conhece. Ultimamente tenho discordado de certas posições do Robinson, por achá-las "militantes" demais, num sentido fundamentalista.
Quanto ao post, bem você percebeu que são trechos de um livro do ateísta Sam Harris. Achei relevantes algumas de suas colocações - dirigidas ao contexto norte-americano, mas que se aplicam também aos brasileiros. Creio que algumas questões são ultrapassadas mesmo. Mas, por outro lado, creio que o ponto de vista conservador e fundamentalista ainda é predominante na igreja evangélica, o que retarda em muito o diálogo nesse âmbito sobre um tema tão urgente como o da sexualidade, e nos faz caminhar milhas atrás na contribuição para esse debate também com a sociedade em geral. Por isso, às vezes ainda é necessário bater de frente. Pra isso, nem sempre é necessário procurar "briga", basta manifestar opiniões um pouco diferentes das comuns...
Mas é isso, faz parte da caminhada de pensadores cristãos esse fardo.
Abs,
Jonathan