sábado, 9 de fevereiro de 2008

Oração: silêncio e revolução

É comum ouvirmos sobre oração como um meio apenas de alcançar as bênçãos espirituais e materiais, que Deus de alguma forma reteve à espera de que as requisitássemos. Mas será que oração é um mero exercício espiritual individualista? Apenas um discurso em que despejo um “caminhão” de petições e problemas a Deus esperando que ele resolva? Ou será que o ato de orar pode produzir algo na vida da igreja além de benefícios pessoais e remediações circunstanciais?
Oração é um exercício de consciência em relação ao que sabemos sobre Deus por meio de sua Palavra (que veio primeiro), e ela nos ensina que Deus conhece nossos medos, anseios, petições, desejos, tristezas, alegrias e sonhos antes mesmo que lho submetamos (ver Mt. 6:5-8). Assim, devemos evitar os mecanismos monótonos, repetitivos e hipócritas que transformam a prática da oração um fardo para nós e um enfado para Deus. A oração deve ser uma viva, íntima e incessante conexão entre nós e Deus, entre nosso mundo de complexidades passageiras e conflituosas e o mundo eterno e invisível de Deus, nos fazendo experimentar da eternidade e a aprender a cultivar valores permanentes, os valores do Reino.
Duas palavras, apontadas por Henri Nouwen, podem gerar um campo fértil para uma vida de oração equilibrada e frutífera: Silêncio e Revolução. O silêncio pode ser mais revolucionário do que possamos imaginar e a revolução mais silenciosa do que consigamos conceber. A ação transformadora do evangelho envolve essas duas coisas, posto que os efeitos do sal e da luz produzem muito mais do que barulho, sinais, imagem ou espetáculo. Produzem vida. Por isso, orar pode ser simplesmente ficar em silencio e deixar o coração chorar em meio ao golpe da hora difícil, permitindo que o interior fale de suas mazelas e que Deus tome conta da situação. Oração é também revolução, pois o orante acredita e espera por um futuro que não vê, incendeia seu redor com uma inconformidade santa e luta pela vida, pela liberdade humana, pelo Reino de Deus.
O relato de Atos, fala sobre a oração dos primeiros cristãos: “Depois de orarem, tremeu o lugar em que estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito Santo e anunciavam corajosamente a palavra de Deus” (At. 4:31). Quando a oração deixa de ser uma simples passividade piedosa, levando à comunhão e essa à ação compassiva da igreja, o Senhor mesmo acrescenta os novos discípulos, fortalece os que já são e prepara a igreja para ser um povo não só “crescido”, mas também maduro. Quando a oração deixa a monotonia para se tornar algo dinâmico e natural, começamos a suspeitar, como ressalta Henri Nouwen, que “orar é viver”, viver a vida de Cristo.

Jonathan

4 comentários:

Carlos Xavier disse...

Beleza de texto!
Ontem, preparei uma aula para a E.D. da Vila Nova, sobre o tema: "O valor da oração na vida devocional", e a idéia/objetivo, é desmestificar a idéia de oração enquanto exercício sobrenatural e utilitarista e resgatar seu sentido bíblico de "alimento para alma", que capacita ao enfrentamento das contradições da vida em sociedade.
Com sua permissão, vou imprimir este texto e distribuir aos alunos na abertura da aula.
Gostei muito deste trecho:
"A oração deve ser uma viva, íntima e incessante conexão entre nós e Deus, entre nosso mundo de complexidades passageiras e conflituosas e o mundo eterno e invisível de Deus, nos fazendo experimentar da eternidade e a aprender a cultivar valores permanentes, os valores do Reino."
Valeu bichão, bom fim de semana e fica na paz!
PC
www.falapc.com

Jonathan Menezes disse...

Pode usar o texto, PC, com certeza.
Grande abraço!

Jenifer disse...

Belo texto, preciso colocar isso mais em prática!
Beijos

Jonathan Menezes disse...

Todos precisamos, Jeni. Endosso as palavras de David Bosch: "É um sinal de espiritualidade admitir que você não é tão espiritual quanto gostaria de ser, e, é claro, é um sinal de falta de espiritualidade, ou hipocrisia, sugerir que não se tem nenhum tipo de dificuldade nessa área" (Spirituality of the Road, p. 10).