Quero iniciar com uma afirmação nada original: a vida é um eterno aprendizado. Infelizes são aqueles que no meio do caminho perdem a capacidade de, parafraseando o saudoso Gonzaguinha, "cantar e cantar e cantar, a beleza de ser um eterno aprendiz". Logo, se a teologia versa sobre a vida, ela é, de igual modo, um conhecimento em mutação, uma ciência modesta e disciplinada de eternos aprendizes que não se entregam facilmente ao sabor das respostas prontas, nem de palavras decoradas, tampouco se deixam orientar pelo que dizem as estatísticas, e muito menos se conformam com um "ministério de banalidades", que não problematiza, não pensa, não sente, não se inconforma ou se indigna, e por isso torna-se ineficaz e incapaz de proferir palavras ou realizar ações de cunho profético.quarta-feira, 8 de abril de 2009
Teologia: diversão e aprendizado
Quero iniciar com uma afirmação nada original: a vida é um eterno aprendizado. Infelizes são aqueles que no meio do caminho perdem a capacidade de, parafraseando o saudoso Gonzaguinha, "cantar e cantar e cantar, a beleza de ser um eterno aprendiz". Logo, se a teologia versa sobre a vida, ela é, de igual modo, um conhecimento em mutação, uma ciência modesta e disciplinada de eternos aprendizes que não se entregam facilmente ao sabor das respostas prontas, nem de palavras decoradas, tampouco se deixam orientar pelo que dizem as estatísticas, e muito menos se conformam com um "ministério de banalidades", que não problematiza, não pensa, não sente, não se inconforma ou se indigna, e por isso torna-se ineficaz e incapaz de proferir palavras ou realizar ações de cunho profético.terça-feira, 7 de abril de 2009
As tradições, o Evangelho (Final)
As dinâmicas do evangelho nos levam a perguntar: de que vale um exterior limpo, se lá dentro, lá no fundo, há muita sujeira escondida? Jesus diria: “Limpa, limpa primeiro, fariseu, esse teu interior, porque a limpeza de fora é conseqüência. Tira a trave do teu olho antes de acusar o cisco no olho do teu irmão”. E quantas traves não passam despercebidas, quantos camelos não são engolidos com muito sal e pimenta – o orgulho, a hipocrisia, a falsidade, a opressão, a injustiça, a mentira, o egoísmo... Esses não são pecados? Mas na aparência... Ah, quanta beleza! Falsa beleza, sórdida e feia “beleza”, “beleza americana”.“Quanto mais crescemos no Espírito de Jesus Cristo, mais pobres nos tornamos – e mais percebemos que tudo nesta vida é um presente. A tonalidade fundamental da nossa vida passa a ser ação de graças humilde e jubilosa. A consciência da nossa pobreza e de nossa inépcia leva-nos a regozijar-nos na dádiva de termos sido chamados das trevas para a maravilhosa luz e transportados ao Reino do amado Filho de Deus. O homem ou a mulher pobres escrevem ao Senhor nove cartas que dizem: ‘Bom é’. Numa conversa, o discípulo que é verdadeiramente pobre no espírito sempre deixa a outra pessoa com a sensação de que a vida do discípulo foi enriquecida por ter conversado com ela. Não se trata de falsa modéstia nem de humildade fingida. A vida dele ou dela foi de fato agraciada e enriquecida. Ele não é apenas escapamento, sem abertura para a entrada de fora. Ele não se impõe aos outros. A pobreza espiritual dela a capacita a adentrar o mundo do outro mesmo quando não é capaz de identificar-se com esse mundo – por exemplo o mundo das drogas, o universo gay. Os pobres de espírito são as menos condenatórias das pessoas; convivem bem com pecadores. O homem ou a mulher pobres do evangelho reconciliaram-se com sua existência falha. Estão conscientes de sua falta de inteireza, sua incompletude, o simples fato de não apresentam de forma alguma os requisitos necessários. Embora não apresentem desculpa para o seu pecado, estão humildemente conscientes de que o pecado é precisamente o que os levou a se atirarem à mercê do Pai. Eles não fingem ser mais do que são: pecadores salvos pela graça”.(Brennan Manning. O Evangelho Maltrapilho. São Paulo: Mundo Cristão, 2005, p. 81-82).
sexta-feira, 3 de abril de 2009
As tradições, o Evangelho (II)
Não vejo Jesus sendo um pouco sequer indulgente com essa corja. Pelo contrário, ele põe o dedo na ferida e aponta tremendas contradições existentes neles. Enquanto se apegam às suas tradições como carrapatos num cão, negam e subvertem o sentido da própria lei, que afirmam defender. “É bem isto, rejeitais o mandamento de Deus para guardar a vossa tradição... anulais a palavra de Deus com a tradição que vós transmitis” (v. 9, 13).1) Tradições são preceitos de homens, enquanto o evangelho significa boas novas de Deus para o mundo.
2) A tradição se apega mais a rituais, doutrinas bem elaboradas e fechadas, e a uma moralidade exterior (como a de não lavar as mãos antes de comer), enquanto o evangelho quebra convenções religiosas, paradigmas, tradições e gera vida, concerne à vida, ao ser humano integral.
3) A tradição exige que a pessoa mantenha uma exterioridade limpa, polida, com aparência “santa”; o que corresponde, numa linguagem pastoril, a um rebanho sempre bem “tosadinho” e em linha. Pura fachada. Só que por dentro, humm... O bolor pode comer solto, soltinho. Em contrapartida, o evangelho não se prende a essas amenidades do exterior, à artificialidade da fé: cosmética, auto-indulgente, fisiologista. O que está e vem de dentro é mais importante pra Deus.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
As tradições, o Evangelho (I)
Ler: Marcos 7.1-131.
4.
sábado, 28 de março de 2009
Oração e Gratidão
Hoje, quando tenho o privilégio de completar meu vigésimo oitavo aniversário, com muita alegria, paz e me sentindo um ser tremendamente abençoado, pela vida, a família, os amigos, os dons, o ministério, e as responsabilidades que me foram por Deus confiadas, como dádiva e graça, me vejo imerso em um mar de águas profundas de gratidão... A paz com Deus é a paz com aquilo que somos, com o que temos e com a vida que ele nos deu, diria Rob Bell, mas é também a paz que excede todo entendimento, paz que somente um ser integralmente disposto a ouvir e discernir a voz do Espírito da vida pode ter.Minha aptidão para ouvir está estritamente associada com meu movimento em direção à honestidade com Deus. Deixo essa singela oração, como expressão de um coração grato, porém cônscio de suas armadilhas; feliz, porém desejoso de uma vida que vá além da superficialidade que grassa nos quadros da religiosidade de nosso tempo, pia, ritualística, moral, mas sem vida, sem conexão, sem liberdade. É assim:
Pai de amor, perdoa-me por tantas vezes privilegiar pedidos, desejos e o teu poder apenas para realizá-los, de um modo distante do teu querer; por todas as vezes que te tratei como amuleto, como um gênio da lâmpada, utilitariamente.
O Senhor me chama para um relacionamento de amor, enquanto eu, tantas vezes, estou somente preocupado comigo mesmo, com o que amanhã vou comer, vestir, onde vou trabalhar, quanto vou ganhar... assim me esqueço, Paizinho, que um relacionamento vivo contigo pressupõe a confiança básica no teu cuidado pleno nessas e em todas as demais coisas dessa minha efêmera existência.
O Senhor quer de mim uma só coisa: um coração prioritariamente devotado ao teu reino e à tua justiça, ao passo que constantemente me tenho visto dividido entre dois ou mais senhores; queres singularidade, mais eu insisto em viver na duplicidade. Dá-me hoje, Senhor, um espírito manso, humilde e tão dependente de ti qual um bebê, necesitado do seio de sua mãe. Dá-me a sensibilidade suficiente para enxergar quando vier o bem. E que nos dias maus, que certamente virão, não deixe eu de dar fruto, pelo teu Espírito e pelo poder da tua graça, que me é suficiente. "Porque quando sou fraco, então é que sou forte".
Jonathan
quinta-feira, 26 de março de 2009
A Canção Das Mãos Vazias - por Gedson Lidório
Alguns profetas Deus colocou nas mãos a espada, outros o cajado, e outros... bem... outros há, como eu, que têm mãos vazias... Aprendi, com isto, que não preciso de um trono, pois para quem deseja lavar pés aos outros, o trono é desnecessário, ficará sempre vazio.terça-feira, 24 de março de 2009
Religião, justiça e humildade
segunda-feira, 23 de março de 2009
O Evangelho Integral (Parte final)
Algumas considerações finais sobre o que procurei abordar e enfatizar nessa série de quatro textos sobre a integralidade do Evangelho:“O signo de esperança para o mundo que provê o o Espírito na comunidade eclesial se confirma no serviço libertador do povo de Deus em favor da humanidade. Falar de esperança para um novo mundo, sem participar em esforços concretos para fazer desse mundo um melhor lugar de vida, é negar essa mesma esperança; com efeito, é fugir para uma abstração vaga do outro mundo, que paralisa a força transformadora da missão escatológica do evangelho e termina sacralizando o status quo. A esperança para a redenção do mundo sem a ação redentora no mundo é uma blasfêmia”. (Costas, Evangelización Contextual, p. 80).
sexta-feira, 20 de março de 2009
O Evangelho Integral (Parte III)
O texto de Marcos 3.1-6 é significativo para pensarmos nas prioridades do Reino e em como a vivência do evangelho requer muitas vezes confronto com as estruturas institucionais, religiosas e societárias (engessadas) predominantes. Após ter reinterpretado a Lei do Sábado com autoridade e fundamento (2.23-28), Jesus se vê diante de uma situação prática: curar ou não curar no sábado? O tema que me salta aos olhos aqui é, portanto, o da religião x vida; instituição x ser humano. O Evangelho nasce precisamente da ação de Deus em romper as barreiras e escravidão impostas pelos sistemas desse mundo, a fim de gerar libertação integral ao ser humano. É um Deus apaixonado pela vida e que ama e valoriza o humano acima que qualquer coisa.- Ele saiu da margem e veio para o centro. As pessoas são mais importantes que as instituições. Essa é a mensagem de Jesus aqui. Mas, muitas vezes, amamos mais as instituições que as pessoas, e isso deve ser motivo de preocupação.
- Recebe amor, perdão e salvação. Jesus ama aquele homem à medida que o chama para o centro, dando importância a ele como pessoa. Ele o perdoa, porque não lhe imputa maldição alguma. E ele salva quando escolhe fazer a cura (não há tensão aqui entre curar e salvar).
- Sua dignidade como pessoa é restaurada por meio da cura. Ele não precisaria mais viver à margem da sociedade por causa de sua doença. Poderia olhar as pessoas nos olhos, sem vergonha, e viver normalmente como qualquer pessoa, respirando a vida com mais intensidade.
quinta-feira, 19 de março de 2009
O Evangelho Integral (Parte II)
Esse tipo de crítica nasce do discernimento de que a vivência da fé não pode estar separada de uma responsabilidade mais ampla com o todo criado por Deus, e de que missão, antes de tudo, é a ação de Deus por meio do Espírito Santo (o seu agente) visando resgatar a humanidade das situações de morte e pecado em que se encontra. O Espírito habita onde há liberdade, além de gerar e agir em liberdade. A igreja que compreende que ação do Espírito não está circunscrita a seu arraial e nem é seu monopólio, é aquela apta a ser agente com Deus dessa missão de transformação da realidade do ser humano como um todo.São os povos autóctones e as minorias étnicas, os desempregados e os mal-pagos, os exilados, refugiados e imigrantes ilegais, os campesinos explorados e a subclasse social permanente que habita em guetos urbanos, subúrbios, favelas e lugares de miséria. São também as prostitutas, os presos, os alcoólatras e viciados em drogas; os idosos solitários e os jovens frustrados, as mulheres denegridas, os abusados, desprezados e os homossexuais rechaçados e deserdados.
(O. Costas, Evangelización Contextual, p. 85-86).
terça-feira, 17 de março de 2009
O Evangelho Integral (Parte I)
Bem, o evangelho... Ele é identificado como boas novas de Deus para a “casa da humanidade”. De Deus porque ele procede Dele (Mc 1.14), assim como quem foi a expressão máxima e verificável dessa mensagem, Jesus, também procedeu do Pai, sendo ele “um” com o Pai. O evangelho nasceu do coração de Deus como expressão de uma terna e incessante busca do Senhor por uma aproximação com o ser humano, distanciado dele em função do pecado.Quando lemos informes sobre o fenomenal crescimento numérico de algumas igrejas como resultado de seus esforços evangelizadores, e logo vemos como essas mesmas igrejas sacralizam o status quo, negando-se a mostrar um estilo de vida qualitativamente distinto e gerando obstáculos à transformação das instituições sociais, econômicas, culturais e políticas de sua sociedade, temos todo o direito de questionar a validade da ação evangelística dessas igrejas e sua fidelidade a mensagem da cruz. Dito de outra forma, a prática social de uma comunidade eclesial revela a qualidade de sua confissão.
(Orlando Costas, Evangelización Contextual, p. 82).
(Continua...)
sexta-feira, 6 de março de 2009
Um convite à liberdade (parte final)
Trata-se de um convite à liberdade aqueles que celebram a vida e resistem às forças dominadoras da morte. É o grito de coragem e desespero (como o que foi dado por Cristo na cruz), de quem tem pouca ou nenhuma chance de vencer historicamente falando, mas que não tem mais nada a perder, porque, em Cristo, tudo já lucrou e tudo já perdeu. Como as vozes dos trezentos, quatrocentos, quinhentos que caminharam lado a lado com um dos grandes mártires cristãos contemporâneos, Martin Luther King Jr., convidando e incitando uns aos outros a lutar pela justiça e pela liberdade, e cantando: “Não vou deixar ninguém me deter, me deter, me deter. Não vou deixar ninguém me deter, vou continuar andando, continuar andando, marchando até a terra de liberdade”."Confrontados com a alternativa de nos libertarmos e vivermos perigosamente ou renunciarmos à própria vida e nos tornarmos cativos, não pode haver dúvida sobre a decisão que nos é sugerida pelos testemunhos bíblicos da experiência de Deus. Quem ama a vida ama a liberdade, e aquele que ama a liberdade afirma a própria vida, apesar de todas as intimidações e angústia interiores. A verdadeira segurança só pode existir sobre o chão da liberdade, e não em sua renúncia". [1]
- Romper com as estruturas e os laços de farisaísmo e legalismo que ainda assombram nossas consciências, mantendo uma pregação que se fundamenta somente em Cristo e na graça;
- Quebrar os tabus que nos impedem de promover discussões abertas sobre assuntos relevantes à comunidade, principalmente com os jovens (como política e sexualidade), sem ter que jogar pedras na cruz nem tampouco rasgar a Bíblia, nossa confissão maior de fé
- Promover os reflexos da liberdade cristã na missão integral: proclamando e vivendo o Evangelho e o Reino em termos de liberdade, oferecendo o espaço e abertura necessária para que as pessoas possam se aproximar de Cristo e a aceitá-lo como Senhor em suas vidas.
Que Ele nos dê coragem, força e discernimento nessa jornada rumo à liberdade plena em Jesus Cristo.
Jonathan
Notas
[1] ZABATIERO, Júlio. Fundamentos da Teologia Prática. São Paulo: Mundo Cristão, 2005, p. 74.
quarta-feira, 4 de março de 2009
Um convite à liberdade (parte II)
Além dessas e outras formas, há ainda, por que não dizer, a escravidão da religião. Reporto-me à religião cristã, que originalmente foi a religião dos escravos-libertos-remidos-comprados pelo sangue de Jesus Cristo, mas que, posteriormente, em grande parte, não foi capaz de se proteger do fermento espúrio dos fariseus – praga que sempre existiu e existirá na religião; lobos disfarçados de cordeiros, que colocam fardos pesados sobre os ombros dos mais fracos, sem poder, eles mesmos, movê-los. É um tipo de gente amarga, que não pratica o que prega e ainda faz tudo para preservar o mérito e alcançar reconhecimento humano. São hipócritas, pois se concentram em manter uma exterioridade polida, deixando o interior ser invadido pela mais suja e fétida podridão que destrói a alma.
Ai deles (ou ai de nós, quem sabe), guias de cegos, pois aprenderam a jurar pelo céu e guardar os preceitos da Lei, mas não defendem o direito do pobre, do oprimido e do escravizado. São capazes de coar a mais microscópica partícula do mosquito e de engolir um, dois e até três camelos daqueles bem gordos! Sepulcros caiados (“por fora bela viola, por dentro pão bolorento”). Celebram os atos dos que mercadejam a palavra de Deus e que fazem tudo em seu nome (até guerra), porém rejeitam e assassinam seus profetas, junto com aqueles que não se acomodam com suas indulgências legalistas e nem vendem a mensagem de seu mestre por míseras 30 moedas de prata, como fez o “discípulo” Judas Iscariotes.
Esse é o tipo de canto que Jesus entoava. Sim, o canto da liberdade, conforme o Evangelho, não é apenas um canto de paz interior (“pois paz sem voz não é paz, é medo” – O Rappa), de harmonia e alívio pela quebra das algemas, mas é também um canto de protesto e de repulsa ao sistema e à ordem vigente, se esses se fazem opressores. O canto da liberdade é o canto da subversão, do inconformismo e da ira santa. Só pode cantá-lo quem não desistiu da utopia possível do Reino, mesmo que isso custe o renunciar à própria existência.
(Continua...)
segunda-feira, 2 de março de 2009
Um convite à liberdade (parte I)
“Guias de cegos! Vocês coam um mosquito e engolem um camelo” (Mt 23.24).
