sexta-feira, 20 de março de 2009

O Evangelho Integral (Parte III)

O texto de Marcos 3.1-6 é significativo para pensarmos nas prioridades do Reino e em como a vivência do evangelho requer muitas vezes confronto com as estruturas institucionais, religiosas e societárias (engessadas) predominantes. Após ter reinterpretado a Lei do Sábado com autoridade e fundamento (2.23-28), Jesus se vê diante de uma situação prática: curar ou não curar no sábado? O tema que me salta aos olhos aqui é, portanto, o da religião x vida; instituição x ser humano. O Evangelho nasce precisamente da ação de Deus em romper as barreiras e escravidão impostas pelos sistemas desse mundo, a fim de gerar libertação integral ao ser humano. É um Deus apaixonado pela vida e que ama e valoriza o humano acima que qualquer coisa.

A narrativa começa relatando um retorno de Jesus à Sinagoga. Por coincidência (ou não?), ali havia um homem com a “mão ressequida” – mão paralisada provavelmente por uma infecção nos nervos, que prejudicou a circulação sanguínea e a capacidade de movimento. Essa doença o marcava perante a sociedade: ela era sinal de maldição em Israel (1Rs 13.4-6; Zc 11.17). Os fariseus estavam à espreita, como sempre, para achar alguma falta em Jesus. Percebendo aquilo, Jesus o chama “para o centro”. Essa atitude é duplamente provocativa, pois (a) Jesus, como foi dito, costumava inverter as prioridades - traz para o centro aquilo que está à margem, e coloca o à margem o que é encarado como "centro"; (b) faz perguntas retóricas aos fariseus: o bem ou o mal? A morte ou a vida?

Diante de Jesus, os fariseus emudecem. Primeiro, para não ferir a própria lei; segundo, para não dar o “braço a torcer”, a fim de não contradizer sua própria forma de espiritualidade. Sem debate algum, a resposta foi dada! O silêncio dos fariseus deixa Jesus profundamente indignado: como podem líderes que falam “em nome de Deus” terem a mente e o coração tão fechados? Em que se sustenta seu discurso austero sobre Deus e a “boa religião”? Em uma obediência cega ao mandamento, que se recusava a refletir e, além do mais, negava a própria dinâmica da lei em relação às dinâmicas da vida.

Entre o jugo, as algemas e estreitas imposições da religião, e a opção pela libertação, cura e vida plenas, Jesus escolhe, outra vez, a vida. Ele tem paixão pela vida. Em Jesus, não apenas a mão daquele homem foi restaurada, mas houve uma libertação integral, por pelo menos três razões:
  1. Ele saiu da margem e veio para o centro. As pessoas são mais importantes que as instituições. Essa é a mensagem de Jesus aqui. Mas, muitas vezes, amamos mais as instituições que as pessoas, e isso deve ser motivo de preocupação.

  2. Recebe amor, perdão e salvação. Jesus ama aquele homem à medida que o chama para o centro, dando importância a ele como pessoa. Ele o perdoa, porque não lhe imputa maldição alguma. E ele salva quando escolhe fazer a cura (não há tensão aqui entre curar e salvar).

  3. Sua dignidade como pessoa é restaurada por meio da cura. Ele não precisaria mais viver à margem da sociedade por causa de sua doença. Poderia olhar as pessoas nos olhos, sem vergonha, e viver normalmente como qualquer pessoa, respirando a vida com mais intensidade.
(Continua...)

Jonathan

2 comentários:

Daniel Leite Guanaes disse...

Jonathan,
de fato cada abordagem de Jesus revela a integralidade do evangelho. Esse é o grande desafio da igreja.
Obs: Li o texto do Costas e achei bom demais. Valeu pelo anexo!

Daniel Leite Guanaes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.