domingo, 11 de agosto de 2013

Carta a um jovem casal sexualmente ativo


Nosso mundo (sobretudo o cristão) ainda está permeado pela pretensiosa assunção de que casais de namorados cristãos das igrejas (ou sem-igreja), necessariamente, não são sexualmente ativos. Sim, a castidade continua sendo o ideal quando se fala de namoro cristão ainda em nossos dias. Nenhum problema com tal opção legítima, diga-se de passagem; o problema é reivindicá-la não como opção, facultativa a consciência e variável nível de maturidade de cada pessoa e de cada casal, mas como uma regra universal, um imperativo categórico (usando aqui o termo de Kant), como se pureza e a santidade de um namoro pudessem apenas ser avaliadas (embora eu pense que isso não se avalia) pela ausência da dimensão erótica. Tem-se preferido, assim, ignorar que boa parte dos casais de namorados hoje não vive de acordo com tal imperativo, consciente e saudavelmente, ou clandestina e culposamente.

As exigências da igreja com relação à sexualidade há um bom tempo têm sido hipócritas, presunçosas e legalistas, tudo em nome de uma idolatria biblicista travestida de fidelidade à Bíblia. Ignora-se, como lembra Robinson Cavalcanti, que “a Bíblia não é uma enciclopédia de prescrições para cada detalhe da vida do homem”.[1] O que ela nos oferece, em muitos casos, como o do sexo pré-matrimonial, por exemplo, ou são orientações para casos muito específicos e histórica e culturalmente situados ou princípios relacionais mais gerais fundamentados no amor a Deus, à própria vida e ao próximo.

O pior de tudo é que esse imperativo, como vocês já devem ter notado, é excludente, ou seja, ninguém, sendo cristã(o), em hipótese alguma poderia viver um tipo de namoro em que o sexo esteja presente, com sanidade e santidade. E não tem havido suficiente abertura para quem quer discutir ou para quem pensa diferente. E qual a razão para isso? A razão é a de sempre: porque o sexo, fora do casamento, é pecado e isto está “muito claro” na bíblia. Assim como eu, talvez vocês já tenham parado intrigados diante de tamanha certeza, e pensado: ou eu li a bíblia muito pouco ou li muito mal, pois onde é que nela se fala com tanta clareza assim sobre esse assunto e de modo tão categórico para que muitos cristãos – sobretudo os evangelicais – tenham propagado por tanto tempo isso como sendo verdade absoluta para todas as pessoas a despeito de qual seja o caso? Ora, que “chavão textual” meus possíveis críticos estarão pensando trazer à baila neste momento? A questão da fornicação? Que nosso corpo é templo do Espírito? O relato do casamento (“tornar-se uma só carne”) segundo Gênesis? A questão da santidade e da pureza? Textos sobre luxúria, lascívia, os desejos impuros, a prostituição? Bem, a lista pode ser grande e nem me preocuparei aqui em ser exaustivo quanto às referências, acho que vocês entenderam meu ponto, por isso vou direto a ele.

Não estou dizendo que estes preceitos não existem nem que não sejam válidos, mas sim que faltam discernimento e honestidade intelectual no momento em que os aplicamos, muitas vezes (senão na maioria delas) fora seu devido contexto. Parece que o bom senso e a criatividade são elementos cada vez mais deixados de fora de nossa leitura bíblica. No fim das contas, fica a impressão de que aquilo que os evangelicais sempre disseram ser o seu “lado forte”, isto é, seu zelo em relação às Escrituras, pode ser também seu lado fraco. Sobretudo, quando não percebem que a forma mais infantil de idolatria é aquela em que nos aferramos demais a uma coisa e perdemos nosso senso de independência e criticidade em nossa relação com ela. E é assim que muitos dos que com certa jactância se proclamam crentes bíblicos tratam a Bíblia: como um objeto de veneração, que acaba anulando a reverência à Palavra Divina, empobrecendo e enclausurando-a em seus preceitos humanos (demasiadamente humanos?).

Citarei o caso mais comum, apenas como ilustração, de uma das práticas não recomendadas na Bíblia chamada fornicação. Quando se pensa em “sexo fora do casamento”, por exemplo, é o primeiro princípio que aparece em muita das formas de argumentação contrária à “prática” – como se sua aplicabilidade fosse universal neste caso. O sentido bíblico da palavra “fornicação”, segundo Robinson Cavalcanti, é “relacionamento fortuito, descomprometido, sem envolvimento afetivo”.[2] É o típico sexo pelo sexo, casual, sem conexão, sem grande consideração pela pessoa com quem se faz sexo. Não quer dizer que todo sexo feito fora do contexto do matrimônio seja fornicação, e nem que todos aqueles que o praticam se encaixam na categoria de “fornicadores”. Mas acabam entrando na vala comum porque é mais fácil pensar a Bíblia como um manual de boa conduta, com regras específicas para tudo o que consideramos como má conduta, que como a Palavra de Deus que, em si, é um convite a uma obediência com discernimento e boa consciência diante de cada situação vivida.

Uma das interpretações mais honestas que já li a respeito do relacionamento sexual num contexto de namoro, envolvimento e comprometimento, vinda de um cristão, foi escrita por Robinson Cavalcanti, se não me engano em 1985. Segundo ele, nessas condições:

Supõe-se que a intimidade cresça à medida que crescem: a) os sentimentos; b) o conhecimento mútuo; c) o compromisso; d) a aproximação do vínculo matrimonial, formal ou informal. Sendo o bom relacionamento sexual uma das condições para o sucesso conjugal, algum indicador deve ser inferido ainda nesse período preparatório. Se a virgindade de ambos os sexos é um alvo ético cristão, a socialização dos custos sexuais (todo o mundo assumindo o ônus) é um mal menor do que a dicotomia virgindade de algumas vs. prostituição de outras, com umas “pagando a conta” das outras. (...) O que não se pode exigir das pessoas realmente comprometidas e que se amam, sob constrangedora tensão sexual, é que simplesmente “deixem para depois”, quando uma vez formados e com um bom emprego, montarem um belo apartamento, comprarem um carro etc. Enquanto isso...[3].

Meu objetivo particular com esta carta, porém, não é nem o de esvaziar o sentido e poder do pecado no ser – coisa impossível – nem banalizar o ato sexual, que é um dom divino, mas que pensemos juntos nas implicações de uma vida sexual ativa entre namorados, pressupondo que essa ou já é a realidade de vocês ou quem sabe esteja em iminência de ser. Parto aqui do pressuposto de que podemos falar, sim, em um namoro ou noivado com sexo que não seja meramente fornicatório, mas em que haja amor, compromisso e envolvimento afetivo cada vez mais cheio de sentido e em processo de amadurecimento para uma vida conjugal duradoura, isto é, um casamento. Corro aqui o risco de levar muitas pedradas, mas é o preço da honestidade e de não mais estar disposto a esse jogo de faz de contas que há muito grassa em nosso meio, ou seja, faz de conta que eu não sei que vocês transam e vocês fazem de conta que seguem a lei da abstinência pré-matrimonial. É preciso dar um basta nessa hipocrisia, mesmo que como gritos que serão ouvidos por poucos e execrados por muitos (estou me sentindo a própria bruxa de Salém agora).

Pois bem, nos foquemos menos no mundo externo, e mais no mundo interno de vocês. Quando decidiram dar esse passo importante no relacionamento – se é que isso partiu de uma decisão pensada e não apenas apaixonada (sem julgamentos aqui) – devem ter pensado na grandeza, beleza e também responsabilidade desse ato, imagino eu. Senão, creio que vale a pena pensar. Quer dizer, embora sejamos feitos de carne, ossos, nosso corpo tenha uma forma, tenhamos impulsos, desejo, e atração sexual, não estamos falando de pedaços de carne em atrito e fricção em busca de prazer pura e simplesmente, mas nos referimos a duas pessoas, que têm sentimentos, que sofrem, que choram, se emocionam, se fragilizam quando se decepcionam, quando amam, quando se machucam. Sim, uma relação em que o que rola vai muito além de sexo, tudo isso está envolvido. Vocês já pensaram que numa relação sexual podem não ser apenas os corpos que se tocam, mas nosso ser por inteiro? E, por mais que achemos que pelo desempenho, pela plasticidade do ato e a capacidade de dar e receber prazer, estamos no controle da situação, isso é ledo engano. Porque, como já disse, queiramos ou não, há sempre mais elementos envolvidos, ninguém manda completamente em si, controla seus sentimentos por inteiro, tampouco os do outro. É por isso que, mesmo os casos em que ambos têm um acordo de apenas se usar e se curtir mutuamente, não há garantias de que, no final, ninguém sairá machucado. Afinal, posso ter tratado minha parceira como mero “pedaço de carne” alguma vez na vida, mas quando sou tratado assim o sentido é outro, e mesmo o combinado pode sair caro nessas horas. 

Mas, imagino também que tenham decidido ter relações sexuais porque se amam, porque o sexo é um complemento essencial do amor de vocês, e porque queriam ser “plenos” um no outro – estou sendo assertivo ou muito idealista? De qualquer modo, quando a gente quer algo assim, deve ser porque queremos (mesmo que inconscientemente) algo que dure a vida toda, ainda que isso seja relativamente muito tempo, dê muito trabalho, e esteja fora do alcance de nossos olhos e mente. O futuro, como se diz, a Deus pertence. A questão é que podemos decidir o que fazer com nosso presente, que pode ser um presente ou um tormento, depende de nós na maioria das vezes. Creio que Deus nos dá o poder de escolher com quem e de que jeito vamos nos relacionar, e assim abençoa nossas escolhas, se elas honram e dignificam a Deus, ao amante, à vida. A felicidade, se ela existe mesmo, é um bem que só se goza com intensidade quando partilhada.

Não pensem, portanto, que estou lhes escrevendo apenas para dizer que está tudo certo. Escrevo para dizer que está nas mãos de vocês o querer fazer certo, fazer bem, fazer com amor, fazer durar o relacionamento enquanto se é vivo, e isso também é dádiva divina. Porque o sexo pode ser muito prazeroso quando é só sexo, mas é muito melhor quando existe cumplicidade, quando o que existe é para durar, é para fazer sentido, é para gerar e inspirar vida. Espero que vocês entendam bem a profundidade disso, que o sexo pode ser instrumento de amor e vida, como de poder, competitividade e mera vaidade. É assim que acontece com todo grande poder.

Para nos ajudar, Jesus fez uma comparação interessante acerca disso em uma de suas parábolas: “A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido” (Lc 12.47b, NVI). Em outra tradução (A Mensagem) se diz: “Grandes dádivas implicam em grandes responsabilidades; quanto maior a dádiva, maiores serão as responsabilidades”. E não é essa a frase que o tio Ben do Peter Parker disse para ele no primeiro filme do Homem-Aranha? “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”... O que isso implica? Implica que Deus nos chama por amor, por amor nos sustenta, e o maior poder de todos que nos oferece é o amor, sem o qual os demais “poderes”, incluso o sexo, podem gerar destruição e não vida. Isto, pois em essência o amor é um poder subversivo, uma vez que nos tira do controle, nos deixa vulneráveis e deixa o outro livre – não usa, não abusa, não explora.

A beleza da criação divina é que o Criador nos dá a chance de escolher o que vai ser, de como faremos uso das coisas que Ele mesmo nos presenteou na vida, de gerar algo bom ou ruim daí, ainda que em nós o bom se misture com o pior muito facilmente. Mas Ele já disse que espera que optemos pela vida. E pergunto, no atual nível de relacionamento, envolvimento e mútua responsabilidade em que se encontram, o que significa entre vocês optar pela vida? O que vocês querem e esperam dessa relação? O quanto têm lutado para ter, por muito tempo, uma vida em comum? Porque é isso, a visceralidade da aliança entre vocês dois, que torna o sexo divinamente abençoado e humanamente significativo. Não só fonte de prazer, mas de vida abundante...

Jonathan

Notas

[1] CAVALCANTI, Robinson. Uma benção chamada sexo. 9ª ed. São Paulo: ABU Editora, 2005, p. 103.
[2] Ibid, p. 55.
[3] CAVALCANTI, Robinson. Libertação e sexualidade: instinto, cultura e revelação. 3ª ed. Campinas, SP: CEBEP; São Paulo: Temática Publicações, 2004, p. 60, 63.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Carta a um jovem masturbador


Caro poeta com as mãos,

Longe de mim está a pretensão de precisão e beleza de um Rilke, ao escrever-te esta carta. Para muitos, isso aqui será um ato meramente cômico; para outros, de transgressão. Mas, na multidão dos leitores interessados neste tema – sem revelar que o são, afinal, ele não traz nenhuma boa reputação – talvez encontremos um sujeito, espero, sobretudo, que sejas tu, para quem essas palavras façam alguma diferença.

Sim, camarada, nosso mundo é repleto de hipocrisia. A mais sórdida delas, se é que se pode estabelecer uma gradação neste caso, é aquela em que se aconselha ou repreende a alguém por ter feito algo que essa outra pessoa também já fez, às vezes com muito mais intensidade, mas fingindo nem sequer conhecer o que é na prática, tampouco admitir suas reais dificuldades nesta área. Sinto que você tem padecido basicamente de uma culpa que não é exclusivamente sua, um duplo fardo que está carregando pela excessiva falta de franqueza e solidariedade humanas por parte daqueles que o sobrecarregam com seus incautos preceitos.

Decidi escrever-te, enfim, meu conterrâneo dos impulsos, para ver se consigo te ajudar a desmistificar essas sombras moralizantes que têm assaltado sua consciência, também porque pouca gente até hoje teve coragem de te mandar um papo reto com honestidade. Mas não ligue pra eles, nem os condene; no fundo os algozes morais da religião e da sociedade também são de alguma forma vítimas devedoras de suas próprias condenações – afinal, não há quem julgue que não seja também julgado – foram ou são, portanto, apenas punheiteiros reprimidos.

Deixe-me te dizer uma coisa, que não sei se servirá de alento ou de ainda mais desespero: você não é o primeiro nem o último a sofrer esse tipo de “abuso” – que, obviamente, sempre virá travestido de “bom conselho”. Durante boa parte de minha adolescência ouvi inúmeras coisas sobre sexualidade em geral, e masturbação em particular, e preciso te dizer, a maioria delas foi inútil, fora da realidade e apenas gerou mais culpa. O pior de tudo era quando vinham recheadas de subterfúgios bíblicos, como a história de um camarada chamado Onã (Gn 38.8-10), que fora intimado por seu pai, Judá, a se deitar com sua cunhada Tamar, naquele momento viúva de seu irmão, o primogênito Er, para que o nome dele (do irmão) se perpetuasse na descendência. O problema é que o subversivo Onã arranjou um jeito de aproveitar do sexo com a cunhada sem gerar filho algum; falando o português popular, ele “tirou antes de gozar”. Pobre Onã, foi condenado só porque não quis fazer às vezes do irmão (imagine só, você fazendo um filho para perpetuar o nome de outro – coisas estranhas da cultura) e ainda teve que levar a fama de “inventor da masturbação”! Não preciso dizer que isso não passa de uma associação barata, mais uma forma tosca de encontrar “base bíblica” pra tudo. Enfim, quando vierem com esse papo de onanismo, você já conhece a história.

Mas não para por aí. Dizem também que masturbação é pecado porque, para conseguir o desempenho e o prazer desejados, precisamos imaginar o sexo com alguém. Veja só, meu caro, até nossos pensamentos querem vigiar, esses “big brothers” de hoje! E como queriam que você fizesse? Que pensasse nas Cataratas do Iguaçu enquanto se masturba? Ah, quem dera fosse possível expor os pensamentos e desejos mais profundos desses que tentam te oprimir, bem no instante em que o fazem! Não restaria palavra por palavra e o muro de Berlim de seu falso moralismo cairia sem precisar de muitas marretadas. Quem é capaz de suprimir ou controlar por completo seu mundo de desejos ou por onde sua mente vagueia que atire a primeira pedra! Ademais, os sonhos aí estão – e cada um sabe bem o que sonha, embora nem sempre o porquê – para mostrar o quão inútil é essa tentativa. Senão, pense comigo: você já deve ter escutado dos moralistas sexuais que a válvula de escape natural que Deus deu para que você se alivie sem precisar da “horrorosa punheta” é a chamada polução noturna, certo? O problema é que, via de regra, esse mecanismo natural precisa de um estímulo, que acontece enquanto dormimos e geralmente vem do próprio sonho. Então que nos digam os carapálidas politicamente corretos: que tipo de sonho seria esse? Sonho com uma borboleta pousando numa flor em um jardim? E que controle tem essa pessoa sobre esse sonho? Certamente haverá alguém para defender que somos inocentes enquanto dormimos. Isso porque são santas demais para ler a opinião de um profano chamado Freud, que afirmou, dentre outras tantas coisas, que sonhos são liberações fantasiosas de desejos reprimidos.

Dessa maneira, assim como eu, você também deve ter percebido o quanto de esquizofrenia e doença há nessa moral religiosa. Mas não se espante tanto, coisa muito pior tem por debaixo desses densos lençóis cobertos de brancura. Talvez seja porque certo dia a humanidade lhes foi roubada e, desde então, quem sabe em busca da sobrevivência em função da humanidade perdida, tais pessoas tornaram-se práticos ladrões de humanidade. Contudo, uma palavra de esperança a você, caro amigo, ainda é possível. E ela é: você pode resistir a este nefasto assalto a sua humanidade, e essa capacidade é dom oferecido pelo Deus de vida e liberdade, e não de morte!

Se ainda posso lhe dar uma dica simples (porque lição, só Deus e a vida é quem dão), aí vai: desencane! Não vale à pena entrar nessa “pilha” que os apologistas do politicamente correto no campo da sexualidade têm tentado colocar sobre você. Até porque, no fundo, nem eles sabem o que dizem e a extensão do mal que causam em pessoas antes saudáveis. Quer saber o que eu penso? Se Deus nos fez sexuados para que, na prática, fugíssemos de nossa sexualidade como o Diabo da cruz, esse Deus só pode ser sádico ou um louco. Então, não tenha vergonha de sentir o que sente, porque é natural e o Criador disse que era bom no começo. Tenho a impressão de que quanto mais tranquilos tentamos ser em relação a nossos ímpetos, quanto mais tirarmos o ar de “proibido” da libido, menos fissurados e tiranizados seremos pelos nossos desejos, até porque somos animais, mas não necessariamente irracionais.

Antes de tudo, dê um voto de confiança a si mesmo, pois é isso que estou tentando fazer agora, ou seja, falando de uma liberdade rumando à maturidade. Assim, tente desenvolver hábitos de vida física, mental e espiritual, no sentido mais abrangente e integral, que te permitam curtir a vida, a si mesmo e seus relacionamentos sem neuroses, nem ter que abusar nem extrapolar os seus limites e os do outro, porque o gozo e o prazer ilimitados também são uma forma doentia e autodestrutiva de se relacionar com a vida. E evite essas competições pessoais masturbatórias (por mais curiosas e às vezes divertidas que possam parecer), pois o prazer é bom, mas sete vezes ao dia não tem nada de perfeito. Torna-se desgosto, desgaste, enfado, e não foi pra isso que Deus criou nossa sexualidade. Imagine você almoçando e, ao se deleitar tanto nesse almoço, resolve então repetir mais umas seis vezes, o que acontecerá? Agora, quer pagar pra ver? O corpo, a consciência e a vida são seus, meu camarada, só fique atento para o que eles te dizem, o que nem sempre é: “Vamos lá, mais uminha hoje”.

Jonathan

quarta-feira, 3 de julho de 2013

As palavras e o silêncio

Emudecer-se, calar-se... deixar que as vozes de dentro não se misturem e não se confundam às demais vozes e aos muitos ruídos do cotidiano. Até porque, quando elas se misturam demais (e esse é o risco o tempo todo), podem não passar de meros... ruídos!

Zacarias, marido de Isabel e pai de João Batista, ficou forçosamente mudo por certo tempo. Seu ceticismo o incapacitou de enxergar a boa nova saltitante ao seu redor como gazela no cio; as vozes de sua descrença e de seu materialismo, por um momento, falaram mais alto que as da esperança, e precisaram ser caladas para que, quem sabe, esta última pudesse, de novo, ter alguma voz e no ser fazer morada.

Eis a magia de seu período de silêncio: quando enfim ele voltou a falar, com o nascimento de seu filho João, seus lábios proferiram beleza, exultação no espírito, louvor, sabedoria... Palavras cheias da graça e do poder de Deus. Palavras que acertaram o alvo, o mote, a base de tudo: a vida!

Tenho a impressão de que quanto mais nossas palavras nascem da agitação, mais elas tendem a falhar na pontaria, a se perder no meio de outras, e não produzir nada além de ruídos, barulho que ensurdece os ouvidos e não toca o coração, a não ser para machucar. Quando, porém, se fazem filhas do silêncio, da escuta atenta, da revisão, da reflexão e da oração (mesmo sem discurso), as palavras não são simplesmente jogadas ao vento, mas são simbióticas, misturam-se com a vida, produzem vida.

Honestamente, amigos e amigas, sinto que preciso também, como Zacarias, me calar por um tempo, ou antes que o tempo não me silencie de vez e nada mais possa ser dito, para o bem ou para o mal. Sim, pois a palavra humana é encharcada da ambiguidade e do paradoxo próprios de ser humano, que todos reconhecemos de pronto quando olhamos direta e crucialmente para dentro. Por essa razão, seu encontro com a Palavra de Deus é um milagre, quando há lastro a ser preenchido pelo Espírito, razão pela qual precisamos do silêncio como lugar de visitação perene, pois, no silêncio nossa palavras podem engravidar do Espírito e, pelo Espírito, ser gerada com, e para gerar, vida.

Espero, assim, no silêncio reencontrar sentido e razão próprios ao meu falar, já gasto e enfraquecido, em parte pela agitação e em arte pela descrença, para não residir permanentemente na casa do descrédito. Pois tenho aprendido que o falar, por si só, é um ato vazio; que quem muito fala, como diria minha avó, corre o risco de “falar pelos cotovelos”, ou seja, de falar e não dizer coisa alguma. A palavra certa no tempo certo, contudo, “é como a jóia feita por encomenda” (Pv 25.11): pode ser recebida como dádiva, e repartida com gratidão.

(Imagem: "The sounds of silence", by Skierscott)

Jonathan

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Meu caminho até “Humanos, graças a Deus”

Humanos-Caminho

Gostaria de aqui endereçar alguns fatores indicativos de um caminho que me conduziu até a redação final desse livro, publicado pela Novos Diálogos Editora, sob o título de Humanos, graças a Deus! Em busca de uma espiritualidade encarnada. Aqui vão eles:

1. O livro não nasceu como livro, primeiramente, escrito de "cabo à rabo". Foi escrito no caminho; ou seja, são escritos de uma caminhada de mais ou menos 4 anos – caminhada de vida, teológica, de sala de aula, de pesquisas, de observações, de vivência da fé pessoal e comunitária e, é claro, de corridas. Muitos deles nasceram de conversas, outros de reflexões em sala de aula, outros de respostas a indagações de leitores – a quem eu carinhosamente chamo de “co-transgressores” – feitas em outros textos que escrevi no blog Escrever é Trangredir. Mas, o mais fascinante para mim, é que eles nasceram de um lugar de liberdade, pois a escrita é isso: um lugar de liberdade! E como liberdade, citando Roland Barthes, “a escrita não é mais que um momento”. Esses escritos são produtos de instantes vividos, e de escolhas que fiz ao partilhar meu olhar sobre esses instantes.

2. Embora não tenha sido programado de antemão, há nele um cantus firmos, um fio condutor, que despretensiosamente, embora não casualmente, foi se desenhando, e que é endereçado pelo título – uma espécie de afirmação-celebração e denúncia-protesto ao mesmo tempo: a de que somos humanos, e graças a Deus por isso!

3. Qual seria a razão dessa preocupação e de onde ela brota? Eu diria que ela não nasce de hoje, uma vez que, primeiro, esse é um clamor bíblico – pela humanização da pessoa – que vemos repercutir nas narrativas bíblicas e, de modo especial, em Jesus; segundo, porque continua reverberando em autores que me influenciaram, só para citar alguns: Kierkegaard, Ellul, Buechner, Peterson, Manning, Cavalcanti, Rosset, Monteiro, Unamuno, Nietzsche, Urteaga e tantos outros. Mas um autor que merece uma especial menção aqui é Henri Nouwen, sem dúvida a principal influência desse livro. Nouwen endereçou essa questão – a de nossa humanização – menos ao modo de uma discussão em seus livros, e mais ao modo de uma autobiografia ou de uma transgressão de si. De modo que quem lê Nouwen lê sua vida, e percebe o verbo encarnado o tempo todo e de inúmeras formas, não somente belas e alegres, mas também feias e tristes. Nouwen foi um dos primeiros (e poucos) a me fazer perceber que na espiritualidade cristã não somos transfomados para caminhar, somos transformados enquanto caminhamos e enfrentamos, à duras penas muitas vezes, os desafios, as alegrias, as tristezas, a leveza e a dureza do caminhar. É assim que a gente cresce, amadurece e aprende a ser humano e a andar perto de Deus e das pessoas ao mesmo tempo.

4. Penso que essa preocupação também nasce de inquietações do tempo presente, minhas é claro, mas não minhas apenas, de muita gente. Tenho impressão de que uma porção de nossa humanidade como existência, como identidades, como razão de ser, tem sido decepada por um certo espírito do tempo ou por um projeto de ser humano, que a religião cristã certamente ajudou a construir, que tem a ver com eficiência, santidade, perfeição, indefectibilidade, e que a gente não deu conta de viver. E, não dando conta de viver, escoamos nossas frustrações de várias formas, pela via do niilismo, do espiritualismo, do relativismo ou simplesmente do grito incontido que parece dizer: "Eu tenho o direito (natural) de ser imperfeito, de estar errado" – embora não necessariamente me resigne ao lugar do erro, invariavelmente passo por ali.

5. Então, esse livro vai ao encontro dessas inquietações, procurando ou buscando uma espiritualidade encarnada, procurando se parecer com Jesus de Nazaré, o Deus que se fez ser humano e tão lindamente humano, que só podia ser Deus. Como disse Thomas Merton, “é um destino glorioso ser membro da raça humana, ainda que seja uma raça dedicada a diversos absurdos e que cometa terríveis erros: mesmo assim, Deus em sua glória tornou-se membro da raça humana! Um lugar comum como esse de repente pode ser como possuir um bilhete premiado de uma loteria cósmica”.

Permitam-me citar aqui dois trechos do livro, e com eles termino essa breve descrição de caminho. O primeiro diz respeito precisamente a essa busca que me move neste livro:

Mas o que busco, afinal? Uma experiência, um modo de ser, pensar e agir que preconizem a convergência entre o cristão e o humano, entre o santo e o profano, entre ser discípulo e ser gente, de acordo com o tipo de gente que Jesus foi — verbo encarnado, chamado de “glutão e beberrão”, amigo de pecadores, que chorou, sorriu, festejou e sofreu. E, mais que isso, defendo que viver a fé cristã, buscando fidelidade ao Cristo, não nos isenta de ter de encarar a nós mesmos tal como somos no mais profundo do ser, nossas virtudes e bondade, bem como idiossincrasias, pecados e demônios. Lembrando do que disse Padre Brown, personagem de G. K. Chesterton: “Sou um homem... e, por isso mesmo, tenho todos os demônios do mundo em meu coração”. E, também, das palavras autobiográficas de Leonardo Boff: “Participo, penosamente, da condition humaine onde vige a porção sim-bólica junto com a porção dia-bólica. Sou teólogo mas também pecador. Peregrino e também me desgarro. Por isso sou devedor de desculpas e suplicante de perdão” (p. 19).

Por fim, as palavras de Paulo Freire, que foi um admirável ser humano e brilhante educador, que me inspiram a gostar desse paradoxo que é ser humano:

Gosto de ser homem, de ser gente, porque não está dado como certo, inequívoco, irrevogável, que sou ou serei decente, que testemunharei sempre gestos puros, que sou e que serei justo, que respeitarei os outros, que não mentirei escondendo o seu valor porque a inveja de sua presença no mundo me incomoda e me enraivece. Gosto de ser homem, de ser gente, porque sei que a minha passagem pelo mundo não é predeterminada, preestabelecida. Que o meu “destino” não é um dado, (sic) mas algo que precisa ser feito e de cuja responsabilidade não posso me eximir. Gosto de ser gente porque a História em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de possibilidades e não de determinismo (p. 61).

É isso, minha gente. O restante, se curiosos/as estão, vocês terão de ler no livro...

Jonathan

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Afinal, que país é esse mesmo?

Assistir (mesmo que de passagem) esse início de cobertura da Copa das Confederações 2013 na Rede Globo pode dar a estranha experiência e sensação de que existem vários países "em campo": 
1. Dos que vestem a camisa milionária da seleção e pisam nos campos bilionários da bola (mas estão "cagando e andando" pro Brasil); 
2. Dos que batem palma pra grande cobertura multi-tecno-digital da todo-poderosa, que, por sua vez, só noticia aquilo que, e do modo como, convém (afinal, o maior interesse é manter acesa a paixão dos brasileiros na seleção, os olhos bem fechados para todo o resto, para que o bolso dela, Globo, e de seus investidores, se mantenham bem cheios de $); 
3. O país minúsculo dos que protestam – usando importante questão do problema do transporte em São Paulo e no Brasil (mas que é só, como se diz, “a ponta do Iceberg”) – contra o descaso do governo, as múltiplas e generalizadas injustiças sociais e o abismo entre o país dos "descamisados" e o dos alienados, que "vestem a camisa" com muito orgulho de ser brasileiro, a despeito do que acontece no Brasil; 
4. O país dos indiferentes, que não estão nem aí para uma coisa e nem outra, mas que assistem tudo de camarote como se nada disso “lhes representasse” ou dissesse respeito; 
5. O pequeno país dos mandatários do poder político-econômico, que literalmente fazem a "máquina girar" (para o bem e para o mal), e que precisam continuar fazer a caravana prosseguir enquanto "os cães ladram", mas "não mordem" (mesmo que passando como rolo compressor sobre os direitos e reivindicações dos cidadãos e cidadãs, e usando a violência e repressão quando preciso); 
6. O grande país dos bestializados (usando aqui, não pejorativamente, a metáfora de José Murilo de Carvalho), que assistem ou não a tudo isso meio tontos, sem saber bem o que dizer, o que fazer, para onde ir, que posição tomar, afinal, antes de tudo, precisam mesmo é sobreviver; 
7. E assim por diante... [inclua aqui o que faltou, pois muito sempre falta para possivelmente descrever ou analisar situações tão complexas]. Como diria Carlinhos Veiga, há muitos "Brasis" dentro do Brasil. E é realmente uma pena que ignoremos tanto essa múltipla e complexa realidade, que continuemos parados, estacionados, de braços cruzados, "só orando", só lamentando, só escrevendo na timeline do Facebook. Bem disse Gabriel O Pensador: "Até quando a gente vai levando porrada, porrada", e vamos ficar sem fazer nada? Bem, certamente tem gente fazendo alguma coisa, fazendo o que pode, fazendo o possível para simplesmente não viver conformado com o que aí está posto ou in-posto. Seja o que for, um processo de descoberta, em meio a esse pandemônio, é necessário: do que significa ser "cidadãos e cidadãs brasileiros"! Mais que apenas geradores ou apoiadores de protesto, apenas torcedores, apenas céticos, apenas consumidores, apenas isso ou aquilo... precisamos utilizar momentos como esse como oportunidades para discutir um projeto ainda em construção: o que implica e de que jeito podemos ser, mais assertivamente, cidadãos e cidadãs! 
Admito certa indecidibilidade a respeito da cidadania no mundo "líquido-moderno" (Bauman), mas estou tentando compreender e, enquanto isso, fazer o que posso. Só não dá pra sentar na poltrona, sintonizar na Globo, curtir a fabulosa transmissão, mesmo que sem grande empolgação pela seleção, e fingir que nada está acontecendo. Comida é coisa boa; diversão e circo também; só não dá pra "bater palma pra palhaço" enquanto a grande tenda está literalmente em chamas, e vendo a platéia pegando fogo. Viver, já diria Robinson Cavalcanti, é tomar partido... E que Deus nos ajude e nos conscientize bem ao tomarmos o nosso, pois Ele, certamente, já tomou o Dele e deixou claro o que Ele quer de nós. Vale a pena que lembremos outra vez do profeta Amós (5:24):
Alguém aí sabe o que eu quero? Eu quero justiça – um mar de justiça. Eu quero integridade – rios de integridade. É isso que eu quero. Isso é tudo que eu quero...

Jonathan

quarta-feira, 5 de junho de 2013

O que os amigos dizem de “Humanos, graças a Deus” (Parte 3)

Convite Humanos

Ao começar a ler este livro do meu amigo Jonathan Menezes tive a impressão de que ele também estava me convidando para uma caminhada, onde sou levado a, de forma atenta, ouvi-lo em profundo silêncio e a considerar, sem pressa, suas ponderações. As palavras aqui contidas não são filhas do agito, todo o contrário, foram geradas na escuta cuidadosa, no silêncio reverente, no desejo de fazer e de encontrar sentido.

Com uma variedade temática organizada em torno de quatro eixos somos relembrados de nossa humanidade, convidados a viver uma espiritualidade que não nos tira da história, mas que nos permita viver de forma integral a vida, com um profundo senso de gratidão a Deus. Como disse, ele nos convida a caminhar com ele, ouvi-lo, ponderar, questionar. Pode ser que em determinados momentos você se surpreenda com uma forma diferente de analisar determinada situação, ou que seus conceitos sejam confrontados. Neste momento é bom continuar ouvindo de forma reflexiva, afinal até aquilo que difere pode ser útil para fortalecer nossas próprias convicções, mas o desafio é continuar ouvindo de forma atenta.

É com alegria que encorajo a cada leitor(a) a fazer esta breve caminhada com Jonathan Menezes, um jovem teólogo, querido amigo, com quem tenho tido o prazer de correr algumas provas de corrida de rua mas que, quando escreve, muda completamente o ritmo, ele prefere caminhar ao nosso lado, compartilhando o que tem aprendido, desejoso de que suas reflexões animem a todos que com ele desejam fazer o caminho de volta àquilo que nos faz e nos mantém plenamente humanos, conforme a intenção daquele que nos criou.

Obrigado amigo Jonathan por partilhar seus momentos e por nos convidar a esta caminhada, silenciosa, acolhedora, reflexiva e amorosa.

Ziel Machado
(Trecho do Prefácio ao livro Humanos, Graças a Deus!)

terça-feira, 4 de junho de 2013

O que os amigos dizem de “Humanos, Graças a Deus” (Parte 2)

Humanos CapaEm tempos de consumismo, alta velocidade, banda larga e outras formas de aceleração da experiência temporal da vida humana, não é nada fácil escrever um texto teológico sobre a espiritualidade cristã. Em primeiro lugar, por que qualquer coisa que escrevemos fica logo obsoleta pela passagem ultraveloz do tempo. Em segundo, por que qualquer coisa que escrevemos sobre espiritualidade é consumido antropofagicamente e reduzido a um “gostei” ou “não gostei” de leitoras e leitores. Enfim, por que há uma certeza prévia no tocante à incapacidade da teologia se pronunciar sobre um tema tão prático e a-teológico como a espiritualidade. Por isso mesmo, é muito bom que este livro tenha sido escrito e possa ser lido por mais do que apenas a família e o círculo de amizades de seu autor.

Este não é um livro para ser descartado assim que chegarmos às suas últimas palavras. Não é auto-ajuda secular disfarçada de espiritualidade cristã. Não é teologia tentando reduzir a espiritualidade ao âmbito da intelectualidade. Ah! Não é também a última palavra sobre o tema. O texto de Jonathan é uma reflexão pessoal e teológica sobre os riscos de ser cristão em nossos dias. É teologia e testemunho simultaneamente. Dá testemunho da possibilidade de caminhar espiritualmente em um mundo totalmente dominado pelo deus-dinheiro. Reflete criticamente sobre os riscos de confundir espiritualidade com auto-grandeza, ou com emocionalismo, ou com doutrinismo. É livro para ser lido e relido. Para ser pensado e discutido. Para ser ruminado. No mínimo, por que nos ajuda a perguntar como ser espiritual sem deixarmos de ser humanos. E esta pergunta é fundamental e indispensável. Se o Espírito de Deus fez do homem-Deus Jesus alguém para quem “nada do que é humano lhe era estranho”, precisamos dEle para que nós, meramente humanos, aprendamos a não estranharmos nad a do que nos é próprio enquanto humanidade que caminha na força do Espírito.

Júlio Zabatiero
(Coordenador de Pós-Graduação e Pesquisa da Faculdade Unida de Vitória)

Pensador e professor, Jonathan gosta de correr nas horas vagas, corridas de longas distâncias, dessas que é preciso acelerar o passo e dosar o fôlego. Neste livro sobre espiritualidade, ele escreve como corre, ritmo dosado que permite na paisagem conhecida colher o desconhecido. Corre na companhia de muita gente, registrada em livros ou na vida, e nos convida também a correr, no seu ritmo, em busca de nossa humanidade escondida em algum lugar. Porque para ele, espiritualidade é isso, aprender a respirar humanamente no compasso da respiração divina. Sendo assim, sua escrita se move no paradoxo, santo e profano, simbólico e diabólico, humano e divino. Desse modo, se apresenta como escritor transgressor, imagem de Deus, o transgressor maior, o paradoxo ao infinito. Deus que se torna corpo, humano, simplesmente humano.

Marcos Monteiro
(Pastor, teólogo e filósofo. Assessor de pesquisa do Centro de Pesquisa, Estudos e Serviço Cristão)

O que os amigos dizem de “Humanos, graças a Deus!” (Parte 1)

Humanos CapaPublicar, para mim, é sempre uma alegria. Um pequeno artigo veiculado por aí já me deixa feliz. Significa que as ideias estão repercutindo, bem ou mal (melhor se for bem, é claro). Um livro então, é uma alegria em dobro. Meu primeiro livro, Humanos, graças a Deus (Novos Diálogos, 2013), acaba de sair do forno. Mais adiante, gostaria de escrever aqui o que me motivou a escrevê-lo e como cheguei até ele. Agora, quero fazer uma nota de gratidão, em três partes, a alguns amigos que me ajudaram neste livro, escrevendo seus endossos de recomendação. Alguns deles foram publicados apenas parcialmente no livro, por isso coloco aqui na íntegra o que eles escreveram. A eles – Antonio, Flávio, Júlio, Marcos e Ziel – o meu muito obrigado!

Um dos grandes dilemas que eu vejo na igreja cristã e em especial na brasileira, é a sua aspiração de ser divina quando ela deveria ser humana. A igreja “esquece” que ela é composta de gente – gente que chora, pensa, sofre, ri, ganha, perde, luta, abandona – enfim, gente com dilemas e angústias. A igreja nega esse fato com uma pregação que não toma em conta essa realidade, pois afinal o povo de Deus é um povo que caminha de vitórias em vitórias. Essa é a grande beleza dos textos do amigo Jonathan. Você certamente irá se identificar com suas palavras e pensamentos, pois refletem essa nossa jornada humana em direção ao Reino de Deus. Leia, reflita e considere os desafios propostos nesses ensaios.

Antonio Carlos Barro
(Fundador e professor da Faculdade Teológica Sul Americana)

Em dias de confusão conceitual e principalmente vivencial a respeito do tema do livro que temos em mãos, os escritos de Jonathan Menezes se apresentam como contribuição indispensável na busca por uma espiritualidade sadia, coerente com a realidade de nosso ser e fundamentada nas escrituras. Com profundidade, honestidade e impressionante capacidade de reflexão, o autor traz à discussão, através de seus ensaios, questões que há tempos nos debatemos, exatamente por não nos darmos o direito de sermos humanos ou por negar esse dom divino, substituindo-o por ideais inalcançáveis, alienantes e distantes do chão da vida.

Flavio Henrique de Oliveira
(Professor da Faculdade Teológica Sul Americana)

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Da manipulação à falta de discernimento

Photomanipulation-Self-Portrait-08A essa altura do campeonato muita gente já deve ter assistido e já deve estar familiarizada com o vídeo-denúncia em que a advogada-pastora, Damares Alves (sobre quem eu nunca havia ouvido falar antes), trata sobre supostos “escândalos sexuais” (que estariam acontecendo e por se agravar, envolvendo sobretudo pedofilia e homossexualismo) de aliciamento infantil nas escolas públicas, por meio de materiais (cartilhas, livros, etc.), de suposta iniciativa e autoria do governo federal. Recentemente, também saiu uma analise detalhada do conteúdo do vídeo, escrita por Magali Cunha (ambas, a fala de Alves e a resposta de Cunha, podem ser vistas aqui).

Após ter visto e lido ambas, resolvi compartilhar (o link acima, do site Genizah) em minha ‘timeline’ do Facebook, com a seguinte descrição: Cansado dessas teoriazinhas de conspiração evangélica de plantão. Bora enfrentar a realidade com coragem e discernimento, minha gente! Como, todos sabemos, esta é uma questão candente e como muitos já haviam de antemão endossado quase que 100% da fala e do tom da advogada-pastora, recebi algumas boas reações. Boas, digo, porque, em se tratando do clima de hostilidade que cerca a questão no Brasil poderia ser ruim. Assim, resolvi compilar aqui, tanto algumas das reações (devido ao espaço), como minhas respostas a elas.

Janderson Resende: Com todo respeito, meu professor. Acho mesmo que os evangélicos sempre se acham como vitima. Mas tem muita "merda" com os póliticos brasileiros que só querem ferrar com os evangéicos.

Resposta: Caro Janderson, de fato, tem muita "merda" de todos os lados, isso é inegável, pois não existe "pureza" na política, nem em Brasília, nos movimentos em prol disso ou daquilo, ou nas cúpulas eclesiásticas. Por isso discernir é preciso, como entendo que muitos não o fizeram diante desse vídeo e de outras coisas que orbitam pela web sobre esse mesmo assunto. Reconhecer a farsa dos políticos ou da mídia em relação aos evangélicos, outros grupos religiosos e outras partes da população é uma coisa; transformar isso em uma onda gigante de conspiração contra a família e os "bons princípios" é outra bem diferente. Há muitos exageros de todos os lados. E a prudência e o bom senso sempre devem nos levar a desconfiar de exageros, mesmo que neles haja algum fundo de realidade.

Diogo Magalhães: Se é pra exercitar o discernimento, lá vai então. Pergunto: qual é a vinculação política da Dra. Magali do Nascimento Cunha? E da Revista Genizah? Ambos são adeptos da neutralidade epistemológica, ideológica e religiosa? Cremos na objetividade ou na objetivação? Se a Dra. Damares acreditou na ingenuidade do povo evangélico brasileiro, parece-me que estes também são partidários dessa mesma crença! Ou então, todos são manipuladores! A palavra da "doutora" aqui também é apresentada com ares de "verdade"! Se é pra sermos críticos, que sejamos com tudo e com todos! Exercitemos a "dúvida metódica" e que nos "provem" a verdade! Chega de manipulação e de sofismas vindos da direita, da esquerda, "de baixo, de cima, de fora e de dentro"!

Resposta: Caro Diogo, concordo com você que o Genizah apresentou o discurso da Magali com "ares de verdade", e verdade quase absoluta eu diria. Como para mim é ponto pacífico que não existe "Verdade", senão "verdades" no nível proposicional de nossas falas, científicas ou não, não compartilho com essa tendência reacionária do Genizah de trazer a coisa para o nível da "refutação". Prefiro o diálogo. Minha intenção foi apenas compartilhar o texto da Magali que, a meu ver, tem a pretensão de mostrar a ausência clara de fundamentação presente no discurso de Damaris, e a manipulação ideológica que isto pode ocultar. A mim soou mesmo como teoriazinha (e muito barata) de conspiração, e ainda fico pasmo (embora não deveria) como nós somos crédulos diante das primeiras informações com tom sensacionalista que se nos apresentam. E veja: a própria Damaris disse, com todas as palavras que, por falta de melhor recurso, ela estava trazendo tudo aquilo com o propósito de chocar mesmo, a fim de que nós, "evangélicos", acordemos e façamos alguma coisa. O problema, assim, para mim é duplo: a leviandade da advogada-pastora, em montar um dossiê furado em termos de informações para defender a tese de que o governo está tentando implantar a devassidão e imoralidade à todo custo em nossas crianças (evangélicas, é claro!); e, mais que isso, me incomoda que, outra vez, a razão de tanta indignação venha da área da sexualidade, e endossando outra vez um moralismo despolitizado, desinformado e ultrapassado. Tenho a impressão de que nos cercamos de todas as razões (e ai de mim se disser que não!) para nos preocupar com a situação moral de nosso país. Mas se alguém vem e começa a falar de luta contra injustiça, corrupção, falsidade ideológica, abuso de poder (inclusive eclesiástico), necessidade de melhores políticas públicas para toda a população, contra os usos e abusos da propriedade privada, pela reforma agrária, em favor do meio ambiente, etc., o interesse já não é o mesmo, e essa pessoa ainda pode ser chamada de "de esquerda", socialista ou comunista. Sinceramente, essa luta monolítica é cansativa, pelo menos para mim. Agora, quanto a ideologia dos manifestantes - Genizah, Magali, etc. - não sei exatamente qual é, mas sem dúvida são falas ideológicas. Aliás, não há fala, por mais "objetiva" que pretenda ser, que seja livre de ideologias. Viver, como diria Robinson Cavalcanti, é tomar partido. E que, de novo, tenhamos coragem e discernimento no momento de tomarmos os nossos.

Diogo Magalhães: O que me deixou irritado no discurso da interlocutora foi o tom tão ideológico e dissimuladamente político apresentado, escondido por detrás de um discurso "científico", já que a Genizah fez questão de apresentar o currículo acadêmico da doutora e esconder o currículo ideológico da mesma e seus possíveis vínculos políticos. Se a assessora parlamentar foi tendenciosa em sua apresentação, a doutora foi tanto quanto ela, enfocando apenas alguns elementos do discurso, mas tentando desconstruir a totalidade do mesmo.

José Idamar Evangelista: Mas a coisa junto as massas só funciona assim, na base do panico... Só sei que a tempos eu nao via alguem defender aquilo que crê com tanta coragem e determinação, diferente do muito que a gente tem visto nos ultimos dias... Se existe oportunismo ou interesses secundários, nao sei... Mas de vez em quando é bom ver alguem derrubando as mesas e espantando os vendilhões...

Resposta: O que me encabula não é tanto a perspectiva ideológica ou interesses secundários - sobre isso, por enquanto podemos fazer apostas apenas, de ambos os lados. O problema é que a assessora parlamentar faz muita generalização, atira pra todo lado, e compromete muito a credibilidade de seu discurso. Precisamos aprender a dar o peso devido às coisas e esse vídeo não contribui pra isso a meu ver; serve mais pra alarmar, criar terror e menos pra fazer refletir ou esclarecer. Isso sem falar na homofobia evidente em suas declarações, que pode combinar com parte dos evangélicos, mas não com o evangelho de Jesus. Coragem e determinação sem o tempero da sabedoria e do discernimento não produz muita coisa além de barulho, confusão e rebeldia sem causa. O que afinal esse vídeo vai ajudar a mobilizar? Religiosos enfurecidos para que o estado proteja seus filhos e não os exponham à devassa moral da sociedade? Ótimo, contribuem muito para a cidadania com isso! Por que não aproveitam e exigem logo que a educação volte a ser confessional ou que implante cartilhas de escola dominical ou catequese? Só não poderá ser sobre sexualidade, pois nas igrejas não se fala nisso a não ser judiciosamente, isto é, em termos proibitivos e condenatórios. Mas muitos se esquecem de que seus filhos não precisam sair do conforto e da suposta fortaleza de seus lares para terem acesso a tudo isso e muito mais, ou que nem os pais, nem os líderes das comunidades que eles frequentam, têm se disposto a discutir os assuntos ora condenados com abertura, inteligência e embasamento. Não me espantaria se esses mesmos manifestantes em favor "da família" e dos "bons costumes" se juntassem à luta pela diminuição da maioridade penal - em nome de um "deus justo" -, mas nem de perto se preocupassem com uma educação de qualidade ou aumento salarial dos professores - a classe trabalhadora a quem eles terceirizam a educação dos filhos deles - ou com denunciar os abusos de poder (incluindo assédio moral) nas instituições, incluso as eclesiásticas, que eles aplaudem com tanto entusiasmo, etc. Enfim, assim prosseguimos com nossa ética seletiva, coando mosquitos, engolindo camelos e infantilizando mais ainda nosso povo. A pergunta é: até quando?

Jonathan

terça-feira, 7 de maio de 2013

Da identificação com a cruz

Wooden Christian Cross

Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me” (Lucas 9.23).

Meu ponto de partida aqui é que não é com a cruz que nos identificamos, mas com o Cristo. Quando nos encontramos com ele, como consequência, nos deparamos com a cruz e seu chamado a segui-lo. Não me encontro com a cruz sem Cristo. Esse seria um encontro falido, sem sentido. A cruz, para nós, só tem sentido se for a cruz de Cristo. Sem Cristo, hoje como no passado religioso de nossa América Latina, ela não passa de símbolo religioso, ou de um ídolo.

Em Cristo, a cruz permanece sendo símbolo de morte, mas que gera vida. Na cruz, Ele perdeu a sua vida para que ganhássemos a nossa. Ao terceiro dia ele ressuscitou confirmando nossa esperança, não na cruz, mas Nele. Cristo, e não a cruz, é a nossa esperança. Mas, como sabemos, não há ressurreição sem cruz. Encontramos-nos naturalmente com a “nossa cruz”, na medida em que aceitamos o convite para sermos seguidores do Cristo. Assim, o caminho do cristão não é o de uma “opção preferencial pela cruz”, mas pelo encontro com Cristo, que põe diante de mim a mensagem viva da cruz, como expressão do discipulado.

Toda-via, a expressão humana mais anti-cruz e mais anti-Cristo que há, mais até talvez que aqueles que se auto-declaram assim, se chama ego (ou pelo menos começa nele). O que seria o “ser crucificado com Cristo”, “negar-se a si mesmo”, “tomar a sua cruz”, senão um chamado à conversão do ego? Por outro lado, uma tendência tão prejudicial quanto a de ser anti-cruz (ou “abandoná-la”), é a de iconizar a cruz. Quando transformamos a cruz é um ícone, nós a despersonalizamos, pois nos esquecemos que foi Jesus de Nazaré, filho do homem, muito humano, que carregou, sofreu e morreu na cruz.

É perigoso, também, porque isso pode se transformar numa “tendência” infrutífera e segregacionista: nós somos “os da cruz”, e eles (o resto que não pensa ou age conforme nossa visão de evangelho), são “anti-cruz” e “anti-Cristo”. Por amor de Cristo, evitemos essa tentação. Abraçar a cruz, como expressão do seguimento de Cristo, implica em, antes de olhar para o outro, assumir e reconhecer “o impostor que vive em mim” (Manning). E que, por todas as razões demasiado humanas, que já sabemos de cor quais são, não quer nada com o “credo da cruz”, a não ser reforçar o bordão que diz “cruz, credo!”. Não sendo masoquistas, e sendo honestos com Deus, como Cristo foi no Getsêmani, certamente diremos, diante do sacrifício: “Afasta de mim esse cálice”. Mas em nós opera, pela graça, outra marca da cruz que é a marca do “está consumado”, e é ela que nos capacita a dizer: “Contudo não seja feita a minha, mas a tua vontade”.

Então, dizer que nos identificamos com a cruz, e que ela “continua jovem”, não significa carregar a cruz como bandeira. Pois, como bandeira, o imperador Constantino no século IV, os cavaleiros ou paladinos das Cruzadas dos séculos XI-XIII, e as organizações racistas da Ku Klux Klan no século XX, também carregaram, e a gente sabe com que motivações. São exemplos de que Cristo e a cruz podem ser utilizados como instrumentos do anti-Reino e do anti-Cristo. Não podemos, assim, tratar a cruz como “crachá”: só é crente se adotar “o discurso da cruz”, se “falar da cruz”, se “usar a cruz”. Não faz sentido, simplesmente porque nada disso é garantia de uma identificação visceral com Cristo. Essa identificação, antes de passar pela cabeça, precisa passar pelas entranhas, pelo compromisso gerado na consciência de, pela graça, ser chamado Filho, e de que tudo o mais na vida é secundário à luz dessa básica identificação.

Por fim, ninguém carrega a cruz por amor à cruz em si, mas por amor ao amigo. Jesus disse que não há maior amor que esse, de alguém dar a vida em favor de seus amigos. E assim o fazemos porque cremos que Deus, em Cristo, desde a fundação do mundo, está reconciliando consigo mesmo todas as coisas. Ele é o centro. Não sou o “Cristo” de ninguém, mas minha vida é (espero que seja) uma expressão do amor de Cristo pelas pessoas. E isso para mim é a cruz: a expressão mais concreta, divina e humana, de esvaziamento de si mesmo, bem como do (anseio pelo) poder absoluto em nome de outro poder, o poder do amor de Deus. Um poder onde não estamos no controle de nada, Deus está.

Jonathan

sexta-feira, 22 de março de 2013

Religião: integridade ou hipocrisia? (Parte 3)

 Afghan refugee children (UNHCR) Pakistan

Desmascarando ilusões com um pouco de utopia e esperança

Até aqui, vimos que uma das principais (e mais bem-sucedidas) tarefas da religião é a de mascarar a realidade: de quem realmente somos, de quem Deus é e do que Ele quer, e da vida “como ela é”. Ou seja, seu papel é negar a complexidade. De que modo, finalmente, o livro do profeta Amós ajuda a desmascarar as ilusões, engodos e falsas promessas da vida religiosa?

Em primeiro lugar, convocando-nos a encarar a dura realidade à nossa frente.

A expressão “Dia do Senhor” significava na religião de Israel o dia do julgamento final das nações, onde os seres humanos encontrariam seu destino final, de danação ou de vida eterna. Havia um sentimento otimista em torno deste dia, pois se acreditava que nele o Senhor, por meio de “catástrofes cósmicas”, derrubaria todos os inimigos de Israel e conferiria a seu povo a vitória final (Cf. Balancin; Storniolo, 1991, p. 32).

Amós, porém, apresenta uma concepção inversa, de que o “Dia do Senhor” é, antes, notícia ruim e, só depois, notícia boa; será “escuridão total”. E, mais do que isso, se aplicará a todos, inclusive (senão primordialmente) ao próprio Israel. Em suma, o “dia do senhor” diz respeito a uma época qualquer “de juízo e condenação para o povo de Deus que não cumpriu a sua parte na aliança” (Zabatiero, 1985, p. 80).

Se havia uma perspectiva de triunfo neste dia, seria apenas para os “remanescentes”, no caso, os oprimidos dentre o povo; nem “toda a família de Jacó” seria destruída (cf. 9.8), somente os opressores e arrogantes, aqueles que dizem “nada de mal vai acontecer no nosso tempo de vida” (cf. 9.10). Isso vem mostrar que Deus não só abomina a religião hipócrita, mas também a religião arrogante dos poderosos, líderes e opressores! Além disso, vem reiterar o fato de que Ele não está interessado em mascarar a realidade, seja ela qual for, mas que rumemos à maturidade na fé a fim de enfrentar toda e qualquer situação.

Em segundo lugar, desmantelando as realizações fúteis da vida presente.

Sobre isto, são significativas algumas passagens que podem ser encontradas no cap. 6:

Ai de vocês que acreditam morar na Rua da Facilidade em Sião, que pensam que o monte Samaria é a própria boa vida. (...) Ai dos que vivem só para hoje, indiferentes à sorte dos outros. Ai dos ‘mauricinhos’ e ‘patricinhas’, que acham que a vida é uma festa preparada só para eles! Ai dos viciados em se sentir bem – a vida sem dor! Os que são obcecados pela boa aparência – a vida sem rugas! Eles não se importam nem um pouquinho com seu país, que está à beira da ruína. Mas vejam o que está chegando de verdade, uma marcha forçada para o exílio (Am 6.1, 3-7 – TAM).

Só essa passagem daria um bom “pano pra manga”. Mas gostaria de me focar nos aspectos que nos conduzem a uma ideologia (porque não dizer, religiosa) presentista. A tradução na linguagem contemporânea de Peterson nos ajuda muito nesta tarefa. Vou pontuar apenas algumas marcas, que, por sinal, ainda são bem atuais:

  1. Associar a “boa vida” com os confortos e facilidades de um lugar (o ideal turístico); pensando na religião, este lugar bem poderia ser algumas igrejas.
  2. Abraçar uma vida fútil de festas, regalias e prazer, não dando a mínima para o que acontece ao seu redor; na religião, seria o equivalente à fruição dos louvores, êxtases e massagens de ego nos templos, desassociadas da missão.
  3. O hedonismo e a negação do sofrimento; no campo da religião corresponde à ideologia do crente feliz, sem crise e sem dor.
  4. A falta de engajamento mais amplo e preocupação com questões que envolvem o coletivo. Para alguns irmãos, o coletivo que mais importa é o da denominação, igreja local ou gueto eclesiástico.

O problema é que todas essas ornamentações serviam como vendas nos olhos de Israel para enxergar o que estava por vir de fato: “uma marcha forçada para o exílio” (6.7). E me pergunto se hoje aquilo que representa, aos olhos de muitos, o triunfo do “povo de Deus”, não pode ser uma marcha lenta e progressiva para a sua ruína?

Em terceiro lugar, demonstrando que a esperança pode superar a fatalidade.

Ao longo da mensagem de Amós, Deus dá vários indícios de que, apesar de estar “fechando as contas com Israel”, não tolerando mais seu pecado, tampouco fingindo que tudo está certo (cf. 8.2), ele ainda era seu Deus, misericordioso e amoroso. Há uma passagem interessante que ilustra isso. No capítulo 7, Amós relata que havia recebido algumas visões, que davam conta de que: (v. 1-2) uma nuvem de gafanhotos estava por vir e nada do que era verde sobraria; (v. 4) um fogo viria e queimaria o mar e a terra prometida. Diante de ambas as visões, o profeta grita a Deus dizendo: “Ó Eterno, meu Senhor. Desculpa, mas o que vai acontecer a Jacó, Ele é tão pequeno”, por duas vezes, e nas duas vezes o texto diz que “o Eterno cedeu”, e que nada aconteceria.

O juízo divino ao pecado de seu povo não é capaz de apagar seu amor e misericórdia, e o profeta parecia saber disso, ao ponto de não esconder sua perplexidade. Somente tal perplexidade diante da realidade pode acender em nós a chama de esperança, que não se confunde com otimismo, tampouco com fatalismo. É significativo, portanto, que o livro de Amós termine com um adicional de esperança de restauração para o povo que havia sido conduzido ao exílio (9.11-15).

A esperança anunciada por Amós é a de uma “utopia possível”, baseada na fidelidade de Deus. Não nega e nem falseia a realidade (como a religião), mas a assume. A esperança que se funda em Deus existe no limiar entre o otimismo e o fatalismo. Dá lugar à denúncia e a condenação do pecado, mas também à misericórdia, que abraça e acolhe o pecador. Abomina a manutenção hipócrita e arrogante dos privilégios da aliança, e afirma uma aliança baseada não no mérito, mas na graça.

Nossa esperança não está nos recursos, nem em nossos planejamentos, na segurança de um lugar ou no conforto de uma condição. Os recursos acabam, os planejamentos falham, e as condições mudam; somos limitados, pecaminosos e precisamos aceitar isto. Mas a esperança em Deus é nossa garantia, pela fé, de que o pecado já foi vencido na cruz do calvário, e de que, apesar de sua presença constante, pela graça, ele não precisa mais ter a última palavra em nossas vidas!

O que significa dar razão desta esperança no mundo religioso e não-religioso em que vivemos hoje?

Jonathan

Bibliografia consultada

BALANCIN, E. M. & STORNIOLO, Ivo. Como ler o livro de Amós. A denúncia da injustiça social. São Paulo: Paulinas, 1991.
BELL, Rob. Love wins. A book about, heaven, hell, and the fate of every person who ever lived. Nova York: HarperOne, 2011.
MOTYER, J. A. A mensagem de Amós. 2ª ed. São Paulo: ABU, 1991.
ZABATIERO, Julio P. T. “Amós e a missão da igreja brasileira na atualidade”. In: Boletim Teológico, FTL-B, São Leopoldo, nº 2, 1985, pp. 47-108.

Traduções da Bíblia utilizadas

Tradução da Bíblia A Mensagem (Eugene Peterson) – TAM.
Tradução da Bíblia na Nova Versão Internacional – NVI.

Photo by Sebastian Rich (www.sebastianrichphotography.com)

quinta-feira, 21 de março de 2013

Religião: integridade ou hipocrisia? (Parte 2)

Livro_de_Eli

A religião e a falta de compromisso com a vida

Essa é uma das obras-primas da religião: podemos passar anos na “casa de Deus” (o templo confundido com “a Igreja”), servindo, trazendo dízimos, ofertando sacrifícios e, ainda assim, nunca ter tido fome e sede de Deus, como diz o Salmista: “Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te busco intensamente; a minha alma tem sede de ti! Todo o meu ser anseia por ti, numa terra seca, exausta e sem água” (Sl 63.1). Tenho a impressão de que talvez a religião produza mais ateístas, na prática, que o próprio ateísmo.

Nesta forma de religião não há compromisso real com a vida, nem no sentido de vivência do que se prega, nem no sentido de amor à vida. Isto, pois o viver (a vida) está associado com o buscar a Deus: “Busquem-me e vivam”, afirma ele, separando isto da religião por eles praticada: “Não façam a tolice de perder seu tempo viajando para Gilgal nem se empenhem em descer até Berseba. Gilgal está aqui hoje, mas amanhã não existirá. E Betel é só teatro, não tem substância” (5.4-5 – TAM).

O amor ao princípio, muitas vezes, nos faz perder de vista a vivência do próprio princípio. A verdade que interessa é somente a verdade agradável, e não a verdade “nua e crua”, como diz Amós (5.10-12).

Há um tempo assisti ao filme O Livro de Eli. Achei interessante a sua crítica, sobretudo aquela dirigida a alguns fundamentalismos religiosos de nosso tempo. Uma das frases marcantes do filme é quando Eli, personagem do protagonista Denzel Washington, afirma: “Todos esses anos que eu o levava e o lia, diariamente, na minha obsessão por mantê-lo a salvo, deixei de viver segundo o que aprendi nele”.

É impressionante como essa frase representa bem o que se tem vivido em termos de história das religiões, dentre elas o cristianismo, até os dias de hoje. Ou seja, quando nos tornamos paladinos cegos de um livro sagrado (no caso do filme, a Bíblia), incorporamos a posição dos fundamentalistas radicais e tendemos a perder de vista a integridade que o próprio livro nos ensina – no caso de Eli, o ensino fundamental esquecido foi: considerar o próximo antes e acima de si mesmo. Isso no conduz ao ponto de partida (não da religião), mas da relação com Deus (que Israel havia perdido de vista): considerar antes e em primeiro lugar o outro (próximo), e só assim estarei mais perto do Outro (Deus).

(Continua…)

Jonathan

quarta-feira, 20 de março de 2013

Religião: integridade ou hipocrisia? (Parte 1)

religion-masksA religião e seus ritos sem substância

Quero iniciar este ensaio – uma provocação bíblica contra um modo de ser próprio no mundo, que estou chamando de “religião da hipocrisia” – com a frase introdutória de Eugene Peterson, em sua tradução da bíblia, A Mensagem, ao livro de Amós:

Mais pessoas são exploradas ou agredidas por causa da religião que por qualquer outro motivo. Sexo, dinheiro e poder cedem lugar à religião como principal motivo de ações maldosas. No momento em que uma pessoa (ou governo, ou religiões, ou organização) se convence de que Deus está ordenando ou aprovando uma causa, vale qualquer coisa. A história de ódio, assassinatos e opressão alimentados pela religião cresce em ritmo acelerado no mundo inteiro. Os profetas bíblicos estão na linha de frente dos que fazem alguma coisa a respeito disso (Peterson, In: “A Mensagem”, p. 1282).

Não tem alguma coisa fora dos eixos quando uma religião, que prega vida, amor (a Deus e ao próximo) e justiça, se degenere, na prática, em violência, exploração e injustiça? Como e por que isso acontece? E o que Deus pensa disso tudo? Amós, no textos que aqui pretendo abordar e em todo o seu livro, nos ajuda a entender...

Primeiro, ele nos mostra, ao londo de seu livro, que nem tudo o que leva o nome de Deus (em nosso caso de “cristão”, “católico”, “protestante” ou “evangélico”) representa e adora, em verdade, a Deus.

Segundo, ele demonstra que certos atos religiosos se traduzem em fazer coisas “para Deus”, mas, no fundo, são cultos de si e para si mesmo. Isto fica evidente no capítulo 4, verso 5 (NVI): “Queimem pão fermentado como oferta de gratidão e proclamem em toda parte suas ofertas voluntárias; anunciem-nas, israelitas, pois é isso que vocês gostam de fazer”. Ora, o culto era uma cerimônia pública. Mas o ato, de “proclamar” e “anunciar” as ofertas, indica autogratificação e não gratidão a Deus. Não é à toa que Jesus, no Sermão do Monte, defende que aquilo que a mão direita faz, a esquerda não precisa saber, referindo-se, porém, ao “dar esmolas” (Mt 6.3).

Em outras palavras, não é preciso “tocar a trombeta” ou fazer um teatro todas as vezes que se realiza um bem, sobretudo, porque é para Deus que se está fazendo. Por isso, Jesus no mesmo sermão, acerca da oração, afirma que não devemos agir como os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, que fazem de suas orações um show particular a fim de serem notados; antes, que se procure um lugar quieto e secreto a fim de não representar nenhum papel diante de Deus (Mt 6.5-6). É uma vida de integridade atuando contra uma religião da hipocrisia.

Terceiro, vemos ainda que a religião nos faz ter Deus nos lábios e na mente, mas não produzem necessariamente “fome de Deus” (3.6). Assim Amós denuncia: “vocês falam do Eterno... como se ele fosse seu melhor amigo. Então vivam de acordo com isso, e talvez isso venha a acontecer” (5.14 – TAM).

(Continua…)

Jonathan

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Um recado para a juventude: o Pai quer celebrar!



O cristão não é, pelo menos em tese, um seguidor de leis e códigos morais, com a Bíblia como sua “regra de fé” ou de qualquer outra coisa. Regras se obedecem ou não; ninguém se debruça sobre elas, faz esforço de crítica e discernimento, busca iluminação através delas ou as trata com reverência. Não. O cristão vive pela fé, sustentado pela e na graça de Deus, e em busca de discernimento mediante a escuta do clamor das necessidades de seu contexto imediato e da voz do Espírito. Quanto à juventude, precisamos nos arrepender e reconhecer que, como igreja, temos sido negligentes tanto em nossa tarefa de discernimento e compreensão — quem sabe porque nos aferramos demais às “regras”, velhas ou novas — como de acolhimento de suas demandas. Pelo contrário, nos acomodamos cegamente com a manutenção, repetição e preservação, evitando a todo custo os riscos de qualquer natureza.

Subestimamos nossa juventude, seja quando a rotulamos e a marginalizamos como “perdida”, “rebelde” ou “desinteressada”; seja quando abraçamos a causa de arrebanhá-la, oferecendo, numa versão particular da “sociedade do espetáculo”, menos alimento e mais entretenimento. Não é à toa que muitos — refiro-me aos que não se encaixam no esquema “pão, circo e salvação” — sintam arrepios só de ouvir a palavra “Igreja”, ou quando se dão conta de que tem alguém querendo “pregar para eles”. Parafraseando José Comblin, essas ovelhas perdidas do aprisco — da igreja, não necessariamente de Deus — não se mantêm longe dela por razões de distância ou falta de comunicação — muitas igrejas têm feito “direitinho” a lição de casa de comunicação na era cibernética; afastam-se simplesmente porque querem, e sabem que a igreja tem feito, há um bom tempo, um grande esforço para frustrar suas aspirações à liberdade, salvo exceções. Com medo dos riscos da vivência e da teologia sobre a liberdade, esquecemos quase completamente de seu lugar fundamental no evangelho como uma vocação.

Tem faltado tanto aos jovens “de dentro”, como aos alheios à igreja, gente que comunique mais, com intencionalidade e sem ficar “pisando em ovos”, a boa notícia de que o Pai não é contra a vida, contra a festa ou a se aproveitar o dia. Pelo contrário, o Pai quer ter a chance de poder celebrar a vida conosco como convidado de honra, sem enchê-la de mais peso, castigo ou obrigações, oferecendo uma nova noção de compromisso, que tem a ver com vida e não com escravidão. Falta gente com a revelação encarnada e presente de um Deus gracioso, que os convida para uma caminhada de alegria e liberdade no espaço largo de sua casa, que mais que um lugar, é uma condição de existência e relacionamento na qual possam entregar seus corpos — muitas vezes marcados e feridos por nossas escolhas e pela dureza de suas curtas vidas — para serem sarados e restaurados integralmente por Ele. Como lembra Nouwen, “a comemoração faz parte do Reino de Deus. Deus não só oferece perdão, reconciliação e cura, como deseja que aqueles a quem esses dons são conferidos o recebam como uma fonte de alegria”.

O que mais me chama a atenção, ao reler a parábola do filho pródigo, é que não somente os dois filhos são figuras vulneráveis e perdidas da história. O pai também é. Não da maneira dos filhos, é claro; o pai é “perdido de amor”. É essa imagem de Deus que a parábola me revela: a imagem de um Deus de amor, que também se encontra “perdido” em busca de seus filhos perdidos e não descansa até que, finalmente, os encontre. Um Deus que nos ama com um amor incondicional, incansável, imponderável, insano e injusto aos nossos olhos. Um amor que, como defende Brennan Manning, “abraça a todos sem exceção. De novo, o amor de Deus é tolo”.

É para esse tipo de loucura que Deus nos chama como igrejas, jovens e filhos de todas as idades: amar com um tipo de amor que o mundo desconhece, motivo de espanto, escândalo, e até mesmo frustração. É um amor que não força, não se apossa, agarra ou empurra; é um amor que liberta da obrigação do amor, para a possibilidade do amor. Possibilidade de acolher ou de rejeitar. Por isso amar às vezes dói, por isso nos deixa tão vulneráveis. Mas é esse amor que nos identifica como filhos de Deus, e que também nos conduz à maturidade como gente e, assim, a abraçar nossa vocação como pais e mães de filhos biológicos, adotivos ou na fé. Pessoas a quem Deus ama, filhos a quem Ele nos dá o privilégio de co-amar-gerar.

Jonathan

* (Última parte de meu artigo "Os filhos do pai perdido e a juventude evangélica", publicado em Novos Diálogos - http://www.novosdialogos.com)