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terça-feira, 7 de maio de 2013

Da identificação com a cruz

Wooden Christian Cross

Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me” (Lucas 9.23).

Meu ponto de partida aqui é que não é com a cruz que nos identificamos, mas com o Cristo. Quando nos encontramos com ele, como consequência, nos deparamos com a cruz e seu chamado a segui-lo. Não me encontro com a cruz sem Cristo. Esse seria um encontro falido, sem sentido. A cruz, para nós, só tem sentido se for a cruz de Cristo. Sem Cristo, hoje como no passado religioso de nossa América Latina, ela não passa de símbolo religioso, ou de um ídolo.

Em Cristo, a cruz permanece sendo símbolo de morte, mas que gera vida. Na cruz, Ele perdeu a sua vida para que ganhássemos a nossa. Ao terceiro dia ele ressuscitou confirmando nossa esperança, não na cruz, mas Nele. Cristo, e não a cruz, é a nossa esperança. Mas, como sabemos, não há ressurreição sem cruz. Encontramos-nos naturalmente com a “nossa cruz”, na medida em que aceitamos o convite para sermos seguidores do Cristo. Assim, o caminho do cristão não é o de uma “opção preferencial pela cruz”, mas pelo encontro com Cristo, que põe diante de mim a mensagem viva da cruz, como expressão do discipulado.

Toda-via, a expressão humana mais anti-cruz e mais anti-Cristo que há, mais até talvez que aqueles que se auto-declaram assim, se chama ego (ou pelo menos começa nele). O que seria o “ser crucificado com Cristo”, “negar-se a si mesmo”, “tomar a sua cruz”, senão um chamado à conversão do ego? Por outro lado, uma tendência tão prejudicial quanto a de ser anti-cruz (ou “abandoná-la”), é a de iconizar a cruz. Quando transformamos a cruz é um ícone, nós a despersonalizamos, pois nos esquecemos que foi Jesus de Nazaré, filho do homem, muito humano, que carregou, sofreu e morreu na cruz.

É perigoso, também, porque isso pode se transformar numa “tendência” infrutífera e segregacionista: nós somos “os da cruz”, e eles (o resto que não pensa ou age conforme nossa visão de evangelho), são “anti-cruz” e “anti-Cristo”. Por amor de Cristo, evitemos essa tentação. Abraçar a cruz, como expressão do seguimento de Cristo, implica em, antes de olhar para o outro, assumir e reconhecer “o impostor que vive em mim” (Manning). E que, por todas as razões demasiado humanas, que já sabemos de cor quais são, não quer nada com o “credo da cruz”, a não ser reforçar o bordão que diz “cruz, credo!”. Não sendo masoquistas, e sendo honestos com Deus, como Cristo foi no Getsêmani, certamente diremos, diante do sacrifício: “Afasta de mim esse cálice”. Mas em nós opera, pela graça, outra marca da cruz que é a marca do “está consumado”, e é ela que nos capacita a dizer: “Contudo não seja feita a minha, mas a tua vontade”.

Então, dizer que nos identificamos com a cruz, e que ela “continua jovem”, não significa carregar a cruz como bandeira. Pois, como bandeira, o imperador Constantino no século IV, os cavaleiros ou paladinos das Cruzadas dos séculos XI-XIII, e as organizações racistas da Ku Klux Klan no século XX, também carregaram, e a gente sabe com que motivações. São exemplos de que Cristo e a cruz podem ser utilizados como instrumentos do anti-Reino e do anti-Cristo. Não podemos, assim, tratar a cruz como “crachá”: só é crente se adotar “o discurso da cruz”, se “falar da cruz”, se “usar a cruz”. Não faz sentido, simplesmente porque nada disso é garantia de uma identificação visceral com Cristo. Essa identificação, antes de passar pela cabeça, precisa passar pelas entranhas, pelo compromisso gerado na consciência de, pela graça, ser chamado Filho, e de que tudo o mais na vida é secundário à luz dessa básica identificação.

Por fim, ninguém carrega a cruz por amor à cruz em si, mas por amor ao amigo. Jesus disse que não há maior amor que esse, de alguém dar a vida em favor de seus amigos. E assim o fazemos porque cremos que Deus, em Cristo, desde a fundação do mundo, está reconciliando consigo mesmo todas as coisas. Ele é o centro. Não sou o “Cristo” de ninguém, mas minha vida é (espero que seja) uma expressão do amor de Cristo pelas pessoas. E isso para mim é a cruz: a expressão mais concreta, divina e humana, de esvaziamento de si mesmo, bem como do (anseio pelo) poder absoluto em nome de outro poder, o poder do amor de Deus. Um poder onde não estamos no controle de nada, Deus está.

Jonathan

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Em louvor à fragilidade

“Mas temos esse tesouro em vasos de barro, para mostrar que este poder que a tudo excede provém de Deus, e não de nós” (2Co 4.7).

Quando penso em tesouro duas imagens pelo menos me vem à mente: uma delas é a de uma caça ao tesouro, escondido em um baú nos recônditos de uma caverna escura e perigosa ou nas profundezas do mar; a outra é a dos cofres de segurança máxima, cheios de paredes de proteção especial, códigos e senhas quase intransponíveis.

As imagens são diferentes, mas têm algo em comum: em ambas o acesso ao tesouro é quase impossível, visto que há uma fortaleza protetora, imponente, complexa... A imagem de Paulo no texto acima é bem diferente. Ele fala de um “tesouro” (evangelho e a companhia do poder divino) em “vasos de barro” – que designa a nossa humanidade, que como o vaso vem do pó, é frágil, vulnerável e sempre sujeita à quebra.

Temos aqui então um contraste, uma dessas ironias divinas: o eterno poder, que não pode ser contido (do contrário, não seria eterno) escolhendo precisamente o que há de mais fraco e incerto para “se abrigar”. E a pergunta é: por quê? Paulo mesmo dá a resposta: é para mostrar que a excelência desse poder vem de Deus, e não da gente.

Trocando em miúdos: temos um tesouro (poder), mas esse tesouro não vem de nós, nem é para a nossa glória e nem nos faz triunfantes no mundo. Pelo contrário. Paulo segue afirmando nos versos seguintes que “em tudo” somos perplexos, atribulados, perseguidos, abatidos, embora não o bastante para sermos destruídos, desanimados, angustiados e totalmente desamparados.

Curioso, não? Esse poder, que não é nosso, não nos faz mais poderosos que ninguém, tampouco imunes ao sofrimento de qualquer ser humano – agregando ainda um sofrer de outra espécie, por ser cristão. Mesmo tendo um tesouro, nunca deixamos de ser simples vasos! E o vaso não existe para proteger a integridade do tesouro, mas é o tesouro que é oferecido para proteger a integridade do vaso, a despeito de suas eventuais “quebras”.

Não somos, portanto, defensores ou detentores do tesouro; ele não precisa de sentinelas ou guardiões, nem de Indiana Jones “gospel”; e não somos nós que resplandecemos, mas ele resplandece através de nós. O vaso não existe ainda para se transformado em cofre forte, mas existe para morrer: “Trazemos sempre em nosso corpo o morrer de Jesus, para que a vida de Jesus também seja revelada em nosso corpo” (4.10).

Penso que o que Paulo está querendo aqui, dentre outras coisas, é nos convidando a rever nossa teologia do poder e reservar nela um lugar especial para a aceitação jubilosa da fraqueza. Somente quando assumirmos nossa fragilidade humana, o poder de Deus se aperfeiçoará em nós a fim de que participemos da transformação que o Espírito já vem realizando no mundo, muitas vezes sem a nossa “ajuda” pretensiosa.

Jonathan

(Imagem: "Fragility", by Dawne Olson)