sexta-feira, 8 de abril de 2011

A dádiva da deficiência

É preciso ser muito “forte”, num sentido não muito convencional de força, para embarcar no mundo de fracos e fraquezas. Isso, pois nosso mundo é feito e disposto aos fortes, ou pelo menos os que “aparentam” ser. E onde a suposta força é celebrada e a fraqueza é rejeitada, não há lugar para os fracos e suas intragáveis demonstrações de pequenez e falta de virtude, aos olhos humanos.

Nessas horas aparece o conflito entre a humildade e a vanglória, a deficiência e a suficiência... Quero falar desse conflito aqui. Em 2 Coríntios, capítulo 12, Paulo conta a história de um homem que havia sido arrebatado ao paraíso – se no corpo ou fora do corpo ele não sabia dizer – e que lá ele ouviu coisas indizíveis, que ao ser humano não é licito referir. Em certo momento, ele denuncia ser ele mesmo esse homem (v. 5-6), dizendo não se gloriar de tal feito, embora pudesse fazê-lo, já que se trata de algo verdadeiro. Mas que não o fez por uma razão simples: para se proteger contra os falatórios das pessoas... Imagine o que elas diriam, ou como reagiriam!

É nesse contexto então que ele diz o que mais quero chamar a atenção aqui: contra sua possível soberba, foi lhe dado um “espinho na carne”. Na tradução The Message, usa-se a expressão: “Dom ou dádiva de uma deficiência”. E a razão parece ser evidente: isso é para que você fique em permanente contato com as suas limitações!

Fico imaginando (já que é o que posso fazer): esse espinho pode ser a representação de qualquer coisa – a) uma deficiência física ou mental; b) uma carência emocional; c) uma limitação externa ou desarranjo provocado por alguém ou por uma situação adversa, e assim por diante. Para mim, o espinho é um antídoto às avessas, é o que me livra de ser dominado pela vontade de poder, de ser massacrado pelo meu ego, de ser lançado no quarto escuro da pretensiosidade.

Dificilmente de cara tendemos a ver essa deficiência como uma dádiva, não é mesmo? É, na verdade, um incômodo, um embaraço, que desejo arrancar a todo custo, como Paulo (ver: v. 8). E nessas horas nós procuramos o cirurgião, queremos a cirurgia! Mas o cirurgião diz: não vou te operar, porque eu já estou operando em você, de um modo diferente... Deus opera com a Graça! E por isso ele diz: a minha graça é suficiente para você. E essa é uma palavra apropriada: “deficiência”, pois é o oposto de “suficiência”. É por isso que lutamos tanto contra ela, não é? Porque almejamos a suficiência quase em tudo, ou em tudo o que podemos.

Assim, a fraqueza – seja ela em que dimensão se apresentar – é condição de nossa continuidade na graça, de nossa dependência de Cristo, do aperfeiçoamento de seu poder em nós, como discípulos a serviço do Reino! Que você e eu aprendamos a celebrar e a ser agradecidos por aquilo que somos, com nossas virtudes e defeitos. Que o Senhor da graça nos ajude a exercitar nossa humildade em nossa aceitação de que não podemos tudo, nem temos controle sobre tudo e resposta para todas as coisas.

Jonathan

sexta-feira, 1 de abril de 2011

#Nouwen: Casamento entre teologia e espiritualidade


Muitos textos que escrevi no blog até hoje foram sobre ou baseados em Henri Nouwen. Intencionalmente, porém, usarei o marcador #Nouwen daqui para frente para textos nos quais estiver em franco diálogo com ele, até como forma de compartilhar com vocês as reflexões e discussões que temos realizado em nosso grupo de leitura da obra desse fascinante escritor.

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Todos fazem teologia (consciente ou inconscientemente) quando refletem sobre e dão significado ao exercício de sua fé (dádiva) em seus múltiplos contextos. E minha defesa particular, nesse sentido, é a de que devemos continuar fazendo isto, só de que de modo consciente, maduro e bem orientado.

Em uma de suas mais celebradas obras, intitulada originalmente “In the name of Jesus”, mas traduzida ao português como “O perfil do líder cristão no século XXI” (Atos, 2002), Henri Nouwen defende que somente uma “intensa reflexão teológica” poderá nos fazer “discernir, com senso crítico, para onde estamos sendo guiados. O preço de se viver sem uma sólida reflexão teológica é o de que os futuros líderes “serão pouco mais do que pseudo-psicólogos, pseudo-sociólogos e pseudo-assistentes sociais” .

Eis um trecho do pensamento do autor sobre tal processo:

Os líderes cristãos do futuro precisam ser teólogos, pessoas que conhecem o coração de Deus e são treinadas – através da oração, do estudo e da análise detalhada – a manifestar o supremo evento da obra redentora de Deus no meio dos inúmeros eventos aparentemente casuais de sua época. Reflexão teológica é refletir sobre as dolorosas realidades de todo dia e sobre as positivas também, com a mente de Jesus, para assim despertar a consciência humana para a percepção da suave orientação de Deus em nosso interior (p. 57).

A conclusão óbvia deste raciocínio de Nouwen, em consonância com o pensamento de Kierkegaard - de que "não há verdadeiro autoconhecimento sem o conhecimento de Deus ou [sem estar diante] de Deus" - me parece ser a de que, se não é possível desenvolver um conhecimento razoável de quem somos (a disciplina do autoconhecimento) sem estar diante de Deus disposto a conhecê-lo, então, de igual modo, estar diante de Deus disposto a conhecê-lo e perceber a “suave orientação” de seu Espírito em nós mesmos também não é possível sem uma séria e dedicada reflexão teológica.

Para tanto, ainda segundo ele, os discípulos, discipuladores e líderes do futuro precisam atravessar o mar vermelho das desconfianças e preconceitos relacionados à reflexão (sobretudo a teológica) e se engajar critica e abertamente nesta tarefa a partir de seu próprio lugar social e ministerial. Paralelo a isto, “muita coisa precisa acontecer nos seminários de teologia”, como afirma Nouwen. Em sua percepção, eles “precisam tornar-se centros onde as pessoas são treinadas no verdadeiro discernimento dos sinais de sua época”. E, igualmente importante, esta formação não pode envolver apenas intelecto, mas ser também segundo o autor uma “profunda formação espiritual, envolvendo a pessoa no seu todo, ou seja, o seu corpo, mente e coração”.

Em tempo: vale lembrar, por fim, o que disse Gustavo Gutiérrez, um dos mentores de Nouwen nesta percepção, em seu livro "Beber em seu próprio poço" (2000): “Uma reflexão que não ajude a viver segundo o Espírito não é uma teologia cristã. Toda autêntica teologia é uma teologia espiritual” (p. 52). Esta percepção deve recuperar, ainda que em um plano ideal, o lugar da teologia na espiritualidade cristã do dia a dia, que é o de ser orientadora crítica da vida e do discernimento da igreja em missão.

Jonathan

domingo, 27 de março de 2011

Como a corrida pode mudar minha vida...

Todos os dias quando acordo, tenho em minhas mãos o poder de mudar minha vida, para melhor ou para pior. Se ela será menos ou mais feliz, menos ou mais saudável, menos ou mais livre, menos ou mais cheia de vida depende, em parte, de mim mesmo, de minha busca e de minhas opções de caminho... Uma dessas bem-aventuradas escolhas tem sido a corrida.

A corrida pode mudar a minha vida porque ela é uma estrada aberta rumo à longevidade. Nesse meio, tenho conhecido pessoas de 70, 60, 50 anos cujo vigor e salubridade são de fazer inveja a certos jovens de 30 e se brincar até de 20 anos; e penso: se eles têm sido capazes de chegar tão longe com tamanha qualidade, por que não eu?

A corrida pode mudar a minha vida porque ela proporciona um encontro comigo mesmo, com um “eu” que até então não conhecia: livre, aventureiro, lucidamente pirado e assustadoramente feliz (coisas da endorfina); limitado, sim, mas que consegue a cada passada perceber que o limite é maior do que parece ser; a corrida, mesmo sem eu saber, me livrou da depressão, de um modo que medicina nenhuma, por si só, seria capaz de fazer.

A corrida pode mudar minha vida porque ela também oportuniza um fascinante encontro com o outro, o próximo, o com-corrente, que me interpela e desafia, o companheiro de corrida. Se há um esporte que me ensina a ser solidário é a corrida, pois corredores se vêem, se ajudam, se comprazem nisso, seja porque chegaram, não chegaram ou ainda estão perseguindo a linha de chegada.

Na corrida é assim, não importa o quanto já se tenha percorrido, a delícia está tanto na jornada quanto na chegada. Quanto mais corro, maior é a sensação de que ainda falta muito a percorrer. A corrida me faz pensar na corrida da vida: você pode correr com prazer, mas sofre e sente dores; e o que te mantém firme é a esperança da chegada. E muitos são os caminhos que se fazem ao correr. O céu é o limite. Por isso escolhi a corrida, porque ela me aproxima de Deus.

Jonathan

sexta-feira, 18 de março de 2011

A queda do legislador

“A arte da conversação civilizada é algo de que o mundo pluralista necessita com premência. Ele só pode negligenciar essa arte às suas expensas. Conversar ou sucumbir” (Zygmunt Bauman).

O livro "Legisladores e Intérpretes" (Jorge Zahar, 2010), um dos últimos do polonês Zygmunt Bauman publicados em português, se trata de uma análise da vida moderna, sobretudo, da vida intelectual. Constrói-se em diálogo crítico com autores modernos, bem como com analistas que propuseram algum tipo de crítica à modernidade no século XX, tanto filósofos como sociólogos. A obra foi um dos primeiros passos do autor rumo a uma sociologia da modernidade e a criação do conceito de “líquido”, que vem expressar precisamente um estágio avançado de transformações da modernidade, a que muitos preferem chamar de pós-moderno, de fluidez, incertezas e ambiguidade.

A declaração da "queda do legislador" é central para entender o propósito do livro, uma vez que procura dar as razões que conduziram o ideal moderno representado na figura do legislador à derrocada na pós-modernidade, de uma “era de certezas” e “autoconfiança” para uma “era de incertezas" e de desconfiança em relação aos valores estabelecidos (como o da pretensa objetividade e o do progresso) ao papel do “sujeito” e ao futuro da história. A tese é de que a queda do legislador é provocada por um mecanismo autodestrutivo próprio da modernidade como projeto, que está em ser um empreendimento humano sem limites e que acaba extrapolando a capacidade humana de assimilar sua própria engenhosidade. A modernidade pagou, dessa forma, o preço de sua ambição e de suas “contradições inextricáveis”: quando se vê o particular e o limitado tentando conter o absoluto; o efêmero buscando a durabilidade; o normal ensejando o status de superioridade (ver: p. 161).

Isso construiu uma “ilusão de ótica” na qual a modernidade julgou ser o ponto referencial a partir do qual tudo ocorre, a régua universal, medidora de tudo e de todos. Quando este devaneio metafísico passa a ser denunciado no debate pós-moderno, percebe-se que as certezas de antes estão mortas ou em processo de decadência. O certo é substituído pelo incerto; o mundo contemporâneo passa a ser um lugar estranho aos legisladores, incapazes de responder as expectativas que eles mesmos criaram em torno de si e de seu projeto.

Em consequência, Bauman considera que: “O mundo contemporâneo é impróprio para os intelectuais como legisladores” (p. 170). Abre-se caminho, assim, para a ascensão de novas representações, dentre elas está a figura do intérprete. A função do intelectual passa a ser não mais a de legislar – em busca de vereditos absolutos – mas de interpretar recortes da realidade a que chamamos de “textos”. Tudo o que temos são textos, dirão muitos filósofos da linguagem. E textos não são espelhos da realidade, mas reflexos obscuros e particularizados de uma realidade inacessível ao intelectual, a não ser por meio deles, os textos, que em si conferem um acesso também limitado, parco eu diria. É como se, como corolário, não existisse realidade alguma fora deles. A realidade seria, então, fruto da compreensão humana expressa na linguagem. Não se tem mais verdades, e sim interpretações...

Algumas implicações para a teologia me vêm à mente. A educação teológica, tal como a concebemos em boa parte até hoje, é filha da modernidade. Também nasceu dentro de um edifício de certezas e sob uma ótica dogmatizante. Sustenta-se sob a pretensão não apenas de “falar de Deus” (o que já seria um hercúleo desafio), mas de “falar por Deus”. Muitas vezes cedeu à “oferta do bruxo” (C. S. Lewis) de trocar sua vocação para ser a mais modesta dentre as ciências pelo conhecimento como poder: para legislar, dominar e condenar. Lutou contra seu próprio princípio de sustentação, de que a força de seu discurso e vida reside precisamente em sua fraqueza. Tantas vezes tem cedido à tentação de não questionar seus próprios pressupostos e, mais do que isso, de rotular como “herege”, “liberal” ou coisa do tipo quem ousa os questionar.

A queda do legislador deve ser, como em muitos contextos já tem sido, um prenúncio profético à teologia, de retorno à sua vocação, de abandono de sua faceta moderna, colonizadora da vida e do pensamento, de quem tentou e ainda tenta fazer “fimose em Deus” (Caio Fábio). A teologia precisa abandonar sua faceta dogmática, e abraçar a pluralidade e diversidade que fazem não dela e de suas cogitações o referente ou o absoluto, pois isso é coisa que só Deus pode ser.

Jonathan

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Rindo de ou com Deus?

Na primeira vez em que ouvi essa música (ver no post abaixo) e prestei o mínimo de atenção a sua letra, logo me encantei não só pela hábil maneira com que nela a autora brinca com as palavras, ou pelo tom sereno da voz de Regina Spektor, mas pela assertividade com que trabalha a idéia de “rir de Deus”.

Nas estrofes da música, o “rir de Deus” se refere a variadas situações crônicas da vida, como se dissesse: bem, se é que tem alguém rindo de Deus, certamente não é em um hospital ou em meio a uma guerra, etc. Ninguém (ou quase ninguém) é capaz de rir de Deus nessas horas, não é mesmo? Pelo contrário, é precisamente nesses momentos que mais lembramos que Deus existe – mesmo que tenhamos passado a maior parte da vida negando ou ignorando sua existência. Como diria C. S. Lewis, para muitos, Deus é como um pára-quedas, do qual só lembramos quando estamos em queda livre.

Ao mesmo tempo, na segunda parte do refrão a autora ironiza mais ainda dizendo que Deus pode ser engraçado, hilário até. É claro que se trata aqui de uma idéia de Deus, bastante popular, aliás, de um Deus-joguete dos desejos humanos, que se submete a um relacionamento de barganhas e que está pronto para dar presentes de acordo com o mérito de quem ora certo ou faz as coisas (religiosamente) direitinho. Esse é o tipo de idéia em relação a qual a gente não sabe bem se ri ou se chora. Só não dá pra ficar indiferente.

Paulo disse que não era pra ninguém se enganar porque de Deus não se zomba (Gl 6.7), ou seja, não se faz de Deus um tolo. O apóstolo não está sendo imperativo aqui; não está dizendo “não zombem de Deus”, e sim, “por mais que se tente, não é possível zombar de Deus”, Ele não é zombável. Em outras palavras, Deus não deixa de ser Deus porque deixamos de acreditar nele ou de honrá-lo, e nem é mais Deus porque o honramos, louvamos, glorificamos; Ele não se torna mais Santo cada vez que cantamos “Tu és Santo”. Quando dizemos e fazemos cada uma dessas coisas, no fundo, não é por causa de Deus, e sim por causa de nós mesmos, da necessidade que temos Dele, da gratidão a Ele pelo amor que Dele recebemos, e assim por diante. Não amo o amor pelo amor em si, mas, primeiro, porque fui e porque sou amado.

Não estamos sendo prepotentes demais quando pensamos que Deus precisa de nossos mimos para ser mais Deus, mais Santo, mais Glorioso? Ele já É tudo isso. E o que É não deixará de ser porque alguém disse de menos, e nem será mais do que É porque outro fez de mais. À prepotência humana (minha e sua) de achar que o mundo (e Deus) é seu umbigo é que se destina a bem-humorada ironia da música: no fundo ninguém está rindo de Deus, todos estamos rindo com Ele.

Jonathan

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Laughing with/ Rindo com - Regina Spektor



No one laughs at God in a hospital
(Ninguém ri de Deus em um hospital)
No one laughs at God in a war
(Ninguém ri de Deus em uma guerra)
No one´s laughing at God when they´re starving or freezing or so very poor
(Ninguém está rindo de Deus quando está morrendo de fome, congelando ou muito pobre)
No one laughs at God when the doctor calls after some routine tests
(Ninguém ri de Deus quando o médico liga depois de alguns exames rotineiros)
No one´s laughing at God when it´s gotten real late
(Ninguém está rindo de Deus, quando já é muito tarde)
And their kid´s not back from the party yet
(E é o seu filho que não voltou da festa ainda)

No one laughs at God when their airplane starts to uncontrollably shake
(Ninguém ri de Deus quando seu avião começa a tremer incontrolavelmente)
No one´s laughing at God when they see the one they love
(Ninguém ri de Deus quando vêem que a pessoa que eles amam)
Hand in hand with someone else and they hope they´re mistaken
(Está de mãos dadas com outra pessoa e eles esperam estar enganados)
No one laughs at God when the cops knock on their door
(Ninguém ri de Deus quando a polícia bate à sua porta)
And they say we got some bad news sir
(E eles dizem: temos más notícias, senhor)
No one´s laughing at God when there´s a famine fire or flood
(Ninguém está rindo de Deus quando há fome, incêndio ou inundação)

But God can be funny
(Mas Deus pode ser engraçado)
At a cocktail party when listening to a good God-themed joke
(Em um coquetel quando você ouve uma ótima piada sobre Deus)
Or when the crazies say He hates us
(Ou quando os loucos dizem que Ele nos odeia)
And they get so red in the head you think they´re ´bout to choke
(E eles estão com o rosto tão vermelho que você acha que eles vão engasgar)

God can be funny
(Deus pode ser engraçado)
When told he´ll give you money if you just pray the right way
(Quando dizem que Ele pode te dar muito dinheiro se você orar do jeito certo)
And when presented like a genie who does magic like Houdini
(E quando apresentado como um gênio que faz mágica como o Houdini)
Or grants wishes like Jiminy Cricket and Santa Claus
(Ou concede desejos como o Grilo Falante e o Papai Noel)
God can be so hilarious (Deus pode ser tão hilário)
Ha ha, Ha ha

No one laughs at God in a hospital
(Ninguém ri de Deus em um hospital)
No one laughs at God in a war
(Ninguém ri de Deus em uma guerra)
No one´s laughing at God when they´ve lost all they´ve got
(Ninguém está rindo de Deus quando perde tudo o que tem)
And they don´t know what for
(E não sabem qual é a razão disso)
No one laughs at God on the day they realize that the last sight they´ll ever see
(Ninguém ri de Deus no dia em que eles notam que estão vendo a última coisa que vão ver)
Is a pair of hateful eyes (É um odioso par de olhos)
No one´s laughing at God when they´re saying their goodbyes
(Ninguém está rindo de Deus quando dizem “adeus”)

No one laughs at God in a hospital
(Ninguém ri de Deus em um hospital)
No one laughs at God in a war
(Ninguém ri de Deus em uma guerra)
No one´s laughing at God when they´re starving or freezing or so very poor
(Ninguém está rindo de Deus quando está morrendo de fome, congelando ou muito pobre)
No one´s laughing at God
(Não há ninguém rindo de Deus)
We´re all laughing with God
(Todos estamos rindo com Deus)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Ainda que... nada serei!


What do you got if you ain't got love?

Há mais de dois mil anos atrás, um tal de Paulo escreveu uma poesia sobre o amor e desde então essa poesia tem inspirado milhares de outras poesias sobre isso. A música “What do you got”, de Bon Jovi, que me inspirou a escrever esse post, segue esse curso. A razão para tal sucesso parece óbvia: a poesia de Paulo não fala de qualquer amor (como o que diz: “amo correr” ou “amo meu carro”), nem tampouco de nossos amores-necessidade (C. S. Lewis) tipicamente humanos; ele fala sobre ágape, o amor divino, e pontua características próprias e vivas desse amor.

Apesar de ser poético, o texto de Paulo é direto, vai à veia do que o amor é na prática; consegue construir uma bela visão, sem deixar de ser realista, admitindo que, embora o amor seja tudo, fora de Deus não é possível vivê-lo em seu mais sublime sentido, e, mesmo que busquemos esse “vínculo da perfeição”, como diz João, ainda assim, continuaremos vendo “um reflexo obscuro, como em espelho”. Ou seja, perseguir o amor verdadeiro é uma vocação interminável, humanamente falando. Podemos encontrar relances do ágape, mas só seremos plenos nele quando Deus for tudo em todos. Até lá...

Bem, até lá, só sei de uma coisa: eu preciso tentar viver esse negócio como sendo o sentido maior de minha existência, como se o ar que eu preciso para respirar me faltasse caso eu... não tivesse amor! Embora ele não me falte, é como se faltasse. Por exemplo: eu não perco meu emprego porque eu não amo, mas é como se perdesse; meu casamento não necessariamente termina se não tiver amor, mas, assim sendo, na prática ele já terminou há muito tempo; minha conta bancária não terá maiores nem menores dividendos porque eu amo, mas existencialmente, sem amor, me sentirei como o mais pobre entre os homens; eu posso falar de amor sem ter amor; posso saber muito sobre Deus, sem tê-lo ao menos experimentado em amor algum dia. E o que eu tenho? O que me resta? Sem amor, nada, só o vazio!

Sei lá, parece que Paulo estava muito certo quando escreveu 1Coríntios 13, você não acha? Quer dizer, essa parada de amar é séria. Amar ou não amar parece não ser uma questão, assim como viver ou não fora d’água não é uma questão para o peixe. Quando nos conscientizamos mesmo disso – e talvez levemos muito tempo ou pouco tempo, tenhamos de apanhar muito ou pouco da vida, pra aprender isso – então, falar de amor se torna algo “fora de moda”; afinal, não é preciso falar muito quando se vive, concorda?

Como observou Zygmunt Bauman: “O amor não se reconhece nas palavras”. Ou ainda, como assertivamente disse Jonathan Rutherford: “O amor oscila na beira do desconhecido além do qual fica quase impossível falar. Ele nos leva para além das palavras. Quando pressionados a falar sobre o amor, procuramos atrapalhadamente pelas palavras, mas as palavras curvam-se, dobram-se, desaparecem”.

É meio que um incômodo esse negócio, e não poderia ser diferente: falar de amor é muito estranho! Até porque, eu não sei se conseguirei colocar isso em prática tanto quanto agora me sinto constrangido e motivado a falar a respeito. Mas acho que aí está a graça da coisa, não? Não saber nos tira do controle, uma vez que o amor não tem nada a ver com controle, tem a ver com vulnerabilidade e incerteza. Amar, diria Bauman, significa estar e permanecer num estado de permanente incerteza. Então, é bom falar de vez em quando. Só que melhor, bem melhor, é viver...

Jonathan

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

As pessoas não mudam (III)

3. A fé como batalha

Como a tese em questão pode coexistir de modo relativamente coerente com certa (não-convencional) visão cristã?

“Os dias às vezes parecem iguais, a guerra é minha rotina”, diz uma parte da canção “Continuar” (2008) da banda Oficina G3, idéia que me parece bem aplicável à vida cristã, uma vez que a guerra é um de seus indissociáveis elementos. Luta-se não apenas para sobreviver, mas porque se vive em uma nova ordem de vida, como já foi pontuado. Essa luta tem uma dimensão tanto interior como exterior – e aqui continuarei dando maior atenção à primeira.

A carta de Romanos (7.19) contém uma das mais nuas descrições da luta humana nesta primeira dimensão e que se resume bem na frase “não faço o bem que prefiro, mas o mal que eu não quero, esse faço”. Uma frase que pode bem ser combinada com a que afirma não haver “um só justo na terra, ninguém que pratique o bem e nunca peque” (Ec 7.20). Assim, a vida do justo é marcada por um litígio permanente contra a sua própria e inerente in-justiça. Luta sobre a qual jamais se teria sombra de vitória não fosse a graça divina, que nos basta, como afirma Paulo, mas no meio (e não fora) da batalha.

A paz – e não me refiro ao “estado de paz interior” que se oferecem como produto fácil nas diversas prateleiras religiosas, mas a verdadeira paz de Cristo, que ultrapassa todo entendimento, que é fruto da justiça – só pode ser conhecida por quem não abandona o front de batalha. Citando outra vez Frederick Buechner, “a paz não se encontra na fuga da batalha, mas em seu intenso calor”.

Dessa forma, enquanto gente e seguidor do Cristo que tento ser, luto todos os dias para viver meu chamado em meio às muitas (provisórias) contradições que em mim habitam, e contra tudo o que detesto ser, mas que ainda permanece encravado como espinho em minha carne. Sim, p-e-r-m-a-n-e-c-e... Às vezes por razões que não compreendo – “não entendo o que faço”, disse Paulo – outras tantas, por razões que tento renegar. Mas, se por um lado me sinto enfraquecido, por outro saio fortalecido; se estou sendo derrotado sob certa perspectiva (triunfalista e pragmática de fé), sob outra, baseada na graça e no poder que se aperfeiçoa na fraqueza, alcanço relances de vitória.

Então, decidi que, paradoxalmente e pela força do Espírito, buscarei ser uma pessoa que jamais desiste de perseguir a mudança a despeito de não ser capaz de mudar certas coisas – acolho e rejeito a tese em questão ao mesmo tempo. Para tanto, tenho me esforçado para aceitar quem eu sou, sem, contudo, me resignar à condição de vítima de mim mesmo; desejo não fugir e nem ignorar minha rotina humana e cristã de luta; recuso as vias do “ópio do povo” ou da cauterização da consciência, que fazem discípulos para a morte todos os dias. Entendo que reconhecer minha miséria não é sinal de desistência da luta, mas um caminho para a liberdade.

Jonathan

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

As pessoas não mudam (II)

2. A fé como paradoxo

A fim de prosseguir, quero acrescentar à tese original duas perspectivas que me serão úteis aqui: primeira, da fé como paradoxo e, em seguida, da fé como batalha.

O paradoxo da fé pode assim ser descrito: uma vez que estou em Cristo, pela fé estou e pela graça sou nova criatura, que se reveste dia após dia de uma nova humanidade – isto é, passo a ser gente conforme o tipo de gente que Cristo foi e deseja que eu seja. Nova disposição, vida nova. Ao mesmo tempo, o que é novo vai brotando em meio àquilo que é velho, mas que ainda permanece vivo e ativo em mim por causa do pecado.

Afinal, sou um novo ser ou estou a caminho de me tornar um novo ser? Ambos, talvez. Em outras palavras, sou um novo ser ainda a caminho de me tornar novo conforme a novidade de vida em Cristo revelada. Sou e estou caminhante. Como diz a bela poesia de Antonio Machado: “Caminhante, são tuas pegadas o caminho e nada mais; caminhante, não há caminho, se faz caminho ao andar...”.

Paradoxo, sim. Anomalia para alguns. Boa anomalia para a fé, visto que uma fé saudável é aquela que não tenta erradicar-se dos paradoxos (ou erradicar os paradoxos de si), mas admite (jubilosamente) viver infiltrada no meio deles. Se a fé é “loucura”, segundo a linguagem paulina, então não há porque se envergonhar de ser anomalia excêntrica, aos olhos humanos, a fim de encontrar graça aos olhos divinos.

Se a graça é esse dom divino destinado a gente torta, então não há razão para não se admitir como sendo torto e inacabado – embora isso não signifique “conformismo”. Como analisa Frederick Buechner em seu livro “The Magnificent Defeat” (1966), quando se vive pela fé “ao invés de tudo se manter tranqüilo e certo, nada é tão tranqüilo e tudo é incerto”. E não gratuitamente ou sem razão de ser, como diz ele: “Algo novo e perturbador está rompendo com algo velho. Alguma coisa está tentando nascer. E se algo novo irá nascer, a velha coisa precisa dar passagem, e há agonia no processo tanto quanto há alegria” (p. 63).

Isso mesmo. O processo em que me torno um novo ser é recheado de paradoxos, como os descritos por Buechner. A fé convive com a dúvida, enquanto as alegrias estão misturadas com as agonias. A fé cristã combina menos com o universo seguro do “só” (somente isto ou aquilo) que com o mar de incertezas do “nem só”. Assuma, concorde e aceite quem quiser e nesse caminho se reconhecer.

(Continua...)

Jonathan

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

As pessoas não mudam (I)

1. A tese em questão

Há algum tempo, meu amigo Marcos Orison, vulgo Marquinhos, vem compartilhando com um grupo (seleto) de pessoas uma tese que ele defende – talvez não exatamente nova ou original, mas certamente polêmica (especialmente em círculos religiosos) – de que as pessoas não mudam.

Em princípio, a idéia me pareceu estranha e difícil de ser sustentada, sobretudo em consonância com certo discurso teológico (alguns diriam pregação) que afirma que não há estrago que Deus não possa consertar, ou problema que Ele não seja capaz de dar jeito. E “pau que nasce torto, morre torto”? Sim e não, responderiam os defensores desse discurso. Sim, caso a pessoa se abandone a esta situação, e “não” caso se renda aos consertos da marcenaria celestial. Parece que se a fé não vier temperada com um otimismo – ou “a certeza” – em relação ao ser humano, à vida e o que a circunda, deixa de ser “fé” e passa a ser descrença, ceticismo, pessimismo ou coisa que o valha.

Nesse contexto, a fé necessita da mudança (resultados, coisas acontecendo) para ser fé. Por mais correta que pareça, esta perspectiva tende a diminuir, com o tempo, as perspectivas de amadurecimento do crente, que passa a viver uma fé estagnada (no binômio causa-efeito ou problema-solução), obtusa e “sem graça” (literal e metaforicamente falando). Esse tipo de fé, uma fé que tem os olhos e pés longe do chão, tende a perder sua conexão com e relevância para a vida de pessoas de carne e osso (pleonasmo proposital).

Voltando à tese de Orison. Sua explicação – em palavras que não conseguirei reproduzir a contento (ele precisava ter escrito isso) – é de que cada um de nós carrega cargas ou marcas, sejam elas genéticas, comportamentais e/ou culturalmente geradas, que nos acompanham sempre como um rio perene. Quando alguém se converte ao Evangelho, afirma-se que sua vida e sua pessoa mudam – na linguagem paulina, “tudo se faz novo”. Algumas coisas nesse processo, fundamentais suponho, mudarão seu curso. Passamos a apurar o nosso senso de metamorfose. O Espírito revela à nossa consciência que não somos – ou não podemos continuar sendo – o mesmo tipo de gente que costumávamos ser antes desse encontro com Cristo. Os testemunhos surgem, assim, como evidência pessoalmente narrada da mudança: antes eu era “assim”, hoje sou “assado”, sou diferente, me tornei uma pessoa melhor.

Entretanto – e aqui flerto explicitamente com a tese em questão – se observarmos com atenção, e se formos honestos o bastante, veremos que alguns espinhos de outrora continuaram cravados no mesmíssimo lugar, relutando para não sair da carne. A disposição quanto a como os tratamos pode (e deve) mudar. Mas eles, seja lá representação do que forem, continuam lá, resistentes, mesmo que escondidos ou sublimados. A transformação que a fé em Cristo e sua graça produzem não nos faz ex-pecadores, mas pecadores redimidos da inelutável (humanamente falando) escravidão do pecado.

Percebo que, de um jeito ou de outro, continuamos sendo tortos. Ainda cometemos os mesmos erros tão reprovados, ainda nutrimos a mesma espécie de mal tão detestado, e esporadicamente ainda somos tentados – nos rendendo à tentação às vezes – pelos mesmos vícios que por tanto tempo nos assombraram e que a gente achava que, com o tempo e seus tratamentos, desapareceriam. Fracasso? Desalento? Falta de fé ou de perseverança? Não necessariamente. Injetar doses de realismo na fé não significa torná-la menos fé, mas fazer dela uma fé mais honesta e humana. Então, volto a aquiescer com a tese em questão: as pessoas (realmente) não mudam... Mas, até que ponto?

(Continua...)
Jonathan

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Arruinado, ferido e ainda assim, íntegro (IV)

4. Compaixão: livrai-os de “consoladores molestos”

O que se viu até aqui em relação aos “amigos” longe está de ser uma postura de compaixão, uma vez que, de acordo com Henri Nouwen, quando nos compadecemos não nos escandalizamos com as lágrimas e o lamento do outro, não temos medo de sua dor, muito menos ocupamos uma posição de superioridade. Antes, estar com o outro implica em que nos tornemos vulneráveis, já que amar é ficar vulnerável, parafraseando C. S. Lewis. “Só estamos com o outro quando o outro deixa de ser ‘outro’ para se tornar como nós” (1).

Dessa forma, não me parece gratuita e nem sem sentido a revolta de Jó contra seus amigos, chamando-os de “consoladores molestos”, e outra vez argumentando contra a sua falta de percepção do “lugar” em que eles ocupam em comparação ao seu. É difícil se colocar no lugar do outro. Nunca poderemos ocupar devidamente esse lugar. Contudo, devemos estar conscientes pelo menos do lugar que ocupamos, e falar com honestidade a partir desse lugar, sabendo que este guarda consideráveis diferenças em relação ao lugar do outro. Nesse sentido, as palavras de Jó dão o tom de sua aversão ao “consolo” ora ofertado:

Eu também poderia falar como vós falais; se a vossa alma estivesse em lugar da minha, eu poderia dirigir-vos um montão de palavras e menear contra vós outros a minha cabeça; poderia fortalecer-vos com as minhas palavras e a compaixão dos meus lábios abrandaria a vossa dor. Se eu falar, a minha dor não cessa; se me calar, qual é o meu alívio? (16.4-6).

Sabemos do desfecho da história de Jó; não quero aqui enfatizar o desfecho, e sim o meio dessa poderosa história. Exatamente no meio dela, vemos Jó vivendo um paradoxo em pessoa (como paradoxal é a sua situação): sendo justo, sofre sem enxergar a razão de ser para tudo aquilo; tem amigos ao seu lado, mas que não conseguem demonstrar compaixão e amizade verdadeiras; teme e ama a seu Deus, porém injuria-se contra Ele por não obter as respostas que procura. Acima de tudo, em sua santa ignorância, continua defendendo seu procedimento de franqueza com Deus, não obstante sua evidente falta de esperança (13.15).

Jó não se rende a explicações simplistas, nem aos jogos de barganha de seus amigos. Ele leva o Senhor a sério demais para aceitar se relacionar dessa forma. Ao mesmo tempo em que se vê justo, não deixa de reconhecer a sua miséria. Exatamente porque crê que seu redentor vive, não se furta em expor sua queixa e descontentamento perante Ele. Jó foi honesto com Deus e com seus sentimentos e pensamentos humanos!

E nem havia porquê ser diferente. Deus é Deus, e não será menos Deus por causa de nossas dúvidas, injúrias, questionamentos ou lamentos. Até porque, lamento não é (necessariamente) pecado ou blasfêmia. Ademais, creio que Ele é suficientemente capaz de lidar com a nossa revolta e de compreender nossas fraquezas. Ele não precisa do trabalho de guarda-costas dos amigos de Jó, nem sua ação se traduz na imaculada “teologia moral de causa-efeito”. Deus foi gracioso e amoroso o bastante para receber as queixas de seu filho Jó e dar a elas o tratamento adequado a seu devido tempo, sem precisar de outras pessoas fazendo o “trabalho de Deus” e nem torturar Jó numa inquisição sem fim porque ele demorou tanto para entender os propósitos divinos.

A compaixão é a antítese do dispensável trabalho dos “consoladores molestos” e um passo adiante para uma vida íntegra e honesta com Deus, consigo mesmo e com os outros.

Podemos ser compassivos: sofrendo junto, não fazendo tribunal com o desespero de quem sofre e reclama por sofrer; respeitando seus processos; ouvindo, não julgando, ficando vulnerável, valorizando a honestidade, oferecendo um espaço aberto de acolhimento às queixas do outro, não importa como elas se apresentem; não estranhando nem se escandalizando com aquilo que é humano; considerando a complexidade da situação, ao invés de se render a respostas simplistas; falar apenas o que o bom senso mostrar ser necessário e cabível; calar-se, às vezes a maior parte do tempo, entendendo que estar presente é o mais importante. Em nossa presença, Deus se faz presente para o outro.

Notas

1 - NOUWEN, Henri. Mosaicos do presente. São Paulo: Paulinas, 1998, p. 101.

Jonathan

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Arruinado, ferido e ainda assim, íntegro (III)

3. O que é complexo não pode ser tão simples

No pensamento de quem está seguro, há desprezo para o infortúnio, um empurrão para aquele cujos pés já vacilam (Jó 12.5).

Há quase vinte anos, o já falecido escritor holandês Henri Nouwen, autor de vários livros sobre espiritualidade, muitos deles retratando o sofrimento humano e, mais particularmente, a si mesmo como um homem experimentado no sofrimento, defendeu uma idéia, que aparece em alguns de seus livros, de que em nosso mundo a alegria e a tristeza são vistas como duas realidades em oposição. “De fato”, afirma ele, “a sociedade contemporânea faz todo o possível para separar a tristeza e a alegria”. Por esta razão, conclui, “a tristeza e a dor devem ser evitadas a todo custo, porque são o oposto da alegria e do contentamento que desejamos” (1).

Cada vez que observo o comportamento humano (incluso a mim mesmo) frente ao sofrimento, mais me convenço do quanto Nouwen estava duplamente certo. Primeiro, em afirmar que nossas experiências pessoais com a dor tendem a nos distanciar da admissão de uma (possível) coexistência com experiências de contentamento rejeitando, assim, o caminho do aprendizado da integridade cristã, como vemos em Paulo: “Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação” (Fp 4.11). Segundo, ao defender que a alegria divina não elimina o divino pesar, e de que em Cristo vemos o homem de todas as dores e, ao mesmo tempo, da total alegria. Embora esta possa parecer uma perspectiva por demais idealizada e, de certo modo, distante da realidade não só do que desejamos em termos de “vida feliz”, como do tipo de vida que cremos sermos capaz de sustentar, ainda assim me parece a mais coerente com o caminho de Jesus, que está em evidente contraste com a visão mundana – e paradoxalmente, até com a visão cristã (parte dela).

Mesmo se tratando de um objeto de alta complexidade, a visão religiosa tende a sublimar as experiências de sofrimento ao apresentar respostas para aquilo que nem mesmo Deus quis dar maiores explicações – pelo menos não de modo tão simplista – e ofertando alívios esporádicos, genéricos e ineficazes à dor. No meio disso tudo, Deus se torna moeda de barganha e solução para todos os males, desde que se tome corretamente o caminho da cura mais próximo de você. Vejamos um exemplo disso outra vez em um diálogo entre e Jó e seus “amigos”.

Assumindo que o problema de Jó advinha da iniqüidade que ele recusava a admitir que havia cometido, Zofar oferece a seguinte solução, quase como uma formula mágica de cura e esquecimento do sofrimento:

Se dispuseres o coração e estenderes as mãos para Deus; se lançares para longe a iniqüidade da tua mão e não permitires habitar na tua tenda a injustiça, então, levantarás o rosto sem mácula, estarás seguro e não temerás. Pois te esquecerás dos teus sofrimentos e deles só terá lembrança como as águas que passaram (11.13-16).

Em sua defesa, nosso anti-herói, Jó, tenta demonstrar como as palavras de quem se encontra em lugar seguro podem ser repetições vãs e vazias de sentido, insensíveis, ausentes de solidariedade e desonestas para com quem vivencia na pele a condição retratada:

Como vós o sabeis, também eu o sei; não vos sou inferior. Mas falarei ao Todo-Poderoso, e quero defender-me perante Deus. Vós, porém, besuntais a verdade com mentiras e vós todos sois médicos que não valem nada. Tomara vos calásseis de todo, que isso seria a vossa sabedoria (...) As vossas máximas são como provérbios de cinza, os vossos baluartes, baluartes de barro (13, 4-5, 12).

Na teologia dos amigos de Jó não há lugar para o paradoxo. Segundo suas formulações, tudo na vida praticamente ocorre segundo a lógica de causa-efeito (2); se está sofrendo, certamente é porque pecou; se o mal dura mais que o suportável e aceitável, na certa é provação divina, ou é porque a sua fé em Deus deve estar naufragando e você tem orado e jejuado pouco, só pode ser; se deseja fazer passar a dor que não cessa, deve buscar a Deus com todo fervor, abandonar o caminho de pecado, e logo tudo estará resolvido. Para piorar, Elifaz ainda acusa Jó de fazer pouco caso das “consolações de Deus” (de Deus, ora essa!) e das “suaves palavras” a ele dirigidas (15.11). Percebe-se que os amigos estavam ali como emissários do Altíssimo para consolar Jó, ocupando, assim, um grau mais elevado que ele numa dada escala da humanidade – daí tantas vezes Jó insistir em não ser em nada “inferior” a eles.

Notas
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1 NOUWEN, Henri. Mosaicos do presente. São Paulo: Paulinas, 1998, p. 33.
2 Caio Fábio batizou a teologia dos amigos de Jó de "teologia moral de causa-efeito". Para maiores esclarecimentos e aprofundamento, ver: FÁBIO, Caio. O enigma da graça. São Paulo: Fonte Editorial, 2002.
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(Continua...)

Jonathan

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Arruinado, ferido e ainda assim, íntegro (II)

2. No hospital entre o Pronto Socorro e a UTI

Um dos lugares em que mais escancaramos nossa inadequação e escândalo diante da dor humana é o hospital. Pense em uma UTI e em um Pronto-Socorro. Que é difícil se ver confortável estando em um hospital, isto é fato. Mas numa UTI, como o nome mesmo diz, o paciente está em terapia intensiva, muitas vezes sedado, e vive um sofrimento mudo. A UTI é um dos últimos estágios, o próximo possivelmente será o óbito. Mas o paciente pouco tem a chance de externar seu sofrimento. Já o pronto socorro é o local onde ouvimos os berros, murmúrios e agonias dos pacientes que geralmente estão vivendo o mais alto nível de adrenalina da dor. Se for um paciente do SUS (Sistema Único de Saúde), esse estado geralmente se prolonga, pois grande é a demanda e precárias as condições de atendimento.

Pode parecer esquisito o que vou dizer, mas tenho a impressão de que tendemos a nos sentir mais confortáveis com a calmaria e o sofrer silente da UTI que com a gritaria e as feridas expostas do pronto socorro. No primeiro caso, o paciente pode estar muito mais próximo da morte e lentamente caminhando para ela, mas o silêncio traz consigo a sensação de estabilidade. No segundo caso, pode-se nem falar em morte, mas o controle da dor é menos intenso, e o resultado pode ser o sofrimento exposto, nu e cruamente. As feridas e a lamuria de Jó desvelaram seu pior lado no entender de seus amigos, o lado de quem passa a depreciar o dia de seu nascimento, desejar a morte e a questionar e contender contra o próprio Deus.

Jó estava em pleno pronto socorro de sua saúde física, emocional e espiritual, e aquilo incomodara profundamente seus amigos. “Vedes os meus males, e vos espantais”, o afirmou ao contemplar o visível escândalo de seus amigos. Como um justo, temente a Deus, pode chegar a uma situação como a de Jó? Se ele de fato era justo, a única saída não seria exclamar: “Isso é um absurdo!”, visto que “absurdo” seria o contexto em questão? Contudo, outra saída encontraram os amigos da onça: a de não admitir que um crente “verdadeiro” e inocente possa ter chegado a um pronto socorro. O sofrimento de Jó era efeito de uma causa única: o seu pecado. Eis o veredito de Elifaz: “Lembra-te: acaso já pereceu algum inocente? E onde foram os retos destruídos? Segundo eu tenho visto, os que lavram a iniqüidade e semeiam o mal, isso mesmo eles segam” (4.7-8).

Se a fé de Jó estava no pronto socorro, onde (de fato) estaria a de seus amigos? Bem longe do pronto socorro, certamente, pois nunca admitiriam ali estar – a fé do verdadeiro crente deve estar sempre vibrante e triunfante, não é assim? Se eles estivessem ali, padecendo junto, jamais repreenderiam as palavras desesperadas de Jó. Como ele mesmo indagou: “Acaso, pensais em reprovar as minhas palavras, ditas por um desesperado ao vento?” (7.26).

Em suma: a teologia dos amigos de Jó racionaliza tudo, até mesmo o clamor do desespero. Mas a teologia da vida ignora raciocínios e parcas compreensões na hora da dor, uma vez que se recusa a exprimir o inexprimível, ou tentar expelir um câncer com analgésicos. A teologia dos amigos de Jó, por sua vez, é capaz de reprovar a fé de quem se encontra no pronto-socorro enquanto a fé deles (religiosos de carteirinha) faz morada permanente na UTI. A teologia da vida deve nos fazer abraçar a dor, mesmo que ela não seja a nossa, e a não querer realizar tribunal em meio ao desespero humano. O desabafo requer acolhimento, sem maiores explicações.

(Continua...)

Jonathan

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Arruinado, ferido e ainda assim, íntegro (I)

1. Sorte ou azar? Quem sabe...

Resolvi iniciar mais um ano relendo o Livro de Jó, personagem dos mais humanos e fascinantes da Bíblia. “Mas justo Jó! Não dá azar ler Jó logo no início do ano?”, diriam os “crentes” mais supersticiosos – por mais caricato que pareça, há quem pense assim, afinal, como diria Gonzaguinha, “ninguém quer a morte, só saúde e sorte”.

Sorte e azar são coisas que acompanham nossos discursos sobre a vida. Há quem se renda de modo literal ao poder deles. Eu, porém, creio que minha sorte está em poder aprender com todas as circunstâncias de vida, sobretudo com as adversas, e que a adversidade não precisa ser sinal de “azar”, mas sim de que estamos vivos e somos humanos – contingentes, e não necessários. Como na música da Legião Urbana, “o sol nasce pra todos, só não sabe quem não quer”, ou só não sabe quem está alienado demais pra saber.

Quero aqui destacar um dos temas que perpassam a jornada de Jó, a integridade. Há quem use o termo como sinônimo de honestidade. A palavra, porém, indica algo maior. “Integridade” é predicado do que é inteiro, completo, indissociável. Uma das marcas da pessoa íntegra está na indissociabilidade entre suas palavras e suas ações, entre o discurso e a vida. Nesse sentido, não é preciso ser “bonzinho” para ser íntegro. Aquele que é injusto, perante certa sociabilidade, pode ser mais íntegro até mesmo que o suposto justo.

Um exemplo está em Jesus ter escolhido publicanos, prostitutas e samaritanos, injustos e indignos como exemplos maiores de integridade (“pérolas do reino”) que os justos de sua época (religiosos). Isto, pois eles são o que são, sem fingimento e “sem cera”; e na condicionalidade do que são é que dependem da graça e compaixão divinas. Já os religiosos, querem demonstrar ser o que não são, e na condicionalidade do que não são, mas afirmam ser, não apenas anulam sua dependência de Deus, como colocam fardos pesados sobre os ombros dos outros, fardos que nem eles carregam, denotando sua hipocrisia (falta de integridade).

O íntegro (ou que persegue a integridade), porém, sabe muito bem quem é e não teme assumir o que é diante de Deus e dos homens. É o caso de Jó. Mesmo arruinado e profundamente ferido, conseguiu se manter mais íntegro que seus “mui amigos”, Elifaz, Bildade e Zofar. No início, ao se deparar com a dor do amigo, até fizeram o que é certo, choraram juntos, mantendo-se em silêncio. Diante da dor... o silêncio! Mas quando Jó abre a boca e começa a escancarar seu coração e a lutar com Deus, tudo muda de figura, os amigos se escandalizam – e eu que sempre achei que amigos não se escandalizam quando a gente se expõe. Como disse o próprio Jó a seus amigos, “ao aflito deve o amigo mostrar compaixão, a menos que tenha abandonado o temor do Todo-Poderoso” (6.14). Por isso, nem todo o que se diz “amigo”...

(Continua...)
Jonathan