quinta-feira, 24 de julho de 2008

Parodiando o mal

É possível ao ser humano parodiar (ou interpretar) o papel de um "mal" sem ser direta ou indiretamente afetado por ele? Essa é uma das perguntas que me fiz ao assistir a atuação do Coringa (Heath Ledger) no filme “Batman – O Cavaleiro das trevas”. Muito se falou sobre o desempenho de Ledger nos meses que precederam a estréia do filme, especialmente em virtude de sua misteriosa morte, em Janeiro desse ano. O diagnóstico “oficial” para o falecimento (“overdose acidental de medicamentos”) parece não ter convencido muitas pessoas, que até agora tentam buscar uma explicação moral, psíquica e até espiritual para a morte do jovem ator, que alguns meses antes havia adentrado na pele do novo coringa, de versão mais sombria, sarcástica, ousada, inusitada, inteligente, assustadora, e por aí vai – criada também pelo próprio ator.

Ora, muito se discutiu e ainda se vai discutir a respeito, não tenha dúvidas disso. Assisti ao filme ontem e achei o papel do Coringa no filme simplesmente brilhante, fora de série, sem dúvidas um dos pontos altos da trama. Já se fala nos bastidores que o ator receberá uma indicação póstuma ao Oscar. É esperar para ver. Mas, voltando à questão inicial, enquanto assistia ao filme, fui-me lembrando das muitas especulações que ouvi sobre a morte do ator, que, em suma, gravitaram em torno não de um acidente, mas de um possível suicídio; alguns acreditam que ele vivenciou tão intensamente o papel que acabou não resistindo à complexidade de se encarnar o mal. Esse parece ter sido o espectro do também ator Jack Nicholson, que, comentando a morte de Ledger, disse em tom sarcástico: “Eu o avisei” (Fonte: The New York post).

Não posso dizer nem que sim e nem que não. Tudo não passa de especulação, especialmente pra quem acompanha tudo de tão longe. E a minha questão aqui não é diagnóstica (o caso de Ledger ou Coringa é apenas uma ilustração), é existencial mesmo. Lembro-me de uma passagem da introdução das Cartas do Diabo ao seu Aprendiz, de C. S. Lewis, em que esse autor relatava o quão tentador e perigoso foi para ele tentar pensar “com a mente do Diabo”; criar – a partir de seus conhecimentos – um arquétipo das trilhas que o mal percorre para chegar a seus fins. E me pergunto se terá sido diferente para Ledger? Nunca vamos saber ao certo... Nem Jesus se permitiu ceder aos apelos e paródias do mal (Lucas 4). Será o ser humano capaz disso, sem nenhum tipo de lesão? Não sei se esse foi o caso de Ledger e nem estou aqui para afirmar isso. Mas eu, particularmente, não acredito que tenhamos tal capacidade de distanciamento. E prefiro não pagar para ver...
Jonathan

2 comentários:

Fabiane disse...

muito instigador o teu texto. creio que quando nosso referencial não é Cristo, perder o prumo pode ser mais fácil do que imaginamos.
muito legal teu blog. :)

Telma disse...

A impressão que dá é que ele,já não estava bem emocionalmente falando.Problemas pessoais provavelmente.O lado mal do coringa foi apenas mais um fator que pesou.
Concordo com Fabiane.Bacana seu blog. :o)