sexta-feira, 23 de maio de 2008

Sobre transgredir a si mesmo (II)

Dias atrás um amigo questionou-me sobre minha aparente “obsessão” por Henri Nouwen. Por que Nouwen? Respondi-lhe prontamente que esse autor me fascina pelo modelo de ser humano que ele foi: honesto, sensível, compassivo, e um gênio com as palavras. Sua forma de falar abertamente sobre suas feridas expostas, sangramentos da alma não estancados, traumas e carências mais latentes é simplesmente admirável, especialmente vindo de quem vem – um padre, brilhante escritor, professor e conferencista renomado.

Nouwen certamente mostrou a todos o significado de transgredir a si mesmo. Ele não privou ninguém de suas dúvidas mais prementes, tampouco de seu eu-ferido, bem como de seus fardos e sobrecargas. Isso se destaca na passagem seguinte, escrita por ele:

Após dez anos vivendo com pessoas deficientes mentais, tornei-me profundamente consciente de meu coração repleto de tristeza. Houve um tempo em que dizia: “Anoque vem vou resolver tudo isso”, ou “Quando me tornar mais maduro, essesmomentos de escuridão irão desaparecer”, ou “A idade vai diminuir minhas carências emocionais”. Mas agora sei que minhas tristezas são minhas e jamais me deixarão. Sei que são muito antigas e muito profundas, e não há pensamento positivo ou otimismo que possa diminuí-las. A luta adolescente para encontrar alguém que me ame ainda está lá; necessidades insatisfeitas de afirmação de um jovem permanecem vivas em mim. (...) Além de tudo isso, experimento profunda tristeza por não ter me tornado quem eu queria ser, e porque o Deus para o qualtenho orado tanto não me deu aquilo que tanto desejei.

(“Podereis beber do cálice”, p. 31).


Diante de suas confissões tão sinceras e abertas e da forma “jubilosa” com que aceita suas dores, percebo que minha aproximação com Nouwen não é gratuita e nem é apenas fruto de admiração intelectual. Falo da forma como Nouwen trata o sofrimento como uma maneira de projetar uma frustração pessoal: a de ser tão pouco resistente ao sofrimento, de minha fuga da dor e do desconforto, de minha baixa imunidade às frustrações inerentes ao viver. Percebo que transgredir a si mesmo passa pela desconfiança do óbvio, do dado, do ponto pacífico; é mergulhar profundamente na realidade de quem somos, por mais penosa e desagradável que seja.
Jonathan

2 comentários:

Rita Rosa disse...

Como é bom encontrar alguém que pensa como a gente pensa... Também sou apaixonada por Nouwen. Justamente pelo fato de "assumir-se". Talvéz, só depois de muito tempo, percebi tarde demais que não faz mal nenhum ser quem sou. Foi difícil essa "transgressão", mas necessária, ou melhor, não tive outro caminho... Um abraço...

Jonathan Menezes disse...

Fico feliz em saber que temos uma referência em comum, rita, e mais ainda em saber que essa referência é o Nouwen. Para mim também é muito difícil esse mergulho em si mesmo, em aceitar minhas debilidades de maneira "jubilosa", e aprender a potencializá-las para o bem, tanto quanto fez Nouwen. Se aprender um pouquinho desse caminho, estarei feliz.
Abraços!