quarta-feira, 4 de abril de 2012

Diálogo sobre a frase de John Piper (II)



Excelente e assertiva análise, caro (e claro) Vanderlei. Você está certo, quando diz que “atirei” – embora não sei se concordo com o "à queima roupa", que pode significar muita coisa. Meu texto é franco atirador mesmo, porque o escrevi com a pena em chamas, por querer provocar o pensamento (e acredito que provoquei) e por estar farto deste tipo de doutrinismo, com a qual lido desde que me conheço por gente. O processo de libertação disso é longo, meu amigo, quase como se livrar de um câncer. 

Não é que desconsidero o todo, entendo o que você diz. É que, quando escrevi isso, não estava preocupado em considerar “todo” algum, somente a parte que me interessava desconstruir – o que certamente não inclui o aspecto intercessório da oração, muito menos o aspecto de que temos de dedicar “algum tempo” (relativo) para isso. Só me recuso à redução disso (a oração) a fórmulas e padrões universais, ou mesmo da qualidade da vida do orante somente ao tempo dedicado. Não há dúvidas de que o tempo também influi – um exemplo disso está em como tendemos a nos focar mais na oração quando um infortúnio nos atinge, seja diretamente ou indiretamente, por meio de alguém que conhecemos ou que muito nos é caro(a).

Estava lendo “A amizade com Deus”, de Segundo Galilea, e ali ele dizia que a oração cristã não é, primeiramente, uma questão de quantidade de tempo, uma vez que a atitude (vida) e a qualidade têm prioridade, mas é também uma questão de tempo. O que ele quer dizer, a meu ver, é que uma não exclui a outra; o foco e o tempo que investimos em oração são o que nos permite manter, mais tranquilamente, a atividade de orante ao longo da vida, sem ter que fazer reserva pro jantar. Mas, como você disse, a vida pela graça nos lembra que estamos sempre em débito com nossa amizade com Deus (o que inclui, a vida de oração), ao mesmo tempo que retira de nós todo o peso do débito, nos conduzindo aos poucos a um caminho mais libertador, de gratidão e de vida. É um paradoxo com o qual temos de lidar, sem fugas nem subterfúgios tolos. 

Assino embaixo no que disseste no último parágrafo, perfeito. Também quero aprender a viver em oração na perspectiva daquele que sofre, e sentir junto a dor, encomendando-a(o) a Deus, o único capaz de sentir e de ver o todo. Eu, porém, só vejo em parte e em parte sou visto. Compreendo sua interpretação da frase de Piper pelo “outro lado”, mas ainda continuo defendendo que este lado não é o mais forte da frase, considerando o conjunto da obra de seu autor. Se você tivesse escrito a frase, talvez pudesse eu ser mais bem convencido dessa tão elucidativa explanação.

Por fim, aproveito para citar outra excelente análise, feita por Galilea no livro mencionado:
Na amizade, o essencial é a atitude permanente para com o amigo, mais que o número de vezes que com ele encontremos. E também é mais importante a qualidade do encontro e do tratamento, que sua quantidade. De maneira semelhante, é mais importante o espírito de oração, que as práticas de oração (embora estas sejam necessárias para manter aquele). E é mais importante a qualidade do tempo de oração que sua quantidade; a determinação de entregar-se à vontade de Deus, que o simples ‘cumprimento’ de horas de oração (p. 39). 
Um abraço e obrigado pela tão construtiva reação.

Jonathan

3 comentários:

Sidney Menezes disse...

Acredito que os pontos abordados tanto neste post como no outro tocam em facetas específicas desse "todo" que chamamos de oração. Concordo com o Jonathan quando fala de oração como algo relacionado com vida, conclusão esta que acredito se encaixar perfeitamente no famoso 1 Tes 5.17. Concordo também com Vanderlei quando fala de oração intercessória e o tempo devotado a ela. Porém, o foco do primeiro texto (Uma rápida sobre a frase de John Piper)não é a oração, mas concepções teológicas tacitamente aceitas. Não sendo o foco a oração e os textos somente tocam pontos da desse "todo", todos os textos são tiros que saíram pela culatra, uma vez que ela é muito mais abrangente que os pontos abordados. A resposta do Vanderlei (Diálogo sobre a frase de John Piper (I))por essa visão não se justifica, uma vez que acredito que o jonatam não pretendia falar das profundezas da oração , e falando dela, saímos do foco original do post.

Como agora os ultimos dois textos se focalizaram na oração, concordo com as visões acerca dela já supracitadas e quero levantar outra visão, de antemão já digo que não pretendo abordar todas as facetas desse "todo", mas tocar somente no fator "tempo" de oração. Acredito que devemos sim devotar tempo à oração, embora este tempo não seja a medida de nossa fé, comunhão e etc. Momentos de solitude e oração são importantíssimos, vemos Jesus gastar com ela. Além disso, quando se fala em vida Cristã devemos devotar nosso tempo não só a oração, mas ao estudo bíblico, jejum, comunhão. Ressalto que nada disso deve ser termômetro da essência da vida Cristã, mas consequência...de forma que o fator "tempo" não deixa de ser importante, embora não seja mas importante do que o fator "vida". Mas, pelo fator "vida" não se deve menosprezar o fator "tempo"de oração( Eu sei que o Jonatan não quiz dizer isso). Não quero com isso deixar transparecer que deve-se gastar horas e horas orando, mas que tirar um tempo a ela é bíblico. Não gasto muito tempo orando, mas vivo orando onde estou, seja um minuto ou uma hora, esse tempinho que uso para ter um abordagem objetiva com Deus é primordial. Se necessário posso citar vercículos sobre a ideia de tempo em oração, mas acredito não se fazer necessário.

É claro que sei que tanto o Jonatam como Vanderlei não ignoram o fator "tempo", só queria tocar nele, já que cada um tocou em um ponto desse "todo orativo"....rsrsr


Não sei se ficou claro, mas não estou afim de escrever muito, espero que a discussão se prolongue, pois ela é pertinente.

V. Frari disse...

Prezado Sidney,

Obrigado pela cooperação, especialmente no sentido de encontrar os pontos de convergência entre Jonathan e eu.

Creio que o Jonathan atacou, primariamente, a concepção teológica de Piper, mas para isso precisou recorrer à sua própria concepção acerca da oração. Logo, não vejo que houve fuga do post original ao iniciarmos uma conversa sobre a natureza desta prática tão bem-aventurada.

Temos que fazer justiça à teologia do reino do norte. Para ela, tempo de oração não é uma questão de imposição divina, mas um meio de produção. Sem dúvida, a frase de Piper denuncia essa percepção. O protestantismo euro-americano, apegado ao trabalho (como bem delineou Weber), sequestrou a oração da contemplatividade mística medieval e lhe deu um caráter laborativo. Orar é produzir e, portanto, neste sentido, “tempo é dinheiro”. É claro que o lucro advindo de tal labor se traduz nas almas convertidas ao Evangelho, no crescimento da Igreja, nos avivamentos periódicos e no estabelecimento do Reino de Deus. Destaco que em nada isso é negativo, mas não faz jus à riqueza da oração, no sentido bíblico do termo.

Outro fator a se considerar é que a oração – especialmente nas teologias holiness, mas também nas reformadas – é entendida como meio de purificação da alma e do corpo. Esta percepção está presente na ascese mística medieval, mas nesta era consciente, ativa e intencional. O modo de pensar de alguns protestantes pragmáticos anglo-americanos é diferente: esta purificação acontece de forma quase passiva e inconsciente – uma espécie de transformação osmótica ou radioativa. Assim, quanto mais tempo expostos à presença divina, maior a purificação – ainda que isso seja feito em meio a devaneios da mente, exaustão física ou tédio. Novamente, tempo é importante, de acordo com essa teologia.

O equívoco aqui, entre outros, é situar Deus em um momento ou local, não o reconhecendo em toda a vida. Além disso, a compreensão que se tem de purificação não passa pelos processos dinâmicos da experimentação, retração, reconhecimento, tentativa, sofrimento, êxito, etc. É um processo que não passa pela filtragem da vida – algo dinâmico, fluido e forçado –, mas pela decantação. Ora, sabemos que água decantada “parece” limpa, até que seja agitada novamente.

Portanto, a prática da oração não deve desprezar os aspectos positivos dos sentidos laborativo e contemplativo, mas deve ser encarada, também, como um processo contínuo, não contingencial, auto-reflexivo, terapêutico, solidário e dialogal.

Espero ter jogado um pouco mais de pimenta neste molho.

Jonathan Menezes disse...

Excelentes comentários. Ele continua nos próximos posts, com esta resposta do Vanderlei e mais um texto meu. Obrigado pela colaboração!
Jonathan