domingo, 5 de outubro de 2008

Semanal de Amsterdam (V): relances e espaços de liberdade

Now the Lord is the Spirit, and where the Spirit of the Lord is, there is freedom” (2 Corinthians 3.17).

Não é estranho a ninguém que relativamente acompanhe aquilo que escrevo ver mais uma reflexão sobre a liberdade e suas múltiplas facetas. Todavia, quero que vocês estejam certos (as) de que nessa semana não fui eu quem foi atrás desse tema, mas ele é que outra vez “caiu no meu colo”. E tudo aconteceu na última sexta-feira (03), na aula “Text and Context” ministrada pelo Prof. Hans de Wit. Foi um dia especial, pois recebemos um grupo de professores e estudantes de teologia de Cuba, na intenção de que eles compartilhassem um pouco de seu contexto e o que significa fazer teologia lá, ao mesmo tempo em que pudéssemos responsivamente aos relatos levantar um debate, com perguntas e também comentários referentes ao contexto dos alunos do “Bridging Gaps”.
De cara posso dizer que foi a melhor classe “ever”, desde que cheguei aqui em Amsterdam. Em primeiro lugar, pelo clima de fraternidade e empatia que se estabeleceu entre nós e “nuestros hermanos” de Cuba, desde os primeiros minutos, quando um dos professores começou seu tocante relato sobre a situação política e social de Cuba, desde a transição de poderes entre os irmãos Fidel e Raul Castro, até as formas de pensar teologia decorrente ou em diálogo com seu contexto. Havia grande expectativa por parte da população quanto às possíveis mudanças que essa transição poderia acarretar. Porém, muitas das mudanças até aqui não passaram de simulacro. Raul assumiu o poder, mas Fidel ainda exerce grande influência nas tomadas de decisão políticas e tem encontrado formas sutis de exercer seu “poder simbólico”, como expondo suas opiniões em jornais e periódicos semanalmente ou até diariamente. Fidel é mais que um líder em Cuba; ele já se tornou um ícone popular, figura incrustada no imaginário da cultura daquele país, e ali figurará ainda por muito tempo...
Em segundo lugar, pelo aparecimento do tema da liberdade nas muitas falas e diálogos. Liberdade é sempre um conceito relativo e muito complicado no contexto de Cuba, por exemplo. A teologia da libertação assumiu esse tema nos anos 60 para declarar seu engajamento com as lutas sociais na América Latina, em especial com a causa dos pobres, associando isso à liberdade do Evangelho. Porém, em Cuba esse discurso seria encarado como algo “fora do lugar”. Teoricamente, desde a revolução cubana dos anos 50, não há mais pobreza – no sentido de grandes desigualdades sociais – e a libertação já foi instaurada. Mas é claro, não ser pobre em Cuba significa ter as condições mínimas de sobrevivência – alimentação, trabalho e um salário, que no Brasil seria visto como “salário de fome”. Assim, o que é afinal a liberdade para essa gente cubana? Um irmão disse: “Em Jesus Cristo me sinto livre. Por outro lado, em Cuba os líderes dizem: ‘você pode pensar e fazer o que quiser, desde que seus pensamentos e atos não atrapalhem nem contradigam a ordem estabelecida”. E citou a famosa frase dita por Fidel: “Dentro da revolução tudo; fora da revolução nada”.
Entretanto, o conceito de liberdade não é somente relativo em Cuba, mas em qualquer contexto. Já comentei um pouco em outros semanais sobre a tão celebrada liberdade da qual gozam os holandeses. E esse foi um tema também levantado no debate de sexta: como pode um povo que se julga tão livre, como o povo holandês, ser tão cheio de regras, como a de instalar câmeras de “segurança” por todos os lados (ruas, trens, bondes, ônibus, supermercados, etc.)? O “Grande Irmão” de George Orwell (1984) está por todos os lados aqui em Amsterdam, com seus enormes olhos, instaurando uma “liberdade vigiada”, por assim dizer. Zygmunt Bauman diria que não é possível se ter as duas, liberdade e segurança, ao mesmo tempo, sem que uma não acarretasse algum prejuízo a outra. Não existe nenhuma liberdade humana sem problemas, sem roturas, sem limitações. E é por isso que esse encontro foi tão marcante para mim. Primeiro, porque mais uma vez denunciou as fissuras da liberdade humana e a relatividade desse conceito; segundo, pois também oportunizou um espaço livre, onde tantas nacionalidades diferentes se reuniram a uma e na presença do Espírito para debater seus contextos e experiências à luz da fé, e também compartilhar de “sonhos de liberdade”, tão possíveis no Senhor.
Uma cubana disse: “Gostaria que as mudanças viessem de nós mesmos, e não de fora”. Outro disse: “Eu sonho que a igreja venha levantar sua voz intrepidamente contra essas características do sistema que são anti-Deus”. E por fim, outro irmão rogou: “Que a igreja possa criar espaços de liberdade como esse, onde se possa criticar e propor soluções abertamente sem medo de repressão”. Sonhos... Sonhos que fazem sentido tanto às mulheres de Mianmar, a quem são vetados muitos direitos humanos básicos em seu país, como ao povo de Cuba e a tantos outros. Como diria Jürgen Moltmann, a liberdade é paixão criadora pelo possível. E que continuemos criando e recriando possibilidades, na paixão pelo Evangelho e pelo poder do Espírito.
Um beijo e até a próxima.
Jonathan
Foto: (Bridging Gaps e os visitantes de Cuba, na Free University)

2 comentários:

Ricardo Wesley M. Borges disse...

Olá mano,
Andei um tempo sem te visitar por aqui e me surpreendi agora com uns interessantes textos desde Amsterdam. Que fazes por aí, mano?
Forte abraço!

Jonathan Menezes disse...

Querido Malária,
como vai? Respondendo a sua pergunta, estou aqui em Amsterdam para um período de três meses, de estudos na Free University. Trata-se de um programa chamado "Bridging Gaps", coordenado pelo Prof. Hans de Wit, e que já existe há 10 anos. Estou aqui com outros 12 alunos de todas as partes do mundo pra dialogar sobre hermeneutica missional à luz de nossos contextos. Estou participando de algumas classes, visitando igrejas, fazendo pequenas excursões e ao final terei de apresentar um paper, acerca de meu objeto de estudo aqui: "Convergências e divergências entre os movimentos evangelical e ecumênico". É uma parte de um projeto que vimos desenvolvendo na FTSA, com mais dois professores, sobre a História da Missão Integral Latino-Americana no Brasil, que esperamos que saia em livro em breve.
Bem, em resumo é isso. Tem sido uma experiência muito interessante e tenho crescido muito com ela. Um pouco está relatado nos cinco semanais já postados no blog. Cibele vem pra cá nos últimos 10 dias, pra passear, e aí voltamos juntos pro Brasil em 25/11.
É isso mano. Deus continue abençoando você aí em terras uruguaias.
Abração e lembranças a Rute e as meninas.
Com carinho,
Jonathan