sexta-feira, 13 de junho de 2008

Nietzsche e o cristianismo (III)

Terceira crítica: O cristianismo é inimigo do corpo, do humano e da vida

Uma das grandes vitórias do “Coisa-Ruim” em relação ao cristianismo está no fato dessa religião ser, em tese, a origem explicativa para a questão do prazer e, na prática, o meio mais eficaz de sua depreciação. Religião e prazer, nesse sentido, são antônimos, nunca se cruzam. No cristianismo, o corpo é apenas um instrumento imperfeito através do qual Deus quer que nossas almas elevadas sejam, por meio de muita abnegação, luta e auto-flagelação, levadas à perfeição cristã (John Wesley). Só que essa busca de perfeição, tantas vezes, é transformada em neurose de perfeição, de modo que o indivíduo vai sendo neuroticamente conduzido a uma vida de privações ao corpo, ao prazer (visto como maldição) e a ver as coisas naturais como profanas e rechaçáveis, dando valor apenas às coisas sobrenaturais.

Essa é uma outra questão crucial para a ruptura de Nietzsche com o cristianismo. Para ele, a religião da clemência, piedade, castigo, penitência, redenção, remissão de pecados, juízo final, etc., é um mundo de ficções. “Depois que o conceito ‘natureza’ foi inventado como contra-conceito para ‘Deus’, ‘natural’ tinha de ser a palavra para ‘reprovável’ – aquele inteiro mundo de ficções tem sua raiz no ódio contra o natural” (Nietzsche, 1978, p. 348). Mal sabia (porque mal havia sido informado pela igreja de seu tempo) que Deus não é inimigo do natural, mas criador e amante crônico de tudo o que é natural, a começar pelo ser humano. Afinal, Ele criou e com o propósito de amar. Como poderia Deus ser a antítese daquilo que foi formado à sua imagem e semelhança? O problema não está em Deus, que concedeu muitas coisas boas para que o homem delas gozasse, mas no próprio homem, cujo coração corrompido não soube utilizar com responsabilidade das dádivas proporcionadas por Deus, e no cristianismo, o qual, em função do mau-uso feito pelo homem, não apenas condenou os atos, como também as coisas em si (sexualidade, prazer, humanidade, natureza, etc.), que Deus havia declarado que eram “muitos boas” no Princípio.

Tudo isso, para Nietzsche, fez de Deus uma idéia a ser abolida, e do cristão, apenas um judeu de confissão ‘mais livre’ (Nietzsche, 1978, p. 355). Ele também critica essa tendência da igreja de seu tempo de açoitar, condenar, difamar e suspeitar de tudo o que fosse Humano, Demasiado Humano: “É fácil ver como os homens se tornam piores por qualificarem de mau o que é inevitavelmente natural e depois o sentirem sempre como tal. É artifício da religião, e dos metafísicos que querem o homem mau e pecador por natureza, suspeitar-lhe a natureza e assim torná-lo ele mesmo ruim: pois assim ele aprende a se perceber como ruim, já que não pode se despir do hábito da natureza” (Nietzsche, 2006, p. 102). A canção escrita por Moska e Zélia Duncan, Carne e Osso, pode ser vista como uma sugestiva crítica à matriz cristã de tratamento com tudo o que é matéria humana:

Alegria do pecado às vezes toma conta de mim. E é tão bom não ser divina. Me cobrir de humanidade me fascina e me aproxima do céu... E eu gosto de estar na terra cada vez mais. Minha boca se abre e espera o direito ainda que profano pro mundo ser sempre mais humano... Perfeição demais me agita os instintos. Quem se diz muito perfeito na certa encontrou um jeito, insosso! Pra não ser de carne e osso, pra não ser... Carne e Osso!

Esse jeito “insosso” é a meu ver o que muitos chamam de “santidade”. Mas quem disse que pra ser santo é preciso ser menos humano? O cristianismo, na certa. Agora, o direito de sermos sempre mais humanos não é profano, como diz a canção, e nem sagrado (do ponto de vista cristão), mas Divino ô cara pálida! Deus deseja que sejamos plenamente humanos, como foi seu Filho e nos cubramos de uma nova humanidade, não nova angelicalidade.
Continua...

Jonathan

9 comentários:

alex disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
alex disse...

"O cristianismo é inimigo do corpo, do humano e da vida"

gostei dessa frase, bem verdadeira XD

Anônimo disse...

Nao concordo com o autor do texto, se santidade é combater vícios danosos ao semelhante é válido seu uso como controle do comportamento humano, e não há nada de insosso nisto, basta imaginar um ser que vive para obtenção de prazer, tao humano, como diz a canção, e observar aonde termina tao comportamento

Anônimo disse...

vc nao pode remover comentário, pr assim esta demonstrando que nao aceita os contrários.Aonde está a democracia?

Anônimo disse...

vc nao pode remover comentário, pr assim esta demonstrando que nao aceita os contrários.Aonde está a democracia?

Jonathan Menezes disse...

Caro anônimo,
você não precisa concordar comigo. Não escrevo para que as pessoas concordem comigo, mas para que pensem. Para mim, santidade nem é "combater vícios danosos ao semelhante", tampouco pode ser "usada" para qualquer coisa. Ser santo não é uma coisa que depende de mim, é dádiva. E, à medida que sou apropriado por essa dádiva, passo a agir de acordo, não fora da humanidade, mas como ser humano, transformado dia a dia pela graça de Deus. E isso no corpo e no mundo, e não fora deles, como cristianismo tanto tentou (e ainda tenta) negar. E em momento algum defendo o outro extremo, como você aqui coloca, basta ler melhor e com mais bom senso, e verá...
Sobre a remoção da postagem, se você ler melhor, ela foi "removida pelo autor", ou seja, por quem escreveu, e não por mim. Eu tanto faço esforço para aceitar os contrários, que aceito responder aos comentários de quem tem coragem para criticar, mesmo de modo tão raso, mas que não é capaz de mostrar a cara.
Respeitosamente,
Jonathan

Júlia Chamarelli disse...

Muito bom o seu post, me ajudou muito =)

Anônimo disse...

Caro Jonathan, bom dia! Desculpe-me entrar assim em sua discussão, mas estava pesquisando sobre o Nietzsche e encontrei seu texto. Gostaria de perguntar-lhe se às vezes você não desconfia que essa "dádiva" da santidade, não seria apenas insuficiência orgânica ou deficiência em coragem? Assim o mal é aquilo tudo que não posso, que não alcanço, que gostaria, mas como não tenho potencia condeno a quem pode, e chamo minha impotência de maneira sublimada, de um lindo nome: Santidade. Estou postando como anonimo poque não sei operar esses outros instrumentos.Mas acompanharei pelo seu blog sua resposta se vc achar adequado. Apenas para pensar, porque vc se diz pensador. Abraço
Ginaldo

Jonathan Menezes disse...

Caro Ginaldo,

Em primeiro lugar, não me "intitulo pensador", como você diz; não me ligo em rótulos.

Em segundo lugar, pra mim é preciso ter mais coragem pra assumir a vida (e a santidade) como dádiva do que o contrário. Chame isso como quiser: insuficiência, carência, fraqueza, etc. Concordo com a metáfora do "Super Homem" apenas no sentido da afirmação incondicional da vida. Mas afirmar incondicionalmente a vida não é desejar somente a força, mas também admitir que ser humano é ter de lidar com a ausência dela. Nietzsche não negou isto; apenas não conseguiu ver esta fusão no cristianismo. Não o condeno. Mas eu me junto àqueles que têm insistido que a fusão de cristianismo e vida é sim possível, começando por assumir todas as falhas graves que nós mesmos, cristãos, temos cometido nesta área para, quem sabe, poder avançar.

Assim, santidade não é impotência, mas é a obra que Deus realiza em mim, a despeito de minhas impotências, para me fazer um ser humano à imagem de seu filho, e não um anjo ou espírito flutuante. E coragem é, segundo Paul Tillich, a coragem de ser a despeito de não ser; a afirmação de si mesmo como um próprio, não como meio de resignação, mas como libertação desse círculo de desumanização no qual muitas religiões atualmente têm entrado.

Convido-o a ler outros dois textos: 1. http://www.novosdialogos.com/artigo.asp?id=453; 2. http://www.novosdialogos.com/artigo.asp?id=680

Eles esclarecem mais o que penso sobre a questão. Obrigado por seu comentário e sinta-se à vontade para participar aqui.

Abs,
Jonathan