terça-feira, 10 de junho de 2008

Nietzsche e o cristianismo (I)

Inicio hoje uma série de quatro posts sobre a crítica de Nietzsche ao cristianismo. Minha intenção aqui é buscar esses indícios dessa crítica em suas considerações sobre a religião e vida religiosa nas obras “Humano Demasiado Humano” e “O Anticristo”.

Primeira crítica: O cristianismo é a religião do Dogma e o desastre do homem

Um dos problemas centrais no pensamento de Nietzcshe diz respeito à verdade. O que é a verdade? De onde ela provém? A esse respeito, ele escreveu um ensaio em 1873, que denominou “Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral”. Isto, pois, a “verdade” proclamada ainda em seu tempo era a verdade da metafísica (no campo das ciências naturais e do espírito) e a verdade moral (pelo cristianismo). Se a verdade não está nem na metafísica e nem na moral cristã, onde está ou em quem? Para Nietzsche, a verdade pode ser vista como:

Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismo, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, aparecem a um povo sólidas, canônicas, obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas (Nietzsche, 1978, p. 49).

A verdade, da filosofia, do cristianismo, para ele, jamais poderia ser conhecida como Verdade, porque sempre é fruto de uma compreensão ou olhares parciais, de uma transformação de Deus pelo homem e no homem (antropomorfismo), das palavras pelo homem, sempre imaginando que com essa manipulação possa representar as coisas tais como são. Mas não. O que se produz não passa de metáfora (semelhança ou reflexo da coisa) ou metonímia (outra palavra para a coisa), mas nunca a coisa em si. Assim, dogmas não são verdades de Deus, embora se lhes atribuam tal valor; o cristão, por mais que conheça a Jesus (caminho, verdade e vida) jamais poderá exprimir absolutamente essa verdade nas coisas que cria (dogmas, estruturas, instituições). Logo, a religião fala muito mais da forma humana que da forma de Deus. Por que será que Jesus não respondeu a Pilatos a tão crucial pergunta: “O que é a verdade”? Porque ele sabia que dar forma verbal à verdade, criando uma filosofia ou ideologia, seria o mesmo que matar a própria verdade. Diria tudo, menos “a verdade”.

Assim, ele aponta para si como sendo o Logos, o Verbo de Deus, a Verdade Encarnada, Vivida, Visceralmente experimentada. A verdade, conforme Jesus, não se conhece (cognitivamente), nem se representa ou se expressa (dogmaticamente), mas se experimenta, se vive e pronto. A verdade que Nietzsche critica é essa que afasta o próprio homem do caminho da verdade, embora nem o filósofo soubesse apontar “um caminho” sequer, mas sempre a via do paradoxo, do trágico, da idiossincrasia das "verdades" humanas: capengas, irreais, ilusórias. A verdade é experimentada por ele como contradição e antítese dos caminhos do dogmatismo. Era difícil para quem se auto-intitulava “espírito livre” ser comandado pelas mordaças da verdade dogmática, aceitando passivamente o “julgamento”. Seu livro, O Anticristo, deve ser lido como o anticristo do cristão. Contra esses, ele afirma: “Ao fazerem Deus julgar, julgam eles próprios; ao glorificarem a Deus, glorificam a si próprios, ao exigirem precisamente as virtudes para as quais são aptos (...) na verdade fazem o que não podem deixar de fazer”, porque isso se constitui como mandamento, dever, ordem, obrigatoriedade".

O grande combate de Nietzsche em Humano, Demasiado Humano, por exemplo, não é a religiosidade em si, como categoria inata ao ser humano, mas a religião e seus dogmas que, ao apresentar-se como verdade, aprisionam o ser humano e matam a liberdade de expressar suas emoções ao indizível, em dar vazão às pulsões de incompletude que procedem do interior e não se completam com meras ritualidades do exterior. Nas palavras do filósofo, “nisto se percebe que os espíritos livres menos ponderados se chocam apenas com os dogmas, na realidade, e conhecem bem o encanto do sentimento religioso; é doloroso para eles perder este por causa daqueles” (2006, p. 93).

Jonathan

5 comentários:

Anônimo disse...

pq eu tenhu q estudar issu naum me enteressa o q ele criticava...
vlw
falow

Jonathan Menezes disse...

Em algum lugar desse blog está escrito que você tem que estudar isso? Se não quiser, não estude, você é livre pra isso...
Cada coisa que me aparece!

luiz de souza sanson disse...

Um texto muito seguro e muito cativante também, Jonathan.. seja no nível estético, seja no teórico.

Pricila disse...

O texto me ajudou de forma brilhante em um trabalho de filosofia que eu tinha que fazer sobre o assunto. Parabéns Jhonatan!

Anônimo disse...

Oi Jonathan,
fiquei muito feliz ao ler sua postagem sobre o fabuloso Nietzsche. Parabenizo- o ple clareza de ideias e pela gosto apurado pela filosofia. Em uma época triste em que textos e músicas resumem-se a repetitivas onomatopeias,é , no mínimo, reconfortante saber que ainda há seres pensantes e que leem no planeta. Bom dia!