terça-feira, 17 de setembro de 2013

O mundo não é dos espertos?

O Grinch

O mundo não é dos espertos, mas é das pessoas honestas e verdadeiras. A esperteza, um dia é descoberta e vira vergonha. A honestidade se transforma em exemplo para as futuras gerações. Uma corrompe a vida e a outra enobrece a alma. [Raquel Fragoso]

Frases de efeito espalhadas na internet podem ser como gotas em um oceano: logo, sem mais nem menos, tudo vira uma só substância líquida comum a todos os usuários. Tentei encontrar a autoria da frase acima, e eis que surgiu o nome de Raquel Fragoso. Assumirei que ela seja mesmo a autora, até que se prove o contrário (ou não). O fato é que, vendo a mensagem espalhada como vírus nas redes sociais – outro fenômeno desta era digital: nem sempre refletimos sobre o que “curtimos” e/ou compartilhamos, e ainda assim endossamos – confesso que, de primeiro instante, parece ser uma frase atraente, com uma mensagem positiva para gente de bem. Basicamente dizendo: não importa o quão bem-sucedidos sejam os “espertos” por aí existentes, que em tudo querem ou afirmam levar vantagem; no fim das contas, o mundo será “das pessoas honestas e verdadeiras”, que deixarão exemplo para as próximas gerações, enquanto a corja da esperteza, quando descoberta, resultará em “vergonha”, que em si já pode ser a própria punição.

Não que esta seja, de fato, a intenção desta frase, mas, numa realidade cruel, não me impressiona que as pessoas se agarrem a mensagens do tipo “no fim o bem vencerá”, mesmo nos dias de hoje. É a mensagem presente em quase todos os enredos de Hollywood ou nas novelas da Rede Globo, com raríssimas exceções; os personagens que representam “o mal” podem até prevalecer sobre as pessoas “do bem” (que geralmente são as protagonistas), mas, para alegria do “respeitável público pagão” (como diz O Teatro Mágico) de plantão, a estória, com mais ou menos meandros de complexidade, sempre termina com a vitória “do bem sobre o mal”. Compreensível, afinal para que o espetáculo possa continuar é preciso não somente retratar o provável, mas o palatável, ou seja, “o que o povo gosta”, com uma boa dose de autoengano. E, como disse Michel Maffesoli, “a necessidade de se autoenganar é o motor constante do conformismo do pensamento”.

Talvez um primeiro (ou segundo) impulso do/a leitor/a, a essa altura, seja em dizer: “defina esperteza”! Pois bem, dentre os muitos sentidos possíveis que o Dicionário Michaelis dá à palavra (como “acordado”, “ativo”, “desperto”, ou “inteligente”), o que mais se aproxima do sentido usado pela autora da frase talvez seja este: “que tem agudez e atividade” ou “sagaz”. Então esperteza, nesse ínterim, seria uma espécie de arte da vileza, por meio da sagacidade, da artimanha aguda e arguta de quem maquina não pelo bem, mas para “se dar bem”, custe o que custar. Bem, o que me parece é, que se o mundo não está inteiramente entregue a tal espécie de esperteza, sem dúvida ele é, em quase todas as dimensões da vida, refém constante dela.

Não quero ser advogado do pessimismo ou do niilismo aqui. Abraço a honestidade e a sabedoria como caminhos (positivos?) de vida. É indubitável que, num sentido cristão e humano, elas são melhores que a tolice e a malandragem. Mas penso que o autor de Eclesiastes foi mais assertivo e realista que a autora desta frase, em seu capítulo 9, quando afirma que “a sorte é a mesma para todos”, bons e maus, justos e injustos, espertinhos ou honestos, e que “tudo depende do tempo e do acaso”. Mais ainda, quando aponta para o paradoxo dos trabalhos sem recompensa (como a bondade, por exemplo), ou mesmo das inversões perversas da vida, isto é, os estultos dominando os sábios. É claro que podemos ser reconhecidos e até recompensados pelo bem; mas não há garantias disso. E, por mais ilusório e fugaz que seja, sim, o mundo não só é, como está nas mãos dos espertos muitas vezes, e a política e religião são bons exemplos, nus e crus exemplos eu diria, de como e com que gigantescas proporções isto se dá. Até porque, a frase se refere a este e não a outro mundo, onírico ou escatológico.

Eclesiastes ainda dá outro exemplo no mesmo capítulo (v. 13-18): numa pequena cidade com poucos habitantes, veio um rei muito rico, sitiou-a e a dominou; então, veio um homem pobre, mas sábio e, por sua sabedoria, livrou a cidade. No fim, porém, o opressor foi lembrado, e o libertador esquecido pelo povo da cidade. Os anais da história daquele povo registraram o nome do opressor, mas não o do sábio. Por causa de exemplos como esse é que, como se diz no começo do capítulo acima citado de Eclesiastes, diante do fato de que não apenas “a todos sucede o mesmo”, mas que nem sempre o benefício da bondade e a punição da maldade são garantidos, muitos desanimam e se entregam desvairadamente à vil “esperteza”. Talvez porque acabem chegando à trágica conclusão de que ser honesto não vale à pena, não traz recompensa, não traz grandes ganhos; pelo contrário, muitas vezes pode trazer perseguição, prisão ou morte, como disse certa vez o padre Gustavo Gutiérrez. Assim, a questão pode ser: se todo mundo está igualado na existência; se o bem nem sempre triunfa sobre o mal; se o político opressor recebe um busto na praça enquanto o sábio libertador é esquecido, por que razão devo me preocupar em ser honesto?

Ser honesto é um trabalho funesto quando se busca recompensa e/ou reconhecimento, ou mesmo quando se espera aplausos por isso. Honestidade é um modo de ser que nos possui e nos impulsiona a agir de tal modo (honesto) quando ninguém está vendo. Antes de tudo, o ser honesto acontece diante de Deus e de si mesmo, onde não há sentido para autoenganação ou ilusão. Ademais, Eclesiastes e a vida ensinam: no fim, nem sempre o melhor vence a batalha, ou mocinho supera o bandido, ou o justo prevalece sobre o injusto, não só porque a vida é complexa, mas porque a todos iguala debaixo do sol. E se a honestidade persiste sendo um melhor caminho é porque, como diz a frase, “enobrece a alma”, e não porque nos faz ganhar o mundo. Afinal, como disse Jesus, de que vale ganhar o mundo inteiro e perder a própria alma?

Jonathan

6 comentários:

Robinson Jacintho disse...

Engraçado, nenhum anônimo vem comentar esse post, esse tema. Espertinhos, não?!

Como sempre, ótimo texto mano véi

@Roberas

Jonathan Menezes disse...

Pois é, mano! Anônimos e seus interesses escusos... Fazer o quê, democracia da blogosfera.

Valeu e um abraço!

Roger Toledo disse...

Interessante a ideia de ser honesto sozinho. Pensar nisso me faz relacionar ser honesto consigo mesmo.
Lembro me trabalhar como técnico em eletrônica e que por muitas vezes quando eu passava um orçamento e previsão de tempo para um serviço real, muitas vezes enfrentar queixas, enquanto isso colegas pegavam o fácil atalho da mentira aumentavam o preço de seus serviços e saiam como heróis da pátria.
Realmente ser honesto é um caminho difícil em que a gente é confrontado. É confrontado principalmente quando os outros divergem da gente.
Agora além disso, coisa mais difícil ainda é ser honesto com os erros. Falo isso porque as pessoas jamais admitem erros. E isso se torna uma doutrina da perfeição.

Há erros que são simples de serem resolvidos como "eu comi demais hoje por isso não pude correr be,". Eu levo pedradas por isso em casa, acredita?
rs

Se há intolerância com pequenos erros e pequenas falhas que a gente comete que tipo de confiança a gente tem pra grandes coisas?
Não tenho que prestar contas sobre meus erros com todos, mas ao lidar com algumas situações como opiniões diferentes, falhas comum do dia a dia eu desejo contar com apoio a minha honestidade com meus erros, opiniões de quem também falha, fere e caminha comigo.

Robinson Miolo disse...

A frase, claro, é a expressão de uma utopia, de algo que gostaríamos (talvez a autora também) que fosse, muito mais do que é de fato. O que é lamentável. É a triste realidade de um planeta onde a solução seria muito simples, a mais simples de todas, depende apenas do comportamento de cada um de nós, e ao mesmo tempo é uma solução impossível, pois depende de todos nós. Esse paradoxo onde problema e solução tem origem na mesma fonte, é típica do 'homem massa', o ser humano massificado, que ao mesmo tempo segue padrões (bons e maus, independente de definições), mas tem livre arbítrio.. que por sua vez trás um novo paradoxo, pois se ser sectário e vazio nos torna vulneráveis à manipulação vil, como os gigantes ocos de Michael Ende em sua famosa fábula A História Sem Fim, ter livre arbítrio nos torna livres, porém perdidos, desunidos e dispersos como formigas que tem seu ninho destruído, onde as direções que cada individuo tomam transitam entre as nuances dicotômicas do bom/mau, certo/errado, ético/antiético, justo/injusto. Isso se torna especialmente grave quando falamos do ‘homem massa’, de bilhões de pessoas com seus próprios livres arbítrios... Acredito que essa seja a nossa Caixa de Pandora, o nosso pecado original, a nossa doença, talvez curável (ou mitigável), mas em taxas absolutamente inferiores à sua capacidade de contágio e transmissão, pois a contaminação não dispensa os pastores e se restringe ao rebanho.
Ainda assim, creio que mesmo se retirássemos os juízos de valores desse Dilema da Esperteza, optar pela esperteza continuaria não sendo uma decisão estratégica, seria optar pelo caos, o mesmo que optar pela escada de baixo na pintura de SamsOnite (http://adsoftheworld.com/sites/default/files/images/samsonite_mail.jpg), se agora consegui chegar às alturas subindo nas costas de alguém, mais tarde outrem estará nas minhas costas, dando continuidade indefinidamente a este círculo vicioso de esperteza, egoísmo e, por fim, caos. A esperteza é, portanto, em minha opinião, a opção feita por pessoas de caráter baixo e visão obtusa, como aqueles incapazes de distinguir as vantagens de jogar uma casca de banana no lixo à joga-la na frente das suas casas. Discordo, portanto, de Sartre. O inferno somos nós. Nós, seres humanos, porque ainda nos falta humanidade.

norma disse...

Obrigada! Textos como o seu justificam a minha presença online.
Fique bem, Norma

Cadu disse...

Esse texto é ótimo quero usar a frase como citação do meu trabalho de conclusão de curso preciso saber se realmente a autora é raquel fragozo e quem é ela.
Agradeço se puder me responder.