segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Sobre a verdade em um sentido (cristão) pós-moderno (3)

Verdade, construção e relativismo

Quando Richard Rorty, lendo Nietzsche, parte do ponto de que a verdade é construída, isto é, de que é uma produção que se realiza no mundo da fala e da linguagem, ou de que é “uma propriedade de entidades lingüísticas, de frases” (2007, p. 31) e não pode simplesmente ser “achada” lá fora, a qual verdade ele está se referindo? Ora, penso que à verdade “conhecida” por meio de nossas proposições ou frases. Em outras palavras, para verificar a verdade em termos cognitivos e objetivos, eu preciso dizer: “Isto ou aquilo é verdade”. E quando digo isto, ela já não mais pode ser “a verdade”, e sim “verdade para mim” ou “para nós” (pensando em um coletivo ou rebanho). E verdade para mim ou nós é sempre parcial.

Isto implica então que, quando afirmamos que “Cristo é a verdade”, ele deixa de ser “a verdade”? De modo nenhum (não pelo menos do ponto de vista de quem crê que é assim). De novo trazendo Ellul ao diálogo, “a verdade é sempre verdade apesar e contra tudo... firme, estável, flexível, indiscutível”. Isto porque a verdade “é” (no caso de Cristo, uma pessoa), acima de nossas cogitações, estimativas e apreensões. E, mudando um pouco a frase de Wittgenstein, para tudo aquilo que é a linguagem cala. Aquilo que “é” não pode ser declarado sem que, no nível da fala, se torne apenas um fragmento – eis o problema em reduzi-lo em conceitos ou definições. Podemos continuar lançando mão de critérios? Sim! Mas entendamos que eles são “nossos critérios”, que podem ser inspirados na e pela verdade, mas que não podem ser confundidos com a própria verdade. O que “é” (a verdade) pode até preceder, mas não ser igualado àquilo que muda (nossas visões, conceitos e pressupostos). Fico repetindo isto com o receio de que ainda não esteja suficientemente claro.

Prossigo defendendo (é claro, não somente e nem primeiramente eu), portanto, que nossas proposições teológicas ou filosóficas devem ser mais modestas. Posso, dessa forma, continuar propondo, conhecendo, me aprofundando e defendendo questões sem pretensões universalizantes para estas questões. Discordo tecnicamente da afirmação de Charles Hodge (2003, p. 329) de que “a verdade é aquilo em que a realidade corresponde exatamente ao que é manifesto”. Ora, se o que o (discurso) humano “manifesta”, manifesta linguisticamente, então a verdade (em si) não pode corresponder exatamente ao manifesto, como tenho afirmado. De novo: as correspondências humanas com a verdade são sempre parciais, fragmentárias e, sim, relativas!

E isto não implica necessariamente no endosso de um relativismo do tipo “vale-tudo”. Primeiro, porque o relativismo tende a ser auto-contraditório. Acaba fazendo na prática precisamente aquilo que rejeita no discurso. Por exemplo: pessoas relativistas costumam ser consideradas de “mente aberta”; ao mesmo tempo, podem ser “mente fechada” quando afirmam quase dogmaticamente que não há verdade absoluta. Partem do princípio (falacioso) de que descrer no absoluto é o mesmo que afirmar que ele não existe. Só que, como ressalta Rorty (2007, p. 33), “dizer que abandonamos a idéia de verdade como algo que está aí, à espera de ser descoberto, não é dizer que descobrimos que não existe verdade alguma”. Afinal, quem seria capaz de sustentar, sem sombra de dúvidas, tal descoberta?

Outra falácia relativista pode ser esta de dizer que verdade é o que eu considero ser verdade: “pode ser falso para você, mas para mim é verdade”. Onde está a falácia aqui? Segundo Stephen Law (2009, p. 199), comete-se esta falácia quando não se consegue demonstrar que a verdade em questão, que se afirma ser relativa, é mesmo relativa. Do contrário, como diz Law, “eu poderia tornar qualquer afirmação verdadeira crendo nela: ‘Posso voar’, por exemplo. Obviamente a maioria das verdades não é relativa desse modo”. De que modo então elas são relativas? Na medida em que se assume que não as possuímos em si, a não ser na forma de descrições ou representações, que são relativas na medida em que são fragmentárias ou que não abarcam o todo.

Afirmar a relatividade de nossos pressupostos não é o mesmo que endossar o relativismo. Neste caso, embora não haja um critério universal de julgamento (para dizer o que é válido e ou que não é), isto também não significa que seja plausível afirmar qualquer coisa que se queira. É preciso afirmar e sustentar (não confunda com “comprovar”) a afirmação dentro de certos limites e deixar que os pares ou a comunidade julguem ser razoável ou não. A contingência não nos impede de defender nossas convicções, apenas nos alerta quanto a seus limites, tanto na abrangência quanto no respeito às convicções do outro. Endossando o que disse Isaiah Berlin (apud. Rorty, 2007, p. 92): “Reconhecer a validade relativa das próprias convicções, mas ainda assim defendê-las resolutamente, é o que distingue o homem civilizado do bárbaro”.

E, acrescento, não deveria ser esta também uma distinção do cristão (pós-moderno ou não)?

(Continua...)

Jonathan

Um comentário:

ERICK MORAES disse...

O que é a verdade? O que é a verdade moderna? O que é verdade pós-moderna? O que é verdade para mim? Acho que são perguntas com respostas distintas. O que é a verdade no caso no diálogo de Jesus e Pilatos, verificamos que não é deste mundo. Veio para este mundo em pessoa, é relacional e modelo. A verdade é o próprio Jesus. E os que são da verdade ouvem sua voz. Verdade moderna é aquela que nasce do Iluminismo e que caminha para o ciêntificismo, onde busca-se os absolutos, e respostas lógicas exatas. Sendo a verdade no sentido moderno, respostas concretas para o que há. Entretanto, as respostas construídas na modernidade sempre foram passíveis de ajustes de contestações. A verdade absoluta da modernidade sempre foi provisória, porém construída pretenciosamente na arrogância de ser imutavel. Para a pós-modernidade a verdade moderna moderna é utilitária. Nas palavras de Nietzsche, a verdade é a verdade do rebanho. Ela é utilitária para unir o rebanho, mas é também relativa pois muda de rebanho para rebanho. Tem me parecido que a pós-medernidade surge como uma náusea da soberba moderna de explicação da realidade. Desconstruindo paradigmas modernos, para uma proposta de um novo olhar para a realidade, de interpretação e não julgamento. Verdade para mim, é a verdade absoluta de que Cristo é a verdade e fora dele não há verdade. Sua existencia, é a existência de tudo o que há. Ele é, e por ele ser tudo subsiste Nele. Ao passo que, verdade para mim é também é verdade compartilhada pelas vozes do meu tempo. Tempo este que esta em transição. O concreto da realidade mederna esta se derretendo e se tornando a realidade líquida da pós-modernidade. Assim, me oriento através do derretimento da verdade, pela luz da lâmpada da verdade que recebi Cristo - uma humilde chama que me revela a verdade por penumbras. Ou, o espelho de Paulo que revela a verdade por partes, em enigma. A proposta humilde para a Teologia no seu relacionamento com a verdade, é pertinente, pois a verdade da qual cremos sempre foi humilde.