quinta-feira, 21 de março de 2013

Religião: integridade ou hipocrisia? (Parte 2)

Livro_de_Eli

A religião e a falta de compromisso com a vida

Essa é uma das obras-primas da religião: podemos passar anos na “casa de Deus” (o templo confundido com “a Igreja”), servindo, trazendo dízimos, ofertando sacrifícios e, ainda assim, nunca ter tido fome e sede de Deus, como diz o Salmista: “Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te busco intensamente; a minha alma tem sede de ti! Todo o meu ser anseia por ti, numa terra seca, exausta e sem água” (Sl 63.1). Tenho a impressão de que talvez a religião produza mais ateístas, na prática, que o próprio ateísmo.

Nesta forma de religião não há compromisso real com a vida, nem no sentido de vivência do que se prega, nem no sentido de amor à vida. Isto, pois o viver (a vida) está associado com o buscar a Deus: “Busquem-me e vivam”, afirma ele, separando isto da religião por eles praticada: “Não façam a tolice de perder seu tempo viajando para Gilgal nem se empenhem em descer até Berseba. Gilgal está aqui hoje, mas amanhã não existirá. E Betel é só teatro, não tem substância” (5.4-5 – TAM).

O amor ao princípio, muitas vezes, nos faz perder de vista a vivência do próprio princípio. A verdade que interessa é somente a verdade agradável, e não a verdade “nua e crua”, como diz Amós (5.10-12).

Há um tempo assisti ao filme O Livro de Eli. Achei interessante a sua crítica, sobretudo aquela dirigida a alguns fundamentalismos religiosos de nosso tempo. Uma das frases marcantes do filme é quando Eli, personagem do protagonista Denzel Washington, afirma: “Todos esses anos que eu o levava e o lia, diariamente, na minha obsessão por mantê-lo a salvo, deixei de viver segundo o que aprendi nele”.

É impressionante como essa frase representa bem o que se tem vivido em termos de história das religiões, dentre elas o cristianismo, até os dias de hoje. Ou seja, quando nos tornamos paladinos cegos de um livro sagrado (no caso do filme, a Bíblia), incorporamos a posição dos fundamentalistas radicais e tendemos a perder de vista a integridade que o próprio livro nos ensina – no caso de Eli, o ensino fundamental esquecido foi: considerar o próximo antes e acima de si mesmo. Isso no conduz ao ponto de partida (não da religião), mas da relação com Deus (que Israel havia perdido de vista): considerar antes e em primeiro lugar o outro (próximo), e só assim estarei mais perto do Outro (Deus).

(Continua…)

Jonathan

quarta-feira, 20 de março de 2013

Religião: integridade ou hipocrisia? (Parte 1)

religion-masksA religião e seus ritos sem substância

Quero iniciar este ensaio – uma provocação bíblica contra um modo de ser próprio no mundo, que estou chamando de “religião da hipocrisia” – com a frase introdutória de Eugene Peterson, em sua tradução da bíblia, A Mensagem, ao livro de Amós:

Mais pessoas são exploradas ou agredidas por causa da religião que por qualquer outro motivo. Sexo, dinheiro e poder cedem lugar à religião como principal motivo de ações maldosas. No momento em que uma pessoa (ou governo, ou religiões, ou organização) se convence de que Deus está ordenando ou aprovando uma causa, vale qualquer coisa. A história de ódio, assassinatos e opressão alimentados pela religião cresce em ritmo acelerado no mundo inteiro. Os profetas bíblicos estão na linha de frente dos que fazem alguma coisa a respeito disso (Peterson, In: “A Mensagem”, p. 1282).

Não tem alguma coisa fora dos eixos quando uma religião, que prega vida, amor (a Deus e ao próximo) e justiça, se degenere, na prática, em violência, exploração e injustiça? Como e por que isso acontece? E o que Deus pensa disso tudo? Amós, no textos que aqui pretendo abordar e em todo o seu livro, nos ajuda a entender...

Primeiro, ele nos mostra, ao londo de seu livro, que nem tudo o que leva o nome de Deus (em nosso caso de “cristão”, “católico”, “protestante” ou “evangélico”) representa e adora, em verdade, a Deus.

Segundo, ele demonstra que certos atos religiosos se traduzem em fazer coisas “para Deus”, mas, no fundo, são cultos de si e para si mesmo. Isto fica evidente no capítulo 4, verso 5 (NVI): “Queimem pão fermentado como oferta de gratidão e proclamem em toda parte suas ofertas voluntárias; anunciem-nas, israelitas, pois é isso que vocês gostam de fazer”. Ora, o culto era uma cerimônia pública. Mas o ato, de “proclamar” e “anunciar” as ofertas, indica autogratificação e não gratidão a Deus. Não é à toa que Jesus, no Sermão do Monte, defende que aquilo que a mão direita faz, a esquerda não precisa saber, referindo-se, porém, ao “dar esmolas” (Mt 6.3).

Em outras palavras, não é preciso “tocar a trombeta” ou fazer um teatro todas as vezes que se realiza um bem, sobretudo, porque é para Deus que se está fazendo. Por isso, Jesus no mesmo sermão, acerca da oração, afirma que não devemos agir como os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, que fazem de suas orações um show particular a fim de serem notados; antes, que se procure um lugar quieto e secreto a fim de não representar nenhum papel diante de Deus (Mt 6.5-6). É uma vida de integridade atuando contra uma religião da hipocrisia.

Terceiro, vemos ainda que a religião nos faz ter Deus nos lábios e na mente, mas não produzem necessariamente “fome de Deus” (3.6). Assim Amós denuncia: “vocês falam do Eterno... como se ele fosse seu melhor amigo. Então vivam de acordo com isso, e talvez isso venha a acontecer” (5.14 – TAM).

(Continua…)

Jonathan

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Um recado para a juventude: o Pai quer celebrar!



O cristão não é, pelo menos em tese, um seguidor de leis e códigos morais, com a Bíblia como sua “regra de fé” ou de qualquer outra coisa. Regras se obedecem ou não; ninguém se debruça sobre elas, faz esforço de crítica e discernimento, busca iluminação através delas ou as trata com reverência. Não. O cristão vive pela fé, sustentado pela e na graça de Deus, e em busca de discernimento mediante a escuta do clamor das necessidades de seu contexto imediato e da voz do Espírito. Quanto à juventude, precisamos nos arrepender e reconhecer que, como igreja, temos sido negligentes tanto em nossa tarefa de discernimento e compreensão — quem sabe porque nos aferramos demais às “regras”, velhas ou novas — como de acolhimento de suas demandas. Pelo contrário, nos acomodamos cegamente com a manutenção, repetição e preservação, evitando a todo custo os riscos de qualquer natureza.

Subestimamos nossa juventude, seja quando a rotulamos e a marginalizamos como “perdida”, “rebelde” ou “desinteressada”; seja quando abraçamos a causa de arrebanhá-la, oferecendo, numa versão particular da “sociedade do espetáculo”, menos alimento e mais entretenimento. Não é à toa que muitos — refiro-me aos que não se encaixam no esquema “pão, circo e salvação” — sintam arrepios só de ouvir a palavra “Igreja”, ou quando se dão conta de que tem alguém querendo “pregar para eles”. Parafraseando José Comblin, essas ovelhas perdidas do aprisco — da igreja, não necessariamente de Deus — não se mantêm longe dela por razões de distância ou falta de comunicação — muitas igrejas têm feito “direitinho” a lição de casa de comunicação na era cibernética; afastam-se simplesmente porque querem, e sabem que a igreja tem feito, há um bom tempo, um grande esforço para frustrar suas aspirações à liberdade, salvo exceções. Com medo dos riscos da vivência e da teologia sobre a liberdade, esquecemos quase completamente de seu lugar fundamental no evangelho como uma vocação.

Tem faltado tanto aos jovens “de dentro”, como aos alheios à igreja, gente que comunique mais, com intencionalidade e sem ficar “pisando em ovos”, a boa notícia de que o Pai não é contra a vida, contra a festa ou a se aproveitar o dia. Pelo contrário, o Pai quer ter a chance de poder celebrar a vida conosco como convidado de honra, sem enchê-la de mais peso, castigo ou obrigações, oferecendo uma nova noção de compromisso, que tem a ver com vida e não com escravidão. Falta gente com a revelação encarnada e presente de um Deus gracioso, que os convida para uma caminhada de alegria e liberdade no espaço largo de sua casa, que mais que um lugar, é uma condição de existência e relacionamento na qual possam entregar seus corpos — muitas vezes marcados e feridos por nossas escolhas e pela dureza de suas curtas vidas — para serem sarados e restaurados integralmente por Ele. Como lembra Nouwen, “a comemoração faz parte do Reino de Deus. Deus não só oferece perdão, reconciliação e cura, como deseja que aqueles a quem esses dons são conferidos o recebam como uma fonte de alegria”.

O que mais me chama a atenção, ao reler a parábola do filho pródigo, é que não somente os dois filhos são figuras vulneráveis e perdidas da história. O pai também é. Não da maneira dos filhos, é claro; o pai é “perdido de amor”. É essa imagem de Deus que a parábola me revela: a imagem de um Deus de amor, que também se encontra “perdido” em busca de seus filhos perdidos e não descansa até que, finalmente, os encontre. Um Deus que nos ama com um amor incondicional, incansável, imponderável, insano e injusto aos nossos olhos. Um amor que, como defende Brennan Manning, “abraça a todos sem exceção. De novo, o amor de Deus é tolo”.

É para esse tipo de loucura que Deus nos chama como igrejas, jovens e filhos de todas as idades: amar com um tipo de amor que o mundo desconhece, motivo de espanto, escândalo, e até mesmo frustração. É um amor que não força, não se apossa, agarra ou empurra; é um amor que liberta da obrigação do amor, para a possibilidade do amor. Possibilidade de acolher ou de rejeitar. Por isso amar às vezes dói, por isso nos deixa tão vulneráveis. Mas é esse amor que nos identifica como filhos de Deus, e que também nos conduz à maturidade como gente e, assim, a abraçar nossa vocação como pais e mães de filhos biológicos, adotivos ou na fé. Pessoas a quem Deus ama, filhos a quem Ele nos dá o privilégio de co-amar-gerar.

Jonathan

* (Última parte de meu artigo "Os filhos do pai perdido e a juventude evangélica", publicado em Novos Diálogos - http://www.novosdialogos.com)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Para falar da verdade na religião

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Religião é dar às pessoas esperança em um mundo dilacerado pela religião – Jon Stewart.

No âmbito plural das religiões contemporâneas, e suas intermináveis variações, ainda nos deparamos com a remanescente questão da “Verdade”, sempre ela. Dizer que a possuímos como quem possui um bem material é insanidade – embora não das mais improváveis. Se alegarmos que ela é atingível em sua plenitude ou dissermos, em contrapartida, que ela não existe, nos enganamos por não reconhecer o caráter contingente de nossos pressupostos – que em parte tem provocado a insanidade da posição anterior. Se defendo, porém, que há a “minha verdade”, em detrimento, embora não necessariamente em conflito, com a “sua verdade”, posso estar abraçando ou um vale-tudo relativista improdutivo e sem sentido, ou ingressando na armadilha de, no fim, ainda que relutante, ter de entrar na discussão de qual verdade é, de fato, “A Verdade Verdadeira” (pleonasmo desesperado). Dada a limitação do saber e da experiência humana, enquanto a metafísica, o orgulho e a pretensiosidade reinarem em nossa “vontade de verdade”, ela será mais um instrumento de separação, violência e exclusão.

O que parece ser, afinal, no domínio da religião, a verdade? Aquilo que escapa até mesmo ao mais sincero dos olhares seja pela via da experiência, do conhecimento ou da própria fé, e que só se oferece por relance, como percepção de canto de olho. Quando se diz “aqui está ela”, é porque ela já passou por ali, deixando pegadas, talvez, mas não se faz presente. Não se detém em palavras, conceitos ou ideias. Não se confunde com os chamados “fatos” do cotidiano e da história, pois um fato – refiro-me a fenômenos humanos e não aos de ordem física ou matemática – é sempre um fato construído, notado e narrado por alguém. Até por isso, sim, contra fatos há argumentos – sei que isso irá incomodar uma meia dúzia que costuma usar esse ditado no sentido oposto. Para estes, retomo aqui o algo que escrevi em outro lugar:

Uma das idéias das quais nos abastecemos – os historiadores mais ainda – é a de que fatos existem lá fora. Um fato pode ser entendido genericamente como um fenômeno humanamente reconhecível, e ordenado a partir do tempo e do espaço. Para muitos, fatos são “dados”, isto é, informações que emanam naturalmente dos ocorridos e que, por uma pura observação, caem em nossos colos prontos para serem divulgados. Não foram mexidos, como podem ser os ovos, nem modificados pelo olhar humano. Aliás, para que um fato seja reconhecido como tal se teria de ignorar o tal olhar. Ademais, nisso tudo ainda se propaga a teoria da “tabula rasa” de David Hume, que pressupõe a pura recepção da mente humana dos dados da experiência, demarcando uma continuidade entre o dado, a recepção e o conhecimento.

Assim, tal teoria se faz disseminar entre nós por meio do senso comum de que “contra fatos, não há argumentos”, já que o fato “fala por si mesmo”, e nosso papel é apenas o de descrevê-lo tal como ele é, sem tirar, nem pôr. Fatos, segundo essa visão, emergem das coisas. Embora muita gente ainda pense assim, há muito tempo existem argumentos levantados por diferentes vozes contra tal percepção de um fato. Como resultado, uma da ideias é a de que um fato não é um dado proveniente do mundo externo, mas uma criação proveniente do olhar humano. Logo, aquilo que recebemos como “fato”, contra qual não se poderia ter argumento, surge precisamente de outros argumentos, ou informações suscitadas por alguém, que não “caíram no colo”, nem foram “dadas” e sim produzidas pelo olhar ou perspectiva e traduzidas em linguagem.

É óbvio que isso se aplica ao campo do conhecimento, que surge precisamente desse olhar para a realidade. Repito, não se trata de ciência exata aqui, mas humana (melhor deixar claro, antes que alguém venha dizer que acredita ser um fato que 2 + 2 é igual a 4). Fatos, assim, são construções, à medida que passam pelo filtro do olhar, que naturalmente resulta em interpretação e, por fim, em um enunciado. Não se pode, por mais que se tente, eliminar todas as interpretações naturais, como defendeu Paul Feyerabend. E toda tentativa de fazê-lo, ainda segundo ele, seria autodestrutiva, ou, como disse C. S. Lewis, é aceitar a “oferta do Bruxo”.

Voltemos agora ao assunto principal. No âmbito do cristianismo, Verdade também não é conceito, é uma pessoa chamada Jesus de Nazaré, Filho de Deus, que declarou ser “o caminho, a verdade e a vida”, mas deixou a pergunta em questão (quando feita por Pilatos, conforme relato de João), “o que é a verdade?”, sem resposta pelo menos no sentido epistemológico-filosófico do termo. Qualquer “resposta” dessa natureza seria como que decretar a morte da própria verdade, pois reduzi-la com um “assim é”, é o mesmo que assassiná-la. Jesus não responde, eu presumo um tanto exageradamente, por não querer cometer suicídio.

Assim, ainda que a verdade (pessoa de Cristo) seja a força motriz da religião cristã – alguns diriam que é o amor, mas, não nos esqueçamos o que disse João, “Deus é amor” –, não deve ser usada como arma, força de argumento ou meio de imposição. O relacionamento, o caminhar com e a vida são mais importantes que a certeza do saber e da doutrina correta. Esse foi o recado para Pilatos, e continua sendo o recado para qualquer um interessado na questão da verdade. E quem “é” é, mostra a que veio, não joga todo o peso na precisão do discurso quanto no exemplo de vida humana. E se a verdade ali germina, não é a pessoa que determina, mas o Espírito da verdade. O que significa, por conseguinte, que não faz sentido dizer que o cristianismo é a única religião verdadeira – pois todas são “verdadeiras” no sentido de que buscam a verdade; menos ainda, dito de outro modo, que é o único a possuir tal verdade – porque nenhuma religião a “possui”. Estar em posse da verdade significa poder manipulá-la, transformando-a em algo diferente de si mesma. Não. Para que seja verdade, é preciso ser livre de qualquer dominação, inacessível como “coisa em si” à linguagem e ao conhecimento. Por isso é que, no caso de Jesus, ele disse “eu sou”, e isso basta e já esclarece muita coisa, embora muita gente ainda não entenda, especialmente quando continua a confundir verdade com doutrina ou sua experiência (religiosa) de Jesus, de Deus ou de qualquer outra divindade que componha seu panteão pessoal.

Compreender isso, mesmo que em um nível mais basilar possível, é fundamental tanto para o diálogo inter-religioso, como para o testemunho de fé num mundo pluralista. Se ainda quisermos, por compulsão, falar em “verdadeira religião” é preciso recordar, ainda que de passagem, que na Bíblia não se assevera em lugar algum que o cristianismo é essa religião – por isso digo, num certo tom paradoxal, que ser seguidor do Cristo não me leva (não mais) a forçosamente ter que defender o cristianismo, versão histórica, institucionalizada e departamentalizada desse seguimento, como “a religião verdadeira”. Cito apenas dois exemplos das Escrituras Sagradas (na tradução “A Mensagem”, de Eugene Peterson), que tratam da religião num sentido mais amplo, e paro por aqui, por enquanto:

O primeiro vem do profeta Amós, num manifesto de repúdio divino contra a escolha de tantos em fazer do teatro e da hipocrisia sua morada permanente em termos de religião, esquecendo o fundamental, aquilo pelo que o Senhor anela no ser humano:

Não suporto os encontros religiosos de vocês. Estou cheio dos seus congressos e convenções. Não me interessam seus projetos religiosos, seus lemas e alvos presunçosos. Estou enojado das suas estratégias para levantar fundos, das suas táticas de relações públicas e criação da própria imagem. Não suporto mais sua barulhenta música de culto ao ego. Quando foi a última vez que vocês cantaram para mim? Alguém aí sabe o que eu quero? Eu quero justiça – um mar de justiça. Eu quero integridade – rios de integridade. É isso que eu quero. Isso é tudo que eu quero. (Am 5.21-24 – TAM)

O segundo vem do apóstolo Tiago, que trata de algo fundamental em sua carta – e, se lembramos bem do finalzinho do Sermão do Monte, também crucial para Jesus – que é a coerência entre o falar e o viver, mostrando que religião é menos o que se professa e se ritualiza e mais o que e como se faz, com a vida:

Não se enganem, fingindo-se de ouvintes, quando, na verdade, deixam a Palavra entrar por um ouvido e sair pelo outro. Coerência é tudo! Quem apenas ouve e nada faz é como quem se olha no espelho, e, no minuto seguinte, já nem se lembra da própria aparência. Mas quem dá atenção à mensagem de Deus e a vive na pratica – a verdadeira liberdade – e nela se firma, sem ser mero ouvinte – essa pessoa vai longe e será abençoada por Deus. Qualquer um que se considere “religioso” e fala demais está se enganando. Esse tipo de religião é mera conversa fiada. Religião de verdade, que agrada a Deus, o Pai, é esta: cuidem dos necessitados e desamparados que sofrem e não entrem no esquema de corrupção do mundo sem Deus. (Tg 1.22-27 – TAM)

Jonathan

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Vivendo na encruzilhada

Young Cross Roads

É inegável que William Young, escritor canadense, há pouco tempo entrou para o hall de notáveis autores da literatura contemporânea. De mero desconhecido, Young saltou para o status de um dos autores mais lidos nos últimos tempos, com o lançamento de seu primeiro livro, e também primeiro best-seller, A cabana (Sextante, 2008). Neste primeiro livro ele já demonstrou a habilidade rara de fundir em uma mesma história uma narrativa cativante e uma reflexão (existencial e teológica) provocativa, inovadora. O “problema” do livro – para alguns, é claro – é o mesmo que se pode encontrar em inovadores por natureza: eles incomodam muita gente, especialmente aos guardiões da ortodoxia de plantão. 

E começo então a falar sobre esse mais recente lançamento de Young, A travessia (2012) pontuando que ele tem algumas semelhanças com A Cabana. Em primeiro lugar, porque os temas teológicos de fundo são quase os mesmos: o problema do sofrimento humano, religião, liberdade e graça, comunidade trinitária, etc. Em segundo lugar, porque a dinâmica em que esses temas aparecem na nova trama também é bastante parecida, em que o protagonista, um homem beirando a meia-idade, vivenciando uma situação extrema, é conduzido a um encontro com a Trindade, que, assim como na obra anterior, assume formas humanas típicas: o Espírito Santo é uma mulher idosa da tribo Lakota, carinhosamente apelidada de “Vovó”; Jesus aparece como um homem de olhos castanhos e vestimentas rústicas, e Papai tem uma aparição rápida na figura de uma garotinha de vestido azul e verde, embora o autor tenha dito na narrativa que, através de Jesus e de Vovó, “Papai nunca deixou de estar presente” (p. 235). Impossível esquecer-se de outro ilustre personagem, chamado de “Jack da Irlanda”. Logo fica claro, pela influência que teve na vida do autor e na construção de sua obra, que se trata de uma homenagem a C. S. Lewis (que era conhecido por seus amigos como “Jack”). Por fim, pode-se dizer que a mesma tenacidade da união entre narrativa e reflexão, tão habituais no estilo do autor em A Cabana, continuam presentes, embora menos intensamente, em A travessia – título, aliás, que, a meu ver, não traduz a ideia do original em inglês, Cross Roads, que significa encruzilhada, cruzamento ou trincheira. Esse título, ademais, como comentou um amigo meu, dá uma cara meio “espírita” ao livro.

Agora aponto alguns aspectos singulares deste livro. Sua história é revestida de uma complexidade ainda maior que a de A Cabana, com muitos outros personagens coadjuvantes, vários cenários diferentes, e o elemento “místico”, por assim dizer, é ainda mais forte que o que vimos no livro anterior, de arrepiar os cabelos dos mais conservadores, acostumados a se ligar mais em detalhes legais e possíveis em termos de realidade, e menos no princípio que rege a história, que neste caso, é preciso lembrar, trata-se de uma ficção, recheada de aspectos arrolados para mexer com a imaginação e despertar o interesse no leitor – bem, nada de mal nisso, certo? Como diz a epígrafe do capítulo, atribuída a C. S. Lewis. “Um dia você será velho o bastante para voltar a ler contos de fadas” (p. 31).

Então, é preciso adiantar que, assim como (e até mais que A Cabana), a obra em questão deve ser lida com a fluidez livre de uma estória, como tal altamente metafórica e sem compromisso de ser precisa na forma como insere os saberes teológicos em questão. Essa é uma ressalva necessária contra possíveis buscas de “erros e heresias” no livro, desqualificando-o como “obra teológica”, como fizeram alguns em relação ao livro anterior deste autor, até porque não se trata de uma “obra teológica”, pelo menos não no sentido estrito e hermético do termo, mas pode ser classificada dentro de um gênero mais amplo, que une características típicas de um romance, mas com inserções de questões teológicas explícitas. Naturalmente, o autor teve a intenção de apresentar uma determinada visão sobre Deus, em sua relação com a humanidade, em oposição a outra, mais “religiosa” talvez. Aliás, como havia feito em seu romance anterior, Young também reconhece nesta obra que imagens de Deus não são o próprio Deus; podem ser relances inacabados apenas, como Vovó afirma a Tony, o personagem central, já no fim da história: “Imagens... nunca foram capazes de definir Deus, mas como desejamos ser conhecidos, cada vislumbre, por menor que seja, é uma pequena janela para uma das facetas de nossa natureza” (p. 235). Mas um romance que reúne aspectos teológicos não equivale a um livro de teologia sistemática, por exemplo. Dessa forma, este livro deve ser lido com espírito mais poético que cartesiano, embora seja perfeitamente possível discordar de uma ou outra visão teológica expressa pelo autor. 

A natureza imaginativa permite ao autor pensar em um caso de como alguém profundamente ferido pelas contingências da vida, e que, com isso, feriu a muitos outros também – no caso de Tony, os feridos foram seu irmão, ex-esposa, filha, sócios, funcionários e, assim, conseguiu afastar todo mundo para longe de si – pôde, num contexto de sofrimento extremo, como a morte, ter um reencontro tal com a vida e perceber que tudo o que antes chamava de liberdade, vida e sucesso, era na verdade sinônimo de escravidão, morte e fracasso. Essa vida ele reencontra através do terno amor de Jesus, o mesmo Jesus que sua mãe havia dito em sua infância que nunca deixaria de o abraçar. O personagem, em decorrência de um AVC (Acidente Vascular Cerebral) que o deixou em coma profundo, encontra-se com Jesus, Vovó e Papai em uma realidade intermediária, cujo cenário é um retrato da própria vida dele até então, e é convidado a uma dupla experiência de cura e “conversão”: a cura de si mesmo através da cura e conversão a outra pessoa que ele, Tony, deveria escolher. A partir de então, começa a aventura de Anthony Spencer, em busca de respostas a perguntas como: Quem é Deus? Quem sou eu? A quem devo curar? Como posso curar alguém estando eu ainda, de múltiplas formas, ferido e à beira da morte? Se não posso apagar o passado, será é possível lidar de modo diferente com ele? Como superar a perda do filho de 5 anos, que desde então o transformara em uma pessoa fria, fechada e egoísta? 

Assim, através da história de Tony, Young demonstra que não é de um dia pro outro que o mal se instala silenciosamente no coração humano, o que torna também a conversão – esse gradativo arrancar, com a ajuda do Espírito, das ervas daninhas do jardim da existência, com o cuidado de não jogar fora com elas rosas e outros espécimes preciosos – é de fato um processo, que pode até ter marcos ou viradas bem definidas, mas que dura a vida inteira.

Uma passagem emblemática que ilustra bem essa ideia é quando Jesus, falando a Tony sobre esse gradativo projeto de (re)construção conjunta (Deus e a pessoa) de uma vida – que, para ele (Tony) estava “demorando demais” – explica que aquele terreno sobre o qual operava (que visualmente tinha a forma concreta de uma propriedade) era:

Um terreno vivo e não um canteiro de obras. Algo real, que respira, não uma construção que pode ser erguida à força. Sempre que você dá mais valor à técnica do que ao relacionamento e ao processo, sempre que tenta acelerar o desenvolvimento da consciência e forçar a compreensão e a maturidade a crescerem antes do tempo, é nisto – disse ele apontando para todos os lados da propriedade – que você se transforma (p. 56).

É óbvio que Jesus estava falando de Tony e não de qualquer pessoa em geral. Mas também é claro que esse princípio não se aplica ao personagem apenas, mas a qualquer pessoa que leia isso mais atentamente. Se nossa vida é um canteiro, certamente é um canteiro constantemente sinalizado com a placa “em obras”. E que a obra de Deus na vida de alguém pode ser lenta sob o olhar desse mesmo ou de outro alguém, mas há de ser completa até o dia de Cristo Jesus. Até lá, seremos seres inacabados e em processo. Gosto sempre de pensar que a música “In repair”, de John Mayer, é uma excelente descrição de como vejo minha própria vida, especialmente quando diz: “Eu estou em reparo, não estou pronto ainda, mas estou chegando lá”.[1]

Essa, portanto, é uma história sobre o poder de Deus de mudar uma vida – se e quando nesta vida há lugar para a morada de Deus – e, através dela, revolucionar e surpreender tantas outras com um amor incompreensível. Carrega a mensagem de que quando Deus (Pai, Filho e Espírito), passa a viver em nós, mais que religiosos, nos tornamos caminhantes da encruzilhada, sempre sendo colocados na posição de ter de escolher a vida, sendo impelidos pela graça, mas não obrigados. Costumo dizer que ser seguidor do Cristo é, de fato, estar numa posição de encruzilhada, em que nada mais é fácil, simples e nem confortável, e até por isso é tão fascinante.

Outra citação de C. S. Lewis, que aparece na última página do livro referindo-se, sobretudo, à vida cristã, é cabível aqui: “Se você buscar a verdade poderá encontrar conforto no fim. Se buscar conforto, não o alcançará, e tampouco a verdade, mas apenas bajulação e ilusões no começo e desespero no fim” (p. 239).

Finalizando, não recomendo a leitura desse livro para aqueles que, porventura, estejam ansiosos por encontrar o que já viram em A cabana. Não leia, porque, no final, provavelmente se sentirá frustrado(a). É um livro parecido em alguns aspectos, mas inteiramente diferente em outros. Recomendo sua leitura aos amantes de estórias, dramáticas, complexas, paradoxais, como a vida muitas vezes é, e que estejam dispostos a refletir e repensar sua visão sobre si, sobre Deus e sobre as pessoas que dão significado especial à sua, minha, nossa existência.

Jonathan


[*] Resenha de: YOUNG, William Paul. A travessia. São Paulo: Arqueiro, 2012, 240p.

[1] No original: “I’m in repair, I’m not together but I’m getting there”. John MAYER. Álbum: Continuum. Columbia Records, 2006, faixa 11.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Rob Bell, os evangélicos e suas representações de céu e inferno



Por Jonathan Menezes
Toda a dificuldade em entender o inferno é que a coisa a ser entendida é quase Nada.
– C. S. Lewis
Quem conhecia o pastor norte-americano Rob Bell apenas por suas obras anteriormente publicadas, nomeadamente: Repintando a Igreja (2005, Editora Vida, Velvet Elvis), Deus e sexo (2007, Editora Vida, Sex God), ou Jesus wants to save Christians (2008, Zondervan), ou até mesmo pela série Nooma, composta de vários vídeos em que Bell atua e ensina de modo criativo, certamente foi surpreendido pela repercussão e pelo teor para lá de polêmico de seu mais recente livro, O amor vence (2012, Editora Sextante, Love Wins).
A habilidade na comunicação clara, inteligente e atraente — quem lê Bell sente como se tivesse ouvindo ele falar ao vivo — continua como marca registrada nesta obra. Certamente Bell é um dos principais comunicadores desta e para esta geração. O problema, para muitos, está no conteúdo, que parte do questionamento de uma teologia de céu e inferno que há séculos vem sendo aceita e reproduzida como “Verdade” pelos cristãos, e uma versão especial dela, pelos cristãos evangélicos norte-americanos de vertente fundamentalista, a qual o autor mesmo assim descreve:
Fizeram-nos crer que um seleto grupo de cristãos viverá eternamente em um lugar de paz e alegria chamado céu, enquanto o resto da humanidade será deixado para sempre no tormento do inferno. Muita gente aprendeu que esta é uma verdade imutável da fé cristã e que rejeitá-la é o mesmo que rejeitar Jesus. Isso é um equívoco. Além do mais, essa ideia não ajuda a propagação da mensagem de amor, alegria, perdão e paz que o Senhor nos trouxe e que precisamos desesperadamente ouvir (1).
Desde que o livro foi publicado nos Estados Unidos, há pouco mais de 1 ano, as repercussões que aconteciam lá reverberavam aqui no Brasil com um teor negativo maiormente, em que Bell recebia acusações que o colocavam no posto de “herege da vez”. A mais comum foi a de que, com este livro, Bell se autoiniciou em uma nova fase “universalista” — isto é, segundo o senso comum, como quem crê que a salvação em Cristo é universal e que, a despeito do que na terra aconteça, no final Deus irá salvar a todos, porque no fim, como diz o bordão do livro, “o amor vence”. Com a tradução do livro para o português e sua publicação no Brasil neste ano de 2012 (pela editora Sextante), o assunto voltou à tona entre os brasileiros. Mais ainda agora, a partir da entrevista concedida por Bell à André Petry, para a Revista Veja (Edição 2297, de 28 de novembro de 2012). Gostaria de concentrar meus comentários na entrevista, fazendo breves correlações com o livro.
Em primeiro lugar, uma das ênfases de Bell na entrevista, que bem resume a principal tese defendida no livro, é a de que céu e inferno são dimensões de nossa existência aqui e agora, que “se estendem para a dimensão para a qual vamos ao morrer...”, e que “as pessoas mais interessadas em discutir o inferno depois da morte são menos interessadas em discutir o inferno sobre a terra. E vice-versa” (2). Não poderia concordar mais e não vejo nada de exagerado nestas afirmaçôes. Como ele mesmo diz, basta olhar ao redor, em nosso país e no mundo, para perceber que muitas pessoas, de fato, têm enfrentado infernos de infinitas naturezas neste momento. De igual modo, é possível dizer que o céu — ou a vida eterna — é algo que se pode experimentar, pela fé, de modo parcial já-aqui no tempo. Contudo, este ponto de seu argumento — de que céu e inferno não são “lugares” propriamente, mas estados existenciais —, Bell não foi o primeiro a apresentar, e nem eu saberia precisar com certeza se há um único “pai” para esta ideia. O próprio Bell reconhece isso quando diz: “Eu não criei nenhuma linha de pensamento inovadora que vá de encontro a tudo o que já foi dito inúmeras vezes. Esta é a beleza da fé cristã, histórica e tradicional: ela é um rio largo e profundo que vem correndo há milhares de anos, transmitindo uma incrível variedade de vozes, pontos de vista e experiências” (3).
Deixe-me citar um exemplo disso. Num livro de ficção (não menos teológico por isso) escrito em 1946, chamado The great divorce [O grande abismo], C. S. Lewis fez afirmações semelhantes e, em minha avaliação, de maneira um pouco mais criteriosa que Bell em seu O amor vence. A assunção básica de Lewis, logo no prefácio, é a de que será verdade, para aqueles que completarem a jornada (ou a “carreira da fé”, na linguagem paulina), que “o bem é tudo e que o céu está em toda parte”, embora disto não implique, segundo ele, na “falsa e desastrosa ideia de que tudo é bom e de que qualquer lugar é o céu” (4). Também afirmou acreditar que, se a Terra fosse escolhida em lugar do Céu, acabaria tendo sido, todo o tempo, “apenas uma região no inferno”, mas se estivesse subordinada ao Céu, teria sido, desde sempre, “uma parte do próprio Céu” (5). Decorre disso que, para Lewis, o Céu é algo que permeia a realidade de tudo aquilo que é “bom” e “verdadeiro”, e o inferno pode ser mais bem entendido como um “estado de mente”, resultante do isolamento da criatura, em sua própria mente, da vontade de seu Criador (6) — e aqui estão inclusas todas as incontroláveis implicações disso. Isto se funde bem com a ideia de Bell de que o inferno pode ser descrito como nossa recusa em permitir que Deus reconte nossa história (7).
Em outras palavras, o inferno seria fruto, também, da escolha do ser humano — ou sua “rejeição” e “resistência”, como enfatiza Bell numa parte da entrevista — por viver de modo alheio, e até mesmo oposto, ao amor de Deus em sua vida na terra. Se é impossível afirmar que o destino deste ser humano será a condenação eterna, é também muito difícil (e tão “especulativo” quanto) afirmar que, porque Deus é bom e é amor, ele/ela está, por derivação natural e largamente extendida do amor divino, livre de qualquer condenação. Lembrando do que disse Paulo, “já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte” (Rm 8.1, 2). A libertação da condenação, desta forma, é consequência do “estar em Cristo”, conforme Paulo. Quem está, como chegou a estar e de que modo permanece “estando” é outra discussão. Só sei que, de modo algum, propagaria aqui a confusão entre as afirmações “não há salvação fora de Cristo” e “não há salvação fora da Igreja” ou “do Cristianismo”. Essa é uma pretensão tola da qual precisamos, urgentemente, nos livrar.
Em segundo lugar, um dos equívocos de Bell está em rejeitar com veemência o que ele chama de teologia concernente ao campo da “pura especulação” sobre céu e inferno. Não pela razão — correta a meu ver — de que nada podemos falar sobre céu e inferno como se tivéssemos “lá” estado ou como se possuíssemos “uma fotografia” de como será quando passarmos “desta para melhor” (ou para pior, quem sabe). Se estudarmos com um pouco mais de atenção o que as Escrituras falam sobre céu e inferno, veremos que estes são representados de modo figurativo, e não literal, isto é, não pretendem apresentar uma pintura ou foto da coisa em si, mas oferecer vislumbres simbólicos de como é ou como será — o livro de Apocalipse é, para mim, o melhor exemplo. Desse modo, de fato, é no mínimo estranha a “autoridade” com que alguns reclamam afirmar que “lá será assim” ou “lá será assado”. Mas, quando digo que ele se equivoca, é porque deixa inúmeras questões em aberto em suas afirmações, tornando-as tão especulativas quanto as que ele mesmo ora critica, tanto no livro quanto na entrevista. Um exemplo está em quando ele diz ser possível encontrar hoje um número grande de cristãos que acreditam que “Deus conquistará todos nós, ganhará todos os corações. Não sei se isso vai acontecer, também não sei o que acontece quando morremos, mas acho que essa é a melhor história possível. Portanto, por que não torcer por ela?” (8).
O uso da palavra “não sei” por Bell me lembra daquele personagem, o Chicó, do filme O auto da compadecida(Guel Arraes, 2000), que dizia não saber explicar as coisas, e repetia constantemente o bordão: “Não sei, só sei que foi assim”. O problema não está em não saber, está, antes, em confundir a natureza dos saberes, os de ordem científica — como o evolucionismo, citado por ele — e especulativa, e os de ordem de fé. Não estou dizendo que não possa haver, em nenhuma hipótese, conciliação entre eles, mas que há diferenças óbvias entre o que um saber científico reivindica e o que um saber de fé reivindica, e entre as respostas que ambos podem e se propõem a dar. O cientista, que estuda fenômenos, nada pode dizer sobre céu e inferno, pois não pode dizê-lo “objetivamente”. Já a pessoa de fé, é capaz de dizer: “sei que o inferno e o céu estão aqui presentes, e também lá”, mas logo reconhecerá que este saber só tem sentido se concebido e experienciado na fé. Ele/ela não apenas “torce” para que assim seja, como quem torce para que chova amanhã, mas espera — no sentido da esperança que se conjuga entre paciência e luta — que assim seja. A fé, já diria o autor de Hebreus (11.1), “é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se veem”.
Em outras palavras, a fé pode ser entendida como uma certeza sustentada pelo Espírito — já que não vejo, mas espero — em meio às muitas incertezas humanas. É resultado do encontro entre o que há de mais sublime e verdadeiro na existência para os que “estão na fé” — o conhecimento de Deus — com aquilo que há de mais frágil e incerto — conhecimento e experiência humanos. Na definição de Brennan Manning, “fé é um compromisso com a verdade, que é Jesus Cristo. Fé é dedicação à realidade, que é Jesus Cristo” (9). Portanto, Cristo é o centro tanto da fé nele, como da salvação que somente nele obtemos. E isto me conduz ao meu terceiro e penúltimo ponto: a intrincada questão da “salvação universal”.
É preciso dizer que concordo com a defesa de Bell que, ao invés de céu e inferno, o amor de Deus está no centro da mensagem do evangelho e que este amor se destina à toda a humanidade e não somente a uma parcela dela — basta aqui lembrar de João 3.16. Em seu primeiro livro, Velvet Elvis, Bell disse que “se o evangelho não é a boa-nova para todo mundo, então não é boa nova para ninguém” (10). A salvação de Cristo pode ser considerada, nesse sentido, “universal” quando se tem em mente que a intenção seja a salvação de todo ser humano na face da terra. A crença de Bell numa “salvação universal” em que todos serão alcançados — que rejeita a noção de condenação e barateia a noção de graça — me parece, porém, uma banalização da ideia. Sobretudo, porque ele mesmo afirma que a salvação precisa ser concebida em um “contexto holístico”. O que ele omite, talvez pelos limites próprios da edição, são as implicações disso. O que significa, afinal, “ser salvo”? Salvo de quê e para quê? Ser salvo, num contexto holístico, não implica que as pessoas estejam sendo transformadas, paulatinamente, na totalidade de seu ser? Talvez na tentativa de combater a ideia da presença ou ausência de uma salvação que determina se a pessoa vai para o céu ou para o inferno, Bell tenha se perdido um pouco quanto a outros aspectos, não menos importantes, de “ser salvo”, ou mesmo em esclarecer quais seriam os reflexos do “céu aqui” na vida concreta de pessoas.
Em minha percepção, essa entrevista apresenta um Rob Bell um pouco mais “irresponsável” na maneira de se posicionar do que demonstrou ser em O amor vence. Se isso tem a ver com o fato de ele ter saído da Mars Hill, sua antiga igreja, se mudado para Laguna Beach, na Califórnia, e agora atuar como palestrante e escritor mais “livre”, nada posso dizer para além de especulação. Não importa. No livro, pelo menos, não vejo Rob Bell abrindo mão da ideia de um céu ou inferno “depois”. Pelo contrário, no capítulo 3, em que fala do Inferno (e aqui tomo o livro em sua versão original) ele diz que “existem infernos individuais, infernos comunitários, infernos de uma sociedade mais ampla... há inferno agora, e há inferno depois, e Jesus nos ensina a tomá-los, ambos, seriamente” (11). Então confesso ter ficado um tanto quanto confuso pela falta de clareza da posição de Bell acerca disso. A princípio, parece-me que a ideia de céu e inferno “aqui”, prevalecem diante da ideia do que vai acontecer no pós-morte, sobre o que ele se recusa a falar. Ele tem ideias interessantes neste livro, mas se aprofunda pouco nelas, deixando uma série de questões muito mal resolvidas. Não pode reclamar, neste sentido e ao todo, da polissemia interpretativa de seus críticos.
Em quarto lugar, e aqui vai talvez meu maior ponto de desapontamento e desacordo com o que Rob Bell disse na entrevista, ele patina muito ao tentar pintar um Deus “bonzinho”, de boa reputação, que não fere ninguém, não magoa ninguém, não desaponta ninguém — coisas que nem o próprio Deus, em minha percepção de sua Palavra, pretendeu ser. É quase como que uma postura de “guarda-costas” da bondade divina, seja contra a postura da “liga da justiça” fundamentalista norte-americana, ou a favor de um mundo ferido “em nome de Deus”. Isto fica explícito na resposta à pergunta: “Faz sentido que um ateu seja salvo por uma divindade na qual ele não acredita?”. Ao que Bell responde: “As pessoas de fé acreditam que Deus ama a todos, dá vida a todos. O Deus sobre o qual Jesus falou não seria capaz de ferir ninguém”(12). Afinal, a quem Bell quer convencer (ou contentar) com declarações como essa? Teologia preocupada em salvar a reputação de Deus soa menos como teologia e mais como marketing divino. E o evangelho me parece ser o “produto” mais antimarketing que existe na terra. Nele vejo a imagem de um Deus amoroso e terno, mas que não omite sua fúria em certos momentos e não aceita passivamente a rebelião de suas criaturas contra si mesmas e contra seu criador. Ama incondicionalmente, sem perder seu “anseio furioso” (Brennan Manning) pela reconciliação da Criação, sem, porém, ofertá-la a “preço de banana” na esquina mais próxima. Um Deus incapaz de se enfurecer é um Deus indiferente e, como tal, incapaz de amar.
Para encerrar, quero enfatizar que sou contra qualquer um que, em qualquer posição que esteja, julgue-se no direito de condenar outra pessoa como “herege” (um cristão menos qualificado neste sentido), como muitos estão fazendo com Rob Bell neste momento. E tenho, inclusive, um entendimento mais empático em relação a ideia de “herege” do que negativo, pois se trata da figura do contestador, e sem dúvida precisamos de contestadores no mundo de hoje. Contestadores que não sejam impossibilitados de contestar, mas que também aceitem jubilosamente ser contestados, desde que em um nível dialogal e respeitoso. Fora isso, o “lado bom” de se conhecer um “herege” é que você acaba conhecendo também muitos inquisidores, que estavam à espera dele aparecer, e acaba se dando conta de que a “Santa Inquisição” pode ter morrido com o passado, mas permanece viva “em espírito” numa miríade de sentidos. Como oro a Deus para que me livre da pretensão maligna de ser inquisidor ou (no campo da teologia) “legislador”, minhas críticas a Rob Bell são críticas às ideias dele — como leitor e admirador de seus escritos — e não à sua pessoa (me sinto ridículo tendo que esclarecer esse tipo de coisa em pleno século 21!). Quanto à pessoa, continuo crendo de bom grado, pelo que vejo, que Bell permanece sendo um homem de fé comprometido com Jesus Cristo. Não será este livro ou essa entrevista à Veja que irão romper com isso. É preciso bem mais que isso, e nem caberia a mim dizer que está “dentro” ou “fora”. Deixemos Deus fazer o trabalho de Deus.
Na tarefa de teologizar limito-me a pensá-la como uma resposta ocasional. Se ela é válida ou não, não me cabe determinar, apenas me esforçar para que assim seja. E que seja também uma resposta que, antes de tudo, esteja conectada não apenas com meu modo de pensar as coisas, mas de vivê-las (minha experiência). Não vejo nesse empreendimento a que Bell e tantos outros têm se dedicado, de “provar” no balcão das liquidações pós-modernas que Deus é amor e salvar a reputação de sua existência, algo salutar. Não se prova, no sentido cabal de comprovação, o amor de Deus. Ou se experimenta, ou não. Do contrário, estarei bastante sujeito a cair no que Lewis chama de a “mais sutil de todas as armadilhas”: a de falar tanto ou defender tanto algo, e acabar perdendo de vista sua dimensão encarnacional ou prática.
Em suas próprias palavras, com as quais termino:
Houve homens que se interessaram de tal forma em provar a existência de Deus que acabaram desinteressando-se por completo do próprio Deus... como se o bom Deus nada tivesse a fazer além de existir! Houve alguns tão ocupados em tornar o Cristianismo conhecido que jamais pensaram em Cristo. Nossa! E é possível ver isso nas mínimas coisas. Já conheceu um amante de livros que, a despeito de todas as suas primeiras edições e obras autografadas, tivesse perdido a capacidade de lê-los? Ou, quem sabe, um organizador de projetos de caridade que perdesse todo o amor pelos pobres? (13).
Notas 
(1) BELL, Rob. O amor vence. Rio de Janeiro: Sextante, 2012, p. 08. 
(2) “Quem falou em céu e inferno”. Entrevista de Rob Bell a André Petry. Veja, Edição 2297, de 28 de novembro de 2012, p. 19, 22. 
(3) BELL, op. cit.: 09. 
(4) LEWIS, C. S. O grande abismo. São Paulo: Editora Vida, 2006, p. 17. 
(5) Ibid.: 17 
(6) Ibid.: 84. 
(7) Ver: BELL, Rob. Love wins. New York: HarperOne, 2011, p. 170. 
(8) “Quem falou em céu e inferno”. Entrevista de Rob Bell a André Petry. Veja, Edição 2297, de 28 de novembro de 2012, p. 22. 
(9) MANNING, Brennan. A implacável ternura de Jesus. São Paulo: Naós, 2010, p. 126. 
(10) BELL, Rob. Velvet Elvis. Repainting the Christian Faith. Grand. Rapids: Zondervan, 2005, p. 166. 
(11) BELL, 2011: 79. Minha tradução. 
(12) “Quem falou em céu e inferno”. Entrevista de Rob Bell a André Petry. Veja, Edição 2297, de 28 de novembro de 2012, p. 23. 
(13) LEWIS, op. cit.: 87.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Antes… (Parte II)

Esperança-caos

2. Antes

Essa é uma palavra-chave para o autor de Eclesiastes. É preciso viver intensamente, lembrando do Criador, "antes"... Antes do quê? Antes que chegue o inevitável momento da vida em que (o que segue é uma paráfrase dos versos 2-7):

... Não tenhamos mais prazer

... A luz da vida perca seu brilho e seja tomada por uma escuridão sem fim, e nossos olhos já não vejam mais

... Na velhice, nossos corpos já não nos sirvam como antes

... Não tenhamos mais força, e até mesmo aquilo que é relativamente fraco (como um gafanhoto) seja peso para nós

... Que toda aquela potência de antes se transforme em impotência e fragilidade

... E nossos amigos e família comecem a fazer planos para nosso funeral, e os "zés" e "marias" velório da vida comecem a chorar pela nossa partida "desta para melhor" (ou pior, quem sabe?).

É bom ressaltar que a velhice aqui é uma metáfora da decadência, do fim. Alguns têm essa experiência bem antes da velhice. Um acidente ou uma doença podem provocar isso. E como teremos vivido? Então, o que há para viver, o que é possível viver – ou o que o Criador espera que a gente viva – que se decida viver hoje, de preferência , porque o amanhã não existe ainda e nem sabemos se existirá (para cada um dos viventes). Como já disse o poeta Renato Russo, "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade não há". O que há depois de hoje? Ora, o amanhã. A pergunta é: para quem?

3. Vaidade

Por isso, assim ele resume a nossa vida debaixo do sol: "Tudo é vaidade!". Ou seja, tudo é transitório, passageiro, superficial, futilidade pura! Há outras duas definições da vida, que se encaixam bem com essa: (a) somos um “punhado de pó” – do pós viemos, ao pó voltaremos; (b) somos como neblina, que vem e logo se dissipa (Tiago). Na mesma música antes citada, Renato Russo diz: "sou uma gota d'água, sou um grão de areia". Ou seja, somos bem menores que nossa pretensiosidade nos leva a acreditar (ou a nos auto-iludir) que somos.

Isto implica que a vida, não importa quanto tempo a gente viva, diante da eternidade, é incrivelmente curta e, como se costuma dizer, passa muito rápido. E aquilo que foi e o que passou não têm volta. Como diz outro poeta (Lulu Santos): "nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia, tudo passa, tudo sempre passará. A vida vem em ondas como o mar, num indo e vindo infinito". Nesse sentido, cabe aqui a frase de Ed René Kivitz, em seu O livro mais mal-humorado da Bíblia (2009): "Sábio não é aquele que busca a novidade para se saciar: sábio é aquele que consegue entrar na rotina da vida e fazer as coisas repetidas como se as fizesse pela primeira vez".

Como eu leio isso tudo? A partir da perspectiva de que “sei que nada será como antes amanhã” (Milton Nascimento). Não haverá uma segunda vez para amar como eu posso fazer hoje (pelo menos não igual a esta): para perdoar, para me reconciliar, para dar atenção ao meu filho, para beijar minha esposa, para dizer e demonstrar a minha família, ao meu irmão, ao meu amigo, que eu o amo... Então, eu preciso me lembrar de fazer, na oportunidade que tiver, todas essas coisas (e outras) como se fosse a primeira vez, considerando ainda que não sei (e ninguém sabe, exceto o Criador) se, na verdade, não será a última...

Não sei quantas oportunidades Deus ainda vai me dar para eu viver me lembrando Dele, quantas “segundas chances” terei na vida. Assim, tudo o que tenho é o hoje, é o agora; o presente é o tempo da oportunidade. Portanto, há sim algo do presentismo e imediatismo de nosso tempo que precisa ser celebrado (ou reorientado). Pois, no que concerne ao futuro, não sei se será um tempo para mim, porque o futuro não pertence a mim, mas a Deus e somente a Ele. E o futuro além-do-tempo que temos em Deus (vida eterna), só tem sentido se experimentado, mesmo que em parte, já-no-tempo. E aí, o que temos para hoje?

Jonathan

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Antes... (Parte I)


A música "epitáfio", dos Titãs (2001) é apropriada pra uma reflexão sobre o sentido da vida. "Epitáfio" nada mais é que aquela inscrição da lapide do túmulo no cemitério. Geralmente ali se escreve aquilo que a pessoa foi, uma qualidade dela. Ex: 'Ana, esposa fiel, mãe dedicada, mulher irrepreensível'.
A música, porém, inverte isso e apresenta uma lista de coisas que a pessoa queria ter feito, mas não fez. Em suma, é como se ela dissesse: "eu queria ter vivido melhor, curtido intensamente os momentos singulares da vida... mas não fiz". É uma linda canção, que fala de ideais de vida possíveis, mas de um lugar de impossibilidade: o instante da morte. Embora tratemos a morte com extrema recusa, estranhamento e medo muitas vezes, ela tem uma função pedagógica: lembrar-nos sobre como temos vivido e que valor damos à vida, às pessoas que amamos. Podemos dizer que ela é uma espécie de companheira onipresente, que a gente tem certeza que mais hora, menos hora, vai dar as caras. Que ela vem é algo certo, quando ela vem é que não sabemos.
A poesia dos Titãs, porém, chama atenção a dois problemas pelo menos. Primeiro, mostra que, nos últimos instantes de vida, quando não há mais nada a ser feito, alguém lamenta o que poderia ter sido feito, mas não foi ou não fez. Segundo, afirma que "o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído". O acaso – que diz respeito a coisas que acontecem sem causa, sem razão aparente – não escolhe a quem vai atingir, nem tampouco tem protegidos. Se tudo depender do acaso, então minha vida está nas mãos daquilo que há de mais incerto e implacável. É isso que a gente quer: deixar para que, no Epitáfio, lamentemos a decisão que podemos tomar hoje – de viver e tentar fazer a coisa certa? Entregaremos nosso destino ao acaso e deixaremos “a vida nos levar”?
Agora vamos a Eclesiastes (12:1-7) para ver o que mais pode ser dito sobre isso. Gostaria de destacar algumas máximas que sobressaem neste texto:
1. Lembrar
Lembre-se do seu Criador nos dias da sua juventude, antes que venham os dias difíceis e se aproximem os anos em que você dirá: ‘Não tenho satisfação neles” (12.1).
Em outra tradução se diz "honre e aproveite" seu criador enquanto se é jovem... Por que a juventude? Talvez porque seja uma fase em que mais avulta a pretensão a auto-suficiência do ser humano. Pense em um jovem adolescente, descobrindo um universo de coisas novas sobre si, sobre o mundo... Mas pense também em um jovem adulto, entre seus 25-35 anos, sentindo-se dono de sua vida, vivendo como se aquele vigor fosse durar para sempre, gozando de sua própria produção, como quem faz tudo acontecer por si mesmo. O que ele poderia querer com o Criador?
Mas, a dura realidade (ou a boa notícia, exceto para a geração “Peter Pan” da vida) é que ninguém será jovem para sempre. A juventude e a primavera da vida são vaidade (passageiras/ transitórias/ passam como um vento), diz o questionador de Eclesiastes. Então o conselho é: “Aproveite o máximo dessa vida, viva intensamente, siga os impulsos do teu coração. Mas saiba que não vai passar batido, e você vai prestar contas ao Criador sobre cada pedacinho do que viveu” (ver Ec 11.9-10). Vejam que o autor não é contra o prazer e a felicidade. Não é contra aproveitar a vida – afinal, Deus é o inventor e mantenedor disso tudo, não é? A questão me parece ser a de como aproveitamos a vida? E sem uma relação de amor ao Criador e tudo o que Ele fez, resta perguntar: o que fica disso tudo que temos vivido?

(Continua...)

Jonathan

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Uma rápida sobre a experiência da escrita

Escrever Lispector

Um historiador é tanto mais útil quanto mais livre -- Peter Gay

A escrita, associada a esse campo de possibilidades, que é a pesquisa, é uma aventura fascinante cujo fim é indeterminado e imprevisível. Tentar eliminar um certo grau de indeterminação intrínseco à natureza da escrita, é uma forma de empobrecê-la, de retirar-lhe a liberdade. É isto que a academia faz, muitas vezes, ao impor o lado metódico (“científico”) sobre a criatividade. A metodologia deve estar à serviço da criatividade do escritor/pesquisador, e não o contrário.

No "academicismo", o problema não é a falta de critérios de interpretação, é o transbordamento e a canonização dos critérios (ou seja, a presença excessiva ou obsessiva deles). A solução não está, a meu ver, na abolição de todo e qualquer critério no empreendimento da escrita ou nos empreendimentos científicos. Todos adotam algum critério para representar a realidade pretendida (mesmo que inconscientemente). Uma solução, talvez, seja a des-mecanização da metodologia da pesquisa  e da escrita - o que implica não em ser menos criterioso (cuidadoso com o que e como fala), mas menos bitolado na aplicação exagerada de certos critérios. Isso mata a liberdade de pensar e, como tal, de escrever, ao mesmo tempo em que aniquila a fome pela leitura.

A escrita que se resume à terceirização – notas de rodapé técnicas sobre o que outros já fizeram e como aplicaram as regras consagradas que sua ciência celebra – é, no mínimo, entediante e desinteressante. Textos que "arrastam" leitores, em geral, são aqueles permeados pela personalidade e pensamento próprios de seu escritor, e de uma experiência com a qual o leitor possa se identificar. A objetividade é uma pretensão cansativa.

Jonathan

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Feridos pela igreja, sarados na igreja

church-after-christendom

Por Henri J. M. Nouwen

A Igreja com frequência nos fere profundamente. Pessoas com autoridade religiosa normalmente nos ferem através de suas palavras, atitudes e exigências. Precisamente porque nossa religião nos coloca em contato com questões de vida e morte, nossa sensibilidade religiosa pode ser facilmente ferida. Ministros e pastores raramente se dão conta de como um comentário crítico, um gesto de rejeição, ou um ato de impaciência pode ser relembrado durante uma vida inteira por aqueles a quem eles foram direcionados.

Existe uma fome tão grande por significado na vida, por conforto e consolação, por perdão e reconciliação, por restauração e cura, que qualquer pessoa com alguma autoridade na Igreja deveria constantemente ser lembrada que a melhor palavra para caracterizar a autoridade religiosa é compaixão. Continuemos a olhar para Jesus, cuja autoridade foi expressa em compaixão.

[…] Quando somos feridos pela Igreja, nossa tentação é rejeitá-la. mas quando rejeitamos a Igreja, torna-se muito difícil permanecer em contato com o Cristo vivo. Quando dizemos: “Eu amo a Jesus, mas odeio a Igreja”, acabamos não apenas perdendo a Igreja, mas também a Jesus. O desafio é o de perdoar a Igreja. Este desafio é especialmente grande porque a Igreja frequentemente nos pede perdão, ainda que extra-oficialmente. Mas a Igreja, como uma organização humana e falível, precisa de nosso perdão na mesma medida em que a Igreja, na forma do Cristo vivo entre nós, continua a nos oferecer perdão.

É importante pensar na Igreja não como algo que se encontra “lá fora”, mas como uma comunidade de pessoas fracas, cheias de conflitos, da qual somos parte e na qual nos encontramos mutuamente com nosso Senhor e Redentor.

[Tradução: Jonathan Menezes. Trechos de: NOUWEN, Henri J. M. Bread for the journey. São Francisco: Harper Collins, 1997].

domingo, 9 de setembro de 2012

Palavras também dão sentido ao mundo

Poder da fala

É conhecida a ênfase de Tiago sobre a ação na vida cristã. Para ele, a ação dá vida à fé que move o mundo. Mas ele também mostra um complemento disso: palavras também dão sentido ao mundo... Os versos abaixo lançam mão de todo o problema a ser explorado no capítulo 3 (1-12) de sua carta: “Não tenham pressa alguma para se tornarem professores. Ensinar é um trabalho de alta responsabilidade. Professores são avaliados pelos mais estritos padrões. E nenhum de nós é perfeitamente qualificado. Nós agimos mal quase sempre que abrimos nossa boca. Se você conseguir achar alguém cuja fala seja perfeitamente verdadeira, você tem uma pessoa perfeita, no perfeito controle sobre sua vida” (Tg 3.1-2 – The Message).

Isso significa que, quando eu abro a boca, estou mais perto de errar do que em qualquer outro instante da vida. E só um ser perfeito é capaz de controlar a língua ou a fala totalmente. Ou seja, este pleno domínio simplesmente não existe, especialmente fora dos domínios da ação do Espírito.

A questão que me encabula é: como um órgão tão pequeno pode ter um poder tão grande sobre a vida e os relacionamentos humanos?

Comecemos analisando, por exemplo, a frase: “O que a gente fala tem poder”. Que poder é esse? Até onde ele atinge? Certamente a visão espiritualizada e superficial desse negócio não consegue captar o que isso significa. Não se trata nem de fetichizar, nem de demonizar a fala, e dar maior poder do que ela realmente tem. Mas de pensar no que, de fato, ela é capaz...

O texto de Tiago nos ajuda a aprofundar a questão, quando compara a língua a uma faísca, que pode atear fogo numa floresta inteira. Estando no meio dos demais órgãos, a língua é “um mundo de iniquidade”, que tem a potência para contaminar o corpo inteiro, e mais, todo o caminho de uma existência humana. Isso ajuda a entender melhor o exemplo do professor, por ele dado, e o peso da responsabilidade sobre o que alguém nessa posição diz.

Nós domesticamos todo tipo de animal, mas, segundo Tiago, somos incapazes de domesticar a nossa própria língua. Todavia, Tiago não está dizendo que a língua é o demônio, e sim que ela pode até transformar supostos “anjos” em pequenos demônios, exagerando um pouco. Seres humanos, porém, não são nem anjos nem demônios, são apenas humanos, e urge que reconheçam a si mesmos e do que são capazes em sua humanidade, seja para o bem ou para o mal.

E essa é a sacada que nos leva de volta à tese do começo – de que palavras também dão sentido ao mundo: tanto quando usada para fazer bem como para fazer mal. E Tiago não dicotomiza a questão da fala no binômio bem-mal, pois lembra que da mesma boca de onde procedem louvores a Deus, o Pai, procedem maldizeres às pessoas, criadas à sua imagem e semelhança. Com o ser humano é assim, paradoxal, tudo junto e misturado. Daí, é possível perceber que quando dizemos coisas que fazem mal ou bem a alguém, afetamos a saúde integral do corpo, o nosso e o do outro.

Uma frase que talvez Luiz Felipe Pondé diria ser “filha do politicamente correto”, é aquela em que alegamos ter dito algo estando “fora de nós mesmos”, ou “da boca para fora”. Bem, a menos que estivéssemos sob efeito de entorpecentes, sou obrigado a dizer que isso é uma grande balela. Ninguém fala nada “da boca pra fora”. Quando saímos com isso, portanto, ou é para sair menos “mal na fita”, ou para se justificar de um jeito aparentemente humilde, ou porque não nos conhecemos o bastante pra saber “o que é que há, o que é que está se passando com essa cabeça”, ou porque mentimos descaradamente mesmo, e... (complete você). Como se diz, a boca fala do que está cheio o coração. Ou, como disse Jesus, “o que sai do homem é o que o torna impuro” (Mc 7.20).

Mas Tiago não pára por aí. Ele não diz que está bom desse jeito. Pelo contrário. Ele defende que isso não pode continuar assim. Não podemos prosseguir dizendo por aí frases como “eu sou de Deus, eu sou de Cristo”, enquanto normalizamos a maledicência. Também não dá pra afirmar categoricamente que não compactuamos muitas vezes com ela. É preciso sempre desconfiar da fala, não dar todo o crédito pra ela, e nem tirá-lo totalmente. É preciso constantemente se perguntar: Do que a fala está carregada? A quem ela pode estar atingindo destrutivamente? Em que e a quem este “dizer” possivelmente edifica? O quanto posso estar dizendo isso apenas para agradar ou provocar desgosto?

Acredito que a palavra também dá significado ao mundo, e mais, que pode ajudar em sua transformação. A existência e o uso da palavra é, portanto, parte do propósito de Deus para a humanidade. Mas, como bem advertiu Eclesiastes, “há tempo para todo propósito debaixo do céu”. Há tempo de falar – e que a gente aprenda a moderar e liberar nossa fala no tempo adequado, em favor da vida e para gerar vida. Há tempo também de calar – tempo em que o falar atrapalha, tempo necessário para repensar o dizer e para desconfiar do que se tem dito, tempo para deixar um pouco de lado a fala e, quem sabe, começar a agir. Pois palavra sem vivência é palavra sem sentido: pode até causar rebuliços e prazeres mentais, mas não fecunda mais que o exemplo e a integridade de quem nem precisa dizer muita coisa para significar muito.

Jonathan

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Uma fé “fora da caixa”

fora da caixa

Escrevi estas linhas, motivado pela pergunta feita por amigos-irmãos de uma comunidade nascente em São Paulo, chamada “COLETIVObeta”. Na ocasião de minha fala e participação em uma das reuniões do grupo, iniciei considerando que a fé cristã não existe à parte do contexto histórico e cultural em que é concebida. Antes, é permeada, influenciada e modificada por ele. Logo, não existe fé “pura”, no sentido de incontaminada em relação ao ambiente, as pessoas, os coletivos, suas práticas, suas ideias, seus costumes, etc. De modo que esse negócio de “fé fora da caixa” pode não passar de uma perspectiva ingênua – já que todos nos encaixamos em algum esquema, quer admitamos ou não (como bem observou na ocasião meu amigo Hilton Isleb) – mas também (e penso que assim deve ser) uma tentativa de constantemente repensar e de novo situar a fé, de acordo com as transformações pelas quais o mundo passa e nós, mundanos, também passamos.

Assentindo positivamente com a proposta de meus amigos, traço aqui, em breves, algumas ideias sobre o que seria essa tal “fé fora da caixa”.

1. É aquela que se reconhece como dádiva e, portanto, que diz: Eu “estou na fé”. Não trata a fé como posse, porque se é posse a gente guarda na caixa, no armário ou embaixo da cama e a luz (de Cristo) não pode brilhar ali... A fé, definitivamente, não existe para ser “guardada”, mas para ser expressa, para brilhar e salgar.

2. É a fé que abandona a linguagem que diz “minha fé”, por entender que fé cristã se gesta comunitariamente. A conversão pode ser a razão pela qual passamos a viver na e pela fé, mas a comunidade é o que sustenta, desafia e impulsiona a fé a outras possíveis conversões. Ademais, fé que não se converte ao outro não pode ser chamada “cristã”. No máximo se traduz por uma crença, como uma opinião: você crê daquela forma, você crê em Deus, mas sua vida não se move do jeito de Deus. Ao modo como Tiago já dizia: Você acredita em Deus? Beleza! Mas deixa eu te avisar: até os demônios crêem e temem. No final das contas, se nada opera ou transforma, a fé é como um cadáver, uma fé necrófila – amiga da morte, não da vida.

3. É aquela que não pode simplesmente se perder, num vaivém de “tinha e agora perdeu” – pois se não é propriamente minha, vai se perder como? A fé que se perde é aquela que nem bem se achou, e é preciso então perguntar se o que se perdeu não pode ser essencial ao ser verdadeiramente achado na fé. Ser achado na fé é ser achado livre, aceito pela graça e amado como filho de Deus e firmado na esperança da consumação no reino.

4. É ainda uma fé que não teme os riscos, que não tenta se blindar contra o mundo nem contra a humanidade, a começar pela própria. É, portanto, uma fé frágil, tanto por habitar em “vasos” quebráveis, como porque está fora e não se furta de se expressar ao mundo, porque não se envergonha daquele que é a razão própria de sua existência: Jesus! A fé que não tem vergonha de Jesus não cria adornos para ele. Ela assume sua identidade radical como necessariamente mansa e humilde de coração, de um fardo que é leve e suave, mas também de uma atitude rebelde e causadora de problemas, pois veio trazer espada e não “paz” ao mundo – pelo menos não essa paz artificial e sem justiça que ele almeja muitas vezes.

5. Por fim, porque não “se ganha” e, assim, não teme “se perder”, a fé fora da caixa é uma fé chamada a pensar, discernir e, diariamente, reinventar a si mesma diante de Deus e de seu contexto. Isso significa que a fé fora da caixa é uma fé que, apesar do firme alicerce espiritual que tem em Jesus, não se despe da dúvida, da incerteza e da indeterminação próprias do viver humano, especialmente no tempo atualmente vivido. Antes, a fortaleza da fé é que ela é uma certeza em meio a incertezas (cf. Hb 11.1). Enfim, a natureza da própria fé a conduz para fora da caixa, pois não se pode aprisionar o Espírito, que é quem a vivifica. Esse é o grande problema que o Espírito gera para a pessoa de fé: é que ele é livre e atua em liberdade. Uma fé escrava, comodamente encaixotada, não se deixa orientar pelo vento do Espírito, pois é o Espírito quem promove a liberdade para se viver a vida de Cristo de modo autêntico no mundo. Quem tem ouvidos, ouça...

Jonathan

(Imagem: ideiaseacao.com)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A revolução do Espírito e a involução dos espíritos

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Caro Fernando,

Obrigado por escrever seu email-carta. Muito me agradou, intrigou e arrancou um bocado de riso. É sempre bom saber que aquilo que a gente escreve tem algum impacto sobre as pessoas, mesmo quando negativamente. E é muito interessante o processo pelo qual somos lidos e avaliados pelo outro. E isso você faz muito bem em sua carta, ora falando de mim, ora de si mesmo, aportando encontros e desencontros. Um trecho, porém, em particular, me fez parar pra pensar mais detidamente (na verdade, é o que mais me motivou a escrever essa resposta), e é o seguinte:

Acredito que em grande parte, sua demanda pelo seu trabalho/vida, faz com que continue produzindo des-tratados teológicos e teologias narrativas assitemáticas. Momento em que nossos rios se separam e nascem as saudades, ou melhor as dúvidas:

De onde nasce sua vontade de ser a própria linha de fuga do território teológico, ser um nômade-emigrante da nação-estatal cristã? Porém, ainda carregar consigo penduricalhos e souveniers. Qual é a força para retornar sempre de onde tenta sair?

Em primeiro lugar, quero dizer que seu texto é para mim mais um sinal de que existe esperança, de que o Espírito se move e sopra onde quer e esse, como diria Miguel de Unamuno, é “o grande problema do Espírito”, é que Ele é livre! E, portanto, jamais deixará de causar seus rebuliços na história, com, sem ou apesar das igrejas que tanto invocam sua presença, às vezes desejando que em seu meio Ele seja “Ele mesmo” (livre, desimpedido e revolucionário), às vezes tentando tratá-lo como monopólio ou patente. O grande lance é que, por não se deixar aprisionar dessa forma, não será o Espírito quem morrerá, e sim aqueles(as) que pensam poder contê-lo. E isso, de variadas formas, já vem acontecendo na história da igreja – quem tem olhos para ver, veja, e quem tem ouvidos para ouvir, ouça!

De fato, escrever para mim é mais um ato de transgredir a mim mesmo – expor necessidades, expressar descontentamentos, extravasar pensamentos, etc. Isso, aliado a um esforço de encarnação, desejando que minhas palavras estejam coladas com a minha vida, e assumindo doses moderadas ou altas de risco, de que esse esforço também revele minhas deficiências, vulnerabilidades e inadequações, e mostre o quanto disso tudo é concebido no olho do furacão do paradoxo, embora não sem temor e tremor. Isso, como você disse, pode gerar risos no canto da boca, ou provocar raiva, ser uma “maquina de guerra” ou “linha de fuga”. Não sou a favor do escapismo, mas não posso ignorar a possibilidade de que a escrita seja também uma espécie de “válvula de escape”. Por outro lado, não pretendo deixar de dizer o que preciso dizer, com alguma medida de coragem e liberdade, para quem quer que seja. Se se retirar esse elemento da pena do escritor, o resultado será menos que medíocre.

Até pelas razões acima, e também pelo que você mencionou (minhas muitas “demandas”), acabo produzindo “des-tratados” teológicos, com pouca pretensão de veracidade (no sentido metafísico) e até mesmo de aceitação por um grande público. Se há algum teor de “verdade” naquilo que escrevo, é sempre por vias de aproximação e jamais por correspondências. Acho que nunca acreditei nisso, na capacidade do discurso, seja ele de que ordem ou matiz científica for, “corresponder” à realidade, à verdade ou mesmo a Deus. Tudo o que falamos, é como quem balbucia ecos do abismo, tendo uma enorme escuridão à nossa frente e apenas uma luz no fim do túnel. Nossa enorma ânsia pela verdade (por agarrá-la, possuí-la) faz com que nos agarremos a esse faixo de luz, achando que conseguimos refletir o luzeiro. Isso é o que chamo de “involução dos espíritos”, bem capaz de co-existir sem nenhuma relação direta com as intermináveis revoluções do Espírito da Liberdade, o Espírito de Deus.

A razão, eu acho, que me leva a viver numa espécie de limbo teológico, como “nômade-emigrante da nação cristã”, me afastando sem deixar de pisar no território religioso, em grande parte é por força da profissão – sou professor de teologia – e da vocação – pode não parecer, mas sou pastor. Um pastor meio “cavaleiro das trevas”, às vezes, mas ainda assim um pastor. E enquanto Deus quiser, não pretendo deixar de colocar meus escritos, ideias e, mais do que eles, minha vida, na linha de frente da luta em prol do reino de vida do Deus de amor. Um reino que é feito de/para todo tipo de gente – desde o fariseu ao simples varredor, desde o que se senta na coletoria, até mulheres retirando água à beira de poços, desde doutores diplomados e engravatados, à gente simples que mal sabe ler ou escrever. Para cada uma das pessoas, há uma forma de abordagem, um jeito de aproximação. Com meus textos, atinjo quem quer que se interesse por leituras variadas sobre teologia, filosofia, história, Deus, religião, vida, espiritualidade, etc. Com minha vida, preciso fazer um esforço para me encontrar com quem quer que seja “próximo”. E “o meu próximo”, como diria Segundo Galiléia, não é exatamente aquele(a) que compartilha de minhas ideias, valores, cultura ou religião; meu próximo é aquele com quem me comprometo.

Se meus textos e minha vida não expressarem, ainda que de modo torto, inacabado e nem sempre feliz ou assertivo, esse compromisso, creio que eles não têm razão de existir. Talvez seja esse o espírito da coisa toda, talvez seja por isso que, mesmo que contra a vontade tantas vezes, tenho tido coragem de bater, mas não de virar as costas.

Um grande abraço,

Jonathan

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Sobre apologetas e apolo-jecas

Paladinos

Pensando e lendo algumas coisas pela internet nos últimos dias, percebi que, além dos neo-apologetas, existem também os “apolo-jecas”. Neo-apologetas são aqueles que ainda pretendem, pelas vias do método teológico moderno, altamente sustentado na argumentação e na objetividade, “defender” Deus. Os apolo-jecas (desculpem a brincadeira), por sua vez, podem ser os fieis seguidores dos apologetas, que batem palma pra tudo o que eles dizem e defendem suas ideias com unhas e dentes. Não estão abertos para o diálogo, pois se recusam a pensar além daquilo que emana “do interior” do discurso já amplamente aceito, discutido (pela liga da justiça apologética), comprovado e aprovado por sua alta ciência teológica e pela cúpula eclesiojeca. Para eles, qualquer coisa que fuja à pretensa argumentação objetiva, da qual tanto se orgulham, acaba soando como tergiversação – pois não vai direto ao ponto, não atinge a questão, portanto, não está de acordo com “a verdade”. Afinal, só existe uma maneira de pensar e fazer ciência válida: a deles.

O modo apologético sustenta-se sob a pretensão não apenas de “falar de Deus” (o que já seria um hercúleo desafio), mas de “falar por Deus”. Muitas vezes ainda cede ao que C. S. Lewis chamou de “oferta do bruxo”, ao trocar sua vocação (teológica) para ser a mais modesta dentre as ciências, pelo conhecimento como poder: para legislar, dominar e condenar. Lutou contra seu próprio princípio de sustentação, de que a força de seu discurso e vida reside precisamente em sua fraqueza. Tantas vezes tem cedido à tentação de não questionar seus próprios pressupostos, lidar mal com os questionamentos alheios e, se isso não bastasse, de decretar como “herege”, “liberal” ou coisa que o valha quem ousa os questionar.

Um jeito “não jeca” de ser apologeta (se é que é possível continuar sendo assim chamado, caso isso aconteça) talvez seja o de deixar de lado essa faceta unívoca (que só tem e só admite “uma voz”), e aceitar a pluralidade, a plurivocidade e a diferença, não para baratear ou negar convicções, mas para enriquecê-las, colocando-as em seu devido lugar, como mais um discurso possível entre outros. Parafraseando o que disse Barth, a teologia só pode ser um discurso possível porque Deus disse “Sim”, e não porque alguém sacramentou e popularizou a fórmula do “é assim e pronto”.

Ademais, esse apego ferrenho ao poder do argumento que convence, em nosso tempo, não convence mais que o poder da vivência. Lembrando do que disse Lewis em A abolição do homem: “Numa batalha, não são os silogismos que vão manter os relutantes nervos e músculos em seus postos na terceira hora de bombardeio. O mais rude sentimentalismo... em relação a uma bandeira, país ou regimento será bem mais útil” (p. 22). Enfim, para Lewis, além de “cerebrais” (racionais) e “viscerais” (passionais), precisamos de “homens de peito” (íntegros, magnânimos na atitude, no sentimento), pois “o peito” é o elemento intermediário que transforma o homem em homem, enquanto, “pelo intelecto ele é apenas espírito, e pelo seu apetite ele é apenas animal” (p. 23).

O que tudo isso me leva a pensar? As “ideias boas” e bem articuladas, em si, podem convencer, mas não transformam, não geram “homens de peito”, na acepção de Lewis, no máximo, homens que, para fins mais “sublimes”, correm o risco de ignorar a parte do meio, pois, como reitera Lewis (ora se referindo a certos racionalistas de sua época), “não é o excesso de pensamento que os caracteriza, mas uma carência de emoções férteis e generosas. Suas cabeças não são maiores que as comuns: é a atrofia do peito logo abaixo que faz com que pareçam assim” (p. 23). Exemplos de vida, por sua vez, atrelados a ideias boas, bem articuladas e bem fundamentadas, convencem e transformam. Jesus é o maior exemplo de que as palavras não são tão convincentes quando ou se descoladas da vida. Ou como se diz por aí, palavras convencem, exemplos arrastam... Talvez aí esteja um mote para pensarmos num discipulado pós-moderno.

Jonathan