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domingo, 11 de agosto de 2013

Carta a um jovem casal sexualmente ativo


Nosso mundo (sobretudo o cristão) ainda está permeado pela pretensiosa assunção de que casais de namorados cristãos das igrejas (ou sem-igreja), necessariamente, não são sexualmente ativos. Sim, a castidade continua sendo o ideal quando se fala de namoro cristão ainda em nossos dias. Nenhum problema com tal opção legítima, diga-se de passagem; o problema é reivindicá-la não como opção, facultativa a consciência e variável nível de maturidade de cada pessoa e de cada casal, mas como uma regra universal, um imperativo categórico (usando aqui o termo de Kant), como se pureza e a santidade de um namoro pudessem apenas ser avaliadas (embora eu pense que isso não se avalia) pela ausência da dimensão erótica. Tem-se preferido, assim, ignorar que boa parte dos casais de namorados hoje não vive de acordo com tal imperativo, consciente e saudavelmente, ou clandestina e culposamente.

As exigências da igreja com relação à sexualidade há um bom tempo têm sido hipócritas, presunçosas e legalistas, tudo em nome de uma idolatria biblicista travestida de fidelidade à Bíblia. Ignora-se, como lembra Robinson Cavalcanti, que “a Bíblia não é uma enciclopédia de prescrições para cada detalhe da vida do homem”.[1] O que ela nos oferece, em muitos casos, como o do sexo pré-matrimonial, por exemplo, ou são orientações para casos muito específicos e histórica e culturalmente situados ou princípios relacionais mais gerais fundamentados no amor a Deus, à própria vida e ao próximo.

O pior de tudo é que esse imperativo, como vocês já devem ter notado, é excludente, ou seja, ninguém, sendo cristã(o), em hipótese alguma poderia viver um tipo de namoro em que o sexo esteja presente, com sanidade e santidade. E não tem havido suficiente abertura para quem quer discutir ou para quem pensa diferente. E qual a razão para isso? A razão é a de sempre: porque o sexo, fora do casamento, é pecado e isto está “muito claro” na bíblia. Assim como eu, talvez vocês já tenham parado intrigados diante de tamanha certeza, e pensado: ou eu li a bíblia muito pouco ou li muito mal, pois onde é que nela se fala com tanta clareza assim sobre esse assunto e de modo tão categórico para que muitos cristãos – sobretudo os evangelicais – tenham propagado por tanto tempo isso como sendo verdade absoluta para todas as pessoas a despeito de qual seja o caso? Ora, que “chavão textual” meus possíveis críticos estarão pensando trazer à baila neste momento? A questão da fornicação? Que nosso corpo é templo do Espírito? O relato do casamento (“tornar-se uma só carne”) segundo Gênesis? A questão da santidade e da pureza? Textos sobre luxúria, lascívia, os desejos impuros, a prostituição? Bem, a lista pode ser grande e nem me preocuparei aqui em ser exaustivo quanto às referências, acho que vocês entenderam meu ponto, por isso vou direto a ele.

Não estou dizendo que estes preceitos não existem nem que não sejam válidos, mas sim que faltam discernimento e honestidade intelectual no momento em que os aplicamos, muitas vezes (senão na maioria delas) fora seu devido contexto. Parece que o bom senso e a criatividade são elementos cada vez mais deixados de fora de nossa leitura bíblica. No fim das contas, fica a impressão de que aquilo que os evangelicais sempre disseram ser o seu “lado forte”, isto é, seu zelo em relação às Escrituras, pode ser também seu lado fraco. Sobretudo, quando não percebem que a forma mais infantil de idolatria é aquela em que nos aferramos demais a uma coisa e perdemos nosso senso de independência e criticidade em nossa relação com ela. E é assim que muitos dos que com certa jactância se proclamam crentes bíblicos tratam a Bíblia: como um objeto de veneração, que acaba anulando a reverência à Palavra Divina, empobrecendo e enclausurando-a em seus preceitos humanos (demasiadamente humanos?).

Citarei o caso mais comum, apenas como ilustração, de uma das práticas não recomendadas na Bíblia chamada fornicação. Quando se pensa em “sexo fora do casamento”, por exemplo, é o primeiro princípio que aparece em muita das formas de argumentação contrária à “prática” – como se sua aplicabilidade fosse universal neste caso. O sentido bíblico da palavra “fornicação”, segundo Robinson Cavalcanti, é “relacionamento fortuito, descomprometido, sem envolvimento afetivo”.[2] É o típico sexo pelo sexo, casual, sem conexão, sem grande consideração pela pessoa com quem se faz sexo. Não quer dizer que todo sexo feito fora do contexto do matrimônio seja fornicação, e nem que todos aqueles que o praticam se encaixam na categoria de “fornicadores”. Mas acabam entrando na vala comum porque é mais fácil pensar a Bíblia como um manual de boa conduta, com regras específicas para tudo o que consideramos como má conduta, que como a Palavra de Deus que, em si, é um convite a uma obediência com discernimento e boa consciência diante de cada situação vivida.

Uma das interpretações mais honestas que já li a respeito do relacionamento sexual num contexto de namoro, envolvimento e comprometimento, vinda de um cristão, foi escrita por Robinson Cavalcanti, se não me engano em 1985. Segundo ele, nessas condições:

Supõe-se que a intimidade cresça à medida que crescem: a) os sentimentos; b) o conhecimento mútuo; c) o compromisso; d) a aproximação do vínculo matrimonial, formal ou informal. Sendo o bom relacionamento sexual uma das condições para o sucesso conjugal, algum indicador deve ser inferido ainda nesse período preparatório. Se a virgindade de ambos os sexos é um alvo ético cristão, a socialização dos custos sexuais (todo o mundo assumindo o ônus) é um mal menor do que a dicotomia virgindade de algumas vs. prostituição de outras, com umas “pagando a conta” das outras. (...) O que não se pode exigir das pessoas realmente comprometidas e que se amam, sob constrangedora tensão sexual, é que simplesmente “deixem para depois”, quando uma vez formados e com um bom emprego, montarem um belo apartamento, comprarem um carro etc. Enquanto isso...[3].

Meu objetivo particular com esta carta, porém, não é nem o de esvaziar o sentido e poder do pecado no ser – coisa impossível – nem banalizar o ato sexual, que é um dom divino, mas que pensemos juntos nas implicações de uma vida sexual ativa entre namorados, pressupondo que essa ou já é a realidade de vocês ou quem sabe esteja em iminência de ser. Parto aqui do pressuposto de que podemos falar, sim, em um namoro ou noivado com sexo que não seja meramente fornicatório, mas em que haja amor, compromisso e envolvimento afetivo cada vez mais cheio de sentido e em processo de amadurecimento para uma vida conjugal duradoura, isto é, um casamento. Corro aqui o risco de levar muitas pedradas, mas é o preço da honestidade e de não mais estar disposto a esse jogo de faz de contas que há muito grassa em nosso meio, ou seja, faz de conta que eu não sei que vocês transam e vocês fazem de conta que seguem a lei da abstinência pré-matrimonial. É preciso dar um basta nessa hipocrisia, mesmo que como gritos que serão ouvidos por poucos e execrados por muitos (estou me sentindo a própria bruxa de Salém agora).

Pois bem, nos foquemos menos no mundo externo, e mais no mundo interno de vocês. Quando decidiram dar esse passo importante no relacionamento – se é que isso partiu de uma decisão pensada e não apenas apaixonada (sem julgamentos aqui) – devem ter pensado na grandeza, beleza e também responsabilidade desse ato, imagino eu. Senão, creio que vale a pena pensar. Quer dizer, embora sejamos feitos de carne, ossos, nosso corpo tenha uma forma, tenhamos impulsos, desejo, e atração sexual, não estamos falando de pedaços de carne em atrito e fricção em busca de prazer pura e simplesmente, mas nos referimos a duas pessoas, que têm sentimentos, que sofrem, que choram, se emocionam, se fragilizam quando se decepcionam, quando amam, quando se machucam. Sim, uma relação em que o que rola vai muito além de sexo, tudo isso está envolvido. Vocês já pensaram que numa relação sexual podem não ser apenas os corpos que se tocam, mas nosso ser por inteiro? E, por mais que achemos que pelo desempenho, pela plasticidade do ato e a capacidade de dar e receber prazer, estamos no controle da situação, isso é ledo engano. Porque, como já disse, queiramos ou não, há sempre mais elementos envolvidos, ninguém manda completamente em si, controla seus sentimentos por inteiro, tampouco os do outro. É por isso que, mesmo os casos em que ambos têm um acordo de apenas se usar e se curtir mutuamente, não há garantias de que, no final, ninguém sairá machucado. Afinal, posso ter tratado minha parceira como mero “pedaço de carne” alguma vez na vida, mas quando sou tratado assim o sentido é outro, e mesmo o combinado pode sair caro nessas horas. 

Mas, imagino também que tenham decidido ter relações sexuais porque se amam, porque o sexo é um complemento essencial do amor de vocês, e porque queriam ser “plenos” um no outro – estou sendo assertivo ou muito idealista? De qualquer modo, quando a gente quer algo assim, deve ser porque queremos (mesmo que inconscientemente) algo que dure a vida toda, ainda que isso seja relativamente muito tempo, dê muito trabalho, e esteja fora do alcance de nossos olhos e mente. O futuro, como se diz, a Deus pertence. A questão é que podemos decidir o que fazer com nosso presente, que pode ser um presente ou um tormento, depende de nós na maioria das vezes. Creio que Deus nos dá o poder de escolher com quem e de que jeito vamos nos relacionar, e assim abençoa nossas escolhas, se elas honram e dignificam a Deus, ao amante, à vida. A felicidade, se ela existe mesmo, é um bem que só se goza com intensidade quando partilhada.

Não pensem, portanto, que estou lhes escrevendo apenas para dizer que está tudo certo. Escrevo para dizer que está nas mãos de vocês o querer fazer certo, fazer bem, fazer com amor, fazer durar o relacionamento enquanto se é vivo, e isso também é dádiva divina. Porque o sexo pode ser muito prazeroso quando é só sexo, mas é muito melhor quando existe cumplicidade, quando o que existe é para durar, é para fazer sentido, é para gerar e inspirar vida. Espero que vocês entendam bem a profundidade disso, que o sexo pode ser instrumento de amor e vida, como de poder, competitividade e mera vaidade. É assim que acontece com todo grande poder.

Para nos ajudar, Jesus fez uma comparação interessante acerca disso em uma de suas parábolas: “A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido” (Lc 12.47b, NVI). Em outra tradução (A Mensagem) se diz: “Grandes dádivas implicam em grandes responsabilidades; quanto maior a dádiva, maiores serão as responsabilidades”. E não é essa a frase que o tio Ben do Peter Parker disse para ele no primeiro filme do Homem-Aranha? “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”... O que isso implica? Implica que Deus nos chama por amor, por amor nos sustenta, e o maior poder de todos que nos oferece é o amor, sem o qual os demais “poderes”, incluso o sexo, podem gerar destruição e não vida. Isto, pois em essência o amor é um poder subversivo, uma vez que nos tira do controle, nos deixa vulneráveis e deixa o outro livre – não usa, não abusa, não explora.

A beleza da criação divina é que o Criador nos dá a chance de escolher o que vai ser, de como faremos uso das coisas que Ele mesmo nos presenteou na vida, de gerar algo bom ou ruim daí, ainda que em nós o bom se misture com o pior muito facilmente. Mas Ele já disse que espera que optemos pela vida. E pergunto, no atual nível de relacionamento, envolvimento e mútua responsabilidade em que se encontram, o que significa entre vocês optar pela vida? O que vocês querem e esperam dessa relação? O quanto têm lutado para ter, por muito tempo, uma vida em comum? Porque é isso, a visceralidade da aliança entre vocês dois, que torna o sexo divinamente abençoado e humanamente significativo. Não só fonte de prazer, mas de vida abundante...

Jonathan

Notas

[1] CAVALCANTI, Robinson. Uma benção chamada sexo. 9ª ed. São Paulo: ABU Editora, 2005, p. 103.
[2] Ibid, p. 55.
[3] CAVALCANTI, Robinson. Libertação e sexualidade: instinto, cultura e revelação. 3ª ed. Campinas, SP: CEBEP; São Paulo: Temática Publicações, 2004, p. 60, 63.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Carta a um jovem masturbador


Caro poeta com as mãos,

Longe de mim está a pretensão de precisão e beleza de um Rilke, ao escrever-te esta carta. Para muitos, isso aqui será um ato meramente cômico; para outros, de transgressão. Mas, na multidão dos leitores interessados neste tema – sem revelar que o são, afinal, ele não traz nenhuma boa reputação – talvez encontremos um sujeito, espero, sobretudo, que sejas tu, para quem essas palavras façam alguma diferença.

Sim, camarada, nosso mundo é repleto de hipocrisia. A mais sórdida delas, se é que se pode estabelecer uma gradação neste caso, é aquela em que se aconselha ou repreende a alguém por ter feito algo que essa outra pessoa também já fez, às vezes com muito mais intensidade, mas fingindo nem sequer conhecer o que é na prática, tampouco admitir suas reais dificuldades nesta área. Sinto que você tem padecido basicamente de uma culpa que não é exclusivamente sua, um duplo fardo que está carregando pela excessiva falta de franqueza e solidariedade humanas por parte daqueles que o sobrecarregam com seus incautos preceitos.

Decidi escrever-te, enfim, meu conterrâneo dos impulsos, para ver se consigo te ajudar a desmistificar essas sombras moralizantes que têm assaltado sua consciência, também porque pouca gente até hoje teve coragem de te mandar um papo reto com honestidade. Mas não ligue pra eles, nem os condene; no fundo os algozes morais da religião e da sociedade também são de alguma forma vítimas devedoras de suas próprias condenações – afinal, não há quem julgue que não seja também julgado – foram ou são, portanto, apenas punheiteiros reprimidos.

Deixe-me te dizer uma coisa, que não sei se servirá de alento ou de ainda mais desespero: você não é o primeiro nem o último a sofrer esse tipo de “abuso” – que, obviamente, sempre virá travestido de “bom conselho”. Durante boa parte de minha adolescência ouvi inúmeras coisas sobre sexualidade em geral, e masturbação em particular, e preciso te dizer, a maioria delas foi inútil, fora da realidade e apenas gerou mais culpa. O pior de tudo era quando vinham recheadas de subterfúgios bíblicos, como a história de um camarada chamado Onã (Gn 38.8-10), que fora intimado por seu pai, Judá, a se deitar com sua cunhada Tamar, naquele momento viúva de seu irmão, o primogênito Er, para que o nome dele (do irmão) se perpetuasse na descendência. O problema é que o subversivo Onã arranjou um jeito de aproveitar do sexo com a cunhada sem gerar filho algum; falando o português popular, ele “tirou antes de gozar”. Pobre Onã, foi condenado só porque não quis fazer às vezes do irmão (imagine só, você fazendo um filho para perpetuar o nome de outro – coisas estranhas da cultura) e ainda teve que levar a fama de “inventor da masturbação”! Não preciso dizer que isso não passa de uma associação barata, mais uma forma tosca de encontrar “base bíblica” pra tudo. Enfim, quando vierem com esse papo de onanismo, você já conhece a história.

Mas não para por aí. Dizem também que masturbação é pecado porque, para conseguir o desempenho e o prazer desejados, precisamos imaginar o sexo com alguém. Veja só, meu caro, até nossos pensamentos querem vigiar, esses “big brothers” de hoje! E como queriam que você fizesse? Que pensasse nas Cataratas do Iguaçu enquanto se masturba? Ah, quem dera fosse possível expor os pensamentos e desejos mais profundos desses que tentam te oprimir, bem no instante em que o fazem! Não restaria palavra por palavra e o muro de Berlim de seu falso moralismo cairia sem precisar de muitas marretadas. Quem é capaz de suprimir ou controlar por completo seu mundo de desejos ou por onde sua mente vagueia que atire a primeira pedra! Ademais, os sonhos aí estão – e cada um sabe bem o que sonha, embora nem sempre o porquê – para mostrar o quão inútil é essa tentativa. Senão, pense comigo: você já deve ter escutado dos moralistas sexuais que a válvula de escape natural que Deus deu para que você se alivie sem precisar da “horrorosa punheta” é a chamada polução noturna, certo? O problema é que, via de regra, esse mecanismo natural precisa de um estímulo, que acontece enquanto dormimos e geralmente vem do próprio sonho. Então que nos digam os carapálidas politicamente corretos: que tipo de sonho seria esse? Sonho com uma borboleta pousando numa flor em um jardim? E que controle tem essa pessoa sobre esse sonho? Certamente haverá alguém para defender que somos inocentes enquanto dormimos. Isso porque são santas demais para ler a opinião de um profano chamado Freud, que afirmou, dentre outras tantas coisas, que sonhos são liberações fantasiosas de desejos reprimidos.

Dessa maneira, assim como eu, você também deve ter percebido o quanto de esquizofrenia e doença há nessa moral religiosa. Mas não se espante tanto, coisa muito pior tem por debaixo desses densos lençóis cobertos de brancura. Talvez seja porque certo dia a humanidade lhes foi roubada e, desde então, quem sabe em busca da sobrevivência em função da humanidade perdida, tais pessoas tornaram-se práticos ladrões de humanidade. Contudo, uma palavra de esperança a você, caro amigo, ainda é possível. E ela é: você pode resistir a este nefasto assalto a sua humanidade, e essa capacidade é dom oferecido pelo Deus de vida e liberdade, e não de morte!

Se ainda posso lhe dar uma dica simples (porque lição, só Deus e a vida é quem dão), aí vai: desencane! Não vale à pena entrar nessa “pilha” que os apologistas do politicamente correto no campo da sexualidade têm tentado colocar sobre você. Até porque, no fundo, nem eles sabem o que dizem e a extensão do mal que causam em pessoas antes saudáveis. Quer saber o que eu penso? Se Deus nos fez sexuados para que, na prática, fugíssemos de nossa sexualidade como o Diabo da cruz, esse Deus só pode ser sádico ou um louco. Então, não tenha vergonha de sentir o que sente, porque é natural e o Criador disse que era bom no começo. Tenho a impressão de que quanto mais tranquilos tentamos ser em relação a nossos ímpetos, quanto mais tirarmos o ar de “proibido” da libido, menos fissurados e tiranizados seremos pelos nossos desejos, até porque somos animais, mas não necessariamente irracionais.

Antes de tudo, dê um voto de confiança a si mesmo, pois é isso que estou tentando fazer agora, ou seja, falando de uma liberdade rumando à maturidade. Assim, tente desenvolver hábitos de vida física, mental e espiritual, no sentido mais abrangente e integral, que te permitam curtir a vida, a si mesmo e seus relacionamentos sem neuroses, nem ter que abusar nem extrapolar os seus limites e os do outro, porque o gozo e o prazer ilimitados também são uma forma doentia e autodestrutiva de se relacionar com a vida. E evite essas competições pessoais masturbatórias (por mais curiosas e às vezes divertidas que possam parecer), pois o prazer é bom, mas sete vezes ao dia não tem nada de perfeito. Torna-se desgosto, desgaste, enfado, e não foi pra isso que Deus criou nossa sexualidade. Imagine você almoçando e, ao se deleitar tanto nesse almoço, resolve então repetir mais umas seis vezes, o que acontecerá? Agora, quer pagar pra ver? O corpo, a consciência e a vida são seus, meu camarada, só fique atento para o que eles te dizem, o que nem sempre é: “Vamos lá, mais uminha hoje”.

Jonathan

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Um recado para a juventude: o Pai quer celebrar!



O cristão não é, pelo menos em tese, um seguidor de leis e códigos morais, com a Bíblia como sua “regra de fé” ou de qualquer outra coisa. Regras se obedecem ou não; ninguém se debruça sobre elas, faz esforço de crítica e discernimento, busca iluminação através delas ou as trata com reverência. Não. O cristão vive pela fé, sustentado pela e na graça de Deus, e em busca de discernimento mediante a escuta do clamor das necessidades de seu contexto imediato e da voz do Espírito. Quanto à juventude, precisamos nos arrepender e reconhecer que, como igreja, temos sido negligentes tanto em nossa tarefa de discernimento e compreensão — quem sabe porque nos aferramos demais às “regras”, velhas ou novas — como de acolhimento de suas demandas. Pelo contrário, nos acomodamos cegamente com a manutenção, repetição e preservação, evitando a todo custo os riscos de qualquer natureza.

Subestimamos nossa juventude, seja quando a rotulamos e a marginalizamos como “perdida”, “rebelde” ou “desinteressada”; seja quando abraçamos a causa de arrebanhá-la, oferecendo, numa versão particular da “sociedade do espetáculo”, menos alimento e mais entretenimento. Não é à toa que muitos — refiro-me aos que não se encaixam no esquema “pão, circo e salvação” — sintam arrepios só de ouvir a palavra “Igreja”, ou quando se dão conta de que tem alguém querendo “pregar para eles”. Parafraseando José Comblin, essas ovelhas perdidas do aprisco — da igreja, não necessariamente de Deus — não se mantêm longe dela por razões de distância ou falta de comunicação — muitas igrejas têm feito “direitinho” a lição de casa de comunicação na era cibernética; afastam-se simplesmente porque querem, e sabem que a igreja tem feito, há um bom tempo, um grande esforço para frustrar suas aspirações à liberdade, salvo exceções. Com medo dos riscos da vivência e da teologia sobre a liberdade, esquecemos quase completamente de seu lugar fundamental no evangelho como uma vocação.

Tem faltado tanto aos jovens “de dentro”, como aos alheios à igreja, gente que comunique mais, com intencionalidade e sem ficar “pisando em ovos”, a boa notícia de que o Pai não é contra a vida, contra a festa ou a se aproveitar o dia. Pelo contrário, o Pai quer ter a chance de poder celebrar a vida conosco como convidado de honra, sem enchê-la de mais peso, castigo ou obrigações, oferecendo uma nova noção de compromisso, que tem a ver com vida e não com escravidão. Falta gente com a revelação encarnada e presente de um Deus gracioso, que os convida para uma caminhada de alegria e liberdade no espaço largo de sua casa, que mais que um lugar, é uma condição de existência e relacionamento na qual possam entregar seus corpos — muitas vezes marcados e feridos por nossas escolhas e pela dureza de suas curtas vidas — para serem sarados e restaurados integralmente por Ele. Como lembra Nouwen, “a comemoração faz parte do Reino de Deus. Deus não só oferece perdão, reconciliação e cura, como deseja que aqueles a quem esses dons são conferidos o recebam como uma fonte de alegria”.

O que mais me chama a atenção, ao reler a parábola do filho pródigo, é que não somente os dois filhos são figuras vulneráveis e perdidas da história. O pai também é. Não da maneira dos filhos, é claro; o pai é “perdido de amor”. É essa imagem de Deus que a parábola me revela: a imagem de um Deus de amor, que também se encontra “perdido” em busca de seus filhos perdidos e não descansa até que, finalmente, os encontre. Um Deus que nos ama com um amor incondicional, incansável, imponderável, insano e injusto aos nossos olhos. Um amor que, como defende Brennan Manning, “abraça a todos sem exceção. De novo, o amor de Deus é tolo”.

É para esse tipo de loucura que Deus nos chama como igrejas, jovens e filhos de todas as idades: amar com um tipo de amor que o mundo desconhece, motivo de espanto, escândalo, e até mesmo frustração. É um amor que não força, não se apossa, agarra ou empurra; é um amor que liberta da obrigação do amor, para a possibilidade do amor. Possibilidade de acolher ou de rejeitar. Por isso amar às vezes dói, por isso nos deixa tão vulneráveis. Mas é esse amor que nos identifica como filhos de Deus, e que também nos conduz à maturidade como gente e, assim, a abraçar nossa vocação como pais e mães de filhos biológicos, adotivos ou na fé. Pessoas a quem Deus ama, filhos a quem Ele nos dá o privilégio de co-amar-gerar.

Jonathan

* (Última parte de meu artigo "Os filhos do pai perdido e a juventude evangélica", publicado em Novos Diálogos - http://www.novosdialogos.com)