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terça-feira, 28 de julho de 2015

Sobre a Amizade

Friendship 2Mil e tantos, é a marca dos amigos a que cheguei no Facebook recentemente. Não é uma marca a se gabar, e nem poderia; conheço pessoas que têm mais de quatro mil na sua rede; fora as figuras públicas, que podem chegar a milhares. E a “amizade” ali, muitas vezes (mas não sempre), se torna uma forma de escambo, de troca, quase uma versão daquela música do MC Leozinho, “se ela dança eu danço”; no caso, ali seria: “se ela curte, eu curto”. Por isso, muitos de meus “amigos” do Facebook veem e vão ao sabor do vento, ou melhor, do quão atrativo pareço a eles, e eles a mim; aliás, o Facebook é um excelente espaço para distinguir amigos de conhecidos, de admiradores, de aduladores, e de consumidores – sim, pois esses mil e tantos “amigos” que hoje tenho são os mesmos que consomem as coisas que compartilho, para o bem e para o mal. Então, quando o que só importa é o numero (de amigos, de curtidas, de compartilhamentos), significa que pouca coisa importa. Tenho amigos no Facebook, sim, mas as reais amizades acontecem fora dali.

Sempre fui muito reservado com amizades. Isso porque amizade, para mim, é como um solo sagrado: não piso no de muitas pessoas, nem são muitas as pessoas que pisam no meu. Compartilho esse espaço apenas com quem sei que provavelmente não vai profanar facilmente o solo – ainda que, é preciso estar ciente, como todo relacionamento humano, a amizade é passível de rachadura ou até mesmo de rompimento. Por isso, não é nada sábio achar que tudo está sempre garantido nas relações. A gente pode se surpreender conosco mesmos e com os outros.

Quero falar de amizade aqui a partir do diálogo: passeando pelo cotidiano, pela filosofia e pela Bíblia, para responder três questõezinhas básicas: O que é a amizade? O que significa ser amigo/a de alguém? E o que Deus tem a ver com isso?

A palavra “amor” aparece no grego sob três formas ou manifestações mais conhecidas: Eros (expressão que os gregos inventaram para designar o amor-paixão, e em seu sentido mais profundo, significa “cair fulminado de amor”); Ágape (palavra que os cristãos inventaram para designar o amor de Deus, o amor sem limites, também traduzida como “caridade”, ou “o amor liberado do ego”). O amor sobre o qual estamos refletindo não é nem tão complicado quanto Eros, nem tão raro quanto Ágape. Designa-se por outra palavra inventada pelos gregos, chamada Philia (amizade) e philos (amigo). André Comte-Sponville diz que Philia tem um sentido mais amplo, que é a “alegria de amar”.

A Philia, ou “a alegria de amar”, portanto, seria um estado de regozijo ou alegria, que não é tanto pelo que o outro faz, e sim pelo que ele/a é. Ou seja, é o regozijo, a satisfação pela simples existência do outro, do/a amigo/a. “Que bom que essa pessoa existe!”. A coisa legal da amizade é que ela tem exatamente essa leveza e esse frescor; nada pode ser forçado. Por isso, C. S. Lewis disse que era o menos complicado ou mais simples dos amores. Mas as escrituras nos ajudam a aprofundar o sentido desse “regozijo” da amizade. Quero destacar apenas o verso que provavelmente mais conhecemos: “O amigo ama em todos os momentos; é um irmão na adversidade” (Pv 17.17, NVI).

O melhor sentido para a palavra amigo (no original reah) é companheiro, aquele/a que faz companhia ou anda junto. O texto diz que ele “ama” (acompanha) em “todos os momentos” (tempos, circunstâncias). E o autor acrescenta na segunda frase que: na “adversidade” (tsarah: sofrimento, tempos difíceis), esse companheiro se torna irmão (ach: [tão próximo quanto] alguém que tem o mesmo pai e/ou mãe). No capitulo 18, v. 24, essa última ideia de algum modo se complementa quando ele diz que: “Quem tem muitos amigos pode chegar à ruína, mas existe amigo mais apegado que um irmão”. Na tradução “A Mensagem”, fica ainda mais claro: “Amigos vêm e vão, mas o verdadeiro amigo é mais próximo que um irmão”. O texto, portanto, nos ajuda a separar “amigos” (como os do Facebook) de “verdadeiros amigos”. Ele diz: o verdadeiro amigo é mais próximo que um irmão. O amigo-irmão, para Salomão, é aquela pessoa que faz um esforço para estar por perto e que a gente quer ter por perto, mesmo ou especialmente quando as coisas não vão muito bem. Às vezes o contrário acontece: o sofrimento afasta amigos, ao invés de aproximá-los. Mas, se afasta, ainda assim poderíamos chamá-los de amigos? Ainda assim seria uma manifestação do amor?

Recentemente eu li uma história, contada por Ique Carvalho em um de seus muitos textos sobre amor, que ilustra bem isso. Ali ele narra assim:

(...) Em junho de 2013, poucos dias antes do dia dos namorados, minha namorada terminou comigo. Eu fiquei sem entender. Voltei pra casa e durante todo o caminho me perguntava: “Por quê?”. A única coisa que vinha na minha cabeça era a voz dela dizendo: “Eu amo você”. Eu passei um mês sofrendo procurando respostas para o que estava acontecendo. Um dia, entrei no quarto do meu pai chorando e perguntei: “Pai, ela dizia que me amava. Então, por que ela terminou comigo?”. Ele respondeu: “Meu filho, quando alguém entra na sua vida e depois de algum tempo vai embora, pode ser qualquer coisa menos amor”. Eu disse: “Não dá para entender. Um dia, existe amor e no outro tudo acabou”. Ele respondeu: “Você nunca vai superar seus traumas se continuar procurando no amor uma lógica. Construa uma nova história”. Eu perguntei: “E de onde vem essa força pra começar algo novo?”. Ele respondeu: “Não se preocupe com isso. Todo começo vem de um final”. Uma semana depois, meu pai foi diagnosticado com uma doença rara e degenerativa que iria matá-lo em alguns dias. Minha mãe não o abandonou. Ela ficou. Meu pai saia toda sexta para comer pizza com dois irmãos. Quando ele parou de andar, meus tios começaram a trazer a pizza aqui em casa. Eles diziam: “Sem o seu pai, não tem graça”. E ficavam a noite inteira dando gargalhadas. Hoje, meu pai não consegue mais comer. Mesmo assim, toda sexta meus tios passam aqui em casa. Meu pai estudou em Ouro Preto-MG. Na formatura ele combinou com três amigos de se encontrarem de cinco em cinco anos. Este ano, meu pai não pôde ir porque ele não anda mais. Os amigos dele saíram do interior de Minas e vieram até aqui em casa. Todo formando tem uma foto pregada na parede na república que estudou. Os amigos do meu pai trouxeram a foto dos quatro. Pregaram a foto de cada um na parede do quarto e disseram: “Agora, a nossa república é a sua casa”. E combinaram que daqui cinco anos estariam de volta. Meu pai chorou. Meus pais completaram 47 anos de casados dia 2 de junho. Eles sempre dançaram nesse dia. Meu pai não consegue mais se levantar. Minha mãe entrou no quarto e colocou a música que eles dançavam. Ela disse: “Meu filho, traz a cadeira de rodas”. Eu perguntei: “O que você vai fazer?”. Ela respondeu: “Vou fazer o que seu pai faria por mim”. Eu busquei a cadeira de rodas. Minha mãe colocou meu pai na cadeira. Ela ajoelhou ao lado dele e disse: “Vamos dançar?”. Abraçou meu pai e fez a cadeira girar. Ela ficou ajoelhada a música toda. Meu pai chorava e ria ao mesmo tempo. Eles ficaram ali dançando e se divertindo. Eu voltei pro meu quarto chorando (...). [Ver texto completo AQUI].

Na amizade é assim: nem tudo tem a mesma “graça” se aquela pessoa não estiver por perto. E é importante que a gente diga e faça coisas para que nossos amigos saibam disso, por mais “estranhas” que sejam, enquanto é tempo. E quem sabe quanta oportunidade ainda terá? Dia desses tive um rompante e escrevi mensagens individuais para alguns caros amigos falando sobre como esta pessoa é importante em minha vida e quão grande é minha philia por ela. Uma amiga, sem entender muito bem a razão da declaração repentina, perguntou: “Você está passando bem?”. Outro, aproveitando para fazer graça, indagou: “Você já tomou o seu Gardenal hoje?”. Por mais hilárias que sejam, essas reações são sintomáticas de nossa falta de jeito nessas situações. Alguns de nós lidam melhor com atitudes que com palavras, elogios, ou afirmações de afeto; mas, às vezes, as palavras também são importantes, pois inseminam vida, reforçam nossas identidades.

Para resumir e finalizar, a história de Ique Carvalho me ajuda a unir os sentidos grego e hebraico, filosófico e bíblico, de amizade: Amizade ou Philia, como diz Comte-Sponville, é um regozijar-se mútuo por nossa mútua existência. “Obrigado porque você existe!”, diz o amigo; “bem vindo à minha existência” replica a amiga. Mas, onde existe amizade, há também o convite à partilha não somente dos momentos bons, lúdicos ou de prazer da vida; é um convite a partilhar também a dor, o luto, as incertezas e inseguranças que nos assaltam vez por outra. Em outras palavras, a gente precisa do amigo pra rir com a gente, feito bobo, de besteiras e coisas das quais achamos graça (rir “da gente” também faz parte); mas a gente também precisa do amigo ou da amiga que segure nossa mão e nos abrace quando o momento for de choro.

Tudo isso só é possível, sobretudo, porque a amizade, como todos os amores, é derivada do amor de Deus. Regozijar-se e lamentar pela existência do/a amigo/a, é se regozijar e lamentar em Deus, que o/a fez. Somos capazes de amor e amamos, como disse João, porque “Ele nos amou primeiro”. Isso me lembra da frase que li no livro O Amor, de André Comte-Sponville (Martins Fontes, 2013), que não é um cristão, mas certamente disse isso seguindo o espírito joanino:

A graça de ser amado precede a graça de amar, e a torna possível”.

Oxalá o amor de Deus, e nossa amizade com Ele, continue possibilitando que sejamos amigos e tenhamos amigos em nossas vidas.

Jonathan

domingo, 11 de agosto de 2013

Carta a um jovem casal sexualmente ativo


Nosso mundo (sobretudo o cristão) ainda está permeado pela pretensiosa assunção de que casais de namorados cristãos das igrejas (ou sem-igreja), necessariamente, não são sexualmente ativos. Sim, a castidade continua sendo o ideal quando se fala de namoro cristão ainda em nossos dias. Nenhum problema com tal opção legítima, diga-se de passagem; o problema é reivindicá-la não como opção, facultativa a consciência e variável nível de maturidade de cada pessoa e de cada casal, mas como uma regra universal, um imperativo categórico (usando aqui o termo de Kant), como se pureza e a santidade de um namoro pudessem apenas ser avaliadas (embora eu pense que isso não se avalia) pela ausência da dimensão erótica. Tem-se preferido, assim, ignorar que boa parte dos casais de namorados hoje não vive de acordo com tal imperativo, consciente e saudavelmente, ou clandestina e culposamente.

As exigências da igreja com relação à sexualidade há um bom tempo têm sido hipócritas, presunçosas e legalistas, tudo em nome de uma idolatria biblicista travestida de fidelidade à Bíblia. Ignora-se, como lembra Robinson Cavalcanti, que “a Bíblia não é uma enciclopédia de prescrições para cada detalhe da vida do homem”.[1] O que ela nos oferece, em muitos casos, como o do sexo pré-matrimonial, por exemplo, ou são orientações para casos muito específicos e histórica e culturalmente situados ou princípios relacionais mais gerais fundamentados no amor a Deus, à própria vida e ao próximo.

O pior de tudo é que esse imperativo, como vocês já devem ter notado, é excludente, ou seja, ninguém, sendo cristã(o), em hipótese alguma poderia viver um tipo de namoro em que o sexo esteja presente, com sanidade e santidade. E não tem havido suficiente abertura para quem quer discutir ou para quem pensa diferente. E qual a razão para isso? A razão é a de sempre: porque o sexo, fora do casamento, é pecado e isto está “muito claro” na bíblia. Assim como eu, talvez vocês já tenham parado intrigados diante de tamanha certeza, e pensado: ou eu li a bíblia muito pouco ou li muito mal, pois onde é que nela se fala com tanta clareza assim sobre esse assunto e de modo tão categórico para que muitos cristãos – sobretudo os evangelicais – tenham propagado por tanto tempo isso como sendo verdade absoluta para todas as pessoas a despeito de qual seja o caso? Ora, que “chavão textual” meus possíveis críticos estarão pensando trazer à baila neste momento? A questão da fornicação? Que nosso corpo é templo do Espírito? O relato do casamento (“tornar-se uma só carne”) segundo Gênesis? A questão da santidade e da pureza? Textos sobre luxúria, lascívia, os desejos impuros, a prostituição? Bem, a lista pode ser grande e nem me preocuparei aqui em ser exaustivo quanto às referências, acho que vocês entenderam meu ponto, por isso vou direto a ele.

Não estou dizendo que estes preceitos não existem nem que não sejam válidos, mas sim que faltam discernimento e honestidade intelectual no momento em que os aplicamos, muitas vezes (senão na maioria delas) fora seu devido contexto. Parece que o bom senso e a criatividade são elementos cada vez mais deixados de fora de nossa leitura bíblica. No fim das contas, fica a impressão de que aquilo que os evangelicais sempre disseram ser o seu “lado forte”, isto é, seu zelo em relação às Escrituras, pode ser também seu lado fraco. Sobretudo, quando não percebem que a forma mais infantil de idolatria é aquela em que nos aferramos demais a uma coisa e perdemos nosso senso de independência e criticidade em nossa relação com ela. E é assim que muitos dos que com certa jactância se proclamam crentes bíblicos tratam a Bíblia: como um objeto de veneração, que acaba anulando a reverência à Palavra Divina, empobrecendo e enclausurando-a em seus preceitos humanos (demasiadamente humanos?).

Citarei o caso mais comum, apenas como ilustração, de uma das práticas não recomendadas na Bíblia chamada fornicação. Quando se pensa em “sexo fora do casamento”, por exemplo, é o primeiro princípio que aparece em muita das formas de argumentação contrária à “prática” – como se sua aplicabilidade fosse universal neste caso. O sentido bíblico da palavra “fornicação”, segundo Robinson Cavalcanti, é “relacionamento fortuito, descomprometido, sem envolvimento afetivo”.[2] É o típico sexo pelo sexo, casual, sem conexão, sem grande consideração pela pessoa com quem se faz sexo. Não quer dizer que todo sexo feito fora do contexto do matrimônio seja fornicação, e nem que todos aqueles que o praticam se encaixam na categoria de “fornicadores”. Mas acabam entrando na vala comum porque é mais fácil pensar a Bíblia como um manual de boa conduta, com regras específicas para tudo o que consideramos como má conduta, que como a Palavra de Deus que, em si, é um convite a uma obediência com discernimento e boa consciência diante de cada situação vivida.

Uma das interpretações mais honestas que já li a respeito do relacionamento sexual num contexto de namoro, envolvimento e comprometimento, vinda de um cristão, foi escrita por Robinson Cavalcanti, se não me engano em 1985. Segundo ele, nessas condições:

Supõe-se que a intimidade cresça à medida que crescem: a) os sentimentos; b) o conhecimento mútuo; c) o compromisso; d) a aproximação do vínculo matrimonial, formal ou informal. Sendo o bom relacionamento sexual uma das condições para o sucesso conjugal, algum indicador deve ser inferido ainda nesse período preparatório. Se a virgindade de ambos os sexos é um alvo ético cristão, a socialização dos custos sexuais (todo o mundo assumindo o ônus) é um mal menor do que a dicotomia virgindade de algumas vs. prostituição de outras, com umas “pagando a conta” das outras. (...) O que não se pode exigir das pessoas realmente comprometidas e que se amam, sob constrangedora tensão sexual, é que simplesmente “deixem para depois”, quando uma vez formados e com um bom emprego, montarem um belo apartamento, comprarem um carro etc. Enquanto isso...[3].

Meu objetivo particular com esta carta, porém, não é nem o de esvaziar o sentido e poder do pecado no ser – coisa impossível – nem banalizar o ato sexual, que é um dom divino, mas que pensemos juntos nas implicações de uma vida sexual ativa entre namorados, pressupondo que essa ou já é a realidade de vocês ou quem sabe esteja em iminência de ser. Parto aqui do pressuposto de que podemos falar, sim, em um namoro ou noivado com sexo que não seja meramente fornicatório, mas em que haja amor, compromisso e envolvimento afetivo cada vez mais cheio de sentido e em processo de amadurecimento para uma vida conjugal duradoura, isto é, um casamento. Corro aqui o risco de levar muitas pedradas, mas é o preço da honestidade e de não mais estar disposto a esse jogo de faz de contas que há muito grassa em nosso meio, ou seja, faz de conta que eu não sei que vocês transam e vocês fazem de conta que seguem a lei da abstinência pré-matrimonial. É preciso dar um basta nessa hipocrisia, mesmo que como gritos que serão ouvidos por poucos e execrados por muitos (estou me sentindo a própria bruxa de Salém agora).

Pois bem, nos foquemos menos no mundo externo, e mais no mundo interno de vocês. Quando decidiram dar esse passo importante no relacionamento – se é que isso partiu de uma decisão pensada e não apenas apaixonada (sem julgamentos aqui) – devem ter pensado na grandeza, beleza e também responsabilidade desse ato, imagino eu. Senão, creio que vale a pena pensar. Quer dizer, embora sejamos feitos de carne, ossos, nosso corpo tenha uma forma, tenhamos impulsos, desejo, e atração sexual, não estamos falando de pedaços de carne em atrito e fricção em busca de prazer pura e simplesmente, mas nos referimos a duas pessoas, que têm sentimentos, que sofrem, que choram, se emocionam, se fragilizam quando se decepcionam, quando amam, quando se machucam. Sim, uma relação em que o que rola vai muito além de sexo, tudo isso está envolvido. Vocês já pensaram que numa relação sexual podem não ser apenas os corpos que se tocam, mas nosso ser por inteiro? E, por mais que achemos que pelo desempenho, pela plasticidade do ato e a capacidade de dar e receber prazer, estamos no controle da situação, isso é ledo engano. Porque, como já disse, queiramos ou não, há sempre mais elementos envolvidos, ninguém manda completamente em si, controla seus sentimentos por inteiro, tampouco os do outro. É por isso que, mesmo os casos em que ambos têm um acordo de apenas se usar e se curtir mutuamente, não há garantias de que, no final, ninguém sairá machucado. Afinal, posso ter tratado minha parceira como mero “pedaço de carne” alguma vez na vida, mas quando sou tratado assim o sentido é outro, e mesmo o combinado pode sair caro nessas horas. 

Mas, imagino também que tenham decidido ter relações sexuais porque se amam, porque o sexo é um complemento essencial do amor de vocês, e porque queriam ser “plenos” um no outro – estou sendo assertivo ou muito idealista? De qualquer modo, quando a gente quer algo assim, deve ser porque queremos (mesmo que inconscientemente) algo que dure a vida toda, ainda que isso seja relativamente muito tempo, dê muito trabalho, e esteja fora do alcance de nossos olhos e mente. O futuro, como se diz, a Deus pertence. A questão é que podemos decidir o que fazer com nosso presente, que pode ser um presente ou um tormento, depende de nós na maioria das vezes. Creio que Deus nos dá o poder de escolher com quem e de que jeito vamos nos relacionar, e assim abençoa nossas escolhas, se elas honram e dignificam a Deus, ao amante, à vida. A felicidade, se ela existe mesmo, é um bem que só se goza com intensidade quando partilhada.

Não pensem, portanto, que estou lhes escrevendo apenas para dizer que está tudo certo. Escrevo para dizer que está nas mãos de vocês o querer fazer certo, fazer bem, fazer com amor, fazer durar o relacionamento enquanto se é vivo, e isso também é dádiva divina. Porque o sexo pode ser muito prazeroso quando é só sexo, mas é muito melhor quando existe cumplicidade, quando o que existe é para durar, é para fazer sentido, é para gerar e inspirar vida. Espero que vocês entendam bem a profundidade disso, que o sexo pode ser instrumento de amor e vida, como de poder, competitividade e mera vaidade. É assim que acontece com todo grande poder.

Para nos ajudar, Jesus fez uma comparação interessante acerca disso em uma de suas parábolas: “A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido” (Lc 12.47b, NVI). Em outra tradução (A Mensagem) se diz: “Grandes dádivas implicam em grandes responsabilidades; quanto maior a dádiva, maiores serão as responsabilidades”. E não é essa a frase que o tio Ben do Peter Parker disse para ele no primeiro filme do Homem-Aranha? “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”... O que isso implica? Implica que Deus nos chama por amor, por amor nos sustenta, e o maior poder de todos que nos oferece é o amor, sem o qual os demais “poderes”, incluso o sexo, podem gerar destruição e não vida. Isto, pois em essência o amor é um poder subversivo, uma vez que nos tira do controle, nos deixa vulneráveis e deixa o outro livre – não usa, não abusa, não explora.

A beleza da criação divina é que o Criador nos dá a chance de escolher o que vai ser, de como faremos uso das coisas que Ele mesmo nos presenteou na vida, de gerar algo bom ou ruim daí, ainda que em nós o bom se misture com o pior muito facilmente. Mas Ele já disse que espera que optemos pela vida. E pergunto, no atual nível de relacionamento, envolvimento e mútua responsabilidade em que se encontram, o que significa entre vocês optar pela vida? O que vocês querem e esperam dessa relação? O quanto têm lutado para ter, por muito tempo, uma vida em comum? Porque é isso, a visceralidade da aliança entre vocês dois, que torna o sexo divinamente abençoado e humanamente significativo. Não só fonte de prazer, mas de vida abundante...

Jonathan

Notas

[1] CAVALCANTI, Robinson. Uma benção chamada sexo. 9ª ed. São Paulo: ABU Editora, 2005, p. 103.
[2] Ibid, p. 55.
[3] CAVALCANTI, Robinson. Libertação e sexualidade: instinto, cultura e revelação. 3ª ed. Campinas, SP: CEBEP; São Paulo: Temática Publicações, 2004, p. 60, 63.