terça-feira, 31 de agosto de 2010

Aprendizes da arte de dialogar (II)

O que é preciso haver, então, para que o diálogo exista, e não outra coisa? Arrisco-me aqui a ser pragmático e idealista (se é que é possível a convivência entre os dois), beirando o reducionismo, com essas sete pistas ou idéias soltas que ofereço abaixo. Segundo o que entendo, para haver diálogo é preciso:

(1) Aprender a separar o campo pessoal do campo das idéias. Por mais quimérico que isso pareça, especialmente se considerarmos a realidade, é essencial e deve ser perseguido, ainda que como ideal.

(2) Respeitar o direito alheio de dizer o que pensa, seja lá o que for esse pensar. Nesse sentido, vale outra vez lembrar Voltaire, em seu Tratado sobre a Tolerância: “As tuas idéias me são odiosas, mas eu morreria pelo direito que você tem de dizê-las”.

(3) Resguardar a crítica à matéria do debate, e privilegiar argumentos que não redundem mais em confusão do que esclarecimento. Isso significa: ser honesto intelectualmente e criticar as idéias do outro levando em consideração o lugar a partir do qual elas foram produzidas (por mais distante que ele esteja de nós), e não outra instância qualquer, inventada por quem critica só para poder “ter argumento”.

(4) Aceitar que o outro pode permanecer convicto de seus ideais, a despeito dos meus argumentos e posições. O diálogo existe pelo diálogo e não para que o outro se converta à minha “religião”. Melhor palavra, nesse outro caso, seria proselitismo. Fui chamado a esse mundo pra ser testemunha de Cristo e não para fazer prosélitos.

(5) Ouvir atentamente, ler com cuidado e interpretar com esmero e discernimento, para não colocar na fala do outro aquilo que ele não disse. Se já fizemos (e continuamos fazendo) isso com Deus e com a Bíblia, que dirá com o próximo?!

(6) Estar aberto e disponível ao relacionamento, independente da discordância no campo das idéias. Difícil, você pode estar pensando. E é verdade. Só que Jesus não apenas foi um modelo nesse quesito, como foi mais radical, quando disse que devemos amar aos nossos inimigos e quem nos persegue – que dirá aqueles de quem apenas discordamos, não?

(7) Entender que temos a tendência de tratar o diferente como ameaça; nós somos aqueles criam barreiras e reforçam as existentes. Não posso (falo agora por mim) estar apto ao diálogo sem antes admitir minhas inaptidões naturais para ele.

O verdadeiro diálogo é uma conversa que se dá entre aprendizes, audazes, porém, humildes, o suficiente para se admitir como tais. Isso significa que a conversa pode terminar, mas o assunto nunca se esgota ali. No diálogo, não há lugar para donos da verdade, e Senhores do absoluto. Somente com o Senhor estão a Verdade e o Absoluto. Sobre isso, Rob Bell disse o seguinte: “Nossas palavras não são absolutas. Apenas Deus é absoluto, e Deus não tem a intenção de partilhar seu absolutismo com ninguém, especialmente palavras que as pessoas usam para falar sobre Ele. E isso é uma das coisas com a qual pessoas têm se debatido desde o princípio: Deus é maior que nossas palavras, cérebros, cosmovisões e nossas imaginações”.

Diálogo é lugar para quem, como Paulo, admite que “em parte conhecemos, e em parte profetizamos”. Seres parciais, isso é o que somos, em todos os sentidos, rumando para aquilo que é Perfeito, Absoluto, quando conheceremos como também somos conhecidos. Até lá, precisamos (e muito) de Deus – quem dera se toda ciência admitisse isso. E precisar de Deus implica em não prescindir do outro. Não há vida sem relacionamento; não há diálogo sem a presença do outro. Termino com a frase de meu amigo Antonio Carlos Barro (via web): “Publicar seu pensamento é convidar o pensamento do outro”. Vamos nessa?

Jonathan

Aprendizes da arte de dialogar (I)

Não há mais dúvidas de que a internet (web) tem se tornado um campo cada vez mais amplo para debates, troca de idéias – e, no meio delas, algumas “farpas” são lançadas – o que nem sempre implica na existência do diálogo. Isto, pois, o diálogo é um lugar, por excelência, para alteridade – a qualidade do que é “outro”, o pensamento alheio, a celebração das diferenças. E quando a existência de diferenças é tratada como “o inimigo”, o que temos não é diálogo, debate entre idéias, lugar de alteridade (com alguma dose de identidade), mas campo de “tiro ao alvo”. E esse alvo facilmente deixa de ser o que outrem pensa, passando a ser esse próprio outrem.

As redes sociais hoje, lugar de exposição pública da vida (ou de parte dela, a que desejamos expor e a que almejamos que os outros “cultivem”) e das idéias, como o Twitter, são exemplos disso, isto é, da exposição de muitas idéias, que são tratadas ora com “afagos”, ora com “farpas”, e bem pouco como diálogo, que envolve crítica, debate, mas com respeito ao outro em sua singularidade e direito de expor o que pensa.

Nesse ambiente, há aqueles que se expõem publicamente, e não temem o debate, isto é, não esmorecem diante da tarefa de ter que defender publicamente as idéias que apresenta. Há também aqueles que se expõem, mas não gostam da crítica, seja ela plausível e bem fundamentada ou implausível e mal fundamentada, pois preferem apenas provar o gosto cremoso dos afagos. Para que esses existam, é preciso que haja outro grupo, o dos aduladores, que adoram (literalmente) ficar “navegando” nas idéias e sabedoria do outro e passando a mão na cabeça deles, como se fossem “gatinhos caprichosos e infantis”, até que ronronem de prazer. Os dois últimos grupos se completam. Entre eles, estão também os críticos pusilânimes, que se comprazem do lugar morno, pueril e confortável do anonimato, e preferem não se expor a fim de não “ferir a sua imagem”, embora adorem jogar farpas naqueles que não têm medo de se expor. Além desses, há também o grupo (menor) dos críticos equilibrados, que entendem que é preciso saber não só fundamentar como balancear a sua crítica; “endurecer, mas sem perder a ternura”, como diria Che Guevara.

É óbvio, essas são categorizações limitadoras, mas, ainda assim, não menos assertivas. Defender argumentos e desejar não receber reações contrárias é o mesmo que sair na chuva e não se molhar, impossível! Se eu parasse para lamentar se a “teologia pública” vale pena ou não à medida que as críticas aparecem, concluiria (muito humanamente) que nada vale a pena. Bom mesmo é só receber elogios e afagos – e qualquer um, que conhece suficientemente seu lado narcísico, não hesitaria em admiti-lo. Ao mesmo tempo, isso não significa aceitar qualquer tipo de ataque, sobretudo, aqueles que ferem o pessoal e esquecem-se das idéias. Enfim, minha motivação em escrever a respeito disso vem de uma reflexão feita em parceria com colegas e alunos há algum tempo, e tem a ver com as últimas querelas e quizumbas – não posso chamar de “debates” – que tenho presenciado na web. Rumemos para “novos diálogos”!

(Continua...)

Jonathan

domingo, 29 de agosto de 2010

Quando desperta o amor...

“Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, que não acordeis, nem desperteis o amor antes que este o queira... porque o amor é forte como a morte... as muitas águas não poderiam apagar o amor” (Cântico dos Cânticos, 8.4,7).


Cântico dos Cânticos, para mim, significa que, quando Deus projetou a relação de amor entre duas pessoas, ele pensava em conexão intensa, que envolveria o nosso ser todo: mente, alma, corpo, e que esse amor não sobreviveria apenas de sentimento, mas também de ação, amizade, companheirismo, doação, paixão, química, sexo – é obvio, falando aqui um pouco mais do amor entre um casal. E tudo isso tem a ver com espiritualidade, com conexão com Deus e com o próximo, que não é “outra dimensão”, separada da vida, mas uma qualidade essencial à própria vida.

Trata-se de um amor que não combina com indiferença, mas que arrebata corações, que podem dizer, como a esposa do texto diz: “desfaleço de amor”, ou morro por amor.

Será por isso que tanta gente hoje inconsciente ou conscientemente tem preferido não despertar o amor? Não despertar, digo, não se entregar a ele de corpo e alma, não ousar tentar viver as implicações do que significa amar e ser amado. Será porque ele nos deixa vulneráveis, como diria C. S. Lewis? Porque ele é capaz de fragilizar o mais poderoso e forte dos seres humanos? Porque faz sofrer? Porque não é um “mar de rosas” sem espinhos? Porque o próprio Deus nos advertiu em Cristo que amar implica em dar a própria vida por seus amigos, e que, portanto, não tem só a ver com satisfação, gozo e felicidade? É, talvez seja por isso – eu disse “talvez”, não estou aqui preocupado com diagnósticos precisos.

O que parece ser verdade é que, quando ele desperta pra valer, é capaz de fazer gente de carne e osso de “gato e sapato”. Quem sabe por isso Salomão tenha aconselhado a que não o despertemos até que ele mesmo queira. Mas, alto lá, então o amor tem “vontade própria”? Em certo sentido, parece que sim. O amor é livre. Fora da liberdade, não há amor. Se houver coação, não haverá amor, mas doença. Se tentarmos “forçar a barra”, ele deixará de ser natural, espontâneo, e facilmente redundará em angústia, por vezes sem fim. Por isso ele não é veneração, nem adorno, nem “arde em ciúmes”, como diria Paulo, tampouco se acha em qualquer esquina. Não tem nada a ver com estar no controle, nem com ser controlado. Aliás, significa sair do controle...

O amor é algo muito humano. Mas antes de ser humano, ele foi e é Divino. Aquele amor, que Salomão afirma ser “forte como a morte”, só pode ter Deus como origem. Não se trata somente de necessidade ou conquista (“quero esse amor pra mim”), mas de doação. Tem a ver com doar a parte mais preciosa de si mesmo ao ser amado, assim como Deus fez conosco concedendo-nos o que Nele havia de melhor, seu filho Jesus.

Me sinto enriquecido quando, em oração com minha esposa, ela costuma dizer: “Senhor, obrigado pelo nosso amor”. Não é somente “bonitinho”, como diriam alguns. Para mim, é sinal de que Deus está no negócio, e de que a gente “tá ligado” que, se Ele não estiver, poucas perspectivas de algo duradouro e pleno restarão. Pois, se esse amor vem de Deus e é abençoado por Ele, não poderá ser levado pela correnteza, ser comprado ou vendido, como relembra o texto, tampouco poderá despertar através da “pílula do amor” inventada por certa ciência pós-moderna. E com a ajuda Dele, a gente pode regar, cultivar e fazer crescer o amor, amadurecer e gerar outros frutos, incontáveis, imperceptíveis, quem sabe, porque o amor não precisa fazer alarde, ele simplesmente é o que é e, quando é assim, não há palavras o suficiente pra contar.

Jonathan

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O que há de novo na "nova reforma"? (2)

Uma análise que se quer “neutra” da polaridade exposta pela matéria foi a do sociólogo Ricardo Mariano, que, comparando o tipo de “apelo” da proposta em questão com a das igrejas neopentecostais, afirmou: “O destino desses líderes será ‘pescar no aquário’, atraindo insatisfeitos vindos de outras igrejas, ou continuar falando para meia dúzia de pessoas” (p. 91). Sobre a questão de “pescar no aquário”, creio que a visão é um pouco reducionista, porém não de todo equívoca, já que muitos “decepcionados” com a igreja acabam se reencontrando em estilos de comunidade de fé como os citados na matéria.

Mas o recado parece claro quanto ao falar desses líderes para “meia dúzia de pessoas”: excetuando Rosique e algumas das expressões “emergentes”, como a Caverna de Adulão – que têm uma proposta prática ligeiramente diferente – a abordagem desses “pensadores” tem conseguido atingir um grupo reduzido e elitizado de pessoas. E, acrescento, sua postura não sugere que haja um grande incômodo da parte deles em relação a isso, pois estes parecem reconhecer que há toda uma conjuntura que justifica esse aparente “insucesso popular”. A própria proposta da Missão Integral, a qual a maioria dos entrevistados afirma abraçar, tende a caminhar à margem do grande público evangélico – para o bem ou para o mal.

Por fim, se há uma mudança de fato em marcha na igreja evangélica brasileira, não compartilho das mesmas convicções da matéria – isso significa que não tenho tanta certeza assim – em pelo menos dois pontos: (1º) de que ela é “nova”, pelas razões já mencionadas, de que se trata de uma “reforma”, pois, se esse é o nome, pouco se verá em termos de “mudanças” efetivamente, e de que será apenas “protestante”, visto que a transformação promovida pelo Evangelho tem dimensões mais amplas do que as expressões do protestantismo hoje podem conter (Rosique e sua trupe são um exemplo disso); e (2º) em complementação à idéia anterior, de que ela se restringe às configurações de cristianismo vislumbradas pelo autor da matéria. Se há uma mudança em marcha, ela é bem menos previsível do que imaginamos, e não necessariamente terá quórum, visibilidade ou fará “estardalhaços”, alcançando mídia e projeções outras.

Se aquilo que Jesus disse sobre o reino de Deus é verdade, e eu creio que é, de que o reino pode ser comparado ao grão de mostarda, ao homem que saiu a semear, dentre outras imagens; de que nele terão precedência as crianças e os bem-aventurados do Sermão do Monte, em sua dependência pueril de Deus, as prostitutas, os publicanos, os “pequeninos” e outras pessoas semelhantes ao invés dos religiosos de cabedal, então a revolução em marcha (visto que o Espírito não cessa de soprar e trabalhar) virá de onde menos esperamos, das maneiras mais inusitadas e talvez pouco “espetaculosas”. As palavras de Jesus parecem anunciar um reino que coloca os valores e probabilidades de uma cultura ou religião “de ponta cabeça”, e brota da ação de gente que a gente nem imagina que Deus possa estar usando na qualidade de “vinho novo” do Evangelho, perto ou longe de nossos olhos, dentro ou fora da Igreja Protestante ou Evangélica.

“Naquela ocasião Jesus disse: ‘Eu te louvo, Pai, Senhor dos céus e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e cultos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, pois assim foi do teu agrado” (Mt 11.25).

Jonathan

O que há de novo na "nova reforma"? (1)

Em que medida a “nova reforma protestante” anunciada pela matéria da Revista Época (leia aqui), Edição de 9 de agosto de 2010, é mesmo “nova”? Apesar de retórica, talvez essa tenha sido a pergunta que muitos se fizeram ao ler tal matéria, sobretudo aqueles(as) que possuem o mínimo de conhecimento do processo histórico nos últimos 20 anos e não o ignoram, como parece ter feito o autor da matéria e alguns dos entrevistados.

Primeiramente, e para não ser apenas negativo, a matéria traz informações interessantes de que pouco se tinha conhecimento, como é o caso do médico Rani Rosique, de Ariquemes, que, sem ser pastor e nem teólogo, tem mobilizado em torno de 2.500 pessoas no interior de Rondônia, distante dos olhos do “Grande Irmão”. Sem dúvida, trata-se de uma transformação a partir da periferia, como diria Paul Pierson. E mais, de uma transgressão do bem, o fato de mais de duas mil pessoas vivenciarem a experiência comunitária a partir de um mesmo núcleo mobilizador, mas em grupos espalhados por uma cidade, e não reunidos em uma catedral qualquer, como seria de se esperar em termos de igreja evangélica. O autor até usa esse exemplo para dizer que ele pode ser visto como “símbolo de um período de transição que a igreja evangélica atravessa” (p. 86, grifo meu).

E fico aqui a me perguntar se isso não seria muito mais um sinal dentre outros, que não ganham visibilidade, de que há um protesto silencioso vindo da margem do que propriamente uma “transição”, visto que essa palavra, pelo menos pra mim, indica que algo está emergindo para ocupar o lugar de outro em decadência. A “emergência” de grupos como esse, que estão à margem das grandes instituições e suas formas pré-estabelecidas e até dos “grandes centros”, porém, parece ser nesse caso mais o signo de que o Espírito sopra onde quer e como quer, como tem feito até hoje, e menos de uma “reforma” propriamente dita. O título dessa matéria soa muito mais como uma tentativa de chamar a atenção para um “peixe que se quer vender” sabe-se lá com que intenção. Vindo da Globo então, nem se fala. Das “boas intenções” que vêm desse império, aquele lugar quentinho, que vocês sabem bem qual é, possivelmente está cheio.

A matéria até tenta fazer um quadro que desenha didaticamente o que o autor chama de “Redenção e rupturas: 2 mil anos de reinvenção da fé cristã”, numa visão para lá de simplista. E, em seguida, elenca cinco diferenças entre práticas predominantes na igreja evangélica e as da “nova reforma protestante”. O interessante é que, se lermos as práticas dos ditos “novos reformadores” em relação aos temas propostos, veremos que isso não surgiu ontem, e, portanto, não há nada de novo no que se pinta como sendo novo, nem tampouco naquilo que dizem os representantes entrevistados – no sentido de que eles (e outros não mencionados) já vêm batendo nessa tecla há tempos.

O “rompimento da cordialidade entre os evangélicos”, que o autor afirma ter vindo ao público por meio de livros e artigos – e dá a entender que num período recente – já ocorreu em outros momentos, como na polarização entre Igreja Universal do Reino de Deus e Rede Globo na metade dos anos 90, e a participação marcante de instituições como Vinde e AEVB, de líderes como Caio Fábio, que, aliás, nem citado foi na matéria – mais um motivo para o argumento de que ela ignora o processo histórico mais recente, no que diz respeito ao rompimento declarado com os neopentecostais por parte de algumas lideranças e organizações “evangélicas”, mas não “evangélicas como as neopentecostais”.

Dentre aqueles que levantam essas questões há tempos, como disse Mark Carpenter na matéria (p. 89) estão alguns dos próprios entrevistados, como Ed René Kivitz, Robinson Cavalcanti e Ricardo Gondim, aos quais Caio Fábio chamou indireta e pejorativamente de “bando de bundões”, em pronunciamento feito em vídeo (assistir aqui). Se foram ou são isso que Caio diz, não me cabe julgar, mas que não foram os primeiros nem os únicos a levantar essa “lebre”, isso é possível afirmar. Uma das diferenças nessa ocasião é que se vive um momento menos articulado – mesmo entre alguns do grupo dos “novos evangélicos” – com algumas questões e desafios permanentes, sendo a matéria apenas uma oportunidade de dar visibilidade ao público geral de uma “outra face” da igreja evangélica que não aquela midiática, mas, ainda assim, diversa e com alguns pontos em comum, como parece ter ficado evidente no que foi exposto.

Ou seja, a “nova reforma protestante” que a matéria da Época apresenta não tem uma só face, nome, princípio de ação e representatividade.

(Continua...)
Jonathan

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Sobre proverbiar, educar e viver

"Se procurar a sabedoria como se procura a prata e buscá-la como quem busca um tesouro escondido, então você entenderá o que é temer o SENHOR e achará o conhecimento de Deus”. (Provérbios 2.4-5)
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Na Bíblia toda há uma boa parte de textos sendo devotada à questão do ensino e da sabedoria. A trajetória do próprio Jesus e dos discípulos tem tudo a ver com isso. Em Jesus vejo Deus como o grande professor, que nos convida a caminhar com Ele como aprendizes e, assim, poder ensinar outras pessoas. Como já diria Paulo Freire, “não há docência sem discência”, e isso vale tanto para mestres “de carteirinha”, como para os nossos muitos mestres do cotidiano, que se vêm nessa posição por força da simples necessidade ou demanda.
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Mas o que posso eu ensinar? Muita coisa, de seu universo particular de aprendizado e vivência. Ninguém é sábio o suficiente que não tenha nada a aprender, nem ignorante o bastante que não tenha nada a ensinar. E por mais conhecimentos que alguém possua, isso não lhe garante a sabedoria. Por quê? Bem, vamos em frente...
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Provérbios é um livro que nos ensina que o Temor do Senhor é o princípio da sabedoria (Pv 1.7). Isso já diz muita coisa. Primeiro, diz que o temor (reverência, devoção, relacionamento, e não medo) a Deus é um modo de ser a partir do qual começa a vida do sábio. Segundo, que sabedoria não é conhecimento, é a maneira como tratamos o que conhecemos. E não só isso, terceiro, a sabedoria é a maneira como tratamos tudo o mais na vida. Em outras palavras, sabedoria é, como diz a canção do Roberto Carlos, simplesmente “saber viver”.
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Assim, somente o ensino-aprendizado baseado no temor do Senhor pode ser tanto o que nos aproxima da sabedoria – do bem lidar com o viver, segundo os padrões divinos de vida – quanto é o que pode nos livrar do orgulho de sermos “sábios aos nossos próprios olhos” (Pv 3.7).
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Para isso é preciso estar atentos, pois, quando nossos ouvidos permanecem atentos e nossos olhos abertos, veremos que a sabedoria não cessa de nos querer instruir sobre como viver e bem trilhar o divino caminho nas estradas retas ou tortas desse mundão. E há tantas maneiras. Não são apenas livros que ensinam, mas experiências, vividas e contadas, também. Não apenas professores bem formados e competentes, mas gente simples, que pode até não saber nada sobre ciências cultas e doutas, e ainda assim nos ensinar tantas preciosidades sobre as ciências informais do viver, que às vezes passa ao largo dos acadêmicos e dos doutores. Enfim, o Senhor nos oferece tantas situações de aprendizado de sua sabedoria. Mas sem temor, não há sabedoria; e sem amor, de nada valeria, como disse Paulo: “Ainda que eu tenha o dom de profecia e saiba todos os mistérios e todo o conhecimento, e tenha uma fé capaz de mover montanhas, se não tiver amor, nada serei” (1Co 13.2).
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Provérbios também nos ensina que a educação divina é integral. Quem se inclina ao entendimento é o “coração” (da palavra hebraica “leb”), que representa o centro da vontade, razão e determinação do ser, e não somente das emoções, embora as envolva. Aqui se prioriza todo o ser, que não prescinde, mas é cercado pelo espiritual, o qual não é apenas outra dimensão da vida, mas aquela que tudo cerca, não apenas o espírito, mas o corpo. Por isso Salomão diz pra gente não se apoiar apenas no próprio entendimento, mas pra confiar em Deus de todo o “coração” (com todo o nosso ser), pois isso “dará saúde ao corpo e vigor aos ossos” (3.8).
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Essa é a preciosidade de Provérbios: a sabedoria e o ensino educam para a vida, pois são para preservar e gerar fome de vida! Desprezar o ensino é não apenas ignorar a Deus, mas atentar contra a própria vida. Assim, na educação cristã não somos chamados a formar mentes brilhantes apenas, mas corações dedicados; nem tampouco a “salvar a alma”, sem também redimir o corpo, templo do Espírito Santo. Em suma, somos chamados a preparar vidas, que irão servir a Deus no mundo e influenciar outras num processo que se quer gerador de mais vida: integral, abençoadora, abundante...
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Que o Senhor nos encha de sua sabedoria e discernimento nesses dias!
Jonathan