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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Tempus Fugit: Tudo é fumaça!

SmokeHoje... O “hoje” foge, escapa na esteira do imediato. Esse hoje me remete a tantas coisas que foram e ainda são, que deveriam ser, mas não são, que persistem enquanto deveriam estar mortas a essa altura. Alguns exemplos óbvios: hoje não estamos interessados mais em debate, mas em mandar recado; não desejamos mais nos aprofundar nos pensamentos, mas em consumi-los quase que antropofagicamente; não mais apreciamos criticamente o olhar do outro, mas o reduzimos a um "gostei" ou "não gostei"; não produzimos textos, mas opiniões do tipo "love it" ou "hate it" - e o "lover" de hoje pode muito bem se transformar no "hater" de daqui a pouco, afinal, não é tanto uma questão de conteúdo, mas de semântica, não tanto de caráter, mas de aparência. Chegamos ao ponto de jogar fora o carinho e respeito pela pessoa em função de sua forma de pensar.

Não falamos francamente, mandamos uns "torpedos"; emulamos amizades com milhares pelas redes, enquanto nas teias de nosso inominável “ser interior” permanecemos profundamente sozinhos; hesitamos em deixar as claras as regras do jogo nas relações pessoais e institucionais, preferimos comentar nos bastidores (falar “por trás” mesmo) como fulano "é errado", como "está fora do prumo", como está longe da "nossa visão". É, minha gente, se pensarmos bem, mas bem mesmo, nos acharemos no mesmo poço escuro e fundo que o sábio de Eclesiastes se viu há milhares de anos e, com ele, honestamente e tragicamente poderemos concluir: "vaidade de vaidades, tudo é vaidade e correr atrás do vento". O ato mais heroico e mais humano que alguém pode fazer por si mesmo hoje é lutar para manter sua integridade enquanto os “demônios do hoje” lutam, nos muitos balcões da vida, para vender a sua alma – com ou sem a sua anuência. Tempus fugit... viver (e deixar viver) é preciso!

Jonathan

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Fogueira das vaidades: um escrito impertinente

tudo-e-vaidade

Andam dizendo, e não é de hoje, que as redes sociais em geral, e especialmente o Facebook, são como “fogueiras de vaidades”. Não preciso discutir muito isso, pois é óbvio a qualquer observador/a um pouco mais atento/a. No entanto, na mesma medida em que precisamos ser recordados de certas obviedades, também precisamos aprender a desconfiar delas. A crítica é válida, mas deixa muitas perguntas honestas tais como: tem saída? É possível entrar nessa fogueira sem sair chamuscado? Quem é capaz de afirmar que sua auto-exposição nas redes, por mais contida que seja, não é fruto de vaidade? É menos vaidosa a pessoa que decide ficar de fora das redes apenas para dizer que não se rende “a esse tipo de modernidade” ou ao “universo virtual”, pois prefere as “relações reais”? Dizemos que “fulana é vaidosa”, “beltrano é narcisista”, “ciclana vive de ‘selfie’ em ‘selfie”, mas não percebemos nossa própria vaidade velada por trás até mesmo desse tipo de crítica.

Dias atrás fui “pego” (busted!) por um amigo enquanto criticava um religioso da cidade por aceitar o título de “cidadão honorário” da Câmara de Vereadores, dizendo a mim mesmo que profeta com honra não é uma coisa boa. Então esse amigo rebateu indagando: tudo bem, isso é um desses contrassensos cristãos que a gente vê todos os dias – esse camarada não é o primeiro, nem será o último –, mas será menos vaidoso/a aquele/a que porventura rejeita tal honraria, para depois contar às pessoas a respeito, que, por sua vez, dirão que ele é um autêntico crente e o aplaudirão por tal feito? Percebem a encruzilhada em que o “ser gente” e participar das coisas de gente nos coloca? De novo, há saída? Se há, certamente ela não é barata e nem fácil.

E mais, somos vaidosos até da manifestação da consciência de nossa própria vaidade e da de outras pessoas, pois, por temos a consciência ao nosso lado, fatalmente nos julgamos “mais nobres” que os outros, “espíritos livres”, como diria Nietzsche (também possuído por uma grande dose de vaidade). Como alguém, como ele, que julga ser um “espírito livre” pode ser livre? Livre de quê? Das obrigações sociais, talvez; da cobrança dos relacionamentos complicados, dos holofotes exigentes das corporações e instituições e das conhecidas opressões do “olho de Deus” expressas na religião, quem sabe. Mas de uma coisa, um simples fato da existência, esta pessoa não é livre: de si mesma. Ninguém é livre de si, e quanto mais arroga para si o fato de ser livre do devir e do dever de ser, mais escrava de si mesma ela se torna. Nunca houve expressão mais arguta e penetrante que do pregador de Eclesiastes: “Tudo é vaidade e correr atrás do vento”.

Sejamos honestos, todos gostamos e procuramos um público que nos adule, nos aplauda, reconheça e nos coloque para cima. Aturamos pouco as críticas duras, sinceras e verdadeiras. Não queremos conviver com quem é capaz de, num simples olhar, nos desmascarar. Precisamos de outra coisa, clamamos por apreciação, aceitação, controle. Nos derretemos facilmente com as curtidas, compartilhamentos e comentários que aqui e acolá pipocam em nossas “timelines”. Quem nunca escreveu nada pensando nisso? Quem nunca procurou algo polêmico, algo interessante, algo da moda, algo impactante e sensacional para compartilhar à espera de uma boa curtida? Será que somos tão bons, tão cândidos e tão originais para admitir que nada fazemos em prol de algo sem esperar nada em troca? E isso não é nenhuma demonização, é apenas uma “verdade sangrenta”.

No fim das contas, quem não se sabe ou não se vê assim, que atire a primeira pedra, pois minha vaidade está aqui, pronta pra “matar no peito” e sair jogando. Decidi cuidar de minha integridade, mesmo que isso me custe a tão valorizada reputação; não quero mais falar dos outros como se, na verdade, não estivesse olhando para o próprio espelho. Quanto mais reconheço que “nada do que é humano me é estranho”, que não há profanidade maior que a pachorra de a tudo declarar profano, mais próximo me vejo de Deus, da graça e de tudo o que é mais sagrado na vida.

Jonathan

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Sobre o ato religioso de “passar o bastão”

Auto-coroação - napoleon.org

Recentemente fomos “surpreendidos” por um ato simbólico de um movimento conhecido no cenário gospel brasileiro, em que um grupo de líderes mais experientes foi convidado a fazer uma “transferência de gerações” (não me perguntem o que é isso), em que se passava uma unção ou missão especial para uma geração intermediária, representada por dois irmãos, que por sua vez fizeram a mesma transferência para uma geração mais jovem, numa algazarra típica desses encontros. Então a dirigente virou-se para a plateia dizendo que todos ali faziam parte daquilo, que deveriam sentir-se representados pelos que ocupavam o proscênio. A nova geração, assim, tem a responsabilidade de assumir a tarefa outorgada simbolicamente pela anterior. O interessante é que nenhuma reflexão mais profunda sobre a natureza desta “missão”, para além daquele frenesi, foi endereçada, e imagino que aqueles jovens tenham saído cheios de adrenalina gospel, mas com bem pouca noção do que fazer com aquilo na dispersão da vida cotidiana.

Trago este caso não para repetir críticas clichês e batidas aos envolvidos em si, mas porque isso me faz refletir sobre a natureza dinástica do que chamamos de “ministérios” na igreja contemporânea, à medida que colecionamos cerimonialismos honrosos, como o de jubilar líderes que “passam o bastão” para gerações de líderes vindouros, encarregados de dar continuidade ao que a geração anterior construiu. E fico pensando quando vejo essas coisas se não nos damos conta do quão esquisito (para dizer o mínimo) isso é do ponto de vista do evangelho e do reino de Deus. Jesus não passou cetro nenhum, mas nos chamou a carregar a cruz e, no fim, indagou-nos se seríamos capazes de beber do mesmo cálice que ele beberia, mesmo pedindo ao Pai que o afastasse. Assim, na medida em que o bastão está em evidência, o cálice se afasta.

Tenho a impressão de que estamos transformando um reino feito de amigos que cooperam junto com o rei, por meio de seu Espírito, por sua implantação, em monarquias religiosas privativas em que o que impera é a lógica da sucessão ao trono, típica luta por poder e não é de hoje. O cetro ou o bastão figuram, há milênios, como símbolos de poder e dominação em contextos monárquicos. O problema é que na simples passagem de bastão não se pode transferir integridade, bondade ou competência, apenas um “direito outorgado”. E sabe o que é pior? Não é ver isso nos movimentos apostólicos contemporâneos – isso já se espera deles –, mas é perceber que isso também acontece em movimentos que carregam a bandeira do reino e que, paradoxalmente, neste preciso momento devem estar perplexos em relação a casos como o aludido no começo. Quero dizer, de modo um pouco mais discreto ou tácito, repetem esse ato de passar o bastão com aqueles por eles considerados como representantes dignos da nova geração responsável por tocar o movimento.

Isso tudo é um contrassenso por pelo menos três razões: (1) Gerações mais velhas precisam tomar sobre si o encargo de discipular novas gerações, e não garantir e forjar uma entrega de bastão – como se aqueles devessem continuar do mesmo ponto em que estes saíram de cena; (2) Movimentos, diferentemente do que já conhecemos das instituições, não deveriam, através de alguns de seus participantes ou líderes, poder definir em uma agenda quem são ou não as pessoas que irão liderar ou mesmo dar continuidade ao “trabalho deles” – até porque o trabalho não é só deles, e segundo porque tem muita gente fazendo muita coisa boa fora dos holofotes sem se preocupar com suceder ou não suceder ninguém, mas que fazem o movimento girar; (3) Cada geração precisa ser artífice e sujeito de sua própria história, tendo a chance de decidir o que pode ser mantido e o que deve ser contraposto no trabalho de gerações anteriores, sem ter que prestar contas e nem “pedir a benção” a ninguém para poder respirar novos ares. Afinal, somos todos cooperadores do evangelho, como bem disse Paulo, e se alguém pensa ser algo mais que isso, já perdeu a noção do que é servir no reino. Como bem colocou o companheiro Lyndon de Araújo Santos, está na hora de dizer adeus à era dos avatares e de instaurar um novo processo que seja naturalmente abortivo de qualquer “avatarização” de quem quer que seja. Afinal, fazemos parte de um reino do “lava-pés”, onde existe apenas um rei, que, por sinal, fez-se servo de todos.

Jonathan

[Imagem: “A auto-coroação de Napoleão”, por David].

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Sobre a intelectualidade e seus (des)caminhos

Espelho de Narciso

Uma coisa que me intriga em “nosso” mundo de intelectuais e acadêmicos é a arrogância. Não que isto me seja estranho, de modo nenhum, é compreensível, uma vez que estamos lidando com o conhecimento – e o saber é companheiro do poder. Mas o que me encabula é como as pessoas tendem a se enganar com autoengrandecimento, às vezes por tão pouco: um título, uma posição, um cargo, um artigo ou um livro (sim, isto é muito pouco, embora nesse métier seja "o que conta" para muitos).

Neste universo sem sentido, conheço intelectuais e professores renomados e brilhantes, ou apenas brilhantes e competentes, mas não renomados, que procuram demonstrar pouca jactância em relação ao que conquistaram em suas trajetórias, que não pisam nos demais (colegas, discípulos ou aduladores/ admiradores) por causa disso. Pelo contrário, são generosos, humildes e íntegros a maior parte do tempo; alegram-se visivelmente com o sucesso dos outros, e não apenas com o seu, e até contribuem para isso. Conhecem-se o bastante para diferenciar o precioso do vil – afinal, quem é "é", e não precisa ficar alardeando sua persona em outdoor.

Por outro lado, também conheço outros que, por muito pouco (muito pouco mesmo - pouca competência, brilhantismo ou renome), ocupando posições de poder em maior ou menor grau, se transfiguram em seres tão arrogantes a ponto de se acharem superiores, donos da verdade, "último biscoito do pacote". Raramente assentem e se regozijam com o sucesso alheio – a não ser aquele que lhes interessa diretamente – e, para piorar, ainda fazem de tudo para desqualificar aqueles que representam (mesmo que em seu mundo imaginário) uma ameaça direta a sua "excelência" (até pela falta dela, talvez).

Considerando que isso é tão comum, a arrogância e o orgulho acabam sendo ferramentas de sobrevivência: ou se tem e se joga com as cartas que estão sobre a mesa, ou não se tem (ou se evita) e sofre uma espécie de bullying quase corporativo por ser "diferente". A grande questão, para mim, é: onde pensam esses intelectuais que chegarão com esta atitude? Que espécie de discípulos formarão? Que frutos permanecerão, mesmo a após a morte? Cada vez estou mais convencido, com o Pregador, que tudo isto é vaidade de vaidades e correr atrás do vento. Ou seja, nada disso faz sentido!

Então, para mim o caminho, embora árduo, é simples: melhor o anonimato que a fama barata; antes a integridade que a busca insana por reputação; melhor é ser estímulo, exemplo e voz dissonante (como diz a canção do Teatro Mágico) aos poucos que ainda têm ouvidos para ouvir, que gozar de adulações, aplausos e curtidas sem substância de uma grande plateia – a mesma que te derrubará quando preciso for. Estou consciente, porém, de que em toda preferência há um gesto de orgulho; e, em toda deferência, uma pitada de vaidade. Melhor, talvez, seja não se julgar superior em nada, nem em sua aparente inferioridade ou humildade. Porque o orgulho pode ser inimigo da humildade, mas um pouco de humildade autorreconhecida pode ser apenas mais um passo para a arrogância e o orgulho. No fim das contas, então, o espanto inicial de cada um deve ser diante daquele/a que encaramos diariamente em frente ao espelho, perguntando-se com honestidade: que diabo de intelectual (ou de pessoa) sou eu?

Jonathan

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Antes… (Parte II)

Esperança-caos

2. Antes

Essa é uma palavra-chave para o autor de Eclesiastes. É preciso viver intensamente, lembrando do Criador, "antes"... Antes do quê? Antes que chegue o inevitável momento da vida em que (o que segue é uma paráfrase dos versos 2-7):

... Não tenhamos mais prazer

... A luz da vida perca seu brilho e seja tomada por uma escuridão sem fim, e nossos olhos já não vejam mais

... Na velhice, nossos corpos já não nos sirvam como antes

... Não tenhamos mais força, e até mesmo aquilo que é relativamente fraco (como um gafanhoto) seja peso para nós

... Que toda aquela potência de antes se transforme em impotência e fragilidade

... E nossos amigos e família comecem a fazer planos para nosso funeral, e os "zés" e "marias" velório da vida comecem a chorar pela nossa partida "desta para melhor" (ou pior, quem sabe?).

É bom ressaltar que a velhice aqui é uma metáfora da decadência, do fim. Alguns têm essa experiência bem antes da velhice. Um acidente ou uma doença podem provocar isso. E como teremos vivido? Então, o que há para viver, o que é possível viver – ou o que o Criador espera que a gente viva – que se decida viver hoje, de preferência já, porque o amanhã não existe ainda e nem sabemos se existirá (para cada um dos viventes). Como já disse o poeta Renato Russo, "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade não há". O que há depois de hoje? Ora, o amanhã. A pergunta é: para quem?

3. Vaidade

Por isso, assim ele resume a nossa vida debaixo do sol: "Tudo é vaidade!". Ou seja, tudo é transitório, passageiro, superficial, futilidade pura! Há outras duas definições da vida, que se encaixam bem com essa: (a) somos um “punhado de pó” – do pós viemos, ao pó voltaremos; (b) somos como neblina, que vem e logo se dissipa (Tiago). Na mesma música antes citada, Renato Russo diz: "sou uma gota d'água, sou um grão de areia". Ou seja, somos bem menores que nossa pretensiosidade nos leva a acreditar (ou a nos auto-iludir) que somos.

Isto implica que a vida, não importa quanto tempo a gente viva, diante da eternidade, é incrivelmente curta e, como se costuma dizer, passa muito rápido. E aquilo que foi e o que passou não têm volta. Como diz outro poeta (Lulu Santos): "nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia, tudo passa, tudo sempre passará. A vida vem em ondas como o mar, num indo e vindo infinito". Nesse sentido, cabe aqui a frase de Ed René Kivitz, em seu O livro mais mal-humorado da Bíblia (2009): "Sábio não é aquele que busca a novidade para se saciar: sábio é aquele que consegue entrar na rotina da vida e fazer as coisas repetidas como se as fizesse pela primeira vez".

Como eu leio isso tudo? A partir da perspectiva de que “sei que nada será como antes amanhã” (Milton Nascimento). Não haverá uma segunda vez para amar como eu posso fazer hoje (pelo menos não igual a esta): para perdoar, para me reconciliar, para dar atenção ao meu filho, para beijar minha esposa, para dizer e demonstrar a minha família, ao meu irmão, ao meu amigo, que eu o amo... Então, eu preciso me lembrar de fazer, na oportunidade que tiver, todas essas coisas (e outras) como se fosse a primeira vez, considerando ainda que não sei (e ninguém sabe, exceto o Criador) se, na verdade, não será a última...

Não sei quantas oportunidades Deus ainda vai me dar para eu viver me lembrando Dele, quantas “segundas chances” terei na vida. Assim, tudo o que tenho é o hoje, é o agora; o presente é o tempo da oportunidade. Portanto, há sim algo do presentismo e imediatismo de nosso tempo que precisa ser celebrado (ou reorientado). Pois, no que concerne ao futuro, não sei se será um tempo para mim, porque o futuro não pertence a mim, mas a Deus e somente a Ele. E o futuro além-do-tempo que temos em Deus (vida eterna), só tem sentido se experimentado, mesmo que em parte, já-no-tempo. E aí, o que temos para hoje?

Jonathan