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segunda-feira, 9 de junho de 2014

Meia-Maratona de Floripa: uma experiência e tanto!

Meia de Floripa 2014

5:00 da manhã, o despertador toca, é hora de levantar e preparar-se pois o café seria servido às 5:30, sendo que às 6 o ônibus que nos levaria ao local da largada estaria à nossa espera. Chegamos e nos juntamos à multidão que, ansiosa, esperava a largada. Às 7:12 foi dada a largada; embora ciente da fadiga que me tomou nos últimos 3 dias, saí determinado a pelo menos repetir meu melhor tempo em 1/2 maratonas (1:39').

A paisagem de Floripa é simplesmente inspiradora, apesar do mau tempo. Contudo, no quarto quilômetro já percebo que alguma coisa não ia bem, minha energia estava abaixo do normal, mas ainda assim persisto no objetivo. No km 8 começo a encontrar os companheiros, que foram ficando para trás - "bom sinal", pensei, e continuei na mesma toada, não obstante as bolhas que já começam a incomodar. Ao atingir o 10° km, notei que meu tempo estava abaixo do comum, e que provavelmente a meta precisava ser revista. No km 14 confirmo a percepção, minha energia começa a cair bruscamente e já noto que o objetivo foi muito alto para meu estado corporal - água benta na pretensiosidade.

Prossigo, agora com mais cautela, nem imaginando o que me aguardava adiante. Passei o km 15 com 1:13', abaixo do que queria, mas ainda razoável dadas as circunstâncias que vinham se apresentando. No km 17 veio o golpe mais duro; já me vi quase sem energias e as pernas começaram a acusar fadiga, pesadas e sentindo as primeiras fisgadas. Naquele momento, as bolhas no pé já castigavam bastante. Um amigo corredor passa por mim e recebo o primeiro incentivo para prosseguir (precisaria bastante disso nos quatro últimos quilômetros). A subida no km 18 por pouco não foi fatal, pensei em parar ou andar, mas percebi que se o fizesse seria fim de prova para mim. Continuo, agora aos trancos e barrancos, correndo mais com a mente que com o corpo, já extenuado àquela altura, quando a chuva caía mais forte. No iPod começa a tocar 'Titanium' - "I'm bullet proof nothing to lose far away, far away... you shoot me down, but I won't fall, I'm titaniummmmmmm", e penso: se o corpo não é de titânio, a mente agora precisa ser.

No km 19 agradeço por estes anjos que nos entregam água ao longo do caminho, um pouco de hidratação e bora pro esforço final. No quilômetro final sou alcançado pelo companheiro Sergio Augusto, que me lembrou uma vez mais o sentido de companheirismo na vida e na corrida, primeiro dizendo: "vamos juntos nesse quilômetro final", e depois ajudando a me segurar junto com os irmãos Edison e Fouad Salomão, quando, com hipoglicemia, quase caí logo depois da chegada. Nunca se é tão feliz na corrida se não temos amigos. Obrigado, meus brothers! Finalizei literalmente acabado e sem forças, mas tremendamente emocionado pela superação.

Sim, a corrida me ensina muito sobre a vida e sobre mim mesmo. Nesta prova fui lembrado de que a fraqueza e o fracasso são sinais de humanidade, bem como a coragem de prosseguir apesar das limitações também é, e que a gente pode aprender mais com elas que com a própria vitória. Obviamente não terminei no tempo esperado, mas ganhei muito pela experiência ímpar, pela superação de limites e pela chance de dar e receber solidariedade e calor humano. No fundo a vida e a corrida só são completas através do encontro com o outro, o diferente, que se faz irmão e irmã nas estradas sinuosas da vida. No fim das contas, é muito bom também poder aprender com as experiências dos outros e se regozijar em suas vitórias. Parabéns a todos/as que aguerridamente terminaram essa prova. Agradeço ao Deus de toda a terra, de vivos e até de mortos por mais este tempo de surpresas e oportunidades. E rogo que eu possa correr pro resto da vida, pois correr é viver, e viver é bom demais.

Jonathan

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A coragem de ser quem se é

van-gogh-shoes-mid

“O meu corpo e o meu coração poderão fraquejar...” (Salmo 76.26).

Não ter com quem realmente contar diante das “más notícias” da vida é uma fonte de grande angústia para qualquer ser humano com um mínimo de sensibilidade. Às vezes nem entre alguns amigos, certos membros da família, da comunidade, e colegas de trabalho menos ainda, contamos de fato com alguém. Por quê? Porque está cada vez mais difícil encontrar companheiros/as para a hora da dor em uma sociedade que consagra a vida indolente, feliz e, de preferência, sem grandes dilemas, principalmente aqueles para os quais não temos resposta nem tampouco paciência para lidar. Falar em depressão, transtornos, fraquezas, bipolaridades ou neuroses com esse tipo de gente é o mesmo que lançar pérolas aos porcos – se bem que os porcos, por razões óbvias, não julgam nem têm preconceitos semelhantes aos que, diariamente, vemos especialmente no meio religioso.

Não escrevo para demonizar esse tipo de gente. É uma constatação apenas de que elas estão cumprindo fielmente, e um tanto irrefletidamente, aquilo que o espírito do tempo – de louvor ao sucesso e de exorcismo do fracasso – lhes designou.

Percebo, contudo, que ainda existem pessoas singulares, cuja singularidade advém precisamente do fato de que têm tanto aprendido quanto inspirado no mundo àquilo que Paul Tillich (outro espírito singular) chamou de “a coragem de ser”: de ser quem se é e de ser “como uma parte”. Somos (ou podemos nos tornar) quem somos de verdade à medida que admitimos jubilosa e corajosamente nossa parcialidade, precariedade e provisoriedade em quase tudo na vida, tanto no sentido de que não damos conta da existência, como no de que partilhamos nessa mesma existência de fragilidades muito semelhantes.

Esta é a coragem que nos permite viver com integridade as dores e alegrias de ser-no-mundo; ela também nos convida à partilha com outros (pessoas singulares que Deus graciosamente coloca em nosso caminho) e descobrir que, de modos diferentes e em intensidades que não podem ser mensuradas, todos podemos fraquejar e fraquejamos. Esta possibilidade concreta nos humaniza. Assumir e viver o que somos, com nossas luzes e sombras, por mais doído que seja, não nos destrói, mas nos torna mais humanos, como não deixa mentir o exemplo do “Deus Crucificado”. Negar, sublimar o ignorar este lado da vida é, portanto, nos desumanizar. De pessoas singulares, assim, congraçamo-nos no indiferentismo fingindo (e pregando) felicidade e paz, onde o que existe é mais complexo; perdemos a coragem do coração, tornamo-nos pusilânimes.

Por isso é que, como contrapartida, sou fã dos poetas bíblicos, pois eles mostram que a Bíblia é um livro repleto de histórias escritas, narradas, vividas e dramatizadas por gente como você e eu, e por um tipo de pessoa que eu gostaria de me tornar: inteira, corajosa, compassiva, demasiadamente humana. Viver na obscuridade não é saudável pra ninguém; negar que ela nos ronda, muito menos. Limitações existem e só são entraves para quem, luciferianamente, tem síndrome de Deus. Aos que creem e vivem sob o poder de Deus, porém, elas são caminho de liberdade. Só quem reconhece a fragilidade do próprio coração pode dizer com trêmula convicção: “... mas Deus é a força do meu coração e a minha herança para sempre”.

Jonathan

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Por uma igreja frágil e irrelevante

Fragilidade

Nosso mundo é um mundo cada vez mais competitivo, composto de pessoas competitivas. Nem todos são vencedores, nem todos os vencedores alcançam o pódio e o poder por mérito próprio, mas quase todos, regidos pela lei do mercado, competem entre si para ver quem conquista o direito de “chegar lá”. Maquiavel ficaria feliz em se dar conta de que sua teoria, originalmente aplicada à política de sua época (no clássico O Príncipe), funciona bem em outros ambientes, como o mercado de trabalho ou a religião, por exemplo; universos nos quais nem sempre importam tanto os meios, se estes estiverem a serviço de almejáveis fins. Sucesso, pujança e relevância são palavras indispensáveis a qualquer um que deseje ter uma sobrevida neste tipo de sociedade.

Você, leitor/a, deve estar se perguntando, “e a igreja nisso?”, já que meu título remete a ela. Bem, a igreja vive na tensão entre ser uma expressão desta e (relevante) para esta época, e sua razão de ser, que é encarnar diante do mundo a boa nova do reino revelada em Jesus. Ou seja, o que move a igreja não são os ditames do que impera na sociedade em que ela coexiste, mas o exemplo de seu Senhor.

E o exemplo de Jesus, suas prioridades, sua missão se desenham desde seus primeiros passos no ministério. Segundo a narrativa de Lucas no texto indicado acima, Jesus não inicia seu ministério em ação, mas em silêncio, oração e na total dependência do Espírito no deserto. Lucas diz que ele voltou do Jordão (lugar de seu batismo) “cheio do Espírito” e que ele “foi guiado pelo mesmo Espírito no deserto” (Lc 4.1). Depois de quarenta dias, ele passou a ser tentado pelo diabo no instante mesmo de sua maior vulnerabilidade e em seus aspectos geradores: (a) suas necessidades básicas (transforma pedras em pão), (b) sua identidade (se és o filho de Deus, atira-te daqui e convoque os anjos pra te livrarem), (c) sua vinculação divino-humana com o poder (a ti darei todos estes reinos se prostrado me adorares). Em nenhuma delas, porém, Jesus foi imprudente, não se submetendo ao uso leviano da Palavra pelo diabo. Pelo contrário, ele rejeita o caminho do poder e abraça, a partir dali, uma vocação despossuída de pretensões grandiosas neste mundo e desejosa apenas de fazer a vontade do Pai.

O caráter dessa vocação se confirma no momento seguinte da narrativa. Num sábado, Jesus adentra a sinagoga (respeitando o costume e a tradição) e lhe é dado o livro do profeta Isaías, no qual se lê: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e  recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos, e proclamar o ano da graça do Senhor” (Lc 4.18-19, NVI). E, logo em seguida, disse aos presentes que aquela palavra acabara de se cumprir nele mesmo. Desde então, fica claro que ele encarna a figura indigesta do profeta.

Quase todo líder cristão em nossos dias, naturalmente, imagina poder iniciar seu ministério bem, realizando boas e grandes coisas para se estabelecer, sendo notado e respeitado a fim de conquistar seu espaço. O mestre, porém, tem um início subversivo até nisso, pois esse primeiro ato ministerial, segundo esse relato, foi um fracasso total: todos na sinagoga ficaram enraivecidos com seu discurso, o expulsaram da cidade e tentaram jogá-lo do precipício, o que só não aconteceu porque ainda não era o momento. Mas era o indício de um caminho, caminho de cruz.

O que a igreja contemporânea tem a aprender com isso? Dentre tantas lições que daqui poderíamos extrair, eu diria que igreja e seus líderes precisam aprender com Jesus a não temer a rejeição, o escárnio e o insucesso (aos olhos do mercado) no instante em que ela decide viver com integridade sua vocação para ser um frágil instrumento da missão do reino neste mundo. Henri Nouwen vai além, e afirma algo arrojado em relação aos líderes cristãos (que aqui reaplico a igreja): “O líder cristão do futuro será aquele que ousa afirmar sua irrelevância no mundo contemporâneo como uma vocação divina. Ela permite que ele esteja em profunda solidariedade com a angústia atrás de todo aquele esplendor do sucesso. E leve a luz de Jesus para brilhar ali”.

“Frágil e irrelevante”, digo, não porque encarna o espírito de vítima ou de derrotada, tampouco porque não faça e não vá fazer diferença, mas porque é irreverente aos caminhos de sucesso mundanos, e porque encarna o espírito de sua fragilidade humana na dependência do Espírito, como Jesus no deserto, e admite não precisar nem desejar viver sob a égide e em busca de outro poder que não esse; e mais, assume que todo exercício legítimo de poder na igreja passa pela fragilização de quem o exerce, no momento em que se coloca tanto na dependência do mesmo Espírito no serviço, como na mútua e fraterna dependência da própria comunidade. Em suma: olhar para Jesus torna mais claro o tipo de opção que a igreja de Cristo precisa fazer ao lidar com poder e instituições neste mundo, qual seja, não a de rejeitá-los como quem os demoniza, mas de abandonar o modo como se valoriza poder e instituição por aí, tantas vezes colocando-os acima das pessoas às quais deveríamos amar e servir.

A igreja que se diz de Jesus não pode inverter a lógica: ela ama mais as pessoas que as instituições e não o contrário. Aliás, instituições são instrumentos úteis, não objetos de amor e/ou veneração!

Ademais, a vocação primária da igreja faz com que ela não esteja neste mundo para estabelecer coisas – como que monumentos só dela, porém supostamente erigidos “para a glória de Deus” (resta saber qual) –, mas para peregrinar na liberdade, e seguindo os rastros, do Espírito e obedecendo unicamente a um Senhor. Por fim, o papel da comunidade do povo de Deus em um tempo tão plural como o nosso não reside em normatizar o falar de Deus, nem tampouco na pretensão de falar por Deus, como se a ela tivessem sido conferidas tanto uma revelação especial quanto um modo especial (ou exclusivo) de apresentar a revelação. Em tempos de fragilização, como o pensamento fraco de Gianni Vattimo nos faz atentar, a igreja não passa de um débil e, como tal, não exclusivo instrumento da Missio Dei, que, para ser efetiva como instrumento, precisa se aceitar como insuficiente, frágil, como um vaso de barro nas mãos do Oleiro, a fim de que nela, através dela e para além dela, isto é, no mundo, avulte o poder do Espírito Santo, a única testemunha absoluta da verdade, a nós não acessível senão por meio de fragmentos de linguagem e fragmentos de experiência.

Jonathan

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Antes… (Parte II)

Esperança-caos

2. Antes

Essa é uma palavra-chave para o autor de Eclesiastes. É preciso viver intensamente, lembrando do Criador, "antes"... Antes do quê? Antes que chegue o inevitável momento da vida em que (o que segue é uma paráfrase dos versos 2-7):

... Não tenhamos mais prazer

... A luz da vida perca seu brilho e seja tomada por uma escuridão sem fim, e nossos olhos já não vejam mais

... Na velhice, nossos corpos já não nos sirvam como antes

... Não tenhamos mais força, e até mesmo aquilo que é relativamente fraco (como um gafanhoto) seja peso para nós

... Que toda aquela potência de antes se transforme em impotência e fragilidade

... E nossos amigos e família comecem a fazer planos para nosso funeral, e os "zés" e "marias" velório da vida comecem a chorar pela nossa partida "desta para melhor" (ou pior, quem sabe?).

É bom ressaltar que a velhice aqui é uma metáfora da decadência, do fim. Alguns têm essa experiência bem antes da velhice. Um acidente ou uma doença podem provocar isso. E como teremos vivido? Então, o que há para viver, o que é possível viver – ou o que o Criador espera que a gente viva – que se decida viver hoje, de preferência já, porque o amanhã não existe ainda e nem sabemos se existirá (para cada um dos viventes). Como já disse o poeta Renato Russo, "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade não há". O que há depois de hoje? Ora, o amanhã. A pergunta é: para quem?

3. Vaidade

Por isso, assim ele resume a nossa vida debaixo do sol: "Tudo é vaidade!". Ou seja, tudo é transitório, passageiro, superficial, futilidade pura! Há outras duas definições da vida, que se encaixam bem com essa: (a) somos um “punhado de pó” – do pós viemos, ao pó voltaremos; (b) somos como neblina, que vem e logo se dissipa (Tiago). Na mesma música antes citada, Renato Russo diz: "sou uma gota d'água, sou um grão de areia". Ou seja, somos bem menores que nossa pretensiosidade nos leva a acreditar (ou a nos auto-iludir) que somos.

Isto implica que a vida, não importa quanto tempo a gente viva, diante da eternidade, é incrivelmente curta e, como se costuma dizer, passa muito rápido. E aquilo que foi e o que passou não têm volta. Como diz outro poeta (Lulu Santos): "nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia, tudo passa, tudo sempre passará. A vida vem em ondas como o mar, num indo e vindo infinito". Nesse sentido, cabe aqui a frase de Ed René Kivitz, em seu O livro mais mal-humorado da Bíblia (2009): "Sábio não é aquele que busca a novidade para se saciar: sábio é aquele que consegue entrar na rotina da vida e fazer as coisas repetidas como se as fizesse pela primeira vez".

Como eu leio isso tudo? A partir da perspectiva de que “sei que nada será como antes amanhã” (Milton Nascimento). Não haverá uma segunda vez para amar como eu posso fazer hoje (pelo menos não igual a esta): para perdoar, para me reconciliar, para dar atenção ao meu filho, para beijar minha esposa, para dizer e demonstrar a minha família, ao meu irmão, ao meu amigo, que eu o amo... Então, eu preciso me lembrar de fazer, na oportunidade que tiver, todas essas coisas (e outras) como se fosse a primeira vez, considerando ainda que não sei (e ninguém sabe, exceto o Criador) se, na verdade, não será a última...

Não sei quantas oportunidades Deus ainda vai me dar para eu viver me lembrando Dele, quantas “segundas chances” terei na vida. Assim, tudo o que tenho é o hoje, é o agora; o presente é o tempo da oportunidade. Portanto, há sim algo do presentismo e imediatismo de nosso tempo que precisa ser celebrado (ou reorientado). Pois, no que concerne ao futuro, não sei se será um tempo para mim, porque o futuro não pertence a mim, mas a Deus e somente a Ele. E o futuro além-do-tempo que temos em Deus (vida eterna), só tem sentido se experimentado, mesmo que em parte, já-no-tempo. E aí, o que temos para hoje?

Jonathan

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Uma fé “fora da caixa”

fora da caixa

Escrevi estas linhas, motivado pela pergunta feita por amigos-irmãos de uma comunidade nascente em São Paulo, chamada “COLETIVObeta”. Na ocasião de minha fala e participação em uma das reuniões do grupo, iniciei considerando que a fé cristã não existe à parte do contexto histórico e cultural em que é concebida. Antes, é permeada, influenciada e modificada por ele. Logo, não existe fé “pura”, no sentido de incontaminada em relação ao ambiente, as pessoas, os coletivos, suas práticas, suas ideias, seus costumes, etc. De modo que esse negócio de “fé fora da caixa” pode não passar de uma perspectiva ingênua – já que todos nos encaixamos em algum esquema, quer admitamos ou não (como bem observou na ocasião meu amigo Hilton Isleb) – mas também (e penso que assim deve ser) uma tentativa de constantemente repensar e de novo situar a fé, de acordo com as transformações pelas quais o mundo passa e nós, mundanos, também passamos.

Assentindo positivamente com a proposta de meus amigos, traço aqui, em breves, algumas ideias sobre o que seria essa tal “fé fora da caixa”.

1. É aquela que se reconhece como dádiva e, portanto, que diz: Eu “estou na fé”. Não trata a fé como posse, porque se é posse a gente guarda na caixa, no armário ou embaixo da cama e a luz (de Cristo) não pode brilhar ali... A fé, definitivamente, não existe para ser “guardada”, mas para ser expressa, para brilhar e salgar.

2. É a fé que abandona a linguagem que diz “minha fé”, por entender que fé cristã se gesta comunitariamente. A conversão pode ser a razão pela qual passamos a viver na e pela fé, mas a comunidade é o que sustenta, desafia e impulsiona a fé a outras possíveis conversões. Ademais, fé que não se converte ao outro não pode ser chamada “cristã”. No máximo se traduz por uma crença, como uma opinião: você crê daquela forma, você crê em Deus, mas sua vida não se move do jeito de Deus. Ao modo como Tiago já dizia: Você acredita em Deus? Beleza! Mas deixa eu te avisar: até os demônios crêem e temem. No final das contas, se nada opera ou transforma, a fé é como um cadáver, uma fé necrófila – amiga da morte, não da vida.

3. É aquela que não pode simplesmente se perder, num vaivém de “tinha e agora perdeu” – pois se não é propriamente minha, vai se perder como? A fé que se perde é aquela que nem bem se achou, e é preciso então perguntar se o que se perdeu não pode ser essencial ao ser verdadeiramente achado na fé. Ser achado na fé é ser achado livre, aceito pela graça e amado como filho de Deus e firmado na esperança da consumação no reino.

4. É ainda uma fé que não teme os riscos, que não tenta se blindar contra o mundo nem contra a humanidade, a começar pela própria. É, portanto, uma fé frágil, tanto por habitar em “vasos” quebráveis, como porque está fora e não se furta de se expressar ao mundo, porque não se envergonha daquele que é a razão própria de sua existência: Jesus! A fé que não tem vergonha de Jesus não cria adornos para ele. Ela assume sua identidade radical como necessariamente mansa e humilde de coração, de um fardo que é leve e suave, mas também de uma atitude rebelde e causadora de problemas, pois veio trazer espada e não “paz” ao mundo – pelo menos não essa paz artificial e sem justiça que ele almeja muitas vezes.

5. Por fim, porque não “se ganha” e, assim, não teme “se perder”, a fé fora da caixa é uma fé chamada a pensar, discernir e, diariamente, reinventar a si mesma diante de Deus e de seu contexto. Isso significa que a fé fora da caixa é uma fé que, apesar do firme alicerce espiritual que tem em Jesus, não se despe da dúvida, da incerteza e da indeterminação próprias do viver humano, especialmente no tempo atualmente vivido. Antes, a fortaleza da fé é que ela é uma certeza em meio a incertezas (cf. Hb 11.1). Enfim, a natureza da própria fé a conduz para fora da caixa, pois não se pode aprisionar o Espírito, que é quem a vivifica. Esse é o grande problema que o Espírito gera para a pessoa de fé: é que ele é livre e atua em liberdade. Uma fé escrava, comodamente encaixotada, não se deixa orientar pelo vento do Espírito, pois é o Espírito quem promove a liberdade para se viver a vida de Cristo de modo autêntico no mundo. Quem tem ouvidos, ouça...

Jonathan

(Imagem: ideiaseacao.com)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Em louvor à fragilidade

“Mas temos esse tesouro em vasos de barro, para mostrar que este poder que a tudo excede provém de Deus, e não de nós” (2Co 4.7).

Quando penso em tesouro duas imagens pelo menos me vem à mente: uma delas é a de uma caça ao tesouro, escondido em um baú nos recônditos de uma caverna escura e perigosa ou nas profundezas do mar; a outra é a dos cofres de segurança máxima, cheios de paredes de proteção especial, códigos e senhas quase intransponíveis.

As imagens são diferentes, mas têm algo em comum: em ambas o acesso ao tesouro é quase impossível, visto que há uma fortaleza protetora, imponente, complexa... A imagem de Paulo no texto acima é bem diferente. Ele fala de um “tesouro” (evangelho e a companhia do poder divino) em “vasos de barro” – que designa a nossa humanidade, que como o vaso vem do pó, é frágil, vulnerável e sempre sujeita à quebra.

Temos aqui então um contraste, uma dessas ironias divinas: o eterno poder, que não pode ser contido (do contrário, não seria eterno) escolhendo precisamente o que há de mais fraco e incerto para “se abrigar”. E a pergunta é: por quê? Paulo mesmo dá a resposta: é para mostrar que a excelência desse poder vem de Deus, e não da gente.

Trocando em miúdos: temos um tesouro (poder), mas esse tesouro não vem de nós, nem é para a nossa glória e nem nos faz triunfantes no mundo. Pelo contrário. Paulo segue afirmando nos versos seguintes que “em tudo” somos perplexos, atribulados, perseguidos, abatidos, embora não o bastante para sermos destruídos, desanimados, angustiados e totalmente desamparados.

Curioso, não? Esse poder, que não é nosso, não nos faz mais poderosos que ninguém, tampouco imunes ao sofrimento de qualquer ser humano – agregando ainda um sofrer de outra espécie, por ser cristão. Mesmo tendo um tesouro, nunca deixamos de ser simples vasos! E o vaso não existe para proteger a integridade do tesouro, mas é o tesouro que é oferecido para proteger a integridade do vaso, a despeito de suas eventuais “quebras”.

Não somos, portanto, defensores ou detentores do tesouro; ele não precisa de sentinelas ou guardiões, nem de Indiana Jones “gospel”; e não somos nós que resplandecemos, mas ele resplandece através de nós. O vaso não existe ainda para se transformado em cofre forte, mas existe para morrer: “Trazemos sempre em nosso corpo o morrer de Jesus, para que a vida de Jesus também seja revelada em nosso corpo” (4.10).

Penso que o que Paulo está querendo aqui, dentre outras coisas, é nos convidando a rever nossa teologia do poder e reservar nela um lugar especial para a aceitação jubilosa da fraqueza. Somente quando assumirmos nossa fragilidade humana, o poder de Deus se aperfeiçoará em nós a fim de que participemos da transformação que o Espírito já vem realizando no mundo, muitas vezes sem a nossa “ajuda” pretensiosa.

Jonathan

(Imagem: "Fragility", by Dawne Olson)