segunda-feira, 25 de maio de 2015

Tempus Fugit: Tudo é fumaça!

SmokeHoje... O “hoje” foge, escapa na esteira do imediato. Esse hoje me remete a tantas coisas que foram e ainda são, que deveriam ser, mas não são, que persistem enquanto deveriam estar mortas a essa altura. Alguns exemplos óbvios: hoje não estamos interessados mais em debate, mas em mandar recado; não desejamos mais nos aprofundar nos pensamentos, mas em consumi-los quase que antropofagicamente; não mais apreciamos criticamente o olhar do outro, mas o reduzimos a um "gostei" ou "não gostei"; não produzimos textos, mas opiniões do tipo "love it" ou "hate it" - e o "lover" de hoje pode muito bem se transformar no "hater" de daqui a pouco, afinal, não é tanto uma questão de conteúdo, mas de semântica, não tanto de caráter, mas de aparência. Chegamos ao ponto de jogar fora o carinho e respeito pela pessoa em função de sua forma de pensar.

Não falamos francamente, mandamos uns "torpedos"; emulamos amizades com milhares pelas redes, enquanto nas teias de nosso inominável “ser interior” permanecemos profundamente sozinhos; hesitamos em deixar as claras as regras do jogo nas relações pessoais e institucionais, preferimos comentar nos bastidores (falar “por trás” mesmo) como fulano "é errado", como "está fora do prumo", como está longe da "nossa visão". É, minha gente, se pensarmos bem, mas bem mesmo, nos acharemos no mesmo poço escuro e fundo que o sábio de Eclesiastes se viu há milhares de anos e, com ele, honestamente e tragicamente poderemos concluir: "vaidade de vaidades, tudo é vaidade e correr atrás do vento". O ato mais heroico e mais humano que alguém pode fazer por si mesmo hoje é lutar para manter sua integridade enquanto os “demônios do hoje” lutam, nos muitos balcões da vida, para vender a sua alma – com ou sem a sua anuência. Tempus fugit... viver (e deixar viver) é preciso!

Jonathan

sábado, 9 de maio de 2015

Homossexualidade: saindo de meu armário teológico


Homossexuais. Que seres tão incompreendidos, não é mesmo? E por isso, mal julgados, maltratados, malvistos... Infelizmente, a cada dia comprovo que nossa sociedade, de modo geral, o que inclui os cristãos, não está preparada para lidar com essas pessoas e, portanto, não as trata como pessoas, mas como doentes, depravadas, indignas. E a homossexualidade não é uma doença (por isso o termo “homossexualismo" deve ser evitado), mas uma condição: não almejada nem desejada por ninguém que realmente seja um homossexual, assim penso, afinal, primordialmente, não se trata de uma escolha. E muitos sofrem por serem assim, exatamente pela rejeição e o julgamento que têm e terão de lidar hoje e para o resto de suas vidas. Sim, porque, se consentimos que não é "doença", logo é absurdo buscar uma "cura".

Henri Nouwen, meu grande herói na literatura, era padre e era homossexual, viveu assim e morreu assim – mesmo tendo optado por não se realizar sexualmente, por força de sua vocação sacerdotal – e efetivamente, nada do que penso e sinto sobre ele mudaria se o contrário fosse verdade. Mas ele sofreu as consequências dessa escolha, e como sofreu. Quem não sofreria? Você não sofreria, supondo que seja hétero, se alguém chegasse hoje e dissesse que o universo e a história toda estavam errados? Que a ordem da criação (ou da evolução) da sexualidade humana é uma mentira, e que a verdadeira ordem natural (divinamente aprovada inclusive), é a homossexual? Então você teria de suprimir seu desejo por homens (ou mulheres), e eu, de suprimir o meu por mulheres. Parece absurdo, mas é uma forma bem tosca, mas enérgica, de se imaginar no lugar dessas pessoas. Que coisa mais destrutiva de fé, de corpo e de alma esse negócio chamado de "cura gay"! Quantas pessoas não se alijaram da fé por conta dessa falsa crença – não falsa crença no poder de Deus em si, mas em que são doentes e que só Cristo pode curar. Mas e quando não “cura”, como em muitos casos que conheço de pessoas que oraram por longo tempo, buscaram ajuda, participaram de campanhas, foram a psicólogos, fizeram tratamento médico e até tomaram remédios? E quando supostamente a pessoa se cura, e  passa a ter relações heterossexuais ou então se tornar celibatária, mas o desejo homossexual permanece lá, vivo e caliente? Se a homossexualidade é uma condição, como os muitos estudos existentes e uma observação atenta da realidade me fazem acreditar, então não faz sentido nenhum falar em "cura gay".

Então, você pode estar pensando: "O que nos resta, como cristãos", caso queiramos sair de nossos armários teológicos e doutrinários previamente estabelecidos sobre o assunto? Em primeiro lugar, e o passo mais óbvio, é o de que precisamos amar, sem perguntar nem quem, nem onde, nem por que, nem quando, nem de que jeito. É isso que Jesus me ensina a fazer, como alguém que amava sem condição e abraçava sem perguntar nada. Deixe as perguntas e as tentativas de respostas para depois. Em segundo lugar (pensando aqui que você vive em um ambiente conservador, onde não se discute, apenas se determina qual é a “visão correta”), quando esse momento chegar, procure um pequeno grupo de orientação e reflexão (se ele não existir, crie) onde o assunto possa ser discutido com liberdade de mente e coração, com abertura, sem julgamentos, utilizando as mais diferentes ferramentas de leitura existentes, o que inclui uma leitura e exegese séria dos textos bíblicos que tratam do assunto. Para mim, é relativamente claro que estes textos (como em Levítico, Romanos, 1Coríntios, etc.) literalmente proíbem práticas homossexuais em tais e/ou quais circunstâncias historicamente dadas dentro de contextos culturais específicos. No entanto, me parece temerário defender que estes mesmos textos deem base para: (1) tratar a pessoa homossexual hoje como doente ou depravada – até porque, via de regra, nestas passagens são homens e mulheres heterossexuais deitando-se com outros (e outras) pessoas heterossexuais e, na maioria das vezes, em práticas de culto orgiástico, que, na tradição veterotestamentária, feriam o princípio do culto ao único Deus, Javé ou, como no caso de Sodoma e Gomorra, desobedeciam à lei de hospitalidade a estrangeiros; (2) nem falar em "cura gay", como já enfatizei; ou (3) condenar a condição natural de ser homossexual – mesmo porque provavelmente na antiguidade existiam muitos homossexuais (tanto quanto hoje), mas pouco se sabia sobre a homossexualidade enquanto condição, até porque o conceito de homossexualidade sequer existia. Por que será que Jesus não dirige uma palavra sequer sobre essas pessoas nos evangelhos? E por que Paulo se preocupou, mais que Jesus, com essas práticas orgiásticas de homens com homens, mulheres com mulheres? São perguntas que precisamos fazer, dentre outras, ao abordar o tema biblicamente – e aqui não me estenderei mais a respeito, pois não é o propósito desse breve desabafo. Ademais, precisamos lançar mão do que têm asseverado os psicólogos e cientistas que têm se dedicado a estudar o assunto, uma vez que há tantas pesquisas a respeito, e tão poucas conclusões definitivas sobre isso. Realmente, este assunto ainda dará muito pano para a manga; basta que estejamos interessados em saber mais, saindo de nosso pequeno armário preconceituoso, despótico, autoritário e superficial de julgamento, sobretudo no campo da religião e, mais ainda, do cristianismo.

Minha posição atualmente é a seguinte: quanto à questão teológica, posso dizer que, até agora, não vejo razões na bíblia que claramente me dão base para justificar e embasar a prática homossexual em si – e sinceramente, não é preciso, pelo menos não para mim. A questão não é essa. Não existe a homossexualidade, ou a prática homossexual, fora da pessoa. Então a questão é: biblicamente falando, posso deixar de amar um/a homossexual ou qualquer pessoa que seja? E não um amor cheio de imposições e “senãos”, como muitos oferecem, dizendo coisas do tipo: "ah, amo você, mas não o seu 'pecado" (dá pra separar?); "você é bem-vinda em nossa igreja, pode frequentar, mas não pode batizar e nem se tornar membro" (que oferta irrecusável, não? Jesus deve se orgulhar muito dessa). Não, queridos/as irmãos e irmãs. Amar é abraçar; é dizer "você é bem-vindo/a aqui", é dizer "você é um/a filho/a amado/a do Pai, e por isso é minha irmã, meu irmão”; você, que ama ao Senhor, é parte desse corpo e, portanto, seus dons e talentos são bem-vindos aqui. Como costuma dizer um amigo, “quem chama a Deus de Pai não pode escolher irmãos”. Afinal, o que é mais importante, acolher a pessoa em serviço e amor sincero, ou arbitrar sobre com quem ela dorme ou deixa de dormir? E quem é que pode garantir que os "santificados" heterossexuais da igreja dormem com pessoas a quem amam, por quem prezam, e das quais cuidam, como dizem que fazem? O que torna essa pessoa "autorizada pra entrar aqui", e a outra, homossexual, que tem um/a parceiro/a a quem ama, preza e cuida e é fiel, inapta para o reino de Deus? Aliás, quem é o/a “apto/a” para isso? O reino de Jesus, tal como o evangelho me mostra, existe exatamente para pessoas não aptas, desajustadas, pecadoras; ou, parafraseando Brennan Manning, para a “turma da auréola torta”, e não para a turminha angelical da “auréola apertada” (os fariseus e saduceus que o digam). Sério mesmo que vamos continuar achando que estas pessoas são pecaminosas e ignominiosas, condenáveis por assim dizer, enquanto o presbítero, casado e hetero, ministra a ceia na igreja, mas não deixa de olhar para a calcinha da irmã aparecendo na saia curta, e depois se masturba ou transa com a sua mulher pensando nela? E não venha me dizer que isso não acontece!

Eu, porém, não ouso dizer nada mais além de: "tem misericórdia de mim, Senhor, porque sou falho, não merecedor e não apto". Sendo pecador, ainda que não viva no nem para o, mas eventualmente caia em, pecado, como posso julgar ou condenar meus irmãos e irmãs humanos/as? A mim mesmo me condeno se o fizer, como disse Jesus no Sermão do Monte. Sei que provavelmente muito do que tenho dito aqui você preferia não ouvir assim, não concorda, queria mais “embasamento” ou talvez não pediu para que dissesse. Honestamente, não me importa, isto é um desabafo. E hoje falo assim, não porque acredite que a igreja ou a sociedade estão preparadas para isso, nem abertas para o diálogo e a escuta – na verdade, penso que elas nunca estarão de fato, ou isso está deveras longe de acontecer. Posiciono-me assim, por convicção de fé e humanidade, e pela certeza de que há muita gente sofrendo e até morrendo por essa causa, pelo preconceito, a rejeição, a discriminação e a violência bárbara, física ou verbal, material ou simbólica.

No fundo, é nessas pessoas que penso, e não nos crentes fundamentalistas; são essas pessoas que importam, e não seus detratores e abusadores. E estas pessoas não podem esperar mais para serem ouvidas, amadas, abraçadas; não podem mais ter seus direitos humanos negados; não podem mais orar e esperar pela mudança de visão e coração dos cristãos, dos políticos, da sociedade, enquanto nada muda. Estas pessoas clamam pelo direito de ser gente e de ser quem são. E como cristão, minha missão não é outra senão a de lutar para que sejam, para que possam, para que alcancem esse direito – independente das querelas teológicas improdutivas que gravitam ao meu redor sobre o assunto, às quais não dou mais a mínima. A questão homossexual só deixará de ser uma questão e deixará de ser urgente, quando o amor, a justiça, a igualdade, os direitos e a liberdade se fizerem realidade concreta em nossas vidas. Enquanto isso não acontecer, decidi que não posso e que não vou mais me calar a respeito: decido sair do armário de minhas “médias ponderadas evangélicas”, de minhas posições razoavelmente confortáveis, a fim de clamar pelo direito de gente oprimida, gente pela qual Jesus entregou sua vida.
Jonathan

segunda-feira, 23 de março de 2015

Por uma fé que pode fraquejar

Week heart

Quando o meu coração estava amargurado e no íntimo eu sentia inveja, agi como insensato e ignorante; minha atitude para contigo era a de um animal irracional. Contudo, sempre estou contigo; tomas a minha mão direita e me susténs. Tu me diriges com o teu conselho, e depois me receberás com honras. A quem tenho nos céus senão a ti? E na terra, nada mais desejo além de estar junto a ti. O meu corpo e o meu coração poderão fraquejar, mas Deus é a força do meu coração e a minha herança para sempre (Sl 73.21-26).

Uma das coisas que mais me preocupa quando o assunto é “fé” é o pouco espaço que nossas definições e percepções mais ou menos comuns deixam para o lado incerto e fraco da fé. Sobretudo porque, ainda que o conceito de fé tenha um aspecto doutrinário ou quase definitivo – e se não respeitar aquilo, não será considerado fé – o fato fundamental é que a fé não existe fora da pessoa. E como pessoas, adotamos, criamos, defendemos e obedecemos convicções, mas também somos abalados em relação a elas, o que denota uma dupla condição de fragilidade: (a) primeiro a condição da vida humana; (b) a condição de nossas certezas, que muitas vezes se abalam na medida em que invariavelmente nosso mundo se abala. A questão no caso é se saberemos ou não a lidar com a ambiguidade óbvia que nos contitui como humanos e, como tal, também atinge nossa própria fé?

Os salmos são cheios dessas ambiguidades, como este que lemos acima. O salmista demonstra ser alguém que andava com Deus, buscando e apreciando seus conselhos; mas no meio dessa trajetória comete alguns deslizes próprios de quem, mesmo sendo de fé, é gente, é humano; e o que aproximava este homem de Deus não era apenas o fato de que ele foi um “escolhido” de Deus, mas de que também, a despeito de suas dúvidas, inquietações, medos e outros sentimentos demasiadamente humanos, ele prosseguia escolhendo Deus. E escolher Deus implica em admitir sua dependência, é ser honesto com Ele, é saber que Ele “é” e continua “sendo”, a despeito de nós não sermos, e que ele permanece, apesar de nossos desvios e fraquezas.

É disso que trata este texto. Nele, o autor admite ter sido tomado pela inveja e amargura em seu coração em relação aos arrogantes e ímpios, mas prósperos; pessoas passam por cima das outras e só pensam em si mesmas, mas, a despeito disso, parecem ser bem-sucedidas em tudo: não adoecem, estão sempre fortes, oprimem os outros, agem como quem pode se apossar da terra, como se esta fosse só delas; além disso, ainda zombam de Deus, não se preocupam com nada e só vão aumentando sua riqueza. O salmista então é tomado pela insensatez e conclui que toda a sua busca por se manter reto e puro, em agir corretamente e temer a Deus, provava-se inútil, pois o fez penar ainda mais enquanto esses pérfidos aí gozam de todas as benesses que ele, pelo bem realizado, deveria estar gozando. E quem não se sentiria injustiçado? Quem não se veria tentado e duvidar do caminho da retidão, isto é, dos caminhos de Deus? Quem numa situação dessas não passaria pelo vale da insensatez e da amargura como passou o salmista por um momento, que não sabemos quanto tempo durou? É isto que chamo de “mundo abalado”; perdemos nosso chão, e vemos como nossas convicções podem ser solapadas e se perder nestas horas.

Mas o salmista não era insensato ao todo; simplesmente porque, diante de Deus, ele admitiu fraquejar, reconheceu seus minutos de bobeira e insensatez; mas mesmo neles, percebeu que não saiu do lado de Deus. Para onde poderia correr? Qual seria, afinal, o sentido de tudo isso? Ele decidiu que melhor é continuar andando com Deus. O sentido de sua fé era maior que a própria fé, pelos modos pelos quais ela se constrói, pelos invólucros frágeis nos quais ela, muitas vezes, se sustenta. Permanecer na fé, contra todos os questionamentos que eventualmente fazemos aos seus conteúdos, como diz Tillich, é um ato de coragem, e mostra que a fé é bem maior que os invólucros que inventamos para contê-la; em suma, é ser possuído por “aquilo que nos toca incondicionalmente”. Envolve a pessoa inteira. Não somente a razão, tampouco só as emoções. Não apenas convive com a dúvida existencial, mas se alimenta dela. Sua única certeza é a do incondicional. Seu principal mote é o impulso de viver, a despeito da própria morte e da incerteza.

No fim das contas, o coração humano é ou pode ser enganoso, como defendeu Jeremias; traiçoeiro em seus direcionamentos, compulsivo em seus desejos. Por ele passam torrentes de pensamento, impulso e volição que podem nos afastar tanto do centro de quem somos, como de nossa própria fé. Por isso, como diz o salmista, ele pode, sim, fraquejar. Mas eu acrescento: é bom que ele fraqueje, pois, fraquejando, melhor reconhece suas lacunas, vulnerabilidades, defeitos; mais bem sabe de sua insuficiência. E quando sabemos disso, fica talvez mais fácil entender que somos apenas gente, parte de um todo, e que a força do nosso coração vem não dele mesmo, mas de quem o fez e faz pulsar: Deus, o único que possui a chave dos corações humanos e que, mesmo em meio a toda corrupção que lhes é própria, escolhe deliberadamente por amá-los.

Jonathan

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Sobre a fé e sua ausência hoje: uma confissão pessoal

Faithless

“Sem fé é a pessoa que diz adeus quando a estrada escurece” [J.R.R. Tolkien].

Alguns ateus costumam alegar que não aderem a fé, nem a Deus, porque são caminhos fáceis, que nos infantilizam, nos livram da dor de viver, de encarar (e abraçar) a vida como ela é, e nos transportam para outra vida, uma vida idílica, sem problemas, incertezas ou dor e, como consequência, promovem uma espiritualidade do sobrenatural, do metafísico, do etéreo. Particularmente penso que eles estão certos nestas alegações, pois sinto exatamente a mesma coisa quando olho para a espiritualidade cristã por muitos praticada, embora estas não sejam razões suficientes para que eu abandone a fé, ou para que ela seja de mim extirpada. Entretanto, não é nenhum absurdo pensar o contrário, ou seja, que a descrença seja um caminho fácil – no fundo, consinto que nenhum dos dois caminhos deveria ser enquadrado como “fácil”. Mas se eu tivesse que indicar um, escolheria a descrença, que é relativamente mais cheia de recursos de todo tipo (materiais, empíricos, lógicos, racionais) que o da crença, ou melhor, da fé – isto para quem, como eu, rejeito a apologética moderna. Isto, pois entendo – e não somente entendo, experimento na pele – que crer é particularmente difícil. Requer de mim o esforço de persistir, de aceitar, de descansar, em meios às minhas inúmeras inquietações, dúvidas e a própria “falta de fé” em certos momentos, cruciais eu diria.

De fato, não é necessário crer quando sua única fidelidade e confiança estão naquilo que vê, no mundo material, nas leis do universo, na vida que pulsa naturalmente, a única que realmente temos. A fé, por sua vez, torna-se imperativa no ser quando sensivelmente constata que nada disso é o bastante, quando a vida vira vaidade ou quando nada faz sentido, como se constata em Eclesiastes. Então, por que é que alguma coisa precisa existir (por trás e movendo os relances de eternidade que meu coração abriga) ao invés de nada? Aí é que está, não precisa existir; posso até concordar racionalmente que há grandes probabilidades de que tudo seja um nada, e de que este “nada”, misterioso e inescrutável, seja “tudo”. Mas meu espírito diz outra coisa; minha angústia também. Conduzem-me de novo a Deus, por mais resistente que eu seja a este nome ou ao que nossas ideias fizeram dele. Aqui reside o crer: crer a despeito da própria descrença, esperar contra a esperança. Esperar e agir, sem deixar de sonhar o real, vivendo-o.

Tenho sido assaltado por questões cruciais sobre a fé em Deus, e tenho questionado quase tudo, tanto que às vezes parece que não restará pedra sobre pedra ou chão para se pisar. E confesso: o ateísmo de certo tipo tem sido uma iminente tentação; não o ateísmo militante e pseudocientífico, mas aquele lúcido, de espírito irênico, que respeita a crença alheia sem deixar de se posicionar, e se posiciona de modo coerente, honesto, visceral também, embora sem abandonar a via racionalista ou existencialista, e por isso incomoda espíritos pensantes que são honestos para com suas dúvidas – já que nem todo pensante é honesto, embora quase todo honesto seja, por assim dizer, um pensante, uma vez que a honestidade parte do reconhecimento – e rejeitam simplismos e silogismos, ateístas ou teístas.

Por isso, a fé, para mim, é um desafio. Como permanecer crendo quando ‘Deus’ – ou seja, a ideia, seus sistemas ou as grandes narrativas de referência – está morto e a sua religião em ruínas? É preciso muito mais que o anseio por consolo e alento para manter a fé de espíritos honestos viva; antes – e este é meu caso –, é preciso a coragem de assumir-se como um não-ser sem fé, um não-ser sem Cristo. E que não quer a fé como refúgio do mundo, mas como modo de ser-ver-viver-agir no mundo. Quer, portanto, uma fé humana, uma fé mundana. Mais que o “salto no escuro” de Kierkegaard, crer é querer crer, como o homem que a Jesus disse: “creio, mas ajuda-me na minha falta de fé”; crer é crer que se crê (Vattimo) ou acreditar em acreditar, e é ter razões mais profundas que as que, pelas limitações próprias de nossa finitude, cabem na razão, razões da sensibilidade última de cada ser, razões nem sempre explicáveis ou demonstráveis.

A fé é aquilo que se mantém quando todos os seus adornos perdem sua razão de ser, e quando só sobra o seu alfa e seu ômega, que não se retém em linguagem ou conceito algum, mas que, na falta de um nome melhor e condizente, e conquanto dele é preciso falar, prossigo chamando de ‘O eterno’, ou simplesmente ‘Deus’.

Jonathan

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Sombras do humano

human shadows

Com que é mais complexo lidar: com as próprias sombras (lado sombrio) ou com as de outro? De ímpeto eu diria que as duas. É difícil lidar com o ser humano em si. É difícil lidar com pessoas "difíceis", isto é, que dominam a arte de complicar ainda mais a vida - e que ainda acham que podem (pior, têm o "dever") de dizer como os outros têm que ser/viver. É mais difícil ainda quando nas sombras do outro, vemos as nossas sendo inexoravelmente projetadas. Por isso, pensando bem, é mais difícil lidar com as próprias sombras. Sobretudo porque delas eu não tenho como me livrar; sublimar talvez, mas não arrancar, apagar, não ver.

Sombras: tais como o ódio contido, o orgulho ferido, a chaga aberta, o desejo proibido, a inveja disfarçada, a angústia, o medo, a opressão, a fragilidade, o narcisismo, e assim por diante. A lista pode ser grande. Cada um sabe mais ou menos onde o calo aperta - e como aperta! Nessas horas me dou conta que encarar o outro é o de menos. O golpe mais duro, o mais avassalador, é ter que encarar a si. Aqueles/as que, mesmo relutando, o fazem, porque sabem que, já que não tem pra onde correr, o melhor é não correr, estão a beira de cometer a maior transgressão de todas: a transgressão de si. Automaticamente assumem a "coragem de ser" (Tillich), abraçam o "sentimento trágico da vida" (Unamuno), começam a trilhar o caminho da "aceitação jubilosa de si" (Rosset), sem, porém, ter de se resignar ao adágio do "sou assim e pronto".

Ninguém é irresistivelmente uma coisa, de modo a se tornar cativo dela, a menos que ele/a mesmo/a assim o queira. Aceitação jubilosa não é aceitação passiva, é aceitação corajosa e consciente, ponto essencial para toda mudança possível. "Possível", eu digo, e não forçosa, obrigatória, porque ninguém é obrigado a mudar, e porque nem sempre a mudança que se quer é atingível, exequível, plausível. Então, fico com a "possível" mesmo. E não venha me falar do "impossível", que é da ordem do sobrenatural, e não do humano; do extraordinário, e não do ordinário. De tanto pensar no extraordinário, nos esquecemos do ordinário - por isso neste breve devaneio o que me interessa é o segundo, não o primeiro, goste você, ortodoxo/a de plantão, ou não. Até porque como se diz na frase atribuída a Aby Warburg, "Deus está no particular", nos detalhes, no singular, nas coisas ordinárias do dia a dia. Se não aprendo a vê-lo ali, a celebrá-lo ali, a encontrá-lo na próxima esquina, como bem disse Elienai Cabral Junior em seu Salvos da perfeição, de que vale encontrá-lo no templo? Ele me acompanha também nas sombras, e diferentemente de muitos dos que se dizem "meus amigos", não tem ojeriza delas, mas lança luz no meio das trevas.

O que fazer com as sombras? Como não se perder no meio delas? Existe um modo de dissipá-las? Não sei. Só sei que tenho que com-viver. Desisti de encontrar respostas e saídas pra tudo, e isso já faz um tempo; não tenho que fingir ser algo que não sou; não preciso encontrar "o lado positivo" em tudo, e por isso me vejo fazendo um exercício tremendamente impopular: estou aqui para falar das sombras, e não de seu suposto "remédio". Quem disse que pra tudo há remédio? E o que fazer com o que não se pode remediar? Que fazer com o trágico, o fortuito, o trauma e o inesperado da vida? Desculpem-me, hoje não tenho palavras de consolo para lançar em meio às sombras; entendo que a luz melhor reluz quando corajosamente resolvo ter com elas, e não quando, num ato desesperado e artificial, tento a todo custo sair. Há esperança? Sim, se estamos dispostos, como o patriarca Abraão o fez, a "esperar contra a esperança", a semeá-la em terra seca, e a não desistir da luta jamais, mesmo desejando muito desistir, jogar a toalha, chutar o balde. Pois quem desistiu, não tem mais histórias pra contar, nem das sombras ou da luz pode falar. E, sinceramente, prefiro as sombras do que o nada.

Jonathan

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O voto na tragicômica disputa entre ‘Deus’ e o ‘Diabo’

PT-x-PSDB-por-Zé

O maniqueísmo (divisão da realidade/mundo entre bem e mal) é gritante na atual campanha eleitoral, especialmente entre correligionários da direita e cidadãos apartidários facilmente cooptados pela corrente de rebanho “anti-PT”, que pintam Dilma como sendo “o mal”, “o Diabo de vermelho”, enquanto Aécio é o “bom moço”, político competente e “do bem”. Quem desconhece a história da redemocratização brasileira desde os anos 1980, pode pensar que isso, além de normal (isto é, da norma), é atual. Mas muitos sabem que esse maniqueísmo infundado já está entre nós há pelo menos 25 anos, sendo apenas (e acriticamente) revisitado e repaginado a cada nova eleição. Que fique bem claro: meu ponto aqui não reside no fato de alguém votar em Aécio ao invés de Dilma, afinal estamos em uma democracia em que todos, em tese, têm (ou deveriam ter) a liberdade e o direito de expressar sua opção; a questão está no corpo de “argumentos” usados para isso.

Desse modo, longe de mim querer aliciar alguém em favor de minha posição; apenas analiso um ângulo dentro deste complexo quadro – no qual, é óbvio, também acharemos ataques pessoais e (provavelmente falsas) teorias da conspiração sendo, lamentavelmente, lançados (como bala de canhão) de ambos os “lados”. Se isso, por um lado, “faz parte” da democracia, por outro também a enfraquece por não contribuir ao bom debate de ideias, ao diálogo e ao respeito às diferenças.

‘Mea culpas’ afora, meu espanto aqui está no uso desenfreado do maniqueísmo, como se, entre seres humanos pudesse haver coisas tais como “o puro bem” ou “o puro mal” em lados opostos e estanques. Braulia Ribeiro (a quem respeito e admiro), por exemplo, ao comentar sobre a aliança Aécio-Marina, disse que “Marina sabe aonde está o bem e o mal nesta eleição, que não é ao contrário do que muitos pensam uma eleição ente duas forças iguais”. E ainda finalizou reiterando que: “Existe bem e mal nesta eleição sim. Marina e Aécio estão do lado do bem”. (Ver: https://www.facebook.com/braulia.ribeiro - postagem de 19/10/2014).

Deixo aos analistas políticos o papel de explicar, muito melhor que eu, como isso pode ser uma simplificação excessiva da atual disputa eleitoral. Restrinjo-me a falar sobre o quanto isso é, sim, uma excessiva simplificação da condição humana. Aqui alguém pode questionar sobre a razão de se falar (filosoficamente) da condição humana numa discussão política. E a razão é óbvia: a política e suas instituições, e o político e suas lutas, são reféns e ao mesmo tempo cúmplices, num certo sentido, da condição humana, isto é, do que nos constitui como seres humanos. Por razões cósmicas, somos dotados de potencialidades: tanto de discernir bem e mal, como de agir em prol do que identificamos como sendo bem ou mal. Essas potencialidades convivem e crescem juntas numa relação paradoxal (não paradigmática e nem dualista). Logo, não há ninguém que seja tão justo, que não falhe, nem tão injusto, que incapaz de acertar em alguma coisa.

Assim, o maniqueísmo é, a meu ver, um corpo estranho na órbita atual dos seres, das situações, dos pensamentos e do saber da complexidade. Em outras palavras, o complexo não pode ser reduzido ou analisado sob pontos de vista unilaterais ou simplistas. E já não podemos falar em “bem” ou “mal” em estado puro nem em relação aos candidatos e seus partidos, nem em relação a quaisquer instituições humanas. Todo mundo está, mais ou menos, sujo de lama (como se pode ver na charge acima). Em que base, portanto, podemos nos posicionar? Para além das paixões ideológicas ou de qualquer onda coletiva, penso eu que podemos fazer diferença com nosso voto através de um discernimento claro a respeito de qual história, proposta, plano, projeto ou conduta políticas/os, melhor se aproxima (dentro de suas contingências próprias) de ideais e aspirações, sempre relativos, que envolvam, mais que interesses corporativos, de classe, de grupos e de guetos sociais ou econômicos, as necessidades mais amplas e variadas de toda a nação, especialmente os mais pobres – afinal, como no ditado, “a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco”.

Isto pode parecer ingênuo, mas eu diria que toda utopia necessita, para seus fins, de um pouco de ingenuidade, do mesmo modo que todo povo carece, para vencer o lugar-comum, os dualismos, e a opressão da realidade, de utopias que sejam suas. E não poderemos atingir isso enquanto continuarmos nos portando com indiferença no dia a dia, e/ou como torcedores fanáticos num estádio de futebol a cada nova eleição, não pensando, apenas gritando. Discernir (mais uma vez) é preciso!

Jonathan

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Sapato velho

Pair of shoes, 1886

"Pair of Shoes", de Vincent van Gogh, 1886. Um dos meus prediletos dele. Mais do que o retrato de um sapato velho e surrado, ela é a representação da estrada - 'só esse sapato sabe por onde caminhei e todos os conflitos que enfrentei' - e do estado de alma de seu dono, como também do próprio pintor. Entre 1886-1888, durante seu tempo em Paris, Van Gogh pintou vários quadros de sapatos. Em 1888, escrevendo ao seu irmão, Theo, ele revelou um pouco do que havia por trás de sua arte-vida àquela altura:

"Às vezes me sinto muito fraco para lutar contra as circunstâncias existentes, e eu deveria ser mais rico, inteligente e jovem para vencê-las. Felizmente para mim, eu não mais anseio pela vitória, e tudo o que eu busco é que a pintura seja um meio de tornar a vida mais suportável" [tradução minha, veja mais em: http://blog.vangoghgallery.com/].

Henri Nouwen inspirou-se muito em seu conterrâneo holandês em seus escritos sobre espiritualidade. Precisamente porque Van Gogh, além de um artista brilhante (embora não reconhecido em seu tempo), foi homem sensível, sofrido, humano e que nunca escondeu suas sombras nem seu lado trágico de ninguém; pelo contrário, elas sempre estiveram lá, bem expostas em sua arte e em sua própria história. Isso para mim tem um nome: integridade, peça rara em nossos dias.

Van Gogh lutou muito, mas não suportou o peso da batalha. Suicidou-se em 29 de julho de 1890, aos 37 anos. Sofria de uma doença psíquica grave, semelhante ao transtorno bipolar do humor, hoje bastante conhecido. Não tenho o direito de julgá-lo, nem a ninguém em condições semelhantes. A vida é um mistério insondável. Cada um sabe bem dos fardos, dores e limitações que carrega (mesmo que prefira sublimar). Por isso, nela não cabem respostas fáceis, nem soluções paliativas. A vida foi feita pra ser vivida, e só há uma para se viver; seus paradoxos existem para ser encarados; sua finitude deve ser jubilosamente assumida, e não negada. A realidade do conselho de Paulo, o apóstolo, deve continuar a saltar aos olhos de quem sabe, mesmo que minimamente, de si: aquele que pensa estar de pé, cuide para que não caia.

Cuidemos de nós, cuidemos das pessoas, sabendo que a iminência da queda é proporcional a iminência da vida.

Jonathan

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O ser no limiar entre a fé e a incredulidade

UpsideTime_BrianMatiash

Às vezes tenho a impressão de que a religião, que, a meu ver, deveria ser a amiga número 1 da dúvida, tornou-se sua pior e mais cruel inimiga. Porque a religião lida diretamente com a fé das pessoas, e, embora nem sempre pertencer a uma religião seja garantia de uma fé viva (muitas vezes é exatamente o oposto), em tese, ela se nutre e cresce a partir da fé pessoal e coletiva. Especialmente em contextos fundamentalistas, em que se exige uma responsividade segura do fiel em relação à espécie de doutrina na qual professa crer, e em que, como contrapartida, oferece-se a revelação da verdade bíblica e uma promessa ao fiel de que, nesta vida ou pelo menos na eternidade, todo o seu sofrimento será eliminado, a fé aparece como arquiinimiga da dúvida, e duvidar passa a ser sinônimo de blasfemar, apostatar da fé.

Peter Rollins em seu livro Insurrection (2011), tem como foco de análise a questão da dúvida. No capítulo 2, ele fala sobre a experiência dos líderes na igreja com a dúvida. Numa situação ideal, para que como igreja participemos da crucificação, ele defende que precisamos de líderes que experienciem pública e abertamente “a dúvida, a incerteza e o profundo mistério, líderes que as vejam como parte da fé cristã e importante para o contínuo desenvolvimento de uma espiritualidade sadia e propriamente cristã” (p. 65). Concordo com Rollins quando ele também observa que não é que não existam líderes que experimentem estas coisas; o problema reside em encontrar líderes que admitam experimentá-las – ainda que, secretamente, muitas vezes, enfrentem momentos de incredulidade, ou pior: enquanto exteriormente lutam para manter uma imagem austera de fé, interiormente já deixaram de acreditar nas coisas que pregam. Nas palavras do autor:

Todos sabem que a maioria dos pastores tem duvida e, de tempos em tempos, experimenta um sentimento de ausência divina, e sabe-se que normalmente é bem mais que isso. Também é evidente que eles frequentemente sentem-se impedidos de expressar isso por meios públicos quaisquer – exceto em casos em que adotam uma linha segura de afirmação de que Deus é grande o bastante para conter a dúvida (...). Nas raras ocasiões em que o pastor se levanta e declara abraçar o desconhecido, uma crise entre os congregantes pode ocorrer. Não porque a congregação agora duvida, mas porque a fé do pastor gerou uma barreira psicológica protetora que conteve a dúvida deles. (...) Apenas quando o pastor bane a dúvida ou é substituído por alguém que possa ocupar o papel crente-em-nome-de-nós, a igreja pode outra vez agir como um cobertor de segurança metafísica, prevenindo-nos de experimentar a ansiedade de nossa existência (p. 66).

Esse quadro é muito triste e adoecedor para ambas as partes, pastor e congregação. No entanto, quando lemos as Escrituras de modo sério e abrangente, e não simplesmente procurando justificativas furtivas em versículos aleatórios, percebe-se que o oposto pode ser dito e feito em relação à dúvida. A maior parte dos chamados “heróis da fé” teve dúvidas, e, em algum momento, cometeu deslizes tomando “os pés pelas mãos”. A lista de Hebreus 11 é emblemática. Abraão, que há muito é referendado como “pai da fé”, por exemplo, em Hebreus aparece como aquele que, pela fé, deixou sua terra e sua parentela para mudar-se ao lugar destinado por Deus e creu, mesmo diante de sua escassa vitalidade e da esterilidade de Sara, na promessa de que sua descendência seria tão numerosa quanto às estrelas do céu e incontável como a areia do mar (cf. Hb 11.11-12). No entanto, conhecemos a estória de Abraão e Sara, facilmente nos recordamos que Abraão, mesmo tendo crido na promessa, não titubeou quando Sara, sentindo-se culpada por ser estéril e não ter-lhe dado filhos, ofereceu sua escrava, Hagar, para que seu marido a possuísse e a engravidasse, e desta união nasceu Ismael, filho da descrença de Abraão, por assim dizer (Gn 16). Isso sem falar que Sara riu da ironia da promessa original, externando sua dúvida: “Poderei realmente dar à luz, agora que sou idosa”? (Gn 18.13), e depois ainda mentiu sobre ter rido.

Com estórias como a de Abraão e Sara, aprendo que promessas não são garantias divinas para a manutenção da fé, e sim fruto do relacionamento entre o ser humano e Deus gerado e gerido em fé. Porém, se tratamos as promessas divinas como um elemento gregário, isto é, como sendo a fonte originária do ato de caminhar na e pela fé, logo elas se tornarão não um telos pelo qual a fé se norteia, mas objetos de veneração e obsessão, ou mesmo moedas de troca que justificam a fé. Abraão não creu na promessa pela promessa em si, mas pela fidelidade do Senhor, que é quem promete. Logo, a vida pela fé não encontra sua razão de ser nas promessas, mas na pessoa do próprio Deus.

Mas não percamos nosso foco aqui, que é a questão da dúvida. Vimos que Abraão e Sara duvidaram, mesmo estando na fé. Se for verdade, como se diz em Hebreus, que “sem fé é impossível agradar a Deus, pois quem dele se aproxima precisa crer que ele existe e que recompensa aqueles que o buscam” (11.6), também é verdade, conforme o mesmo texto, que esta fé “é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos” (11.1); ou, na tradução A Mensagem (na versão em inglês), a fé é o firme fundamento sob o qual estão todas as coisas que fazem a vida valer à pena, e “nosso controle sobre o que não podemos ver”. Que controle se pode ter sobre o que não se pode ver, ou sobre o que não é materializável? É claro que aqui a linguagem é paradoxal. O que o autor de Hebreus está dizendo, a meu ver, é que a fé é a única e real certeza que subsiste em meios às incertezas da vida. Posso estar convicto de minha fé mesmo quando tudo, até mesmo a própria fé, parece estremecer. A fé faz-se chão onde já não se pode encontrar mais chão; é o que dá sentido a um caminhar numa estrada perdida e sem rumos definidos. Mas este sustento, esteio, chão e certeza residem não numa suposta força que emana de nós mesmos, ela misteriosamente é suprida pelo Espírito de Deus.

Dessa forma é que retornamos ao paradoxo, e por isso digo que a fé deve aprender a conviver com a dúvida: porque ao mesmo tempo em que as dúvidas e questionamentos, e a angústia daí proveniente, podem-nos fazer passar pelo vale do ceticismo e das incertezas, são elas que nos movem outra vez em direção a Deus, nos levam a interpelá-lo em oração, a escancarar diante dele nosso eu ferido e fragilizado; elas nos conduzem ao lugar em que a expressão de súplica, lamento e confiança podem bailar juntas numa única e expressiva dança que é a dança da vida, e a sair dali com uma fé mais madura. Por isso é que, demasiadamente humano, identifico-me com o salmista, que orou dizendo: “Até quando, Senhor? Para sempre te esquecerás de mim? Até quando esconderás de mim o teu rosto? Até quando terei inquietações e tristeza no coração dia após dia? Até quando o meu inimigo triunfará sobre mim?”, e, na mesma oração, declarou: “Eu, porém, confio em teu amor; o meu coração exulta em tua salvação” (Sl 13.1-2,5). Também me uno ao pai do menino possuído por um espírito que o impedia de falar, que, diante da exclamação de Jesus de que “tudo é possível ao que crê”, respondeu: “Creio, ajuda-me a vencer a minha incredulidade” (Mc 9.23,24).

Fé e incredulidade são como o joio e o trigo: no mesmo lugar em que uma brota, há a possibilidade da outra crescer; e se tentarmos extirpar uma em detrimento da outra, a incredulidade em detrimento da fé, se tentarmos separá-las abruptamente porque em nossa teologia é inconcebível um espaço em que ambas possam juntas gravitar, pode ser que joguemos fora também o precioso junto com o que entendemos ser vil, e a fé seja cortada antes mesmo que seu fruto cresça, amadureça e apareça. Como afirma Peter Rollins em tom de celebração: “Acreditar é humano; duvidar, divino”.

Jonathan

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Fogueira das vaidades: um escrito impertinente

tudo-e-vaidade

Andam dizendo, e não é de hoje, que as redes sociais em geral, e especialmente o Facebook, são como “fogueiras de vaidades”. Não preciso discutir muito isso, pois é óbvio a qualquer observador/a um pouco mais atento/a. No entanto, na mesma medida em que precisamos ser recordados de certas obviedades, também precisamos aprender a desconfiar delas. A crítica é válida, mas deixa muitas perguntas honestas tais como: tem saída? É possível entrar nessa fogueira sem sair chamuscado? Quem é capaz de afirmar que sua auto-exposição nas redes, por mais contida que seja, não é fruto de vaidade? É menos vaidosa a pessoa que decide ficar de fora das redes apenas para dizer que não se rende “a esse tipo de modernidade” ou ao “universo virtual”, pois prefere as “relações reais”? Dizemos que “fulana é vaidosa”, “beltrano é narcisista”, “ciclana vive de ‘selfie’ em ‘selfie”, mas não percebemos nossa própria vaidade velada por trás até mesmo desse tipo de crítica.

Dias atrás fui “pego” (busted!) por um amigo enquanto criticava um religioso da cidade por aceitar o título de “cidadão honorário” da Câmara de Vereadores, dizendo a mim mesmo que profeta com honra não é uma coisa boa. Então esse amigo rebateu indagando: tudo bem, isso é um desses contrassensos cristãos que a gente vê todos os dias – esse camarada não é o primeiro, nem será o último –, mas será menos vaidoso/a aquele/a que porventura rejeita tal honraria, para depois contar às pessoas a respeito, que, por sua vez, dirão que ele é um autêntico crente e o aplaudirão por tal feito? Percebem a encruzilhada em que o “ser gente” e participar das coisas de gente nos coloca? De novo, há saída? Se há, certamente ela não é barata e nem fácil.

E mais, somos vaidosos até da manifestação da consciência de nossa própria vaidade e da de outras pessoas, pois, por temos a consciência ao nosso lado, fatalmente nos julgamos “mais nobres” que os outros, “espíritos livres”, como diria Nietzsche (também possuído por uma grande dose de vaidade). Como alguém, como ele, que julga ser um “espírito livre” pode ser livre? Livre de quê? Das obrigações sociais, talvez; da cobrança dos relacionamentos complicados, dos holofotes exigentes das corporações e instituições e das conhecidas opressões do “olho de Deus” expressas na religião, quem sabe. Mas de uma coisa, um simples fato da existência, esta pessoa não é livre: de si mesma. Ninguém é livre de si, e quanto mais arroga para si o fato de ser livre do devir e do dever de ser, mais escrava de si mesma ela se torna. Nunca houve expressão mais arguta e penetrante que do pregador de Eclesiastes: “Tudo é vaidade e correr atrás do vento”.

Sejamos honestos, todos gostamos e procuramos um público que nos adule, nos aplauda, reconheça e nos coloque para cima. Aturamos pouco as críticas duras, sinceras e verdadeiras. Não queremos conviver com quem é capaz de, num simples olhar, nos desmascarar. Precisamos de outra coisa, clamamos por apreciação, aceitação, controle. Nos derretemos facilmente com as curtidas, compartilhamentos e comentários que aqui e acolá pipocam em nossas “timelines”. Quem nunca escreveu nada pensando nisso? Quem nunca procurou algo polêmico, algo interessante, algo da moda, algo impactante e sensacional para compartilhar à espera de uma boa curtida? Será que somos tão bons, tão cândidos e tão originais para admitir que nada fazemos em prol de algo sem esperar nada em troca? E isso não é nenhuma demonização, é apenas uma “verdade sangrenta”.

No fim das contas, quem não se sabe ou não se vê assim, que atire a primeira pedra, pois minha vaidade está aqui, pronta pra “matar no peito” e sair jogando. Decidi cuidar de minha integridade, mesmo que isso me custe a tão valorizada reputação; não quero mais falar dos outros como se, na verdade, não estivesse olhando para o próprio espelho. Quanto mais reconheço que “nada do que é humano me é estranho”, que não há profanidade maior que a pachorra de a tudo declarar profano, mais próximo me vejo de Deus, da graça e de tudo o que é mais sagrado na vida.

Jonathan

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Perguntinhas despretensiosas…

Perguntinhas
Você já pensou o quanto de tempo gastamos buscando e esperando a aprovação alheia? Quantos de nossos esforços, alegrias, decepções, risos e lágrimas resultam das expectativas que colocamos sobre "o sim" ou "o não" alheio?

O quanto lutamos para sermos aceitos e, depois que somos, o que nos dispomos a fazer para manter viva a aceitação? Como sofremos quando alguém nos critica, difama ou deprecia, ou seja, como nos angustia essa tal de opinião que os outros têm da gente?

Quando foi que perdemos a "coragem de ser", sobre a qual falou Paul Tillich: de ser quem se é e de ser “como uma parte”, e de aceitar-se como se é mesmo sabendo da possibilidade de não ser aceito dessa forma? Será porque deixamos de ouvir a voz que nos chama de "filhos amados", ou porque sequer um dia a ouvimos e assim nos reconhecemos?

O que nos falta para que encontremos aquela liberdade interna, que nos liberta desse "eu" carente de aprovação externa, e que nos convida a manter acesa em nós a chama da integridade e o caminho para a autenticidade?

Como indaga o Teatro Mágico, pra onde foi a coragem do nosso coração? E como problematiza Jesus, de que vale ganhar o mundo inteiro e perder a própria alma? Ou (uma afirmação para variar) como diz Carlos Drummond, o mundo não vale o mundo, meu bem... ou será que vale?

Jonathan

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O mistério revelado da vontade divina

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Ensina-me a fazer a tua vontade, pois tu és o meu Deus; que o teu bondoso Espírito me conduza por terreno plano (Salmos 143:10).

O que é a vontade de Deus? Como conhecê-la? O que fazer para cumpri-la? Esse é um mistério que tem permeado a vida de pessoas ao longo de milênios. O jeito com que se trata esse assunto é o que gostaria de refletir aqui.

Não há dúvida de que, ao lermos as Escrituras, encontramos o princípio de que viver bem, com temor e dignamente significa dispor a vida para andar conforme a vontade do Senhor. Converter-se a Cristo, em parte, também é isto: permitir que nossa vontade saia cada vez mais de cena, a fim de dar lugar a uma vontade maior e soberana: a de Deus. O ponto para mim, porém, é: se temos consciência, quando buscamos a vontade de Deus, do que envolve esse “andar conforme”.

O salmo (143) de Davi, humano, honesto e orgânico, servirá como ponto de partida aqui.

Antes de tudo, trata-se de uma oração, de uma súplica. Normalmente, nós suplicamos com mais força quando sofremos. E é o que está acontecendo com Davi. Diante dos muitos conflitos que enfrenta, apela para a justiça e fidelidade divinas [v. 3]. Mostra-se muito angustiado e com o coração aflito, “em pânico” [v. 4].

Costumo dizer que a angústia não pode ser desprezada, pois é uma das avenidas que nos conduzem aos braços de amor de Deus. Mas nem sempre conseguimos lidar com ela. Sentimos como se a angústia fosse um peso, uma ferida aberta, uma faca cravada no peito da gente. E muitas vezes ela tem a ver com frustração, com medo, com sentimento de rejeição e abandono, e com as incertezas.

Então, apressados pra sair dessa logo, suplicamos pra que Deus se apresse a nos responder, a dar um rumo definitivo. Mas descobrimos que na vida não há rumos definitivos – nem a morte, biblicamente falando, é um rumo definitivo.

E o mais duro golpe aos apressados é ter que lidar com as indefinições, incertezas e dúvidas que fazem parte da vida de qualquer pessoa comum. Dessa forma, a “vontade de Deus” vai se tornando a fórmula religiosa para expiar tudo o que é indesejável, como também para alimentar o que se deseja. Daí brota as distorções, tais como:

Prega-se que precisamos estar no “centro da vontade de Deus”...

Que cada detalhe da vida não pode fugir do plano de Deus para nós...

Que a vontade de Deus é isso, e não pode ser aquilo; se desastres acontecem, foi “da vontade de Deus”; se o avião não saiu do aeroporto, era propósito de Deus, porque certamente ele cairia; se perdi um emprego, foi Deus quem quis, pois estava preparando um ainda melhor pra mim, e por aí vai... Vontade privatizada!

A moça ora para que Deus envie o homem segundo a Sua vontade para ela casar – no mundo todo existe só um. Estatisticamente, ela terá que orar muito, mas muito!

Jovens aderem a movimentos de santidade que afirmam que “esperar” (pelo amor, pelo casamento, etc.) é “a vontade de Deus” pra vida deles...

Será que a gente não para pra pensar no Deus monstrengo e esquizofrênico que vamos desenhando com todo esse besteirol teológico? Nos efeitos disso aos “pequeninos”?

Então, só pra contrariar, eu resolvi criar outro movimento: o “Eu escolhi ir à luta”. É um movimento de gente crente e temente, sim, mas que tem consciência que “não adianta olhar para o céu com muita fé e pouca luta” (Gabriel O Pensador). Que quer estimular uma liberdade responsável, o risco da decisão, a busca da vontade divina pelo discernimento.

Essa é, para mim, a chave do Salmo 143: quando, do desespero, Davi pede que o Senhor o ajude quando tiver que escolher o caminho a se andar [v. 8]; quando roga para que o “ensine a fazer sua vontade” [v. 10]. A vontade é de Deus, mas a escolha é nossa. E Deus só pode ensinar sua vontade a quem quer aprender, quem se lança na aventura de aprender, pois é vivendo [errando e acertando, sofrendo e mudando] que se aprende...

Por isso discernir é preciso! O salmista [119:27] também ora: “Faze-me discernir o propósito dos teus preceitos, então meditarei nas tuas maravilhas”. Na tradução A mensagem: “Ajuda-me a entender estas coisas de dentro pra fora”. A Palavra Divina!

Portanto, posso concluir que a vontade de Deus não se mostra instantaneamente; a vontade de Deus se experimenta e se pondera, pela renovação da mente [Rm 12.2]. Como eu entendo a vontade de Deus? Como um mistério revelado que só se entende e se experimenta na medida em que se caminha e em que se vai à luta.

O que eu quero dizer se traduz perfeitamente na música do Teatro Mágico, que diz:

Milagres acontecem quando a gente vai à luta!

Minha proposta aqui é muito simples: vamos à luta sem medo do que vamos encontrar, se derrota ou vitória, se sucesso ou fracasso. Pois Deus tem cuidado e cuidará de nós por onde formos; se nos desviarmos e, de coração, quisermos mudar a rota, Ele mesmo nos ajudará a colocar de novo nosso vagão nos trilhos de sua vontade. Que haja esperança!

Jonathan

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Seres do desconhecimento

All the same
O tempo e as variadas situações vão revelando o ser e a disposição de cada pessoa, escondidos muitas vezes por trás de uma redoma muito frágil de proteção. Não me esqueço da pergunta central do filme "Crash, no limite": Você acha que se conhece? No que a dor, o apuro, a pressão, a doença, a perda, o poder, o sexo, o dinheiro, o moralismo, a violência, a raiva, o descontrole, e as paixões como um todo podem nos transformar? A calmaria, o grito de paz (onde não há paz), a prosperidade e a felicidade não duram para sempre. E quando elas passam o que é que sobra da gente? Para onde vão nossa coragem e nossa integridade?

Não parece ser à toa que a máxima de Friedrich Nietzsche no prefácio à Genealogia da Moral continua sendo útil. Dizia ele que "nós, homens do conhecimento, não nos conhecemos; de nós mesmos somos desconhecidos. Nunca nos procuramos: como poderia acontecer que um dia nos encontrássemos?".

Inocente, ignorante ou mal-intencionada (ao menos momentaneamente) é a pessoa que se lança precipitadamente na tentativa de se definir como isto ou aquilo; como "bom", "mal", "gentil", "covarde", "gênio", "incompetente", "boa esposa", "bom pai", "filho irrepreensível", "imprestável", "generoso", "político honesto", "cristão exemplar". Bem diz a sabedoria de Eclesiastes: "Todavia, não há um só justo na terra, ninguém que pratique o bem e nunca peque" (Ec 7.20). Quão tola não é a pretensão à indefectibilidade? Quão destrutiva não é a autocomiseração ou o sentimento de que ninguém te ama, de que você não presta para nada, de que tudo o que faz não serve, não dá certo; ou pior, de que sua índole é essencialmente má e nada pode ser feito sobre isso?

Como seres tão complexos como somos podemos nos deixar reduzir a tão pouco, e por tão pouco? Como podemos passar tanto tempo na casa da mentira e da ilusão, respirando o ar carregado da falsidade? Como podemos vender tão facilmente nossa integridade por causa de um nome, de uma posição, de uma ostentação, de uma reputação? Não é à toa que rimos alto e nos divertimos ao som de uma boa música, regada de companhias furtivas e muito álcool, num momento, e noutro, quase que paralelo, precisamos nos entupir de Lexotan e Rivotril pra sobreviver àquele dia e no dia seguinte começar tudo outra vez. De fato, mergulhamos nesse mar sem fim do desconhecimento, com grande risco de jamais nos encontrarmos.

Ser feliz, ter sucesso, prazer, bem-estar e qualidade de vida em tudo é bom demais, é o que todo mundo quer e isto não é mal em si. A questão está no preço que pagamos para entrar nesse universo. Quanto vale a felicidade? Qual é o preço do bem-estar? Se o alto custo for negar a própria vida, suas idiossincrasias e paradoxos; abandonar-se no desconhecimento, ignorando a aventura que é o aprender a viver pra saber viver bem e o autoconhecimento; se para isso o outro, o próximo tiver de se tornar, para mim, não mais que instrumento útil ou pedra de tropeço, preferirei e escolherei, conscientemente, não querer ser feliz – pelo menos não nesses moldes.

A consciência pode ser uma doença, como diz Miguel de Unamuno; mas entre a consciência que me aprofunda na realidade, e a feliz e consentida ignorância, que me aliena dela, ainda fico com a primeira. E me recuso a reduzir a mim e aos outros a rótulos fáceis, baratos e que desmancham no ar. Afinal, quem sabe o dia de amanhã? Quem conhece a própria reação ao próximo ato, à circunstância seguinte? Quem pode prefigurar o rosto que terá de enfrentar na próxima vez em que se vir diante de um espelho?

Jonathan

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Meia-Maratona de Floripa: uma experiência e tanto!

Meia de Floripa 2014

5:00 da manhã, o despertador toca, é hora de levantar e preparar-se pois o café seria servido às 5:30, sendo que às 6 o ônibus que nos levaria ao local da largada estaria à nossa espera. Chegamos e nos juntamos à multidão que, ansiosa, esperava a largada. Às 7:12 foi dada a largada; embora ciente da fadiga que me tomou nos últimos 3 dias, saí determinado a pelo menos repetir meu melhor tempo em 1/2 maratonas (1:39').

A paisagem de Floripa é simplesmente inspiradora, apesar do mau tempo. Contudo, no quarto quilômetro já percebo que alguma coisa não ia bem, minha energia estava abaixo do normal, mas ainda assim persisto no objetivo. No km 8 começo a encontrar os companheiros, que foram ficando para trás - "bom sinal", pensei, e continuei na mesma toada, não obstante as bolhas que já começam a incomodar. Ao atingir o 10° km, notei que meu tempo estava abaixo do comum, e que provavelmente a meta precisava ser revista. No km 14 confirmo a percepção, minha energia começa a cair bruscamente e já noto que o objetivo foi muito alto para meu estado corporal - água benta na pretensiosidade.

Prossigo, agora com mais cautela, nem imaginando o que me aguardava adiante. Passei o km 15 com 1:13', abaixo do que queria, mas ainda razoável dadas as circunstâncias que vinham se apresentando. No km 17 veio o golpe mais duro; já me vi quase sem energias e as pernas começaram a acusar fadiga, pesadas e sentindo as primeiras fisgadas. Naquele momento, as bolhas no pé já castigavam bastante. Um amigo corredor passa por mim e recebo o primeiro incentivo para prosseguir (precisaria bastante disso nos quatro últimos quilômetros). A subida no km 18 por pouco não foi fatal, pensei em parar ou andar, mas percebi que se o fizesse seria fim de prova para mim. Continuo, agora aos trancos e barrancos, correndo mais com a mente que com o corpo, já extenuado àquela altura, quando a chuva caía mais forte. No iPod começa a tocar 'Titanium' - "I'm bullet proof nothing to lose far away, far away... you shoot me down, but I won't fall, I'm titaniummmmmmm", e penso: se o corpo não é de titânio, a mente agora precisa ser.

No km 19 agradeço por estes anjos que nos entregam água ao longo do caminho, um pouco de hidratação e bora pro esforço final. No quilômetro final sou alcançado pelo companheiro Sergio Augusto, que me lembrou uma vez mais o sentido de companheirismo na vida e na corrida, primeiro dizendo: "vamos juntos nesse quilômetro final", e depois ajudando a me segurar junto com os irmãos Edison e Fouad Salomão, quando, com hipoglicemia, quase caí logo depois da chegada. Nunca se é tão feliz na corrida se não temos amigos. Obrigado, meus brothers! Finalizei literalmente acabado e sem forças, mas tremendamente emocionado pela superação.

Sim, a corrida me ensina muito sobre a vida e sobre mim mesmo. Nesta prova fui lembrado de que a fraqueza e o fracasso são sinais de humanidade, bem como a coragem de prosseguir apesar das limitações também é, e que a gente pode aprender mais com elas que com a própria vitória. Obviamente não terminei no tempo esperado, mas ganhei muito pela experiência ímpar, pela superação de limites e pela chance de dar e receber solidariedade e calor humano. No fundo a vida e a corrida só são completas através do encontro com o outro, o diferente, que se faz irmão e irmã nas estradas sinuosas da vida. No fim das contas, é muito bom também poder aprender com as experiências dos outros e se regozijar em suas vitórias. Parabéns a todos/as que aguerridamente terminaram essa prova. Agradeço ao Deus de toda a terra, de vivos e até de mortos por mais este tempo de surpresas e oportunidades. E rogo que eu possa correr pro resto da vida, pois correr é viver, e viver é bom demais.

Jonathan

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Deus continua fora do acampamento

Caos Urbano - por Glauber Shimabukuro

“Assim, Jesus sofreu fora das portas da cidade, para santificar o povo por meio do seu sangue” [Hebreus 13.12].

Ainda me lembro daquele slogan de campanha publicitária, que dizia "A vida é lá fora" [Life is out there]. Quando o vi pela primeira vez, confesso que fiquei pensando sobre o quão parcial essa declaração é. Quero dizer, a vida não é apenas pública – o que acontece lá fora – mas ela é muito privada – o que se passa dentro dos recintos, dos abrigos, das casas, dos acampamentos. Assim, uma vida que fosse apenas lá fora, talvez fosse muito para nós, afinal, a gente tem que viver lá fora, mas com a certeza de que temos um refúgio seguro e aconchegante no fim de cada santo dia.

Por outro lado, a ideia de que "a vida é lá fora" é um imperativo, um convite, para dizer que há muito mais para se ver, viver e experimentar além de nosso mundinho particular e privado. Assim é a vida para muita gente, uma dinâmica entre a reserva e a exploração, entre a reclusão e a dispersão.

Quando olho para Jesus, porém, lembro-me que sua vida, mesmo a privada, se deu fora dos portões. Ele não tinha morada própria, nem onde reclinar a cabeça. Ele vivia e peregrinava, de cidade em cidade, ao relento. Dependia, assim, da graça do Pai e dos favores das pessoas de bem. Sua vida sempre foi entrega, mais que recebimento; sua missão vinha dos céus, do Pai, mas seu palco era o mundo. Da Galiléia a Jerusalém, de Jerusalém a Samaria, até os confins da terra. Portanto, para Jesus, a vida era (e continua sendo) lá fora, no espaço em que se plasmam os dramas individuais com os coletivos, sem que, por isso, se perca de vista o particular, o caso a caso, a singularidade das pessoas e dos acontecimentos. A vida se dá lá fora, mas se dá de um jeito muito pobre se o olhar for duro e técnico, e não sensível e humano, como o de Jesus.

O que significa dizer que Jesus “sofreu fora da porta”? Em Hebreus, isso implica em pensar que esse mundo que se vive e que se vê “de dentro” (da sinagoga, do tabernáculo, do templo ou do acampamento) não era primordialmente o mundo de Jesus, nem é o de Deus. Jesus viveu fora da porta, ofereceu boas notícias (evangelho) ao mundo, e, exatamente pela natureza pública de seus atos, particulares ou coletivos, é que ele foi perseguido, torturado e morto fora dos portões, num ato coletivo e público de escárnio. A cruz é o símbolo desse abuso do mundo em relação a Jesus. A morte foi uma cerimônia pública; a ressurreição, por sua vez, não. Ela não foi para causar estrondo, nem provocar histeria ou catarse coletivas; ela se manifestou no secreto apenas àqueles/as que, pela fé e pelo testemunho prático, deveriam anunciar ao mundo que Ele ressurgiu, que a vida vence a morte, e que aqui não é o fim do “Fim”.

Por isso a igreja, que se chama de Jesus Cristo, deve viver também nessa dinâmica da dispersão e da inserção no mundo, de modo que, mesmo quando experimenta a reclusão, esta precisa ser uma reclusão aberta, convidativa, solidária, amorosa, calorosa, demasiadamente humana. Essa é a igreja que vive a anunciar a presença de Deus na vida humana e terrena, fora dos acampamentos, habitando em meio do caos do mundo, não para dissolvê-lo, mas para conferir um sentido à existência que há nele; não para julgá-lo, mas para reconciliar-se com ele. O convite é, portanto, para que saiamos do acampamento, onde a ação e Verbo de Deus estão, sem reivindicar privilégios, mas partilhando do insulto, do ultraje e do abuso de Jesus (Hb 12.13), tendo o mundo como arena, mas não como cidade permanente. E, enquanto buscamos a que há de vir, abraçamos a vida na que aqui vivemos na esperança de que aquela eterna cidade, possa ser vista cada vez mais no meio desta, onde a vida acontece, onde somos vocacionados a ser gente.

Jonathan

[Ilustração: “Caos urbano”, por Glauber Shimabukuro].