terça-feira, 4 de setembro de 2012

Uma fé “fora da caixa”

fora da caixa

Escrevi estas linhas, motivado pela pergunta feita por amigos-irmãos de uma comunidade nascente em São Paulo, chamada “COLETIVObeta”. Na ocasião de minha fala e participação em uma das reuniões do grupo, iniciei considerando que a fé cristã não existe à parte do contexto histórico e cultural em que é concebida. Antes, é permeada, influenciada e modificada por ele. Logo, não existe fé “pura”, no sentido de incontaminada em relação ao ambiente, as pessoas, os coletivos, suas práticas, suas ideias, seus costumes, etc. De modo que esse negócio de “fé fora da caixa” pode não passar de uma perspectiva ingênua – já que todos nos encaixamos em algum esquema, quer admitamos ou não (como bem observou na ocasião meu amigo Hilton Isleb) – mas também (e penso que assim deve ser) uma tentativa de constantemente repensar e de novo situar a fé, de acordo com as transformações pelas quais o mundo passa e nós, mundanos, também passamos.

Assentindo positivamente com a proposta de meus amigos, traço aqui, em breves, algumas ideias sobre o que seria essa tal “fé fora da caixa”.

1. É aquela que se reconhece como dádiva e, portanto, que diz: Eu “estou na fé”. Não trata a fé como posse, porque se é posse a gente guarda na caixa, no armário ou embaixo da cama e a luz (de Cristo) não pode brilhar ali... A fé, definitivamente, não existe para ser “guardada”, mas para ser expressa, para brilhar e salgar.

2. É a fé que abandona a linguagem que diz “minha fé”, por entender que fé cristã se gesta comunitariamente. A conversão pode ser a razão pela qual passamos a viver na e pela fé, mas a comunidade é o que sustenta, desafia e impulsiona a fé a outras possíveis conversões. Ademais, fé que não se converte ao outro não pode ser chamada “cristã”. No máximo se traduz por uma crença, como uma opinião: você crê daquela forma, você crê em Deus, mas sua vida não se move do jeito de Deus. Ao modo como Tiago já dizia: Você acredita em Deus? Beleza! Mas deixa eu te avisar: até os demônios crêem e temem. No final das contas, se nada opera ou transforma, a fé é como um cadáver, uma fé necrófila – amiga da morte, não da vida.

3. É aquela que não pode simplesmente se perder, num vaivém de “tinha e agora perdeu” – pois se não é propriamente minha, vai se perder como? A fé que se perde é aquela que nem bem se achou, e é preciso então perguntar se o que se perdeu não pode ser essencial ao ser verdadeiramente achado na fé. Ser achado na fé é ser achado livre, aceito pela graça e amado como filho de Deus e firmado na esperança da consumação no reino.

4. É ainda uma fé que não teme os riscos, que não tenta se blindar contra o mundo nem contra a humanidade, a começar pela própria. É, portanto, uma fé frágil, tanto por habitar em “vasos” quebráveis, como porque está fora e não se furta de se expressar ao mundo, porque não se envergonha daquele que é a razão própria de sua existência: Jesus! A fé que não tem vergonha de Jesus não cria adornos para ele. Ela assume sua identidade radical como necessariamente mansa e humilde de coração, de um fardo que é leve e suave, mas também de uma atitude rebelde e causadora de problemas, pois veio trazer espada e não “paz” ao mundo – pelo menos não essa paz artificial e sem justiça que ele almeja muitas vezes.

5. Por fim, porque não “se ganha” e, assim, não teme “se perder”, a fé fora da caixa é uma fé chamada a pensar, discernir e, diariamente, reinventar a si mesma diante de Deus e de seu contexto. Isso significa que a fé fora da caixa é uma fé que, apesar do firme alicerce espiritual que tem em Jesus, não se despe da dúvida, da incerteza e da indeterminação próprias do viver humano, especialmente no tempo atualmente vivido. Antes, a fortaleza da fé é que ela é uma certeza em meio a incertezas (cf. Hb 11.1). Enfim, a natureza da própria fé a conduz para fora da caixa, pois não se pode aprisionar o Espírito, que é quem a vivifica. Esse é o grande problema que o Espírito gera para a pessoa de fé: é que ele é livre e atua em liberdade. Uma fé escrava, comodamente encaixotada, não se deixa orientar pelo vento do Espírito, pois é o Espírito quem promove a liberdade para se viver a vida de Cristo de modo autêntico no mundo. Quem tem ouvidos, ouça...

Jonathan

(Imagem: ideiaseacao.com)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A revolução do Espírito e a involução dos espíritos

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Caro Fernando,

Obrigado por escrever seu email-carta. Muito me agradou, intrigou e arrancou um bocado de riso. É sempre bom saber que aquilo que a gente escreve tem algum impacto sobre as pessoas, mesmo quando negativamente. E é muito interessante o processo pelo qual somos lidos e avaliados pelo outro. E isso você faz muito bem em sua carta, ora falando de mim, ora de si mesmo, aportando encontros e desencontros. Um trecho, porém, em particular, me fez parar pra pensar mais detidamente (na verdade, é o que mais me motivou a escrever essa resposta), e é o seguinte:

Acredito que em grande parte, sua demanda pelo seu trabalho/vida, faz com que continue produzindo des-tratados teológicos e teologias narrativas assitemáticas. Momento em que nossos rios se separam e nascem as saudades, ou melhor as dúvidas:

De onde nasce sua vontade de ser a própria linha de fuga do território teológico, ser um nômade-emigrante da nação-estatal cristã? Porém, ainda carregar consigo penduricalhos e souveniers. Qual é a força para retornar sempre de onde tenta sair?

Em primeiro lugar, quero dizer que seu texto é para mim mais um sinal de que existe esperança, de que o Espírito se move e sopra onde quer e esse, como diria Miguel de Unamuno, é “o grande problema do Espírito”, é que Ele é livre! E, portanto, jamais deixará de causar seus rebuliços na história, com, sem ou apesar das igrejas que tanto invocam sua presença, às vezes desejando que em seu meio Ele seja “Ele mesmo” (livre, desimpedido e revolucionário), às vezes tentando tratá-lo como monopólio ou patente. O grande lance é que, por não se deixar aprisionar dessa forma, não será o Espírito quem morrerá, e sim aqueles(as) que pensam poder contê-lo. E isso, de variadas formas, já vem acontecendo na história da igreja – quem tem olhos para ver, veja, e quem tem ouvidos para ouvir, ouça!

De fato, escrever para mim é mais um ato de transgredir a mim mesmo – expor necessidades, expressar descontentamentos, extravasar pensamentos, etc. Isso, aliado a um esforço de encarnação, desejando que minhas palavras estejam coladas com a minha vida, e assumindo doses moderadas ou altas de risco, de que esse esforço também revele minhas deficiências, vulnerabilidades e inadequações, e mostre o quanto disso tudo é concebido no olho do furacão do paradoxo, embora não sem temor e tremor. Isso, como você disse, pode gerar risos no canto da boca, ou provocar raiva, ser uma “maquina de guerra” ou “linha de fuga”. Não sou a favor do escapismo, mas não posso ignorar a possibilidade de que a escrita seja também uma espécie de “válvula de escape”. Por outro lado, não pretendo deixar de dizer o que preciso dizer, com alguma medida de coragem e liberdade, para quem quer que seja. Se se retirar esse elemento da pena do escritor, o resultado será menos que medíocre.

Até pelas razões acima, e também pelo que você mencionou (minhas muitas “demandas”), acabo produzindo “des-tratados” teológicos, com pouca pretensão de veracidade (no sentido metafísico) e até mesmo de aceitação por um grande público. Se há algum teor de “verdade” naquilo que escrevo, é sempre por vias de aproximação e jamais por correspondências. Acho que nunca acreditei nisso, na capacidade do discurso, seja ele de que ordem ou matiz científica for, “corresponder” à realidade, à verdade ou mesmo a Deus. Tudo o que falamos, é como quem balbucia ecos do abismo, tendo uma enorme escuridão à nossa frente e apenas uma luz no fim do túnel. Nossa enorma ânsia pela verdade (por agarrá-la, possuí-la) faz com que nos agarremos a esse faixo de luz, achando que conseguimos refletir o luzeiro. Isso é o que chamo de “involução dos espíritos”, bem capaz de co-existir sem nenhuma relação direta com as intermináveis revoluções do Espírito da Liberdade, o Espírito de Deus.

A razão, eu acho, que me leva a viver numa espécie de limbo teológico, como “nômade-emigrante da nação cristã”, me afastando sem deixar de pisar no território religioso, em grande parte é por força da profissão – sou professor de teologia – e da vocação – pode não parecer, mas sou pastor. Um pastor meio “cavaleiro das trevas”, às vezes, mas ainda assim um pastor. E enquanto Deus quiser, não pretendo deixar de colocar meus escritos, ideias e, mais do que eles, minha vida, na linha de frente da luta em prol do reino de vida do Deus de amor. Um reino que é feito de/para todo tipo de gente – desde o fariseu ao simples varredor, desde o que se senta na coletoria, até mulheres retirando água à beira de poços, desde doutores diplomados e engravatados, à gente simples que mal sabe ler ou escrever. Para cada uma das pessoas, há uma forma de abordagem, um jeito de aproximação. Com meus textos, atinjo quem quer que se interesse por leituras variadas sobre teologia, filosofia, história, Deus, religião, vida, espiritualidade, etc. Com minha vida, preciso fazer um esforço para me encontrar com quem quer que seja “próximo”. E “o meu próximo”, como diria Segundo Galiléia, não é exatamente aquele(a) que compartilha de minhas ideias, valores, cultura ou religião; meu próximo é aquele com quem me comprometo.

Se meus textos e minha vida não expressarem, ainda que de modo torto, inacabado e nem sempre feliz ou assertivo, esse compromisso, creio que eles não têm razão de existir. Talvez seja esse o espírito da coisa toda, talvez seja por isso que, mesmo que contra a vontade tantas vezes, tenho tido coragem de bater, mas não de virar as costas.

Um grande abraço,

Jonathan

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Sobre apologetas e apolo-jecas

Paladinos

Pensando e lendo algumas coisas pela internet nos últimos dias, percebi que, além dos neo-apologetas, existem também os “apolo-jecas”. Neo-apologetas são aqueles que ainda pretendem, pelas vias do método teológico moderno, altamente sustentado na argumentação e na objetividade, “defender” Deus. Os apolo-jecas (desculpem a brincadeira), por sua vez, podem ser os fieis seguidores dos apologetas, que batem palma pra tudo o que eles dizem e defendem suas ideias com unhas e dentes. Não estão abertos para o diálogo, pois se recusam a pensar além daquilo que emana “do interior” do discurso já amplamente aceito, discutido (pela liga da justiça apologética), comprovado e aprovado por sua alta ciência teológica e pela cúpula eclesiojeca. Para eles, qualquer coisa que fuja à pretensa argumentação objetiva, da qual tanto se orgulham, acaba soando como tergiversação – pois não vai direto ao ponto, não atinge a questão, portanto, não está de acordo com “a verdade”. Afinal, só existe uma maneira de pensar e fazer ciência válida: a deles.

O modo apologético sustenta-se sob a pretensão não apenas de “falar de Deus” (o que já seria um hercúleo desafio), mas de “falar por Deus”. Muitas vezes ainda cede ao que C. S. Lewis chamou de “oferta do bruxo”, ao trocar sua vocação (teológica) para ser a mais modesta dentre as ciências, pelo conhecimento como poder: para legislar, dominar e condenar. Lutou contra seu próprio princípio de sustentação, de que a força de seu discurso e vida reside precisamente em sua fraqueza. Tantas vezes tem cedido à tentação de não questionar seus próprios pressupostos, lidar mal com os questionamentos alheios e, se isso não bastasse, de decretar como “herege”, “liberal” ou coisa que o valha quem ousa os questionar.

Um jeito “não jeca” de ser apologeta (se é que é possível continuar sendo assim chamado, caso isso aconteça) talvez seja o de deixar de lado essa faceta unívoca (que só tem e só admite “uma voz”), e aceitar a pluralidade, a plurivocidade e a diferença, não para baratear ou negar convicções, mas para enriquecê-las, colocando-as em seu devido lugar, como mais um discurso possível entre outros. Parafraseando o que disse Barth, a teologia só pode ser um discurso possível porque Deus disse “Sim”, e não porque alguém sacramentou e popularizou a fórmula do “é assim e pronto”.

Ademais, esse apego ferrenho ao poder do argumento que convence, em nosso tempo, não convence mais que o poder da vivência. Lembrando do que disse Lewis em A abolição do homem: “Numa batalha, não são os silogismos que vão manter os relutantes nervos e músculos em seus postos na terceira hora de bombardeio. O mais rude sentimentalismo... em relação a uma bandeira, país ou regimento será bem mais útil” (p. 22). Enfim, para Lewis, além de “cerebrais” (racionais) e “viscerais” (passionais), precisamos de “homens de peito” (íntegros, magnânimos na atitude, no sentimento), pois “o peito” é o elemento intermediário que transforma o homem em homem, enquanto, “pelo intelecto ele é apenas espírito, e pelo seu apetite ele é apenas animal” (p. 23).

O que tudo isso me leva a pensar? As “ideias boas” e bem articuladas, em si, podem convencer, mas não transformam, não geram “homens de peito”, na acepção de Lewis, no máximo, homens que, para fins mais “sublimes”, correm o risco de ignorar a parte do meio, pois, como reitera Lewis (ora se referindo a certos racionalistas de sua época), “não é o excesso de pensamento que os caracteriza, mas uma carência de emoções férteis e generosas. Suas cabeças não são maiores que as comuns: é a atrofia do peito logo abaixo que faz com que pareçam assim” (p. 23). Exemplos de vida, por sua vez, atrelados a ideias boas, bem articuladas e bem fundamentadas, convencem e transformam. Jesus é o maior exemplo de que as palavras não são tão convincentes quando ou se descoladas da vida. Ou como se diz por aí, palavras convencem, exemplos arrastam... Talvez aí esteja um mote para pensarmos num discipulado pós-moderno.

Jonathan

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Manifesto pela abolição do politicamente correto em teologia

Politicamente correto

Começo avisando aos desavisados, caçadores da heresia alheia e paladinos da retidão, que não sou a favor do mau-caratismo, da indiferença e da falta de educação ou consideração pelo outro. Tento seguir a palavra de Paulo, que diz que, no que for possível a nós, tenhamos paz com todos os homens, sem ignorar a de Jesus, que afirmou não ter vindo para trazer paz, mas espada. Então, por favor, não confundam o papel exercido pelos pacificadores, com o dos pacifistas (que querem paz a qualquer preço), dos passivos (que aceitam irrestritamente a paz ou a espada que lhe oferecem) ou dos politicamente corretos – que negociam, encenam, proclamam, associam, brindam, celebram "paz", mesmo não havendo paz, o que implica em haver justiça, harmonia, reconciliação. A paz do politicamente correto, em especial, é a paz "que eu não quero conservar pra tentar ser feliz", parafraseando "O Rappa".

Por que não? Porque o politicamente correto é uma invenção do impostor, do manipulador e do religioso, propagada e aceita em rebanho, a fim de manter um efemêro, superficial e ilusório senso comum de qualquer coisa: uma falsa hamonia, uma falsa preocupação e comprometimento com os "altos valores" humanos, uma falsa posição favorável aos direitos de grupos minoritários, uma falsa e patética defesa do interesse geral de sei lá o quê, quando o que está em jogo é, na maioria das vezes, o interesse de um (indivíduo, grupo, classe) só. Acho que o coisa-ruim, quando maquinava sobre como poderia persuadir sem ser notado, resolveu dar uma "ajudinha" pra que se criassem duas coisas: uma se chama propaganda – uma apreciada e bem-sucedida forma de se contar mentiras, e ainda receber aplausos e dividendos por isso – a outra tem sido nominada de “politicamente correto”.

Então, minha definição (simplista) de politicamente correto, é: a vitória parcial do coisa-ruim contra a possibilidade da integridade e honestidade humanas e uma forma de nos manter parecendo ou querendo ser o que, no fundo, não somos, não pensamos, nem acreditamos, mas que, em nome da preservação de uma imagem e reputação, afirmamos ser-parecer-crer, com óleo de peroba bem passado na face.

Por que isso é um problema particular para o fazer teológico?

Simples, porque o fazer teológico é, antes de tudo, um fazer profético, tanto no conteúdo quanto na forma. E o compromisso primeiro do profetismo é com a mensagem a ser proferida e com Aquele que a confere: Deus. Não está à serviço nem de sistemas, instituições ou do poder temporal onde quer que ele apareça. Pelo contrário, fala precisamente para denunciar os desvios e transgressões provocados por estes, contra Deus e contra a vida. Dessarte, o profeta não pode se ativer ao que é politicamente (ou religiosamente) correto, mas se atém a todo o conselho de Deus, de acordo com o discernimento provido pelo Espírito à luz da Palavra. Se chegar a desagradar A, B ou C é porque foi fiel à sua vocação. Se passar a se preocupar com o que pensam, com o que dizem, com o pescoço e reputação próprios, perde sua razão de existir, e já não pode mais ser chamado “profético”.

Não estou dizendo que a palavra profética é destrutiva. É claro que ela pressupõe a palavra de encorajamento e motivadora de esperança, mas também pressupõe correção de rota, denúncia, vaticínio, que nem sempre – ou quase nunca – soam assim tão agradáveis, sobretudo para a pessoa, grupo, governo ou instituição a quem ela se dirige propriamente.

Daí, insisto que a teologia, profética por natureza, não está primariamente a serviço das igrejas ou qualquer outra organização. Ela está a serviço da missão de Deus, na qual a Igreja se insere, como meio e agente e não com um fim em si mesmo. A concepção da Igreja como um fim (finalidade) em si representa, de inúmeras formas, o fim (extinção) dela em sua razão de existir: servir à missão do Reino. Se a teologia, portanto, serve à Igreja é por sua conexão e fidelidade à missão. Até aí tudo bem, creio. O problema é que é muito difícil separar, na prática, a Igreja de suas expressões históricas e interesses institucionais. E a teologia como profissão e forma de sobrevivência no Brasil depende, infelizmente, de uma estreita relação com essas expressões que aqui são, em sua esmagadora maioria, sua fonte de subsistência. Logo, a teologia se vê à mercê dos interesses institucionais e mercadológicos das igrejas e seus departamentos, e tende por isso a pautar sua prática e discurso mais pelo que é conveniente e politicamente correto que pela liberdade no exercício da vocação que lhe é própria. Se admitirmos, por força das condições históricas e contextuais dadas, que essa relação de prestação de serviços e quase subserviência é necessária e inevitável, pelas razões já arroladas, então não há como falar na abolição ora pretendida, nem em fazer valer o que chamo aqui de vocação primária da teologia. E diante de tal realidade, longe estamos de falar em uma teologia que, na sua relação com as instituições, grupos e pessoas, seja livre e libertadora.

O que proponho, afinal, torna-se, para fins práticos e pragmáticos, algo utópico, quase irrealizável em sua amplitude, especialmente dentro de uma instituição de educação teológica. Isso é o que provavelmente dirão meus colegas diretores e administradores envolvidos com ET. A não ser que:

1. A instituição não dependa do estado ou da igreja para sobreviver, o que no Brasil só se tem feito possível em universidades que abrigam e sustentam a pobre teologia, por meios de seus outros (ricos) cursos;

2. As instituições isoladas não vendam suas convicções no altar das matrículas de cada semestre, feitas por estudantes que as igrejas mandam – o que pode (e provavelmente irá) resultar em sua bancarrota;

3. O teólogo não se preocupe com as possíveis retaliações a que venha sofrer – incluindo a perda do emprego, por manter-se mais fiel às convicções que ao bolso; ou

4. Que construa uma carreira profissional paralela a teologia, podendo assim “sustentar” sua vocação sem dependência de relações institucionais e seus posicionamentos orquestrados, especialmente no que toca à arte de escrever.

Escrever sem liberdade é como navegar em um lago: você tem todos os instrumentos para viajar muito longe (far away), mas não consegue sair dos limites da extensão do lago, já bem pré-definidos. Ou seja, nos tornamos teólogos de segunda ou terceira mão, entregadores de pizza e não pizzaiolos, escriturários ou amanuenses do discurso alheio e não escritores de pulso, transgressores, espíritos livres.

Jonathan

terça-feira, 26 de junho de 2012

Meu problema com as apologéticas

Apologética

Apologética é má teologia, como disse certa vez meu ex-professor Júlio Zabatiero. Primeiro, porque parte do princípio de “defesa da fé”. E desde quando urge que a fé seja defendida? Ora, desde quando ela tem sido “atacada”, diria alguém. Entendo, porém, que precisamos, sim, responder às interpelações feitas a fé, mas sem a preocupação em fazer do diálogo um tribunal onde ela possa ser defendida e, no fim das contas, quando “ganharmos a causa”, ser absolvida de suas acusações – o que já não poderia ser chamado de “diálogo”. Dar razão da esperança que há em nós, como diz Pedro, é diferente de defender a fé, que em si, existe para ser indefesa, frágil, e sujeita a retaliações, como foi Jesus. Ele não defendeu a fé, a causa, a missão, mas procurou integrá-las com divina coragem e discernimento a sua vivência e prática diárias.

Segundo, porque a defesa precisa se assemelhar ao ataque para poder partir para o contra-ataque. Nesse aspecto, a apologética peca, pois ainda persiste num diálogo de surdos com a linguagem científica do século XIX, em pleno século XXI, afirmando “certezas” onde só temos “impressões”, “linguagens”, “interpretações”. A certeza e a verdade que afirmamos, pela fé, afirmamos mais com a vida, e menos com o discurso ou de modo proposicional. O discurso, por sua vez, é recheado de incertezas, de imprecisão, de subjetividades. E assim precisa ser, pois se configura como discurso humano sobre o divino, a parcela falando sobre o todo, ou, parafraseando Ellul, aquilo que há de mais imperfeito e temporal falando sobre o perfeito e eterno. Que conseguiríamos nós com nossa “fala sobre Deus”, senão, expressar uma parte? Ora, o próprio Paulo foi quem disse que hoje conhecemos apenas uma parcela da verdade, e então, quando vier o que é perfeito, conheceremos como também somos conhecidos.

Terceiro, se nossa teologia é, por natureza, recheada de proposições sobre Deus, defendo que estas sejam modestas e assumam-se como um discurso em meio aos outros, e não “O Discurso” e “A verdade”, como a maioria das apologéticas acaba se colocando quando apresenta o Cristo travestido de sua roupagem teológica, sem, porém, que se reconheça as limitações óbvias dessa roupagem. O Cristo Verdade-Caminho-Vida é absoluto como ser, mas acaba sendo (e precisa ser) relativizado quando passa pela via dos conceitos humanos. E todo conceito, como diria Nietzsche, nasce por igualação do não igual. Nesse sentido, igualar Cristo a nossas ideias sobre Ele é uma pretensão para lá de funesta, e é onde pecam muitas das apologéticas, do passado e do presente.

Doutrinas não são absolutas; podem ser, sim, percepções relativas, ainda que fiéis, de um princípio absoluto. A relatividade ou provisoriedade da doutrina não é uma negação ou diminuição do absoluto, mas é a assunção de nossa incapacidade de compreendê-lo. Se for absoluto não pode ser reduzido – e em grande medida isso é o que são nossos conceitos ou percepções de Deus: reduções. Que falham ainda mais quando não se assumem como tais, e ainda se vêem no direito de dizer quem está e quem não está do lado “da verdade”. Mas a questão é: se é absoluta, como pode ser expressa? Pode ser expressa por meio da parcialidade imperfeita do discurso – ou da vida. Afirmar que expressamos ou vivemos em parte, é a maneira como Paulo em 1Co 13 nos ensinou a viver na casa do conhecimento sem abandonar a casa do amor.

Mas antes que confundam o que estou dizendo com relativismo, reitero o que já disse em outro lugar: afirmar que nosso conhecimento não é capaz de “dar conta”, de deter a verdade ou alcançar a verdade objetiva, não significa dizer que “não existe mais uma verdade absoluta”, e sim que não pode haver uma visão (humana) absoluta da verdade. Posiciono-me, portanto, a favor assunção da condição relativa de nossas percepções, e não do relativismo (a ideia de que “tudo é relativo”). Se tudo é relativo, então nada é relativo (?), pois o “tudo” se transforma em “absoluto” no dizer do relativista. No fim, o relativismo acaba sendo outra forma de apologética, tão tacanho e sem sentido quanto esta no tempo em que vivemos. Como disse Elienai Cabral Jr. (@elienaijr), há pouco no Twitter: “Não creio em verdades maleáveis, porque narrativas ou poéticas, e verdades duras, porque racionais ou científicas. Apenas descrições várias”.

Jonathan

terça-feira, 19 de junho de 2012

Não tenho vergonha de Jesus



E por que teria? Talvez porque o simples pronunciar desse nome já cause diferentes reações sociais, especialmente na cidade secularizada, onde o nome dele é tão usado, e às vezes com tanta banalidade, que já ficou desgastado. É como se cada vez que se pronunciasse “Jesus”, uma ideia esquisofrênica não diretamente associada ao Jesus dos evangelhos, mas ao Cristo vulgarizado do dia a dia, nos viesse à mente causando ligeiro desconforto. Será que as pessoas estão pensando que o Jesus sobre o qual falo é esse “Jesus genérico”? O que os diferencia?

Então percebo que meu incômodo é por causa do genérico, não do Cristo vivo. Mas será que tanta gente está tão envergonhada do genérico quanto eu me sinto? Quer dizer, o genérico é mais barato, manipulavel, fácil de comprar e propagar. Já o Jesus de Nazaré foi pregado numa cruz e o pessoal de hoje parece não querer se identificar com uma cruz, a não ser como credo e meio de salvação, e não como um caminho a se seguir. Apesar de tudo, o genérico sempre parece ser mais atraente...

Não tenho vergonha de Jesus... Vergonha tenho de seus detratores e caricaturistas. Tenho especial vergonha de mim mesmo, quando o Cristo que em mim transparece não passa de caricatura daquele que Paulo diz ser o “primogênito de toda criação” (Cl 1.15). Tenho vergonha de quando quando percebo que Jesus é mais objeto de minha fala do que visto em minha vida.

Não tenho vergonha de Jesus, mas tenho vergonha do que fizeram com o cristianismo. Transformaram-no em uma prateleira de ofertas das mais variadas possíveis, onde Jesus não passa apenas mais um artigo de decoração, que todo mundo quer ter em casa porque “é legal e faz bem”... Não me envergonho do Evangelho, como disse Paulo, porque é o poder de Deus alcançando não só o judeus, mas também gregos, mas me envergonho daquele “outro evangelho” e da “outra graça”, que são produto da adoração oferecida em altares de barganha religiosa. 

Não tenho vergonha de Jesus, especialmente porque ele é a expressão viva do amor de Deus pela humanidade, tendo ele mesmo encarnado, assumido forma e condição humanas e abraçado a vida na terra com tudo o que isso implica. Contudo, eu me envergonho do que fizeram com o Cristo ressurreto; tiraram dele a cruz e a coroa de espinhos, rejeitando todo o fracasso, dor e fragilidade por ele assumidos, e lhe deram uma coroa de rosas sem espinhos, celebrando uma vitória sem lutas, um sucesso sem falhas, e uma vida que tem ojeriza ao sofrimento . Esqueceram o sentido do que ele mesmo disse a Nicodemos em João 3: Quem nasce uma vez, morre duas, quem nasce duas, morre uma (releitura usada pela Aliança Bíblica do Brasil há certo tempo). Para não se envergonhar de e nem envergonhar a Jesus é preciso nascer de novo. 

Não tenho vergonha de Jesus, sobretudo, porque Ele escolheu dar o primeiro passo, me amando primeiro, não se envergonhando de mim. Mas como ele mesmo disse, se a gente se envergonhar dele ele também se envergonhará da gente diante do Pai; mas se o confessarmos diante dos homens, Ele também nos confessará perante seu Pai. Me envergonho, porém, da disfarçatez de um Pedro, que garatiu que o seguiria até o fim, mas no raiar do sol do medo, perigo e ultraje, negou-o não apenas uma, mas três vezes. Ruborizo diante da religiosa hipocrisia de quem grita, chora, se derrama com o nome de Jesus nos lábios em momentos de êxtase, mas que, no calor dos acontecimentos que requerem de nós posição, decisão e coragem, preferem o escombro sórdido do silêncio, da omissão e da covardia.  Por isso tenho insistido que precisamos urgentemente de uma teologia do saco roxo, que não se omita nem se envergonhe diante de sua inglória tarefa profética, e cuja preocupação principal não seja a de servir primáriamente a nenhum outro ser, senão a Deus. E suponho que Deus não se agrada de teólogo covarde e meia-boca, dividido entre a busca pela integridade e o desejo por adulação e popularidade.

Enfim (mas não finalmente), não me envergonho de Jesus, porque o Jesus a quem sirvo e por quem vivo não dá a mínima para o negócio da religião, ou para os louros da fama e da boa reputação. Ele não trocaria jamais a graça de ser chamado de “meu filho amado em quem tenho prazer” pela honra de ser profeta ou apóstolo das multidões. Ele não rechaçou as multidões, teve compaixão delas; mas rechaçou o cheiro de glória falsa que emana de sua empolgada aclamação e de seus elogios. Pois, profeta que é profeta, não pode se balizar pela boa, nem pela má fama, tampouco pode viver de amor ao próprio pescoço...  Quem, hoje, tem abraçado e abraçará o fardo desta vocação?

Jonathan

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Eclesiasticando

illuminated

A cada dia que passa tenho mais certeza de que manter a integridade - a coerência entre o que acreditamos, somos e vivemos - está acima de qualquer vantagem que essa vida debaixo do sol possa dar. Realmente não vale a pena ganhar o mundo todo perdendo a própria alma. Melhor é se contentar com um pequeno bocado e dormir em paz do que se fartar (de poder, prestígio, bens, etc.) - passando como trator sobre a honra e a dignidade alheias - e viver num pesadelo.

Portanto, não desperdice sua vida tentando controlar, prever ou prevalecer se tiver que desistir do principal, que é simplesmente viver: intensamente, generosamente e em paz, com gratidão a Deus e a vida, dando valor primário às pessoas as quais e com as quais se ama e se aprende a viver e amadurecer. "Carpe diem", amigos, mas com a consciência de que quase tudo nessa vida "é vaidade e correr atrás do vento"...

Jonathan - em livre parceria com O Pregador

(Imagem: Iluminated, de Vincent Van Gogh)

terça-feira, 5 de junho de 2012

O rosto poético da Teologia da Libertação



Todos os seres humanos nascem com uma vocação em comum: a vocação para a liberdade. Alguns entendem (ou simplesmente vivem, sem entender) que é possível realizar esta vocação em cativeiros. Outros, porém, muito cedo acordam para uma realidade mais ampla, complexa e difícil, de que esta vocação só pode ser concretizada à medida que o ser que a vive se indispõe contra os muitos condicionamentos a que está sujeito, se colocando como antítese de toda forma de cativeiro. Rubem Alves é um desses homens que, em nome de uma visão de liberdade, se rebelou contra os sistemas de clausura, seja do pensamento, da ação, da escolha e da vida humanas. 

Mas, para entender quem é Rubem Alves, talvez seja melhor começar por quem ele foi, mas não considera mais ser. 

Rubem Alves foi um militante protestante contra o que chamou de “protestantismo de reta doutrina” em busca do “princípio protestante”, que aponta para um protestantismo que um dia protestou, mas que se viu perdido em suas expressões teológicas, confessionais e eclesiásticas. Queria de volta um protestantismo do canto, pois dizia que “as pessoas comuns cantaram a Reforma antes de entendê-la”. Afirmava ter se tornado protestante por seu gosto pela diferença. Deixou de ser protestante quando nele não enxergava mais nem o canto, que “dá asas aos pés”, nem o gosto pela diferença. Foi também pastor presbiteriano, e teólogo. Inspirou-se no exemplo de Albert Schweitzer, que conseguia simultaneamente ser teólogo, organista, médico, e ainda ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Em tempos de ditadura, foi denunciado e perseguido pela própria Igreja Presbiteriana do Brasil em que servia, por causa de suas ideias consideradas liberais e subversivas demais. Teve que sair pela porta dos fundos, lotado entre os “hereges”. Para além da teologia, navegou pelos mares da filosofia, da literatura, da educação e da psiquiatria, cruzando com proficiência as fronteiras do saber, da escrita e do ensino. Por isso é respeitado muito mais fora do que dentro do apequenado universo teológico brasileiro.

Atualmente, Rubem Alves se considera um “teólogo livre e com alegria”, educador não-ortodoxo, amante de poesia e literatura. Os golpes duros que recebeu o conduziram a estes campos; respondeu aos inquisidores e seus tribunais com poesia e bom-humor. Há muito não se considera mais teólogo, nem religioso. Já havia dado indícios desse caminho nos idos de 1960-70, quando publicou ensaios como “O vento sopra onde quer... confissões de um protestante obstinado”, onde dizia: “Quem quer que se atreva a liquidar os dissidentes está possuído da ilusão de ser o detentor do monopólio divino e sucumbe à tentação e à crueldade da espada – eclesial ou secular, não importa”.  Um de seus últimos suspiros na esfera acadêmica da teologia se deu através de sua tese de doutorado em Princeton: “Towards a Theology of Liberation Corpus”, publicada primeiramente em inglês com o título “Theology of Human Hope” (1969), e depois em português já com título semelhante ao da obra em análise: “Por uma teologia da libertação” (relançada pela Fonte Editorial em 2012). Na ocasião desta obra, Alves já não era pastor, abraçava com avidez tanto o humanismo como o liberalismo, e dava início a uma linguagem que se popularizou, pela via do realismo, mais em seio católico (embora seja muito consumida por leitores-pesquisadores protestantes): a teologia da libertação.

Ao ler este livro (em seus seis capítulos), é possível, especialmente para um assíduo freqüentador das obras de teólogos da libertação, notar que a filiação de Alves com esta teologia, que amadureceu e cresceu especialmente entre teólogos católicos, é fundamentalmente nomenclatural. Esta pode ser uma tese básica sobre este livro. O propósito que o livro advoga, por sua vez, é o da entrada definitiva da teologia no campo do humano e do político, deixando para trás a linguagem da metafísica e as metanarrativas, buscando adotar uma nova linguagem, que deve ser expressão de sua condição histórica e relativa. 

A título de apreciação crítica mais pontual sobre esta obra, gostaria de falar apenas sobre uma importante contribuição e uma evidente lacuna que nela observo. 

Primeiro, ela contribui, especialmente para os estudiosos do tema da teologia da libertação e da temática da liberdade, a perceber as interpolações que se pode observar entre a linguagem (os termos, conceitos, ideias) utilizada por Alves e aquela que foi apropriada, recriada ou re-significada por teólogos da libertação na América Latina como Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff, Juan Luís Segundo e outros em suas abordagens. A concepção de um sujeito da história, artífice de seu próprio destino, que emerge a partir de uma nova consciência e com uma nova linguagem, de libertação, me parece ser a mais significativa. A concepção de que, no caminho rumo à liberdade, existe sempre a possibilidade e o risco de se perder, mas nem por isso devemos abandoná-lo, uma vez que é da natureza da liberdade o arriscar, é outra ideia importante que este livro aponta, como subsídio a uma compreensão teológica da liberdade.

Segundo, ainda falando sobre esse sujeito da história, postulado por Alves, é evidente a lacuna que este autor não preenche – e que os teólogos da libertação o fazem com mais propriedade – que é a de conferir um rosto a este sujeito. Qual é a sua cor, nacionalidade, classe, contexto, particularidade, causa ou necessidade concreta? Simplesmente não há resposta para nada disso. Assim, embora Rubem Alves, ou seu livro (como uma espécie de canto do cisne), possa ser considerado um referencial teórico ou inspirador da linguagem da libertação, lhe falta o que é fundamental nas teologias da libertação posteriores a ele mesmo: o elemento contextual e da eficácia, sobre a qual ele fala apenas de passagem. A crítica, portanto, é que, no fim das contas, o que Alves parece defender é, paradoxalmente, uma concretude abstrata, um sujeito sem rosto e uma libertação sem causas históricas, fruto talvez de sua veia mais poética que propriamente realista ou comprometida visceralmente com causas históricas. 

Por fim, e a despeito da crítica acima, vale dizer que a leitura desta obra é indispensável ao público acadêmico de teologia especialmente; também aos estudiosos interessados nas raízes histórico-teológicas do movimento da teologia da libertação, e aos estudantes pesquisadores, curiosos ou apaixonados pelo tema da liberdade e as inúmeras facetas que ele pode assumir em uma análise de cunho teológico. 


[Imagem: Extraída do site da Assembléia de Deus Betesda].
Jonathan

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Oração, eficácia e anarquia

Revolution
Poucas vezes, associamos o tema da oração a práticas de cunho não (ou nada) religioso, como por exemplo, aquelas que, no cotidiano, tocam o campo da ação e da eficácia. Eficácia aqui tem a ver com a qualidade da ação que promove alguma transformação objetiva na realidade. Nesse sentido, sua relação com a oração envolve a transformação promovida no viver concreto de pessoas e em seu mundo. Assim, mais importante que as fórmulas pragmáticas de eficácia – a oração eficaz como aquela “que funciona” – é verificar se a oração representa uma revolução de mentalidade e de estilo de vida ou se tem sido mais um instrumento ideológico de alienação e amansamento de consciências a serviço dos sistemas de dominação e adestramento vigentes.

Vale lembrar aqui da advertência feita pelo diretor de cinema norte-americano Godfrey Reggio: “Penso que é ingênuo orar pela paz mundial se não vamos mudar a forma na qual vivemos”. De nada adianta orar pelo governo e seus governantes sem que isto nos conduza a um patamar de indignação, protesto e denúncia quando, por exemplo, no governo há (e quase sempre há) corrupção, improbidade e injustiça. É inócuo o compromisso de oração de sacerdotes de uma cidade, que oram, ungem e abençoam o prefeito em seu gabinete, sem a eficácia de uma conversa franca, construtiva e inteligente sobre a maneira como este e seus correligionários têm administrado a cidade. É triste quando circunscrevemos a oração apenas aos terrenos do “religioso” ou do “espiritual”, pois, assim fazendo, arrancamos seu potencial de transformação integral da vida humana.

Em Londrina temos vivenciado nos últimos tempos uma situação política das mais vergonhosas e tristes de nossa história, na qual prefeito, primeira-dama, funcionários de alto e de baixo escalão, além de alguns vereadores estão sendo acusados e investigados pela (suposta em alguns casos, e comprovada em outros) participação em um esquema de corrupção, lavagem de dinheiro, improbidade administrativa, suborno e extorsão, dentre outros. Enquanto não aparecem evidências claras de seu envolvimento direto no esquema, o prefeito Barbosa Neto, por sua vez, tem adotado o discurso manjado do político “João sem braço”, tal qual o presidente Lula no famigerado esquema “Mensalão”, de dizer que é inocente, não sabia de nada e, como “prova” disso, faz questão de que tudo seja devidamente apurado e investigado em seu governo. A impressão que fica é que o mito do “caçador de marajás”, desde Fernando Collor de Melo, se perpetua com certo grau de sucesso na política brasileira, junto com a “moral” das vistas grossas e da cara de pau.

É lamentável que nós (cidadãos, religiosos ou não) não tenhamos opinião alguma a emitir, nos resignando a tão somente papagaiar o repetido jargão de que “na política é assim mesmo”, ou a fazer a conformada oração “para que Deus abençoe nossa cidade e nossos governantes”. É um devaneio dos mais canalhas reivindicar prosperidade, bênçãos e a conquista do território da cidade “para Jesus” quando nela grassam sinais do anti-Reino bem diante dos nossos lustrosos narizes! Quando isso acontece precisamos dizer que há um cristianismo não-constantiniano que ainda subsiste, e não está identificado ou mancomunado com qualquer sistema ideológico ou político, mas tem seu compromisso primeiro com o Reino de Deus e seus valores. Isto implica, talvez, na identificação com um modo não-integrado, não-sistêmico ou institucional, anárquico e pacifista de ser, no qual a oração deixa de ser um instrumento a serviço da “ordem” e do “progresso”, passando a ser um instrumento desestabilizador da (des)ordem humana perversa.

Entenda-se o elemento de anarquia aqui não como apologia infantil da pura desordem, ausência de qualquer governo ou mesmo da violência gratuita, mas como um voto de protesto e contestação em prol do direito à vida e do ser humano, e como rejeição dos caminhos associados ao poder como dominação, vigente nas instituições, religiosas ou políticas, governamentais ou não. A oração da eficácia é a oração por justiça, que se conjuga com a luta corajosa contra a injustiça onde quer que ela, e a despeito de que forma, apareça, e em favor da paz do Reino, que é uma “paz com voz”.

Esse é um tipo de oração que pode nos livrar da associação perversa e hipócrita, seja com a agenda de oração dos sacrílegos ou com a agenda de poder dos corrompidos. Como diz Gabriel, O Pensador, “não adianta olhar pro céu com muita fé e pouca luta”. Então, até quando a gente vai ficar levando porrada (risada e cusparada na face) nessa vida aburguesada que levamos, fazendo de conta que não estamos sendo atingidos, lesados, ou que não é da nossa conta? A corrupção é também resultado de nossa omissão. Pense nisso.  
Jonathan

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Diálogo sobre a frase de John Piper (III)

molho-de-pimenta

Prezado Sidney,

Obrigado pela cooperação, especialmente no sentido de encontrar os pontos de convergência entre Jonathan e eu.

Creio que o Jonathan atacou, primariamente, a concepção teológica de Piper, mas para isso precisou recorrer à sua própria concepção acerca da oração. Logo, não vejo que houve fuga do post original ao iniciarmos uma conversa sobre a natureza desta prática tão bem-aventurada.

Temos que fazer justiça à teologia do reino do norte. Para ela, tempo de oração não é uma questão de imposição divina, mas um meio de produção. Sem dúvida, a frase de Piper denuncia essa percepção. O protestantismo euro-americano, apegado ao trabalho (como bem delineou Weber), sequestrou a oração da contemplatividade mística medieval e lhe deu um caráter laborativo. Orar é produzir e, portanto, neste sentido, “tempo é dinheiro”. É claro que o lucro advindo de tal labor se traduz nas almas convertidas ao Evangelho, no crescimento da Igreja, nos avivamentos periódicos e no estabelecimento do Reino de Deus. Destaco que em nada isso é negativo, mas não faz jus à riqueza da oração, no sentido bíblico do termo.

Outro fator a se considerar é que a oração – especialmente nas teologias holiness, mas também nas reformadas – é entendida como meio de purificação da alma e do corpo. Esta percepção está presente na ascese mística medieval, mas nesta era consciente, ativa e intencional. O modo de pensar de alguns protestantes pragmáticos anglo-americanos é diferente: esta purificação acontece de forma quase passiva e inconsciente – uma espécie de transformação osmótica ou radioativa. Assim, quanto mais tempo expostos à presença divina, maior a purificação – ainda que isso seja feito em meio a devaneios da mente, exaustão física ou tédio. Novamente, tempo é importante, de acordo com essa teologia.

O equívoco aqui, entre outros, é situar Deus em um momento ou local, não o reconhecendo em toda a vida. Além disso, a compreensão que se tem de purificação não passa pelos processos dinâmicos da experimentação, retração, reconhecimento, tentativa, sofrimento, êxito, etc. É um processo que não passa pela filtragem da vida – algo dinâmico, fluido e forçado –, mas pela decantação. Ora, sabemos que água decantada “parece” limpa, até que seja agitada novamente.

Portanto, a prática da oração não deve desprezar os aspectos positivos dos sentidos laborativo e contemplativo, mas deve ser encarada, também, como um processo contínuo, não contingencial, auto-reflexivo, terapêutico, solidário e dialogal.

Espero ter jogado um pouco mais de pimenta neste molho.

Vanderlei Frari

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Diálogo sobre a frase de John Piper (II)



Excelente e assertiva análise, caro (e claro) Vanderlei. Você está certo, quando diz que “atirei” – embora não sei se concordo com o "à queima roupa", que pode significar muita coisa. Meu texto é franco atirador mesmo, porque o escrevi com a pena em chamas, por querer provocar o pensamento (e acredito que provoquei) e por estar farto deste tipo de doutrinismo, com a qual lido desde que me conheço por gente. O processo de libertação disso é longo, meu amigo, quase como se livrar de um câncer. 

Não é que desconsidero o todo, entendo o que você diz. É que, quando escrevi isso, não estava preocupado em considerar “todo” algum, somente a parte que me interessava desconstruir – o que certamente não inclui o aspecto intercessório da oração, muito menos o aspecto de que temos de dedicar “algum tempo” (relativo) para isso. Só me recuso à redução disso (a oração) a fórmulas e padrões universais, ou mesmo da qualidade da vida do orante somente ao tempo dedicado. Não há dúvidas de que o tempo também influi – um exemplo disso está em como tendemos a nos focar mais na oração quando um infortúnio nos atinge, seja diretamente ou indiretamente, por meio de alguém que conhecemos ou que muito nos é caro(a).

Estava lendo “A amizade com Deus”, de Segundo Galilea, e ali ele dizia que a oração cristã não é, primeiramente, uma questão de quantidade de tempo, uma vez que a atitude (vida) e a qualidade têm prioridade, mas é também uma questão de tempo. O que ele quer dizer, a meu ver, é que uma não exclui a outra; o foco e o tempo que investimos em oração são o que nos permite manter, mais tranquilamente, a atividade de orante ao longo da vida, sem ter que fazer reserva pro jantar. Mas, como você disse, a vida pela graça nos lembra que estamos sempre em débito com nossa amizade com Deus (o que inclui, a vida de oração), ao mesmo tempo que retira de nós todo o peso do débito, nos conduzindo aos poucos a um caminho mais libertador, de gratidão e de vida. É um paradoxo com o qual temos de lidar, sem fugas nem subterfúgios tolos. 

Assino embaixo no que disseste no último parágrafo, perfeito. Também quero aprender a viver em oração na perspectiva daquele que sofre, e sentir junto a dor, encomendando-a(o) a Deus, o único capaz de sentir e de ver o todo. Eu, porém, só vejo em parte e em parte sou visto. Compreendo sua interpretação da frase de Piper pelo “outro lado”, mas ainda continuo defendendo que este lado não é o mais forte da frase, considerando o conjunto da obra de seu autor. Se você tivesse escrito a frase, talvez pudesse eu ser mais bem convencido dessa tão elucidativa explanação.

Por fim, aproveito para citar outra excelente análise, feita por Galilea no livro mencionado:
Na amizade, o essencial é a atitude permanente para com o amigo, mais que o número de vezes que com ele encontremos. E também é mais importante a qualidade do encontro e do tratamento, que sua quantidade. De maneira semelhante, é mais importante o espírito de oração, que as práticas de oração (embora estas sejam necessárias para manter aquele). E é mais importante a qualidade do tempo de oração que sua quantidade; a determinação de entregar-se à vontade de Deus, que o simples ‘cumprimento’ de horas de oração (p. 39). 
Um abraço e obrigado pela tão construtiva reação.

Jonathan

Diálogo sobre a frase de John Piper (I)


Jon,

Em geral, concordo com você. Piper é um típico representante da teologia WASP, mas acho que você atirou à queima-roupa, sem considerar o todo. De fato, a herança pietista deformada transformou a oração individual em panaceia para todos os males da alma – ela quase se tornou na própria Graça. Esse reducionismo deixa de fora a contemplação da natureza, a leitura orante das Escrituras e mais uma série de coisas boas que a tradição cristã nos legou nesses séculos. Sem falar que pode desembocar num peticionismo egoísta, em vez de comunhão contínua com Abba.

Acho que uma coisa implícita na frase de Piper, e que você não contemplou, é o aspecto intercessório da oração. É claro que isso não tem relação com quantidade de tempo, mas gerenciamento de tempo, em prol de outras pessoas, e angústia por causa do sofrimento alheio. Nesse sentido, concordo com ele. A distração pode me levar a ignorar a realidade do outro e, neste caso, a motivação para não orar não é diferente da motivação que você denunciou. Ambas desembocam no orgulho e na satisfação do eu. Essa é uma daquelas coisas que, segundo Kierkegaard, “quem diz que tem, não tem e quem acha que não tem, tem”.

A menos que estejamos dispostos a encarar as Escrituras como mera expressão da experiência religiosa do povo de Deus, sem nenhum rigor instrutivo para a espiritualidade, não podemos confundir a oração com a vivência do Evangelho – por mais nobre e mais necessário que isso seja – pois fazer isso seria simplificar o mistério da oração em detrimento dela mesma e da espiritualidade.

De minha parte, não aprecio Piper, não oro uma hora por dia, sempre me considero em débito para com a Graça divina e procuro viver o Evangelho, mais do que falar dele. Contudo, não consigo deixar de falar com Deus acerca do sofrimento e das lutas das pessoas ao meu redor.

Abraços.

Vanderlei Frari

sexta-feira, 30 de março de 2012

Uma rápida sobre a frase de John Piper

Frase de John Piper

Sinceramente, tirando as palavras facebook e twitter, não vejo nada de novo, nem de atual nesta frase; só a velha opressãozinha evangélica de sempre, de que não conseguimos dividir nosso tempo, de que não temos tempo pra Deus, pra orar, de que não jejuamos mais, e blá blá blá. Isso é falta de uma tripla percepção, a meu ver: 1. De que os tempos são outros; mas nem por isso as atrações e fontes de entretenimento de hoje, explicam nossa dificuldade com a oração, que não é de hoje; 2. Reduz a espiritualidade a esse negócio de "tempo com Deus". Quando reconheço que minha vida é Dele, por Ele e para Ele, que tempo não é para Deus? Isso é coisa muito americana (que me perdoem os americanos não fanáticos por fórmulas) e muito Richardfosteriana (desculpem-me os fãs dele) pro meu gosto, nada de novo. 3. Não percebe que orar é mais do que ter ou não ter tempo; orar é viver, é expressão de minha constante dependência e relação com Deus. O "tempo" que dedico não necessariamente determina a qualidade da oração. Muito menos diz alguma coisa sobre meu amor a Deus ou vida na graça. Se orar é viver, por que um tempo de oração de 3 horas seria melhor que o de 3 minutos?

Ah, mas se eu não passar "um tempo" desses em oração, não estarei provando a Deus que o amo e que me interesso por um relacionamento com Ele. Isso é barganha, minha gente. Se conhecerem outro nome, mais apropriado e politicamente correto, que continuem dizendo e se enganando: "tempo com Deus", "vida devota", "coração de adorador", e sei mais lá o quê. Só sei de uma coisa: estou bastante cansado de ver a perpetuação dessas velhas e caducas opressões evangélicas, que são fruto de uma teologia muito superficial e vaga sobre oração. A vida, bem… essa é mais complexa que essas fórmulas infantis e tolas podem abraçar; e pior é que elas acabam tirando nossos olhares de coisas mais sérias, mais difíceis de ser encaradas e, mais que isso, tratadas, como o orgulho humano, por exemplo. A pessoa pode ser orgulhosa e o diabo a quatro. Mas se ora bastante e não fica perdendo tempo escrevendo respostinhas no seu blog, twitter ou facebook, tá garantida, tá agradando a Deus (ou pelo menos a opinião pública evangélica de plantão). Ora, tenha santa paciência, vamos crescer, gente boa!

Por uma teologia do saco roxo, subscrevo!

Jonathan

quinta-feira, 1 de março de 2012

Uma rápida sobre “Oração”

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Orar é mais do que um gesto, que um rito, que um jeito de “convencer” a Deus sobre nossos “puros” desejos e sinceras intenções; antes, trata-se de uma via sempre aberta de relacionamento em que, para meu benefício e das pessoas em favor de quem oro, expresso diante do Pai, por palavras, sem palavras, através de ações ou do silêncio quieto de um quarto, o que sinto, penso e acredito, bem como minhas (nossas) dores, alegrias, queixas e gratidão.

Nesse sentido, a oração não é algo que nos retira do contato com as coisas comuns (ou mesmo as incomuns e trágicas) da vida cotidiana, nem nos eleva para um plano além do mundo e da condição humana, mas, ao contrário, é o que nos ajuda a estar mais atentos a esta vida, que a cada momento pulsa e gira ao nosso redor, e à presença constante e, na maioria das vezes suave e silenciosa, de Deus... No choro de uma mãe, na alegria e sorriso de um casal, na convulsão tortuosa do trânsito das grandes cidades, na brisa leve e fresca das manhãs no campo, no pranto e no riso, no luto e na alegria, e assim por diante.

Jonathan