segunda-feira, 11 de junho de 2012

Eclesiasticando

illuminated

A cada dia que passa tenho mais certeza de que manter a integridade - a coerência entre o que acreditamos, somos e vivemos - está acima de qualquer vantagem que essa vida debaixo do sol possa dar. Realmente não vale a pena ganhar o mundo todo perdendo a própria alma. Melhor é se contentar com um pequeno bocado e dormir em paz do que se fartar (de poder, prestígio, bens, etc.) - passando como trator sobre a honra e a dignidade alheias - e viver num pesadelo.

Portanto, não desperdice sua vida tentando controlar, prever ou prevalecer se tiver que desistir do principal, que é simplesmente viver: intensamente, generosamente e em paz, com gratidão a Deus e a vida, dando valor primário às pessoas as quais e com as quais se ama e se aprende a viver e amadurecer. "Carpe diem", amigos, mas com a consciência de que quase tudo nessa vida "é vaidade e correr atrás do vento"...

Jonathan - em livre parceria com O Pregador

(Imagem: Iluminated, de Vincent Van Gogh)

terça-feira, 5 de junho de 2012

O rosto poético da Teologia da Libertação



Todos os seres humanos nascem com uma vocação em comum: a vocação para a liberdade. Alguns entendem (ou simplesmente vivem, sem entender) que é possível realizar esta vocação em cativeiros. Outros, porém, muito cedo acordam para uma realidade mais ampla, complexa e difícil, de que esta vocação só pode ser concretizada à medida que o ser que a vive se indispõe contra os muitos condicionamentos a que está sujeito, se colocando como antítese de toda forma de cativeiro. Rubem Alves é um desses homens que, em nome de uma visão de liberdade, se rebelou contra os sistemas de clausura, seja do pensamento, da ação, da escolha e da vida humanas. 

Mas, para entender quem é Rubem Alves, talvez seja melhor começar por quem ele foi, mas não considera mais ser. 

Rubem Alves foi um militante protestante contra o que chamou de “protestantismo de reta doutrina” em busca do “princípio protestante”, que aponta para um protestantismo que um dia protestou, mas que se viu perdido em suas expressões teológicas, confessionais e eclesiásticas. Queria de volta um protestantismo do canto, pois dizia que “as pessoas comuns cantaram a Reforma antes de entendê-la”. Afirmava ter se tornado protestante por seu gosto pela diferença. Deixou de ser protestante quando nele não enxergava mais nem o canto, que “dá asas aos pés”, nem o gosto pela diferença. Foi também pastor presbiteriano, e teólogo. Inspirou-se no exemplo de Albert Schweitzer, que conseguia simultaneamente ser teólogo, organista, médico, e ainda ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Em tempos de ditadura, foi denunciado e perseguido pela própria Igreja Presbiteriana do Brasil em que servia, por causa de suas ideias consideradas liberais e subversivas demais. Teve que sair pela porta dos fundos, lotado entre os “hereges”. Para além da teologia, navegou pelos mares da filosofia, da literatura, da educação e da psiquiatria, cruzando com proficiência as fronteiras do saber, da escrita e do ensino. Por isso é respeitado muito mais fora do que dentro do apequenado universo teológico brasileiro.

Atualmente, Rubem Alves se considera um “teólogo livre e com alegria”, educador não-ortodoxo, amante de poesia e literatura. Os golpes duros que recebeu o conduziram a estes campos; respondeu aos inquisidores e seus tribunais com poesia e bom-humor. Há muito não se considera mais teólogo, nem religioso. Já havia dado indícios desse caminho nos idos de 1960-70, quando publicou ensaios como “O vento sopra onde quer... confissões de um protestante obstinado”, onde dizia: “Quem quer que se atreva a liquidar os dissidentes está possuído da ilusão de ser o detentor do monopólio divino e sucumbe à tentação e à crueldade da espada – eclesial ou secular, não importa”.  Um de seus últimos suspiros na esfera acadêmica da teologia se deu através de sua tese de doutorado em Princeton: “Towards a Theology of Liberation Corpus”, publicada primeiramente em inglês com o título “Theology of Human Hope” (1969), e depois em português já com título semelhante ao da obra em análise: “Por uma teologia da libertação” (relançada pela Fonte Editorial em 2012). Na ocasião desta obra, Alves já não era pastor, abraçava com avidez tanto o humanismo como o liberalismo, e dava início a uma linguagem que se popularizou, pela via do realismo, mais em seio católico (embora seja muito consumida por leitores-pesquisadores protestantes): a teologia da libertação.

Ao ler este livro (em seus seis capítulos), é possível, especialmente para um assíduo freqüentador das obras de teólogos da libertação, notar que a filiação de Alves com esta teologia, que amadureceu e cresceu especialmente entre teólogos católicos, é fundamentalmente nomenclatural. Esta pode ser uma tese básica sobre este livro. O propósito que o livro advoga, por sua vez, é o da entrada definitiva da teologia no campo do humano e do político, deixando para trás a linguagem da metafísica e as metanarrativas, buscando adotar uma nova linguagem, que deve ser expressão de sua condição histórica e relativa. 

A título de apreciação crítica mais pontual sobre esta obra, gostaria de falar apenas sobre uma importante contribuição e uma evidente lacuna que nela observo. 

Primeiro, ela contribui, especialmente para os estudiosos do tema da teologia da libertação e da temática da liberdade, a perceber as interpolações que se pode observar entre a linguagem (os termos, conceitos, ideias) utilizada por Alves e aquela que foi apropriada, recriada ou re-significada por teólogos da libertação na América Latina como Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff, Juan Luís Segundo e outros em suas abordagens. A concepção de um sujeito da história, artífice de seu próprio destino, que emerge a partir de uma nova consciência e com uma nova linguagem, de libertação, me parece ser a mais significativa. A concepção de que, no caminho rumo à liberdade, existe sempre a possibilidade e o risco de se perder, mas nem por isso devemos abandoná-lo, uma vez que é da natureza da liberdade o arriscar, é outra ideia importante que este livro aponta, como subsídio a uma compreensão teológica da liberdade.

Segundo, ainda falando sobre esse sujeito da história, postulado por Alves, é evidente a lacuna que este autor não preenche – e que os teólogos da libertação o fazem com mais propriedade – que é a de conferir um rosto a este sujeito. Qual é a sua cor, nacionalidade, classe, contexto, particularidade, causa ou necessidade concreta? Simplesmente não há resposta para nada disso. Assim, embora Rubem Alves, ou seu livro (como uma espécie de canto do cisne), possa ser considerado um referencial teórico ou inspirador da linguagem da libertação, lhe falta o que é fundamental nas teologias da libertação posteriores a ele mesmo: o elemento contextual e da eficácia, sobre a qual ele fala apenas de passagem. A crítica, portanto, é que, no fim das contas, o que Alves parece defender é, paradoxalmente, uma concretude abstrata, um sujeito sem rosto e uma libertação sem causas históricas, fruto talvez de sua veia mais poética que propriamente realista ou comprometida visceralmente com causas históricas. 

Por fim, e a despeito da crítica acima, vale dizer que a leitura desta obra é indispensável ao público acadêmico de teologia especialmente; também aos estudiosos interessados nas raízes histórico-teológicas do movimento da teologia da libertação, e aos estudantes pesquisadores, curiosos ou apaixonados pelo tema da liberdade e as inúmeras facetas que ele pode assumir em uma análise de cunho teológico. 


[Imagem: Extraída do site da Assembléia de Deus Betesda].
Jonathan

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Oração, eficácia e anarquia

Revolution
Poucas vezes, associamos o tema da oração a práticas de cunho não (ou nada) religioso, como por exemplo, aquelas que, no cotidiano, tocam o campo da ação e da eficácia. Eficácia aqui tem a ver com a qualidade da ação que promove alguma transformação objetiva na realidade. Nesse sentido, sua relação com a oração envolve a transformação promovida no viver concreto de pessoas e em seu mundo. Assim, mais importante que as fórmulas pragmáticas de eficácia – a oração eficaz como aquela “que funciona” – é verificar se a oração representa uma revolução de mentalidade e de estilo de vida ou se tem sido mais um instrumento ideológico de alienação e amansamento de consciências a serviço dos sistemas de dominação e adestramento vigentes.

Vale lembrar aqui da advertência feita pelo diretor de cinema norte-americano Godfrey Reggio: “Penso que é ingênuo orar pela paz mundial se não vamos mudar a forma na qual vivemos”. De nada adianta orar pelo governo e seus governantes sem que isto nos conduza a um patamar de indignação, protesto e denúncia quando, por exemplo, no governo há (e quase sempre há) corrupção, improbidade e injustiça. É inócuo o compromisso de oração de sacerdotes de uma cidade, que oram, ungem e abençoam o prefeito em seu gabinete, sem a eficácia de uma conversa franca, construtiva e inteligente sobre a maneira como este e seus correligionários têm administrado a cidade. É triste quando circunscrevemos a oração apenas aos terrenos do “religioso” ou do “espiritual”, pois, assim fazendo, arrancamos seu potencial de transformação integral da vida humana.

Em Londrina temos vivenciado nos últimos tempos uma situação política das mais vergonhosas e tristes de nossa história, na qual prefeito, primeira-dama, funcionários de alto e de baixo escalão, além de alguns vereadores estão sendo acusados e investigados pela (suposta em alguns casos, e comprovada em outros) participação em um esquema de corrupção, lavagem de dinheiro, improbidade administrativa, suborno e extorsão, dentre outros. Enquanto não aparecem evidências claras de seu envolvimento direto no esquema, o prefeito Barbosa Neto, por sua vez, tem adotado o discurso manjado do político “João sem braço”, tal qual o presidente Lula no famigerado esquema “Mensalão”, de dizer que é inocente, não sabia de nada e, como “prova” disso, faz questão de que tudo seja devidamente apurado e investigado em seu governo. A impressão que fica é que o mito do “caçador de marajás”, desde Fernando Collor de Melo, se perpetua com certo grau de sucesso na política brasileira, junto com a “moral” das vistas grossas e da cara de pau.

É lamentável que nós (cidadãos, religiosos ou não) não tenhamos opinião alguma a emitir, nos resignando a tão somente papagaiar o repetido jargão de que “na política é assim mesmo”, ou a fazer a conformada oração “para que Deus abençoe nossa cidade e nossos governantes”. É um devaneio dos mais canalhas reivindicar prosperidade, bênçãos e a conquista do território da cidade “para Jesus” quando nela grassam sinais do anti-Reino bem diante dos nossos lustrosos narizes! Quando isso acontece precisamos dizer que há um cristianismo não-constantiniano que ainda subsiste, e não está identificado ou mancomunado com qualquer sistema ideológico ou político, mas tem seu compromisso primeiro com o Reino de Deus e seus valores. Isto implica, talvez, na identificação com um modo não-integrado, não-sistêmico ou institucional, anárquico e pacifista de ser, no qual a oração deixa de ser um instrumento a serviço da “ordem” e do “progresso”, passando a ser um instrumento desestabilizador da (des)ordem humana perversa.

Entenda-se o elemento de anarquia aqui não como apologia infantil da pura desordem, ausência de qualquer governo ou mesmo da violência gratuita, mas como um voto de protesto e contestação em prol do direito à vida e do ser humano, e como rejeição dos caminhos associados ao poder como dominação, vigente nas instituições, religiosas ou políticas, governamentais ou não. A oração da eficácia é a oração por justiça, que se conjuga com a luta corajosa contra a injustiça onde quer que ela, e a despeito de que forma, apareça, e em favor da paz do Reino, que é uma “paz com voz”.

Esse é um tipo de oração que pode nos livrar da associação perversa e hipócrita, seja com a agenda de oração dos sacrílegos ou com a agenda de poder dos corrompidos. Como diz Gabriel, O Pensador, “não adianta olhar pro céu com muita fé e pouca luta”. Então, até quando a gente vai ficar levando porrada (risada e cusparada na face) nessa vida aburguesada que levamos, fazendo de conta que não estamos sendo atingidos, lesados, ou que não é da nossa conta? A corrupção é também resultado de nossa omissão. Pense nisso.  
Jonathan

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Diálogo sobre a frase de John Piper (III)

molho-de-pimenta

Prezado Sidney,

Obrigado pela cooperação, especialmente no sentido de encontrar os pontos de convergência entre Jonathan e eu.

Creio que o Jonathan atacou, primariamente, a concepção teológica de Piper, mas para isso precisou recorrer à sua própria concepção acerca da oração. Logo, não vejo que houve fuga do post original ao iniciarmos uma conversa sobre a natureza desta prática tão bem-aventurada.

Temos que fazer justiça à teologia do reino do norte. Para ela, tempo de oração não é uma questão de imposição divina, mas um meio de produção. Sem dúvida, a frase de Piper denuncia essa percepção. O protestantismo euro-americano, apegado ao trabalho (como bem delineou Weber), sequestrou a oração da contemplatividade mística medieval e lhe deu um caráter laborativo. Orar é produzir e, portanto, neste sentido, “tempo é dinheiro”. É claro que o lucro advindo de tal labor se traduz nas almas convertidas ao Evangelho, no crescimento da Igreja, nos avivamentos periódicos e no estabelecimento do Reino de Deus. Destaco que em nada isso é negativo, mas não faz jus à riqueza da oração, no sentido bíblico do termo.

Outro fator a se considerar é que a oração – especialmente nas teologias holiness, mas também nas reformadas – é entendida como meio de purificação da alma e do corpo. Esta percepção está presente na ascese mística medieval, mas nesta era consciente, ativa e intencional. O modo de pensar de alguns protestantes pragmáticos anglo-americanos é diferente: esta purificação acontece de forma quase passiva e inconsciente – uma espécie de transformação osmótica ou radioativa. Assim, quanto mais tempo expostos à presença divina, maior a purificação – ainda que isso seja feito em meio a devaneios da mente, exaustão física ou tédio. Novamente, tempo é importante, de acordo com essa teologia.

O equívoco aqui, entre outros, é situar Deus em um momento ou local, não o reconhecendo em toda a vida. Além disso, a compreensão que se tem de purificação não passa pelos processos dinâmicos da experimentação, retração, reconhecimento, tentativa, sofrimento, êxito, etc. É um processo que não passa pela filtragem da vida – algo dinâmico, fluido e forçado –, mas pela decantação. Ora, sabemos que água decantada “parece” limpa, até que seja agitada novamente.

Portanto, a prática da oração não deve desprezar os aspectos positivos dos sentidos laborativo e contemplativo, mas deve ser encarada, também, como um processo contínuo, não contingencial, auto-reflexivo, terapêutico, solidário e dialogal.

Espero ter jogado um pouco mais de pimenta neste molho.

Vanderlei Frari

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Diálogo sobre a frase de John Piper (II)



Excelente e assertiva análise, caro (e claro) Vanderlei. Você está certo, quando diz que “atirei” – embora não sei se concordo com o "à queima roupa", que pode significar muita coisa. Meu texto é franco atirador mesmo, porque o escrevi com a pena em chamas, por querer provocar o pensamento (e acredito que provoquei) e por estar farto deste tipo de doutrinismo, com a qual lido desde que me conheço por gente. O processo de libertação disso é longo, meu amigo, quase como se livrar de um câncer. 

Não é que desconsidero o todo, entendo o que você diz. É que, quando escrevi isso, não estava preocupado em considerar “todo” algum, somente a parte que me interessava desconstruir – o que certamente não inclui o aspecto intercessório da oração, muito menos o aspecto de que temos de dedicar “algum tempo” (relativo) para isso. Só me recuso à redução disso (a oração) a fórmulas e padrões universais, ou mesmo da qualidade da vida do orante somente ao tempo dedicado. Não há dúvidas de que o tempo também influi – um exemplo disso está em como tendemos a nos focar mais na oração quando um infortúnio nos atinge, seja diretamente ou indiretamente, por meio de alguém que conhecemos ou que muito nos é caro(a).

Estava lendo “A amizade com Deus”, de Segundo Galilea, e ali ele dizia que a oração cristã não é, primeiramente, uma questão de quantidade de tempo, uma vez que a atitude (vida) e a qualidade têm prioridade, mas é também uma questão de tempo. O que ele quer dizer, a meu ver, é que uma não exclui a outra; o foco e o tempo que investimos em oração são o que nos permite manter, mais tranquilamente, a atividade de orante ao longo da vida, sem ter que fazer reserva pro jantar. Mas, como você disse, a vida pela graça nos lembra que estamos sempre em débito com nossa amizade com Deus (o que inclui, a vida de oração), ao mesmo tempo que retira de nós todo o peso do débito, nos conduzindo aos poucos a um caminho mais libertador, de gratidão e de vida. É um paradoxo com o qual temos de lidar, sem fugas nem subterfúgios tolos. 

Assino embaixo no que disseste no último parágrafo, perfeito. Também quero aprender a viver em oração na perspectiva daquele que sofre, e sentir junto a dor, encomendando-a(o) a Deus, o único capaz de sentir e de ver o todo. Eu, porém, só vejo em parte e em parte sou visto. Compreendo sua interpretação da frase de Piper pelo “outro lado”, mas ainda continuo defendendo que este lado não é o mais forte da frase, considerando o conjunto da obra de seu autor. Se você tivesse escrito a frase, talvez pudesse eu ser mais bem convencido dessa tão elucidativa explanação.

Por fim, aproveito para citar outra excelente análise, feita por Galilea no livro mencionado:
Na amizade, o essencial é a atitude permanente para com o amigo, mais que o número de vezes que com ele encontremos. E também é mais importante a qualidade do encontro e do tratamento, que sua quantidade. De maneira semelhante, é mais importante o espírito de oração, que as práticas de oração (embora estas sejam necessárias para manter aquele). E é mais importante a qualidade do tempo de oração que sua quantidade; a determinação de entregar-se à vontade de Deus, que o simples ‘cumprimento’ de horas de oração (p. 39). 
Um abraço e obrigado pela tão construtiva reação.

Jonathan

Diálogo sobre a frase de John Piper (I)


Jon,

Em geral, concordo com você. Piper é um típico representante da teologia WASP, mas acho que você atirou à queima-roupa, sem considerar o todo. De fato, a herança pietista deformada transformou a oração individual em panaceia para todos os males da alma – ela quase se tornou na própria Graça. Esse reducionismo deixa de fora a contemplação da natureza, a leitura orante das Escrituras e mais uma série de coisas boas que a tradição cristã nos legou nesses séculos. Sem falar que pode desembocar num peticionismo egoísta, em vez de comunhão contínua com Abba.

Acho que uma coisa implícita na frase de Piper, e que você não contemplou, é o aspecto intercessório da oração. É claro que isso não tem relação com quantidade de tempo, mas gerenciamento de tempo, em prol de outras pessoas, e angústia por causa do sofrimento alheio. Nesse sentido, concordo com ele. A distração pode me levar a ignorar a realidade do outro e, neste caso, a motivação para não orar não é diferente da motivação que você denunciou. Ambas desembocam no orgulho e na satisfação do eu. Essa é uma daquelas coisas que, segundo Kierkegaard, “quem diz que tem, não tem e quem acha que não tem, tem”.

A menos que estejamos dispostos a encarar as Escrituras como mera expressão da experiência religiosa do povo de Deus, sem nenhum rigor instrutivo para a espiritualidade, não podemos confundir a oração com a vivência do Evangelho – por mais nobre e mais necessário que isso seja – pois fazer isso seria simplificar o mistério da oração em detrimento dela mesma e da espiritualidade.

De minha parte, não aprecio Piper, não oro uma hora por dia, sempre me considero em débito para com a Graça divina e procuro viver o Evangelho, mais do que falar dele. Contudo, não consigo deixar de falar com Deus acerca do sofrimento e das lutas das pessoas ao meu redor.

Abraços.

Vanderlei Frari

sexta-feira, 30 de março de 2012

Uma rápida sobre a frase de John Piper

Frase de John Piper

Sinceramente, tirando as palavras facebook e twitter, não vejo nada de novo, nem de atual nesta frase; só a velha opressãozinha evangélica de sempre, de que não conseguimos dividir nosso tempo, de que não temos tempo pra Deus, pra orar, de que não jejuamos mais, e blá blá blá. Isso é falta de uma tripla percepção, a meu ver: 1. De que os tempos são outros; mas nem por isso as atrações e fontes de entretenimento de hoje, explicam nossa dificuldade com a oração, que não é de hoje; 2. Reduz a espiritualidade a esse negócio de "tempo com Deus". Quando reconheço que minha vida é Dele, por Ele e para Ele, que tempo não é para Deus? Isso é coisa muito americana (que me perdoem os americanos não fanáticos por fórmulas) e muito Richardfosteriana (desculpem-me os fãs dele) pro meu gosto, nada de novo. 3. Não percebe que orar é mais do que ter ou não ter tempo; orar é viver, é expressão de minha constante dependência e relação com Deus. O "tempo" que dedico não necessariamente determina a qualidade da oração. Muito menos diz alguma coisa sobre meu amor a Deus ou vida na graça. Se orar é viver, por que um tempo de oração de 3 horas seria melhor que o de 3 minutos?

Ah, mas se eu não passar "um tempo" desses em oração, não estarei provando a Deus que o amo e que me interesso por um relacionamento com Ele. Isso é barganha, minha gente. Se conhecerem outro nome, mais apropriado e politicamente correto, que continuem dizendo e se enganando: "tempo com Deus", "vida devota", "coração de adorador", e sei mais lá o quê. Só sei de uma coisa: estou bastante cansado de ver a perpetuação dessas velhas e caducas opressões evangélicas, que são fruto de uma teologia muito superficial e vaga sobre oração. A vida, bem… essa é mais complexa que essas fórmulas infantis e tolas podem abraçar; e pior é que elas acabam tirando nossos olhares de coisas mais sérias, mais difíceis de ser encaradas e, mais que isso, tratadas, como o orgulho humano, por exemplo. A pessoa pode ser orgulhosa e o diabo a quatro. Mas se ora bastante e não fica perdendo tempo escrevendo respostinhas no seu blog, twitter ou facebook, tá garantida, tá agradando a Deus (ou pelo menos a opinião pública evangélica de plantão). Ora, tenha santa paciência, vamos crescer, gente boa!

Por uma teologia do saco roxo, subscrevo!

Jonathan

quinta-feira, 1 de março de 2012

Uma rápida sobre “Oração”

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Orar é mais do que um gesto, que um rito, que um jeito de “convencer” a Deus sobre nossos “puros” desejos e sinceras intenções; antes, trata-se de uma via sempre aberta de relacionamento em que, para meu benefício e das pessoas em favor de quem oro, expresso diante do Pai, por palavras, sem palavras, através de ações ou do silêncio quieto de um quarto, o que sinto, penso e acredito, bem como minhas (nossas) dores, alegrias, queixas e gratidão.

Nesse sentido, a oração não é algo que nos retira do contato com as coisas comuns (ou mesmo as incomuns e trágicas) da vida cotidiana, nem nos eleva para um plano além do mundo e da condição humana, mas, ao contrário, é o que nos ajuda a estar mais atentos a esta vida, que a cada momento pulsa e gira ao nosso redor, e à presença constante e, na maioria das vezes suave e silenciosa, de Deus... No choro de uma mãe, na alegria e sorriso de um casal, na convulsão tortuosa do trânsito das grandes cidades, na brisa leve e fresca das manhãs no campo, no pranto e no riso, no luto e na alegria, e assim por diante.

Jonathan

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A miséria da busca pela felicidade (final)

rainy day

Na vida cristã, felicidade não é objeto, nem fim e nem pretexto, mas fruto (não casual e não artificial) do encontro com Deus (consigo e com o outro) no caminho das desventuras bem-aventuradas da vida. Dessa forma, hoje posso dizer que não sou e nem me sinto tentado a ser discípulo do Cristo pela proposta fisiologista – e propagandística (desculpem o pleonasmo) – para “ser feliz com Jesus”. Primeiro, porque esta “promessa” inexiste no Evangelho. Segundo, porque nem sempre sou, estou ou me sinto alegre ou feliz, e isto não é nem de perto sinal de que deixei de estar com Cristo – está na hora de parar com essa balela doentia! Terceiro, porque você não encontra uma palavra sequer nos discursos de Jesus, ou dos apóstolos, mesmo os de ânimo, que tente mostrar uma realidade diferente do que ela é. O que vejo é um realismo esperançoso e uma esperança realista. Por fim, ainda tem o nó, que prefiro não desatar, de pessoas que conheço que garantem ter uma vida saudável e feliz sem nunca ter passado pelo apelo ou dito “eu aceito”. Há mistérios que nem a mais pretensiosa ou competente das teologias pode desvendar. E é muito bom que assim seja, do contrário não seria mais teo-logia e sim diabo-logia.

Tornei-me seguidor de Cristo pela misteriosa e graciosa atração por seu amor, demonstrado na cruz do calvário, e pela consciência que passei a ter, pelo Espírito, do consequente compromisso com o caminho da cruz. Se encontrei a felicidade nesse caminho é pela simples alegria de a ele pertencer, de poder ser chamado de e amado como filho, e pela imensa gratidão e contentamento que de mim brotam – não sem lutas, revoltas ou sofrimentos, afinal sou humano – em meio às mais variadas circunstâncias.

Para Paul Tillich, o que cria a alegria em alguém é a afirmação do “ser essencial” desse alguém a despeito de desejos e ansiedades.[1] Não estou seguro se concordo que a alegria é “criada”, pois isto pode dar certo tom de artificialidade ao processo; prefiro uma palavra que Tillich mesmo usa depois: aprendizado. Lembrando do que disse Paulo aos Filipenses: “Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade” (Fp 4.12b – NVI). Isso mesmo, alegria é aprendizado. Dito isto, podemos retornar a Tillich:

Lucílio é exortado por Sêneca a fazer sua ocupação, o “aprender como sentir alegria”. Não é à alegria de desejos satisfeitos que ele se refere, porque a alegria real é “assunto sério”: é a felicidade de uma alma que é “elevada acima de todas as circunstâncias”. A alegria acompanha a auto-afirmação de nosso ser essencial, a despeito das inibições provocadas em nós pelos elementos acidentais. Alegria é a expressão emocional do corajoso Sim ao verdadeiro ser próprio de uma pessoa.[2]

Esta alegria se expressa no pranto tanto quanto no riso; e nos mais recônditos de nossa alma, ainda que muitas vezes ferida, triste, sem horizontes, existe uma alegria escondida, a alegria de que ser é o suficiente, pois felizes podem ser aqueles que aprendem que na vida não precisamos ter ou fazer tantas coisas. O mais importante é caminhar, e de modo mais despretensioso possível, para que os sonhos e as pretensões de Deus encharquem nossos corações, mobilizando-nos para uma jornada mais compassiva, sensível e agradecida.

A alegria de simplesmente ser-em-Deus nos ajuda a experimentar do gozo do trabalho e da vida material com mais naturalidade e menos apego, ilusão e dependência. Vale recordar aqui algumas das constatações do autor de Eclesiastes, de que “não há nada melhor para o homem do que desfrutar do seu trabalho, porque esta é a sua recompensa (3.22), e que “poder comer, beber e ser recompensado pelo seu trabalho é um presente de Deus” (3.13). Auxilia-nos, ainda, a aprender a como lidar melhor (e até debochar, sem grandes culpas ou neuroses) das eventuais convulsões do ego, vaidades e mesquinharias como sendo parte indissociável dessa arte (torta) de ser humano – levar a sério o pecado não implica em se levar a sério demais o tempo todo, o que pode ser tão doentio quanto o descaso para consigo e suas responsabilidades. Descobrir esta alegria é aprender a viver sabendo que basta a cada dia o seu próprio mal, e também o seu próprio bem, e a desfrutar dos pequenos, simples e belos momentos do cotidiano como sendo especiais e repletos de singularidade.

A esperança cristã, contudo, também é paradoxal; nela não se separam o gosto de viver a vida que se tem (aceitação) do anseio pela ressurreição e a vida eterna (inquietude). A ética da aceitação jubilosa, presente na visão trágica de Rosset, por exemplo, se dissocia da visão cristã quando se resigna ao provisório, quase como que dizendo que essa vida aí, da forma como é, está boa, e não se deve querer nada diferente disso. Segundo Rosset, a alegria é a “força maior” precisamente porque dispensa a esperança – entendida por ele apenas como atração pelo gozo de uma “outra vida” e, por isso, “força mais do que duvidosa”.[3] Entretanto, perguntaria a Rosset como a aceitação jubilosa pode resistir sem a esperança? É ela quem a alimenta; a aceitação só pode ser, por assim dizer, “jubilosa”, contente, porque não apenas aceita a provisoriedade em si, mas a provisoriedade do que é provisório. Em outras palavras, quero dizer que a esperança cristã aceita e convive com o provisório, mas não relega a ele a última palavra. Duvido que Rosset fique jubiloso com minha apropriação de sua aceitação jubilosa.

Por outro lado, a felicidade no encontro com Cristo, como temos visto, também incorpora a dimensão trágica na medida em que não a nega, mas propõe o enfrentamento e a convivência. É parceira das tristezas, injúrias e dores e, às vezes no “olho do furacão”, de modo incompreensível, ressurge como fênix, como “socorro bem presente”. Aqui talvez seja válida a recorrência (ainda que deliberada) a Rosset, quando ele afirma que esse “socorro da alegria” permanece, para nosso bem, misterioso, “impenetrável aos próprios olhos daquele que sente seu efeito benéfico”.[4] Segundo ele:

O homem verdadeiramente alegre pode ser reconhecido, paradoxalmente, por sua incapacidade de precisar com o que fica alegre e de fornecer o motivo próprio de sua satisfação.[5]

A felicidade, nesse sentido, faz (e se desfaz) em um misto de satisfação e alegria com e, aparentemente, sem motivo. Podemos estar obviamente alegres por uma linda razão, mas também “rindo à toa”.

Jonathan

Notas


[1] TILLICH, Paul. A coragem de ser. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972, p. 11. Grifo meu.
[2] Ibid, p. 11. Grifo do autor.
[3] ROSSET, Op. Cit., p. 28, 29.
[4] Ibid., p. 27.
[5] Ibid., p. 08.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A miséria da busca pela felicidade (4)

felicidade

A felicidade no encontro com Cristo

Abordar a questão da felicidade de Cristo é fascinante e, ao mesmo tempo, muito difícil. Isto, porque entendo que a felicidade em perspectiva cristica é um paradoxo. Nesse sentido, é insuficiente (e até desonesto) sair por aí dizendo coisas como “só em Jesus encontramos felicidade” ou “vem ser feliz com Jesus”. Afinal, no “frigir dos ovos”, como dizem por aí, o que isto significa? Que espécie de felicidade é essa?

Bem, Jesus afirma (não como promessa, mas como um tipo de conforto realista aos discípulos) que eles seriam felizes – abençoados ou bem-aventurados – enquanto vivenciassem uma série de situações nada confortáveis e que, até por isso, estão e sempre estarão em franco contraste com o entendimento mais ou menos comum que as pessoas têm de felicidade. Vejamos alguns trechos deste discurso – conhecido como “As bem-aventuranças” – na tradução “The Message”, de Eugene Peterson.

Segundo Jesus, felizes são:

...aqueles que se encontram no fim da linha. Com menos de si mesmo, sobra lugar para mais de Deus e de sua lei.

...aqueles que sentem terem perdido o que há de mais precioso para eles. Só assim poderão ser abraçados por Aquele para o qual são o que há de mais precioso.

...aqueles que desenvolveram um bom apetite por Deus. Sua comida e bebida serão a melhor refeição que já tiveram.

...aqueles cujo comprometimento com Deus provoca perseguição. Esta os conduzirá mais profundamente ao Reino de Deus.[1]

A felicidade aqui tem a ver, antes de tudo, com um modo de ser, no qual está embutida uma aceitação (jubilosa) da irremediável condição em que os discípulos se encontrariam à medida que tentassem ser fiéis aos valores e modo de vida radical que Jesus depois apresenta ao longo do Sermão do Monte. Pensando na felicidade no encontro com Cristo, gostaria de destacar algumas coisas que me chama atenção somente nos trechos acima elencados.

Primeiro: que ser feliz não tem (diretamente) nada a ver com satisfação (pelo menos não ao modo imediatista, que quer tudo de bom aqui e agora) ou com bem-estar, mas se parece mais com um “contentamento descontente” (lembrando aqui da poesia de Camões).

Segundo: que o que está em jogo não chega nem perto de uma busca pela felicidade, uma vez que não são a pretensão ou a ambição que dão o tom, mas o abandono e a despretensiosidade dos despossuídos.

Terceiro: que, entre perdedores e ganhadores, aqueles que perdem serão consolados com a esperança de encontrar alguma vantagem na desvantagem.

Quarto: que a realização dos felizes não se encontra tanto na conquista da autonomia quanto na graça da dependência. Como disse C. S. Lewis, “o próprio Deus é o combustível que nosso espírito deve queimar, ou o alimento do qual deve se alimentar”, e ainda que “Deus não pode dar uma paz e uma felicidade distintas dele mesmo, porque fora dele elas não se encontram”.[2]

Finalmente, o centro da existência dos felizes ou bem-aventurados não está neles, ou em qualquer “vitória” que possam conseguir aqui e agora, mas em Deus e na construção de seu reino, não somente nesta história, mas também dentro dela. Se a felicidade pousa em seus ombros não é pela e nem na busca, mas em meio ao gradativo desprendimento da vida simples e a liberdade interior de quem se deixa ser guiado mais pelo sopro do Espírito da vida que pelos ecos e ventanias do espírito do tempo.

Jonathan

Notas


[1] Mateus 5, versos 3, 4, 6, 10. PETERSON, Eugene. The Message: The Bible in contemporary language. Colorado: NavPress, 2005. Tradução minha.
[2] LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 66.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A miséria da busca pela felicidade (3)

The otherness

A felicidade no encontro com o outro

Quem é o outro? Objeto, meio ou parte integrante de nossa busca pela felicidade?

Bem, este não é um ensaio sobre alteridade, e sim sobre felicidade. Não pretendo aqui explorar múltiplas compreensões e significados do outro – como Levinas e Buber, por exemplo, já o fizeram e muito bem – mas apenas situá-lo em relação à busca em questão. Então, no tocante a tal busca, diria, em primeiro lugar, que o outro é tanto aquele que possibilita como o que interdita o “meu” caminho rumo à felicidade. Quero dizer com isso que não há felicidade possível sem a presença (complementar) do outro, tanto no sentido egoísta e privatista – do outro como aquele que promove, aplaude ou inveja a “minha felicidade” – seja no aspecto altruísta da solidariedade e do companheirismo, do outro que compartilha da vida comigo e só assim ela tem sentido, tanto na alegria, como na dor, como se diz na poesia “Tomara”, de Vinícius de Moraes: “E pense muito que é melhor se sofrer junto que viver feliz sozinho”.

Mas o outro (que pode ser uma mesma pessoa) cumpre essa função dúbia e paradoxal da possibilidade e da interdição. Ser o outro de alguém ou ter alguém como o seu outro implica, dessa forma, em aceitar e aprender a lidar com as frustrações, decepções e infelicidades provocadas invariavelmente na relação. Nessas horas, na mesma medida em que outrora sentimos necessidade da presença do outro, também sentimos – meses, dias, horas depois (e até simultaneamente) – repulsa e desejo de que ele ou ela vá embora pelas portas do fundo para que, quem sabe, a felicidade retorne pelas portas da frente.

O problema é que, seguindo esse raciocínio, ela não retorna sem o outro – provocador e interruptor da felicidade. Nesse interregno, há uma grande chance de que desejemos pagar um preço cada vez menor nessa relação com o outro. Se ser feliz é o que há de mais importante na vida, então o outro não passaria de uma peça na engrenagem, que serve unicamente a este propósito. E se não servir, vamos atrás de outro que sirva e satisfaça, mesmo que com prazo de validade – muitos dos casamentos atuais que o digam. Como diz a canção de John Mayer (“I’m gonna find another you”): “Eu vou agora fazer algumas coisas que você não me deixaria fazer, eu vou achar um outro de você”. No mundo em que temos vivido é assim: na mesma proporção em que se descarta um amor, por exemplo, se consegue outro – só não consigo entender como ainda se pode falar em “amor” nestes termos.

Na perspectiva da fé cristã, o outro é também chamado de “próximo”. Mas o que significa ser próximo de alguém?

Lucas conta uma história emblemática a este respeito. Certa vez, um legista ou perito na lei se aproxima de Jesus e, desejando testá-lo, pergunta acerca do caminho para a vida eterna. Jesus, por sua vez (e como de costume), responde com outra pergunta: “O que diz a lei?”. Então o legista cita o mandamento do amor (cf. Levítico 19.18), que termina com um “ame teu próximo como a ti mesmo”. Quando Jesus confirma ser este o caminho, dizendo “vá, faça isso e encontrarás vida”, vem a pergunta: “Quem é o meu próximo”?

Com a nova pergunta em mente, Jesus conta então a parábola do samaritano (ver Lucas 10.29-37). Todos já conhecemos o enredo da parábola; o que me interessa destacar aqui é a pergunta final de Jesus diante da história e a resposta do legista. Jesus pergunta qual dos três caminhantes (se o sacerdote, o escriba ou o samaritano) foi o próximo do homem quase morto à beira do caminho. A resposta do legista (embora lacônica no que diz respeito à pessoa do samaritano) vai direto ao ponto: “Foi aquele que deu prova de bondade para com ele”.

Como comenta Segundo Galilea, o samaritano foi irmão do ferido. E assim foi não por sua religião (o levita e o sacerdote eram religiosos, o samaritano era considerado herético), nem por sua raça (tida como impura e inferior por parte dos judeus), mas por sua bondade e dedicação aquele homem. Assim, nas palavras de Galilea: “O meu próximo não é aquele que compartilha minha religião, minha pátria, minha família ou minhas ideias. O meu próximo é aquele com o qual eu me comprometo”.[1]

A felicidade, na perspectiva cristã, é incompatível com os caminhos do privatismo pós-moderno; de igual modo, não se equipara à hipocrisia e alienação de representações religiosas como as da parábola. Afirma, sem ser piegas, a necessidade do outro, assumindo e reconhecendo sua condição (demasiado humana) de provocador e interruptor da felicidade. Mas, mais do que requerer o outro para mim, sinto-me estimulado por esta perspectiva a ser o outro, o próximo, de alguém. Só que, quando isso acontece, a felicidade deixa de ser um fim, como veremos adiante, no próximo post.

Jonathan

Notas


[1] GALILEA, Segundo. Seguir a Cristo. 2ª ed. São Paulo: Paulinas, 1979, p. 47, grifo meu.
*Imagem: Alan Rayner. Extraída de: http://www.bestthinking.com/

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A miséria da busca pela felicidade (2)

Felicitá

A felicidade no encontro com a realidade 

De que maneiras a felicidade está relacionada com a realidade? O que é o real? Ele se dá a conhecer?

Para começo de conversa, não há definição (e compreensão) possível da realidade que não passe pelo jogo do espelho. Quando nos olhamos nos espelho, o que vemos: a apresentação de quem realmente somos ou uma projeção distorcida? Alguns hoje dizem que a televisão mostra as pessoas de modo enganoso, assim como as revistas de moda, fitness, fofoca e pornografia – tudo por causa dos efeitos da produção e do photoshop: uma corzinha de mais, uma ruguinha e estriazinha de menos, e por aí vai.

Por sua vez, o espelho também produz algo ilusório. Basta pensar nas muita versões que temos de nós mesmos diante do espelho, a depender do ângulo pelo qual nos fitamos. Assim também é com a realidade. Segundo Paulo, não vemos as coisas claramente, mas “como em espelho” (1Co 13.12). Então, a realidade – “esse conjunto dos acontecimentos designados para a existência”[1] – é aquilo que existe e acontece não somente como nossos olhos e mente captam, mas muito além deles. A realidade, tal como é, me escapa; ao mesmo tempo, é indelével, porque chamada a se produzir a despeito de todos os esforços feitos para impedi-la, negá-la ou evitá-la.

Ou seja, a realidade é apresentada como aquilo que “é” independente de qualquer conceito, queixa ou rejeição. Da relação que estabeleço com este real depende minha felicidade; à medida que a realidade situa o ser que a (felicidade) deseja. A vida real, portanto, me remete ao inevitável confronto entre a felicidade desejada ou prometida e a felicidade possível.

Se, porém, Bauman estiver certo em sua tese de que a felicidade nunca deixa de ser um alvo desejável aos artistas da vida enquanto estes perseveram na estrada que supostamente conduz até ela, então nem o real, por mais trágico que seja, seria capaz de destruir seu “sonho de felicidade”; no máximo, o que ele pode fazer é adiar o sonho. Neste caso, para os paladinos pós-modernos da felicidade, a esperança (individualista) é a última que morre.

Em todo caso, ainda que não se possa acabar com o sentimento trágico da existência, é possível oferecer o narcótico adequado para suportá-lo ou sublimá-lo.

Clément Rosset, em sua reflexão filosófica sobre o tema da alegria – que subjaz e pode ser associada ao tema em questão – propõe, em contrapartida, a afirmação da alegria (que ele chama de “força maior”) enquanto um abraço jubiloso na existência (no real), não importa em que qualidade. A isto ele chama de paradoxo central da alegria: “A alegria é um regozijo incondicional na existência e a propósito da existência”.[2] Para Rosset, a alegria, nesse sentido, ou é paradoxal ou não é alegria, uma vez que está em contradição com a realidade e consigo mesma, muitas vezes. É um inexplicável e misterioso regozijo que se experimenta, mesmo em meio ao sofrimento, de tal modo que se torna “impenetrável aos olhos daquele que sente seu efeito benéfico”.[3]

Já a atitude dos corredores que estão em busca da felicidade, tal como Bauman apontou, Rosset rotula como sendo uma “negação neurótica”, pois consiste não em se acomodar, mas em negar a realidade, considerando a infelicidade não como inelutável, mas como “provisória e sujeita à eliminação progressiva”.[4] Assim, a alegria proposta por Rosset se situa além do lugar comum da felicidade líquido-moderna, analisada por Bauman; ou poderíamos concluir que tal alegria é uma antítese (uma “força maior”) que a felicidade nesses moldes.

Jonathan

Notas


[1] ROSSET, Clément. O real e seu duplo. Ensaios sobre a ilusão. 2ª ed. revista. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008, p. 29.
[2] Id. Alegria: a força maior. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000, p. 22. [3] Ibid., p. 27.
[4] Ibid., p. 27.

(Imagem: extraída do blog http://roupasuja.blog.com)

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A miséria da busca pela felicidade (1)

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A chave para a felicidade e o antídoto da miséria é manter viva a esperança de ficar feliz.

(Zygmunt Bauman)

Dentre todas as buscas e ambições humanas, a que tem a felicidade como alvo é talvez a mais comum; e é também um dos mais remotos anseios. Os antigos (filósofos, poetas e oráculos) se ocuparam em responder questões como “O que é a felicidade”, ou “O que é preciso para ser feliz”? Uma diferença básica é que, nos dias atuais, o conceito ou a definição de felicidade parece menos importante que o “ser feliz” em si ou o anelo, a busca e “a esperança de ficar feliz”, como diz Bauman na epígrafe acima.

Neste ponto, aliás, parece se encontrar a tese e principal descoberta deste sociólogo em seu livro A arte da vida. Em suas palavras:

Não sendo possível atingir um estado seguro de felicidade, só a busca desse alvo teimosamente esquivo é que pode manter felizes (ainda que moderadamente) os corredores. Nas pista que leva à felicidade, não existe linha de chegada.[1]

Para Bauman, portanto, na era pós-moderna (ou, como ele prefere, líquido-moderna) o “estado” de felicidade foi substituído pela “busca” (sem fim) pela felicidade. O permanente anseio e a expectativa de vir-a-ser é que consola (ou distrai) o desespero de ainda não ter alcançado, ou quem sabe ter experimentado somente de relance, por um momento fugidio, essa tal de felicidade.

Na busca, porém, impõe-se um “ideal de felicidade” – que varia de pessoa, caso e circunstância – de onde provém parte da substância dos conceitos. E é impressionante o quanto nossos ideais humanos de felicidade são:

  1. Efêmeros: fundam-se nas vaidades relacionadas ao prazer e ao bem-estar – saúde, bens, status, poder, fama, glória. Tem uma estrutura frágil, portanto, porque sempre de passagem.
  2. Sensualistas: são baseados nas sensações, nos desejos e nas condições que nos permitem experimentar somente o prazer na vida. Felicidade, aqui, é igual a prazer e alegria sempre e dor nunca.
  3. Individualistas: concentram-se no suprimento do “eu” e no suposto “direito” que cada indivíduo tem de ser feliz. O mundo e os outros são meios, muitas vezes descartáveis: servem-me desde que (e enquanto) me façam feliz.

Ao me deparar com estes (intercambiáveis) ideais e tentando relacioná-los com uma ética cristã, pergunto se o cristianismo é um caminho para a felicidade ou uma antítese da felicidade nestes moldes? Com qual felicidade é possível identificá-lo (se é possível)?

Para responder a tais indagações, gostaria de propor, nos próximos posts, três associações (cristãs) básicas da felicidade: com a realidade, com o outro e com Cristo.

Jonathan

Notas


[1] BAUMAN, Zygmunt. A arte da vida. Rio de Janeiro: Zahar, 2009, p. 17. Grifo do autor.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Sobre a religião e seus derivados (II)

hipocrisia-religião

Quando profetas como Amós, por exemplo, criticam os cultos, encontros religiosos, ritos e formas de se “achegar a Deus”, o que afinal ele está criticando? Ele está denunciando a forma de religião predominante em Israel, sem entrar no mérito de dizer “toda religião”, ou “a religião”. Talvez uma coisa que esteja faltando às nossas genéricas classificações é “dar nome aos bois”. E isto Amós faz. Observem o seguinte trecho (na tradução “A Mensagem”, de Eugene Peterson):

Não suporto os encontros religiosos de vocês. Estou cheio dos seus congressos e convenções. Não me interessam seus projetos religiosos, seus lemas e alvos presunçosos. Estou enojado das suas estratégias para levantar fundos, das suas táticas de relações públicas e criação da própria imagem. Não suporto mais sua barulhenta música de culto ao ego. Quando foi a última vez que vocês cantaram para mim? Alguém aí sabe o que eu quero? Eu quero justiça – um mar de justiça. Eu quero integridade – rios de integridade. É isso que eu quero. Isso é tudo que eu quero (Am 5.21-24 – Grifos meus).

A religião criticada por Amós é covarde e superficial, porque marginaliza o que realmente importa e põe no centro o trivial e menos relevante. Confunde retidão com justiça própria e santidade com abstinência; faz dos sacrifícios e rituais o último bastião da espiritualidade, dissociando-a completamente da vida, da misericórdia e da sede por justiça. Afirma uma sede incontrolável por Deus e seus mandamentos, mas é incapaz de reconhecê-lo no próximo, no diferente, no samaritano à beira do caminho.

Daí, muitos desses encontros, congressos, convenções e projetos religiosos aos quais se refere o profeta, terem se tornado, para Deus, um negócio insuportável e indigno de atenção. Mais “culto ao ego” que outra coisa. Daí a pergunta: “Quando foi a última vez que vocês cantaram para mim?”. E o que é viver e cantar “para Deus”?

É anelar por Deus com todo o nosso ser; é deixar ser movido e tocado pelas coisas que mobilizam o coração de Deus (o que sabemos por meio da Palavra); é desejar ardentemente que sua vontade seja feita tanto aqui na terra, como no céu; é lutar para que a justiça corra como rio que não seca; é buscar viver em integridade e afastar ao máximo do nosso caminho a hipocrisia. Mas, como? E seria isto outra forma de religião? Não sei, talvez, quem sabe. Linguagem, tudo passa por ela.

Não é novidade para ninguém que muitos sistemas religiosos se alimentam da hipocrisia e não subsistem sem ela. Muitas igrejas têm sido – até que provem a si mesmas e ao mundo o contrário – ao invés de centros de misericórdia e compaixão e comunidades de reino, covis de hipocrisia, onde o livre pensar é reprimido (sobretudo em assuntos como sexualidade, por exemplo), e o discordar (mais ainda da liderança e da orientação doutrinária) é tratado como pecado. Exceções à regra (os remanescentes) existem, é claro, mas com a sina de ter que “nadar contra a maré”, caso não (ou até que) se deixem corromper pelo “se não pode vencê-los, junte-se a eles”.

A hipocrisia vai, dessa forma, recebendo outros nomes, e vai sendo ornamentada com vestes outras, mais sofisticadas quem sabe (embora não menos vorazes) e se torna peça indispensável ao bom funcionamento da engrenagem, mascarada pelo discurso de que assim estaremos “no centro da vontade de Deus”. Como corolário disso e de outras tendências já bastante enraizadas, como a privatização da espiritualidade e a religião de consumo, as pessoas vão à igreja apenas para nutrir o lado “lúdico” da fé, que congrega e agrega a massa dos que querem distância do conflito e que relega aos ditos apóstatas, hereges e perdidos o lado trágico (e sombrio) da existência.

A hipocrisia tenta eliminar o sofrimento a todo custo e promover uma espécie de narcótico gospel como sustentáculo para uma fé “que funciona”. Uma fé que desconhece a compaixão, porque só age para aliviar a dor; que tem desconfiança em relação ao mistério, ao desconhecido e às incertezas; que pensa que testemunhar é igual a fazer propaganda de sua fé, e se distancia da prática da justiça por estar tão ofuscada com as celebrações e homenagens, públicas e privadas, ao “seu Deus” – o “meu Deus isso”, o “meu Deus aquilo”.

Essa fé é substrato da hipocrisia. Irracional e inconscientemente, muitas vezes, ela canta: “Hipocrisia, eu quero (eu preciso de) uma pra viver!”. Nos lugares onde ela é vivida, as palavras de Jesus – “Acautelai-vos do fermento dos fariseus!” – ecoam como gritos em uma terra de surdos.

Porque acautelar-se, talvez, implique em passar pela via da admissão honesta de que, no fundo, todos (digo, os que nos servimos do sistema religiosos, ou os que se encontram, como eu, em processo de libertação de suas entranhas) somos um pouco como os fariseus ou hipócritas – o que seria um total absurdo e falta de espiritualidade, para muitos. Se toda mulher é meio Leila Diniz, como diz a canção “Todas as mulheres” de Rita Lee, então (digo isso contra meu melhor senso) todo crente é meio hipócrita e, por natureza, religioso (no sentido que Amós abomina), até que prove o contrário lutando contra tal orientação.

Jonathan

(Imagem extraída de: http://uma-verdade-inconveniente.tumblr.com/)