sábado, 16 de agosto de 2008

Você crê que Deus te ama?

Trecho de uma preleção de Brennan Manning, autor de O Evangelho Matrapilho, livro que li e recomendo, especialmente pra quem está cansado de religião ou que jamais tenha conhecido a graça de Deus, ou que tenha conhecido apenas a versão paraguaia da graça, vendável ou comercializável por qualquer vendilhão dos templos modernos.

Deixo-os com o vídeo - tô começando a gostar disso, mas prometo não exagerar - e com um trecho da referida obra de Manning:

"Sim, o Deus gracioso encarnado em Jesus nos ama. A graça é a expressão ativa deste amor. O cristão vive pela graça como filho do Abba, rejeitando por completo o Deus que pega as pessoas de surpresa ao menor sinal de fraqueza - o Deus incapaz de sorrir diante de nossos erros desajeitados, o Deus que não aceita um lugar em nossas festividades humanas, o Deus que diz 'você vai pagar por isso', o Deus incapaz de compreender que crianças sempre se sujam e são distraídas, o Deus eternamente bisbilhotando à caça de pecadores. Ao mesmo tempo, o filho do Pai rejeita o Deus de cores pastéis que promete que nunca vai chover no nosso desfile... O filho de Deus sabe que a vida tocada pela graça chama-o para viver numa montanha fria e exposta ao vento, não nas palavras aplainadas de uma religião sensata e de meio-termo". (O Evangelho Maltrapilho, p. 38-39).

Jonathan

terça-feira, 12 de agosto de 2008

O Valor Divino do Humano (II)

Nós os protestantes (falo a quem cabe essa alcunha) somos herdeiros de uma tradição, desde Agostinho, que teve a tendência de diminuir e desprezar o humano que há em nós. Somos os seres mais diminutos e indignos da criação, diria o Santo. Somos, portanto, herdeiros de um dualismo platônico agostinianizado, que detém apenas o “espiritual”, desprezando o que é material, terreno, humano. E isso fez e tem feito um estrago tremendo em nossa espiritualidade, que busca uma santidade desencarnada, baseada em esforços humanos – é claro que aqui já tem um “dedo” arminiano, mas isso já é outra história, e bem polêmica.

O esforço de Urteaga é o de mostrar que santidade e humanidade não são inimigos mortais. Pelo contrário, o santo deste mundo não é o de faceta angelical, que se esquiva, que não se contamina, mas é aquele que assume todas as implicações de sua humanidade, tanto as boas como as ruins, e vive pela graça e somente por ela é salvo, e ela o encoraja e o fortalece para a vida, principalmente em meio às fraquezas. “O santo deste mundo é a plena realização de nossa verdadeira natureza, o perfeito cumprimento da eterna idéia que Deus tem do homem: é o cooperador de Deus na obra do mundo” (p. 36).

Minha recomendação final é o conselho de Urteaga aos seus leitores, a título de uma chapuletada: “Se, de fato, queres ser como os outros e limitar-te ao pouco que fazes, fecha este livro, e fecha sobretudo o livro que contém a doutrina para a grande rebelião dos cristãos: o Evangelho” (p. 50).

Jonathan

O Valor Divino do Humano (I)

No dia de minha formatura em teologia, há três anos atrás, ganhei essa preciosa obra de Jesus Urteaga. Foi um dos livros mais revolucionários que já li. Na contracapa do livro, há as seguintes indicações: “O VALOR DIVINO DO HUMANO é um saber teológico sem diletantismos, uma fúria radiosa de esperança, uma segurança sem orgulho, uma vitalidade sem fronteiras...”. A idéia básica foi mostrar a imagem (bíblica) de um Deus mais humano e de um ser humano também mais humano, porque divino. Urteaga assim descreve sua humilde e intrigante pretensão: “Só te quero ajudar a reparar na importância capital do ‘fator homem’ no santo, no cristão” (p. 11).

Ele começa com uma conclamação brilhante: “Abra os olhos e verás a Deus chorando”. E uma de suas frases finais é também bastante provocativa, como todo o livro o é: “A posição dos indiferentes, não posso nem quero compreendê-la. Eles serão os vomitados de Deus” (p. 207). Nunca consegui imaginar Deus como um ser indiferente, como a teologia tomista a muitos de nós fizera pensar, apontando-nos a imagem de Deus como o “Primeiro motor imóvel imutável”.

Essa imagem não condiz com o Deus que se compadece e chora ao ver a realidade em que tantas vezes o ser humano se encontrou e se encontra: “Certamente, vi a aflição do meu povo que está no Egito, e ouvi o seu clamor... Conheço-lhe o sofrimento” (Êx 3.3). Ora, esse não é o mesmo Deus que em Cristo chorou, se compadeceu, sofreu até a morte, como também se alegrou e compartilhou sua vida com seus consangüíneos humanos? Cristo certamente foi o ser que de modo mais excelente nos mostrou o valor divino que há no humano.

Jonathan

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Adoração e Graça (II)

Quem seria digno de abrir o livro? Ou o quê poderia fazê-lo? Seriam o incenso, votos, sacrifícios, palavras, orações e súplicas de anjos ou de homens? Nada disso. A resposta vem dos lábios de um Leão, o da Tribo de Judá, que venceu, transpondo barreiras até então instransponíveis, tornando possível o que a nós seria impossível.

Ao lado da imagem do Leão triunfante está a do Cordeiro, que foi abatido e morto. Fracasso e vitória estão misturados. A vergonha da morte na cruz tornou-se emblema de salvação; da fraqueza extrema de um Deus moído, foi gerada a força de vida, ressurreição e vitória, não somente desse mesmo Deus, mas de toda a humanidade que Nele crê. O único que era digno fez-se indigno e ignomínia, a fim de que os indignos pudessem experimentar a dignidade então perdida.

Quem é digno? O cordeiro que foi morto, mas venceu e, portanto, é o único capaz de abrir o livro. Não há mais motivos para o choro amargo da impossibilidade e indignidade. Um novo e vivo caminho foi aberto pela GRAÇA. Somente por ela Deus pode se agradar. Somente através dela a adoração se faz possível. A graça é a matéria-prima da adoração. Não há adoração sem graça. Através da graça, tudo se fez e se faz novo: novo o ser, nova a vida, novo o cântico, nova a adoração! Livres pela graça, livres para viver, em adoração.

Jonathan

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Adoração e Graça (I)

A adoração é um ato de reverência e devoção total a Deus. Significa que Ele está sobre mim, é poderoso e digno de ser louvado e adorado. Da maneira como concebemos a adoração dá-se a entender que se trata de uma “elevação” do imanente ao transcendente, dos seres humanos ao seu Deus. Pressupõe-se que temos todos os ingredientes para que haja uma adoração genuína: corações devotos, cânticos espirituais, os anjos, um trono, o Rei.

Contudo, o que garante que os votos, louvores, lágrimas, rituais, gestos e palavras “subirão” como aroma agradável ao Senhor? Parte-se muitas vezes do princípio de que adoramos a deus para agradá-lo. E a pergunta é: temos a capacidade inata ou intrínseca de agradá-lo?

A visão de João em Apocalipse mostra que havia todos os elementos para a adoração: um trono e Aquele que nele se assenta, anjos, vinte e quatro anciãos, as figuras do Leão e do Cordeiro, as orações dos santos, saltério, harpas, um coral celestial; ou seja, o eterno vazando o temporal. Que mais poderia faltar?

João, porém, se via angustiado diante daquilo tudo, e chorava muito. Faltava algo, só não sabia o quê. Uma incompletude pairava no ar. O livro que estava nas mãos daquele que se assentava no trono estava selado e ninguém fora capaz de abri-lo. João se sente impotente, indigno, pequeno. A sensação parece ser a de que tudo estava perdido. Nada poderia mudar o fato: o livro estava selado. A adoração cessou por um instante.

Continua...
Jonathan

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Vasos de barro

Eis que como barro nas mãos do oleiro, assim sois vós na minha mão” (Jr.19:6).

Deus pode fazer com minha vida aquilo que ele bem quiser. Que verdade extraordinariamente assustadora! Na realidade, tudo o que existe e acontece que possa ameaçar a autonomia humana, isto é, o controle sobre minha própria vida, torna-se automaticamente motivo de repulsa num primeiro momento. Por exemplo: o amor tira-me parcialmente do domínio, visto que me deixa vulnerável, sujeito a um gozo singular e, ao mesmo tempo, a todo tipo de retaliação. “Amar é, antes de tudo, ficar vulnerável”, afirmou C.S. Lewis. Mas o amor é, de certo modo, uma escolha; eu posso, se quiser, retrair-me em um movimento de rejeição às suas manifestações.

Deus é capaz de me tirar do controle total de minha vida, e dele, todavia, eu não posso escapar. Deus pode ser uma escolha pessoal e relativa no que diz respeito à fé de cada um (o que é perfeitamente questionável, já que a fé é também um dom, conforme a Palavra), mas não o é de maneira alguma em relação à vida, visto ser ele mesmo o Senhor da vida, quem oferece e também a toma de volta. Como posso estar alheio à presença e ação de um Deus tão surpreendente? Sim, como “vasos de barro” nas mãos do Oleiro, que facilmente se desmancha quando imperfeito e se refaz com uma beleza estonteante, assumindo contornos renovados e firmes, assim se com-forma a minha vida nas mãos de Deus.

Esta talvez seja uma das metáforas mais felizes e inteligentes da Bíblia, porque relembra o fator proveniente da criação, qual seja o de que viemos do “pó”. E se Deus pôde, como em um sopro, transformar pó em vida, tal como o oleiro criativamente dá forma a seus belos vasos, quanto mais capaz seria de fazer a vida retornar ao pó. Afinal, destruir é sempre mais simples que criar, que recriar ou reformar. Desse modo, podemos ser “tudo” ou “nada” nas mãos de Deus. Ao reconhecer minha miséria e inoperância diante da glória Divina, porém, como vaso de barro nas mãos do oleiro, a realidade da minha vida, de pó se transforma em riqueza e esplendor, para honra e glória do Oleiro. A vulnerabilidade é um instrumento poderoso nas mãos de Deus. Nossa vulnerabilidade, em Deus, é nossa força.

Jonathan

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

É tempo de fazer diferença!

"Exerçam a sua cidadania de maneira digna do evangelho de Cristo"
(Filipenses 1:27)

Londrina clama por ajuda e justiça. Essa ajuda não está apenas nas mãos do poder político. Está nas mãos de cada cidadão. Está nas mãos dos cristãos que entendem que o evangelho é pessoal, mas com inserção na vida pública. É tempo de fazer diferença. Para fazer diferença é necessário reverter um processo muito comum na vida das pessoas em relação à política. Esse processo tem cinco fases:

Ficamos (1) indignados com as coisas erradas e injustas, como a corrupção e a falta de valores éticos. Em seguida nos deparamos com a nossa (2) incapacidade de fazer algo. Nos sentimos fracos, sem voz, longe da esfera das decisões que determinam os rumos da cidade. Nesse momento surge a (3) indiferença que é o sentimento de "tanto faz como tanto fez", ou seja, "eu não posso fazer nada mesmo". A irmã gêmea da indiferença é a (4) insensibilidade. Nos tornamos apáticos. Perder a sensibilidade é perder o coração e o sentimento. Resultado: surge a (5) inatividade que é a morte da ação. É o estágio final no qual a pessoa desiste do mundo ao seu redor, vive para si mesma, num processo de distanciamento e isolamento social. É justamente conhecendo esse ciclo, cuja estação final é a inatividade, que certos líderes políticos tomam proveito do distanciamento das pessoas da vida pública para governarem em causa própria, a partir dos seus interesses e agendas pessoais.

Se o apóstolo Paulo vivesse em Londrina, certamente chamaria toda a Igreja de Cristo da nossa cidade para uma palestra com o seguinte tema: "exerçam a sua cidadania de maneira digna do evangelho de Cristo". Deixar a cidade ao seu próprio destino, sem a influência do evangelho de Cristo, é o mesmo que dizer: "cada um por si e Deus por todos". É tempo de romper esse ciclo de morte da cidadania! Nossa indignação deve ser acompanhada de ação! Paulo nos convoca a exercer a cidadania. Precisamos de cristãos nessa cidade que mostrem que o são pela sua prática e não apenas pela sua confissão. A omissão também é uma ação, mas ela ocorre de maneira apática.

É com o espírito e desejo de exercer a essa cidadania que um grupo de pastores e líderes, abaixo assinados, mobilizou-se para apoiar e contribuir para que o nosso irmão em Cristo, Maurício Barros, possa ser um vereador na Câmara de Londrina. Não apoiamos um partido político e sim à sua pessoa pois o conhecemos bem e é importante que você também o conheça.

Maurício Barros é uma pessoa simples e comum, com um grande coração. Até o dia de hoje ele tem se mostrado um homem de Deus, cheio de desejo de ser um cidadão dos Céus na terra. Seu amor a Deus e Londrina o leva a trabalhar em favor das pessoas que necessitam de auxílio. Ele tem um grande diferencial: não diz que se for eleito vai fazer; ele já faz sem ser eleito. Esse é o caráter de um verdadeiro cristão: faz as coisas porque ama, faz porque quer fazer diferença.

Junte-se a nós nessa empreitada! Queremos participar desse processo. Não se trata de apenas eleger uma pessoa. Trata-se de acompanhá-lo, de pensar projetos juntos, cobrar quando necessário e estender a mão sempre. Não se trata apenas de um homem, mas sim de uma cidade – a nossa Londrina!

Por amor a Cristo e por amor a Londrina!

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Carta produzida pelos pastores Jorge Barro, Marcos Orison e Antonio Carlos Barro, em protesto contra a realidade política em Londrina, e pedindo apoio à candidatura de Maurício Barros para vereador, um dos homens públicos mais éticos e honrados que conheço.

Jonathan

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Vencendo a corrupção

É melhor arriscar-se a provocar um escândalo do que calar a verdade”. (São Gregório, o Grande).
A corrupção é uma das moléstias radicadas que mais afetam a humanidade atualmente. É um mal histórico, inerente à atividade humana nesse mundo. Lamentavelmente, a corrupção está infiltrada nos diversos âmbitos da sociedade: privado, estatal, acadêmico, econômico, cultural, artístico e, para nossa vergonha, também no meio eclesiástico. Ora, se até mesmo a igreja– a qual deveria ser o agente, por vocação, da esperança crística para o mundo – se envolve em esquemas de corrupção, a tendência, com efeito, é que as pessoas a repudiem, e com ela também os valores mais fundamentais de sua pregação (mas nem sempre), a saber, a justiça, o amor, a fé e a esperança.
Vivemos num mundo que nos impulsiona a depositar nossas esperanças no aqui e agora. Assim, ter esperança significa “manter-se vivo em meio ao desespero”, parafraseando Henri Nouwen. Como Paulo, defendo que “se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a essa vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1Co. 15:19). Mas se, por hora, essa é a única vida que temos, como se desvencilhar de um quadro fatídico como o que vivenciamos?
Não há respostas nem soluções fáceis à erradicação desse mal, visto que ele é virulento e brota das mentes ambiciosas dos seres humanos. Está muito mais “dentro” de cada um do que “fora”, por assim dizer. De modo que a proposta bíblica para se vencer a corrupção parte sempre de uma premissa ontológica: diz respeito ao “ser” uma nova pessoa pela graça de Deus. Por essa graça, Deus abre um novo caminho, não para a divinização do eu, como supõem os universalistas, mas para a libertação do ego, isto é, desse “eu-centrismo” que gera os pecados da existência. Pela graça, o eu não é recusado, mas é liberto da escravidão dos impulsos adulterados que ele mesmo provoca.
No Antigo Testamento, no livro de Miquéias 6:8, está escrito: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o Senhor pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e Andes humildemente com o teu Deus”. A prática da justiça continua sendo o principal antídoto contra a corrupção generalizada da raça humana. Enquanto houver pessoas que não se acomodam, não se calam, mas acreditam e lutam por justiça, viva permanecerá a centelha de esperança Divina nesse mundo. De tal maneira que a esperança não mais será “a última que morre”, mas aquela que jamais morre.

Jonathan

terça-feira, 29 de julho de 2008

Parodiando o mal (II)

Depois de ter escrito o primeiro post com esse título, resolvi, por fanfarronagem mesmo, sem muita pretensão, enviar para a Folha de Londrina - que tem um Espaço Aberto para artigos de leitores. Eles não só me responderam, como me pediram pra aumentar o artigo em mais umas 10 linhas. Foi o que fiz. Abaixo segue então a continuidade, desfecho ou parágrafo final que dei ao texto "Parodiando o mal", com a finalidade de publicação nesse jornal.

O cenário político atual da Câmara dos Vereadores de Londrina, por exemplo, é um relance de onde podem parar aqueles que pensam ser capazes de apenas parodiar o mal, brincando e se lambuzando com o poder econômico e político, e disso pretenderem sair ilesos. Para entrar nesse jogo asqueroso e inebriante do poder é preciso ter muito mais que o desejo de prevalecer, de enriquecer, de ser esperto, de tirar vantagem. É preciso aprender com o Coringa: não se pode querer burlar a ordem com a ordem, ou o sistema pelo sistema.

Com isso não estou querendo instaurar nenhum manual do “bom bandido”. Longe de mim. Só que o pior bandido (se é que há um tipo “melhor”), para mim, não é aquele de perfil escancarado, como o Coringa, Osama Bin Laden, Fernandinho Beiramar e tantos outros são. É, sim, o bandido de terno, o funesto fazendo papel de santo, o lobo em pele de cordeirinho, o pior inimigo em pele de “amigo do povo”, amigo do peito, como muitos dos “ilustres” da legislatura atual. Esses são as paródias do mal, o mal com cara de bem, atores de um filme que eu não quero mais pagar pra ver. Você quer?

Jonathan

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Manifesto contra o Prometeu desacorrentado

Parece-me que as eleições é um período em que, como tantas vezes na história, a memória costuma sofrer constantes atentados. Um dos atentados mais graves é a amnésia coletiva, que leva a população ao esquecimento de episódios políticos tão nevrálgicos outrora vivenciados. Os grandes protagonistas destes atentados à memória coletiva são os próprios políticos. Não estou me referindo a uma vala comum, onde se insere toda a classe política, mas me reporto a uma categoria política específica, que aqui decidi intitular Prometeu desacorrentado.

Prometeu desacorrentado é uma versão satirizada e re-significada da tragédia grega (escrita entre 462 e 452 a.C.), cuja autoria é atribuída a Ésquilo, que se chama Prometeu Acorrentado. Apesar de também ser uma tragédia em seus termos, o cenário político que aqui vislumbramos não se trata de ficção; tão pouco se passa na Grécia Antiga; mas é uma perspectiva da realidade política nacional e também de minha cidade, Londrina. Quero falar um pouco sobre o nosso Prometeu. Trata-se de um político corrupto (perece até pleonasmo), desleal, populista, demagogo, aclamado pelas massas mais humildes (o chamado “povão”), e abominado pela elite intelectual “mais abastad, sendo que parte dela e de todo o “resto”, está muito mais preocupada com a conservação de seus privilégios (como é o caso da classe média), mesmo que isto signifique render-se às fascinantes promessas de Prometeu.

Como cidadão, não posso deixar de me indigar com a prática de políticos como Prometeu, para quem muito interessa a manutenção da ignorância e do aparente disparate de memória de nosso povo sofrido e caluniado. Prometeu se aproveita disso, e promete continuar a realizar as obras faraônicas as quais, num passado não muito distante, mas que parece escapar à lembrança de seus fiéis eleitores, foram “interrompidas” sob “falsas acusações” de seus opositores, assim alega ele. Prometeu é um legítimo representante da perpétua corja de assassinos da justiça e da ética, que grassam no cenário fétido e podre da política brasileira desde seus primórdios.

E o que fazer então, visto que nem a própria justiça deste país consegue acorrentar devassos como Prometeu, que, assim, podem prosseguir gozando dos direitos civis e políticos de todo cidadão, usando e abusando da prerrogativa de prometer e ludibriar as pessoas? Melhor que a justiça parcial deste país, é o desacorrentar de nossas consciências e o uso correto do voto como forma inequívoca de dar UM BASTA aos “Prometeus” de nosso país, acorrentando-os pela força da democracia - uma quimera? - e varrendo-os de vez de cena. A todos nós, cidadãos e cidadãs brasileiros, discernimento, paz e lucidez no pleito que se aproxima.

Jonathan

Ps. Tempos depois de ter escrito esse texto, descobri que há um livro com o esse título: Prometeu Desacorrentado, de David S. Landes, sobre a transformação técnológica e o desenvolvimento industrial de 1750 até hoje. Só para constar!

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Parodiando o mal

É possível ao ser humano parodiar (ou interpretar) o papel de um "mal" sem ser direta ou indiretamente afetado por ele? Essa é uma das perguntas que me fiz ao assistir a atuação do Coringa (Heath Ledger) no filme “Batman – O Cavaleiro das trevas”. Muito se falou sobre o desempenho de Ledger nos meses que precederam a estréia do filme, especialmente em virtude de sua misteriosa morte, em Janeiro desse ano. O diagnóstico “oficial” para o falecimento (“overdose acidental de medicamentos”) parece não ter convencido muitas pessoas, que até agora tentam buscar uma explicação moral, psíquica e até espiritual para a morte do jovem ator, que alguns meses antes havia adentrado na pele do novo coringa, de versão mais sombria, sarcástica, ousada, inusitada, inteligente, assustadora, e por aí vai – criada também pelo próprio ator.

Ora, muito se discutiu e ainda se vai discutir a respeito, não tenha dúvidas disso. Assisti ao filme ontem e achei o papel do Coringa no filme simplesmente brilhante, fora de série, sem dúvidas um dos pontos altos da trama. Já se fala nos bastidores que o ator receberá uma indicação póstuma ao Oscar. É esperar para ver. Mas, voltando à questão inicial, enquanto assistia ao filme, fui-me lembrando das muitas especulações que ouvi sobre a morte do ator, que, em suma, gravitaram em torno não de um acidente, mas de um possível suicídio; alguns acreditam que ele vivenciou tão intensamente o papel que acabou não resistindo à complexidade de se encarnar o mal. Esse parece ter sido o espectro do também ator Jack Nicholson, que, comentando a morte de Ledger, disse em tom sarcástico: “Eu o avisei” (Fonte: The New York post).

Não posso dizer nem que sim e nem que não. Tudo não passa de especulação, especialmente pra quem acompanha tudo de tão longe. E a minha questão aqui não é diagnóstica (o caso de Ledger ou Coringa é apenas uma ilustração), é existencial mesmo. Lembro-me de uma passagem da introdução das Cartas do Diabo ao seu Aprendiz, de C. S. Lewis, em que esse autor relatava o quão tentador e perigoso foi para ele tentar pensar “com a mente do Diabo”; criar – a partir de seus conhecimentos – um arquétipo das trilhas que o mal percorre para chegar a seus fins. E me pergunto se terá sido diferente para Ledger? Nunca vamos saber ao certo... Nem Jesus se permitiu ceder aos apelos e paródias do mal (Lucas 4). Será o ser humano capaz disso, sem nenhum tipo de lesão? Não sei se esse foi o caso de Ledger e nem estou aqui para afirmar isso. Mas eu, particularmente, não acredito que tenhamos tal capacidade de distanciamento. E prefiro não pagar para ver...
Jonathan

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O que sentimos não é quem somos

Todos os dias recebo as meditações diárias do Henri Nouwen, enviadas diretamente pela Henri Nouwen Society. Elas são muito úteis e edificantes. Eu as leio todas as manhãs. É um pouquinho do discernimento espiritual de Nouwen, a cada dia. Essa meditação foi hoje muito especial. Às vezes me sinto de muitas e variadas formas, dependendo do dia e das circunstâncias que me envolvem. E a grande tentação é confundir aquilo que sinto – sempre num movimento de montanha russa – com aquilo que sou, sendo levado a trocar a estabilidade do espírito, pela instabilidade das emoções. Nouwen me ajudou, hoje, a relembrar que sou – em minhas convicções e razão de existir – muito mais do que minhas variações de estado de humor, muitas vezes, me permitem enxergar. E você também é...

Jonathan
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Nossas vidas emocionais são cheias de altos e baixos. Às vezes experienciamos grandes variações de humor: da excitação à depressão, da alegria à angústia, de uma profunda harmonia a um profundo caos. Um pequeno evento, uma palavra de alguém, uma decepção no trabalho, muitas coisas podem gerar tais variações de humor. Na maioria das vezes temos um pequeno controle sobre essas mudanças. Parece que elas acontecem a nós muito mais do que são criadas por nós.
Dessa forma, é importante saber que nossa vida emocional não é o mesmo que nossa vida espiritual. Nossa vida espiritual é a vida do Espírito de Deus conosco. À medida que assistimos nossas emoções mudarem devemos conectar nossos espíritos com o Espírito de Deus e lembrar a nós mesmos que o que sentimos não é quem somos. Nós somos e permanecemos sendo, independentemente de nossos humores, filhos amados de Deus.
Henri Nouwen
Traduzido de Daily Meditation (www.henrinouwen.org)

terça-feira, 22 de julho de 2008

Jesus me curou!

Há cerca de oito anos conheci a dona Maria Rosa, avó do Raoni, um grande amigo meu, a qual vivenciava dias difíceis, lutando contra um câncer, que atacara sua garganta. Mesmo com as dores e a dificuldade em respirar devido aos agravos da doença, Maria encontrou forças para buscar a Deus naquele momento tão difícil e penoso, clamando para que curasse tanto a ela como a seu esposo, que também sofria com câncer no estômago. Embora as evidências diagnosticassem uma doença bastante avançada, pude ouvir as palavras confiantes desta senhora, que persistia em afirmar: “Jesus me curou! Eu tenho certeza que estou curada, em nome dele”.

O exercício da fé é algo misterioso e ao mesmo tempo extraordinário. E aqui não me refiro à “fé” adotada como barganha (basta ter fé para conquistar esta ou aquela vitória, realizar o mais dificílimo dos desejos). Não, definitivamente! Aliás, as pessoas precisam entender que esse tipo de artifício é contraproducente para o amadurecimento na verdadeira fé, que é um dom e não um afã. A fé, sim, tem poder para transformar uma situação fatídica ou adversa em benção, só que quem confere este poder não é exatamente o sujeito que crê, mas o Espírito que nos iniciou na mesma fé.

A transformação não ocorre por causa de uma determinação positiva de nossa mente, mas de acordo com a medida da Graça e da Soberania de Deus. O que nos cabe, por fim, é crer “sem duvidar”. Veja, isto não significa que no aprendizado da fé não tenhamos que conviver com eventuais dúvidas, posto que um ato sincero de fé implica em uma relação tão aberta com Deus, de alma, mente e coração, a fim de que Ele possa nos auxiliar a substituir a dúvida pela certeza, algo que não é tão simples. Jesus parecia não desconsiderar a hipótese de dúvida na fé, embora dissesse que tudo é possível ao que crê. Lembro-me das palavras do pai de um jovem possesso: "Eu creio. Ajuda-me na minha falta de fé".

Dentre todas as coisas o que mais nos falta talvez seja a predisposição em romper com as muralhas de nosso materialismo enraizado, do fatalismo e da amargura, que nos inibe em vivenciar uma fé mais ousada e corajosa, assim como a de dona Maria, que, mesmo tendo perdido seu marido, o Sr. Antonio, que veio a falecer, hoje pode continuar gozando da alegria de viver e lutar as batalhas da fé, pela vida, ao lado de Jesus, porque ela creu e foi curada. Dizer ao monte que se erga, ou afirmar de coração “Jesus me curou”, não significa repetir um jargão falacioso ou realizar um ato heróico, mas sim saber em quem se tem crido e o quão fiel e poderoso Ele é para realizar infinitamente mais de tudo aquilo que possamos pensar ou colocar nossa confiança. Essa é a verdadeira cura.

Assim, a fé pode ser vista como um salto de coragem que damos pelo poder da Graça. Fé é a convicção de que é preciso assumir riscos, e reconhecer que a vida nos guarda surpresas que não esperamos, mas que Jesus também nos surpreende com seu amor.

Jonathan

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Somerset Maugham

Ano passado, ganhei de aniversário de meu amigo Antônio Carlos o livro “O Fio da Navalha”, do romancista inglês William Somerset Maugham (na foto). Na contracapa do livro, a seguinte dedicatória: “Jon, você irá embarcar numa viagem emocionante. AC”. E, de fato, tem sido uma viagem emocionante. Não costumo ler muitos romances, confesso, essa é uma deficiência em minha formação que terei de correr atrás, não por obrigação, mas por desejo pessoal mesmo. Mas, pelo pouco que posso dizer, gosto de romances que, no bojo da narrativa, trazem não apenas histórias, mas também opiniões interessantes, polêmicas, feitas para quem gosta de pensar.
Aliás, quando quero pensar um pouco, deixar que a mente seja povoada de muitas questões e poucas “repostas prontas” e quentinhas dos fornos das intelectualidades medíocres e mercadológicas de nosso tempo, não tenho buscado em sermões, apologéticas ou livros cristãos – maioria deles, atualmente, focados na tal da “auto-ajuda”. Honestamente, pouquíssimos hoje me fazem crescer. Há, sim, boas exceções. Mas são exceções cada vez mais raras. A “regra” é sempre a mesma ladainha pobre de criatividade e de conteúdo. É cansativo demais. O remédio para minha fé, além de conversas honestas com Deus através de sua Palavra, e com uns poucos amigos, tem sido a leitura de autores de filosofia, poesia e romances.
Quando leio um Nietzsche, um Unamuno, um Kierkegaard, ou um Maugham, por exemplo, fico perguntando: como seria o mundo não fossem algumas mentes brilhantes como essas para pensar “fora da caixa” e fazer questões que todo mundo talvez faça, em algum momento, ainda que reprimidos pelas amarras do inconsciente? Questões cortantes e cruciais, embora muito infreqüentes hoje em dia. E por quê? Porque todo mundo só quer o quinhão de verdades que mais lhe interessa, agrada, conforta. E se os autores evangélicos são a satisfação desses desejos, quero distância deles, para minha própria saúde mental e espiritual. Deus me livre de tais literaturas!
No post abaixo, deixo vocês, leitores desse blog, com trechos do livro de Maugham, em que um dos personagens, Larry, coloca para fora suas dúvidas, questionamentos e opiniões. Não concordo plenamente com Larry. Mas tampouco concordo com as proposições religiosas que lhe serviram de motivo para pensar como pensa. Não sou diferente de Larry, nesse sentido. E por isso, desejo me colocar à disposição para um diálogo aberto e sincero com esse tipo de pessoas, tão mais cheias de fé – apesar da desorientação – e tão menos doentes que muitas mentes e corações “religiosos” que conheço.
Jonathan