segunda-feira, 17 de junho de 2013

Afinal, que país é esse mesmo?

Assistir (mesmo que de passagem) esse início de cobertura da Copa das Confederações 2013 na Rede Globo pode dar a estranha experiência e sensação de que existem vários países "em campo": 
1. Dos que vestem a camisa milionária da seleção e pisam nos campos bilionários da bola (mas estão "cagando e andando" pro Brasil); 
2. Dos que batem palma pra grande cobertura multi-tecno-digital da todo-poderosa, que, por sua vez, só noticia aquilo que, e do modo como, convém (afinal, o maior interesse é manter acesa a paixão dos brasileiros na seleção, os olhos bem fechados para todo o resto, para que o bolso dela, Globo, e de seus investidores, se mantenham bem cheios de $); 
3. O país minúsculo dos que protestam – usando importante questão do problema do transporte em São Paulo e no Brasil (mas que é só, como se diz, “a ponta do Iceberg”) – contra o descaso do governo, as múltiplas e generalizadas injustiças sociais e o abismo entre o país dos "descamisados" e o dos alienados, que "vestem a camisa" com muito orgulho de ser brasileiro, a despeito do que acontece no Brasil; 
4. O país dos indiferentes, que não estão nem aí para uma coisa e nem outra, mas que assistem tudo de camarote como se nada disso “lhes representasse” ou dissesse respeito; 
5. O pequeno país dos mandatários do poder político-econômico, que literalmente fazem a "máquina girar" (para o bem e para o mal), e que precisam continuar fazer a caravana prosseguir enquanto "os cães ladram", mas "não mordem" (mesmo que passando como rolo compressor sobre os direitos e reivindicações dos cidadãos e cidadãs, e usando a violência e repressão quando preciso); 
6. O grande país dos bestializados (usando aqui, não pejorativamente, a metáfora de José Murilo de Carvalho), que assistem ou não a tudo isso meio tontos, sem saber bem o que dizer, o que fazer, para onde ir, que posição tomar, afinal, antes de tudo, precisam mesmo é sobreviver; 
7. E assim por diante... [inclua aqui o que faltou, pois muito sempre falta para possivelmente descrever ou analisar situações tão complexas]. Como diria Carlinhos Veiga, há muitos "Brasis" dentro do Brasil. E é realmente uma pena que ignoremos tanto essa múltipla e complexa realidade, que continuemos parados, estacionados, de braços cruzados, "só orando", só lamentando, só escrevendo na timeline do Facebook. Bem disse Gabriel O Pensador: "Até quando a gente vai levando porrada, porrada", e vamos ficar sem fazer nada? Bem, certamente tem gente fazendo alguma coisa, fazendo o que pode, fazendo o possível para simplesmente não viver conformado com o que aí está posto ou in-posto. Seja o que for, um processo de descoberta, em meio a esse pandemônio, é necessário: do que significa ser "cidadãos e cidadãs brasileiros"! Mais que apenas geradores ou apoiadores de protesto, apenas torcedores, apenas céticos, apenas consumidores, apenas isso ou aquilo... precisamos utilizar momentos como esse como oportunidades para discutir um projeto ainda em construção: o que implica e de que jeito podemos ser, mais assertivamente, cidadãos e cidadãs! 
Admito certa indecidibilidade a respeito da cidadania no mundo "líquido-moderno" (Bauman), mas estou tentando compreender e, enquanto isso, fazer o que posso. Só não dá pra sentar na poltrona, sintonizar na Globo, curtir a fabulosa transmissão, mesmo que sem grande empolgação pela seleção, e fingir que nada está acontecendo. Comida é coisa boa; diversão e circo também; só não dá pra "bater palma pra palhaço" enquanto a grande tenda está literalmente em chamas, e vendo a platéia pegando fogo. Viver, já diria Robinson Cavalcanti, é tomar partido... E que Deus nos ajude e nos conscientize bem ao tomarmos o nosso, pois Ele, certamente, já tomou o Dele e deixou claro o que Ele quer de nós. Vale a pena que lembremos outra vez do profeta Amós (5:24):
Alguém aí sabe o que eu quero? Eu quero justiça – um mar de justiça. Eu quero integridade – rios de integridade. É isso que eu quero. Isso é tudo que eu quero...

Jonathan

quarta-feira, 5 de junho de 2013

O que os amigos dizem de “Humanos, graças a Deus” (Parte 3)

Convite Humanos

Ao começar a ler este livro do meu amigo Jonathan Menezes tive a impressão de que ele também estava me convidando para uma caminhada, onde sou levado a, de forma atenta, ouvi-lo em profundo silêncio e a considerar, sem pressa, suas ponderações. As palavras aqui contidas não são filhas do agito, todo o contrário, foram geradas na escuta cuidadosa, no silêncio reverente, no desejo de fazer e de encontrar sentido.

Com uma variedade temática organizada em torno de quatro eixos somos relembrados de nossa humanidade, convidados a viver uma espiritualidade que não nos tira da história, mas que nos permita viver de forma integral a vida, com um profundo senso de gratidão a Deus. Como disse, ele nos convida a caminhar com ele, ouvi-lo, ponderar, questionar. Pode ser que em determinados momentos você se surpreenda com uma forma diferente de analisar determinada situação, ou que seus conceitos sejam confrontados. Neste momento é bom continuar ouvindo de forma reflexiva, afinal até aquilo que difere pode ser útil para fortalecer nossas próprias convicções, mas o desafio é continuar ouvindo de forma atenta.

É com alegria que encorajo a cada leitor(a) a fazer esta breve caminhada com Jonathan Menezes, um jovem teólogo, querido amigo, com quem tenho tido o prazer de correr algumas provas de corrida de rua mas que, quando escreve, muda completamente o ritmo, ele prefere caminhar ao nosso lado, compartilhando o que tem aprendido, desejoso de que suas reflexões animem a todos que com ele desejam fazer o caminho de volta àquilo que nos faz e nos mantém plenamente humanos, conforme a intenção daquele que nos criou.

Obrigado amigo Jonathan por partilhar seus momentos e por nos convidar a esta caminhada, silenciosa, acolhedora, reflexiva e amorosa.

Ziel Machado
(Trecho do Prefácio ao livro Humanos, Graças a Deus!)

terça-feira, 4 de junho de 2013

O que os amigos dizem de “Humanos, Graças a Deus” (Parte 2)

Humanos CapaEm tempos de consumismo, alta velocidade, banda larga e outras formas de aceleração da experiência temporal da vida humana, não é nada fácil escrever um texto teológico sobre a espiritualidade cristã. Em primeiro lugar, por que qualquer coisa que escrevemos fica logo obsoleta pela passagem ultraveloz do tempo. Em segundo, por que qualquer coisa que escrevemos sobre espiritualidade é consumido antropofagicamente e reduzido a um “gostei” ou “não gostei” de leitoras e leitores. Enfim, por que há uma certeza prévia no tocante à incapacidade da teologia se pronunciar sobre um tema tão prático e a-teológico como a espiritualidade. Por isso mesmo, é muito bom que este livro tenha sido escrito e possa ser lido por mais do que apenas a família e o círculo de amizades de seu autor.

Este não é um livro para ser descartado assim que chegarmos às suas últimas palavras. Não é auto-ajuda secular disfarçada de espiritualidade cristã. Não é teologia tentando reduzir a espiritualidade ao âmbito da intelectualidade. Ah! Não é também a última palavra sobre o tema. O texto de Jonathan é uma reflexão pessoal e teológica sobre os riscos de ser cristão em nossos dias. É teologia e testemunho simultaneamente. Dá testemunho da possibilidade de caminhar espiritualmente em um mundo totalmente dominado pelo deus-dinheiro. Reflete criticamente sobre os riscos de confundir espiritualidade com auto-grandeza, ou com emocionalismo, ou com doutrinismo. É livro para ser lido e relido. Para ser pensado e discutido. Para ser ruminado. No mínimo, por que nos ajuda a perguntar como ser espiritual sem deixarmos de ser humanos. E esta pergunta é fundamental e indispensável. Se o Espírito de Deus fez do homem-Deus Jesus alguém para quem “nada do que é humano lhe era estranho”, precisamos dEle para que nós, meramente humanos, aprendamos a não estranharmos nad a do que nos é próprio enquanto humanidade que caminha na força do Espírito.

Júlio Zabatiero
(Coordenador de Pós-Graduação e Pesquisa da Faculdade Unida de Vitória)

Pensador e professor, Jonathan gosta de correr nas horas vagas, corridas de longas distâncias, dessas que é preciso acelerar o passo e dosar o fôlego. Neste livro sobre espiritualidade, ele escreve como corre, ritmo dosado que permite na paisagem conhecida colher o desconhecido. Corre na companhia de muita gente, registrada em livros ou na vida, e nos convida também a correr, no seu ritmo, em busca de nossa humanidade escondida em algum lugar. Porque para ele, espiritualidade é isso, aprender a respirar humanamente no compasso da respiração divina. Sendo assim, sua escrita se move no paradoxo, santo e profano, simbólico e diabólico, humano e divino. Desse modo, se apresenta como escritor transgressor, imagem de Deus, o transgressor maior, o paradoxo ao infinito. Deus que se torna corpo, humano, simplesmente humano.

Marcos Monteiro
(Pastor, teólogo e filósofo. Assessor de pesquisa do Centro de Pesquisa, Estudos e Serviço Cristão)

O que os amigos dizem de “Humanos, graças a Deus!” (Parte 1)

Humanos CapaPublicar, para mim, é sempre uma alegria. Um pequeno artigo veiculado por aí já me deixa feliz. Significa que as ideias estão repercutindo, bem ou mal (melhor se for bem, é claro). Um livro então, é uma alegria em dobro. Meu primeiro livro, Humanos, graças a Deus (Novos Diálogos, 2013), acaba de sair do forno. Mais adiante, gostaria de escrever aqui o que me motivou a escrevê-lo e como cheguei até ele. Agora, quero fazer uma nota de gratidão, em três partes, a alguns amigos que me ajudaram neste livro, escrevendo seus endossos de recomendação. Alguns deles foram publicados apenas parcialmente no livro, por isso coloco aqui na íntegra o que eles escreveram. A eles – Antonio, Flávio, Júlio, Marcos e Ziel – o meu muito obrigado!

Um dos grandes dilemas que eu vejo na igreja cristã e em especial na brasileira, é a sua aspiração de ser divina quando ela deveria ser humana. A igreja “esquece” que ela é composta de gente – gente que chora, pensa, sofre, ri, ganha, perde, luta, abandona – enfim, gente com dilemas e angústias. A igreja nega esse fato com uma pregação que não toma em conta essa realidade, pois afinal o povo de Deus é um povo que caminha de vitórias em vitórias. Essa é a grande beleza dos textos do amigo Jonathan. Você certamente irá se identificar com suas palavras e pensamentos, pois refletem essa nossa jornada humana em direção ao Reino de Deus. Leia, reflita e considere os desafios propostos nesses ensaios.

Antonio Carlos Barro
(Fundador e professor da Faculdade Teológica Sul Americana)

Em dias de confusão conceitual e principalmente vivencial a respeito do tema do livro que temos em mãos, os escritos de Jonathan Menezes se apresentam como contribuição indispensável na busca por uma espiritualidade sadia, coerente com a realidade de nosso ser e fundamentada nas escrituras. Com profundidade, honestidade e impressionante capacidade de reflexão, o autor traz à discussão, através de seus ensaios, questões que há tempos nos debatemos, exatamente por não nos darmos o direito de sermos humanos ou por negar esse dom divino, substituindo-o por ideais inalcançáveis, alienantes e distantes do chão da vida.

Flavio Henrique de Oliveira
(Professor da Faculdade Teológica Sul Americana)

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Da manipulação à falta de discernimento

Photomanipulation-Self-Portrait-08A essa altura do campeonato muita gente já deve ter assistido e já deve estar familiarizada com o vídeo-denúncia em que a advogada-pastora, Damares Alves (sobre quem eu nunca havia ouvido falar antes), trata sobre supostos “escândalos sexuais” (que estariam acontecendo e por se agravar, envolvendo sobretudo pedofilia e homossexualismo) de aliciamento infantil nas escolas públicas, por meio de materiais (cartilhas, livros, etc.), de suposta iniciativa e autoria do governo federal. Recentemente, também saiu uma analise detalhada do conteúdo do vídeo, escrita por Magali Cunha (ambas, a fala de Alves e a resposta de Cunha, podem ser vistas aqui).

Após ter visto e lido ambas, resolvi compartilhar (o link acima, do site Genizah) em minha ‘timeline’ do Facebook, com a seguinte descrição: Cansado dessas teoriazinhas de conspiração evangélica de plantão. Bora enfrentar a realidade com coragem e discernimento, minha gente! Como, todos sabemos, esta é uma questão candente e como muitos já haviam de antemão endossado quase que 100% da fala e do tom da advogada-pastora, recebi algumas boas reações. Boas, digo, porque, em se tratando do clima de hostilidade que cerca a questão no Brasil poderia ser ruim. Assim, resolvi compilar aqui, tanto algumas das reações (devido ao espaço), como minhas respostas a elas.

Janderson Resende: Com todo respeito, meu professor. Acho mesmo que os evangélicos sempre se acham como vitima. Mas tem muita "merda" com os póliticos brasileiros que só querem ferrar com os evangéicos.

Resposta: Caro Janderson, de fato, tem muita "merda" de todos os lados, isso é inegável, pois não existe "pureza" na política, nem em Brasília, nos movimentos em prol disso ou daquilo, ou nas cúpulas eclesiásticas. Por isso discernir é preciso, como entendo que muitos não o fizeram diante desse vídeo e de outras coisas que orbitam pela web sobre esse mesmo assunto. Reconhecer a farsa dos políticos ou da mídia em relação aos evangélicos, outros grupos religiosos e outras partes da população é uma coisa; transformar isso em uma onda gigante de conspiração contra a família e os "bons princípios" é outra bem diferente. Há muitos exageros de todos os lados. E a prudência e o bom senso sempre devem nos levar a desconfiar de exageros, mesmo que neles haja algum fundo de realidade.

Diogo Magalhães: Se é pra exercitar o discernimento, lá vai então. Pergunto: qual é a vinculação política da Dra. Magali do Nascimento Cunha? E da Revista Genizah? Ambos são adeptos da neutralidade epistemológica, ideológica e religiosa? Cremos na objetividade ou na objetivação? Se a Dra. Damares acreditou na ingenuidade do povo evangélico brasileiro, parece-me que estes também são partidários dessa mesma crença! Ou então, todos são manipuladores! A palavra da "doutora" aqui também é apresentada com ares de "verdade"! Se é pra sermos críticos, que sejamos com tudo e com todos! Exercitemos a "dúvida metódica" e que nos "provem" a verdade! Chega de manipulação e de sofismas vindos da direita, da esquerda, "de baixo, de cima, de fora e de dentro"!

Resposta: Caro Diogo, concordo com você que o Genizah apresentou o discurso da Magali com "ares de verdade", e verdade quase absoluta eu diria. Como para mim é ponto pacífico que não existe "Verdade", senão "verdades" no nível proposicional de nossas falas, científicas ou não, não compartilho com essa tendência reacionária do Genizah de trazer a coisa para o nível da "refutação". Prefiro o diálogo. Minha intenção foi apenas compartilhar o texto da Magali que, a meu ver, tem a pretensão de mostrar a ausência clara de fundamentação presente no discurso de Damaris, e a manipulação ideológica que isto pode ocultar. A mim soou mesmo como teoriazinha (e muito barata) de conspiração, e ainda fico pasmo (embora não deveria) como nós somos crédulos diante das primeiras informações com tom sensacionalista que se nos apresentam. E veja: a própria Damaris disse, com todas as palavras que, por falta de melhor recurso, ela estava trazendo tudo aquilo com o propósito de chocar mesmo, a fim de que nós, "evangélicos", acordemos e façamos alguma coisa. O problema, assim, para mim é duplo: a leviandade da advogada-pastora, em montar um dossiê furado em termos de informações para defender a tese de que o governo está tentando implantar a devassidão e imoralidade à todo custo em nossas crianças (evangélicas, é claro!); e, mais que isso, me incomoda que, outra vez, a razão de tanta indignação venha da área da sexualidade, e endossando outra vez um moralismo despolitizado, desinformado e ultrapassado. Tenho a impressão de que nos cercamos de todas as razões (e ai de mim se disser que não!) para nos preocupar com a situação moral de nosso país. Mas se alguém vem e começa a falar de luta contra injustiça, corrupção, falsidade ideológica, abuso de poder (inclusive eclesiástico), necessidade de melhores políticas públicas para toda a população, contra os usos e abusos da propriedade privada, pela reforma agrária, em favor do meio ambiente, etc., o interesse já não é o mesmo, e essa pessoa ainda pode ser chamada de "de esquerda", socialista ou comunista. Sinceramente, essa luta monolítica é cansativa, pelo menos para mim. Agora, quanto a ideologia dos manifestantes - Genizah, Magali, etc. - não sei exatamente qual é, mas sem dúvida são falas ideológicas. Aliás, não há fala, por mais "objetiva" que pretenda ser, que seja livre de ideologias. Viver, como diria Robinson Cavalcanti, é tomar partido. E que, de novo, tenhamos coragem e discernimento no momento de tomarmos os nossos.

Diogo Magalhães: O que me deixou irritado no discurso da interlocutora foi o tom tão ideológico e dissimuladamente político apresentado, escondido por detrás de um discurso "científico", já que a Genizah fez questão de apresentar o currículo acadêmico da doutora e esconder o currículo ideológico da mesma e seus possíveis vínculos políticos. Se a assessora parlamentar foi tendenciosa em sua apresentação, a doutora foi tanto quanto ela, enfocando apenas alguns elementos do discurso, mas tentando desconstruir a totalidade do mesmo.

José Idamar Evangelista: Mas a coisa junto as massas só funciona assim, na base do panico... Só sei que a tempos eu nao via alguem defender aquilo que crê com tanta coragem e determinação, diferente do muito que a gente tem visto nos ultimos dias... Se existe oportunismo ou interesses secundários, nao sei... Mas de vez em quando é bom ver alguem derrubando as mesas e espantando os vendilhões...

Resposta: O que me encabula não é tanto a perspectiva ideológica ou interesses secundários - sobre isso, por enquanto podemos fazer apostas apenas, de ambos os lados. O problema é que a assessora parlamentar faz muita generalização, atira pra todo lado, e compromete muito a credibilidade de seu discurso. Precisamos aprender a dar o peso devido às coisas e esse vídeo não contribui pra isso a meu ver; serve mais pra alarmar, criar terror e menos pra fazer refletir ou esclarecer. Isso sem falar na homofobia evidente em suas declarações, que pode combinar com parte dos evangélicos, mas não com o evangelho de Jesus. Coragem e determinação sem o tempero da sabedoria e do discernimento não produz muita coisa além de barulho, confusão e rebeldia sem causa. O que afinal esse vídeo vai ajudar a mobilizar? Religiosos enfurecidos para que o estado proteja seus filhos e não os exponham à devassa moral da sociedade? Ótimo, contribuem muito para a cidadania com isso! Por que não aproveitam e exigem logo que a educação volte a ser confessional ou que implante cartilhas de escola dominical ou catequese? Só não poderá ser sobre sexualidade, pois nas igrejas não se fala nisso a não ser judiciosamente, isto é, em termos proibitivos e condenatórios. Mas muitos se esquecem de que seus filhos não precisam sair do conforto e da suposta fortaleza de seus lares para terem acesso a tudo isso e muito mais, ou que nem os pais, nem os líderes das comunidades que eles frequentam, têm se disposto a discutir os assuntos ora condenados com abertura, inteligência e embasamento. Não me espantaria se esses mesmos manifestantes em favor "da família" e dos "bons costumes" se juntassem à luta pela diminuição da maioridade penal - em nome de um "deus justo" -, mas nem de perto se preocupassem com uma educação de qualidade ou aumento salarial dos professores - a classe trabalhadora a quem eles terceirizam a educação dos filhos deles - ou com denunciar os abusos de poder (incluindo assédio moral) nas instituições, incluso as eclesiásticas, que eles aplaudem com tanto entusiasmo, etc. Enfim, assim prosseguimos com nossa ética seletiva, coando mosquitos, engolindo camelos e infantilizando mais ainda nosso povo. A pergunta é: até quando?

Jonathan

terça-feira, 7 de maio de 2013

Da identificação com a cruz

Wooden Christian Cross

Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me” (Lucas 9.23).

Meu ponto de partida aqui é que não é com a cruz que nos identificamos, mas com o Cristo. Quando nos encontramos com ele, como consequência, nos deparamos com a cruz e seu chamado a segui-lo. Não me encontro com a cruz sem Cristo. Esse seria um encontro falido, sem sentido. A cruz, para nós, só tem sentido se for a cruz de Cristo. Sem Cristo, hoje como no passado religioso de nossa América Latina, ela não passa de símbolo religioso, ou de um ídolo.

Em Cristo, a cruz permanece sendo símbolo de morte, mas que gera vida. Na cruz, Ele perdeu a sua vida para que ganhássemos a nossa. Ao terceiro dia ele ressuscitou confirmando nossa esperança, não na cruz, mas Nele. Cristo, e não a cruz, é a nossa esperança. Mas, como sabemos, não há ressurreição sem cruz. Encontramos-nos naturalmente com a “nossa cruz”, na medida em que aceitamos o convite para sermos seguidores do Cristo. Assim, o caminho do cristão não é o de uma “opção preferencial pela cruz”, mas pelo encontro com Cristo, que põe diante de mim a mensagem viva da cruz, como expressão do discipulado.

Toda-via, a expressão humana mais anti-cruz e mais anti-Cristo que há, mais até talvez que aqueles que se auto-declaram assim, se chama ego (ou pelo menos começa nele). O que seria o “ser crucificado com Cristo”, “negar-se a si mesmo”, “tomar a sua cruz”, senão um chamado à conversão do ego? Por outro lado, uma tendência tão prejudicial quanto a de ser anti-cruz (ou “abandoná-la”), é a de iconizar a cruz. Quando transformamos a cruz é um ícone, nós a despersonalizamos, pois nos esquecemos que foi Jesus de Nazaré, filho do homem, muito humano, que carregou, sofreu e morreu na cruz.

É perigoso, também, porque isso pode se transformar numa “tendência” infrutífera e segregacionista: nós somos “os da cruz”, e eles (o resto que não pensa ou age conforme nossa visão de evangelho), são “anti-cruz” e “anti-Cristo”. Por amor de Cristo, evitemos essa tentação. Abraçar a cruz, como expressão do seguimento de Cristo, implica em, antes de olhar para o outro, assumir e reconhecer “o impostor que vive em mim” (Manning). E que, por todas as razões demasiado humanas, que já sabemos de cor quais são, não quer nada com o “credo da cruz”, a não ser reforçar o bordão que diz “cruz, credo!”. Não sendo masoquistas, e sendo honestos com Deus, como Cristo foi no Getsêmani, certamente diremos, diante do sacrifício: “Afasta de mim esse cálice”. Mas em nós opera, pela graça, outra marca da cruz que é a marca do “está consumado”, e é ela que nos capacita a dizer: “Contudo não seja feita a minha, mas a tua vontade”.

Então, dizer que nos identificamos com a cruz, e que ela “continua jovem”, não significa carregar a cruz como bandeira. Pois, como bandeira, o imperador Constantino no século IV, os cavaleiros ou paladinos das Cruzadas dos séculos XI-XIII, e as organizações racistas da Ku Klux Klan no século XX, também carregaram, e a gente sabe com que motivações. São exemplos de que Cristo e a cruz podem ser utilizados como instrumentos do anti-Reino e do anti-Cristo. Não podemos, assim, tratar a cruz como “crachá”: só é crente se adotar “o discurso da cruz”, se “falar da cruz”, se “usar a cruz”. Não faz sentido, simplesmente porque nada disso é garantia de uma identificação visceral com Cristo. Essa identificação, antes de passar pela cabeça, precisa passar pelas entranhas, pelo compromisso gerado na consciência de, pela graça, ser chamado Filho, e de que tudo o mais na vida é secundário à luz dessa básica identificação.

Por fim, ninguém carrega a cruz por amor à cruz em si, mas por amor ao amigo. Jesus disse que não há maior amor que esse, de alguém dar a vida em favor de seus amigos. E assim o fazemos porque cremos que Deus, em Cristo, desde a fundação do mundo, está reconciliando consigo mesmo todas as coisas. Ele é o centro. Não sou o “Cristo” de ninguém, mas minha vida é (espero que seja) uma expressão do amor de Cristo pelas pessoas. E isso para mim é a cruz: a expressão mais concreta, divina e humana, de esvaziamento de si mesmo, bem como do (anseio pelo) poder absoluto em nome de outro poder, o poder do amor de Deus. Um poder onde não estamos no controle de nada, Deus está.

Jonathan

sexta-feira, 22 de março de 2013

Religião: integridade ou hipocrisia? (Parte 3)

 Afghan refugee children (UNHCR) Pakistan

Desmascarando ilusões com um pouco de utopia e esperança

Até aqui, vimos que uma das principais (e mais bem-sucedidas) tarefas da religião é a de mascarar a realidade: de quem realmente somos, de quem Deus é e do que Ele quer, e da vida “como ela é”. Ou seja, seu papel é negar a complexidade. De que modo, finalmente, o livro do profeta Amós ajuda a desmascarar as ilusões, engodos e falsas promessas da vida religiosa?

Em primeiro lugar, convocando-nos a encarar a dura realidade à nossa frente.

A expressão “Dia do Senhor” significava na religião de Israel o dia do julgamento final das nações, onde os seres humanos encontrariam seu destino final, de danação ou de vida eterna. Havia um sentimento otimista em torno deste dia, pois se acreditava que nele o Senhor, por meio de “catástrofes cósmicas”, derrubaria todos os inimigos de Israel e conferiria a seu povo a vitória final (Cf. Balancin; Storniolo, 1991, p. 32).

Amós, porém, apresenta uma concepção inversa, de que o “Dia do Senhor” é, antes, notícia ruim e, só depois, notícia boa; será “escuridão total”. E, mais do que isso, se aplicará a todos, inclusive (senão primordialmente) ao próprio Israel. Em suma, o “dia do senhor” diz respeito a uma época qualquer “de juízo e condenação para o povo de Deus que não cumpriu a sua parte na aliança” (Zabatiero, 1985, p. 80).

Se havia uma perspectiva de triunfo neste dia, seria apenas para os “remanescentes”, no caso, os oprimidos dentre o povo; nem “toda a família de Jacó” seria destruída (cf. 9.8), somente os opressores e arrogantes, aqueles que dizem “nada de mal vai acontecer no nosso tempo de vida” (cf. 9.10). Isso vem mostrar que Deus não só abomina a religião hipócrita, mas também a religião arrogante dos poderosos, líderes e opressores! Além disso, vem reiterar o fato de que Ele não está interessado em mascarar a realidade, seja ela qual for, mas que rumemos à maturidade na fé a fim de enfrentar toda e qualquer situação.

Em segundo lugar, desmantelando as realizações fúteis da vida presente.

Sobre isto, são significativas algumas passagens que podem ser encontradas no cap. 6:

Ai de vocês que acreditam morar na Rua da Facilidade em Sião, que pensam que o monte Samaria é a própria boa vida. (...) Ai dos que vivem só para hoje, indiferentes à sorte dos outros. Ai dos ‘mauricinhos’ e ‘patricinhas’, que acham que a vida é uma festa preparada só para eles! Ai dos viciados em se sentir bem – a vida sem dor! Os que são obcecados pela boa aparência – a vida sem rugas! Eles não se importam nem um pouquinho com seu país, que está à beira da ruína. Mas vejam o que está chegando de verdade, uma marcha forçada para o exílio (Am 6.1, 3-7 – TAM).

Só essa passagem daria um bom “pano pra manga”. Mas gostaria de me focar nos aspectos que nos conduzem a uma ideologia (porque não dizer, religiosa) presentista. A tradução na linguagem contemporânea de Peterson nos ajuda muito nesta tarefa. Vou pontuar apenas algumas marcas, que, por sinal, ainda são bem atuais:

  1. Associar a “boa vida” com os confortos e facilidades de um lugar (o ideal turístico); pensando na religião, este lugar bem poderia ser algumas igrejas.
  2. Abraçar uma vida fútil de festas, regalias e prazer, não dando a mínima para o que acontece ao seu redor; na religião, seria o equivalente à fruição dos louvores, êxtases e massagens de ego nos templos, desassociadas da missão.
  3. O hedonismo e a negação do sofrimento; no campo da religião corresponde à ideologia do crente feliz, sem crise e sem dor.
  4. A falta de engajamento mais amplo e preocupação com questões que envolvem o coletivo. Para alguns irmãos, o coletivo que mais importa é o da denominação, igreja local ou gueto eclesiástico.

O problema é que todas essas ornamentações serviam como vendas nos olhos de Israel para enxergar o que estava por vir de fato: “uma marcha forçada para o exílio” (6.7). E me pergunto se hoje aquilo que representa, aos olhos de muitos, o triunfo do “povo de Deus”, não pode ser uma marcha lenta e progressiva para a sua ruína?

Em terceiro lugar, demonstrando que a esperança pode superar a fatalidade.

Ao longo da mensagem de Amós, Deus dá vários indícios de que, apesar de estar “fechando as contas com Israel”, não tolerando mais seu pecado, tampouco fingindo que tudo está certo (cf. 8.2), ele ainda era seu Deus, misericordioso e amoroso. Há uma passagem interessante que ilustra isso. No capítulo 7, Amós relata que havia recebido algumas visões, que davam conta de que: (v. 1-2) uma nuvem de gafanhotos estava por vir e nada do que era verde sobraria; (v. 4) um fogo viria e queimaria o mar e a terra prometida. Diante de ambas as visões, o profeta grita a Deus dizendo: “Ó Eterno, meu Senhor. Desculpa, mas o que vai acontecer a Jacó, Ele é tão pequeno”, por duas vezes, e nas duas vezes o texto diz que “o Eterno cedeu”, e que nada aconteceria.

O juízo divino ao pecado de seu povo não é capaz de apagar seu amor e misericórdia, e o profeta parecia saber disso, ao ponto de não esconder sua perplexidade. Somente tal perplexidade diante da realidade pode acender em nós a chama de esperança, que não se confunde com otimismo, tampouco com fatalismo. É significativo, portanto, que o livro de Amós termine com um adicional de esperança de restauração para o povo que havia sido conduzido ao exílio (9.11-15).

A esperança anunciada por Amós é a de uma “utopia possível”, baseada na fidelidade de Deus. Não nega e nem falseia a realidade (como a religião), mas a assume. A esperança que se funda em Deus existe no limiar entre o otimismo e o fatalismo. Dá lugar à denúncia e a condenação do pecado, mas também à misericórdia, que abraça e acolhe o pecador. Abomina a manutenção hipócrita e arrogante dos privilégios da aliança, e afirma uma aliança baseada não no mérito, mas na graça.

Nossa esperança não está nos recursos, nem em nossos planejamentos, na segurança de um lugar ou no conforto de uma condição. Os recursos acabam, os planejamentos falham, e as condições mudam; somos limitados, pecaminosos e precisamos aceitar isto. Mas a esperança em Deus é nossa garantia, pela fé, de que o pecado já foi vencido na cruz do calvário, e de que, apesar de sua presença constante, pela graça, ele não precisa mais ter a última palavra em nossas vidas!

O que significa dar razão desta esperança no mundo religioso e não-religioso em que vivemos hoje?

Jonathan

Bibliografia consultada

BALANCIN, E. M. & STORNIOLO, Ivo. Como ler o livro de Amós. A denúncia da injustiça social. São Paulo: Paulinas, 1991.
BELL, Rob. Love wins. A book about, heaven, hell, and the fate of every person who ever lived. Nova York: HarperOne, 2011.
MOTYER, J. A. A mensagem de Amós. 2ª ed. São Paulo: ABU, 1991.
ZABATIERO, Julio P. T. “Amós e a missão da igreja brasileira na atualidade”. In: Boletim Teológico, FTL-B, São Leopoldo, nº 2, 1985, pp. 47-108.

Traduções da Bíblia utilizadas

Tradução da Bíblia A Mensagem (Eugene Peterson) – TAM.
Tradução da Bíblia na Nova Versão Internacional – NVI.

Photo by Sebastian Rich (www.sebastianrichphotography.com)

quinta-feira, 21 de março de 2013

Religião: integridade ou hipocrisia? (Parte 2)

Livro_de_Eli

A religião e a falta de compromisso com a vida

Essa é uma das obras-primas da religião: podemos passar anos na “casa de Deus” (o templo confundido com “a Igreja”), servindo, trazendo dízimos, ofertando sacrifícios e, ainda assim, nunca ter tido fome e sede de Deus, como diz o Salmista: “Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te busco intensamente; a minha alma tem sede de ti! Todo o meu ser anseia por ti, numa terra seca, exausta e sem água” (Sl 63.1). Tenho a impressão de que talvez a religião produza mais ateístas, na prática, que o próprio ateísmo.

Nesta forma de religião não há compromisso real com a vida, nem no sentido de vivência do que se prega, nem no sentido de amor à vida. Isto, pois o viver (a vida) está associado com o buscar a Deus: “Busquem-me e vivam”, afirma ele, separando isto da religião por eles praticada: “Não façam a tolice de perder seu tempo viajando para Gilgal nem se empenhem em descer até Berseba. Gilgal está aqui hoje, mas amanhã não existirá. E Betel é só teatro, não tem substância” (5.4-5 – TAM).

O amor ao princípio, muitas vezes, nos faz perder de vista a vivência do próprio princípio. A verdade que interessa é somente a verdade agradável, e não a verdade “nua e crua”, como diz Amós (5.10-12).

Há um tempo assisti ao filme O Livro de Eli. Achei interessante a sua crítica, sobretudo aquela dirigida a alguns fundamentalismos religiosos de nosso tempo. Uma das frases marcantes do filme é quando Eli, personagem do protagonista Denzel Washington, afirma: “Todos esses anos que eu o levava e o lia, diariamente, na minha obsessão por mantê-lo a salvo, deixei de viver segundo o que aprendi nele”.

É impressionante como essa frase representa bem o que se tem vivido em termos de história das religiões, dentre elas o cristianismo, até os dias de hoje. Ou seja, quando nos tornamos paladinos cegos de um livro sagrado (no caso do filme, a Bíblia), incorporamos a posição dos fundamentalistas radicais e tendemos a perder de vista a integridade que o próprio livro nos ensina – no caso de Eli, o ensino fundamental esquecido foi: considerar o próximo antes e acima de si mesmo. Isso no conduz ao ponto de partida (não da religião), mas da relação com Deus (que Israel havia perdido de vista): considerar antes e em primeiro lugar o outro (próximo), e só assim estarei mais perto do Outro (Deus).

(Continua…)

Jonathan

quarta-feira, 20 de março de 2013

Religião: integridade ou hipocrisia? (Parte 1)

religion-masksA religião e seus ritos sem substância

Quero iniciar este ensaio – uma provocação bíblica contra um modo de ser próprio no mundo, que estou chamando de “religião da hipocrisia” – com a frase introdutória de Eugene Peterson, em sua tradução da bíblia, A Mensagem, ao livro de Amós:

Mais pessoas são exploradas ou agredidas por causa da religião que por qualquer outro motivo. Sexo, dinheiro e poder cedem lugar à religião como principal motivo de ações maldosas. No momento em que uma pessoa (ou governo, ou religiões, ou organização) se convence de que Deus está ordenando ou aprovando uma causa, vale qualquer coisa. A história de ódio, assassinatos e opressão alimentados pela religião cresce em ritmo acelerado no mundo inteiro. Os profetas bíblicos estão na linha de frente dos que fazem alguma coisa a respeito disso (Peterson, In: “A Mensagem”, p. 1282).

Não tem alguma coisa fora dos eixos quando uma religião, que prega vida, amor (a Deus e ao próximo) e justiça, se degenere, na prática, em violência, exploração e injustiça? Como e por que isso acontece? E o que Deus pensa disso tudo? Amós, no textos que aqui pretendo abordar e em todo o seu livro, nos ajuda a entender...

Primeiro, ele nos mostra, ao londo de seu livro, que nem tudo o que leva o nome de Deus (em nosso caso de “cristão”, “católico”, “protestante” ou “evangélico”) representa e adora, em verdade, a Deus.

Segundo, ele demonstra que certos atos religiosos se traduzem em fazer coisas “para Deus”, mas, no fundo, são cultos de si e para si mesmo. Isto fica evidente no capítulo 4, verso 5 (NVI): “Queimem pão fermentado como oferta de gratidão e proclamem em toda parte suas ofertas voluntárias; anunciem-nas, israelitas, pois é isso que vocês gostam de fazer”. Ora, o culto era uma cerimônia pública. Mas o ato, de “proclamar” e “anunciar” as ofertas, indica autogratificação e não gratidão a Deus. Não é à toa que Jesus, no Sermão do Monte, defende que aquilo que a mão direita faz, a esquerda não precisa saber, referindo-se, porém, ao “dar esmolas” (Mt 6.3).

Em outras palavras, não é preciso “tocar a trombeta” ou fazer um teatro todas as vezes que se realiza um bem, sobretudo, porque é para Deus que se está fazendo. Por isso, Jesus no mesmo sermão, acerca da oração, afirma que não devemos agir como os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, que fazem de suas orações um show particular a fim de serem notados; antes, que se procure um lugar quieto e secreto a fim de não representar nenhum papel diante de Deus (Mt 6.5-6). É uma vida de integridade atuando contra uma religião da hipocrisia.

Terceiro, vemos ainda que a religião nos faz ter Deus nos lábios e na mente, mas não produzem necessariamente “fome de Deus” (3.6). Assim Amós denuncia: “vocês falam do Eterno... como se ele fosse seu melhor amigo. Então vivam de acordo com isso, e talvez isso venha a acontecer” (5.14 – TAM).

(Continua…)

Jonathan

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Um recado para a juventude: o Pai quer celebrar!



O cristão não é, pelo menos em tese, um seguidor de leis e códigos morais, com a Bíblia como sua “regra de fé” ou de qualquer outra coisa. Regras se obedecem ou não; ninguém se debruça sobre elas, faz esforço de crítica e discernimento, busca iluminação através delas ou as trata com reverência. Não. O cristão vive pela fé, sustentado pela e na graça de Deus, e em busca de discernimento mediante a escuta do clamor das necessidades de seu contexto imediato e da voz do Espírito. Quanto à juventude, precisamos nos arrepender e reconhecer que, como igreja, temos sido negligentes tanto em nossa tarefa de discernimento e compreensão — quem sabe porque nos aferramos demais às “regras”, velhas ou novas — como de acolhimento de suas demandas. Pelo contrário, nos acomodamos cegamente com a manutenção, repetição e preservação, evitando a todo custo os riscos de qualquer natureza.

Subestimamos nossa juventude, seja quando a rotulamos e a marginalizamos como “perdida”, “rebelde” ou “desinteressada”; seja quando abraçamos a causa de arrebanhá-la, oferecendo, numa versão particular da “sociedade do espetáculo”, menos alimento e mais entretenimento. Não é à toa que muitos — refiro-me aos que não se encaixam no esquema “pão, circo e salvação” — sintam arrepios só de ouvir a palavra “Igreja”, ou quando se dão conta de que tem alguém querendo “pregar para eles”. Parafraseando José Comblin, essas ovelhas perdidas do aprisco — da igreja, não necessariamente de Deus — não se mantêm longe dela por razões de distância ou falta de comunicação — muitas igrejas têm feito “direitinho” a lição de casa de comunicação na era cibernética; afastam-se simplesmente porque querem, e sabem que a igreja tem feito, há um bom tempo, um grande esforço para frustrar suas aspirações à liberdade, salvo exceções. Com medo dos riscos da vivência e da teologia sobre a liberdade, esquecemos quase completamente de seu lugar fundamental no evangelho como uma vocação.

Tem faltado tanto aos jovens “de dentro”, como aos alheios à igreja, gente que comunique mais, com intencionalidade e sem ficar “pisando em ovos”, a boa notícia de que o Pai não é contra a vida, contra a festa ou a se aproveitar o dia. Pelo contrário, o Pai quer ter a chance de poder celebrar a vida conosco como convidado de honra, sem enchê-la de mais peso, castigo ou obrigações, oferecendo uma nova noção de compromisso, que tem a ver com vida e não com escravidão. Falta gente com a revelação encarnada e presente de um Deus gracioso, que os convida para uma caminhada de alegria e liberdade no espaço largo de sua casa, que mais que um lugar, é uma condição de existência e relacionamento na qual possam entregar seus corpos — muitas vezes marcados e feridos por nossas escolhas e pela dureza de suas curtas vidas — para serem sarados e restaurados integralmente por Ele. Como lembra Nouwen, “a comemoração faz parte do Reino de Deus. Deus não só oferece perdão, reconciliação e cura, como deseja que aqueles a quem esses dons são conferidos o recebam como uma fonte de alegria”.

O que mais me chama a atenção, ao reler a parábola do filho pródigo, é que não somente os dois filhos são figuras vulneráveis e perdidas da história. O pai também é. Não da maneira dos filhos, é claro; o pai é “perdido de amor”. É essa imagem de Deus que a parábola me revela: a imagem de um Deus de amor, que também se encontra “perdido” em busca de seus filhos perdidos e não descansa até que, finalmente, os encontre. Um Deus que nos ama com um amor incondicional, incansável, imponderável, insano e injusto aos nossos olhos. Um amor que, como defende Brennan Manning, “abraça a todos sem exceção. De novo, o amor de Deus é tolo”.

É para esse tipo de loucura que Deus nos chama como igrejas, jovens e filhos de todas as idades: amar com um tipo de amor que o mundo desconhece, motivo de espanto, escândalo, e até mesmo frustração. É um amor que não força, não se apossa, agarra ou empurra; é um amor que liberta da obrigação do amor, para a possibilidade do amor. Possibilidade de acolher ou de rejeitar. Por isso amar às vezes dói, por isso nos deixa tão vulneráveis. Mas é esse amor que nos identifica como filhos de Deus, e que também nos conduz à maturidade como gente e, assim, a abraçar nossa vocação como pais e mães de filhos biológicos, adotivos ou na fé. Pessoas a quem Deus ama, filhos a quem Ele nos dá o privilégio de co-amar-gerar.

Jonathan

* (Última parte de meu artigo "Os filhos do pai perdido e a juventude evangélica", publicado em Novos Diálogos - http://www.novosdialogos.com)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Para falar da verdade na religião

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Religião é dar às pessoas esperança em um mundo dilacerado pela religião – Jon Stewart.

No âmbito plural das religiões contemporâneas, e suas intermináveis variações, ainda nos deparamos com a remanescente questão da “Verdade”, sempre ela. Dizer que a possuímos como quem possui um bem material é insanidade – embora não das mais improváveis. Se alegarmos que ela é atingível em sua plenitude ou dissermos, em contrapartida, que ela não existe, nos enganamos por não reconhecer o caráter contingente de nossos pressupostos – que em parte tem provocado a insanidade da posição anterior. Se defendo, porém, que há a “minha verdade”, em detrimento, embora não necessariamente em conflito, com a “sua verdade”, posso estar abraçando ou um vale-tudo relativista improdutivo e sem sentido, ou ingressando na armadilha de, no fim, ainda que relutante, ter de entrar na discussão de qual verdade é, de fato, “A Verdade Verdadeira” (pleonasmo desesperado). Dada a limitação do saber e da experiência humana, enquanto a metafísica, o orgulho e a pretensiosidade reinarem em nossa “vontade de verdade”, ela será mais um instrumento de separação, violência e exclusão.

O que parece ser, afinal, no domínio da religião, a verdade? Aquilo que escapa até mesmo ao mais sincero dos olhares seja pela via da experiência, do conhecimento ou da própria fé, e que só se oferece por relance, como percepção de canto de olho. Quando se diz “aqui está ela”, é porque ela já passou por ali, deixando pegadas, talvez, mas não se faz presente. Não se detém em palavras, conceitos ou ideias. Não se confunde com os chamados “fatos” do cotidiano e da história, pois um fato – refiro-me a fenômenos humanos e não aos de ordem física ou matemática – é sempre um fato construído, notado e narrado por alguém. Até por isso, sim, contra fatos há argumentos – sei que isso irá incomodar uma meia dúzia que costuma usar esse ditado no sentido oposto. Para estes, retomo aqui o algo que escrevi em outro lugar:

Uma das idéias das quais nos abastecemos – os historiadores mais ainda – é a de que fatos existem lá fora. Um fato pode ser entendido genericamente como um fenômeno humanamente reconhecível, e ordenado a partir do tempo e do espaço. Para muitos, fatos são “dados”, isto é, informações que emanam naturalmente dos ocorridos e que, por uma pura observação, caem em nossos colos prontos para serem divulgados. Não foram mexidos, como podem ser os ovos, nem modificados pelo olhar humano. Aliás, para que um fato seja reconhecido como tal se teria de ignorar o tal olhar. Ademais, nisso tudo ainda se propaga a teoria da “tabula rasa” de David Hume, que pressupõe a pura recepção da mente humana dos dados da experiência, demarcando uma continuidade entre o dado, a recepção e o conhecimento.

Assim, tal teoria se faz disseminar entre nós por meio do senso comum de que “contra fatos, não há argumentos”, já que o fato “fala por si mesmo”, e nosso papel é apenas o de descrevê-lo tal como ele é, sem tirar, nem pôr. Fatos, segundo essa visão, emergem das coisas. Embora muita gente ainda pense assim, há muito tempo existem argumentos levantados por diferentes vozes contra tal percepção de um fato. Como resultado, uma da ideias é a de que um fato não é um dado proveniente do mundo externo, mas uma criação proveniente do olhar humano. Logo, aquilo que recebemos como “fato”, contra qual não se poderia ter argumento, surge precisamente de outros argumentos, ou informações suscitadas por alguém, que não “caíram no colo”, nem foram “dadas” e sim produzidas pelo olhar ou perspectiva e traduzidas em linguagem.

É óbvio que isso se aplica ao campo do conhecimento, que surge precisamente desse olhar para a realidade. Repito, não se trata de ciência exata aqui, mas humana (melhor deixar claro, antes que alguém venha dizer que acredita ser um fato que 2 + 2 é igual a 4). Fatos, assim, são construções, à medida que passam pelo filtro do olhar, que naturalmente resulta em interpretação e, por fim, em um enunciado. Não se pode, por mais que se tente, eliminar todas as interpretações naturais, como defendeu Paul Feyerabend. E toda tentativa de fazê-lo, ainda segundo ele, seria autodestrutiva, ou, como disse C. S. Lewis, é aceitar a “oferta do Bruxo”.

Voltemos agora ao assunto principal. No âmbito do cristianismo, Verdade também não é conceito, é uma pessoa chamada Jesus de Nazaré, Filho de Deus, que declarou ser “o caminho, a verdade e a vida”, mas deixou a pergunta em questão (quando feita por Pilatos, conforme relato de João), “o que é a verdade?”, sem resposta pelo menos no sentido epistemológico-filosófico do termo. Qualquer “resposta” dessa natureza seria como que decretar a morte da própria verdade, pois reduzi-la com um “assim é”, é o mesmo que assassiná-la. Jesus não responde, eu presumo um tanto exageradamente, por não querer cometer suicídio.

Assim, ainda que a verdade (pessoa de Cristo) seja a força motriz da religião cristã – alguns diriam que é o amor, mas, não nos esqueçamos o que disse João, “Deus é amor” –, não deve ser usada como arma, força de argumento ou meio de imposição. O relacionamento, o caminhar com e a vida são mais importantes que a certeza do saber e da doutrina correta. Esse foi o recado para Pilatos, e continua sendo o recado para qualquer um interessado na questão da verdade. E quem “é” é, mostra a que veio, não joga todo o peso na precisão do discurso quanto no exemplo de vida humana. E se a verdade ali germina, não é a pessoa que determina, mas o Espírito da verdade. O que significa, por conseguinte, que não faz sentido dizer que o cristianismo é a única religião verdadeira – pois todas são “verdadeiras” no sentido de que buscam a verdade; menos ainda, dito de outro modo, que é o único a possuir tal verdade – porque nenhuma religião a “possui”. Estar em posse da verdade significa poder manipulá-la, transformando-a em algo diferente de si mesma. Não. Para que seja verdade, é preciso ser livre de qualquer dominação, inacessível como “coisa em si” à linguagem e ao conhecimento. Por isso é que, no caso de Jesus, ele disse “eu sou”, e isso basta e já esclarece muita coisa, embora muita gente ainda não entenda, especialmente quando continua a confundir verdade com doutrina ou sua experiência (religiosa) de Jesus, de Deus ou de qualquer outra divindade que componha seu panteão pessoal.

Compreender isso, mesmo que em um nível mais basilar possível, é fundamental tanto para o diálogo inter-religioso, como para o testemunho de fé num mundo pluralista. Se ainda quisermos, por compulsão, falar em “verdadeira religião” é preciso recordar, ainda que de passagem, que na Bíblia não se assevera em lugar algum que o cristianismo é essa religião – por isso digo, num certo tom paradoxal, que ser seguidor do Cristo não me leva (não mais) a forçosamente ter que defender o cristianismo, versão histórica, institucionalizada e departamentalizada desse seguimento, como “a religião verdadeira”. Cito apenas dois exemplos das Escrituras Sagradas (na tradução “A Mensagem”, de Eugene Peterson), que tratam da religião num sentido mais amplo, e paro por aqui, por enquanto:

O primeiro vem do profeta Amós, num manifesto de repúdio divino contra a escolha de tantos em fazer do teatro e da hipocrisia sua morada permanente em termos de religião, esquecendo o fundamental, aquilo pelo que o Senhor anela no ser humano:

Não suporto os encontros religiosos de vocês. Estou cheio dos seus congressos e convenções. Não me interessam seus projetos religiosos, seus lemas e alvos presunçosos. Estou enojado das suas estratégias para levantar fundos, das suas táticas de relações públicas e criação da própria imagem. Não suporto mais sua barulhenta música de culto ao ego. Quando foi a última vez que vocês cantaram para mim? Alguém aí sabe o que eu quero? Eu quero justiça – um mar de justiça. Eu quero integridade – rios de integridade. É isso que eu quero. Isso é tudo que eu quero. (Am 5.21-24 – TAM)

O segundo vem do apóstolo Tiago, que trata de algo fundamental em sua carta – e, se lembramos bem do finalzinho do Sermão do Monte, também crucial para Jesus – que é a coerência entre o falar e o viver, mostrando que religião é menos o que se professa e se ritualiza e mais o que e como se faz, com a vida:

Não se enganem, fingindo-se de ouvintes, quando, na verdade, deixam a Palavra entrar por um ouvido e sair pelo outro. Coerência é tudo! Quem apenas ouve e nada faz é como quem se olha no espelho, e, no minuto seguinte, já nem se lembra da própria aparência. Mas quem dá atenção à mensagem de Deus e a vive na pratica – a verdadeira liberdade – e nela se firma, sem ser mero ouvinte – essa pessoa vai longe e será abençoada por Deus. Qualquer um que se considere “religioso” e fala demais está se enganando. Esse tipo de religião é mera conversa fiada. Religião de verdade, que agrada a Deus, o Pai, é esta: cuidem dos necessitados e desamparados que sofrem e não entrem no esquema de corrupção do mundo sem Deus. (Tg 1.22-27 – TAM)

Jonathan

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Vivendo na encruzilhada

Young Cross Roads

É inegável que William Young, escritor canadense, há pouco tempo entrou para o hall de notáveis autores da literatura contemporânea. De mero desconhecido, Young saltou para o status de um dos autores mais lidos nos últimos tempos, com o lançamento de seu primeiro livro, e também primeiro best-seller, A cabana (Sextante, 2008). Neste primeiro livro ele já demonstrou a habilidade rara de fundir em uma mesma história uma narrativa cativante e uma reflexão (existencial e teológica) provocativa, inovadora. O “problema” do livro – para alguns, é claro – é o mesmo que se pode encontrar em inovadores por natureza: eles incomodam muita gente, especialmente aos guardiões da ortodoxia de plantão. 

E começo então a falar sobre esse mais recente lançamento de Young, A travessia (2012) pontuando que ele tem algumas semelhanças com A Cabana. Em primeiro lugar, porque os temas teológicos de fundo são quase os mesmos: o problema do sofrimento humano, religião, liberdade e graça, comunidade trinitária, etc. Em segundo lugar, porque a dinâmica em que esses temas aparecem na nova trama também é bastante parecida, em que o protagonista, um homem beirando a meia-idade, vivenciando uma situação extrema, é conduzido a um encontro com a Trindade, que, assim como na obra anterior, assume formas humanas típicas: o Espírito Santo é uma mulher idosa da tribo Lakota, carinhosamente apelidada de “Vovó”; Jesus aparece como um homem de olhos castanhos e vestimentas rústicas, e Papai tem uma aparição rápida na figura de uma garotinha de vestido azul e verde, embora o autor tenha dito na narrativa que, através de Jesus e de Vovó, “Papai nunca deixou de estar presente” (p. 235). Impossível esquecer-se de outro ilustre personagem, chamado de “Jack da Irlanda”. Logo fica claro, pela influência que teve na vida do autor e na construção de sua obra, que se trata de uma homenagem a C. S. Lewis (que era conhecido por seus amigos como “Jack”). Por fim, pode-se dizer que a mesma tenacidade da união entre narrativa e reflexão, tão habituais no estilo do autor em A Cabana, continuam presentes, embora menos intensamente, em A travessia – título, aliás, que, a meu ver, não traduz a ideia do original em inglês, Cross Roads, que significa encruzilhada, cruzamento ou trincheira. Esse título, ademais, como comentou um amigo meu, dá uma cara meio “espírita” ao livro.

Agora aponto alguns aspectos singulares deste livro. Sua história é revestida de uma complexidade ainda maior que a de A Cabana, com muitos outros personagens coadjuvantes, vários cenários diferentes, e o elemento “místico”, por assim dizer, é ainda mais forte que o que vimos no livro anterior, de arrepiar os cabelos dos mais conservadores, acostumados a se ligar mais em detalhes legais e possíveis em termos de realidade, e menos no princípio que rege a história, que neste caso, é preciso lembrar, trata-se de uma ficção, recheada de aspectos arrolados para mexer com a imaginação e despertar o interesse no leitor – bem, nada de mal nisso, certo? Como diz a epígrafe do capítulo, atribuída a C. S. Lewis. “Um dia você será velho o bastante para voltar a ler contos de fadas” (p. 31).

Então, é preciso adiantar que, assim como (e até mais que A Cabana), a obra em questão deve ser lida com a fluidez livre de uma estória, como tal altamente metafórica e sem compromisso de ser precisa na forma como insere os saberes teológicos em questão. Essa é uma ressalva necessária contra possíveis buscas de “erros e heresias” no livro, desqualificando-o como “obra teológica”, como fizeram alguns em relação ao livro anterior deste autor, até porque não se trata de uma “obra teológica”, pelo menos não no sentido estrito e hermético do termo, mas pode ser classificada dentro de um gênero mais amplo, que une características típicas de um romance, mas com inserções de questões teológicas explícitas. Naturalmente, o autor teve a intenção de apresentar uma determinada visão sobre Deus, em sua relação com a humanidade, em oposição a outra, mais “religiosa” talvez. Aliás, como havia feito em seu romance anterior, Young também reconhece nesta obra que imagens de Deus não são o próprio Deus; podem ser relances inacabados apenas, como Vovó afirma a Tony, o personagem central, já no fim da história: “Imagens... nunca foram capazes de definir Deus, mas como desejamos ser conhecidos, cada vislumbre, por menor que seja, é uma pequena janela para uma das facetas de nossa natureza” (p. 235). Mas um romance que reúne aspectos teológicos não equivale a um livro de teologia sistemática, por exemplo. Dessa forma, este livro deve ser lido com espírito mais poético que cartesiano, embora seja perfeitamente possível discordar de uma ou outra visão teológica expressa pelo autor. 

A natureza imaginativa permite ao autor pensar em um caso de como alguém profundamente ferido pelas contingências da vida, e que, com isso, feriu a muitos outros também – no caso de Tony, os feridos foram seu irmão, ex-esposa, filha, sócios, funcionários e, assim, conseguiu afastar todo mundo para longe de si – pôde, num contexto de sofrimento extremo, como a morte, ter um reencontro tal com a vida e perceber que tudo o que antes chamava de liberdade, vida e sucesso, era na verdade sinônimo de escravidão, morte e fracasso. Essa vida ele reencontra através do terno amor de Jesus, o mesmo Jesus que sua mãe havia dito em sua infância que nunca deixaria de o abraçar. O personagem, em decorrência de um AVC (Acidente Vascular Cerebral) que o deixou em coma profundo, encontra-se com Jesus, Vovó e Papai em uma realidade intermediária, cujo cenário é um retrato da própria vida dele até então, e é convidado a uma dupla experiência de cura e “conversão”: a cura de si mesmo através da cura e conversão a outra pessoa que ele, Tony, deveria escolher. A partir de então, começa a aventura de Anthony Spencer, em busca de respostas a perguntas como: Quem é Deus? Quem sou eu? A quem devo curar? Como posso curar alguém estando eu ainda, de múltiplas formas, ferido e à beira da morte? Se não posso apagar o passado, será é possível lidar de modo diferente com ele? Como superar a perda do filho de 5 anos, que desde então o transformara em uma pessoa fria, fechada e egoísta? 

Assim, através da história de Tony, Young demonstra que não é de um dia pro outro que o mal se instala silenciosamente no coração humano, o que torna também a conversão – esse gradativo arrancar, com a ajuda do Espírito, das ervas daninhas do jardim da existência, com o cuidado de não jogar fora com elas rosas e outros espécimes preciosos – é de fato um processo, que pode até ter marcos ou viradas bem definidas, mas que dura a vida inteira.

Uma passagem emblemática que ilustra bem essa ideia é quando Jesus, falando a Tony sobre esse gradativo projeto de (re)construção conjunta (Deus e a pessoa) de uma vida – que, para ele (Tony) estava “demorando demais” – explica que aquele terreno sobre o qual operava (que visualmente tinha a forma concreta de uma propriedade) era:

Um terreno vivo e não um canteiro de obras. Algo real, que respira, não uma construção que pode ser erguida à força. Sempre que você dá mais valor à técnica do que ao relacionamento e ao processo, sempre que tenta acelerar o desenvolvimento da consciência e forçar a compreensão e a maturidade a crescerem antes do tempo, é nisto – disse ele apontando para todos os lados da propriedade – que você se transforma (p. 56).

É óbvio que Jesus estava falando de Tony e não de qualquer pessoa em geral. Mas também é claro que esse princípio não se aplica ao personagem apenas, mas a qualquer pessoa que leia isso mais atentamente. Se nossa vida é um canteiro, certamente é um canteiro constantemente sinalizado com a placa “em obras”. E que a obra de Deus na vida de alguém pode ser lenta sob o olhar desse mesmo ou de outro alguém, mas há de ser completa até o dia de Cristo Jesus. Até lá, seremos seres inacabados e em processo. Gosto sempre de pensar que a música “In repair”, de John Mayer, é uma excelente descrição de como vejo minha própria vida, especialmente quando diz: “Eu estou em reparo, não estou pronto ainda, mas estou chegando lá”.[1]

Essa, portanto, é uma história sobre o poder de Deus de mudar uma vida – se e quando nesta vida há lugar para a morada de Deus – e, através dela, revolucionar e surpreender tantas outras com um amor incompreensível. Carrega a mensagem de que quando Deus (Pai, Filho e Espírito), passa a viver em nós, mais que religiosos, nos tornamos caminhantes da encruzilhada, sempre sendo colocados na posição de ter de escolher a vida, sendo impelidos pela graça, mas não obrigados. Costumo dizer que ser seguidor do Cristo é, de fato, estar numa posição de encruzilhada, em que nada mais é fácil, simples e nem confortável, e até por isso é tão fascinante.

Outra citação de C. S. Lewis, que aparece na última página do livro referindo-se, sobretudo, à vida cristã, é cabível aqui: “Se você buscar a verdade poderá encontrar conforto no fim. Se buscar conforto, não o alcançará, e tampouco a verdade, mas apenas bajulação e ilusões no começo e desespero no fim” (p. 239).

Finalizando, não recomendo a leitura desse livro para aqueles que, porventura, estejam ansiosos por encontrar o que já viram em A cabana. Não leia, porque, no final, provavelmente se sentirá frustrado(a). É um livro parecido em alguns aspectos, mas inteiramente diferente em outros. Recomendo sua leitura aos amantes de estórias, dramáticas, complexas, paradoxais, como a vida muitas vezes é, e que estejam dispostos a refletir e repensar sua visão sobre si, sobre Deus e sobre as pessoas que dão significado especial à sua, minha, nossa existência.

Jonathan


[*] Resenha de: YOUNG, William Paul. A travessia. São Paulo: Arqueiro, 2012, 240p.

[1] No original: “I’m in repair, I’m not together but I’m getting there”. John MAYER. Álbum: Continuum. Columbia Records, 2006, faixa 11.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Rob Bell, os evangélicos e suas representações de céu e inferno



Por Jonathan Menezes
Toda a dificuldade em entender o inferno é que a coisa a ser entendida é quase Nada.
– C. S. Lewis
Quem conhecia o pastor norte-americano Rob Bell apenas por suas obras anteriormente publicadas, nomeadamente: Repintando a Igreja (2005, Editora Vida, Velvet Elvis), Deus e sexo (2007, Editora Vida, Sex God), ou Jesus wants to save Christians (2008, Zondervan), ou até mesmo pela série Nooma, composta de vários vídeos em que Bell atua e ensina de modo criativo, certamente foi surpreendido pela repercussão e pelo teor para lá de polêmico de seu mais recente livro, O amor vence (2012, Editora Sextante, Love Wins).
A habilidade na comunicação clara, inteligente e atraente — quem lê Bell sente como se tivesse ouvindo ele falar ao vivo — continua como marca registrada nesta obra. Certamente Bell é um dos principais comunicadores desta e para esta geração. O problema, para muitos, está no conteúdo, que parte do questionamento de uma teologia de céu e inferno que há séculos vem sendo aceita e reproduzida como “Verdade” pelos cristãos, e uma versão especial dela, pelos cristãos evangélicos norte-americanos de vertente fundamentalista, a qual o autor mesmo assim descreve:
Fizeram-nos crer que um seleto grupo de cristãos viverá eternamente em um lugar de paz e alegria chamado céu, enquanto o resto da humanidade será deixado para sempre no tormento do inferno. Muita gente aprendeu que esta é uma verdade imutável da fé cristã e que rejeitá-la é o mesmo que rejeitar Jesus. Isso é um equívoco. Além do mais, essa ideia não ajuda a propagação da mensagem de amor, alegria, perdão e paz que o Senhor nos trouxe e que precisamos desesperadamente ouvir (1).
Desde que o livro foi publicado nos Estados Unidos, há pouco mais de 1 ano, as repercussões que aconteciam lá reverberavam aqui no Brasil com um teor negativo maiormente, em que Bell recebia acusações que o colocavam no posto de “herege da vez”. A mais comum foi a de que, com este livro, Bell se autoiniciou em uma nova fase “universalista” — isto é, segundo o senso comum, como quem crê que a salvação em Cristo é universal e que, a despeito do que na terra aconteça, no final Deus irá salvar a todos, porque no fim, como diz o bordão do livro, “o amor vence”. Com a tradução do livro para o português e sua publicação no Brasil neste ano de 2012 (pela editora Sextante), o assunto voltou à tona entre os brasileiros. Mais ainda agora, a partir da entrevista concedida por Bell à André Petry, para a Revista Veja (Edição 2297, de 28 de novembro de 2012). Gostaria de concentrar meus comentários na entrevista, fazendo breves correlações com o livro.
Em primeiro lugar, uma das ênfases de Bell na entrevista, que bem resume a principal tese defendida no livro, é a de que céu e inferno são dimensões de nossa existência aqui e agora, que “se estendem para a dimensão para a qual vamos ao morrer...”, e que “as pessoas mais interessadas em discutir o inferno depois da morte são menos interessadas em discutir o inferno sobre a terra. E vice-versa” (2). Não poderia concordar mais e não vejo nada de exagerado nestas afirmaçôes. Como ele mesmo diz, basta olhar ao redor, em nosso país e no mundo, para perceber que muitas pessoas, de fato, têm enfrentado infernos de infinitas naturezas neste momento. De igual modo, é possível dizer que o céu — ou a vida eterna — é algo que se pode experimentar, pela fé, de modo parcial já-aqui no tempo. Contudo, este ponto de seu argumento — de que céu e inferno não são “lugares” propriamente, mas estados existenciais —, Bell não foi o primeiro a apresentar, e nem eu saberia precisar com certeza se há um único “pai” para esta ideia. O próprio Bell reconhece isso quando diz: “Eu não criei nenhuma linha de pensamento inovadora que vá de encontro a tudo o que já foi dito inúmeras vezes. Esta é a beleza da fé cristã, histórica e tradicional: ela é um rio largo e profundo que vem correndo há milhares de anos, transmitindo uma incrível variedade de vozes, pontos de vista e experiências” (3).
Deixe-me citar um exemplo disso. Num livro de ficção (não menos teológico por isso) escrito em 1946, chamado The great divorce [O grande abismo], C. S. Lewis fez afirmações semelhantes e, em minha avaliação, de maneira um pouco mais criteriosa que Bell em seu O amor vence. A assunção básica de Lewis, logo no prefácio, é a de que será verdade, para aqueles que completarem a jornada (ou a “carreira da fé”, na linguagem paulina), que “o bem é tudo e que o céu está em toda parte”, embora disto não implique, segundo ele, na “falsa e desastrosa ideia de que tudo é bom e de que qualquer lugar é o céu” (4). Também afirmou acreditar que, se a Terra fosse escolhida em lugar do Céu, acabaria tendo sido, todo o tempo, “apenas uma região no inferno”, mas se estivesse subordinada ao Céu, teria sido, desde sempre, “uma parte do próprio Céu” (5). Decorre disso que, para Lewis, o Céu é algo que permeia a realidade de tudo aquilo que é “bom” e “verdadeiro”, e o inferno pode ser mais bem entendido como um “estado de mente”, resultante do isolamento da criatura, em sua própria mente, da vontade de seu Criador (6) — e aqui estão inclusas todas as incontroláveis implicações disso. Isto se funde bem com a ideia de Bell de que o inferno pode ser descrito como nossa recusa em permitir que Deus reconte nossa história (7).
Em outras palavras, o inferno seria fruto, também, da escolha do ser humano — ou sua “rejeição” e “resistência”, como enfatiza Bell numa parte da entrevista — por viver de modo alheio, e até mesmo oposto, ao amor de Deus em sua vida na terra. Se é impossível afirmar que o destino deste ser humano será a condenação eterna, é também muito difícil (e tão “especulativo” quanto) afirmar que, porque Deus é bom e é amor, ele/ela está, por derivação natural e largamente extendida do amor divino, livre de qualquer condenação. Lembrando do que disse Paulo, “já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte” (Rm 8.1, 2). A libertação da condenação, desta forma, é consequência do “estar em Cristo”, conforme Paulo. Quem está, como chegou a estar e de que modo permanece “estando” é outra discussão. Só sei que, de modo algum, propagaria aqui a confusão entre as afirmações “não há salvação fora de Cristo” e “não há salvação fora da Igreja” ou “do Cristianismo”. Essa é uma pretensão tola da qual precisamos, urgentemente, nos livrar.
Em segundo lugar, um dos equívocos de Bell está em rejeitar com veemência o que ele chama de teologia concernente ao campo da “pura especulação” sobre céu e inferno. Não pela razão — correta a meu ver — de que nada podemos falar sobre céu e inferno como se tivéssemos “lá” estado ou como se possuíssemos “uma fotografia” de como será quando passarmos “desta para melhor” (ou para pior, quem sabe). Se estudarmos com um pouco mais de atenção o que as Escrituras falam sobre céu e inferno, veremos que estes são representados de modo figurativo, e não literal, isto é, não pretendem apresentar uma pintura ou foto da coisa em si, mas oferecer vislumbres simbólicos de como é ou como será — o livro de Apocalipse é, para mim, o melhor exemplo. Desse modo, de fato, é no mínimo estranha a “autoridade” com que alguns reclamam afirmar que “lá será assim” ou “lá será assado”. Mas, quando digo que ele se equivoca, é porque deixa inúmeras questões em aberto em suas afirmações, tornando-as tão especulativas quanto as que ele mesmo ora critica, tanto no livro quanto na entrevista. Um exemplo está em quando ele diz ser possível encontrar hoje um número grande de cristãos que acreditam que “Deus conquistará todos nós, ganhará todos os corações. Não sei se isso vai acontecer, também não sei o que acontece quando morremos, mas acho que essa é a melhor história possível. Portanto, por que não torcer por ela?” (8).
O uso da palavra “não sei” por Bell me lembra daquele personagem, o Chicó, do filme O auto da compadecida(Guel Arraes, 2000), que dizia não saber explicar as coisas, e repetia constantemente o bordão: “Não sei, só sei que foi assim”. O problema não está em não saber, está, antes, em confundir a natureza dos saberes, os de ordem científica — como o evolucionismo, citado por ele — e especulativa, e os de ordem de fé. Não estou dizendo que não possa haver, em nenhuma hipótese, conciliação entre eles, mas que há diferenças óbvias entre o que um saber científico reivindica e o que um saber de fé reivindica, e entre as respostas que ambos podem e se propõem a dar. O cientista, que estuda fenômenos, nada pode dizer sobre céu e inferno, pois não pode dizê-lo “objetivamente”. Já a pessoa de fé, é capaz de dizer: “sei que o inferno e o céu estão aqui presentes, e também lá”, mas logo reconhecerá que este saber só tem sentido se concebido e experienciado na fé. Ele/ela não apenas “torce” para que assim seja, como quem torce para que chova amanhã, mas espera — no sentido da esperança que se conjuga entre paciência e luta — que assim seja. A fé, já diria o autor de Hebreus (11.1), “é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se veem”.
Em outras palavras, a fé pode ser entendida como uma certeza sustentada pelo Espírito — já que não vejo, mas espero — em meio às muitas incertezas humanas. É resultado do encontro entre o que há de mais sublime e verdadeiro na existência para os que “estão na fé” — o conhecimento de Deus — com aquilo que há de mais frágil e incerto — conhecimento e experiência humanos. Na definição de Brennan Manning, “fé é um compromisso com a verdade, que é Jesus Cristo. Fé é dedicação à realidade, que é Jesus Cristo” (9). Portanto, Cristo é o centro tanto da fé nele, como da salvação que somente nele obtemos. E isto me conduz ao meu terceiro e penúltimo ponto: a intrincada questão da “salvação universal”.
É preciso dizer que concordo com a defesa de Bell que, ao invés de céu e inferno, o amor de Deus está no centro da mensagem do evangelho e que este amor se destina à toda a humanidade e não somente a uma parcela dela — basta aqui lembrar de João 3.16. Em seu primeiro livro, Velvet Elvis, Bell disse que “se o evangelho não é a boa-nova para todo mundo, então não é boa nova para ninguém” (10). A salvação de Cristo pode ser considerada, nesse sentido, “universal” quando se tem em mente que a intenção seja a salvação de todo ser humano na face da terra. A crença de Bell numa “salvação universal” em que todos serão alcançados — que rejeita a noção de condenação e barateia a noção de graça — me parece, porém, uma banalização da ideia. Sobretudo, porque ele mesmo afirma que a salvação precisa ser concebida em um “contexto holístico”. O que ele omite, talvez pelos limites próprios da edição, são as implicações disso. O que significa, afinal, “ser salvo”? Salvo de quê e para quê? Ser salvo, num contexto holístico, não implica que as pessoas estejam sendo transformadas, paulatinamente, na totalidade de seu ser? Talvez na tentativa de combater a ideia da presença ou ausência de uma salvação que determina se a pessoa vai para o céu ou para o inferno, Bell tenha se perdido um pouco quanto a outros aspectos, não menos importantes, de “ser salvo”, ou mesmo em esclarecer quais seriam os reflexos do “céu aqui” na vida concreta de pessoas.
Em minha percepção, essa entrevista apresenta um Rob Bell um pouco mais “irresponsável” na maneira de se posicionar do que demonstrou ser em O amor vence. Se isso tem a ver com o fato de ele ter saído da Mars Hill, sua antiga igreja, se mudado para Laguna Beach, na Califórnia, e agora atuar como palestrante e escritor mais “livre”, nada posso dizer para além de especulação. Não importa. No livro, pelo menos, não vejo Rob Bell abrindo mão da ideia de um céu ou inferno “depois”. Pelo contrário, no capítulo 3, em que fala do Inferno (e aqui tomo o livro em sua versão original) ele diz que “existem infernos individuais, infernos comunitários, infernos de uma sociedade mais ampla... há inferno agora, e há inferno depois, e Jesus nos ensina a tomá-los, ambos, seriamente” (11). Então confesso ter ficado um tanto quanto confuso pela falta de clareza da posição de Bell acerca disso. A princípio, parece-me que a ideia de céu e inferno “aqui”, prevalecem diante da ideia do que vai acontecer no pós-morte, sobre o que ele se recusa a falar. Ele tem ideias interessantes neste livro, mas se aprofunda pouco nelas, deixando uma série de questões muito mal resolvidas. Não pode reclamar, neste sentido e ao todo, da polissemia interpretativa de seus críticos.
Em quarto lugar, e aqui vai talvez meu maior ponto de desapontamento e desacordo com o que Rob Bell disse na entrevista, ele patina muito ao tentar pintar um Deus “bonzinho”, de boa reputação, que não fere ninguém, não magoa ninguém, não desaponta ninguém — coisas que nem o próprio Deus, em minha percepção de sua Palavra, pretendeu ser. É quase como que uma postura de “guarda-costas” da bondade divina, seja contra a postura da “liga da justiça” fundamentalista norte-americana, ou a favor de um mundo ferido “em nome de Deus”. Isto fica explícito na resposta à pergunta: “Faz sentido que um ateu seja salvo por uma divindade na qual ele não acredita?”. Ao que Bell responde: “As pessoas de fé acreditam que Deus ama a todos, dá vida a todos. O Deus sobre o qual Jesus falou não seria capaz de ferir ninguém”(12). Afinal, a quem Bell quer convencer (ou contentar) com declarações como essa? Teologia preocupada em salvar a reputação de Deus soa menos como teologia e mais como marketing divino. E o evangelho me parece ser o “produto” mais antimarketing que existe na terra. Nele vejo a imagem de um Deus amoroso e terno, mas que não omite sua fúria em certos momentos e não aceita passivamente a rebelião de suas criaturas contra si mesmas e contra seu criador. Ama incondicionalmente, sem perder seu “anseio furioso” (Brennan Manning) pela reconciliação da Criação, sem, porém, ofertá-la a “preço de banana” na esquina mais próxima. Um Deus incapaz de se enfurecer é um Deus indiferente e, como tal, incapaz de amar.
Para encerrar, quero enfatizar que sou contra qualquer um que, em qualquer posição que esteja, julgue-se no direito de condenar outra pessoa como “herege” (um cristão menos qualificado neste sentido), como muitos estão fazendo com Rob Bell neste momento. E tenho, inclusive, um entendimento mais empático em relação a ideia de “herege” do que negativo, pois se trata da figura do contestador, e sem dúvida precisamos de contestadores no mundo de hoje. Contestadores que não sejam impossibilitados de contestar, mas que também aceitem jubilosamente ser contestados, desde que em um nível dialogal e respeitoso. Fora isso, o “lado bom” de se conhecer um “herege” é que você acaba conhecendo também muitos inquisidores, que estavam à espera dele aparecer, e acaba se dando conta de que a “Santa Inquisição” pode ter morrido com o passado, mas permanece viva “em espírito” numa miríade de sentidos. Como oro a Deus para que me livre da pretensão maligna de ser inquisidor ou (no campo da teologia) “legislador”, minhas críticas a Rob Bell são críticas às ideias dele — como leitor e admirador de seus escritos — e não à sua pessoa (me sinto ridículo tendo que esclarecer esse tipo de coisa em pleno século 21!). Quanto à pessoa, continuo crendo de bom grado, pelo que vejo, que Bell permanece sendo um homem de fé comprometido com Jesus Cristo. Não será este livro ou essa entrevista à Veja que irão romper com isso. É preciso bem mais que isso, e nem caberia a mim dizer que está “dentro” ou “fora”. Deixemos Deus fazer o trabalho de Deus.
Na tarefa de teologizar limito-me a pensá-la como uma resposta ocasional. Se ela é válida ou não, não me cabe determinar, apenas me esforçar para que assim seja. E que seja também uma resposta que, antes de tudo, esteja conectada não apenas com meu modo de pensar as coisas, mas de vivê-las (minha experiência). Não vejo nesse empreendimento a que Bell e tantos outros têm se dedicado, de “provar” no balcão das liquidações pós-modernas que Deus é amor e salvar a reputação de sua existência, algo salutar. Não se prova, no sentido cabal de comprovação, o amor de Deus. Ou se experimenta, ou não. Do contrário, estarei bastante sujeito a cair no que Lewis chama de a “mais sutil de todas as armadilhas”: a de falar tanto ou defender tanto algo, e acabar perdendo de vista sua dimensão encarnacional ou prática.
Em suas próprias palavras, com as quais termino:
Houve homens que se interessaram de tal forma em provar a existência de Deus que acabaram desinteressando-se por completo do próprio Deus... como se o bom Deus nada tivesse a fazer além de existir! Houve alguns tão ocupados em tornar o Cristianismo conhecido que jamais pensaram em Cristo. Nossa! E é possível ver isso nas mínimas coisas. Já conheceu um amante de livros que, a despeito de todas as suas primeiras edições e obras autografadas, tivesse perdido a capacidade de lê-los? Ou, quem sabe, um organizador de projetos de caridade que perdesse todo o amor pelos pobres? (13).
Notas 
(1) BELL, Rob. O amor vence. Rio de Janeiro: Sextante, 2012, p. 08. 
(2) “Quem falou em céu e inferno”. Entrevista de Rob Bell a André Petry. Veja, Edição 2297, de 28 de novembro de 2012, p. 19, 22. 
(3) BELL, op. cit.: 09. 
(4) LEWIS, C. S. O grande abismo. São Paulo: Editora Vida, 2006, p. 17. 
(5) Ibid.: 17 
(6) Ibid.: 84. 
(7) Ver: BELL, Rob. Love wins. New York: HarperOne, 2011, p. 170. 
(8) “Quem falou em céu e inferno”. Entrevista de Rob Bell a André Petry. Veja, Edição 2297, de 28 de novembro de 2012, p. 22. 
(9) MANNING, Brennan. A implacável ternura de Jesus. São Paulo: Naós, 2010, p. 126. 
(10) BELL, Rob. Velvet Elvis. Repainting the Christian Faith. Grand. Rapids: Zondervan, 2005, p. 166. 
(11) BELL, 2011: 79. Minha tradução. 
(12) “Quem falou em céu e inferno”. Entrevista de Rob Bell a André Petry. Veja, Edição 2297, de 28 de novembro de 2012, p. 23. 
(13) LEWIS, op. cit.: 87.