terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Sobre a religião e seus derivados (I)
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
A inquietude nossa de cada dia, dá-me hoje
“Por que estás abatida, ó minha alma? E por que te agitas dentro de mim?”.
Existe conversa mais crucial que aquela travada com a própria alma? Pois é o que o salmista faz no repetido verso da canção de profunda angústia e inquietação por ele entoada no Salmo 42, na qual convida sua alma para um bate-papo querendo entender a razão de tanto abatimento. Uma das coisas mais sadias e razoáveis que alguém pode fazer quando não dá conta de algo é ser honesto, consigo mesmo, com os outros e com Deus. No caso do salmista, essa honestidade se apresenta em forma de perguntas: Por que me sinto tão abatido? Até quando essa situação vai perdurar? Onde está o meu Deus? Por que permanece calado por tanto tempo?
Perguntas como essas evidenciam dúvidas e temores que assolam até o mais seguro de si – embora gente muito segura de si tenda a não abrir mão de sua fachada de austeridade – e cujas respostas não são simples nem exatas. Aliás, em se tratando da vida e do sofrimento humano nada pode ser simples ou exato. Por isso a linguagem dos trovadores e profetas é recheada de honestidade, paradoxos e de bela, ilógica e não equacionável poesia. A inquietude, quando não abafada com consolos artificiais, atrai e torna-se parceira dos paradoxos. O paradoxo pode até existir fora da mente, mas não pode ser reconhecido sem que (na mente) se dê lugar à inquietude, a qual provoca o pensamento que nos desperta quando algo não vai bem e nem, necessariamente, irá ficar bem – ao menos não do jeito desejado, tampouco com falsas garantias, do tipo: “Basta acreditar, que tudo vai dar certo!”.
O enfrentamento do paradoxo, por sua vez, promove, na linguagem do poeta, o que chamo aqui de aceitação inquieta – a aceitação que não se confunde com mera rendição. Ou seja, aceitar uma determinada condição não implica em se render ou se resignar a ela. Por exemplo: reconhecer e aceitar que a política no Brasil é permeada por corrupção não implica em se render à falácia de que todo mundo que nela se envolve é ou fatalmente será um corrupto, ou que nada pode ser feito a respeito da corrupção. Ademais, a realidade não se reduz ao que vemos. O que se vê é apenas uma parte do real, tanto quanto o olhar em si é parcial. Como bem disse Paulo, “agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho...” (1Co 13.12).
Assim, aceitação inquieta é aquela que indica a presença de uma fé que não banaliza nem suprime a realidade tal como a vemos ao mesmo tempo em que afirma (mesmo que relutando) a possibilidade e a imperiosidade de sua transformação. Por esta razão, a linguagem dos salmos – tão recheada de seus “por que” e “até quando” – também vem temperada com seus “contudo”, “apesar de” e “ainda que”, denotando fé na presença, persistência e fidelidade divinas em meio às mais variadas circunstâncias.
O silêncio (e aparente ausência) de Deus não é sinal de indolência ou paralisia da parte Dele, assim como minhas eventuais dúvidas, reclames e inquietações também não são sinais da falta ou morte da fé em mim. Pelo contrário, a inquietude não apenas provoca na mente o encontro com os paradoxos, como já dito, como retira a fé dos escombros da passividade e da falsa retidão, tornando-a um organismo vivo, atuante e em constante transformação.
A maturidade, desta forma, está mais para um tesouro a ser perseguido pelos cantos da existência e ao longo da vida na fé, que para um porto seguro onde se pode atracar de uma vez por todas. A soberba (ou o chamado “orgulho espiritual”) é que precisa de portos seguros de tal natureza. A “paz que excede todo entendimento”, não excede, mas existe paradoxalmente no meio de todo sofrimento, dúvida e inquietude que possamos ter. A fé bíblica se alimenta, então, de uma espera inquieta e de uma inquietude expectante, em que uma mesma pessoa pode (em tom realista) indagar: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim?”. E ainda assim (em tom esperançoso) declarar: “Espera em Deus, pois ainda o louvarei” (Sl 42.11).
Jonathan
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Com a palavra do Perdão
“Perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores”
(Mateus 6.12).
Quando falamos em perdão, falamos de um ato comum, sobretudo, àqueles que vivem e estão na fé, mas incomum à natureza humana. Isto, pois “perdão”, na definição de Miroslav Volf, significa dar aos transgressores a dádiva de não usar sua transgressão contra eles.
Assim, na relação entre natureza e graça, perdão é graça, que visa redimir a natureza de si mesma. Na natureza, por sua vez, fala mais alto a justiça própria, merecida e paga.
Por que é tão difícil perdoar? Pode haver muitas respostas, de acordo com inúmeras maneiras e experiências. A raiz, para mim, está no fato de que perdoar implica, na maioria das vezes, em ferir o orgulho. O inimigo mortal do perdão, portanto, não é o não-perdão, mas o orgulho. Feri-lo é ferir a si mesmo. Não há como perdoar sem aprender a conviver com a ferida da ofensa não paga, da não restituição – palavra em moda, especialmente nos círculos da prosperidade. E o orgulho interfere não somente no ato de perdoar, mas também de receber perdão. O orgulho nos faz preferir conviver com a agrura do gelo e do castigo que com o constrangimento gerado pelo perdão.
Então é isso: perdão não tem nada a ver com merecimento ou com justiça, mas com gratidão. É a gratidão que nos conduz ao “assim como” do perdão de Jesus no Sermão do Monte. Trata-se de uma realidade inseparável do perdão: ser alcançado pelo perdão divino nos conduz a disponibilidade para perdoar. E todos têm débitos, não é mesmo?
Cristo não está, dessa forma, condicionando o perdão de Deus ao nosso perdão – isso não faz o menor sentido! Ele está aprofundando a discussão: para que você entenda, absorva e cresça no perdão divino, é preciso aceitar-se como aceito e também aprender a aceitar o outro. Deus perdoa gratuitamente aquele que reconhece que precisa do, e recebe o, perdão tanto quanto vive como perdoado-perdoador.
Voltaire, por exemplo, define “tolerância” como “o apanágio da humanidade”, isto é, a sua característica própria, afinal todos cometem delitos e deveriam, partindo desta premissa, perdoar e tolerar o outro em relação aos seus. O perdão também advém daí: do reconhecimento de si mesmo como tão transgressor quanto o outro (logo, sua transgressão não me pode ser estranha), e de que fomos alcançados pela graça do perdão.
O “assim como”, portanto, não é tanto um imperativo ético, do ponto de vista do dever, quanto o é da gratidão. E a graça do perdão não é imperativa, nem justa. Como diz Volf, “o perdão corta a corda de equivalência entre a ofensa e a maneira como tratamos o ofensor”. O perdão é, assim, uma vívida expressão da loucura divina. É coisa para gente louca e não para gente conseqüente.
Jonathan
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Sobre usos e costumes

terça-feira, 25 de outubro de 2011
Coisas que aprendi com Henri Nouwen (Parte 3)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Coisas que aprendi com Henri Nouwen (Parte 2)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Coisas que aprendi com Henri Nouwen (Parte 1)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Em louvor à fragilidade

domingo, 4 de setembro de 2011
4 Teses sobre o que significa "ser santo"

sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Falando em santidade...
Mas, assim como é santo aquele que os chamou, sejam santos vocês também em tudo o que fizerem, pois está escrito: ‘Sejam santos, porque eu sou santo (1Pe 1.15-16).
A Santidade, nesse sentido, é o que torna impossível qualquer espécie de cogitação sobre Deus, qualquer teologia que possa ser feita, por ser “sobre Deus”, ou visando “nomear Deus”. E a graça é o que torna, em contrapartida, possível a teologia como resposta ao falar e ao agir desse Deus Santo, no nível de nosso entendimento sobre ou da nossa experiência com este Deus.
Mas, em que medida se pode ser santo “como Deus é...”? Diria que não na medida em que ambicionamos a santidade, pois ser santo não é propriamente ambição, mas vocação. Ninguém “ambiciona” a santidade neste sentido (bíblico) estrito, pois não há vantagem, status ou benefício direto algum em ser santo. Não me torno melhor e nem pior que ninguém. Não ganho nenhum “Prêmio Nobel de Santidade”. Sou apenas “diferente”, e diferente “apenas”. E assim sou na medida em que me deixo levar pelo jeito divino de me fazer diferente sem ser extraterreno ou extra-humano – o que demonstra que a santidade sobre a qual falo não tem nada a ver com a conotação religiosa do santo-beato.
Santos, portanto, são chamados. Pedro diz: “Santo” é “aquele que os chamou”. Paulo, quando escreve aos Romanos – e esta é uma linguagem que repetidamente aparecerá em suas cartas – assim endereça: “A todos os que em Roma são amados de Deus e chamados para serem santos” (Rm 1.7). Santidade então não é essencialmente um alvo humano, mas alvo de Deus para a humanidade; os que são chamados “santos” na perspectiva bíblica não o são porque perseguiram este caminho ou porque fizeram “das tripas o coração” para se tornarem “santos” aos olhos de Deus e do mundo, mas porque foram “perseguidos” e atraídos por e para esta via, que é uma via de graça.
Ser santo, assim, é um fado, isto é, um destino, uma vocação. Um fado que pode se tornar fardo, às vezes, seja (dentro de um estado “normal” de coisas) quando reconheço a complexidade dessa carreira que me está proposta (fardo-desafio, que pode ter tonalidades positivas), ou, pior, é fardo quando penso que a santidade depende de mim e de meus esforços “apenas” para existir (dentro de um estado “anômalo” de coisas). Ao mesmo tempo, é uma vocação que pode e deve ser alegre, leve, cheia de vida, à medida que não se separa da graça de Deus, nem da beleza de viver e de ser humano, conformando-me com o exemplo do “filho do homem”.
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Sobre a verdade em um sentido (cristão) pós-moderno (final)
Sobre o testemunho da verdade em um mundo pós-modernosegunda-feira, 15 de agosto de 2011
Sobre a verdade em um sentido (cristão) pós-moderno (3)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Sobre verdade em um sentido (cristão) pós-moderno (2)

A questão da Verdade não é a verdade. Não apelo para a metafísica. Não é a verdade porque não é o questionamento que o homem faz a si mesmo sobre sua vida. É ainda um jogo intelectual e uma maneira de estar fora da verdade. Portanto, que depois de tudo, possa ele dar uma resposta, pouco importa; que a resposta venha dele ou seja objetivada, enquanto filosofia ou revelação, também pouco importa. Mas quando o homem questiona sobre sua vida (consciente ou inconscientemente), então fica formulada a questão da verdade, e quando o homem afirma tê-la resolvido, mente (Ellul, 1984, p. 30).
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Sobre verdade em um sentido (cristão) pós-moderno
