terça-feira, 2 de agosto de 2011

Sobre verdade em um sentido (cristão) pós-moderno

Afirmar que nosso conhecimento não é capaz de “dar conta”, de deter a verdade ou alcançar a verdade objetiva, não significa dizer que “não existe mais uma verdade absoluta”, e sim que não pode haver uma visão (humana) absoluta da verdade. Alguns dirão que sim, ela existe, outros dirão que não, porém, não está na boca do pós-moderno (se está, ele não pode ser assim considerado) o determinar se há ou não há uma verdade “lá fora”.

Alguém que se autodenomina pós-moderno pode, por exemplo, não crer na existência de Deus, porém não poderá dizer (porque é incapaz de provar, e nem estaria preocupado em “provar” coisa alguma) que Deus não existe (isso é coisa dos modernos ateus). Se há uma virtude nos pós-modernos, pelo menos assim vejo, é o não julgar ou achincalhar a experiência e crenças alheias em detrimento das suas. Acho que isso é algo que podemos aprender com eles (ou alguns deles), sem deixar de crer e viver o Cristo-verdade, nem tentar impor isto aos outros como alguns de nossos irmãos ainda o fazem, consciente ou inconscientemente.

Vivemos, penso eu, em uma tensão: a de afirmar com a vida e com o discurso que “Cristo é a verdade” e, ao mesmo tempo, não sermos capazes de conter essa verdade em nossas declarações. Isto significa que, uma coisa é a Verdade (Cristo), outra é o que falamos sobre ela e como a entendemos. Tentar igualar as duas é render-se a uma das mais comuns tentações do saber, que Friedrich Nietzsche chamou de “igualação do não igual” ou identificação do não idêntico. Significa assassinar a própria verdade – e aí sou obrigado a concordar com Nietzsche: muitas vezes, “nós matamos Deus”.

Assumir, por outro lado, as limitações de nossa “fala sobre a verdade” não significa abrir mão dela ou dizer que ela não existe, mas implica em assumir, como Paulo o fez, que “em parte conhecemos e em parte profetizamos”. E é uma benção que sejamos, pensemos e saibamos assim, parcialmente. Precisamos, sem medo, mas com “temor e tremor”, assumir a coragem de ser como somos e de ser “como uma parte”, sobre a qual falou Paul Tillich em seu livro “A coragem de ser”. Para tanto, porém, é necessário abrir mão de algumas coisas, a começar pelo “orgulho de ser”, de saber, de possuir a verdade. Não contenho (e nem poderia possuir) a verdade. Quero, pela graça de Deus, estar contido nela...

Jonathan

sexta-feira, 29 de julho de 2011

John Stott: mais um conciliador nos deixa

No dia 27 de julho de 2011 faleceu John Stott, um dos teólogos mais prolíficos que esta geração conheceu. Sempre considerei Stott muito mais que um teólogo que li e gostei, como tantos. Para mim ele foi um exemplo de que é possível exercer o papel de (re)conciliador em um mundo (bélico) de diferentes e diferenças. Stott foi capaz de “sentar à mesa” e dialogar com pessoas de tradições e visões de mundo tão distintas da dele sem perder o foco da conversa, o respeito e nem ter de negociar suas convicções. Neste sentido, considerando aquilo que tenho visto, mesmo no pluriverso do século 21 em que vivemos, penso que é válido correr o risco de ser “clichê” e dizer que ele foi um homem que esteve além de seu tempo.

Impossível esquecer o papel conciliador fundamental por ele exercido no Primeiro Congresso de Evangelização Mundial em Lausanne, 1974. Sem sua intercessão, talvez, não teríamos a possibilidade de ter em mãos hoje um “documento-pacto” tão coeso e diferente ao mesmo tempo, que influenciou toda uma geração de líderes cristãos por quase meio século.

É possível discordar de aspectos de seu pensamento teológico? Sem dúvida. John Stott foi um homem-teólogo e não um beato intocável. Mas, por ter sido um pacificador e aglutinador como poucos são, é improvável que alguém se levante para dizer qualquer coisa que o desqualifique como ser humano e ministro do evangelho. Até breve, velho mestre!

Jonathan

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Eterna mesmice, fascinante mesmice

Gerações vêm e gerações vão, mas a terra permanece para sempre. O sol se levanta e o sol se põe, e depressa volta ao lugar de onde se levanta. (...) O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol. Haverá algo de que se possa dizer: “Veja! Isto é novo!”? Não! Já existiu há muito tempo, bem antes da nossa época. Ninguém se lembra dos que viveram na antiguidade, e aqueles que ainda virão tampouco serão lembrados pelos que vierem depois deles. (Eclesiastes 1.4-5, 9-11).

A eterna mesmice, o encontro com o mesmo, ainda que diferente. É sobre isto que o autor de Eclesiastes está escrevendo neste início, sobre a monótona repetibilidade da existência humana. A atividade humana, por mais que aos olhos do historiador seja mutável, à medida que não se faz, nem se pensa, nem se cultiva "hoje" exatamente os mesmos valores das civilizações e grupos humanos de antigamente, permanece sendo “atividade humana” e jamais deixará de ser. Somos cativos de nossa humanidade.

A pergunta é: como manter nosso interesse no olhar para a história diante da declaração de que “não há nada de novo debaixo do sol”? Ou de que ninguém se lembra do que foi, nem se lembrará do que está sendo?

É possível se interessar pela história precisamente porque ela é história dos seres humanos, nos ajuda a entender o que o humano faz e como faz e a nos encontrar com nossa identidade humana – e, assim, como se diz, nada do que é humano nos pode ser estranho.

Fazer história é, portanto, aceitar este paradoxo: do encontro com os traços de repetibilidade do DNA humano na história (identidade) e, ao mesmo tempo, dos desencontros, das incertezas, da imprevisibilidade, das rupturas (diferença), que fazem da história uma mesmice humana no tempo, mas que também pode ser humanamente fascinante! Inglória é a tarefa de sobre isto falar, sem que a fala por si mesma incorra no paradoxo.

Jonathan

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Hipocrisia, eu quero uma pra viver!

Hipocrisia: a arte de viver convincentemente uma mentira, sabendo que é uma mentira, mas fazendo os outros crerem que é uma verdade para você/eu, impostor, e para eles; só que enquanto a mentira se aplica frouxamente a você, os outros a carregam como um fardo pesado e, caso não despertem do sono escravizador, logo se acostumarão à mentira e perceberão que ela pode ser uma mentira-verdade, à medida que houver gente (e sempre haverá) que nela acredite e dela faça sua razão de viver.

A hipocrisia existe desde que o ser humano existe; se a associarmos, por exemplo, com seu irmão gêmeo, o cinismo, está aí desde quando Adão resolveu dizer pra Deus que a culpa de ter comido do fruto foi “da mulher que me deste”, ou quando a mulher replicou dizendo que culpada foi “a serpente que me seduziu”. A hipocrisia, assim, é um subterfúgio para lá de eficaz, pois o problema sempre é do outro, nunca é meu. “Eu estava no caminho certo e dele nunca saí, até que apareceu você”; ou “Estava tão bem lá em tal lugar, até que fulano me tirou de lá e agora está me usando e minha vida está arruinada”, são frases comuns, para um problema comum e mal tratado. Sobrinha do orgulho, a hipocrisia precisa do outro para existir, pois usa a comparação como defesa: “Não sou tão santo quanto é o João Beato, mas quase um anjo em relação à Maria da Perdição”.

A hipocrisia é covarde e superficial, porque marginaliza o que realmente importa e põe no centro o trivial e menos relevante. Confunde retidão com justiça própria e santidade com abstinência; faz dos sacrifícios e rituais o último bastião da espiritualidade, dissociando-a completamente da vida, da misericórdia e da sede por justiça. Afirma uma sede incontrolável por Deus e seus mandamentos, mas é incapaz de reconhecê-lo no próximo, no diferente, no samaritano à beira do caminho...

Não é novidade para ninguém que sistemas religiosos se alimentam da hipocrisia e não subsistem sem ela. Muitas igrejas têm sido – até que provem a si mesmas e ao mundo o contrário – ao invés de centros de misericórdia e compaixão e comunidades de reino, covis de hipocrisia, onde o livre pensar é reprimido (sobretudo em assuntos como sexualidade, por exemplo), e o discordar (mais ainda da liderança e da orientação doutrinária) é tratado como pecado. Exceções à regra (os remanescentes) existem, é claro, mas com a sina de ter que “nadar contra a maré”, caso não (ou até que) se deixem corromper pelo “se não pode vencê-los, junte-se a eles”.

A hipocrisia vai, dessa forma, recebendo outros nomes, e vai sendo ornamentada com vestes outras, mais sofisticadas quem sabe (embora não menos vorazes) e se torna peça indispensável ao bom funcionamento da engrenagem, mascarada pelo discurso de que assim estaremos “no centro da vontade de Deus”. Como corolário disso e de outras tendências já bastante enraizadas, como a privatização da espiritualidade e a religião de consumo, as pessoas vão à igreja apenas para nutrir o lado “lúdico” da fé, que congrega e agrega a massa dos que querem distância do conflito e que relega aos ditos apóstatas, hereges e perdidos o lado trágico (e sombrio) da existência.

A hipocrisia tenta eliminar o sofrimento a todo custo e promover uma espécie de narcótico gospel como sustentáculo para uma fé “que funciona”. Uma fé que desconhece a compaixão, porque só age para aliviar a dor; que tem desconfiança em relação ao mistério, ao desconhecido e às incertezas; que pensa que testemunhar é igual a fazer propaganda de sua fé, e se distancia da prática da justiça por estar tão ofuscada com as celebrações e homenagens, públicas e privadas, ao “seu Deus” – o “meu Deus isso”, o “meu Deus aquilo”. Essa fé é substrato da hipocrisia. Irracional e inconscientemente, muitas vezes, ela canta: “Hipocrisia, eu quero (eu preciso de) uma pra viver!”. Nos lugares onde ela é vivida, as palavras de Jesus – “Acautelai-vos do fermento dos fariseus!” – ecoam como gritos em uma terra de surdos. Porque acautelar-se, talvez, implique em passar pela via da admissão honesta de que, no fundo, todos (digo, os que nos servimos do sistema religiosos, ou os que se encontram, como eu, em processo de libertação de suas entranhas para reencontrar Jesus de um modo renovado) somos um pouco como os fariseus ou hipócritas – o que seria um total absurdo e falta de espiritualidade, para muitos. Se toda mulher é meio Leila Diniz, como diz a canção “Todas as mulheres” de Rita Lee, então (digo isso contra meu melhor senso) todo crente é meio hipócrita, até que prove o contrário lutando contra tal orientação.

E o que Deus pensa disso tudo? Nada temos acerca disso senão indícios ou ecos (pela Palavra) de um constante manifesto de repúdio divino contra a escolha de tantos em fazer do farisaísmo e da hipocrisia sua morada permanente. Nas palavras do profeta Amós, com as quais quero encerrar, essa repulsa fica mais do que escancarada.
Não suporto os encontros religiosos de vocês. Estou cheio dos seus congressos e convenções. Não me interessam seus projetos religiosos, seus lemas e alvos presunçosos. Estou enojado das suas estratégias para levantar fundos, das suas táticas de relações públicas e criação da própria imagem. Não suporto mais sua barulhenta música de culto ao ego. Quando foi a última vez que vocês cantaram para mim? Alguém aí sabe o que eu quero? Eu quero justiça – um mar de justiça. Eu quero integridade – rios de integridade. É isso que eu quero. Isso é tudo que eu quero. (Amós 5.21-24 – Da Bíblia “A Mensagem”, de Eugene Peterson)
A questão é: quem será o primeiro a ter coragem de vestir a carapuça? Quem ousará romper com as correntes (frouxas ou apertadas) da hipocrisia? Quem será capaz de avançar uma milha mais rumo a uma entrada (definitiva?) em um cristianismo não-religioso? Sei lá... Eu decidi tentar.
Jonathan

terça-feira, 28 de junho de 2011

Monumento à Bíblia "Sim", Praça Islâmica "Não"!

Dias atrás, recebi uma carta do Conselho de Pastores de minha cidade, chamando a uma mobilização contra um projeto de Lei proposto por um vereador desejando erigir um monumento islâmico em uma praça da cidade, que passaria a se chamar “praça islâmica”. O argumento do conselho para ser contrário a tal projeto tem uma dupla face. Primeiro, é porque um vereador (homem público) não pode querer privilegiar no espaço público e no exercício de sua função uma religião em detrimento de outra – engraçado, os políticos evangélicos da cidade fazem isso o tempo todo e não vejo o mesmo conselho se manifestando contrariamente. Segundo, porque os islâmicos em seus países de origem estão longe de tratar os cristãos com a mesma condescendência, então não há motivos para facilitarmos as coisas para eles (ou seja, quase que uma ideologia do “olho por olho e dente por dente”!).
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Nesse caso, a gente vê uma defesa de uma laicidade esquizofrênica (sem confundi-la aqui com “neutralidade”). Quando convém, somos laicos e reivindicamos a condição de laicidade do público. Quando nossa liberdade é supostamente ameaçada, queremos uma laicidade mais frouxa, e protestamos pelo direito de expressar nossa crença. O engraçado é que nessa mesma cidade existe um “Monumento à Bíblia”, que não é questionado. Assim como o crucifixo e a santa na parede da escola pública não são questionados. Então, parece que Gianni Vattimo foi assertivo em sua tese sobre o ocidente liberal, quando diz que “o espaço leigo do liberalismo moderno é mais religioso do que o próprio liberalismo e o pensamento cristão estão dispostos a reconhecer”.
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Se quisermos defender com radicalidade que se arranque da comunidade islâmica (tão ínfima, pra não dizer marginal entre nós) o direito de ter publicamente seus símbolos religiosos, assim como os cristãos têm tido, mesmo numa sociedade que se diz liberal, democrática e secular, não poderemos estranhar quando o mesmo princípio se voltar contra a comunidade cristã e nossos símbolos passarem também a ser extintos do espaço público (o que não seria de todo ruim, apenas a aplicação de um princípio que se afirma na teoria na prática e para todos). Precisamos, em contrapartida, corroborando ainda aqui com Vattimo, “favorecer uma presença conjunta, livre e intensa de múltiplos universos religiosos”, reforçando a vocação laica da cultura ocidental e do cristianismo.
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Quando a luta pela verdade se desassocia da luta pela liberdade, e as duas deixam de ser parceiras, geradas e geradoras uma da outra, um possível resultado é o que a história já tem nos mostrado há milhares de anos: violência, intolerância, guerras, inquisições, fogueiras santas. A vivência radical do amor de Deus no mundo deve ser um grande “basta”! Bastam guerras santas, cruzadas ou inquisições (com ou sem fogueiras). O recado de Gilberto Gil, na música “Guerra Santa”, ainda é válido neste contexto: “O bom barraqueiro que quer vender seu peixe em paz deixa o outro vender limões”.
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Não podemos mais sacrificar o relacionamento (e matar a caridade) no altar da verdade. Talvez tenha chegado a hora de conjugar o “carregar a nossa cruz” no contexto urbano pós-moderno com a coragem de fazer morrer (junto com nossos egos “espirituais” inflados) nossas paixões, crenças e verdades dogmáticas em favor dos relacionamentos de vida. Como ouvimos aqui, a vida está acima da lei. E o amor é a lei que está acima da própria Lei, parafraseando Peter Rollins.
Jonathan

domingo, 26 de junho de 2011

Comunidade: lugar por excelência para a espiritualidade (3)

Terceira pergunta: como a comunidade pode melhorar minha espiritualidade?
1. A comunidade me aproxima do sentido mais profundo de quem eu sou e de quem Deus é.

A comunidade me “engravida de Deus”, de muitas formas: quando adoramos, servimos, escutamos a Palavra, debatemos, ensinamos e somos ensinados, consolamos e somos consolados, confrontamos e somos confrontados, quando carregamos os fardos uns dos outros e quando nos corrigimos mutuamente em amor.

A comunidade me aproxima mais da vontade do Senhor: quando lemos, interpretamos e partilhamos a Palavra e construímos uma hermenêutica comunitária (e como precisamos mais disso, especialmente num contexto autoritário e centrado na palavra de “um” em detrimento da “visão de muitos”).

A comunidade me faz mais humano, pela proximidade com os outros, seus pecados e virtudes e com as minhas próprias. É comunidade de santos-pecadores. E chega um tempo, como diz Peterson, em que é “mais difícil aturar os santos do que os pecadores”. E tem horas que a gente acaba preferindo a companhia de gente de fora da comunidade, que parece ser tão menos complicada. Só que logo a gente sente falta, e percebe que as nossas preferências não necessariamente condizem com as de Cristo.

A comunhão precisa viver as decepções óbvias da convivência, para que ela cresça como uma comunhão entre seres humanos pecadores, mas salvos pela Graça, e não entre anjos ou semideuses.

2. A comunidade melhora minha espiritualidade à medida que oportuniza a mútua correção.

Quem tenta viver sua fé fora da comunidade, pode até sofrer menos, mas também progride menos. Fora da comunidade, somos como que senhores de nosso próprio destino, mas não temos com quem contar no momento em que precisamos que a nossa rota seja corrigida. Tendemos a estagnar.

No tocante ao amor fraternal, Paulo se dirige a comunidade de Tessalônica, dizendo: “Não há necessidade de falar muito, pois vocês já foram bem instruídos quanto a se amar mutuamente; mais do que isso, vocês já estão vivendo isso intensamente, entre os irmãos e irmãs da comunidade. Mas, auto lá! Continuem progredindo; corram como se ainda nada tivessem alcançado. Não tomem esses momentos de fraternidade e mutualidade que há entre vocês como motivo para se orgulharem de si mesmos” (1Ts 4.9-10).

Isso deve nos levar a entender a comunhão de amor como um compromisso progressivo, inacabado e em permanente construção, que se dá em e não fora da comunidade.

Neste sentido, é tarefa de todos, pastores ou leigos, homens e mulheres, encontrar “mentores espirituais” na comunidade. Alguém com que você possa partilhar suas dores e alegrias, que possa te ajudar a recuperar a visão quando ela se perde por alguma razão, que possa te abraçar e se compadecer contigo em meio a um grande sofrimento, mas que também seja capaz de apontar seus pecados quando você não mais os enxerga ou reconhece e convidar ao arrependimento.

Este encontro passa pelo reconhecimento de que, por mais ou menos que saibamos, todos carecemos de “guias” espirituais, gente que nos ajude a atravessar o caminho. Nesse sentido, o mentor precisa ser um mestre na acepção da Palavra, que, a exemplo de Cristo, sabe ouvir, dar lugar à partilha, à fala do outro – mesmo que essa fala seja de lamúria confusa – acolher, ser solidário e simplesmente estar ao lado do outro. O mestre não é somente mestre por sua postura austera de quem ministra ou faz um monólogo, mas, sobretudo, por sua presença, que pode ser silenciosa, que muitas vezes faz mais perguntas do que se preocupa em responder logo e despedir “em paz” (e com a consciência tranqüilizada) o discípulo, sua cobaia passiva.

Assim, um mentor é quem pode me ajudar a me conhecer melhor na comunidade, é quem, nas palavras de James Houston, me ajuda a “desmascarar certos traços de auto-ilusão e a sondar meu interior mais profundamente do que eu talvez estivesse disposto a fazer voluntariamente” (James Houston. “Mentoria espiritual”, p. 141).
Jonathan

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Comunidade: lugar por excelência para a espiritualidade (2)


Segunda pergunta: quando e como passa a existir a comunidade?
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Existe comunidade quando sou convidado a partilhar a minha vida com outras pessoas, a partir do evento do Cristo Ressurreto. Eugene Peterson afirma que a ressurreição é ponto de partida da comunidade do Espírito Santo. A ressurreição e ascensão de Cristo ao Pai conduziram aquele grupo de discípulos à reunião em Jerusalém; e Lucas vai dizer que eles perseverarem unânimes em oração, com as mulheres e com os irmãos de Jesus (At 1.13-14).
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Após a descida do Espírito Santo, o discurso de Pedro e a conversão e batismo de milhares de pessoas, nós vemos agora uma comunidade do Espírito, também perseverando em oração, no ensino dos apóstolos e no partir do pão. A oração simboliza essa incessante busca comunitária pela vontade e presença de Deus; o ensino apostólico, representa o compromisso com a Palavra e com o crescimento na fé; e o partir do pão aponta para a comunhão com Cristo em comunidade. Logo, o relato de Atos prossegue dizendo que “todos os creram estavam juntos e tinham tudo em comum”; partilhavam seus bens e acolhiam aos necessitados; louvavam a Deus e contavam com a simpatia do povo. E, enquanto tudo isso ocorria, o Senhor acrescentava, dia a dia, os que iam sendo salvos (At 2.42-47, 4.32).
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Então, Peterson está certo. Todos estavam juntos porque algo os juntou, e este algo foi a ação do Espírito movida pela ressurreição do Senhor. Sem a ressurreição não há vida e nem esperança; pela ressurreição o Espírito passa atuar entre os discípulos, e cria a comunidade cristã. A comunhão, portanto, não é algo que se promove artificialmente, mas é fruto da ação do Espírito. E o louvor a Deus brota da mutualidade, o “nós” é mais importante que o “eu”, porque o “eu” não existe sem o “nós”. É um (lamentável) sinal dos tempos que hoje nos foquemos tanto no “eu” (individual) e menos no “nós” (coletivo); a igreja deixa de ser comunidade do espírito quando ela passa a existir para satisfazer uma “ditadura do eu”: eu sou abençoado, eu sou amado, eu sou próspero, eu fui chamado, o Senhor guia o meu ministério, Deus me cura, me salva, me liberta, me, me, me... Tá cansado? Então imagina Deus...
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A comunidade do Espírito e seus líderes em Atos não estão preocupados criando estratégias para fazer a igreja crescer. Mas ela crescia como nunca, em meio à completa ausência de qualquer plano pretensioso de crescimento. O crescimento se dá em um processo integral natural (usando aqui as categorias de Orlando Costas): quanto mais a comunidade perseverava e crescia na comunhão e no ensino (crescimento conceitual e orgânico), mais isto a impelia a se acercar e a acolher às necessidades do entorno (crescimento diaconal), e a contar com a simpatia do povo. E “enquanto tudo isso ocorria”, o Senhor acrescentava dia a dia mais pessoas à comunidade dos salvos (crescimento numérico).
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Então, quando vemos a explosão de crescimento na igreja evangélica hoje, devemos nos perguntar não tanto sobre métodos, estratégias ou números, mas no quê e no como está crescendo (qualidade). De nada adianta uma igreja grande no tamanho, mas pequena na maturidade cristã.
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Jonathan

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Comunidade: lugar por excelência para a espiritualidade

A reflexões que seguem nesta breve série são fruto de perpectivas pessoais e comunitárias, colhidas na Semana de Espiritualidade do ISBL (Maio-2011). Meus colegas (pastores Carlos e Vanderlei) e eu ficamos a cargo de oferecer pistas e provocações acerca de uma "espiritualidade integral" (ou que se enseja como tal) aos nossos alunos e convidados na semana.
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A tese defendida nesta semana foi de que a espiritualidade tem a ver com a qualidade de nossa relação com Deus, seja como vida vivida na fé (como enfatizou Vanderlei), seja como cumprimento de um dos propósitos de Deus desde a criação, que é o de caminhar e ter intimidade com Ele (como Carlos defendeu). Tentando também dar minha própria definição de espiritualidade, eu diria que espiritualidade pode simplesmente ser descrita como o modo de ser do cristão guiado pelo Espírito. O que segue é resultado de uma abordagem mais pessoal.
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A primeira pergunta, então, é: qual é o lugar do outro na espiritualidade cristã? Qual é a relação entre espiritualidade e alteridade?
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Se esse modo de ser é relacional, e se as relações são dinâmicas, então não há regras gerais ou modelos que dêem conta, e teremos tantos “modos de ser” quantas são as pessoas numa comunidade de fé. E porque é relacional e dinâmica, a espiritualidade depende da vida com o outro.
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Primeiro, a espiritualidade só existe por causa do Outro, que é Cristo. Ou seja, Cristo é a razão de ser da espiritualidade cristã; nossa vida é originada pela vida de Cristo, iluminada por sua Palavra, e guiada pelo seu Espírito. “Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente” (Rm 11.36).
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Segundo, porque essa vida, que é originada, iluminada e guiada em Cristo, encontra seu melhor sentido no encontro com o outro, o próximo, o irmão de caminhada. Meu encontro com Cristo me conduz inevitavelmente ao outro, e muitas vezes se dá precisamente através do outro. Desde o princípio Deus fez essa escolha: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2.18). Dois é sempre melhor que um: na alegria ou na dor, na celebração ou no luto. Já dizia Vinicius de Morais: “Pense muito, que é melhor se sofrer junto que viver feliz sozinho”. A esta vida partilhada é que o salmista se refere quando diz: “Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos... ali o Senhor ordena a sua benção e a vida para sempre” (Sl 133.1,3).
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Espiritualidade, nesta perspectiva, é o encontro com o Outro (Deus) por meio do outro (próximo).
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Outras perguntas que tentarei responder nos próximos posts: Quando e como passa a existir a comunidade? De que modo a comunidade pode melhorar minha espiritualidade? Que implicações a perspectiva de uma espiritualidade comunitária traz?
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(Cont.).
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Jonathan

domingo, 29 de maio de 2011

Pedras que edificam a Igreja que não perdeu o Reino

“À medida que se aproximam dele, a pedra viva - rejeitada pelos homens, mas escolhida por Deus e preciosa para ele – vocês também estão sendo utilizados como pedras vivas na edificação de uma casa espiritual para ser sacerdócio santo, oferecendo sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus, por meio de Jesus Cristo”
(1Pe 2.4-5).
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São quatro e meia da manhã e seu Argeu já está de pé para mais um dia longo pela frente. Vai até a padaria, compra os primeiros (e mais quentes) pães do dia, volta pra casa, toma seu café e segue a jornada diária, de passar no lar dos idosos que ajuda a manter há quase 15 anos em Vitória/ES, e depois na creche onde também ajuda c coordenar, que atende pelo menos 100 crianças, todos os dias, nos dois turnos. Apesar de aposentado (após muitos anos de trabalho como operador de máquinas na Cia. Vale do Rio Doce), ele descobriu uma vocação que o move desde a conversão a Jesus: receber, ajudar e enviar de volta outras pessoas. Hospitalidade, para ele, virou mais que um dom (embora o seja) ou um dever cristão: é estilo de vida.
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Assim, com os recursos que adquiriu ao longo da vida dura como trabalhador e com a aposentadoria – tendo seus filhos já formados, casados e bem encaminhados – seu Argeu foi aumentando a casa onde vive há muitos anos e ali acomoda as “visitas”, incluindo amigos, irmãos da igreja, familiares que vêm e vão o ano todo para as mais diferentes ocasiões e pelos mais variados motivos. Além disso, ele hospeda pessoas (conhecidas ou não) que vêm de cidades circunvizinhas para se consultar no hospital da cidade, e faz todos os traslados com sua Paraty (da rodoviária, para casa, para o hospital, para casa e para a rodoviária de novo), com a praticidade de um especialista.
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Nos dias em que fui recebido como hóspede na casa de seu Argeu, tive a oportunidade de ver e provar muitas coisas. Passeei (e corri) pela bonita cidade de Vitória e sua região de belas praias e lindas serras; ajudei a celebrar o casamento de meu amigo Evandro com Kênia (a filha caçula de seu Argeu); conheci gente diferente e também uma cultura diferente da minha – embora todos sejamos brasileiros, cada vez que se viaja pelo Brasil, se percebe que temos muitos “Brasis” dentro do Brasil (como diria Carlinhos Veiga). Mas, sobretudo, também tive tempo para parar e contemplar. E via o seu Argeu, indo de um lado pro outro e tendo tempo de servir, conversar, atender pessoas e ainda ser pai, marido, sogro, avô, irmão e anfitrião no meio daquele agito todo. Quando eu acordava, ele já tava no batente há um bom tempo. E pensava comigo: “Esse homem não pára, Meu Deus! Será que tem idade e saúde pra essa vida? Como será que ele consegue?”.
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Mas, para além da impressão vaga e superficial de um senhor aposentado e bastante ativo, vi também um homem sensível, sincero, de olhar atento, bastante objetivo e direto no falar, preocupado em saber se tudo está indo bem, nos “conformes”, se seus convidados estão sendo bem tratados e, mais importante, se estão se sentindo “em casa”. E o mais engraçado é que, nem de seu Argeu, nem de dona Célia (sua esposa e parceira de caminhada, batalhadora, também muito amorosa e hospitaleira) não precisei ouvir nada, nem sequer um “sinta-se em casa”, para efetivamente assim me sentir. A atitude deles falou mais alto, e eles foram fazendo com que me sentisse em casa e, logo, era como se, realmente, eu estivesse em casa. E não estava?
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Seu Argeu é, consciente ou não, um dos milhares de agentes anônimos da Missão Integral espalhados por esse país. E a gente que se envolve tanto com o “falar”, com a erudição e o ensino, acaba percebendo que exemplos como o dele são lições vivas do amor de Deus ao mundo; teologias ambulantes que se fazem no caminho, ao andar e viver com Deus e com o próximo. E percebo que, de fato, não é preciso tanto saber quanto é preciso viver o que se sabe, sem ostentar, sem “botar banca”, nem anunciar em outdoor. E que a revolução do reino já acontece a despeito dos intelectuais (burgueses de pança cheia) que pensam, planejam e orquestram supostas “revoluções”.
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A fé que se pensa não é uma entidade abstrata, mas é a fé prática, que só pode ser pensada e repensada na medida em que é vivida. Logo, antes mesmo que minha mente elabore, que meu discurso anuncie, a fé já estava ali, “movendo montanhas”, promovendo a justiça do reino, gerando esperança, aplicando o amor. E o que mais me encanta (e me inspira na vida de crente) é saber que por aí há tantos outros como seu Argeu, pedras vivas que edificam a Igreja que não perdeu de vista o Reino, professores do agir, que ensinam sem saber, que abraçam sem perguntar e que amam sem fazer alarde.
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Jonathan

sábado, 21 de maio de 2011

#Nouwen: Orações sem palavras

Hoje orei sem falar: “Pai, que minha vida se abra para Ti, sem reservas, medos ou relutâncias...”.
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Uma das percepções centrais no pensamento de Henri Nouwen é a da oração como “modo de vida”. Ou seja, orar seria para ele outro sinônimo para viver. Viver a vida deixando-se ser encharcado pela presença de Deus e por tudo o que ela envolve. Nesta percepção, orar é um ato do ser que se traduz em palavras, mas não somente em palavras. Pois palavras são, segundo Nouwen, “apenas um modo de expressar a realidade da oração” – talvez o mais recorrido na tradição cristã para a qual a palavra é tão importante (para muitos, imprescindível).
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Esta visão vai ao encontro de uma intuição muito pessoal (minha), fruto não só de experiências com a oração, mas da percepção de sua (in)eficácia no mundo real no tocante à vida humana e seus mistérios, onde as palavras nem sempre encontram “o sentido” ou “fazem sentido”. É a intuição de que a oração genuína acontece (antes) no coração e pouco pode ser captada pelo discurso. Aliás, normalmente somos traídos pelo discurso, que tende a mascarar (no cativeiro da linguagem) o que se passa no coração e que talvez os olhos e a expressão reflitam um pouco melhor, embora sempre parcialmente.
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Dessa forma, sinto-me impelido a, como Nouwen, “redescobrir os momentos de oração nos rostos do homem e nas formas do mundo em que ele vive”, de um modo que somente um contemplativo crítico e sensível da realidade pode fazer, despido das urgências de seu ambiente e da tendência comum em trivializar a oração, por um lado, tornando-a um ato mecânico-religioso, e de fetichizá-la, por outro, como uma “varinha de condão”. Quando paro para contemplar, por exemplo, algumas histórias de vida sofridas de estudantes (que trabalham de dia e estudam a noite, ou que estão em busca de trabalho) e lutam diariamente para conciliar múltiplas atividades, tendo de lidar com as muitas contingências desse estilo de vida, posso perceber nas expressões e olhares cansados, sonolentos, mas alegres, relutantes e esperançosos, muitas orações sem palavras, pequenos e singelos gestos de uma busca que não cessa e, na dificuldade, traz consigo inúmeros aprendizados.
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Então, em breves esforços de compaixão, oro também, sem palavras, com os olhos marejados ou esboçando um sorriso, na confiança de que o Senhor está entre nós, partilhando conosco de cada instante. Ali, absorto por emoções e pensamentos que pululam e gritam em silêncio, encontro Deus, parafraseando Nouwen, na brisa suave que vem da janela – relembrando que o Espírito sopra e age no silêncio e de que onde houver luta, também haverá esperança – na angústia e na alegria do outro e na solidão de meu próprio coração.
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Assim, ao invés dos “punhos cerrados” – imagem utilizada por Nouwen para indicar tensão e auto-proteção – ouso orar a Deus “de mãos abertas”. Pois, como diz ele: “Uma vida imersa em oração é uma vida de mãos abertas, em que você não se envergonha de sua fragilidade mas percebe que é mais perfeito um homem se deixar guiar pelo outro do que procurar prender tudo nas mãos” (Oração, p. 79. Grifo meu.). Portanto, na perspectiva de mãos que se abrem, orar significará abandonar-se diante de Deus, deixando de lado todo anseio por controle e abrindo-se para o maravilhoso e imprevisível mundo das possibilidades do Eterno, desejando um outro “eu” possível e crendo que “outro mundo é possível”.
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Jonathan

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Uma constante (e omitida) tarefa

Fazer discípulos e acompanhá-los numa trilha rumo à maturidade em Cristo: eis uma das constantes tarefas da educação cristã em meio aos mais variados contextos.

Mas isso não passará de utopia improvável – a formação de mentores (não somente pastores) capazes de levar a cabo esta difícil tarefa de unir evangelismo e educação cristã – caso não haja um treinamento teológico no âmbito da comunidade. Um treinamento que ultrapasse o nível da manutenção das pessoas nos estágios de fé em que se encontram (os chamados “sermonetes”) e se preocupe com a reflexão séria e profunda das Escrituras à luz da realidade vivenciada por aquelas pessoas, equipando-as para que sejam efetivos instrumentos (para o reino) no raio de alcance de seus relacionamentos com o mundo “lá fora”. Assim, discipulado deixa de ser um programa de treinamento a serviço exclusivo de uma funcionalidade intramuros, e passa a ser um lócus (continuado) de formação do discípulo para enfrentar os desafios da realidade extramuros.

Quando falo em treinamento teológico não me refiro apenas àquele tipo de treinamento que se ocupa da sistematização de dados da revelação visando a repetição disso em um “plano (lógico) de salvação”, por exemplo. Refiro-me a uma atividade mais modesta – porque reconhece os limites de suas cogitações, e porque o cogito (as idéias) é fruto de uma relação com o que é cogitado (Deus) – sem deixar de ser intensa, e mais divertida, sem deixar de lado a reverência, de interpretar, através da Bíblia, os modos de ser e de agir de Deus no mundo, e como isso afeta diretamente o nosso modo de sermos seus embaixadores, no mesmo mundo. Isto deve nos conduzir a uma intimidade e entendimento maior com (o conhecimento de) quem somos, de quem Deus é e da missão que nos vem sendo conferida.

Esta atividade, especialmente no mundo (pós-moderno) de hoje, deve passar pelo reconhecimento de que, quando fazemos teologia, utilizando a analogia de Brian McLaren, “somos vasos avaliando o oleiro, crianças questionando seus pais, formigas discutindo sobre o elefante”. Daí vem seu lado “modesto”, seu caráter essencialmente humilde, porque conta inelutavelmente com a graça de Deus e o sopro de seu Espírito sem os quais teologia alguma é possível, tampouco efetiva, na vida de ninguém.

Nesse contexto, se permitirmos que a teologia volte a sua vocação de ser, de acordo com McLaren, “uma exploração sem fim e na busca eterna pela verdade, pela bondade, e pela beleza de Deus e sua relação com o nosso universo e tudo o que nele há”, então ela será “maravilhosamente ressuscitada por nós” , como tarefa de todos, não para substituir o lugar das Escrituras (como parece ser o receio de alguns), mas para nos ajudar a entendê-las e aplicá-las melhor. Sem isto, possivelmente teremos não apenas mentores rasos (superficiais), mas discípulos rasos e evangelistas rasos.

Portanto, aceitamos a tarefa de “fazer discípulos” não como parte de um programa para o crescimento da “minha denominação”, nem tampouco confiando no “braço forte” da igreja contra os seus supostos “inimigos” (os pagãos), que nos esperam no mundo para o confronto (e a esperada decisão por Cristo) final. “Fazer discípulos” é uma tarefa que só se realiza no temor Daquele que capacita os chamados, e na confiança perene em suas palavras: “Estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos”!

Jonathan

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Conversa pra boi dormir?

Eu sou um teórico. Admito isso sem jogar confetes, porque assim sou eu. Tá no sangue. O que faz de mim um teórico? É que meu ofício envolve pensar nas inúmeras possibilidades de explicação de algo e por isso invisto um bom tempo com auto e alter (do outro) análises. O que isso muda na realidade? Nada diretamente. Muda em mim, pensador, e na medida em que “me” muda, o mundo – uma partícula dele pelo menos – também muda. Para onde isto nos conduz? Para o reconhecimento de que esta tarefa é tão importante quanto a de realizar coisas.

Dependendo do círculo de pessoas para o qual falo, a questão pode se inverter e alguns objetarão quanto a superioridade da idéia em relação à ação, entendendo que esta gera aquela. Só que este é um jogo sem fim e sem vencedores. Platonistas e Aristotélicos, Hegelianos e Marxistas, Conservadores e Progressistas, Teóricos e Ativistas parecem estar sempre às voltas com a velha questão: o que precede o que? Ou: o que/quem vem primeiro?

Creio que este é um empreendimento tão infeliz quanto o de tentar determinar quem veio primeiro, se ovo ou se galinha. Inútil, como jogar o bebê fora junto com a água do banho. A complexidade da vida me conduz a uma lógica mais dilatada de e/e (mais possibilidades de leitura) ao invés da de ou/ou (oito ou oitenta) na vida de modo geral e também para esta questão. Logo, viver e entender a vida, experimentar e analisar, teorizar e praticar são termos “colegas” de jornada e não (precisam estar) em lados opostos, embora sejam diferentes.

Então, comecei dizendo que sou um teórico. A questão é: e daí que sou? Daí que ser teórico não faz de mim um não prático – em muitas circunstâncias tenho que botar em prática aquilo que creio, penso e teorizo. Tampouco me leva a ignorar a importância da prática, muito pelo contrário; e o mesmo se aplica ao prático em sua relação com teoria e teóricos. Mas, se na ocupação de nossos lugares sociais e vocações não tentássemos dividir ou dar primazia, esse papo de obviedades, que com relutância travo aqui, não passaria de “conversa pra boi dormir”. Temo, contudo, que poucas pessoas (ainda e por mais antiga que seja a questão) estejam livres da necessidade dessa conversa, com exceção dos bois e de outros animais menos complicados.

Jonathan

sexta-feira, 8 de abril de 2011

A dádiva da deficiência

É preciso ser muito “forte”, num sentido não muito convencional de força, para embarcar no mundo de fracos e fraquezas. Isso, pois nosso mundo é feito e disposto aos fortes, ou pelo menos os que “aparentam” ser. E onde a suposta força é celebrada e a fraqueza é rejeitada, não há lugar para os fracos e suas intragáveis demonstrações de pequenez e falta de virtude, aos olhos humanos.

Nessas horas aparece o conflito entre a humildade e a vanglória, a deficiência e a suficiência... Quero falar desse conflito aqui. Em 2 Coríntios, capítulo 12, Paulo conta a história de um homem que havia sido arrebatado ao paraíso – se no corpo ou fora do corpo ele não sabia dizer – e que lá ele ouviu coisas indizíveis, que ao ser humano não é licito referir. Em certo momento, ele denuncia ser ele mesmo esse homem (v. 5-6), dizendo não se gloriar de tal feito, embora pudesse fazê-lo, já que se trata de algo verdadeiro. Mas que não o fez por uma razão simples: para se proteger contra os falatórios das pessoas... Imagine o que elas diriam, ou como reagiriam!

É nesse contexto então que ele diz o que mais quero chamar a atenção aqui: contra sua possível soberba, foi lhe dado um “espinho na carne”. Na tradução The Message, usa-se a expressão: “Dom ou dádiva de uma deficiência”. E a razão parece ser evidente: isso é para que você fique em permanente contato com as suas limitações!

Fico imaginando (já que é o que posso fazer): esse espinho pode ser a representação de qualquer coisa – a) uma deficiência física ou mental; b) uma carência emocional; c) uma limitação externa ou desarranjo provocado por alguém ou por uma situação adversa, e assim por diante. Para mim, o espinho é um antídoto às avessas, é o que me livra de ser dominado pela vontade de poder, de ser massacrado pelo meu ego, de ser lançado no quarto escuro da pretensiosidade.

Dificilmente de cara tendemos a ver essa deficiência como uma dádiva, não é mesmo? É, na verdade, um incômodo, um embaraço, que desejo arrancar a todo custo, como Paulo (ver: v. 8). E nessas horas nós procuramos o cirurgião, queremos a cirurgia! Mas o cirurgião diz: não vou te operar, porque eu já estou operando em você, de um modo diferente... Deus opera com a Graça! E por isso ele diz: a minha graça é suficiente para você. E essa é uma palavra apropriada: “deficiência”, pois é o oposto de “suficiência”. É por isso que lutamos tanto contra ela, não é? Porque almejamos a suficiência quase em tudo, ou em tudo o que podemos.

Assim, a fraqueza – seja ela em que dimensão se apresentar – é condição de nossa continuidade na graça, de nossa dependência de Cristo, do aperfeiçoamento de seu poder em nós, como discípulos a serviço do Reino! Que você e eu aprendamos a celebrar e a ser agradecidos por aquilo que somos, com nossas virtudes e defeitos. Que o Senhor da graça nos ajude a exercitar nossa humildade em nossa aceitação de que não podemos tudo, nem temos controle sobre tudo e resposta para todas as coisas.

Jonathan

sexta-feira, 1 de abril de 2011

#Nouwen: Casamento entre teologia e espiritualidade


Muitos textos que escrevi no blog até hoje foram sobre ou baseados em Henri Nouwen. Intencionalmente, porém, usarei o marcador #Nouwen daqui para frente para textos nos quais estiver em franco diálogo com ele, até como forma de compartilhar com vocês as reflexões e discussões que temos realizado em nosso grupo de leitura da obra desse fascinante escritor.

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Todos fazem teologia (consciente ou inconscientemente) quando refletem sobre e dão significado ao exercício de sua fé (dádiva) em seus múltiplos contextos. E minha defesa particular, nesse sentido, é a de que devemos continuar fazendo isto, só de que de modo consciente, maduro e bem orientado.

Em uma de suas mais celebradas obras, intitulada originalmente “In the name of Jesus”, mas traduzida ao português como “O perfil do líder cristão no século XXI” (Atos, 2002), Henri Nouwen defende que somente uma “intensa reflexão teológica” poderá nos fazer “discernir, com senso crítico, para onde estamos sendo guiados. O preço de se viver sem uma sólida reflexão teológica é o de que os futuros líderes “serão pouco mais do que pseudo-psicólogos, pseudo-sociólogos e pseudo-assistentes sociais” .

Eis um trecho do pensamento do autor sobre tal processo:

Os líderes cristãos do futuro precisam ser teólogos, pessoas que conhecem o coração de Deus e são treinadas – através da oração, do estudo e da análise detalhada – a manifestar o supremo evento da obra redentora de Deus no meio dos inúmeros eventos aparentemente casuais de sua época. Reflexão teológica é refletir sobre as dolorosas realidades de todo dia e sobre as positivas também, com a mente de Jesus, para assim despertar a consciência humana para a percepção da suave orientação de Deus em nosso interior (p. 57).

A conclusão óbvia deste raciocínio de Nouwen, em consonância com o pensamento de Kierkegaard - de que "não há verdadeiro autoconhecimento sem o conhecimento de Deus ou [sem estar diante] de Deus" - me parece ser a de que, se não é possível desenvolver um conhecimento razoável de quem somos (a disciplina do autoconhecimento) sem estar diante de Deus disposto a conhecê-lo, então, de igual modo, estar diante de Deus disposto a conhecê-lo e perceber a “suave orientação” de seu Espírito em nós mesmos também não é possível sem uma séria e dedicada reflexão teológica.

Para tanto, ainda segundo ele, os discípulos, discipuladores e líderes do futuro precisam atravessar o mar vermelho das desconfianças e preconceitos relacionados à reflexão (sobretudo a teológica) e se engajar critica e abertamente nesta tarefa a partir de seu próprio lugar social e ministerial. Paralelo a isto, “muita coisa precisa acontecer nos seminários de teologia”, como afirma Nouwen. Em sua percepção, eles “precisam tornar-se centros onde as pessoas são treinadas no verdadeiro discernimento dos sinais de sua época”. E, igualmente importante, esta formação não pode envolver apenas intelecto, mas ser também segundo o autor uma “profunda formação espiritual, envolvendo a pessoa no seu todo, ou seja, o seu corpo, mente e coração”.

Em tempo: vale lembrar, por fim, o que disse Gustavo Gutiérrez, um dos mentores de Nouwen nesta percepção, em seu livro "Beber em seu próprio poço" (2000): “Uma reflexão que não ajude a viver segundo o Espírito não é uma teologia cristã. Toda autêntica teologia é uma teologia espiritual” (p. 52). Esta percepção deve recuperar, ainda que em um plano ideal, o lugar da teologia na espiritualidade cristã do dia a dia, que é o de ser orientadora crítica da vida e do discernimento da igreja em missão.

Jonathan