domingo, 26 de junho de 2011

Comunidade: lugar por excelência para a espiritualidade (3)

Terceira pergunta: como a comunidade pode melhorar minha espiritualidade?
1. A comunidade me aproxima do sentido mais profundo de quem eu sou e de quem Deus é.

A comunidade me “engravida de Deus”, de muitas formas: quando adoramos, servimos, escutamos a Palavra, debatemos, ensinamos e somos ensinados, consolamos e somos consolados, confrontamos e somos confrontados, quando carregamos os fardos uns dos outros e quando nos corrigimos mutuamente em amor.

A comunidade me aproxima mais da vontade do Senhor: quando lemos, interpretamos e partilhamos a Palavra e construímos uma hermenêutica comunitária (e como precisamos mais disso, especialmente num contexto autoritário e centrado na palavra de “um” em detrimento da “visão de muitos”).

A comunidade me faz mais humano, pela proximidade com os outros, seus pecados e virtudes e com as minhas próprias. É comunidade de santos-pecadores. E chega um tempo, como diz Peterson, em que é “mais difícil aturar os santos do que os pecadores”. E tem horas que a gente acaba preferindo a companhia de gente de fora da comunidade, que parece ser tão menos complicada. Só que logo a gente sente falta, e percebe que as nossas preferências não necessariamente condizem com as de Cristo.

A comunhão precisa viver as decepções óbvias da convivência, para que ela cresça como uma comunhão entre seres humanos pecadores, mas salvos pela Graça, e não entre anjos ou semideuses.

2. A comunidade melhora minha espiritualidade à medida que oportuniza a mútua correção.

Quem tenta viver sua fé fora da comunidade, pode até sofrer menos, mas também progride menos. Fora da comunidade, somos como que senhores de nosso próprio destino, mas não temos com quem contar no momento em que precisamos que a nossa rota seja corrigida. Tendemos a estagnar.

No tocante ao amor fraternal, Paulo se dirige a comunidade de Tessalônica, dizendo: “Não há necessidade de falar muito, pois vocês já foram bem instruídos quanto a se amar mutuamente; mais do que isso, vocês já estão vivendo isso intensamente, entre os irmãos e irmãs da comunidade. Mas, auto lá! Continuem progredindo; corram como se ainda nada tivessem alcançado. Não tomem esses momentos de fraternidade e mutualidade que há entre vocês como motivo para se orgulharem de si mesmos” (1Ts 4.9-10).

Isso deve nos levar a entender a comunhão de amor como um compromisso progressivo, inacabado e em permanente construção, que se dá em e não fora da comunidade.

Neste sentido, é tarefa de todos, pastores ou leigos, homens e mulheres, encontrar “mentores espirituais” na comunidade. Alguém com que você possa partilhar suas dores e alegrias, que possa te ajudar a recuperar a visão quando ela se perde por alguma razão, que possa te abraçar e se compadecer contigo em meio a um grande sofrimento, mas que também seja capaz de apontar seus pecados quando você não mais os enxerga ou reconhece e convidar ao arrependimento.

Este encontro passa pelo reconhecimento de que, por mais ou menos que saibamos, todos carecemos de “guias” espirituais, gente que nos ajude a atravessar o caminho. Nesse sentido, o mentor precisa ser um mestre na acepção da Palavra, que, a exemplo de Cristo, sabe ouvir, dar lugar à partilha, à fala do outro – mesmo que essa fala seja de lamúria confusa – acolher, ser solidário e simplesmente estar ao lado do outro. O mestre não é somente mestre por sua postura austera de quem ministra ou faz um monólogo, mas, sobretudo, por sua presença, que pode ser silenciosa, que muitas vezes faz mais perguntas do que se preocupa em responder logo e despedir “em paz” (e com a consciência tranqüilizada) o discípulo, sua cobaia passiva.

Assim, um mentor é quem pode me ajudar a me conhecer melhor na comunidade, é quem, nas palavras de James Houston, me ajuda a “desmascarar certos traços de auto-ilusão e a sondar meu interior mais profundamente do que eu talvez estivesse disposto a fazer voluntariamente” (James Houston. “Mentoria espiritual”, p. 141).
Jonathan

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Comunidade: lugar por excelência para a espiritualidade (2)


Segunda pergunta: quando e como passa a existir a comunidade?
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Existe comunidade quando sou convidado a partilhar a minha vida com outras pessoas, a partir do evento do Cristo Ressurreto. Eugene Peterson afirma que a ressurreição é ponto de partida da comunidade do Espírito Santo. A ressurreição e ascensão de Cristo ao Pai conduziram aquele grupo de discípulos à reunião em Jerusalém; e Lucas vai dizer que eles perseverarem unânimes em oração, com as mulheres e com os irmãos de Jesus (At 1.13-14).
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Após a descida do Espírito Santo, o discurso de Pedro e a conversão e batismo de milhares de pessoas, nós vemos agora uma comunidade do Espírito, também perseverando em oração, no ensino dos apóstolos e no partir do pão. A oração simboliza essa incessante busca comunitária pela vontade e presença de Deus; o ensino apostólico, representa o compromisso com a Palavra e com o crescimento na fé; e o partir do pão aponta para a comunhão com Cristo em comunidade. Logo, o relato de Atos prossegue dizendo que “todos os creram estavam juntos e tinham tudo em comum”; partilhavam seus bens e acolhiam aos necessitados; louvavam a Deus e contavam com a simpatia do povo. E, enquanto tudo isso ocorria, o Senhor acrescentava, dia a dia, os que iam sendo salvos (At 2.42-47, 4.32).
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Então, Peterson está certo. Todos estavam juntos porque algo os juntou, e este algo foi a ação do Espírito movida pela ressurreição do Senhor. Sem a ressurreição não há vida e nem esperança; pela ressurreição o Espírito passa atuar entre os discípulos, e cria a comunidade cristã. A comunhão, portanto, não é algo que se promove artificialmente, mas é fruto da ação do Espírito. E o louvor a Deus brota da mutualidade, o “nós” é mais importante que o “eu”, porque o “eu” não existe sem o “nós”. É um (lamentável) sinal dos tempos que hoje nos foquemos tanto no “eu” (individual) e menos no “nós” (coletivo); a igreja deixa de ser comunidade do espírito quando ela passa a existir para satisfazer uma “ditadura do eu”: eu sou abençoado, eu sou amado, eu sou próspero, eu fui chamado, o Senhor guia o meu ministério, Deus me cura, me salva, me liberta, me, me, me... Tá cansado? Então imagina Deus...
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A comunidade do Espírito e seus líderes em Atos não estão preocupados criando estratégias para fazer a igreja crescer. Mas ela crescia como nunca, em meio à completa ausência de qualquer plano pretensioso de crescimento. O crescimento se dá em um processo integral natural (usando aqui as categorias de Orlando Costas): quanto mais a comunidade perseverava e crescia na comunhão e no ensino (crescimento conceitual e orgânico), mais isto a impelia a se acercar e a acolher às necessidades do entorno (crescimento diaconal), e a contar com a simpatia do povo. E “enquanto tudo isso ocorria”, o Senhor acrescentava dia a dia mais pessoas à comunidade dos salvos (crescimento numérico).
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Então, quando vemos a explosão de crescimento na igreja evangélica hoje, devemos nos perguntar não tanto sobre métodos, estratégias ou números, mas no quê e no como está crescendo (qualidade). De nada adianta uma igreja grande no tamanho, mas pequena na maturidade cristã.
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Jonathan

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Comunidade: lugar por excelência para a espiritualidade

A reflexões que seguem nesta breve série são fruto de perpectivas pessoais e comunitárias, colhidas na Semana de Espiritualidade do ISBL (Maio-2011). Meus colegas (pastores Carlos e Vanderlei) e eu ficamos a cargo de oferecer pistas e provocações acerca de uma "espiritualidade integral" (ou que se enseja como tal) aos nossos alunos e convidados na semana.
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A tese defendida nesta semana foi de que a espiritualidade tem a ver com a qualidade de nossa relação com Deus, seja como vida vivida na fé (como enfatizou Vanderlei), seja como cumprimento de um dos propósitos de Deus desde a criação, que é o de caminhar e ter intimidade com Ele (como Carlos defendeu). Tentando também dar minha própria definição de espiritualidade, eu diria que espiritualidade pode simplesmente ser descrita como o modo de ser do cristão guiado pelo Espírito. O que segue é resultado de uma abordagem mais pessoal.
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A primeira pergunta, então, é: qual é o lugar do outro na espiritualidade cristã? Qual é a relação entre espiritualidade e alteridade?
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Se esse modo de ser é relacional, e se as relações são dinâmicas, então não há regras gerais ou modelos que dêem conta, e teremos tantos “modos de ser” quantas são as pessoas numa comunidade de fé. E porque é relacional e dinâmica, a espiritualidade depende da vida com o outro.
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Primeiro, a espiritualidade só existe por causa do Outro, que é Cristo. Ou seja, Cristo é a razão de ser da espiritualidade cristã; nossa vida é originada pela vida de Cristo, iluminada por sua Palavra, e guiada pelo seu Espírito. “Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente” (Rm 11.36).
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Segundo, porque essa vida, que é originada, iluminada e guiada em Cristo, encontra seu melhor sentido no encontro com o outro, o próximo, o irmão de caminhada. Meu encontro com Cristo me conduz inevitavelmente ao outro, e muitas vezes se dá precisamente através do outro. Desde o princípio Deus fez essa escolha: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2.18). Dois é sempre melhor que um: na alegria ou na dor, na celebração ou no luto. Já dizia Vinicius de Morais: “Pense muito, que é melhor se sofrer junto que viver feliz sozinho”. A esta vida partilhada é que o salmista se refere quando diz: “Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos... ali o Senhor ordena a sua benção e a vida para sempre” (Sl 133.1,3).
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Espiritualidade, nesta perspectiva, é o encontro com o Outro (Deus) por meio do outro (próximo).
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Outras perguntas que tentarei responder nos próximos posts: Quando e como passa a existir a comunidade? De que modo a comunidade pode melhorar minha espiritualidade? Que implicações a perspectiva de uma espiritualidade comunitária traz?
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(Cont.).
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Jonathan

domingo, 29 de maio de 2011

Pedras que edificam a Igreja que não perdeu o Reino

“À medida que se aproximam dele, a pedra viva - rejeitada pelos homens, mas escolhida por Deus e preciosa para ele – vocês também estão sendo utilizados como pedras vivas na edificação de uma casa espiritual para ser sacerdócio santo, oferecendo sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus, por meio de Jesus Cristo”
(1Pe 2.4-5).
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São quatro e meia da manhã e seu Argeu já está de pé para mais um dia longo pela frente. Vai até a padaria, compra os primeiros (e mais quentes) pães do dia, volta pra casa, toma seu café e segue a jornada diária, de passar no lar dos idosos que ajuda a manter há quase 15 anos em Vitória/ES, e depois na creche onde também ajuda c coordenar, que atende pelo menos 100 crianças, todos os dias, nos dois turnos. Apesar de aposentado (após muitos anos de trabalho como operador de máquinas na Cia. Vale do Rio Doce), ele descobriu uma vocação que o move desde a conversão a Jesus: receber, ajudar e enviar de volta outras pessoas. Hospitalidade, para ele, virou mais que um dom (embora o seja) ou um dever cristão: é estilo de vida.
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Assim, com os recursos que adquiriu ao longo da vida dura como trabalhador e com a aposentadoria – tendo seus filhos já formados, casados e bem encaminhados – seu Argeu foi aumentando a casa onde vive há muitos anos e ali acomoda as “visitas”, incluindo amigos, irmãos da igreja, familiares que vêm e vão o ano todo para as mais diferentes ocasiões e pelos mais variados motivos. Além disso, ele hospeda pessoas (conhecidas ou não) que vêm de cidades circunvizinhas para se consultar no hospital da cidade, e faz todos os traslados com sua Paraty (da rodoviária, para casa, para o hospital, para casa e para a rodoviária de novo), com a praticidade de um especialista.
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Nos dias em que fui recebido como hóspede na casa de seu Argeu, tive a oportunidade de ver e provar muitas coisas. Passeei (e corri) pela bonita cidade de Vitória e sua região de belas praias e lindas serras; ajudei a celebrar o casamento de meu amigo Evandro com Kênia (a filha caçula de seu Argeu); conheci gente diferente e também uma cultura diferente da minha – embora todos sejamos brasileiros, cada vez que se viaja pelo Brasil, se percebe que temos muitos “Brasis” dentro do Brasil (como diria Carlinhos Veiga). Mas, sobretudo, também tive tempo para parar e contemplar. E via o seu Argeu, indo de um lado pro outro e tendo tempo de servir, conversar, atender pessoas e ainda ser pai, marido, sogro, avô, irmão e anfitrião no meio daquele agito todo. Quando eu acordava, ele já tava no batente há um bom tempo. E pensava comigo: “Esse homem não pára, Meu Deus! Será que tem idade e saúde pra essa vida? Como será que ele consegue?”.
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Mas, para além da impressão vaga e superficial de um senhor aposentado e bastante ativo, vi também um homem sensível, sincero, de olhar atento, bastante objetivo e direto no falar, preocupado em saber se tudo está indo bem, nos “conformes”, se seus convidados estão sendo bem tratados e, mais importante, se estão se sentindo “em casa”. E o mais engraçado é que, nem de seu Argeu, nem de dona Célia (sua esposa e parceira de caminhada, batalhadora, também muito amorosa e hospitaleira) não precisei ouvir nada, nem sequer um “sinta-se em casa”, para efetivamente assim me sentir. A atitude deles falou mais alto, e eles foram fazendo com que me sentisse em casa e, logo, era como se, realmente, eu estivesse em casa. E não estava?
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Seu Argeu é, consciente ou não, um dos milhares de agentes anônimos da Missão Integral espalhados por esse país. E a gente que se envolve tanto com o “falar”, com a erudição e o ensino, acaba percebendo que exemplos como o dele são lições vivas do amor de Deus ao mundo; teologias ambulantes que se fazem no caminho, ao andar e viver com Deus e com o próximo. E percebo que, de fato, não é preciso tanto saber quanto é preciso viver o que se sabe, sem ostentar, sem “botar banca”, nem anunciar em outdoor. E que a revolução do reino já acontece a despeito dos intelectuais (burgueses de pança cheia) que pensam, planejam e orquestram supostas “revoluções”.
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A fé que se pensa não é uma entidade abstrata, mas é a fé prática, que só pode ser pensada e repensada na medida em que é vivida. Logo, antes mesmo que minha mente elabore, que meu discurso anuncie, a fé já estava ali, “movendo montanhas”, promovendo a justiça do reino, gerando esperança, aplicando o amor. E o que mais me encanta (e me inspira na vida de crente) é saber que por aí há tantos outros como seu Argeu, pedras vivas que edificam a Igreja que não perdeu de vista o Reino, professores do agir, que ensinam sem saber, que abraçam sem perguntar e que amam sem fazer alarde.
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Jonathan

sábado, 21 de maio de 2011

#Nouwen: Orações sem palavras

Hoje orei sem falar: “Pai, que minha vida se abra para Ti, sem reservas, medos ou relutâncias...”.
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Uma das percepções centrais no pensamento de Henri Nouwen é a da oração como “modo de vida”. Ou seja, orar seria para ele outro sinônimo para viver. Viver a vida deixando-se ser encharcado pela presença de Deus e por tudo o que ela envolve. Nesta percepção, orar é um ato do ser que se traduz em palavras, mas não somente em palavras. Pois palavras são, segundo Nouwen, “apenas um modo de expressar a realidade da oração” – talvez o mais recorrido na tradição cristã para a qual a palavra é tão importante (para muitos, imprescindível).
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Esta visão vai ao encontro de uma intuição muito pessoal (minha), fruto não só de experiências com a oração, mas da percepção de sua (in)eficácia no mundo real no tocante à vida humana e seus mistérios, onde as palavras nem sempre encontram “o sentido” ou “fazem sentido”. É a intuição de que a oração genuína acontece (antes) no coração e pouco pode ser captada pelo discurso. Aliás, normalmente somos traídos pelo discurso, que tende a mascarar (no cativeiro da linguagem) o que se passa no coração e que talvez os olhos e a expressão reflitam um pouco melhor, embora sempre parcialmente.
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Dessa forma, sinto-me impelido a, como Nouwen, “redescobrir os momentos de oração nos rostos do homem e nas formas do mundo em que ele vive”, de um modo que somente um contemplativo crítico e sensível da realidade pode fazer, despido das urgências de seu ambiente e da tendência comum em trivializar a oração, por um lado, tornando-a um ato mecânico-religioso, e de fetichizá-la, por outro, como uma “varinha de condão”. Quando paro para contemplar, por exemplo, algumas histórias de vida sofridas de estudantes (que trabalham de dia e estudam a noite, ou que estão em busca de trabalho) e lutam diariamente para conciliar múltiplas atividades, tendo de lidar com as muitas contingências desse estilo de vida, posso perceber nas expressões e olhares cansados, sonolentos, mas alegres, relutantes e esperançosos, muitas orações sem palavras, pequenos e singelos gestos de uma busca que não cessa e, na dificuldade, traz consigo inúmeros aprendizados.
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Então, em breves esforços de compaixão, oro também, sem palavras, com os olhos marejados ou esboçando um sorriso, na confiança de que o Senhor está entre nós, partilhando conosco de cada instante. Ali, absorto por emoções e pensamentos que pululam e gritam em silêncio, encontro Deus, parafraseando Nouwen, na brisa suave que vem da janela – relembrando que o Espírito sopra e age no silêncio e de que onde houver luta, também haverá esperança – na angústia e na alegria do outro e na solidão de meu próprio coração.
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Assim, ao invés dos “punhos cerrados” – imagem utilizada por Nouwen para indicar tensão e auto-proteção – ouso orar a Deus “de mãos abertas”. Pois, como diz ele: “Uma vida imersa em oração é uma vida de mãos abertas, em que você não se envergonha de sua fragilidade mas percebe que é mais perfeito um homem se deixar guiar pelo outro do que procurar prender tudo nas mãos” (Oração, p. 79. Grifo meu.). Portanto, na perspectiva de mãos que se abrem, orar significará abandonar-se diante de Deus, deixando de lado todo anseio por controle e abrindo-se para o maravilhoso e imprevisível mundo das possibilidades do Eterno, desejando um outro “eu” possível e crendo que “outro mundo é possível”.
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Jonathan

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Uma constante (e omitida) tarefa

Fazer discípulos e acompanhá-los numa trilha rumo à maturidade em Cristo: eis uma das constantes tarefas da educação cristã em meio aos mais variados contextos.

Mas isso não passará de utopia improvável – a formação de mentores (não somente pastores) capazes de levar a cabo esta difícil tarefa de unir evangelismo e educação cristã – caso não haja um treinamento teológico no âmbito da comunidade. Um treinamento que ultrapasse o nível da manutenção das pessoas nos estágios de fé em que se encontram (os chamados “sermonetes”) e se preocupe com a reflexão séria e profunda das Escrituras à luz da realidade vivenciada por aquelas pessoas, equipando-as para que sejam efetivos instrumentos (para o reino) no raio de alcance de seus relacionamentos com o mundo “lá fora”. Assim, discipulado deixa de ser um programa de treinamento a serviço exclusivo de uma funcionalidade intramuros, e passa a ser um lócus (continuado) de formação do discípulo para enfrentar os desafios da realidade extramuros.

Quando falo em treinamento teológico não me refiro apenas àquele tipo de treinamento que se ocupa da sistematização de dados da revelação visando a repetição disso em um “plano (lógico) de salvação”, por exemplo. Refiro-me a uma atividade mais modesta – porque reconhece os limites de suas cogitações, e porque o cogito (as idéias) é fruto de uma relação com o que é cogitado (Deus) – sem deixar de ser intensa, e mais divertida, sem deixar de lado a reverência, de interpretar, através da Bíblia, os modos de ser e de agir de Deus no mundo, e como isso afeta diretamente o nosso modo de sermos seus embaixadores, no mesmo mundo. Isto deve nos conduzir a uma intimidade e entendimento maior com (o conhecimento de) quem somos, de quem Deus é e da missão que nos vem sendo conferida.

Esta atividade, especialmente no mundo (pós-moderno) de hoje, deve passar pelo reconhecimento de que, quando fazemos teologia, utilizando a analogia de Brian McLaren, “somos vasos avaliando o oleiro, crianças questionando seus pais, formigas discutindo sobre o elefante”. Daí vem seu lado “modesto”, seu caráter essencialmente humilde, porque conta inelutavelmente com a graça de Deus e o sopro de seu Espírito sem os quais teologia alguma é possível, tampouco efetiva, na vida de ninguém.

Nesse contexto, se permitirmos que a teologia volte a sua vocação de ser, de acordo com McLaren, “uma exploração sem fim e na busca eterna pela verdade, pela bondade, e pela beleza de Deus e sua relação com o nosso universo e tudo o que nele há”, então ela será “maravilhosamente ressuscitada por nós” , como tarefa de todos, não para substituir o lugar das Escrituras (como parece ser o receio de alguns), mas para nos ajudar a entendê-las e aplicá-las melhor. Sem isto, possivelmente teremos não apenas mentores rasos (superficiais), mas discípulos rasos e evangelistas rasos.

Portanto, aceitamos a tarefa de “fazer discípulos” não como parte de um programa para o crescimento da “minha denominação”, nem tampouco confiando no “braço forte” da igreja contra os seus supostos “inimigos” (os pagãos), que nos esperam no mundo para o confronto (e a esperada decisão por Cristo) final. “Fazer discípulos” é uma tarefa que só se realiza no temor Daquele que capacita os chamados, e na confiança perene em suas palavras: “Estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos”!

Jonathan

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Conversa pra boi dormir?

Eu sou um teórico. Admito isso sem jogar confetes, porque assim sou eu. Tá no sangue. O que faz de mim um teórico? É que meu ofício envolve pensar nas inúmeras possibilidades de explicação de algo e por isso invisto um bom tempo com auto e alter (do outro) análises. O que isso muda na realidade? Nada diretamente. Muda em mim, pensador, e na medida em que “me” muda, o mundo – uma partícula dele pelo menos – também muda. Para onde isto nos conduz? Para o reconhecimento de que esta tarefa é tão importante quanto a de realizar coisas.

Dependendo do círculo de pessoas para o qual falo, a questão pode se inverter e alguns objetarão quanto a superioridade da idéia em relação à ação, entendendo que esta gera aquela. Só que este é um jogo sem fim e sem vencedores. Platonistas e Aristotélicos, Hegelianos e Marxistas, Conservadores e Progressistas, Teóricos e Ativistas parecem estar sempre às voltas com a velha questão: o que precede o que? Ou: o que/quem vem primeiro?

Creio que este é um empreendimento tão infeliz quanto o de tentar determinar quem veio primeiro, se ovo ou se galinha. Inútil, como jogar o bebê fora junto com a água do banho. A complexidade da vida me conduz a uma lógica mais dilatada de e/e (mais possibilidades de leitura) ao invés da de ou/ou (oito ou oitenta) na vida de modo geral e também para esta questão. Logo, viver e entender a vida, experimentar e analisar, teorizar e praticar são termos “colegas” de jornada e não (precisam estar) em lados opostos, embora sejam diferentes.

Então, comecei dizendo que sou um teórico. A questão é: e daí que sou? Daí que ser teórico não faz de mim um não prático – em muitas circunstâncias tenho que botar em prática aquilo que creio, penso e teorizo. Tampouco me leva a ignorar a importância da prática, muito pelo contrário; e o mesmo se aplica ao prático em sua relação com teoria e teóricos. Mas, se na ocupação de nossos lugares sociais e vocações não tentássemos dividir ou dar primazia, esse papo de obviedades, que com relutância travo aqui, não passaria de “conversa pra boi dormir”. Temo, contudo, que poucas pessoas (ainda e por mais antiga que seja a questão) estejam livres da necessidade dessa conversa, com exceção dos bois e de outros animais menos complicados.

Jonathan

sexta-feira, 8 de abril de 2011

A dádiva da deficiência

É preciso ser muito “forte”, num sentido não muito convencional de força, para embarcar no mundo de fracos e fraquezas. Isso, pois nosso mundo é feito e disposto aos fortes, ou pelo menos os que “aparentam” ser. E onde a suposta força é celebrada e a fraqueza é rejeitada, não há lugar para os fracos e suas intragáveis demonstrações de pequenez e falta de virtude, aos olhos humanos.

Nessas horas aparece o conflito entre a humildade e a vanglória, a deficiência e a suficiência... Quero falar desse conflito aqui. Em 2 Coríntios, capítulo 12, Paulo conta a história de um homem que havia sido arrebatado ao paraíso – se no corpo ou fora do corpo ele não sabia dizer – e que lá ele ouviu coisas indizíveis, que ao ser humano não é licito referir. Em certo momento, ele denuncia ser ele mesmo esse homem (v. 5-6), dizendo não se gloriar de tal feito, embora pudesse fazê-lo, já que se trata de algo verdadeiro. Mas que não o fez por uma razão simples: para se proteger contra os falatórios das pessoas... Imagine o que elas diriam, ou como reagiriam!

É nesse contexto então que ele diz o que mais quero chamar a atenção aqui: contra sua possível soberba, foi lhe dado um “espinho na carne”. Na tradução The Message, usa-se a expressão: “Dom ou dádiva de uma deficiência”. E a razão parece ser evidente: isso é para que você fique em permanente contato com as suas limitações!

Fico imaginando (já que é o que posso fazer): esse espinho pode ser a representação de qualquer coisa – a) uma deficiência física ou mental; b) uma carência emocional; c) uma limitação externa ou desarranjo provocado por alguém ou por uma situação adversa, e assim por diante. Para mim, o espinho é um antídoto às avessas, é o que me livra de ser dominado pela vontade de poder, de ser massacrado pelo meu ego, de ser lançado no quarto escuro da pretensiosidade.

Dificilmente de cara tendemos a ver essa deficiência como uma dádiva, não é mesmo? É, na verdade, um incômodo, um embaraço, que desejo arrancar a todo custo, como Paulo (ver: v. 8). E nessas horas nós procuramos o cirurgião, queremos a cirurgia! Mas o cirurgião diz: não vou te operar, porque eu já estou operando em você, de um modo diferente... Deus opera com a Graça! E por isso ele diz: a minha graça é suficiente para você. E essa é uma palavra apropriada: “deficiência”, pois é o oposto de “suficiência”. É por isso que lutamos tanto contra ela, não é? Porque almejamos a suficiência quase em tudo, ou em tudo o que podemos.

Assim, a fraqueza – seja ela em que dimensão se apresentar – é condição de nossa continuidade na graça, de nossa dependência de Cristo, do aperfeiçoamento de seu poder em nós, como discípulos a serviço do Reino! Que você e eu aprendamos a celebrar e a ser agradecidos por aquilo que somos, com nossas virtudes e defeitos. Que o Senhor da graça nos ajude a exercitar nossa humildade em nossa aceitação de que não podemos tudo, nem temos controle sobre tudo e resposta para todas as coisas.

Jonathan

sexta-feira, 1 de abril de 2011

#Nouwen: Casamento entre teologia e espiritualidade


Muitos textos que escrevi no blog até hoje foram sobre ou baseados em Henri Nouwen. Intencionalmente, porém, usarei o marcador #Nouwen daqui para frente para textos nos quais estiver em franco diálogo com ele, até como forma de compartilhar com vocês as reflexões e discussões que temos realizado em nosso grupo de leitura da obra desse fascinante escritor.

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Todos fazem teologia (consciente ou inconscientemente) quando refletem sobre e dão significado ao exercício de sua fé (dádiva) em seus múltiplos contextos. E minha defesa particular, nesse sentido, é a de que devemos continuar fazendo isto, só de que de modo consciente, maduro e bem orientado.

Em uma de suas mais celebradas obras, intitulada originalmente “In the name of Jesus”, mas traduzida ao português como “O perfil do líder cristão no século XXI” (Atos, 2002), Henri Nouwen defende que somente uma “intensa reflexão teológica” poderá nos fazer “discernir, com senso crítico, para onde estamos sendo guiados. O preço de se viver sem uma sólida reflexão teológica é o de que os futuros líderes “serão pouco mais do que pseudo-psicólogos, pseudo-sociólogos e pseudo-assistentes sociais” .

Eis um trecho do pensamento do autor sobre tal processo:

Os líderes cristãos do futuro precisam ser teólogos, pessoas que conhecem o coração de Deus e são treinadas – através da oração, do estudo e da análise detalhada – a manifestar o supremo evento da obra redentora de Deus no meio dos inúmeros eventos aparentemente casuais de sua época. Reflexão teológica é refletir sobre as dolorosas realidades de todo dia e sobre as positivas também, com a mente de Jesus, para assim despertar a consciência humana para a percepção da suave orientação de Deus em nosso interior (p. 57).

A conclusão óbvia deste raciocínio de Nouwen, em consonância com o pensamento de Kierkegaard - de que "não há verdadeiro autoconhecimento sem o conhecimento de Deus ou [sem estar diante] de Deus" - me parece ser a de que, se não é possível desenvolver um conhecimento razoável de quem somos (a disciplina do autoconhecimento) sem estar diante de Deus disposto a conhecê-lo, então, de igual modo, estar diante de Deus disposto a conhecê-lo e perceber a “suave orientação” de seu Espírito em nós mesmos também não é possível sem uma séria e dedicada reflexão teológica.

Para tanto, ainda segundo ele, os discípulos, discipuladores e líderes do futuro precisam atravessar o mar vermelho das desconfianças e preconceitos relacionados à reflexão (sobretudo a teológica) e se engajar critica e abertamente nesta tarefa a partir de seu próprio lugar social e ministerial. Paralelo a isto, “muita coisa precisa acontecer nos seminários de teologia”, como afirma Nouwen. Em sua percepção, eles “precisam tornar-se centros onde as pessoas são treinadas no verdadeiro discernimento dos sinais de sua época”. E, igualmente importante, esta formação não pode envolver apenas intelecto, mas ser também segundo o autor uma “profunda formação espiritual, envolvendo a pessoa no seu todo, ou seja, o seu corpo, mente e coração”.

Em tempo: vale lembrar, por fim, o que disse Gustavo Gutiérrez, um dos mentores de Nouwen nesta percepção, em seu livro "Beber em seu próprio poço" (2000): “Uma reflexão que não ajude a viver segundo o Espírito não é uma teologia cristã. Toda autêntica teologia é uma teologia espiritual” (p. 52). Esta percepção deve recuperar, ainda que em um plano ideal, o lugar da teologia na espiritualidade cristã do dia a dia, que é o de ser orientadora crítica da vida e do discernimento da igreja em missão.

Jonathan

domingo, 27 de março de 2011

Como a corrida pode mudar minha vida...

Todos os dias quando acordo, tenho em minhas mãos o poder de mudar minha vida, para melhor ou para pior. Se ela será menos ou mais feliz, menos ou mais saudável, menos ou mais livre, menos ou mais cheia de vida depende, em parte, de mim mesmo, de minha busca e de minhas opções de caminho... Uma dessas bem-aventuradas escolhas tem sido a corrida.

A corrida pode mudar a minha vida porque ela é uma estrada aberta rumo à longevidade. Nesse meio, tenho conhecido pessoas de 70, 60, 50 anos cujo vigor e salubridade são de fazer inveja a certos jovens de 30 e se brincar até de 20 anos; e penso: se eles têm sido capazes de chegar tão longe com tamanha qualidade, por que não eu?

A corrida pode mudar a minha vida porque ela proporciona um encontro comigo mesmo, com um “eu” que até então não conhecia: livre, aventureiro, lucidamente pirado e assustadoramente feliz (coisas da endorfina); limitado, sim, mas que consegue a cada passada perceber que o limite é maior do que parece ser; a corrida, mesmo sem eu saber, me livrou da depressão, de um modo que medicina nenhuma, por si só, seria capaz de fazer.

A corrida pode mudar minha vida porque ela também oportuniza um fascinante encontro com o outro, o próximo, o com-corrente, que me interpela e desafia, o companheiro de corrida. Se há um esporte que me ensina a ser solidário é a corrida, pois corredores se vêem, se ajudam, se comprazem nisso, seja porque chegaram, não chegaram ou ainda estão perseguindo a linha de chegada.

Na corrida é assim, não importa o quanto já se tenha percorrido, a delícia está tanto na jornada quanto na chegada. Quanto mais corro, maior é a sensação de que ainda falta muito a percorrer. A corrida me faz pensar na corrida da vida: você pode correr com prazer, mas sofre e sente dores; e o que te mantém firme é a esperança da chegada. E muitos são os caminhos que se fazem ao correr. O céu é o limite. Por isso escolhi a corrida, porque ela me aproxima de Deus.

Jonathan

sexta-feira, 18 de março de 2011

A queda do legislador

A arte da conversação civilizada é algo de que o mundo pluralista necessita com premência. Ele só pode negligenciar essa arte às suas expensas. Conversar ou sucumbir” (Zygmunt Bauman).

O livro "Legisladores e Intérpretes" (Jorge Zahar, 2010), um dos últimos do polonês Zygmunt Bauman publicados em português, se trata de uma análise da vida moderna, sobretudo, da vida intelectual. Constrói-se em diálogo crítico com autores modernos, bem como com analistas que propuseram algum tipo de crítica à modernidade no século XX, tanto filósofos como sociólogos. A obra foi um dos primeiros passos do autor rumo a uma sociologia da modernidade e a criação do conceito de “líquido”, que vem expressar precisamente um estágio avançado de transformações da modernidade, a que muitos preferem chamar de pós-moderno, de fluidez, incertezas e ambiguidade.

A declaração da "queda do legislador" é central para entender o propósito do livro, uma vez que procura dar as razões que conduziram o ideal moderno representado na figura do legislador à derrocada na pós-modernidade, de uma “era de certezas” e “autoconfiança” para uma “era de incertezas" e de desconfiança em relação aos valores estabelecidos (como o da pretensa objetividade e o do progresso) ao papel do “sujeito” e ao futuro da história. A tese é de que a queda do legislador é provocada por um mecanismo autodestrutivo próprio da modernidade como projeto, que está em ser um empreendimento humano sem limites e que acaba extrapolando a capacidade humana de assimilar sua própria engenhosidade. A modernidade pagou, dessa forma, o preço de sua ambição e de suas “contradições inextricáveis”: quando se vê o particular e o limitado tentando conter o absoluto; o efêmero buscando a durabilidade; o normal ensejando o status de superioridade (ver: p. 161).

Isso construiu uma “ilusão de ótica” na qual a modernidade julgou ser o ponto referencial a partir do qual tudo ocorre, a régua universal, medidora de tudo e de todos. Quando este devaneio metafísico passa a ser denunciado no debate pós-moderno, percebe-se que as certezas de antes estão mortas ou em processo de decadência. O certo é substituído pelo incerto; o mundo contemporâneo passa a ser um lugar estranho aos legisladores, incapazes de responder as expectativas que eles mesmos criaram em torno de si e de seu projeto.

Em consequência, Bauman considera que: “O mundo contemporâneo é impróprio para os intelectuais como legisladores” (p. 170). Abre-se caminho, assim, para a ascensão de novas representações, dentre elas está a figura do intérprete. A função do intelectual passa a ser não mais a de legislar – em busca de vereditos absolutos – mas de interpretar recortes da realidade a que chamamos de “textos”. Tudo o que temos são textos, dirão muitos filósofos da linguagem. E textos não são espelhos da realidade, mas reflexos obscuros e particularizados de uma realidade inacessível ao intelectual, a não ser por meio deles, os textos, que em si conferem um acesso também limitado, parco eu diria. É como se, como corolário, não existisse realidade alguma fora deles. A realidade seria, então, fruto da compreensão humana expressa na linguagem. Não se tem mais verdades, e sim interpretações...

Algumas implicações para a teologia me vêm à mente. A educação teológica, tal como a concebemos em boa parte até hoje, é filha da modernidade. Também nasceu dentro de um edifício de certezas e sob uma ótica dogmatizante. Sustenta-se sob a pretensão não apenas de “falar de Deus” (o que já seria um hercúleo desafio), mas de “falar por Deus”. Muitas vezes cedeu à “oferta do bruxo” (C. S. Lewis) de trocar sua vocação para ser a mais modesta dentre as ciências pelo conhecimento como poder: para legislar, dominar e condenar. Lutou contra seu próprio princípio de sustentação, de que a força de seu discurso e vida reside precisamente em sua fraqueza. Tantas vezes tem cedido à tentação de não questionar seus próprios pressupostos e, mais do que isso, de rotular como “herege”, “liberal” ou coisa do tipo quem ousa os questionar.

A queda do legislador deve ser, como em muitos contextos já tem sido, um prenúncio profético à teologia, de retorno à sua vocação, de abandono de sua faceta moderna, colonizadora da vida e do pensamento, de quem tentou e ainda tenta fazer “fimose em Deus” (Caio Fábio). A teologia precisa abandonar sua faceta dogmática, e abraçar a pluralidade e diversidade que fazem não dela e de suas cogitações o referente ou o absoluto, pois isso é coisa que só Deus pode ser.

Jonathan

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Rindo de ou com Deus?

Na primeira vez em que ouvi essa música (ver no post abaixo) e prestei o mínimo de atenção a sua letra, logo me encantei não só pela hábil maneira com que nela a autora brinca com as palavras, ou pelo tom sereno da voz de Regina Spektor, mas pela assertividade com que trabalha a idéia de “rir de Deus”.

Nas estrofes da música, o “rir de Deus” se refere a variadas situações crônicas da vida, como se dissesse: bem, se é que tem alguém rindo de Deus, certamente não é em um hospital ou em meio a uma guerra, etc. Ninguém (ou quase ninguém) é capaz de rir de Deus nessas horas, não é mesmo? Pelo contrário, é precisamente nesses momentos que mais lembramos que Deus existe – mesmo que tenhamos passado a maior parte da vida negando ou ignorando sua existência. Como diria C. S. Lewis, para muitos, Deus é como um pára-quedas, do qual só lembramos quando estamos em queda livre.

Ao mesmo tempo, na segunda parte do refrão a autora ironiza mais ainda dizendo que Deus pode ser engraçado, hilário até. É claro que se trata aqui de uma idéia de Deus, bastante popular, aliás, de um Deus-joguete dos desejos humanos, que se submete a um relacionamento de barganhas e que está pronto para dar presentes de acordo com o mérito de quem ora certo ou faz as coisas (religiosamente) direitinho. Esse é o tipo de idéia em relação a qual a gente não sabe bem se ri ou se chora. Só não dá pra ficar indiferente.

Paulo disse que não era pra ninguém se enganar porque de Deus não se zomba (Gl 6.7), ou seja, não se faz de Deus um tolo. O apóstolo não está sendo imperativo aqui; não está dizendo “não zombem de Deus”, e sim, “por mais que se tente, não é possível zombar de Deus”, Ele não é zombável. Em outras palavras, Deus não deixa de ser Deus porque deixamos de acreditar nele ou de honrá-lo, e nem é mais Deus porque o honramos, louvamos, glorificamos; Ele não se torna mais Santo cada vez que cantamos “Tu és Santo”. Quando dizemos e fazemos cada uma dessas coisas, no fundo, não é por causa de Deus, e sim por causa de nós mesmos, da necessidade que temos Dele, da gratidão a Ele pelo amor que Dele recebemos, e assim por diante. Não amo o amor pelo amor em si, mas, primeiro, porque fui e porque sou amado.

Não estamos sendo prepotentes demais quando pensamos que Deus precisa de nossos mimos para ser mais Deus, mais Santo, mais Glorioso? Ele já É tudo isso. E o que É não deixará de ser porque alguém disse de menos, e nem será mais do que É porque outro fez de mais. À prepotência humana (minha e sua) de achar que o mundo (e Deus) é seu umbigo é que se destina a bem-humorada ironia da música: no fundo ninguém está rindo de Deus, todos estamos rindo com Ele.

Jonathan

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Laughing with/ Rindo com - Regina Spektor



No one laughs at God in a hospital
(Ninguém ri de Deus em um hospital)
No one laughs at God in a war
(Ninguém ri de Deus em uma guerra)
No one´s laughing at God when they´re starving or freezing or so very poor
(Ninguém está rindo de Deus quando está morrendo de fome, congelando ou muito pobre)
No one laughs at God when the doctor calls after some routine tests
(Ninguém ri de Deus quando o médico liga depois de alguns exames rotineiros)
No one´s laughing at God when it´s gotten real late
(Ninguém está rindo de Deus, quando já é muito tarde)
And their kid´s not back from the party yet
(E é o seu filho que não voltou da festa ainda)

No one laughs at God when their airplane starts to uncontrollably shake
(Ninguém ri de Deus quando seu avião começa a tremer incontrolavelmente)
No one´s laughing at God when they see the one they love
(Ninguém ri de Deus quando vêem que a pessoa que eles amam)
Hand in hand with someone else and they hope they´re mistaken
(Está de mãos dadas com outra pessoa e eles esperam estar enganados)
No one laughs at God when the cops knock on their door
(Ninguém ri de Deus quando a polícia bate à sua porta)
And they say we got some bad news sir
(E eles dizem: temos más notícias, senhor)
No one´s laughing at God when there´s a famine fire or flood
(Ninguém está rindo de Deus quando há fome, incêndio ou inundação)

But God can be funny
(Mas Deus pode ser engraçado)
At a cocktail party when listening to a good God-themed joke
(Em um coquetel quando você ouve uma ótima piada sobre Deus)
Or when the crazies say He hates us
(Ou quando os loucos dizem que Ele nos odeia)
And they get so red in the head you think they´re ´bout to choke
(E eles estão com o rosto tão vermelho que você acha que eles vão engasgar)

God can be funny
(Deus pode ser engraçado)
When told he´ll give you money if you just pray the right way
(Quando dizem que Ele pode te dar muito dinheiro se você orar do jeito certo)
And when presented like a genie who does magic like Houdini
(E quando apresentado como um gênio que faz mágica como o Houdini)
Or grants wishes like Jiminy Cricket and Santa Claus
(Ou concede desejos como o Grilo Falante e o Papai Noel)
God can be so hilarious (Deus pode ser tão hilário)
Ha ha, Ha ha

No one laughs at God in a hospital
(Ninguém ri de Deus em um hospital)
No one laughs at God in a war
(Ninguém ri de Deus em uma guerra)
No one´s laughing at God when they´ve lost all they´ve got
(Ninguém está rindo de Deus quando perde tudo o que tem)
And they don´t know what for
(E não sabem qual é a razão disso)
No one laughs at God on the day they realize that the last sight they´ll ever see
(Ninguém ri de Deus no dia em que eles notam que estão vendo a última coisa que vão ver)
Is a pair of hateful eyes (É um odioso par de olhos)
No one´s laughing at God when they´re saying their goodbyes
(Ninguém está rindo de Deus quando dizem “adeus”)

No one laughs at God in a hospital
(Ninguém ri de Deus em um hospital)
No one laughs at God in a war
(Ninguém ri de Deus em uma guerra)
No one´s laughing at God when they´re starving or freezing or so very poor
(Ninguém está rindo de Deus quando está morrendo de fome, congelando ou muito pobre)
No one´s laughing at God
(Não há ninguém rindo de Deus)
We´re all laughing with God
(Todos estamos rindo com Deus)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Ainda que... nada serei!


What do you got if you ain't got love?

Há mais de dois mil anos atrás, um tal de Paulo escreveu uma poesia sobre o amor e desde então essa poesia tem inspirado milhares de outras poesias sobre isso. A música “What do you got”, de Bon Jovi, que me inspirou a escrever esse post, segue esse curso. A razão para tal sucesso parece óbvia: a poesia de Paulo não fala de qualquer amor (como o que diz: “amo correr” ou “amo meu carro”), nem tampouco de nossos amores-necessidade (C. S. Lewis) tipicamente humanos; ele fala sobre ágape, o amor divino, e pontua características próprias e vivas desse amor.

Apesar de ser poético, o texto de Paulo é direto, vai à veia do que o amor é na prática; consegue construir uma bela visão, sem deixar de ser realista, admitindo que, embora o amor seja tudo, fora de Deus não é possível vivê-lo em seu mais sublime sentido, e, mesmo que busquemos esse “vínculo da perfeição”, como diz João, ainda assim, continuaremos vendo “um reflexo obscuro, como em espelho”. Ou seja, perseguir o amor verdadeiro é uma vocação interminável, humanamente falando. Podemos encontrar relances do ágape, mas só seremos plenos nele quando Deus for tudo em todos. Até lá...

Bem, até lá, só sei de uma coisa: eu preciso tentar viver esse negócio como sendo o sentido maior de minha existência, como se o ar que eu preciso para respirar me faltasse caso eu... não tivesse amor! Embora ele não me falte, é como se faltasse. Por exemplo: eu não perco meu emprego porque eu não amo, mas é como se perdesse; meu casamento não necessariamente termina se não tiver amor, mas, assim sendo, na prática ele já terminou há muito tempo; minha conta bancária não terá maiores nem menores dividendos porque eu amo, mas existencialmente, sem amor, me sentirei como o mais pobre entre os homens; eu posso falar de amor sem ter amor; posso saber muito sobre Deus, sem tê-lo ao menos experimentado em amor algum dia. E o que eu tenho? O que me resta? Sem amor, nada, só o vazio!

Sei lá, parece que Paulo estava muito certo quando escreveu 1Coríntios 13, você não acha? Quer dizer, essa parada de amar é séria. Amar ou não amar parece não ser uma questão, assim como viver ou não fora d’água não é uma questão para o peixe. Quando nos conscientizamos mesmo disso – e talvez levemos muito tempo ou pouco tempo, tenhamos de apanhar muito ou pouco da vida, pra aprender isso – então, falar de amor se torna algo “fora de moda”; afinal, não é preciso falar muito quando se vive, concorda?

Como observou Zygmunt Bauman: “O amor não se reconhece nas palavras”. Ou ainda, como assertivamente disse Jonathan Rutherford: “O amor oscila na beira do desconhecido além do qual fica quase impossível falar. Ele nos leva para além das palavras. Quando pressionados a falar sobre o amor, procuramos atrapalhadamente pelas palavras, mas as palavras curvam-se, dobram-se, desaparecem”.

É meio que um incômodo esse negócio, e não poderia ser diferente: falar de amor é muito estranho! Até porque, eu não sei se conseguirei colocar isso em prática tanto quanto agora me sinto constrangido e motivado a falar a respeito. Mas acho que aí está a graça da coisa, não? Não saber nos tira do controle, uma vez que o amor não tem nada a ver com controle, tem a ver com vulnerabilidade e incerteza. Amar, diria Bauman, significa estar e permanecer num estado de permanente incerteza. Então, é bom falar de vez em quando. Só que melhor, bem melhor, é viver...

Jonathan