sábado, 19 de fevereiro de 2011

Rindo de ou com Deus?

Na primeira vez em que ouvi essa música (ver no post abaixo) e prestei o mínimo de atenção a sua letra, logo me encantei não só pela hábil maneira com que nela a autora brinca com as palavras, ou pelo tom sereno da voz de Regina Spektor, mas pela assertividade com que trabalha a idéia de “rir de Deus”.

Nas estrofes da música, o “rir de Deus” se refere a variadas situações crônicas da vida, como se dissesse: bem, se é que tem alguém rindo de Deus, certamente não é em um hospital ou em meio a uma guerra, etc. Ninguém (ou quase ninguém) é capaz de rir de Deus nessas horas, não é mesmo? Pelo contrário, é precisamente nesses momentos que mais lembramos que Deus existe – mesmo que tenhamos passado a maior parte da vida negando ou ignorando sua existência. Como diria C. S. Lewis, para muitos, Deus é como um pára-quedas, do qual só lembramos quando estamos em queda livre.

Ao mesmo tempo, na segunda parte do refrão a autora ironiza mais ainda dizendo que Deus pode ser engraçado, hilário até. É claro que se trata aqui de uma idéia de Deus, bastante popular, aliás, de um Deus-joguete dos desejos humanos, que se submete a um relacionamento de barganhas e que está pronto para dar presentes de acordo com o mérito de quem ora certo ou faz as coisas (religiosamente) direitinho. Esse é o tipo de idéia em relação a qual a gente não sabe bem se ri ou se chora. Só não dá pra ficar indiferente.

Paulo disse que não era pra ninguém se enganar porque de Deus não se zomba (Gl 6.7), ou seja, não se faz de Deus um tolo. O apóstolo não está sendo imperativo aqui; não está dizendo “não zombem de Deus”, e sim, “por mais que se tente, não é possível zombar de Deus”, Ele não é zombável. Em outras palavras, Deus não deixa de ser Deus porque deixamos de acreditar nele ou de honrá-lo, e nem é mais Deus porque o honramos, louvamos, glorificamos; Ele não se torna mais Santo cada vez que cantamos “Tu és Santo”. Quando dizemos e fazemos cada uma dessas coisas, no fundo, não é por causa de Deus, e sim por causa de nós mesmos, da necessidade que temos Dele, da gratidão a Ele pelo amor que Dele recebemos, e assim por diante. Não amo o amor pelo amor em si, mas, primeiro, porque fui e porque sou amado.

Não estamos sendo prepotentes demais quando pensamos que Deus precisa de nossos mimos para ser mais Deus, mais Santo, mais Glorioso? Ele já É tudo isso. E o que É não deixará de ser porque alguém disse de menos, e nem será mais do que É porque outro fez de mais. À prepotência humana (minha e sua) de achar que o mundo (e Deus) é seu umbigo é que se destina a bem-humorada ironia da música: no fundo ninguém está rindo de Deus, todos estamos rindo com Ele.

Jonathan

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Laughing with/ Rindo com - Regina Spektor



No one laughs at God in a hospital
(Ninguém ri de Deus em um hospital)
No one laughs at God in a war
(Ninguém ri de Deus em uma guerra)
No one´s laughing at God when they´re starving or freezing or so very poor
(Ninguém está rindo de Deus quando está morrendo de fome, congelando ou muito pobre)
No one laughs at God when the doctor calls after some routine tests
(Ninguém ri de Deus quando o médico liga depois de alguns exames rotineiros)
No one´s laughing at God when it´s gotten real late
(Ninguém está rindo de Deus, quando já é muito tarde)
And their kid´s not back from the party yet
(E é o seu filho que não voltou da festa ainda)

No one laughs at God when their airplane starts to uncontrollably shake
(Ninguém ri de Deus quando seu avião começa a tremer incontrolavelmente)
No one´s laughing at God when they see the one they love
(Ninguém ri de Deus quando vêem que a pessoa que eles amam)
Hand in hand with someone else and they hope they´re mistaken
(Está de mãos dadas com outra pessoa e eles esperam estar enganados)
No one laughs at God when the cops knock on their door
(Ninguém ri de Deus quando a polícia bate à sua porta)
And they say we got some bad news sir
(E eles dizem: temos más notícias, senhor)
No one´s laughing at God when there´s a famine fire or flood
(Ninguém está rindo de Deus quando há fome, incêndio ou inundação)

But God can be funny
(Mas Deus pode ser engraçado)
At a cocktail party when listening to a good God-themed joke
(Em um coquetel quando você ouve uma ótima piada sobre Deus)
Or when the crazies say He hates us
(Ou quando os loucos dizem que Ele nos odeia)
And they get so red in the head you think they´re ´bout to choke
(E eles estão com o rosto tão vermelho que você acha que eles vão engasgar)

God can be funny
(Deus pode ser engraçado)
When told he´ll give you money if you just pray the right way
(Quando dizem que Ele pode te dar muito dinheiro se você orar do jeito certo)
And when presented like a genie who does magic like Houdini
(E quando apresentado como um gênio que faz mágica como o Houdini)
Or grants wishes like Jiminy Cricket and Santa Claus
(Ou concede desejos como o Grilo Falante e o Papai Noel)
God can be so hilarious (Deus pode ser tão hilário)
Ha ha, Ha ha

No one laughs at God in a hospital
(Ninguém ri de Deus em um hospital)
No one laughs at God in a war
(Ninguém ri de Deus em uma guerra)
No one´s laughing at God when they´ve lost all they´ve got
(Ninguém está rindo de Deus quando perde tudo o que tem)
And they don´t know what for
(E não sabem qual é a razão disso)
No one laughs at God on the day they realize that the last sight they´ll ever see
(Ninguém ri de Deus no dia em que eles notam que estão vendo a última coisa que vão ver)
Is a pair of hateful eyes (É um odioso par de olhos)
No one´s laughing at God when they´re saying their goodbyes
(Ninguém está rindo de Deus quando dizem “adeus”)

No one laughs at God in a hospital
(Ninguém ri de Deus em um hospital)
No one laughs at God in a war
(Ninguém ri de Deus em uma guerra)
No one´s laughing at God when they´re starving or freezing or so very poor
(Ninguém está rindo de Deus quando está morrendo de fome, congelando ou muito pobre)
No one´s laughing at God
(Não há ninguém rindo de Deus)
We´re all laughing with God
(Todos estamos rindo com Deus)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Ainda que... nada serei!


What do you got if you ain't got love?

Há mais de dois mil anos atrás, um tal de Paulo escreveu uma poesia sobre o amor e desde então essa poesia tem inspirado milhares de outras poesias sobre isso. A música “What do you got”, de Bon Jovi, que me inspirou a escrever esse post, segue esse curso. A razão para tal sucesso parece óbvia: a poesia de Paulo não fala de qualquer amor (como o que diz: “amo correr” ou “amo meu carro”), nem tampouco de nossos amores-necessidade (C. S. Lewis) tipicamente humanos; ele fala sobre ágape, o amor divino, e pontua características próprias e vivas desse amor.

Apesar de ser poético, o texto de Paulo é direto, vai à veia do que o amor é na prática; consegue construir uma bela visão, sem deixar de ser realista, admitindo que, embora o amor seja tudo, fora de Deus não é possível vivê-lo em seu mais sublime sentido, e, mesmo que busquemos esse “vínculo da perfeição”, como diz João, ainda assim, continuaremos vendo “um reflexo obscuro, como em espelho”. Ou seja, perseguir o amor verdadeiro é uma vocação interminável, humanamente falando. Podemos encontrar relances do ágape, mas só seremos plenos nele quando Deus for tudo em todos. Até lá...

Bem, até lá, só sei de uma coisa: eu preciso tentar viver esse negócio como sendo o sentido maior de minha existência, como se o ar que eu preciso para respirar me faltasse caso eu... não tivesse amor! Embora ele não me falte, é como se faltasse. Por exemplo: eu não perco meu emprego porque eu não amo, mas é como se perdesse; meu casamento não necessariamente termina se não tiver amor, mas, assim sendo, na prática ele já terminou há muito tempo; minha conta bancária não terá maiores nem menores dividendos porque eu amo, mas existencialmente, sem amor, me sentirei como o mais pobre entre os homens; eu posso falar de amor sem ter amor; posso saber muito sobre Deus, sem tê-lo ao menos experimentado em amor algum dia. E o que eu tenho? O que me resta? Sem amor, nada, só o vazio!

Sei lá, parece que Paulo estava muito certo quando escreveu 1Coríntios 13, você não acha? Quer dizer, essa parada de amar é séria. Amar ou não amar parece não ser uma questão, assim como viver ou não fora d’água não é uma questão para o peixe. Quando nos conscientizamos mesmo disso – e talvez levemos muito tempo ou pouco tempo, tenhamos de apanhar muito ou pouco da vida, pra aprender isso – então, falar de amor se torna algo “fora de moda”; afinal, não é preciso falar muito quando se vive, concorda?

Como observou Zygmunt Bauman: “O amor não se reconhece nas palavras”. Ou ainda, como assertivamente disse Jonathan Rutherford: “O amor oscila na beira do desconhecido além do qual fica quase impossível falar. Ele nos leva para além das palavras. Quando pressionados a falar sobre o amor, procuramos atrapalhadamente pelas palavras, mas as palavras curvam-se, dobram-se, desaparecem”.

É meio que um incômodo esse negócio, e não poderia ser diferente: falar de amor é muito estranho! Até porque, eu não sei se conseguirei colocar isso em prática tanto quanto agora me sinto constrangido e motivado a falar a respeito. Mas acho que aí está a graça da coisa, não? Não saber nos tira do controle, uma vez que o amor não tem nada a ver com controle, tem a ver com vulnerabilidade e incerteza. Amar, diria Bauman, significa estar e permanecer num estado de permanente incerteza. Então, é bom falar de vez em quando. Só que melhor, bem melhor, é viver...

Jonathan

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

As pessoas não mudam (III)

3. A fé como batalha

Como a tese em questão pode coexistir de modo relativamente coerente com certa (não-convencional) visão cristã?

“Os dias às vezes parecem iguais, a guerra é minha rotina”, diz uma parte da canção “Continuar” (2008) da banda Oficina G3, idéia que me parece bem aplicável à vida cristã, uma vez que a guerra é um de seus indissociáveis elementos. Luta-se não apenas para sobreviver, mas porque se vive em uma nova ordem de vida, como já foi pontuado. Essa luta tem uma dimensão tanto interior como exterior – e aqui continuarei dando maior atenção à primeira.

A carta de Romanos (7.19) contém uma das mais nuas descrições da luta humana nesta primeira dimensão e que se resume bem na frase “não faço o bem que prefiro, mas o mal que eu não quero, esse faço”. Uma frase que pode bem ser combinada com a que afirma não haver “um só justo na terra, ninguém que pratique o bem e nunca peque” (Ec 7.20). Assim, a vida do justo é marcada por um litígio permanente contra a sua própria e inerente in-justiça. Luta sobre a qual jamais se teria sombra de vitória não fosse a graça divina, que nos basta, como afirma Paulo, mas no meio (e não fora) da batalha.

A paz – e não me refiro ao “estado de paz interior” que se oferecem como produto fácil nas diversas prateleiras religiosas, mas a verdadeira paz de Cristo, que ultrapassa todo entendimento, que é fruto da justiça – só pode ser conhecida por quem não abandona o front de batalha. Citando outra vez Frederick Buechner, “a paz não se encontra na fuga da batalha, mas em seu intenso calor”.

Dessa forma, enquanto gente e seguidor do Cristo que tento ser, luto todos os dias para viver meu chamado em meio às muitas (provisórias) contradições que em mim habitam, e contra tudo o que detesto ser, mas que ainda permanece encravado como espinho em minha carne. Sim, p-e-r-m-a-n-e-c-e... Às vezes por razões que não compreendo – “não entendo o que faço”, disse Paulo – outras tantas, por razões que tento renegar. Mas, se por um lado me sinto enfraquecido, por outro saio fortalecido; se estou sendo derrotado sob certa perspectiva (triunfalista e pragmática de fé), sob outra, baseada na graça e no poder que se aperfeiçoa na fraqueza, alcanço relances de vitória.

Então, decidi que, paradoxalmente e pela força do Espírito, buscarei ser uma pessoa que jamais desiste de perseguir a mudança a despeito de não ser capaz de mudar certas coisas – acolho e rejeito a tese em questão ao mesmo tempo. Para tanto, tenho me esforçado para aceitar quem eu sou, sem, contudo, me resignar à condição de vítima de mim mesmo; desejo não fugir e nem ignorar minha rotina humana e cristã de luta; recuso as vias do “ópio do povo” ou da cauterização da consciência, que fazem discípulos para a morte todos os dias. Entendo que reconhecer minha miséria não é sinal de desistência da luta, mas um caminho para a liberdade.

Jonathan

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

As pessoas não mudam (II)

2. A fé como paradoxo

A fim de prosseguir, quero acrescentar à tese original duas perspectivas que me serão úteis aqui: primeira, da fé como paradoxo e, em seguida, da fé como batalha.

O paradoxo da fé pode assim ser descrito: uma vez que estou em Cristo, pela fé estou e pela graça sou nova criatura, que se reveste dia após dia de uma nova humanidade – isto é, passo a ser gente conforme o tipo de gente que Cristo foi e deseja que eu seja. Nova disposição, vida nova. Ao mesmo tempo, o que é novo vai brotando em meio àquilo que é velho, mas que ainda permanece vivo e ativo em mim por causa do pecado.

Afinal, sou um novo ser ou estou a caminho de me tornar um novo ser? Ambos, talvez. Em outras palavras, sou um novo ser ainda a caminho de me tornar novo conforme a novidade de vida em Cristo revelada. Sou e estou caminhante. Como diz a bela poesia de Antonio Machado: “Caminhante, são tuas pegadas o caminho e nada mais; caminhante, não há caminho, se faz caminho ao andar...”.

Paradoxo, sim. Anomalia para alguns. Boa anomalia para a fé, visto que uma fé saudável é aquela que não tenta erradicar-se dos paradoxos (ou erradicar os paradoxos de si), mas admite (jubilosamente) viver infiltrada no meio deles. Se a fé é “loucura”, segundo a linguagem paulina, então não há porque se envergonhar de ser anomalia excêntrica, aos olhos humanos, a fim de encontrar graça aos olhos divinos.

Se a graça é esse dom divino destinado a gente torta, então não há razão para não se admitir como sendo torto e inacabado – embora isso não signifique “conformismo”. Como analisa Frederick Buechner em seu livro “The Magnificent Defeat” (1966), quando se vive pela fé “ao invés de tudo se manter tranqüilo e certo, nada é tão tranqüilo e tudo é incerto”. E não gratuitamente ou sem razão de ser, como diz ele: “Algo novo e perturbador está rompendo com algo velho. Alguma coisa está tentando nascer. E se algo novo irá nascer, a velha coisa precisa dar passagem, e há agonia no processo tanto quanto há alegria” (p. 63).

Isso mesmo. O processo em que me torno um novo ser é recheado de paradoxos, como os descritos por Buechner. A fé convive com a dúvida, enquanto as alegrias estão misturadas com as agonias. A fé cristã combina menos com o universo seguro do “só” (somente isto ou aquilo) que com o mar de incertezas do “nem só”. Assuma, concorde e aceite quem quiser e nesse caminho se reconhecer.

(Continua...)

Jonathan

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

As pessoas não mudam (I)

1. A tese em questão

Há algum tempo, meu amigo Marcos Orison, vulgo Marquinhos, vem compartilhando com um grupo (seleto) de pessoas uma tese que ele defende – talvez não exatamente nova ou original, mas certamente polêmica (especialmente em círculos religiosos) – de que as pessoas não mudam.

Em princípio, a idéia me pareceu estranha e difícil de ser sustentada, sobretudo em consonância com certo discurso teológico (alguns diriam pregação) que afirma que não há estrago que Deus não possa consertar, ou problema que Ele não seja capaz de dar jeito. E “pau que nasce torto, morre torto”? Sim e não, responderiam os defensores desse discurso. Sim, caso a pessoa se abandone a esta situação, e “não” caso se renda aos consertos da marcenaria celestial. Parece que se a fé não vier temperada com um otimismo – ou “a certeza” – em relação ao ser humano, à vida e o que a circunda, deixa de ser “fé” e passa a ser descrença, ceticismo, pessimismo ou coisa que o valha.

Nesse contexto, a fé necessita da mudança (resultados, coisas acontecendo) para ser fé. Por mais correta que pareça, esta perspectiva tende a diminuir, com o tempo, as perspectivas de amadurecimento do crente, que passa a viver uma fé estagnada (no binômio causa-efeito ou problema-solução), obtusa e “sem graça” (literal e metaforicamente falando). Esse tipo de fé, uma fé que tem os olhos e pés longe do chão, tende a perder sua conexão com e relevância para a vida de pessoas de carne e osso (pleonasmo proposital).

Voltando à tese de Orison. Sua explicação – em palavras que não conseguirei reproduzir a contento (ele precisava ter escrito isso) – é de que cada um de nós carrega cargas ou marcas, sejam elas genéticas, comportamentais e/ou culturalmente geradas, que nos acompanham sempre como um rio perene. Quando alguém se converte ao Evangelho, afirma-se que sua vida e sua pessoa mudam – na linguagem paulina, “tudo se faz novo”. Algumas coisas nesse processo, fundamentais suponho, mudarão seu curso. Passamos a apurar o nosso senso de metamorfose. O Espírito revela à nossa consciência que não somos – ou não podemos continuar sendo – o mesmo tipo de gente que costumávamos ser antes desse encontro com Cristo. Os testemunhos surgem, assim, como evidência pessoalmente narrada da mudança: antes eu era “assim”, hoje sou “assado”, sou diferente, me tornei uma pessoa melhor.

Entretanto – e aqui flerto explicitamente com a tese em questão – se observarmos com atenção, e se formos honestos o bastante, veremos que alguns espinhos de outrora continuaram cravados no mesmíssimo lugar, relutando para não sair da carne. A disposição quanto a como os tratamos pode (e deve) mudar. Mas eles, seja lá representação do que forem, continuam lá, resistentes, mesmo que escondidos ou sublimados. A transformação que a fé em Cristo e sua graça produzem não nos faz ex-pecadores, mas pecadores redimidos da inelutável (humanamente falando) escravidão do pecado.

Percebo que, de um jeito ou de outro, continuamos sendo tortos. Ainda cometemos os mesmos erros tão reprovados, ainda nutrimos a mesma espécie de mal tão detestado, e esporadicamente ainda somos tentados – nos rendendo à tentação às vezes – pelos mesmos vícios que por tanto tempo nos assombraram e que a gente achava que, com o tempo e seus tratamentos, desapareceriam. Fracasso? Desalento? Falta de fé ou de perseverança? Não necessariamente. Injetar doses de realismo na fé não significa torná-la menos fé, mas fazer dela uma fé mais honesta e humana. Então, volto a aquiescer com a tese em questão: as pessoas (realmente) não mudam... Mas, até que ponto?

(Continua...)
Jonathan

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Arruinado, ferido e ainda assim, íntegro (IV)

4. Compaixão: livrai-os de “consoladores molestos”

O que se viu até aqui em relação aos “amigos” longe está de ser uma postura de compaixão, uma vez que, de acordo com Henri Nouwen, quando nos compadecemos não nos escandalizamos com as lágrimas e o lamento do outro, não temos medo de sua dor, muito menos ocupamos uma posição de superioridade. Antes, estar com o outro implica em que nos tornemos vulneráveis, já que amar é ficar vulnerável, parafraseando C. S. Lewis. “Só estamos com o outro quando o outro deixa de ser ‘outro’ para se tornar como nós” (1).

Dessa forma, não me parece gratuita e nem sem sentido a revolta de Jó contra seus amigos, chamando-os de “consoladores molestos”, e outra vez argumentando contra a sua falta de percepção do “lugar” em que eles ocupam em comparação ao seu. É difícil se colocar no lugar do outro. Nunca poderemos ocupar devidamente esse lugar. Contudo, devemos estar conscientes pelo menos do lugar que ocupamos, e falar com honestidade a partir desse lugar, sabendo que este guarda consideráveis diferenças em relação ao lugar do outro. Nesse sentido, as palavras de Jó dão o tom de sua aversão ao “consolo” ora ofertado:

Eu também poderia falar como vós falais; se a vossa alma estivesse em lugar da minha, eu poderia dirigir-vos um montão de palavras e menear contra vós outros a minha cabeça; poderia fortalecer-vos com as minhas palavras e a compaixão dos meus lábios abrandaria a vossa dor. Se eu falar, a minha dor não cessa; se me calar, qual é o meu alívio? (16.4-6).

Sabemos do desfecho da história de Jó; não quero aqui enfatizar o desfecho, e sim o meio dessa poderosa história. Exatamente no meio dela, vemos Jó vivendo um paradoxo em pessoa (como paradoxal é a sua situação): sendo justo, sofre sem enxergar a razão de ser para tudo aquilo; tem amigos ao seu lado, mas que não conseguem demonstrar compaixão e amizade verdadeiras; teme e ama a seu Deus, porém injuria-se contra Ele por não obter as respostas que procura. Acima de tudo, em sua santa ignorância, continua defendendo seu procedimento de franqueza com Deus, não obstante sua evidente falta de esperança (13.15).

Jó não se rende a explicações simplistas, nem aos jogos de barganha de seus amigos. Ele leva o Senhor a sério demais para aceitar se relacionar dessa forma. Ao mesmo tempo em que se vê justo, não deixa de reconhecer a sua miséria. Exatamente porque crê que seu redentor vive, não se furta em expor sua queixa e descontentamento perante Ele. Jó foi honesto com Deus e com seus sentimentos e pensamentos humanos!

E nem havia porquê ser diferente. Deus é Deus, e não será menos Deus por causa de nossas dúvidas, injúrias, questionamentos ou lamentos. Até porque, lamento não é (necessariamente) pecado ou blasfêmia. Ademais, creio que Ele é suficientemente capaz de lidar com a nossa revolta e de compreender nossas fraquezas. Ele não precisa do trabalho de guarda-costas dos amigos de Jó, nem sua ação se traduz na imaculada “teologia moral de causa-efeito”. Deus foi gracioso e amoroso o bastante para receber as queixas de seu filho Jó e dar a elas o tratamento adequado a seu devido tempo, sem precisar de outras pessoas fazendo o “trabalho de Deus” e nem torturar Jó numa inquisição sem fim porque ele demorou tanto para entender os propósitos divinos.

A compaixão é a antítese do dispensável trabalho dos “consoladores molestos” e um passo adiante para uma vida íntegra e honesta com Deus, consigo mesmo e com os outros.

Podemos ser compassivos: sofrendo junto, não fazendo tribunal com o desespero de quem sofre e reclama por sofrer; respeitando seus processos; ouvindo, não julgando, ficando vulnerável, valorizando a honestidade, oferecendo um espaço aberto de acolhimento às queixas do outro, não importa como elas se apresentem; não estranhando nem se escandalizando com aquilo que é humano; considerando a complexidade da situação, ao invés de se render a respostas simplistas; falar apenas o que o bom senso mostrar ser necessário e cabível; calar-se, às vezes a maior parte do tempo, entendendo que estar presente é o mais importante. Em nossa presença, Deus se faz presente para o outro.

Notas

1 - NOUWEN, Henri. Mosaicos do presente. São Paulo: Paulinas, 1998, p. 101.

Jonathan

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Arruinado, ferido e ainda assim, íntegro (III)

3. O que é complexo não pode ser tão simples

No pensamento de quem está seguro, há desprezo para o infortúnio, um empurrão para aquele cujos pés já vacilam (Jó 12.5).

Há quase vinte anos, o já falecido escritor holandês Henri Nouwen, autor de vários livros sobre espiritualidade, muitos deles retratando o sofrimento humano e, mais particularmente, a si mesmo como um homem experimentado no sofrimento, defendeu uma idéia, que aparece em alguns de seus livros, de que em nosso mundo a alegria e a tristeza são vistas como duas realidades em oposição. “De fato”, afirma ele, “a sociedade contemporânea faz todo o possível para separar a tristeza e a alegria”. Por esta razão, conclui, “a tristeza e a dor devem ser evitadas a todo custo, porque são o oposto da alegria e do contentamento que desejamos” (1).

Cada vez que observo o comportamento humano (incluso a mim mesmo) frente ao sofrimento, mais me convenço do quanto Nouwen estava duplamente certo. Primeiro, em afirmar que nossas experiências pessoais com a dor tendem a nos distanciar da admissão de uma (possível) coexistência com experiências de contentamento rejeitando, assim, o caminho do aprendizado da integridade cristã, como vemos em Paulo: “Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação” (Fp 4.11). Segundo, ao defender que a alegria divina não elimina o divino pesar, e de que em Cristo vemos o homem de todas as dores e, ao mesmo tempo, da total alegria. Embora esta possa parecer uma perspectiva por demais idealizada e, de certo modo, distante da realidade não só do que desejamos em termos de “vida feliz”, como do tipo de vida que cremos sermos capaz de sustentar, ainda assim me parece a mais coerente com o caminho de Jesus, que está em evidente contraste com a visão mundana – e paradoxalmente, até com a visão cristã (parte dela).

Mesmo se tratando de um objeto de alta complexidade, a visão religiosa tende a sublimar as experiências de sofrimento ao apresentar respostas para aquilo que nem mesmo Deus quis dar maiores explicações – pelo menos não de modo tão simplista – e ofertando alívios esporádicos, genéricos e ineficazes à dor. No meio disso tudo, Deus se torna moeda de barganha e solução para todos os males, desde que se tome corretamente o caminho da cura mais próximo de você. Vejamos um exemplo disso outra vez em um diálogo entre e Jó e seus “amigos”.

Assumindo que o problema de Jó advinha da iniqüidade que ele recusava a admitir que havia cometido, Zofar oferece a seguinte solução, quase como uma formula mágica de cura e esquecimento do sofrimento:

Se dispuseres o coração e estenderes as mãos para Deus; se lançares para longe a iniqüidade da tua mão e não permitires habitar na tua tenda a injustiça, então, levantarás o rosto sem mácula, estarás seguro e não temerás. Pois te esquecerás dos teus sofrimentos e deles só terá lembrança como as águas que passaram (11.13-16).

Em sua defesa, nosso anti-herói, Jó, tenta demonstrar como as palavras de quem se encontra em lugar seguro podem ser repetições vãs e vazias de sentido, insensíveis, ausentes de solidariedade e desonestas para com quem vivencia na pele a condição retratada:

Como vós o sabeis, também eu o sei; não vos sou inferior. Mas falarei ao Todo-Poderoso, e quero defender-me perante Deus. Vós, porém, besuntais a verdade com mentiras e vós todos sois médicos que não valem nada. Tomara vos calásseis de todo, que isso seria a vossa sabedoria (...) As vossas máximas são como provérbios de cinza, os vossos baluartes, baluartes de barro (13, 4-5, 12).

Na teologia dos amigos de Jó não há lugar para o paradoxo. Segundo suas formulações, tudo na vida praticamente ocorre segundo a lógica de causa-efeito (2); se está sofrendo, certamente é porque pecou; se o mal dura mais que o suportável e aceitável, na certa é provação divina, ou é porque a sua fé em Deus deve estar naufragando e você tem orado e jejuado pouco, só pode ser; se deseja fazer passar a dor que não cessa, deve buscar a Deus com todo fervor, abandonar o caminho de pecado, e logo tudo estará resolvido. Para piorar, Elifaz ainda acusa Jó de fazer pouco caso das “consolações de Deus” (de Deus, ora essa!) e das “suaves palavras” a ele dirigidas (15.11). Percebe-se que os amigos estavam ali como emissários do Altíssimo para consolar Jó, ocupando, assim, um grau mais elevado que ele numa dada escala da humanidade – daí tantas vezes Jó insistir em não ser em nada “inferior” a eles.

Notas
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1 NOUWEN, Henri. Mosaicos do presente. São Paulo: Paulinas, 1998, p. 33.
2 Caio Fábio batizou a teologia dos amigos de Jó de "teologia moral de causa-efeito". Para maiores esclarecimentos e aprofundamento, ver: FÁBIO, Caio. O enigma da graça. São Paulo: Fonte Editorial, 2002.
-
(Continua...)

Jonathan

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Arruinado, ferido e ainda assim, íntegro (II)

2. No hospital entre o Pronto Socorro e a UTI

Um dos lugares em que mais escancaramos nossa inadequação e escândalo diante da dor humana é o hospital. Pense em uma UTI e em um Pronto-Socorro. Que é difícil se ver confortável estando em um hospital, isto é fato. Mas numa UTI, como o nome mesmo diz, o paciente está em terapia intensiva, muitas vezes sedado, e vive um sofrimento mudo. A UTI é um dos últimos estágios, o próximo possivelmente será o óbito. Mas o paciente pouco tem a chance de externar seu sofrimento. Já o pronto socorro é o local onde ouvimos os berros, murmúrios e agonias dos pacientes que geralmente estão vivendo o mais alto nível de adrenalina da dor. Se for um paciente do SUS (Sistema Único de Saúde), esse estado geralmente se prolonga, pois grande é a demanda e precárias as condições de atendimento.

Pode parecer esquisito o que vou dizer, mas tenho a impressão de que tendemos a nos sentir mais confortáveis com a calmaria e o sofrer silente da UTI que com a gritaria e as feridas expostas do pronto socorro. No primeiro caso, o paciente pode estar muito mais próximo da morte e lentamente caminhando para ela, mas o silêncio traz consigo a sensação de estabilidade. No segundo caso, pode-se nem falar em morte, mas o controle da dor é menos intenso, e o resultado pode ser o sofrimento exposto, nu e cruamente. As feridas e a lamuria de Jó desvelaram seu pior lado no entender de seus amigos, o lado de quem passa a depreciar o dia de seu nascimento, desejar a morte e a questionar e contender contra o próprio Deus.

Jó estava em pleno pronto socorro de sua saúde física, emocional e espiritual, e aquilo incomodara profundamente seus amigos. “Vedes os meus males, e vos espantais”, o afirmou ao contemplar o visível escândalo de seus amigos. Como um justo, temente a Deus, pode chegar a uma situação como a de Jó? Se ele de fato era justo, a única saída não seria exclamar: “Isso é um absurdo!”, visto que “absurdo” seria o contexto em questão? Contudo, outra saída encontraram os amigos da onça: a de não admitir que um crente “verdadeiro” e inocente possa ter chegado a um pronto socorro. O sofrimento de Jó era efeito de uma causa única: o seu pecado. Eis o veredito de Elifaz: “Lembra-te: acaso já pereceu algum inocente? E onde foram os retos destruídos? Segundo eu tenho visto, os que lavram a iniqüidade e semeiam o mal, isso mesmo eles segam” (4.7-8).

Se a fé de Jó estava no pronto socorro, onde (de fato) estaria a de seus amigos? Bem longe do pronto socorro, certamente, pois nunca admitiriam ali estar – a fé do verdadeiro crente deve estar sempre vibrante e triunfante, não é assim? Se eles estivessem ali, padecendo junto, jamais repreenderiam as palavras desesperadas de Jó. Como ele mesmo indagou: “Acaso, pensais em reprovar as minhas palavras, ditas por um desesperado ao vento?” (7.26).

Em suma: a teologia dos amigos de Jó racionaliza tudo, até mesmo o clamor do desespero. Mas a teologia da vida ignora raciocínios e parcas compreensões na hora da dor, uma vez que se recusa a exprimir o inexprimível, ou tentar expelir um câncer com analgésicos. A teologia dos amigos de Jó, por sua vez, é capaz de reprovar a fé de quem se encontra no pronto-socorro enquanto a fé deles (religiosos de carteirinha) faz morada permanente na UTI. A teologia da vida deve nos fazer abraçar a dor, mesmo que ela não seja a nossa, e a não querer realizar tribunal em meio ao desespero humano. O desabafo requer acolhimento, sem maiores explicações.

(Continua...)

Jonathan

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Arruinado, ferido e ainda assim, íntegro (I)

1. Sorte ou azar? Quem sabe...

Resolvi iniciar mais um ano relendo o Livro de Jó, personagem dos mais humanos e fascinantes da Bíblia. “Mas justo Jó! Não dá azar ler Jó logo no início do ano?”, diriam os “crentes” mais supersticiosos – por mais caricato que pareça, há quem pense assim, afinal, como diria Gonzaguinha, “ninguém quer a morte, só saúde e sorte”.

Sorte e azar são coisas que acompanham nossos discursos sobre a vida. Há quem se renda de modo literal ao poder deles. Eu, porém, creio que minha sorte está em poder aprender com todas as circunstâncias de vida, sobretudo com as adversas, e que a adversidade não precisa ser sinal de “azar”, mas sim de que estamos vivos e somos humanos – contingentes, e não necessários. Como na música da Legião Urbana, “o sol nasce pra todos, só não sabe quem não quer”, ou só não sabe quem está alienado demais pra saber.

Quero aqui destacar um dos temas que perpassam a jornada de Jó, a integridade. Há quem use o termo como sinônimo de honestidade. A palavra, porém, indica algo maior. “Integridade” é predicado do que é inteiro, completo, indissociável. Uma das marcas da pessoa íntegra está na indissociabilidade entre suas palavras e suas ações, entre o discurso e a vida. Nesse sentido, não é preciso ser “bonzinho” para ser íntegro. Aquele que é injusto, perante certa sociabilidade, pode ser mais íntegro até mesmo que o suposto justo.

Um exemplo está em Jesus ter escolhido publicanos, prostitutas e samaritanos, injustos e indignos como exemplos maiores de integridade (“pérolas do reino”) que os justos de sua época (religiosos). Isto, pois eles são o que são, sem fingimento e “sem cera”; e na condicionalidade do que são é que dependem da graça e compaixão divinas. Já os religiosos, querem demonstrar ser o que não são, e na condicionalidade do que não são, mas afirmam ser, não apenas anulam sua dependência de Deus, como colocam fardos pesados sobre os ombros dos outros, fardos que nem eles carregam, denotando sua hipocrisia (falta de integridade).

O íntegro (ou que persegue a integridade), porém, sabe muito bem quem é e não teme assumir o que é diante de Deus e dos homens. É o caso de Jó. Mesmo arruinado e profundamente ferido, conseguiu se manter mais íntegro que seus “mui amigos”, Elifaz, Bildade e Zofar. No início, ao se deparar com a dor do amigo, até fizeram o que é certo, choraram juntos, mantendo-se em silêncio. Diante da dor... o silêncio! Mas quando Jó abre a boca e começa a escancarar seu coração e a lutar com Deus, tudo muda de figura, os amigos se escandalizam – e eu que sempre achei que amigos não se escandalizam quando a gente se expõe. Como disse o próprio Jó a seus amigos, “ao aflito deve o amigo mostrar compaixão, a menos que tenha abandonado o temor do Todo-Poderoso” (6.14). Por isso, nem todo o que se diz “amigo”...

(Continua...)
Jonathan

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Grávidos de Deus

Nascimento: um dos acontecimentos mais mágicos e emocionantes da natureza. O nascer do sol, dos rios, das flores, da vida humana... Não sei (mas espero logo saber) se existe anseio mais gostoso que o dos pais de uma criança quanto ao seu nascimento. O nascimento é algo natural, mas é também um milagre, o milagre da vida, o milagre do natal.

Todavia, em nosso anseio (moderno) por naturalizar tudo – uma vez que “naturalizar a existência é um dos grandes desafios do homem moderno” (Gabriel Giannattasio) – temos naturalizado (banalizado, comercializado, fashionizado) o maior nascimento de todos: o advento, a vida do menino-Deus.

Por tudo o que envolveu o advento, ele foi o acontecimento mais extraordinário que já existiu.

Primeiro, porque nada nele seguiu o curso “natural” das coisas. Jesus nasce de uma virgem (Maria), noiva de José (o carpinteiro), numa estrebaria pobre na cidade de Belém. Uma história repleta de impossibilidades humanas feitas possibilidades divinas. Deus escolhe nascer do ventre de uma bem-aventurada aos seus olhos, mas desventurada (socialmente) para os seus (quem imaginaria?). José, contrariando os temores de Maria, e a atitude “normal” de qualquer judeu naquela circunstância, adota o bebê como seu filho, após ter sido convencido pelo anjo (pelo anjo!) de que Maria estava grávida do Espírito. Personagens anormais, para uma história anormal. Afinal, eles estavam grávidos de Deus! Tinham eles consciência da dimensão disso?

Segundo, porque o advento representa Deus se fazendo gente, tomando a forma humana, “arregaçando as mangas” e entrando na bagunça da história. O advento é uma das expressões mais sublimes de que Deus nos entende, e de que Ele nos ama. O menino-Deus é Deus conosco! Encarnou a fragilidade, a dor, e a miséria da condição humana, desde a inglória manjedoura até a insuportável cruz, expondo sua total vulnerabilidade para que, através de sua morte, encontrássemos vida.

Mas que vida é essa que encontramos? Em mensagens de fim de ano é comum se escutar pessoas dizendo que precisamos relembrar o verdadeiro significado do natal: Cristo nasceu e ele precisa continuar a nascer em nosso coração. Para que isso não continue sendo apenas um clichê de fim de ano, precisamos entender que esse nascimento não foi um acidente, nem pode ser naturalizado, mas é fruto do poder do amor do “Deus que intervém” (Schaeffer).

Ademais, de fato, o nascimento de Deus para a história não tem sentido (para além da naturalização e culturalidade) se ele não nascer em mim. E para que ele nasça em mim e em você é preciso que deixemos o Espírito realizar o milagre do natal, nos engravidando de Jesus. Não há força de vontade, nem bons pensamentos ou boas obras que possam gerar Deus em nós, e fazer da nossa vida uma vida cheia de Deus; quem faz isso é o Espírito, por obra e graça Dele mesmo.

Jesus nascendo em mim implica em eu nascendo para uma vida nova, vida repleta de amor, justiça, paz e esperança; vida que gera vida; vida que inspira a vida; vida que move outras vidas a viver conforme o viver de Deus em Cristo. Esse é o milagre do natal; não somente a notícia de que Deus está presente, mas do que vem a reboque: pessoas cheias, “grávidas de Deus”, ávidas por “engravidar” umas as outras com o amor, a compaixão, a solidariedade e os sonhos que brotam do trono da graça Daquele que sempre foi o mais fascinado e apaixonado pela história humana.

Que neste natal o Espírito te engravide de Cristo, para que a vida de Deus nasça em você e nasça em quem mais estiver ao seu redor.

Jonathan

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Carta à minha aluna, Elisabete

Querida Bete,

Quero começar dizendo que para mim tem sido um presente divino tê-la como aluna e companheira de jornada durante esse ano que se finda. Desde o primeiro dia de aula, no início do semestre passado, na disciplina de Metodologia da Pesquisa, pensei em quão desafiador seria ter uma deficiente visual em minha classe. Afinal, era um fato inédito em minha, relativamente recente, vida de professor. Será que eu estou preparado para esta situação? Como vou me adaptar ao seu contexto e necessidades? Como posso ensinar? Mas logo percebi que essas eram perguntas inúteis, sob certo ponto de vista. Porque, no início, eu é que não enxergava...

Não enxergava que, na verdade, poucas vezes estamos preparados para a vida; a vida é quem frequentemente nos prepara para ela mesma, através das muitas oportunidades que cruzam nosso caminho. E foi assim que passei a entender a sua presença, depois de certo tempo, sempre marcante, em duas de minhas classes neste ano: como uma oportunidade de crescimento para todo mundo, embora tome isso para mim, de modo especial.

Quando percebi em você a garra e a alegria de viver de quem vai à luta, apesar das muitas dificuldades, vi que não havia tanto com o que me preocupar quanto ao meu papel como professor, que é sempre limitado. Minha preocupação passou a ser: como posso aprender com a Bete, sua história e exemplo de vida? E você me ensinou muitas coisas ao longo desse ano, pode ter certeza. Até porque, aprendizado não se dá com conceitos, idéias e informações acumuladas na mente, mas, sobretudo, através de experiências vivenciadas que guardamos no coração (no centro de nosso ser). Logo, parafraseando Beto Guedes, experimentamos o aprendizado como lembrança de uma lição que até podíamos saber de cor, mas que ainda restava aprender.

Assim, aprendi que a cegueira física não é uma deficiência maior que a cegueira espiritual e ética de tantas pessoas – incluindo a mim mesmo, em certos momentos. Pelo contrário, ela permite que se enxergue mais que os outros em tantas coisas, sobretudo quando se busca forças em Deus e na superação de si mesmo; e quando se entende, como Paulo, que a sua Graça nos basta e que o poder se aperfeiçoa na fraqueza; e você tem feito isso, e me inspirado a também fazer, com as minhas deficiências (todos as temos). Ensinou-me a ser perseverante, a não reclamar da vida, a lutar pelo que sonho, a caminhar com os mais simples e aprender da sabedoria divina neles escondida, a acreditar na vida e, mais do que isso, a continuar a acreditar que Deus existe e que Ele anda ao nosso lado, nos guiando em nossos belos, às vezes tortuosos e difíceis, mas encantáveis caminhos. Obrigado por tudo até aqui, querida irmã!

Um abraço fraterno!
Jonathan

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Um canto de vitória e esperança (II)

O que nos motiva e nos move a continuar cantando?

Assim como nós, o apóstolo Paulo também faz perguntas: Que diremos diante destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Não nos dará Deus, de graça, todas as coisas? Quem nos fará acusação?Quem nos condenará? Quem nos separará do amor de Cristo? (Rm 8.31-39).

Por trás de cada uma dessas perguntas, há uma afirmação: de que Deus está ao redor e no interior da vida, provendo, cuidando, libertando, agindo soberanamente, sendo Deus! Em Jesus Ele nos deu a maior prova de amor de todas, não poupando seu próprio Filho. E, em outras palavras, o que Paulo está dizendo aqui é que nada do que diz respeito a este mundo e a esta vida pode eliminar ou nos privar dos efeitos deste ato de amor de Deus!

Embora a declaração de que somos mais que vencedores tenha se tornado um clichê usado pelos dois primeiros grupos, a) os do canto triunfalista, e b) os do canto de negação, ela está mais associada com os do terceiro grupo, c) da afirmação e aceitação jubilosa.

Será que Paulo está aqui negando que existem condenação ou separação? Ou que tribulação, fome, nudez, perigo, espada, perseguição, angústia e morte têm poder sobre nós? No meu entendimento, não! Porque, se esse é o canto de Cristo, é o canto daquele que venceu a morte, porque antes passou por ela; é o canto daquele que nos deu a esperança da ressurreição e da vitória, mas não rejeitou o caminho da cruz e do fracasso. Ou seja, nós podemos ou vamos passar, ou já temos passado por isso tudo (vide o v. 36, em que se diz: "Por amor de ti enfrentamos a morte todos os dias; somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro").

O que nos move ou motiva a continuar cantando ao passar, é que nenhuma delas tem poder suficiente para nos apartar do amor de Cristo! Nenhuma! Nada! Assim...

O cântico do amor é o que aumenta nossa fé e nos dá esperança!

Sempre acreditei, contra todas as falsas expectativas e os falsos sentimentos, que o AMOR é a mais sublime e necessária de todas as virtudes, marca da imagem de Deus em nós...

Não porque seja um sentimento, mas porque é e se traduz em ação! Ação que nunca julga se é justo ou injusto pagar, com a própria vida se preciso for, para que outros vivam. Por isso o amor é permeado pela dor e a incompreensão. Que razão, por mais inteligente que seja, consegue compreender o amor?

Jesus foi essa pessoa... Permeado de incompreensão, de dor, de amor – e por isso da maior alegria! A alegria que nada pode arrancar, pois não depende das circunstâncias. Por seu exemplo podemos hoje dizer, crer, esperançar: a morte não é o fim, é o começo! Nada pode nem poderá nos separar do seu amor!

Jonathan

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Um canto de vitória e esperança (I)

Como entoar um cântico de vitória e esperança em meio às adversidades?

É fácil cantar cânticos de vitória quando se é vitorioso; de alegria, quando se está alegre, e de esperança, quando as coisas que esperávamos acontecer, aconteceram. Só que o mais louco e contraditório da vida cristã, vida na fé, é que por tantas vezes, e pelas mais variadas razões, somos incentivados a cantar, apesar das circunstâncias. Mas, como podemos ser honestos com a vida, com as pessoas, com Deus e com nossos próprios sentimentos diante das perdas, e ainda assim, cantar?

Temos conhecido algumas formas de se fazer isso no cristianismo atual:

(1) Uma delas, diz respeito a “cantar vitória”, porque assim fazendo, “chamamos” a vitória para o nosso lado. Esse é o canto triunfalista. Talvez um dos mais populares hoje em dia...

(2) Outra, é o que podemos chamar de canto de negação. É o canto que nega a realidade, pois nos afasta dela. É o canto que nos dá doses de ilusão, de que tudo está sob controle e vai ficar bem, mesmo que nada esteja bem e, por certo tempo, nem vá ficar bem...

(3) O terceiro canto é o canto de afirmação e aceitação jubilosa. Aqui, reconhece-se a realidade, lamenta-se por ela, contudo, a realidade, por mais dura que possa ser, não pode paralisar o canto. Porque o canto, não nega nem está apartado da realidade...

A terceira forma de ser e cantar é a que mais me parece condizer com os muitos exemplos das Escrituras. E aqui quero ilustrar com dois poetas. Ninguém melhor do que eles para nos falar nessas horas... Eugene Peterson disse que os poetas são “pastores de palavras”, pois eles lidam com respeito e reverência tanto as palavras, quanto a realidade que elas representam.

1º exemplo: o rei-poeta Davi. É um daqueles que nos lembra a integridade que devemos ter. Nossos cânticos devem ser expressão do que vivemos. Davi cantava o que vivia.

Como a corça anseia por águas correntes, a minha alma anseia por ti, ó Deus. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo. Quando poderei entrar para apresentar-me a Deus? Minhas lágrimas têm sido o meu alimento de dia e de noite, pois me perguntam o tempo todo: "Onde está o seu Deus?". Quando me lembro destas coisas choro angustiado. Pois eu costumava ir com a multidão, conduzindo a procissão à casa de Deus, com cantos de alegria e de ação de graças entre a multidão que festejava. Por que você está assim tão triste, ó minha alma? Por que está assim tão perturbada dentro de mim? Ponha a sua esperança em Deus! Pois ainda o louvarei; ele é o meu Salvador e o meu Deus (Salmo 42.1-6).

2º exemplo: o profeta-poeta Habacuque. A situação do profeta e do povo era de escuridão. Mas seu canto é uma das mais bonitas expressões de afirmação e aceitação jubilosa.

Mesmo não florescendo a figueira, e não havendo uvas nas videiras, mesmo falhando a safra de azeitonas, não havendo produção de alimento nas lavouras, nem ovelhas no curral nem bois nos estábulos, ainda assim eu exultarei no SENHOR e me alegrarei no Deus da minha salvação. O SENHOR, o Soberano, é a minha força; ele faz os meus pés como os do cervo; faz-me andar em lugares altos (Habacuque 3.17-19).

Sinto que nós precisamos de um canto de afirmação: da vida, apesar da morte; da esperança, apesar do desmoronamento de expectativas; de alegria, em meio a tristezas; de vitória, não obstante as perdas.

(Continua...)

Jonathan