terça-feira, 2 de junho de 2009

Carta à minha comunidade

Queridos irmãos e irmãs,

Tem sido muito gratificante participar desse processo de "desenho" de nossa caminhada para adiante, que não é a mera nomeação e/ou criação de coisas como entretenimento, mas uma oportunidade real de dar "uma cara" para uma comunidade que é nova e que vem aprendendo, às duras penas talvez, mas com maturidade até aqui, com os erros do passado e algumas repetições deles no presente, bem como com os muitos (e superiores aos erros) acertos que temos tido, pela graça do Pai. É bonito ver que Deus tem nos moldado a cada dia de um modo muito peculiar, e nos incomodado a descobrir nosso papel como igreja no lugar em que Ele mesmo nos colocou, sem necessidade de comparações ou "inveja" de outros modelos.

Como uma comunidade pequena, ou uma "família", como temos dito, é muito mais comum a vivência calorosa de crises, problemas e demandas e de uma forma muito próxima, como vive mesmo uma família. Estamos muito mais sujeitos a ter de lidar com ciúmes, desentendimentos, chateações e mágoas que uma "mega-igreja", por exemplo, que já possui toda uma estrutura de funcionamento capaz de manter muitas pessoas à distância dos "problemas" que ocorrem nos bastidores, que, sabemos, todas elas têm. Nossa diferença é que não podemos esconder coisas nos bastidores, pois os bastidores são vividos por quase todos e cada um de nós explicitamente. Não vejo isso como demérito, mas como oportunidade de crescimento.

Respeito e até entendo aquelas pessoas que preferem o conforto morno e descomprometido de uma comunidade que te oferece tudo, ou às vezes do compromisso com algo já bem estruturado e organizado. Deus fala e age por meio deles também, eu creio. Mas se sempre me for dada a possibilidade de escolha, preferirei os calorosos braços da comunidade pequena e tudo o que a vida nela implica, pois sei que o ônus pode ser maior, mas o crescimento também o é, e as alegrias que certamente experimentamos por partilhar de um jeito peculiar de ser humano e de ser igreja, de um modo tão abençoadamente entrelaçado que nos envolve e nos convoca ao comprometimento, também o são.

Quero dizer que nossa comunidade não é e nem será o melhor lugar do mundo para estar por sua possível super-estrutura ou a proteção que pode nos ofertar dos "males" de ser-no-mundo, mas por ser uma realidade reveladora do que é o ser-no-mundo e o ser-em-Cristo, e uma grande porta para nos tornarmos, dia a pós dia, pessoas melhores, servos mais compassivos, mais sábios e abençoadores, mesmo através dos erros. As pessoas "lá fora" NÃO ESTÃO em busca de "supercrentes" como modelo (aliás, elas estão fartas deles), mas de "gente como a gente", cuja aproximação de Cristo nos faz ainda mais gente, porém uma gente redimida, mas inacabada e, por isso, em busca da plenitude.

A vida em família pode ser tão fascinante quanto é assustadora. E talvez o fascínio resida exatamente no fato de para onde corrermos lá estaremos, não há como fugir. Assim, por que não encarar, com honestidade, humildade, amor, temor e tremor? Tenho orgulho de fazer parte da Igreja do Caminho, e continuarei tendo, mesmo que Deus me conduza por outros "caminhos", longe dela, algum dia... é muito bom e gratificante ser parte daquilo em que claramente se vê a mão graciosa e amorosa do Pai!

Jonathan

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Sexo é bom demais (II)

Deve-se enfatizar que o sexo, portanto, não é pecado em si. Pecados sexuais não são nem menos e nem mais pecados que os demais. C. S. Lewis disse que transformamos a sexualidade no centro da moralidade cristã. Mas, se o centro está em alguma coisa, esse centro para ele está no orgulho (o“grande pecado”, e mais perfeito estado da alma anti-Deus). É preciso ainda diferenciar cultura de revelação. A revelação é coisa divina. A cultura é coisa humana. É coisa divina também, mas porque Deus fez o ser humano à sua imagem. Contudo, há na cultura as marcas do pecado. Logo, tendemos a fazer uma confusão. Porque a revelação não se dá de modo independente da cultura, tendemos a não conseguir separar o que é revelação do que é cultura.

Assim, é preciso conhecer bem a revelação pra poder diferenciar o que são pecados sexuais, e pecados sexuais atribuídos pela cultura. Nem sempre os absolutos da igreja são absolutos de Deus. Aliás, não somos nós que alcançamos o absoluto, é ele quem nos alcança, de modo que nossa visão é sempre uma apreensão parcial do absoluto, mas nunca o absoluto em si. Precisamos levar em consideração a multiplicidade de fatores que envolver o ser humano, para analisar o sexo não da forma míope e legalista com que a igreja tem feito hoje, e sim sob múltiplos pontos de vista.

Buscamos o conhecimento como redenção, paz perpétua, e não como conflito. Por isso, caímos nos risco de dizer “sexo é...”; “isso não é...”; “isso é pecado, é absoluto”. Assim, para nós é 8 ou 80; se uma coisa é A, não pode ser B; se é B; não pode ser C. Ao passo que se consideramos o paradoxo da existência humana, deveríamos dilatar essa perspectiva e perceber que A pode ser B sim, como pode ser C, como pode haver uma fusão A_B_C.

Não podemos ser cínicos ao ponto de ficar dizendo “sexo é bom”, do nosso confortável mundo matrimonial, e olhar para os jovens e dizer “mas você não pode, viu”. É como colocar um pote de sorvete com tudo o que tem direito na frente de uma criança, dizer “hum, está muito gostoso”, para em seguida afirmar: “ah, mas você não pode, porque vai te dar gripe”. É torturante, desonesto e uma negação da vida.

Termino com uma frase de Sören Kierkegaard, escrita em 1844, em O Conceito de Angústia:
"Todo o problema da importância da sexualidade nos mais diversos domínios tem sido, até o presente, insuficientemente tratado e, sobretudo, raras vezes no tom justo. Produzir gracejos a este respeito não passa de uma arte bem miserável; fazer de censor, é demasiado fácil; extrair daqui sermões, passando por cima da dificuldade, não é menos doentio; mas falar sobre o problema de maneira verdadeiramente humana, eis o que constitui toda uma arte".
Jonathan

Sexo é bom demais (I)

Fui convidado pelo grupo de jovens de minha comunidade para ser um dos interlocutores de uma discussão sobre esse tema: "Sexo é bom". Gostei do convite, da participação, e especialmente da premissa de afirmação que está explícita no tema escolhido: "é bom". Isso, pois durante muito tempo o demiurgo (deus menor) de Platão continuou a ser afirmado por nós, cristãos, todas as vezes que relegamos o corpo, a matéria, a um plano de inferioridade em relação à alma, ao mundo ideal, perfeito, à santidade, e assim por diante.

Nossa idéia de perfeição cristã esteve e, em muitos casos, ainda está associada com uma vida "fora" ou de negação do corpo e do mundo. Daí, começar uma discussão sobre sexo afirmando sua qualidade de bondade e benção, não somente é um empreendimento ousado como mais do que necessário à igreja, que em pleno século XXI ainda se vê às voltas com casos como o da proibição de camisinhas pelo Papa, excomunhão, repressão e outros processos de de-formação ainda vigentes, isso, paradoxalmente, em meio a um mundo cada vez mais "cabeça aberta" para uma série de questões e pluralístico. Eis algumas de minhas contribuições ao debate:

Deus nos fez seres corpóreos. O corpo é parte da criação que Deus disse ser “boa”. Dizer que o corpo é ruim, inferior à alma, mau, é coisa platônica. “O cristianismo é um platonismo para o povo” (F. Nietzsche). Deus nos criou igualmente corpos sexuados. A sexualidade não é um fruto da queda, é parte do plano original de Deus (Gn 2.24-25). Se o corpo e o sexo são bons, isso significa que o prazer também é bom. Gozar é de Deus! Mas com a queda, as coisas que originalmente eram boas foram corrompidas pelo pecado. Não a coisa em si, mas o uso que dela se faz. A lei de Deus, por sua vez, veio para coibir o “mau uso” da coisa em si. Mas o pecado também fez com que fizéssemos um “mau uso” da lei, que deveria servir à vida, mas acabou militando contra ela.

Logo, o que era para coibir o mau uso, acabou coibindo a coisa em si, pelo fato de não conseguirmos, por nós mesmos, vencer o mau uso (Rm 7). O pecado (outro ser que em nós habita), desse modo, provou-se mais forte que a própria lei. Assim, Deus se fez lei em nosso lugar (Cristo) e carregou nosso fardo. Passamos, assim, a viver pela graça. A graça não é a negação e nem o fim do pecado, é a redenção do pecador – “A minha graça te basta”! Assim, a graça é essa dádiva de Deus, única capaz de conduzir-nos de novo ao bom uso daquilo que ele declarou bom – o sexo.

(continua no outro post).

Jonathan

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Sobre teologia e a arte de nomear as coisas (III)

De que maneira relaciono essa reflexão sobre “dar nome às coisas” à teologia? Para finalizar essa série e responder a tal questão quero aqui me valer da discussão feita por Jacques Ellul em seu livro A palavra humilhada. Certa vez, ouvi de um professor o seguinte: “Para tudo o que é, a linguagem cala”. E logo me lembrei da passagem bíblica em que Moisés pede uma alcunha para Deus, como se dissesse: “Esse povo aí irá me perguntar a Quem estou dizendo para eles seguirem; embora eu tenha dito que é ‘o Deus de vossos pais’, eles vão querer um nome; então que nome eu dou pra você, quem é você afinal?”. E a resposta do Senhor foi emblemática: “EU SOU O QUE SOU”. E para tudo que é... Se a discussão é sobre se ele é verdadeiro ou não, a resposta é: “EU SOU”. Pronto. Contente-se com isso, Moisés, com a impossibilidade de expressar a verdade por meio da sua linguagem. Como diz Ellul, “se a verdade é a verdade acima de nossas apreensões e estimativas, ela é. Ponto final. Permanece, forçosamente, ela mesma”. Logo, completa ele, “a verdade nada mais é do que o absoluto ou o eterno, e de cujas margens não somos sequer capazes de nos aproximar”.[1]

Certo então, a linguagem se cala diante da verdade, pois dizer a verdade compreensivamente (em tudo o que ela é) seria o mesmo que matar a própria verdade. Entretanto, como até aqui temos visto, o ser humano se serve o tempo todo desse meio improvável chamado de linguagem, de modo que se poderia indagar: “Ora, se somos irremediavelmente ligados a essa atividade de nomear, como posso me calar diante de tudo aquilo que vejo”? Eis a questão, difícil aporia, nós somos “incaláveis”, se me permitem o neologismo. De tal modo que a relação e ansiosa busca pela verdade estão intimamente associadas com a fala. A verdade (ou, a verdade para mim) é... Assim, a verdade torna-se sinônimo do verbo, idêntica à palavra, efêmera e fugaz, ao que é dito, “igualação do não igual”. Trata-se, como diria Ellul, de nosso instrumento mais lábil, incerto, referindo-se ao que é mais certo. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Mas como saberemos o caminho? O que é a verdade? Que vida é essa? Continuamos tentando descodificar a verdade na linguagem.

Nossa referência ao real está sempre em busca de correto e incorreto. Fazer teologia, até aqui, tem sido julgamento do incorreto pelo correto. Embora a verdade que desejamos tanto deter, nos escapa, porque somos detidos por ela e não o contrário, ainda assim insistimos em nos mover num universo de exatidão, em busca da única resposta, a solução correta, o paradigma exato. Quando, na natureza do paradigma em si mesmo, mora a imprecisão. Como diz Ellul: “Não existe experiência imediata da verdade, nem da mentira, nem do erro. (...) O que vem da palavra nunca é evidente. O real pode ser evidente, a verdade, nunca”.[2] Um leitor um pouco mais impaciente que o resto, poderia perguntar: “Mas então porque devo continuar nisso se já descobri que a verdade não pode ser descoberta”?

É simples, e é complexo: porque é ela que confere sentido ao nosso existir. A impossibilidade da linguagem deveria, assim, nos conduzir a uma tarefa mais honesta, humilde, dependente daquilo que somos e temos, e da graça de Deus e, por tudo isso, alegre e celebrativa. Eis o extraordinário, diria Ellul: é uma benção para o ser humano viver assim, cativo da linguagem, distante da completude e, ao mesmo tempo, em busca dela, pois do contrário, acrescentaria eu, não seriamos seres humanos e sim deuses, ou semideuses. Parafraseando Ellul, nossas certezas teológicas podem ser falsas quanto à exatidão da revelação (quando assim pretendemos), mas são elas que nos permitem viver. O maior milagre e a maior benção da teologia, bem como da vida humana, é também sua maior limitação: não em expressar a verdade (quanto mais a divina) por vias exatas, mas em encontrar fragmentos dessa verdade na inexatidão da linguagem. “Assim se situa esta vida maravilhosamente humana. O sentido mais garantido dirigindo-se ao mundo mais incerto. O sentido mais frágil, exprimindo o indiscutível”.[3]

Jonathan
Notas
[1] ELLUL, Jacques. A palavra humilhada. São Paulo: Paulinas, 1984, p. 35.
[2] Ibidem.
[3] Ibid., p. 43.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Sobre rótulos eclesiásticos

Caros colegas,

a mim também soou um pouco (embora não totalmente) estranha essa discussão. Não pelo fato das nomenclaturas em si – até porque, creio que essa é uma discussão até atual, em meio a tantos “novos” títulos eclesiásticos que têm pipocado na igreja evangélica brasileira – mas pela grande importância que se deu a se chamar ou não "reverendo" ou "pastor". O anseio pelas nomenclaturas tem a ver com o exercício do poder e institucionalismo humanos. É algo enraizado no modo de ser humano. Não penso que serei menos “pastor” porque me chamam de Jonathan, nem menos “pastor presbiteriano” porque não me chamam de reverendo, sendo o contrário também verdadeiro. Mas as pessoas lidam o tempo todo umas com as outras muito mais por aquilo que fazem (Dr. Fulano de Tal, Empresário Beltrano, etc.), do que propriamente pelo que são – e vejam, quando digo “as pessoas”, estou incluindo “nós”. É a velha crise entre ser e ter de novo na praça, num mundo em que claramente mais se tem optado pelo ter, pela ostentação, pelo status quo, do que pelo ser em si – talvez porque tenhamos perdido o sentido do que seja o tal "ser". Afinal, o que é o ser?

Ou seja, estamos irremediavelmente ligados a essa atividade de instituir, nomear, intitular. Assim sendo, penso que, se o poder como dominação, ostentação e status quo, bem como a bajulação a quem ostenta, é algo do ser humano, este imerso em pecado, mudar o nome ou deixar de chamar "X", "Y" ou "Z", de nada adianta, porque se ataca assim o que é periférico, perdendo-se a raiz do problema, que está no coração humano. Antes de mudar os nomes, ou deixar de dizê-los, precisamos mudar, sim, os relacionamentos, as posturas, e a idéia de sacerdócio em si, quando (cada caso é um caso) assim necessário. O problema não é poder, nem são os títulos, mas o que fazemos com eles. Lembremos do que disse Pedro aos presbíteros: “Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho” (1Pe 5.2-3).

Deveríamos ter mais coragem de pregar contra nós mesmos e contra as posturas e relacionamentos que muitas vezes endossamos, do que simplesmente “mudar os nomes” ou as formas de tratamento. Não julgo, com isto, a atitude dos irmãos da IPI de Maringá. Se, bem ou mal, essa foi “a solução” por eles encontrada, respeito. Mas não creio que seja uma discussão fértil, caso se fique atacando apenas os “nomes”, se esquecendo do princípio que está por trás de quem os profere e de quem os aceita e ostenta.

Com isso, quero dizer que ser chamado de reverendo, pastor, etc., é o que menos importa, quando, no fundo, em meus relacionamentos e posturas, procuro deixar bem claro que existe uma pessoa, humana, falha, mas que está tentando acertar com a graça de Deus, por trás do rótulo; e que se difere das outras apenas pelo chamado específico de Deus, o que não confere a ela lugar superior ou mais importante, apenas um lugar “diferente”, e não somente diferente, como também insuficiente, se não contar com o apoio das demais partes que forma o todo. Precisamos de uma revolução nas atitudes! Continuemos a pensar...

Fraternalmente,
Jonathan

Pastor ou Reverendo?

Há poucos dias atrás, recebi um email de um colega pastor, que encaminhava uma discussão feita por uma igreja presbiteriana de Maringá, PR, sobre títulos eclesiásticos, mais precisamente sobre se deveria chamar seus pastores de "reverendos" ou simplesmente de "pastores". O assunto parece ter começado com a recusa de certos pastores de serem chamados por seus membros de "reverendos". Abaixo trancrevo a parte final do artigo assinado por Ednaldo Michellon, que leva o título dessa postagem: "Pastor ou Reverendo?". No post seguinte, publicarei minhar resposta a tal discussão, enviada primeiramente a meus colegas do Presbitério Grande Londrina (PRGL).

Jonathan

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(...) Perguntamos: POR QUE SE RECUSAR EM SER CHAMADO DE PASTOR? O salmo mais conhecido alhures diz: "O Senhor é meu pastor...". Já pensou numa tradução que dissesse: "O Senhor é meu reverendo"? Ridículo, não? Se for ironizar com humanos deveríamos dizer: "O fulano de tal é o meu reverendo e tudo me faltará". Sim, porque alguém que ouse roubar o lugar de Deus não ficará impune. O final do Apocalipse não deixa dúvidas: "Adora a Deus".

Por isso irmandade presbiteriana independente e demais membros do corpo de Cristo, vamos repensar essa questão de REVERENCIAR seres humanos ao invés de nosso Deus; e, aproveitemos para parabenizar aqueles pastores que negam a ser chamados de forma diferente daquela dada por Deus, pois o próprio Senhor nos diz que ele é um PASTOR. Penso que precisamos derrubar as castas que tentam se levantar no meio cristão, antes que voltemos para a prática de cultos pagãos, como éramos obrigados a engolir outrora. Para pensar: você acha que Jesus Cristo aceitaria ser chamado de reverendo?

Vamos erguer bem alto o Estandarte da Reforma: Só Cristo, Só a Fé, Só as Escrituras, Só a Graça, Só a Deus Glória. Concretamente, propomos a discussão para abolir o termo reverendo da IPI local, e se possível, do Brasil, e quiçá, do mundo, pois é uma ofensa ao único que se deve adorar: o nosso Deus Todo Poderoso. O SENHOR É MEU PASTOR.

Ednaldo Michellon

(Trechos do documento aprovado pelo Conselho da 1ª IPI de Maringá em 2004)

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Um Nenhum - por Viviane Mosé

Senhor arqueólogo, foi muito difícil encontrar um lugar a partir do qual pudesse me dirigir ao senhor. Infinitas são as perspectivas que nosso tempo nos permite, desintegrado que está por tantas razões que não caberiam nesta cartinha. Então, resolvi falar de um lugar comum. O lugar de um homem.

Todo homem é comum mesmo não sendo. O não ser comum do homem parece estar em sua forma própria de ser comum. Em seu jeito singular de sofrer, brincar, envelhecer. Em sua necessidade de construir, simbolizar, criar. Um homem não deixa de ser comum mesmo entre letras, livros, máquinas, sistemas, signos. Um homem é sempre uma trajetória que declina. Que ascende, mas que declina. O comum do homem é sua aparição relâmpago, o seu constituir e o seu perecer. O comum do homem é sua necessidade de dizer, manifestar, inscrever, perpetuar. Ao mesmo tempo sua impossibilidade de permanecer. Todo homem constitui-se na tensão entre viver e morrer, entre dizer e calar, entre subir e descer. Mas, por razões extensas e difíceis, a história humana parece ter se ordenado em torno da vontade de não ser.

Não envelhecer, não sentir dor, não se cansar, não se aborrecer. O homem parece envergonhar-se de ser: pequeno, sensível, mortal, humano. E organiza-se em torno de um ideal de homem, sem corpo. O homem envergonha-se de seu corpo. Não de seu sexo ou de seu prazer, mas de suas vísceras, de seus excrementos, de seus sons e odores, de seu processo bioquímico, fisiológico, orgânico. O homem envergonha-se de morrer e vai acuando-se, escondendo-se, perdendo-se em torno de uma idéia, de uma imagem. Em sua luta por não ser comum, o homem tornou-se nenhum. Todo homem virou nenhum. Nenhum homem na rua, em casa. Nenhum homem na cama. Nenhum homem, mas um nome. O homem se reduziu a um nome. Não um nome próprio, mas um substantivo.

Mas um homem é sempre maior que um nome mesmo que não queira. E uma outra história foi sendo tecida por trás desse desejo de não ser. Enquanto construía seus mecanismos de não corpo, enquanto se constituía como idéia, pensamento, imagem, a humanidade proliferava em seus excessos contidos, em suas angústias não canalizadas, em suas paixões não vividas, em seus pavores maquiados. E um corpo invertido, nascido de tantos corpos abafados, foi constituindo-se socialmente, foi ganhando força e vida. Uma vida invertida, mas uma vida.

Tóxica, ela foi se alastrando pelas casas, pelas ruas, em forma de morte. A morte negada, as perdas e dores abafadas, saíram às ruas reivindicando seu espaço. O que antes esteve circunscrito aos campos de batalha, às margens, aos guetos, agora ganha as escolas, os metrôs, os restaurantes, as praias. Não há mais lugar seguro, carros blindados, condomínios fechados. Agora todos somos igualmente passíveis. Vivemos a democratização da violência. Vivemos o predomínio daquilo que foi por tanto tempo obstinadamente negado.

A violência trouxe-nos de volta a urgência pelo corpo, pela vida, pelo tempo. E apartou-nos de nosso sonho de perenidade, de futuro, de verdade. Agora, todos estamos órfãos de nosso medíocre projeto de felicidade. Agora é preciso viver, temos urgência do instante, precisamos do corpo, mesmo gordo, magro, estrábico. E aqui, de meu lugar comum, de mulher comum, enquanto lavo a louça do café olhando a cor insistente da tarde que passa, me pergunto por quê? Por que não os dias nublados, as dores do parto, os serviços domésticos? Por que não o escuro, o delírio, a solidão? As lágrimas, os espinhos no pé, as quedas?

Dizem que o homem, como conhecemos, tende a desaparecer. É possível que uma espécie mais forte possa surgir, uma espécie capaz de um dia divertir-se com este nosso hábito demasiadamente humano de negar o inexorável, de controlar o incontrolável, e, não conseguindo, de esconder-se em cápsulas virtuais, em psicotrópicos de ultima geração, em imagens. Um homem que talvez tenha sempre existido pode começar enfim a surgir. Um homem capaz de viver a dor e a alegria de ser mortal, singular, sozinho, comum. Um homem capaz de gritar sua dor impossível. Um homem capaz de cantar. Um homem capaz de viver.

Viviane Mosé
(Extraído de http://www.vivianemose.com.br/)

domingo, 10 de maio de 2009

Sobre teologia e a arte de nomear as coisas (II)

Encerrei a primeira reflexão dessa série falando sobre nossa irremediável condicionalidade à linguagem e à arte (no sentido de criação e invenção aplicado por Nietzsche) de nomear as coisas. É preciso retornar a isto para dar contorno à segunda linha de argumentação que aqui desejo propor, que na verdade se expressa em continuidade com a anterior. Na primeira parte de A gaia ciência Nietzsche faz uma menção mais direta desse problema da linguagem quando afirma que para nós “mais importa saber como se chamam as coisas do que o que elas são”. Penso que exatamente por não sabermos o que as coisas são em sua essência é que nos aferramos na atividade de nomear, de dizer “isto é assim”, “aquilo é assado”. Mas, pergunto: quem está livre de tal condicionalidade? Com isso, Nietzsche denuncia o abismo existente entre nós e o mundo tido como essencial. Nossa relação com ele não é mediada pela correspondência, e sim pela criação: “Só os criadores podem destruir! Mas não esqueçamos isto: basta criar novos nomes, apreciações, novas verossimilhanças para criar, com o tempo, novas coisas”.

Parto, porém, do pressuposto de que vivemos (nós, teólogos, mais intensamente) pautados pela negação de que somos criadores, pois tal negação nos permitiria sobreviver na ilusão “necessária” de que aquilo que produzimos discursivamente, os significados que damos ao mundo, correspondem à verdade. Essa é, aliás, a ilusão do fundamentalismo. Tal ilusão é nosso escudo de proteção contra a conflitividade gerada pela consciência de que não lançamos mão de verdades e sim de interpretações, o que automaticamente desautorizaria, nosso discurso perante um rebanho, uma coletividade. É preciso, portanto, manter os signos e os códigos combinados, a fim de que continuemos não só protegidos pela “nossa verdade”, mas pela crença coletiva na identidade. E só permanecemos nessa crença, diz Nietzsche, graças à nossa capacidade de esquecer. Como analisa Viviane Mosé, “sem esquecer a pluralidade sensível que gerou a palavra, o homem não teria chegado a concluir que a identidade forjada pelas palavras pudesse corresponder efetivamente às coisas”.[1]

Em uma palestra ministrada semana passada na Universidade Estadual de Londrina, Mosé afirmou que a palavra não passa de uma “moldura vazia”; e, à medida que é lançada, cada um faz o que quer com ela, isto é, preenche-se tal moldura como se acha mais conveniente ou apropriado para aquele momento. Se estendermos tal metáfora à comunicação, perceberemos que a comunicação, que desejamos ser uma possibilidade (de entendimento e correspondência de pensamento entre duas ou mais pessoas), é, na realidade, cheia de fissuras e impossibilidades. Como já diriam os estudiosos em comunicação, mas sem muito aprofundamento, a comunicação, ou mais precisamente a “fala”, é cheia de “ruídos”. O problema surge quando, ou como quase sempre acontece, nos esquecemos de que tendemos a reter muito mais os ruídos do que propriamente a intenção original de um sujeito no ato de dizer ou significar algo. Assim, nossas significações das coisas (atos de fala) são produtos criativos de outras significações. Tudo passa, até nós mesmos, pelo filtro da linguagem.

Por fim, vale ressaltar outra questão que me chama atenção na fala de Viviane Mosé, ao apontar para nossa interpretação do mundo, que segundo ela é baseada na fragmentação, numa racionalidade que origina um pensamento pautado por julgamentos, divisões, descrições, mas que, em virtude da ilusão em torno da qual gravitam, pretendem atingir a totalidade. Ao pretender atingi-la irremediavelmente se exclui a pluralidade de possibilidades que envolvem a compreensão de uma coisa. Ao excluir a pluralidade, exclui-se a diferença. Nossa visão míope, mas pretensamente totalitária, nos conduz à exclusão, ao afastamento da diferença. Isso me dá pelo menos uma pista importante para entender as razões que nos mantêm no campo da intolerância (de múltiplas naturezas) num mundo cada vez mais plural; ela está no princípio de nossa forma de conhecer, de nossa aversão às diferenças, de nosso fundamentalismo oculto ou sofisticado.

(Continua...)

Jonathan

Nota

[1] MOSÉ, Viviane. Nietzsche e a grande política da linguagem. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, p. 73.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Sobre teologia e a arte de nomear as coisas (I)

O ser humano moderno foi acusado pelos seus opositores, os pós-modernos, de naturalizar o conhecimento, isto é, de tentar dar ao conhecimento o caráter de algo que sempre aí esteve, à disposição, para se descoberto por meio do estudo dos objetos. O conhecimento, nesse sentido, seria algo dado, um produto pronto, prévio e independente da ação e intervenção humanas, cuja parte seria apenas a de apreensão e representação ou re-apresentação desse conhecimento. Os conceitos nasceram para dar conta do mundo, para ser uma designação fiel das coisas às quais eles remetem. Se digo, por exemplo, “Deus”, o dizer em si já remete à entidade a qual desejo designar. Parte-se do pressuposto da correspondência entre a palavra e a coisa em si.

Não foram só os pós-modernos que denunciaram a ilusão dessas pretensões modernas. Vozes solitárias no século XIX como a de Nietzsche, contribuíram para o questionamento das bases dessa quimera. Em um texto seminal, de 1873, intitulado “Verdade e mentira no sentido extramoral”, esse filósofo lança mão de aporias do tipo: por que razão o mundo se mostraria como ele é? Seria a linguagem um simples espelho da realidade? Assim, a partir de uma fábula possível, ele propõe a tese de que o conhecimento humano é relativo e que, portanto, é arrogante e ilusória a pretensão dos filósofos – teólogos, no caso aqui proposto – de querer “dar conta” da realidade a qual se referem.

Nietzsche parte da tese de que o conhecimento foi inventado. Isso na primeira frase do texto: “Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro, em que os animas inteligentes inventaram o conhecimento”.[1] Na percepção de Michel Foucault[2], quando Nietzsche usa a palavra “invenção” tem sempre em mente uma palavra que se opõe à “invenção” – e que, diga-se de passagem, foi por muito tempo cara aos teólogos – que é a palavra “origem”. Quando ele fala que o conhecimento foi inventado, significa, portanto, que o conhecimento não tem uma origem, isto é, não existia antes de ser inventado, não é “dado” pelo universo.

Foucault usa um exemplo da análise desse filósofo, que é o da religião. Nietzsche critica seu mestre, Schopenhauer, que em sua visão cometeu o erro de buscar a “origem” da religião em um sentimento metafísico – como também fizera Friedrich Schleiermacher, para quem “religião é sentimento” – “que estaria presente em todos os homens e conteria, por antecipação, o núcleo de toda religião, seu modelo ao mesmo tempo verdadeiro e essencial”. O protesto de Nietzsche, nas palavras de Foucault, é que essa é uma análise da história da religião “totalmente falsa, pois admitir que a religião tenha origem em um sentimento metafísico significa, pura e simplesmente, que a religião já estava dada, ao menos em estado implícito, envolta nesse sentimento metafísico”.[3] Em outras palavras, as religiões, assim como a cultura e a história, não são dadas, são fabricadas. Parafraseando Nietzsche, são fabricações da linguagem.

Com isso, parte-se de dois princípios: 1) somos irremediavelmente ligados à atividade de nomear; 2) “nomear é dar forma ao mundo”, pelo menos à parcela do mundo cabível à nossa compreensão e explicitada pela linguagem. Nomear não é nem representar, nem dar conta do mundo. Nomear é criar. Logo, o conhecimento – não um dado, mas uma produção – é apenas uma visão parcial do objeto conhecido. A linguagem conceitual não é uma tradução, mas uma invenção. Não há afinidade entre o conhecimento e seu objeto. Dizer “isso é fé”, não significa dar conta da coisa em si, fé. Mas essa é uma condição indissociável do conceito, que segundo Nietzsche nasce por “igualação do não igual”. Assim, todo conhecimento é uma violação de seu objeto...

(Continua...)

Jonathan

Notas

[1] NIETZSCHE, Friedrich W. Sobre verdade e mentira no sentido extramoral. In: Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p. 53.
[2] FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: Naw, 2002, p. 14.
[3] Ibid., p. 15.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O espetáculo da busca

No dia 30 de março de 2009 tive o prazer de ver concluída mais uma etapa em minha vida acadêmica: defendi minha dissertação de mestrado em história social na UEL. Fui tanto elogiado nas virtudes, como criticado nas fissuras que apareceram no texto, como não haveria de ser diferente. Mas desde o princípio do trabalho, fiz questão de deixar clara minha inexorável dependência do tempo e lugar a partir dos quais produzi meu discurso, e de que me rendia, assim, como sempre o fiz em minha caminhada, ao "espetáculo da busca", parafraseando Marc Bloch. Assim, asseverei, esperava que esse texto fosse também um pouco de confissões acerca das trilhas percorridas e da construção de meu fazer historiográfico.

De modo análogo, encerrei afirmando que "para o historiador, e não diferente para o historiador das religiões e religiosidades, a história é, como diria Marc Bloch (2001, p. 128), “uma vasta experiência de variedades humanas, um longo encontro com os homens”. Uma das aventuras da narrativa histórica é, a meu ver, aprender e continuar aperfeiçoando a arte de transformar esses encontros em enredos fascinantes para o leitor".

A palavra final de minha orientadora foi: "Em seu trabalho encontro um enredo fascinante". Foi uma prazer ouvir isso de gente tão gabaritada, para dizer tanto algo desse tipo como avaliar de modo totalmente contrário. É boa a sensação do dever cumprido, e de agora poder olhar pra trás e ver que valeu a pena, todo o esforço, as horas de sono perdidas, o processo custoso e prazeroso de pesquisa e todos os momentos em que, muitas vezes depois de uma frustração por não conseguir sair do primeiro parágrafo, fui surpreendido pela luz da divina inspiração de um insight que de repente te arrebata e te faz dizer "eureka!".

Bem, falei tudo isso, mas ainda não disse nada sobre o trabalho. Meu objeto de estudo foram as metamorfoses do sagrado no protestantismo, a partir de um estudo de caso na Igreja Presbiteriana Independente Filadélfia em Londrina. Abaixo, segue o resumo da dissertação, uma espécie de síntese do que nela desenvolvo.

MENEZES, Jonathan M. As Metamorfoses do Sagrado no Protestantismo Brasileiro: o caso da Igreja Presbiteriana Independente Filadélfia. Londrina (1972-2008). Londrina: UEL, 2009. 183p. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em História Social) – Centro de Ciências e Letras Humanas da Universidade Estadual de Londrina. Departamento de História.

O estudo do protestantismo é algo que tem fascinado a muitos pesquisadores nos últimos anos. A multiplicidade que o constitui, as combinações que ele engloba e as metamorfoses pelas quais tem passado são o cerne temático dessa dissertação. Com a finalidade de contribuir com as pesquisas vigentes no campo da história das religiões e religiosidades, esse trabalho visa estudar as metamorfoses do sagrado no protestantismo brasileiro, a partir do caso da Igreja Presbiteriana Independente Filadélfia, em Londrina. Para tanto, articulado teórica e metodologicamente com o pensamento de Michel de Certeau, e com as noções de prática e experiência, empreendeu-se uma investigação que combinou diferentes fontes: orais – entrevistas com líderes e membros da IPI Filadélfia e outras pessoas direta ou indiretamente envolvidas nos processos analisados – e escritas, quais sejam, documentos próprios da igreja e outros produzidos por líderes e teólogos da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, seja em âmbito institucional ou de caráter mais acadêmico. Constata-se, a partir desse caso, que o tema do “avivamento”, que gerou crises e divisões na IPI na década de 1970, é um assunto recorrente na história da IPI Filadélfia, e que reapareceu de modos diferentes em diferentes períodos, mudando perspectivas, gerando metamorfoses. Postulou-se que o sagrado que se manifesta nesse âmbito não é fruto de mera repetição de modelos, mas de recriações, reinvenções da tradição, a partir da experiência singular de fé das pessoas em seus contextos particulares de vida. Em virtude disso, tanto nos discursos como nas práticas religiosas ocorreram rupturas, que ora penderam para uma flexibilização, ora para um reforço de trincheiras religiosas. Metamorfoses do sagrado se constitui, portanto, em um emblema de posturas e práticas que ora combinam, ora repelem elementos díspares e que revela as fissuras e inversões do pensável contidas no hiato engendrado numa comunidade de praticantes entre a fé representada e a fé experimentada.

Palavras-chave: Igreja Presbiteriana Independente Filadélfia; avivamento; protestantismo; metamorfoses do sagrado; práticas; experiência; tradição.

Jonathan

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Em respeito aos tristes (por Ricardo Gondim)

Confesso que sou introspectivo e, muitas vezes, melancólico. Quando ainda era criança, gostava de ficar debaixo de uma árvore, sozinho, para pensar na vida. Continuo assim. Prefiro o silêncio às festas, as refeições com poucas pessoas aos banquetes. E se não tomar cuidado, facilmente caio em depressão.

Essa minha índole quieta não me importuna, mas eu percebo que ela causa alguns constrangimentos na comunidade evangélica. Poucas vezes escrevi textos cinzentos, mas logo fui docemente aconselhado a não repetir tal deslize. Avisaram-me que os crentes não estão preparados para lidar com a tristeza. E que as pessoas gostam de artigos otimistas. Realmente! O movimento evangélico se alastrou no final do século XIX, num tempo em que se respirava um clima de grande otimismo. Acreditava-se que em poucos anos, evangelistas, missionários e pastores converteriam o mundo, antecipando o iminente reino milenar de Cristo. Nosso berço foi embalado com a promessa de que seríamos a “última geração antes do arrebatamento”. Nascemos num clima de euforia. Portanto, não toleramos qualquer mensagem que revele um jeito menos bem-sucedido de encarar a vida.

Sinto-me censurado quando exponho meus sentimentos contaminados de uma vaga e doce tristeza. Sentimentos que, a bem da verdade, me comprazem e me conduzem à meditação. Mas como explicar isso para minha geração? Fico sem saída, pois não quero só escrever textos sobre como me sinto campeão; recuso teatralizar minha solidez e não quero enganar sobre minha santidade.

Em diversas ocasiões tenho a sensação de que estou só entre gigantes da fé. Haveria mais gente como eu? Sei que existem profetas, poetas e santos que também convivem com o desalento. Celebro a honestidade de todos os que, corajosamente, detectam sentimentos menos brilhosos e, iguais a mim, não se sentem culpados.

Ditosos os que choram, pois reconhecem que a vida não é composta só de luzes. Quem busca apenas o riso, querendo perenizar o prazer, cairá no profundo abismo do desencanto. Só os tristes sabem os segredos das noites sem lua e que algumas dimensões nobilíssimas da nossa humanidade somente se expressam em corredores de morte. Grandes são todos os que permanecem em pé mesmo quando não há luz nenhuma.

Ditosos os que entram em contato com suas angústias. Os que ocultam suas inquietações com frases e clichês religiosos se condenam à superficialidade. Não existe tese religiosa que consiga se impor com mais força que a própria vida. De nada vale repetir slogans que prometem um mundo cor-de-rosa. Mais cedo ou mais tarde virá a tempestade que assola a casa. Ventos contrários varrerão projetos cautelosos e, quem não edificar sua vida na verdade, ruirá implacavelmente.

Ditosos os que não se consideram emocionalmente incólumes. Eles sabem que ninguém possui controle direto sobre suas emoções e reconhecem, inclusive, que serão traídos pelos incidentes do cotidiano. Eles vão até o fundo do poço e não se sentem fracassados, pois sabem que tanto alegrias como tristezas são passageiras.

Ditosos os que admitem suas depressões. Eles não tentam sublimar as inquietações com ativismos. Sofrimento é a única dimensão da vida comum a todos os homens e mulheres. Quem tenta blindar-se das tristezas precisa também se proteger da alegria. Fugir do sofrimento significa amortecer a felicidade.

Ditosos os que podem lamentar em público. Eles não precisam de sorrisos plásticos, de discursos demagógicos ou da arrogância religiosa, pois se sentem acolhidos em sua honestidade. Eles sabem que não serão apedrejados quando se mostram frágeis, porque vivem entre amigos verdadeiros.

Ditosos os que se parecem com Jesus de Nazaré. Ele nunca mentiu sobre sua angústia ou solidão. No jardim, afirmou: “Minha alma está triste até a morte”. Na cruz bradou: “Pai, por que me desamparaste?”. Mesmo depois desses desabafos, Deus lhe deu um nome que está acima de todo nome. Se o Filho Unigênito pôde falar assim, ninguém deve temer revelar o tamanho de sua vulnerabilidade.

Esses ditosos podem seguir tranqüilos pela vida, porque a tristeza, segundo Deus, não é para a morte. Aleluia.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim

(Artigo extraído de: www.revistaenfoque.com.br)

terça-feira, 14 de abril de 2009

A atitude fundamentalista e suas consequências

O fundamentalista é um fanático… e seu fanatismo o torna uma contradição ambulante, em que ele nega, por suas ações, a fé que afirma professar. Isto não significa que o fundamentalista seja um amigo dos paradoxos. Muito pelo contrario, ele os teme, já que, diferentemente do que a maioria dos fundamentalistas imagina, é na razão (no racionalismo filosófico e na razão instrumental pragmática) e não na fé, que o fundamentalista encontra apoio teórico para suas ações.

O fundamentalista é antes de tudo um inquisidor. Ele persegue e destrói para proteger e salvar, e está disposto a ir às últimas conseqüências para isso. Como qualquer inquisidor, o fundamentalista vê a liberdade de pensamento e de expressão como uma ameaça. Ele entende todo questionamento e toda crítica como formas dissimuladas de ataque, o que evidencia sua neurose paranóide.

O fundamentalista tende a conviver somente com os outros fundamentalistas e, por isso mesmo, acaba isolando-se cada vez mais, o que cria um circulo vicioso de obscurantismo, guetoísmo e uniformidade. Para o fundamentalista, o demônio é o “outro”, isto é, o demônio é identificado com toda forma ostensiva de alteridade. Em vez de dialogar com o outro, ele o hostiliza. Em vez de ver no outro um espelho através do qual ele poderia contemplar suas próprias fraquezas para seu próprio bem, o fundamentalista vê no outro (e na alteridade) uma ameaça.

O fundamentalista religioso se vê, em geral, como dono da verdade, detentor de uma revelação que os outros não possuem ou não compreendem. Ele não enxerga suas próprias limitações, sua humanidade, e se vê, portanto, como mais que humano, ou pelo menos como um ser humano mais privilegiado, selecionado por Deus para um conhecimento secreto ou para uma missão sagrada especial. O fundamentalista não percebe que sua alegada verdade é apenas uma possibilidade entre as outras, e que a única forma de avaliá-la e comprová-la seria estabelecer um diálogo com seus semelhantes que pensam diferentemente, para que, no jogo das interpretações, as incoerências se manifestassem e todos crescessem com isso.

(...) O fundamentalismo é um veneno terrível para o cristão e para as igrejas cristãs. Ele tende a matar lenta e imperceptivelmente, porém também inevitavelmente, a fé dos indivíduos das comunidades. O fundamentalismo é um veneno tão ruim ou até pior que o liberalismo teológico que tanto teme e combate. Ao combater o liberalismo teológico, os fundamentalistas acabam por rotular como liberalismo todas as idéias e noções que sejam um pouco diferentes das suas próprias, e acabam por declarar “liberais” todos os que os questionam ou que problematizam as questões que eles querem fazer crer serem absolutamente cristalinas.

(...) Os pastores fundamentalistas entram facilmente em crise ministerial, ou então se tornam pastores corruptos e politiqueiros, ou ainda aderem a uma piedade pervertida em que se vêem como responsáveis por manter as igrejas protegidas das chamadas heresias. Em nome dessa causa, seus sermões tornam-se teológicos, e a palavra de conforto e orientação que deveria vir do púlpito se torna cada vez mais escassa e a congregação fica sofrendo de inanição espiritual o que acaba gerando um círculo vicioso de maus pastoreios e falta de nutrição espiritual gerando igrejas fracas e que já não mais são capazes de reconhecer o mau pastoreio e a má nutrição, e não são capazes de expurgar de si esses males.

Ricardo Quadros Gouvêa

(Trechos de: GOUVÊA, Ricardo Q. A piedade pervertida. Um manifesto anti-fundamentalista. Em nome de uma teologia de transformação. São Paulo: Grapho Editores, 2006, p. 34-36).

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Teologia: diversão e aprendizado

Quero iniciar com uma afirmação nada original: a vida é um eterno aprendizado. Infelizes são aqueles que no meio do caminho perdem a capacidade de, parafraseando o saudoso Gonzaguinha, "cantar e cantar e cantar, a beleza de ser um eterno aprendiz". Logo, se a teologia versa sobre a vida, ela é, de igual modo, um conhecimento em mutação, uma ciência modesta e disciplinada de eternos aprendizes que não se entregam facilmente ao sabor das respostas prontas, nem de palavras decoradas, tampouco se deixam orientar pelo que dizem as estatísticas, e muito menos se conformam com um "ministério de banalidades", que não problematiza, não pensa, não sente, não se inconforma ou se indigna, e por isso torna-se ineficaz e incapaz de proferir palavras ou realizar ações de cunho profético.

Não! A teologia é a matéria-prima dos inconformados! Dos que não aceitam pacotes, nem tampouco produzem pacotes. E por essa vocação, creio que quando temos uma teologia presa e gerida apenas pelos dogmas e doutrinas não temos teologia, temos arbitrariedade. Arbitrariedade acerca do que é, de verdades imutáveis, indeléveis, de absolutos que nada têm a ver com Deus e que muitas vezes negam o valor da vida que Deus tanto preza, e também do que jamais pode ser, dentro do que estão incluídas a subversão, a heresia e a transgressão, assim categorizadas, muitas vezes, pelo simples fato de questionarem a ordem estabelecida. Teólogos, na melhor acepção da palavra, não se rendem a tais categorizações, tantas vezes simplistas e unilaterais.Por não se render a arbitrariedades e por não negligenciar o seu papel, que é falar de Deus, ela não julgará esse papel (falar de Deus) como um papel estritamente dela (como se pelo simples manuseio de métodos científicos ela pudesse chegar a ele), mas de todo ser humano.

Nesse sentido, todo ser humano pode ser um teólogo, à medida que pensa, pulsa, sente e crê em Deus agindo na criação e na existência. Dessa forma, eu melhoraria um pouco a afirmação de que "teologia nada mais é do que o estudo de Deus". Isso, pois Deus, como um ser eterno, não pode ser estudado. "O Deus do evangelho", diria Karl Barth, "não é, portanto, nem coisa, objeto, nem idéia, princípio, verdade ou soma de verdades, nem expoente pessoal de tal soma" (Introdução à teologia evangélica, p. 12).

Podemos, sim, falar de nossa experiência de Deus, isto é, de Deus como um ser pessoal e relacional. E, exatamente por desejar o relacionamento, escolheu se revelar. Assim, diriam alguns teólogos, teologia é o estudo de Deus em sua revelação. Revelação que desce, palavra que se diviniza, divino que se verbaliza, e verbo que se humaniza. Deus se fez ser humano! Essa é uma das grandes afirmações de fé das quais a teologia deve se valer. E esse Deus, assim, age na história, como temos estudado até aqui. De tal modo que o "objeto" da teologia, por assim dizer, está em movimento, e ela também precisa estar. O assunto da teologia evangélica, citando outra vez Barth, é Deus – Deus na história de suas ações. Não por aquilo que somos, façamos ou nossas capacidades, mas por aquilo que ele é e nos concedeu. Assim, a teologia é uma resposta inteligente e reverente ao gracioso “sim” de Deus, isto é, à sua “auto-revelação benigna e amiga para com o ser humano” (Introdução à teologia evangélica, p. 13).

Sim, é uma tarefa sem fim, permanente, renovável, criativa e que só germina em liberdade, na liberdade do Espírito. Logo, toda teologia autêntica é uma teologia espiritual, parafraseando Gustavo Gutierrez. Já disse antes, mas não custa reiterar: para mim, o lugar vivencial por excelência da teologia é a vida, assim como orar é viver e como Deus é sinônimo de Vida e Liberdade plenas. Só se pode conhecer a Deus à medida que se celebra intensamente o viver, o viver junto com outros, imersos na realidade. A teologia que se vale da experiência de Jesus (o Deus Encarnado) está totalmente ancorada em, e em permanente relação com, a realidade que nos cerca, tantas vezes dura e cruel. Segundo Eugene Peterson, “Deus não se revela à realidade para que a contemplemos como meros espectadores, mas para que possamos nela ingressar e viver”.

Continuemos debatendo e fazendo teologia com diversão e aprendizado...

Jonathan

terça-feira, 7 de abril de 2009

As tradições, o Evangelho (Final)

As dinâmicas do evangelho nos levam a perguntar: de que vale um exterior limpo, se lá dentro, lá no fundo, há muita sujeira escondida? Jesus diria: “Limpa, limpa primeiro, fariseu, esse teu interior, porque a limpeza de fora é conseqüência. Tira a trave do teu olho antes de acusar o cisco no olho do teu irmão”. E quantas traves não passam despercebidas, quantos camelos não são engolidos com muito sal e pimenta – o orgulho, a hipocrisia, a falsidade, a opressão, a injustiça, a mentira, o egoísmo... Esses não são pecados? Mas na aparência... Ah, quanta beleza! Falsa beleza, sórdida e feia “beleza”, “beleza americana”.

E qual deve ser a resposta de cristãos autênticos a esse modo de vivência que nos cega e emudece em relação à manifestação de Deus? Quanto a mim, gente, eu prefiro me juntar ao Brennan Manning e dizer: Eu sou um maltrapilho do Pai! A resposta mais honesta e humanizadora para mim é: “Eu quero ser pobre de espírito”. Chega! Basta de viver a ilusão de que existe algo nessa vida que me preenche e completa mais que a graça. Cansei de lastimar por meus fracassos mais óbvios, de me autoflagelar por causa de minhas limitadas habilidades e sofrer com o golpe diário da reprovação. Deus já me aprovou para sempre quando, em Cristo, disse: “Está consumado!”.

Não consigo e nem preciso me adequar aos caminhos infrutíferos para o reino dessa visão legalista de pureza que por aí se tem pregado. Não! Não é preciso ser menos humano para ser puro na presença de Deus, nem é necessário negar aquilo que de natural e bom ele criou para ser santo. Quero, sim, aprender o que é o amor incondicional do Pai, a adentrar no mundo das pessoas, mesmo quando não me identifico muito bem com esse mundo, às vezes tão diferente do meu. O universo dos “pequeninos” de Deus: as criancinhas, os pobres e oprimidos, as prostitutas e os cobradores de impostos. Nada do que é humano me pode ser estranho. Quero, por fim, corroborar com as seguintes palavras de Manning:
“Quanto mais crescemos no Espírito de Jesus Cristo, mais pobres nos tornamos – e mais percebemos que tudo nesta vida é um presente. A tonalidade fundamental da nossa vida passa a ser ação de graças humilde e jubilosa. A consciência da nossa pobreza e de nossa inépcia leva-nos a regozijar-nos na dádiva de termos sido chamados das trevas para a maravilhosa luz e transportados ao Reino do amado Filho de Deus. O homem ou a mulher pobres escrevem ao Senhor nove cartas que dizem: ‘Bom é’. Numa conversa, o discípulo que é verdadeiramente pobre no espírito sempre deixa a outra pessoa com a sensação de que a vida do discípulo foi enriquecida por ter conversado com ela. Não se trata de falsa modéstia nem de humildade fingida. A vida dele ou dela foi de fato agraciada e enriquecida. Ele não é apenas escapamento, sem abertura para a entrada de fora. Ele não se impõe aos outros. A pobreza espiritual dela a capacita a adentrar o mundo do outro mesmo quando não é capaz de identificar-se com esse mundo – por exemplo o mundo das drogas, o universo gay. Os pobres de espírito são as menos condenatórias das pessoas; convivem bem com pecadores. O homem ou a mulher pobres do evangelho reconciliaram-se com sua existência falha. Estão conscientes de sua falta de inteireza, sua incompletude, o simples fato de não apresentam de forma alguma os requisitos necessários. Embora não apresentem desculpa para o seu pecado, estão humildemente conscientes de que o pecado é precisamente o que os levou a se atirarem à mercê do Pai. Eles não fingem ser mais do que são: pecadores salvos pela graça”.

(Brennan Manning. O Evangelho Maltrapilho. São Paulo: Mundo Cristão, 2005, p. 81-82).
Jonathan