segunda-feira, 21 de julho de 2008

O Fio da Navalha

Devia ter nascido na idade média, quando a fé era aceita naturalmente; teria então visto claramente o meu caminho e entrado para o convento. Mas eu não podia crer. Tinha esse desejo, mas não podia acreditar num Deus que não era melhor do que um homem bom. Os padres me disseram que Deus criara o mundo para sua própria glória. Não me pareceu um objetivo muito apreciável. Teria Beethoven criado suas sinfonias para sua própria glória? Não acho possível. Em minha opinião criou-as porque a música em sua alma exigia expressão e, depois, só o que tentara fora torná-las perfeitas, na medida do possível.

Eu ficava a ouvir os monges quando recitavam o Padre-nosso. Como podiam eles, sem apreensão, continuar a pedir ao Pai Celestial que lhes desse o pão de cada dia? Por acaso as crianças pedem ao seu pai terrestre que as alimente? Esperam isto dele; não sentem nem precisam sentir gratidão; e não há quem não censure o homem que põe filhos no mundo quando não pode sustentá-los. A mim me parecia que, se um criador onipotente não podia prover às necessidades materiais e espirituais das criaturas, teria então sido preferível não criá-las.


(...) Se foi um Deus bom e todo-poderoso que criou o mundo, porque motivo criou o mal? Diziam os frades: Para que o homem, dominando os seus instintos maus, resistindo à tentação, aceitando a dor, a tristeza e a infelicidade, como provações enviadas por Deus como instrumentos de purificação, se tornasse finalmente merecedor da graça. Isto me parecia o mesmo que mandar um sujeito com um recado a determinado lugar e depois, para dificultar-lhe a tarefa, construir um labirinto por onde se veria forçado a passar, cavar um fosso que ele teria de atravessar a nado, e finalmente que ele seria obrigado a escalar.


Não estava em mim acreditar num Deus sábio que não tinha senso prático. Não vi a razão para não se acreditar num Deus que não tivesse criado o mundo, mas que procurasse corrigir, na medida do possível, aquele que encontrara; um ser infinitamente melhor, mais sábio e maior que o homem, que lutava contra o mal que não fora criado por ele, podendo-se esperar que no fim chegasse a vencê-lo. Mas, por outro lado, não vi também razão para se acreditar em tal Deus.


W. Somerset Maugham
Trechos do livro: O Fio da Navalha. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Morte e vitória da consciência (II)

As testemunhas se foram, afugentadas pela indiferença, que por seu turno gera apatia – a incapacidade de sofrer – e está dá lugar então não só para o túmulo da consciência, como também da esperança e solidariedade. É o início da militância contra a vida; são os primeiros sinais da derrota: da consciência, do ser-em-Deus, da convivência pacífica e compassiva com os outros. Todas as vezes que matamos a nossa consciência, matamos a voz de deus em nós. E quando ela morre, outras coisas também começam a morrer.
Já a vitória e vivacidade da consciência podem ser vistas como um antídoto contra o desequilíbrio vital em todos os sentidos possíveis. É a atenção constante ao que dizem as testemunhas. É claro que essas testemunhas podem ser igualmente forjadas pelo legalismo e e moralismo que rege muitos sistemas religiosos e de pensamento. O final delas é a prisão do ser e seu martírio nas cruzes de suas falsas culpabilidades e medos, cujo fim trágico é também a morte.
A vitória da consciência, regida pelo espírito do Deus da vida, é da liberdade sobre a escravidão, da maturidade sobre a dependência doentia e infantil. Ela só pode ser mensurada pelos frutos e permanente transformação da mente pela inconformação frente aos padrões emburrecedores, assassinos de consciência. É a assunção da mente de Cristo, a qual nos permite não tomarmos a forma do vazio de consciência desse século, mas transformar-nos pela renovação de nossa própria mente e consciência, Nele.
*Imagem: "Consciência", por Maurício Z. Porto (http://novasvisoes.com.br)
Jonathan

terça-feira, 15 de julho de 2008

Morte e vitória da consciência (I)

A consciência é como mil testemunhas”, declara o autor de Provérbios. O que isso parece significar? A mim parece que na consciência, mais que em qualquer outro lugar, habita a força do juízo. Refiro-me, é claro, a uma boa consciência, sã, equilibrada, honesta. Mas quem define isso? Diante de tanta maldade que toma conta de nossa sociedade e tem levado pessoas a cometer atos terríveis contra elas mesmas, contra outras pessoas e contra o meio-ambiente, estaríamos presenciando a morte da consciência, tal como aqui anunciada?

A consciência, segundo o enunciado acima, é como uma platéia, que assiste e julga o espetáculo de nossos pensamentos, intenções e atos. E, ao fazê-lo, ao modo de coro pela vida, pelo bem, pelo que é justo, reinicia em nós o processo no qual esses mesmos atos e pensamentos passam por uma revisão, um “check up”, onde se identifica se extrai as raízes mais obscuras e estranhas a essa militância em favor da vida e da liberdade.

O Espírito da Vida sopra à consciência, reorientando pensamentos e ações rumo à luta para que a vida prevaleça. A vitória da consciência começa com um ligeiro incômodo e termina com a mudança e reorientação da práxis pessoal. A morte da consciência, por sua vez, é lenta e gradual. Ocorre cada vez que o grito da platéia é ignorado e começa a se tornar cada vez mais imperceptível, à medida que cada uma das testemunhas começa a deixar seu posto, por desistência, abandono ou expulsão, e o que resta é o vazio de consciência.
Continua...
Jonathan

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Uma oração de todos nós

Parecem-me bastante pertinentes algumas expressões e palavras que retratam a vida e espiritualidade cristã nas dimensões de uma luta. A espiritualidade integral é o sinônimo de um modo de vida espiritual que se encarna na realidade, tendo a aceitação consciente de que Cristo é o Salvador, comprometendo-se com a sua cruz, e dependendo inteiramente da ação do Espírito (Mt 16).

Nesse sentido, Davi foi um dos homens de Deus mais humanos sobre quem já li e ouvi falar. A bíblia o retrata como um protótipo de uma gente tão paradoxal como a gente é: coerente e obtuso, às vezes muito crente, outras meio incrédulo, solidário e egoísta, amável e execrável, alegre e triste ao mesmo tempo. Seus salmos simbolizam muito daquilo que somos no cotidiano, posto que apresentam orações e suplicas que vêm romper com um modelo “espiritual” desencarnado e angelical que tem se criado nos últimos tempos, do crente sem mácula, sem problemas, sem crise, sem dúvidas e, se brincar, até sem pecados.

A oração de Davi, presente no Salmo 13, expressa sua mais legítima humanidade. “Até quando Senhor?” (v.1-3), interroga ele expressando sua aberta indignação diante da circunstância em que se encontrava. Do lamento brota a súplica: “Atenta para mim, responde-me, Senhor, Deus meu!” (v.3-4). Por fim, de queixoso e suplicante, Davi demonstra-se confiante e grato: “No tocante a mim, confio na tua Graça (...) Cantarei ao Senhor, porquanto me tem feito muito bem” (v.5-6). Davi foi uma amostra viva de que Deus se agrada daqueles que, de coração, falam a verdade e vivem com integridade, muito mais dos que fazem obras de caridade, mas sem misericórdia, ou que num lugar levantam as mãos, choram copiosamente e se esparramam no chão em suposto culto a Deus, mas que, fora dali, prosseguem aceitando suborno, difamando com a língua, oprimindo o próximo, lançando intriga contra o vizinho, cultivam orgulho e “amor” próprio e alimentam uma mente maquiavélica.

Sou muito mais adepto à indignação, ao questionamento e à dúvida que, por fim, resultem em louvor e confiança, que a uma postura externa piedosa, autoconfiante e aparentemente inabalável, porém decorrente de um coração rancoroso, cheio de julgamento e amargura. Que Deus nos livre da falácia da justiça própria, do mérito e da vanglória, e nos de corações verdadeiros e sinceros, preservando nossa humanidade e incitando-nos a viver uma espiritualidade de gente, e não de anjos (ou demônios!).

Jonathan

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Feridos que curam feridas

Ninguém escapa de estar ferido. Todos nós somos pessoas feridas, seja fisicamente, emocionalmente, mentalmente ou espiritualmente. A questão principal não é “Como podemos esconder nossas feridas?”, para que não precisemos ficar embaraçados, mas “Como podemos colocar nosso eu-ferido a serviço de outros?”. Quando nossas feridas cessam de ser uma fonte de vergonha, passando a ser uma fonte de cura, tornamo-nos médicos feridos.

Jesus é o médico ferido de Deus: por meio de suas feridas nós fomos sarados. O sofrimento e a morte de Jesus trouxeram alegria e vida. Sua humilhação trouxe glória; sua rejeição trouxe uma comunidade de amor. Como seguidores de Jesus nós também podemos permitir que nossas feridas venham trazer cura para outros.
Nossa própria experiência com a solidão, depressão e medo pode se tornar uma dádiva para outros, especialmente quando temos recebido um bom cuidado. À medida que nossas feridas estão abertas e sangrando, nós afastamos os outros. Mas depois de alguém ter carinhosamente cuidado de nossas feridas, elas não mais assustam aos outros ou a nós mesmos. Quando experimentamos a presença curadora de outra pessoa, nós descobrimos nossos próprios dons de cura. Então, nossas feridas permitem que entremos em profunda solidariedade com nossos irmãos e irmãs feridos.

Entrar em solidariedade com uma pessoa que sofre não significa que temos de falar com aquela pessoa sobre nosso próprio sofrimento. Falar sobre nosso sofrimento raramente serve de ajuda a alguém que está passando por sofrimento. Um médico ferido é alguém que pode ouvir uma pessoa que está em dor sem ter de falar de suas próprias feridas. Quando tivermos passado por uma profunda depressão, podemos ouvir com grande atenção e amor a uma pessoa depressiva sem ter de mencionar nossa experiência. Na maioria das vezes é melhor não direcionar a atenção de uma pessoa em sofrimento para nós mesmos. temos de confiar que nossas próprias ataduras irão permitir que ouçamos aos outros com todo o nosso ser. Isso é cura.

Henri J. M. Nouwen
Traduzido de Daily meditation (http://www.henrinouwen.org/)

terça-feira, 8 de julho de 2008

Reflexões sobre vida e morte (II)

Por que a morte é tão terrível aos olhos humanos? Porque, para muitos, ela significa o “fim da linha”, o final da vida. Mas por que o pregador diz então que o dia da morte é melhor que o nascimento, e que o fim é melhor que o princípio? Pois, para aqueles cujo temor é o princípio da sabedoria e existência, a morte não é o fim, mas o porta de entrada da nova vida: “Eis que faço novas todas as coisas”. A morte é o fim da vida finita e a entrada na vida que continua na eternidade.

Outra questão é que a morte nos faz olhar para a vida com outra perspectiva. Diante da morte os vivos passam, ainda que por um momento, a enxergar o sentido limitado que têm de longevidade, e se lembrar da efemeridade da existência. A morte alheia incita o auto-exame; a dor e tristeza pela perda produzem introspecção – “porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração”.

A tristeza óbvia pela separação causada pela morte não deve nos paralisar (ainda que por certo período de tempo seja isso que ela produz), nem nos destruir, mas ajudar-nos a atingir a consciência de que nossas vidas estão sob a tutela de mãos maiores, maiores que a vida e a própria morte, mãos divinas, de amor eterno e sempre disponível.

Encarar a realidade da morte de frente é se preparar para ávida com o realismo e para a morte com a esperança da ressurreição; é aprender a cultivar os valores eternos e permitir, como afirma Dorotee Sölle, que o cálice do sofrimento transforme-se no cálice da fortaleza.

Jonathan

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Reflexões sobre vida e morte (I)

Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete... e o dia da morte, melhor que o dia do nascimento” (Ec 7.1,2).

O que é melhor: a tristeza ou a alegria? A morte ou a vida? O que prefiro: um fusca ou um jaguar? Sol escaldante ou sombra e água fresca? Parece que as escolhas mais comuns são óbvias demais em todas essas antinomias. A melhor opção sempre aparenta ser aquela que oferece mais conforto, que atenda da melhor maneira possível os desejos do coração. Mas o coração é enganoso, o prazer é ludibriante e a alegria (contentamento) é alienante. Nem sempre os caminhos mais fáceis levarão a um destino melhor. Completar bem a jornada pode significar e, muitas vezes, significa trilhar por caminhos tortuosos.

Não penso que o pregador – como é chamado o autor de Eclesiastes – esteja negando as vantagens inerentes à sempre levar vantagem na vida, em sempre poder optar pelo que, na lógica humana, se apresenta como a preferência mais natural. Ele apenas está querendo mostrar que há realidades na vida que só são perceptíveis por meio da desvantagem, do sofrimento, do luto. Esse é o tipo de afirmação que só se torna possível para quem já experimentou de tudo na vida para, no fim das contas, ser capaz de discernir caminhos produtores de sabedoria de outros caminhos que são loucura e pura vaidade.

De tão sábio, Deus parece um louco. As lógicas de deus, contrárias às abstrações da mente humana, limitada no tempo, no espaço e pelo pecado, são totalmente ilógicas pra quem só consegue ver as coisas através desse “eu” imerso no mar de expectativas da inumanidade global.


Jonathan

quarta-feira, 25 de junho de 2008

A excelência do amor

"Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria".

1Coríntios 13 é um belo hino do amor. É uma poesia produzida por Paulo, que fala dos atributos e adjetivos do amor, intimamente ligados, aqui, à natureza daquele que é Amor (Deus), e que nos impulsiona a também sermos amor com e por Ele, tendo este amor como o cerne mais profundo da nossa existência, “sendo” e existindo para amar a Deus e ao próximo.

O problema é quando este importante preceito, que é belo e poético, não consegue ser, para a vida cotidiana, para nossos relacionamentos, mais do que um simples hino-poesia que, se por um lado serve de inspiração e tema para momentos especiais, tais como casamentos, aniversários, festas de despedida e assim por diante, por outro lado em nós nenhuma crise ou incômodo cria, nem perplexidade ou inquietude promove. Isto, frente a constante realidade de que fomos “feitos” em amor, mas não “programados” para vivenciá-lo em todas as suas implicações, ou seja, para alçar este amor para além da poesia e do romantismo às relações tantas vezes complexas, quebradas e fatídicas do nosso dia-a-dia. Um amor, que desvenda até a nossa mais íntima fraqueza, pecados e fracassos, enquanto seres humanos, e que cobre multidões de pecados.

A igreja de Corinto fazia separação entre os dons “mais espirituais” e os “menos espirituais”, e, conseqüentemente, entre os crentes mais e menos “espirituais”. Paulo – na contramão do que até então se concebia na prática daquela igreja – vem ensinar que os “crentes espirituais” são aqueles que são do amor, e que exercem seus dons e talentos em amor, respeitando o outro, o diferente, compreendendo que o fluxo magnífico e sobremodo excelente da vida cristã não pode ser seguido sem uma atenta observância de tal preceito, e uma aplicação sincera do mesmo ao cotidiano e às formas de ser-no-mundo. Esta não é uma forma de espiritualidade baseada em quantos ou quais dons você possui, menos ou mais que seu irmão, mas que consiste em permanecer no amor de Deus, que transforma corações, cheios de dor e sequidão, em mananciais de ternura, paz e misericórdia e que há de nos moldar até que alcancemos o “vínculo da perfeição”.
Jonathan

terça-feira, 17 de junho de 2008

Nietzsche e o cristianismo (final)

A tese simples que defendi até aqui, como já ficou perceptível, é a de que Nietzsche decepcionou-se mais com a igreja que com Deus, ou decepcionou-se com Deus, mormente, por causa da religião cristã, isto é, em função da forma como essa lhe apresentou a divindade. Alguns queridos irmãos nem sequer parariam um instante para ouvir o que ele teve a dizer, posto que já condenaram esse filósofo na fogueira de suas inquisições. Para muitos, Nietzsche morreu louco e às suas palavras não se pode dar crédito algum.

A insanidade de Nietzsche foi real, como foram precoces alguns dos juízos “teológicos” que ele fez acerca de Cristo, de Paulo e da Palavra. A meu ver, em parte de sua obra, ele apresenta os argumentos equivocados, mas pelas razões certas. Basta lê-lo pra saber. Só que isso é o que menos fazem os cristãos, pois como foi dito, ele já está condenado, e ler Nietzsche também é visto como um ato herético por alguns. Todavia, nem a infantilidade e imprecisão de algumas concepções teológicas desse autor, muito menos sua suposta “loucura” nos outorga o direito de desprezar o que ele disse.

Afinal de contas, louco ou não, ele escreveu coisas muito sábias acerca das bestagens dos cristãos de seu tempo. Loucura, sabedoria; o que são, de fato, essas categorias? O que impede um Deus, que é visto como louco pelos “sábios” desse mundo, de amar e aceitar um filho perturbado, desorientado, mas que viveu à procura do caminho de retorno à casa do Pai, embora, acredito, ele mesmo nunca teria admitido isso em público? Podem até dizer que eu não entendi Nietzsche – aliás, essa é a frase mais repetida por seus “estudiosos”. Mas o fato é que Nietzsche não parece ter tido a pretensão de ser entendido. Ele era o paradoxo em pessoa, e, paradoxalmente, talvez essa tenha sido uma de suas principais virtudes.

Há uma oração, traduzida por Leonardo Boff no livro Tempo de Transcendência (2000), cuja autoria é supostamente atribuída a Nietzsche, já no fim de sua vida. Seu título é “Oração ao Deus desconhecido”, e me fez pensar naquele verso de Eclesiastes: “Deus pôs a eternidade no coração do homem sem que este saiba as obras que Deus fez do princípio até fim” (Ec 3.11), e com a qual quero terminar essa reflexão:

Antes de prosseguir em meu caminho e lançar o meu olhar para frente uma vez mais, elevo só, minhas mãos a Ti na direção de quem eu fujo. A Ti, das profundezas de meu coração, tenho dedicado altares festivos para que, em cada momento, Tua voz me pudesse chamar. Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras: “Ao Deus desconhecido”. Seu, sou eu, embora até o presente tenha me associado aos sacrílegos. Seu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo. Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servi-lo. Eu quero Te conhecer, desconhecido. Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida. Tu, o incompreensível, mas meu semelhante, quero Te conhecer, quero servir só a Ti.

Friedrich Nietzsche (1844-1900)
Jonathan

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Nietzsche e o cristianismo (III)

Terceira crítica: O cristianismo é inimigo do corpo, do humano e da vida

Uma das grandes vitórias do “Coisa-Ruim” em relação ao cristianismo está no fato dessa religião ser, em tese, a origem explicativa para a questão do prazer e, na prática, o meio mais eficaz de sua depreciação. Religião e prazer, nesse sentido, são antônimos, nunca se cruzam. No cristianismo, o corpo é apenas um instrumento imperfeito através do qual Deus quer que nossas almas elevadas sejam, por meio de muita abnegação, luta e auto-flagelação, levadas à perfeição cristã (John Wesley). Só que essa busca de perfeição, tantas vezes, é transformada em neurose de perfeição, de modo que o indivíduo vai sendo neuroticamente conduzido a uma vida de privações ao corpo, ao prazer (visto como maldição) e a ver as coisas naturais como profanas e rechaçáveis, dando valor apenas às coisas sobrenaturais.

Essa é uma outra questão crucial para a ruptura de Nietzsche com o cristianismo. Para ele, a religião da clemência, piedade, castigo, penitência, redenção, remissão de pecados, juízo final, etc., é um mundo de ficções. “Depois que o conceito ‘natureza’ foi inventado como contra-conceito para ‘Deus’, ‘natural’ tinha de ser a palavra para ‘reprovável’ – aquele inteiro mundo de ficções tem sua raiz no ódio contra o natural” (Nietzsche, 1978, p. 348). Mal sabia (porque mal havia sido informado pela igreja de seu tempo) que Deus não é inimigo do natural, mas criador e amante crônico de tudo o que é natural, a começar pelo ser humano. Afinal, Ele criou e com o propósito de amar. Como poderia Deus ser a antítese daquilo que foi formado à sua imagem e semelhança? O problema não está em Deus, que concedeu muitas coisas boas para que o homem delas gozasse, mas no próprio homem, cujo coração corrompido não soube utilizar com responsabilidade das dádivas proporcionadas por Deus, e no cristianismo, o qual, em função do mau-uso feito pelo homem, não apenas condenou os atos, como também as coisas em si (sexualidade, prazer, humanidade, natureza, etc.), que Deus havia declarado que eram “muitos boas” no Princípio.

Tudo isso, para Nietzsche, fez de Deus uma idéia a ser abolida, e do cristão, apenas um judeu de confissão ‘mais livre’ (Nietzsche, 1978, p. 355). Ele também critica essa tendência da igreja de seu tempo de açoitar, condenar, difamar e suspeitar de tudo o que fosse Humano, Demasiado Humano: “É fácil ver como os homens se tornam piores por qualificarem de mau o que é inevitavelmente natural e depois o sentirem sempre como tal. É artifício da religião, e dos metafísicos que querem o homem mau e pecador por natureza, suspeitar-lhe a natureza e assim torná-lo ele mesmo ruim: pois assim ele aprende a se perceber como ruim, já que não pode se despir do hábito da natureza” (Nietzsche, 2006, p. 102). A canção escrita por Moska e Zélia Duncan, Carne e Osso, pode ser vista como uma sugestiva crítica à matriz cristã de tratamento com tudo o que é matéria humana:

Alegria do pecado às vezes toma conta de mim. E é tão bom não ser divina. Me cobrir de humanidade me fascina e me aproxima do céu... E eu gosto de estar na terra cada vez mais. Minha boca se abre e espera o direito ainda que profano pro mundo ser sempre mais humano... Perfeição demais me agita os instintos. Quem se diz muito perfeito na certa encontrou um jeito, insosso! Pra não ser de carne e osso, pra não ser... Carne e Osso!

Esse jeito “insosso” é a meu ver o que muitos chamam de “santidade”. Mas quem disse que pra ser santo é preciso ser menos humano? O cristianismo, na certa. Agora, o direito de sermos sempre mais humanos não é profano, como diz a canção, e nem sagrado (do ponto de vista cristão), mas Divino ô cara pálida! Deus deseja que sejamos plenamente humanos, como foi seu Filho e nos cubramos de uma nova humanidade, não nova angelicalidade.
Continua...

Jonathan

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Nietzsche e o cristianismo (II)

Segunda crítica: O cristianismo fala de amor, mas gera a imagem de um Deus algoz e sádico
O remédio do cristianismo para os males da humanidade é apontar a imagem de um Deus que é amor, consolo, abrigo. Mas, ao mesmo tempo, para que a coisa não seja assim tão gratuita, tão fácil, e para que haja a necessidade da religião, do re-ligare, ele precisa nutrir e propagar a existência da doença como mal moral inerente ao homem. Nesse sentido, o homem jamais se livrará do corpo desta morte e de suas intermináveis culpas escravizantes a menos que se renda ao remédio curador do cristianismo, expresso nos sacramentos, nos ritos, nas penitências e disciplinas. Como diz Nietzsche, “o cristianismo nasceu para aliviar o coração, mas agora deve primeiro oprimi-lo, para mais adiante poder aliviá-lo” (2006, p. 90).
Isso me faz lembrar do binômio prêmio-castigo, castigo-prêmio que se via na relação dos senhores de engenho com seus vassalos no período de escravidão negra no Brasil (séc. XVIII). Para não perder seu escravo, o Senhor devia dar alguns mimos e presentes de vez em quando para deixá-lo contente; por outro lado, se abrisse muito a guarda, o escravo poderia afrouxar na obediência; logo, o castigo também se fazia necessário a fim de que o escravo soubesse qual era o seu devido lugar, respeitando a autoridade do senhor. Na religião, a dinâmica é semelhante, mais do que pensamos. A violência e o abuso são simbólicos, quase imperceptíveis, mas tão danosos quanto os atentados ao físico, porque machuca a alma, o interior, e leva, muitas vezes, a uma viagem sem volta rumo à cela da angústia, depressão, loucura; ou a uma profunda decepção geradora de rupturas com a igreja e com o Deus que ela serve.

Vejo, mesmo que de longe, Nietzsche muito mais como um a-igrejeu, que, como corolário, tornou-se a-teu. O Deus que ele rejeita e até “mata” não é o Deus vivo, mas o Deus que já nasceu morto, das mortíferas consciências e corações dos fariseus modernos. É o Deus da lei, da ira, do castigo, do juízo e da condenação. É o Deus-produto das mentes humanas mórbidas e achatadas pela idéia de justiça contra a maldade que lhe é própria e contra tudo o que sua consciência afetada transforma em maldade, até as coisas bonitas, dádivas de Deus, mas que justiça alguma, a não ser a justiça graciosa do Filho de Deus, poderia redimir. Esse Deus tinha que morrer mesmo. Nietzsche declara sua percepção da seguinte forma:

Deus; é porque olha nesse espelho claro que o seu ser lhe parece tão turvo, tão incomumente deformado. Depois o angustia o pensamento do mesmo ser, na medida em que este paira ante sua imaginação como a justiça punidora: em todas as vivências possíveis, grandes ou pequenas, acredita reconhecer a cólera e as ameaças dele, e mesmo pressentir os golpes de açoite de seu juiz e carrasco. Quem o ajudará nesse perigo, que, em vista de uma duração imensurável da pena, supera em atrocidade todos os outros terrores da imaginação? (Nietzsche, 2006, p. 94).

Logo, se essa idéia de Deus é geradora das mais cruéis e contraditórias mitigações da alma humana, a conclusão mais lógica para Nietzsche foi: “Acabando a idéia de Deus, acaba também o sentimento do ‘pecado’, da violação de preceitos divinos, da mácula numa criatura consagrada a Deus” (2006, p. 96). Não temos como simplesmente julgar a falta de “discernimento espiritual” de Nietzsche (como se soubéssemos de fato o que é isso) e fechar os olhos para a plausibilidade da questão. A maneira como concebemos, entendemos e nos relacionamos com Deus; as idéias e imagens que forjamos e apresentamos aos outros acerca Dele, serão determinantes para a maneira como elas o receberão, seja com gratidão e alegria, com tristeza, medo e decepção, ou com adagas a fim de apunhalar e “matar” Deus, extirpando-o de vez de suas vidas.

É triste, mas boa parte de nossa teologia ainda hoje é marcada por um quinhão apocalíptico e tenebroso, que faz com que as pessoas se sintam como “pecadores nas mãos de um Deus irado”, como é o título do célebre e lastimável sermão de meu “chará” Jonathan Edwards. Ele conclui esse sermão do modo mais ameaçador possível: “Portanto, todo aquele que está fora de Cristo agora se desperte e fuja da ira futura. A ira do Deus Todo-poderoso está pendendo agora indubitavelmente sobre grande parte desta congregação. Que todos fujam de Sodoma” (Edwards, 2005, p. 51). Diga-se de passagem, o terror e o maniqueísmo que se vê nessa pregação de Edwards se tornaram marcas indeléveis da prédica protestante que chega ao Brasil e se propaga em nosso contexto até hoje.

Continua...

Jonathan

terça-feira, 10 de junho de 2008

Nietzsche e o cristianismo (I)

Inicio hoje uma série de quatro posts sobre a crítica de Nietzsche ao cristianismo. Minha intenção aqui é buscar esses indícios dessa crítica em suas considerações sobre a religião e vida religiosa nas obras “Humano Demasiado Humano” e “O Anticristo”.

Primeira crítica: O cristianismo é a religião do Dogma e o desastre do homem

Um dos problemas centrais no pensamento de Nietzcshe diz respeito à verdade. O que é a verdade? De onde ela provém? A esse respeito, ele escreveu um ensaio em 1873, que denominou “Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral”. Isto, pois, a “verdade” proclamada ainda em seu tempo era a verdade da metafísica (no campo das ciências naturais e do espírito) e a verdade moral (pelo cristianismo). Se a verdade não está nem na metafísica e nem na moral cristã, onde está ou em quem? Para Nietzsche, a verdade pode ser vista como:

Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismo, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, aparecem a um povo sólidas, canônicas, obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas (Nietzsche, 1978, p. 49).

A verdade, da filosofia, do cristianismo, para ele, jamais poderia ser conhecida como Verdade, porque sempre é fruto de uma compreensão ou olhares parciais, de uma transformação de Deus pelo homem e no homem (antropomorfismo), das palavras pelo homem, sempre imaginando que com essa manipulação possa representar as coisas tais como são. Mas não. O que se produz não passa de metáfora (semelhança ou reflexo da coisa) ou metonímia (outra palavra para a coisa), mas nunca a coisa em si. Assim, dogmas não são verdades de Deus, embora se lhes atribuam tal valor; o cristão, por mais que conheça a Jesus (caminho, verdade e vida) jamais poderá exprimir absolutamente essa verdade nas coisas que cria (dogmas, estruturas, instituições). Logo, a religião fala muito mais da forma humana que da forma de Deus. Por que será que Jesus não respondeu a Pilatos a tão crucial pergunta: “O que é a verdade”? Porque ele sabia que dar forma verbal à verdade, criando uma filosofia ou ideologia, seria o mesmo que matar a própria verdade. Diria tudo, menos “a verdade”.

Assim, ele aponta para si como sendo o Logos, o Verbo de Deus, a Verdade Encarnada, Vivida, Visceralmente experimentada. A verdade, conforme Jesus, não se conhece (cognitivamente), nem se representa ou se expressa (dogmaticamente), mas se experimenta, se vive e pronto. A verdade que Nietzsche critica é essa que afasta o próprio homem do caminho da verdade, embora nem o filósofo soubesse apontar “um caminho” sequer, mas sempre a via do paradoxo, do trágico, da idiossincrasia das "verdades" humanas: capengas, irreais, ilusórias. A verdade é experimentada por ele como contradição e antítese dos caminhos do dogmatismo. Era difícil para quem se auto-intitulava “espírito livre” ser comandado pelas mordaças da verdade dogmática, aceitando passivamente o “julgamento”. Seu livro, O Anticristo, deve ser lido como o anticristo do cristão. Contra esses, ele afirma: “Ao fazerem Deus julgar, julgam eles próprios; ao glorificarem a Deus, glorificam a si próprios, ao exigirem precisamente as virtudes para as quais são aptos (...) na verdade fazem o que não podem deixar de fazer”, porque isso se constitui como mandamento, dever, ordem, obrigatoriedade".

O grande combate de Nietzsche em Humano, Demasiado Humano, por exemplo, não é a religiosidade em si, como categoria inata ao ser humano, mas a religião e seus dogmas que, ao apresentar-se como verdade, aprisionam o ser humano e matam a liberdade de expressar suas emoções ao indizível, em dar vazão às pulsões de incompletude que procedem do interior e não se completam com meras ritualidades do exterior. Nas palavras do filósofo, “nisto se percebe que os espíritos livres menos ponderados se chocam apenas com os dogmas, na realidade, e conhecem bem o encanto do sentimento religioso; é doloroso para eles perder este por causa daqueles” (2006, p. 93).

Jonathan

sexta-feira, 6 de junho de 2008

O que é ser santo?

Ser santo é buscar ser essencialmente humano, ser parte da história porém vivendo a presença de Deus no mundo (Lc. 7.39). Ser santo tem relação com a busca de uma sociedade sem desigualdades e onde os mais fracos jamais sejam despojados (Mt. 23.14). Ser santo éviver a alegria do conhecimento de Deus com oração e fé e é sofrer as angústias da história como resultado de nossos vínculos com um padrão que o mundo não conhece (Mt. 11.25-27; 5.11-12).

Ser santo é ser separado, não dos pagãos; como Israel equivocadamente tentou, mas é viver a diferença radical dos valores do Reino em meio às sociedades pagãs (Mt. 5.43-48). Ser santo é ter na paixão dos profetas a motivação existencial para o nosso enfrentamento histórico do mal (Lc. 13.33). Ser santo é, mesmo em dia de sábado, trabalhar a favor da santidade de vida (Lc. 14. 1-6). Ser santo é colocar o valor da vida acima do valor das coisas, mesmo aquelas mais "sagradas" (Mt. 23.23). Ser santo é entender que o altar diante do qual Deus nos quer ver prostrados não é apenas o altar do templo, mas também os altares ensangüentados dos corpos dos nossos irmãos de história e que estão caídos nas esquinas da vida (Lc. 10.25-37).

Ser santo é viver a misericórdia no agitado ambiente secular, ao invés de viver a quietude alienada do ambiente religioso que não tem janelas para a história da dor humana (Mt. 9.9-13). Ser santo é acreditar que a santidade não se polui quando toca com amor, aquilo que é sujo (Mt. 8.1-4; Mc. 7.1-23). Ser santo é não temer ser mal interpretado pela mente daqueles que estão sujos de pretensa santidade.(Mc.7.5;Lc.7.39). Para Jesus ser santo é ser verdadeiro para com a nossa condição humana: é ter a coragem de chorar em público (Jo. 11.35), de admitir perdas e saudade (Jo. 11.36), de gritar de dor (Mt. 27.50), de confessar depressão (Mt. 26.38), de pedir ajuda emocional(Mc. 27.50), de se confessar cansado (Jo. 4.6), de dizer tenho sede (Jo. 19.28), de confessar dificuldades familiares (Mc. 3.21;Jo. 7.1-9), de admitir que a privacidade é um direito e uma necessidade de sobrevivência (Mc. 6.30-32,45,46).

Ser santo é admitir que o amor pode ser exercido na perspectiva da disciplina física (Mc. 11.15-19) e que o "desabafo" é um sadio escape quando se está farto de estupidez (Lc. 11.31-32). Ser santo é continuar sendo de Deus mesmo em meio ao mais profundo e inexplicável silêncio divino (Mt. 27.46).

Caio Fábio
Trechos do livro Oração para Viver e Morrer.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

A Transgressão de Deus

Embora não seja algo simples, penso que deve ser uma tarefa constante essa de repensar nossa forma de entender Deus e se relacionar com Ele. Diferentes expectativas, imagens e projeções estão em jogo quando falamos, oramos, balbuciamos, escrevemos... “Deus”. Quem é? Como se revela e como se relaciona com a gente?

Geralmente, esse montante de expectativas insurge, como corolário, acompanhado de uma série promessas, visões e perspectivas de quem Deus é. Dependendo das circunstâncias e variáveis existenciais, ele é cotado como X, como Y ou como Z; ainda que X, Y e Z não entrem em contradição entre si, é impressionante como assumem cores absolutas e tons definitivos assim que surgem. Isso significa que, consciente ou inconscientemente, ávidos por definições que somos, queremos pôr Deus dentro de caixas, que comportem exatamente o tamanho de nossas ingênuas, e às vezes tão eqüidistantes biblicamente falando, projeções sobre Deus, como se Ele coubesse mesmo nelas.

Conceitos são sempre visões limitantes e parciais sobre algo. São “igualações do não-igual”, parafraseando Nietzsche; ou seja, o que se quer dizer é que todo conceito nasce da identificação do não idêntico, posto que jamais nos encontramos com a essência do que é-em-si-mesmo. Deus não é conceito, nem cabe num conceito. Ele transgride todas as normas e desvia dos julgamentos. Sou levado a pensar em Deus como infinito transgressor, porque ele não se “encaixa”; e digo isso não pela pretensão de “encaixá-lo” de modo mais sutil, mas precisamente pela impossibilidade de fazê-lo, interditado pela própria linguagem – finita, parcial, cambiante.

Deus é transgressor! E a maior de todas as suas transgressões parece mesmo ter sido o fato de ter escolhido viver como, amar e morrer para que seres como você e eu pudéssemos ter vida e sentido existencial. Deus transgrediu sobre si mesmo por causa de nossas muitas e incontáveis “transgressões”. Quer transgressão maior que essa?

Jonathan